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PORTUGAL
“ANTIGO E MODERNO
| OITAVO VOLUME
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PORTUGAL
ANTIGO E MODERNO
DICCIONARIO
Geographico, Estatistico, Chorographico, Heraldico,
Archeologico,
Historico, Biographico e Etymologico
DE TODAS AS CIDADES, VILLAS E FREGUBZIAS DE PORTUGAL,
DE GRANDE NUMERO DE ALDEIAS
Se estas são notaveis, por serem patria de homens celebres,
por batalhas ou outros factos importantes que n'ellas tiveram logar,
por serem solares de familias nobres,
ou por monumentos de qualquer natureza, alli existentes
NOTICIA DE MUITAS CIDADES E OUTRAS POVOAÇÕES DA LUSITANIA
DE QUE APENAS RESTAM VESTÍGIOS OU SOMENTE A TRADIÇÃO
POR
Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal
LISBOA
LivrarIiA Ebirora DE Marrtros MorEIRA & (COMPANHIA
67 —Praça de D. Pedro — 67
1878
A propriedade d'este DICCIONARIO, pertence a Henrique de Araujo»
Godinho Tavares, subdito brazileiro.
313—Typ. Editora, Rocio, 671878
THE GETTY CENTER
LIBRARY
PORTUGAL ANTIGO E MODERNO
es
QUA
Q—como letra numeral, valia antigamente
500, e com um til, valia 500 000.
QABEÇA— purtuguez antige—cabêço, col-
lina, côtto, monte isolado, sobre uma serra
ou campina. :
“QAMPA—portuguez antigo—(tambem se
escrevia quampaa, quampam, quampa, e
quampaa)—campana, sineta, campaluha.
QUA ou CA— portuguez antigo—porque.
QUADRA — freguezia, Traz-os Montes, na
eomarca e concelho de Vinhaes, 85 kilgme-
tros de Miranda, 480 ao N. de Lisboa, 30
fogos, em 1757 tinha 24. ,
Orago S. Pedro.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
O reitor de Santo André de Tiozéllo (ou
Tuizélio) apresentava o cura, que tinha réis,
82000 de congrua e o pé d'altar.
“Esta freguezia está, ha muitos annns, uni-
da à de Tiozéllo, no mesmo concelho.
QUADRAR — portuguez antigo—pertencer,
competir. |
QUADRATOS— vide Regnaço.
QUADRAZAES — freguezia, Beira Baixa,
proxima do rio Côa e da raia hespanhola,
na comarca e concelho do Sabugal, 420 ki-
lometros ao SE. de Lamego, 300 ao E. de!
Lisboa, 350 fogos, em 4757 tinha 190.
Orago Nossa Senhora d'Assumpção.
Foi antigamente do bispado de Lamego,
"“ VoLUME vi
QUA
e hoje é do de Pinh. |, districto administra-
tivo da Guarda.
O papa e 0 bispo apresentavam alternati-
vamente o abbade, que tinha 1508000 réis
de rendim-nto, além do pé d'altar.
Os quadrazênhos são muito turbulentos, é
quasi todos vivem de contrabandear ; acon-
| tecendo muitas vezes resistirem aos malsins,
dando-lhes fogo, matando-os ou ferindo os;
e até mesmo à tropa de linha que vae em
soccorro, dos empregados da alfandega.
O seu clima é excessivo, por isso pouco
fertil.
QUADRELLA — portuguez antigo — era
uma secção ou; quadrilha de 20 homens,
destinades a qualquer serviço. Tambem se
dizia vintena.
Dizia-se aquadrellar, o acto de pôr em
turmas ou quadrellas de 20, tanto com res-
peito a pessoas como a cousas.
Tambem se dava o nome de quadrella ao
-casal ou courella
Quadrella da muralha era a porção desi-
gnada para ser vigiada e d:fendida por pes-
soas de uma determinada localidade, em oc-
casião de guerra.
QUAER—portuguez antigo—cahir, incor-
rer em qualquer pena, ficar responsavel.
E por nom quaer nas peeas e nas maldiçõens.
(Doe. do mosteiro d'Alpendurada, de 1289).
QUAIRES— antigo nome da actual fregue-
]
LO) QUA
zia de Caires, no concelho d'Amares. (Vol.
2.º, pag. 35).
QUAMANHO — portuguez antigo — qual,
quanto, quão grande. Foi termo muito usa-
do até ao seculo XIV. Vem do latim quam
magnus, que 08 portuguezes, procapeiaa
quam mânhos.
da provincia do Douro, no concelho de Fel-
gueiras (entre Amarante e Pombeiro) e na
freguezia hoje chamada Caramôs, que é uma
variante de Quadramollos, e corrupção de
Cara aos mouros. (Vide Caramól e Caramós,
a pag. 100 do 2.º volume). .
QUAREIRA—portuguez antigo—carreira,
caminho onde não cabe mais do que um
carro.
QUARQUERE ou CARQUERE — Já a pag.
116, col. 1.º, do 2.º volume, tratei d'esta fre-
guezia; mas, como depois d'isso pude obter
mais informações com respeito a ella, e das
quaes não quero tia 0s leitores, dou-as
n'este logar.
Segundo o Sant. Me tomo 3.º, pag. 147 |.
e seguintes, a egreja e mosteiro de Quarquere
(como antigamente se escrevia, é muitos ainda
hoje escrevem) foram principiados em 1099,
quando D. Affonso Henriques tinha 5 annos.
de idade, que foi quando a Senhora fez o
milagre. Diz 0 auctor d'este livro que 0 in-
fante nasceu em 1094; “mas engana-se: elle
nasceu em Guimarães, a 25 de julho de 1109,
'e, se tinha 5 annos quando se deu principio
à obra, foi em 1114; porém parece mais pro
vavel tersido fundado o mosteiro por D. Af-
fonso Henriques, pelos annos de 1129, como
adiante se vérá.
A egreja dó mosteiro foi elevada a matriz
da freguezia, e os religiosos, passados alguns
annos, abandonaram o' convento, não se sa-
be porque motivo, passando depois a com-
-mendatarios; sendo O primeiro e ultimo, D.
“Ambrosio, bispo de Lamego, por morte do,
“qual, diz ainda o auctor do-Sant. Marianno,
o deu D. João II, em 15647 ao collegio dos
-jesuitas de' Coimbra: É outro engano > D.
-João «IH falléceu em Lisboa;'a 44 de junho
de 1557, e em 15614, quem governava o'rei-
-Do era à rainha viuva, D. Catharina, na me-
noridade de seu neto, o rei D. Sebastião; en-
QUA
tregando a regencia a seu cunhado, o car-
deal D. Henrique, em 1562. Foi pois o rei
D. Sebastião que deu isto aos jesuitas, em
1570, como fica dito quando tratei d'esta fre-
din sob o nome de Cárquere.
“Quanto ao apparecimento da imagem de
Nóia “Senhora de Cárquere, descreve 0,
QUADRAMOLLOS-—mosteiro mui notavel
com mais visos de verdade, o padre-mestre,
frei Agostinho da Costa, religioso eremita
de Santo Agostinho (graciano) lente de mo-
ral no seu mosteiro de Lamego, pela fórma
seguinte :
Muitos annos depois de expulsos os mou-
ros d'estes sitios, andando uns rapazes a ati-
Far pedras a alguns castanheiros, para faze -
rem cahir as castanhas, um d'estes, que era
muito velho, bojudo e ôco, quando as pe-
dras lhe cahiam na concavidade, dava som
como de sino. Foram dizer isto aos paes, que
logo correram ao sitio, e trataram de arran-
car o castanheiro, na: esperança de desco-
brirem n'elleo algum thesouro. Acharam com
effeito um sino-do pezo de 7 ou, 8 quintaes
(que depois serviu para à egreja) uma-ima-
gem da Santissima Virgem, feita de madei-
ra, uma cruz de prata lavrada, de 1,33 de
altura, que depois serviu para ir nas pro-
cissões; uma caixa com reliquias, do Samto
Lenho, de S. Braz, e de outros santos, túdias
separadas umas das óutras, com as indica-
'ções competentes; e, finalmente, acharam
um pergaminho que declarava que estas ro-
liquias tinham sido alli escondidas, no animo
em que os mouros invadiram esta terra.
O povo edificou logo uma capella para, a
Senhora, a cuja imagem entrou logo a con-
sagrar uma grande devoção. |
Como D. Affonso Henriques nascera altei-
jado, com os calcanhares pegados aos assen-
tos, Egas Mouiz-o levou ao altar da Senhora,
collocando-o sobre elle, em quanto um padire
dizia missa, finda a qual o meninose achou
são e escorreito. Depois de rei, e lembrado
do que devia a Nossa Senhora, fundow a
egreja e mosteiro de cruzios, de Cárquere,
fazendo o prior d'elle donatario da villa,, e
F
1 Segundo outros escriptores, a imageem
foi levada para uma capella proxima, da iin-
vocação de Santa Cruz.
E 23 a a
QUA
dando ao convento muitas rendas e privi-
legios.
“Os frades vieram povoar o mosteiro, no
dia 24 de fevereiro de 11314, recebendo o ha-
bito, D. Tello, com 12 companheiros, das
mãos do bispo de Coimbra, D. Bernardo,
(que m'esse tempo governava tambem os
bispados de Lamego e Viseu).
Já em 1700 não havia do edifício do mos-
teiro senão o claustro, bastante arruinado,
e a casa do capitulo, que era de abobada de
pedra, obra mosaica, e dentro d'ella uma ca-
pellinha dos senhores (depois condes) de
Rézende, que nella mandavam dizer uma
missa quotidiana.
A egreja matriz de Cárquere, de archite-
ctura gothica, está collocada em um sitio
muito aprazivel, e mostra grande antiguida-
de. Junto à egreja ainda existe um hospicio
que foi dos jesuitas.
No dia da festa da Senhora (4.º domingo
de maio) vem aqui 14 procissões de diffe-
rentes freguezias, e grande concurso de po-
vo, formando um formoso arraial, onde as
lavradeiras ostentam as suas galas pitto-
rescas.
Aqui vae outra versão, que, a alguns res-
peitos, varia completamente das anteceden-
tes. A senhora que a apresenta é destes si-
tios e supponho-a bem informada; e o vd lá
diz é verosimil.
A sr.* D. Maria do Pilar Bandeira Montei-
ro Osorio, diz no seu romance Lagrimas e
saudades, pag. 99, que «a egreja. de Car- |
«quere é tão antiga que se lhe ignora a data
«da fundação: apenas se sabe, pelas inscri-
«pções gravadas nas paredes, e que hoje mal
«se podem decifrar, pelo muito que estão
«gorroidas e gastas, e pela tradição, que foi
«templo de Diana, no tempo dos romanos, e |
«mesquita durante a dominação sarracena :
QUA g
stão ficou apresentando o parocho, a quem
«dava alguns benesses, e fazendo as despezas
«do culto.
«A egreja é de construeção solida e pesa-
«da, e os seus dourados é lavores em ma-
«deira, são ricos.
«Da parte do Evangelho, tem um altar,
-sde architectura gothica, e n'elle à sepultu-
«ra de um bispo, cujo corpo se vê esculpi-
«do sobre a pedra que serve de meza ao al-
«tar. Este bispo e o altar, eram da casa da
«Bebinha, cujo appellido era Calvos.
«Do mesmo lado fica o claustro, e ao lado
«deste, a capella chamada dos Almirantes,
«que pertence aos condes de Rézende. Nºes-
«ta capella, que ha muitos annos está des-
«moronada, vêem-se quatro iumulos de pe-
«dra tosca, inteiriços, e inteiriças são tam-
«bem as tampas que os cobrem. Na parede
«fronteira a elles, estão os epitaphios, que,
«por gastos, difficilmente se léem.
«Do outro lado da egreja, estã a casa cha-
«mada da Alamosa. É uma casa terrea, que
«servia de deposito aos finados da Alamosa; !
«que eram alli enterrados; porque, ainda
«que aquella povoação (hoje fi eguezia) es-
«tava a mais de 40 leguas de distancia da
«egreja de Carquere, era freguezia d'esta
«egreja, e os seus mortos alli recabiam se-
«puliura.» Vide Rézende.
QUARTEIRA —aldcia, Algarve, pertencen-
do parte d'ella à fregu-zia de Loulé, d'onde
dista 6 kilometros au O., e outra parte á de
Boliqueime, cuja egreja matriz fica a 3 ki-
lometros de distancia, comarca e concelho
de Loulé. Bispado do Algarve, districto ad-
ministrativo de Faro.
Está situada na costa, e é na sua quasi
totalidade composta de pescadores.
Foi antigamente uma povoação importan-
| tissima, pelo seu grande commercio, mari-
«depois, convento de monges negros, ou de | nhas de sal, e pescarias: e até muitos escri-
«S. Bento, e por troca feita com os jesuitas, | ptores asseveram que foi aqui a famosa ci-
«estabeleceram estes alli um hospicio, do | dade de Carteia? fundada pelos annos. do
«qual curavam a freguezia, recebendo alli |
«muitas rendas, que tinham por aquelles
asitios.
1 Aliás Lamosa, no concelho de Sernan-
célhe (ou Cernancêlhe), comarca de Mois
: avtin. | menta da Beira.
«Quando a companhia de Jesus foi em: | 2 Estou convencido, em vista de tantas
«cla, passou a egreja, com os foros não re- Carteias e Citanias, que vejo mencionadas
«midos, para a universidade, que desde en- | pelos antigos geographos e historiadores,
8 QUA
mundo 3500 (50% antes de Jesus Chriso)
pelos túrdulos ou pelos cúneos.
Esta Carteia foi invadida pelo mar, que
actualmente oceupa a maior parte do terre-
no em que estava fundada. O terremoto do
4.º de novembro de 1755, acabou de destruir
o resto; e os seus habitantes, que escaparam
a este medonho cataclysmo, foram construir
as suas pobres cabanas de junco, à uns 300
metros do cast-llo velho.
Depois foram se edificando algumas casas
de pedra; +, além da magnifica casa dos
morgudos du Quarteira (Loulés) já tem al-
guns edficios soffriveis, e os banhistas que
aqui concorre no tempo proprio, teem feito
prosperar bastante esta povoação.
Junto da praia, mas dentro do mar, ha
vestigios de autiguidades; são construcções
feitas com a cel bre argamassa de que falla
Plinio (Hist Nut., liv. 30, cap. 14) e talvez
que a torre hoje chamada da Vigia, seja a
famosa torre que defendia a velha cida te.
"0 Oceano, no dia 1º de novembro de 1755,
entrou pela terra dentro 3 kilometros, ma-
tando 52 pessoas de ambos os s-xos.
Corre por aqui a ribeira du Quarteira, 1
formada p-los rb-iros de Tôr, Salir, Que-
rença, Mercês e wutros, o que faz a u Tra fer-
tilissima. É atravessada por uma boa ponte
de p-dra, na es rada de Albufeira para Fa-
ro. É de antiquissima construeção. Em uma
das suas paredes está uma figueira, tambem
muito antiga, que dá tigos »specialissimos.
Pouco abaixo d'esta pon'e, DO sitio do
Juncal, nascem trez olhos d'agua, de grande
profuudidade, chamados Mexugueira, Ulmo
e Roballo.
Diz-se que o gado que cae em qualquer
destes olhos, s* afloga imimediatamente.
O distincto medico, o sr. Augusto Feio
Soares de Azevedo, natural de Coimbra, e
que se dava n'esses témpos remotos o nome
generico d” Caríeia. a povoação ou f.rtaleza
situada no litoral; e d- Citania, à que estava
no interior. (Vide vol. 2.º, pag. 192, cul. 4.º
no principio).
t O rio Quarteira nasce na serra do Cal-
deirão, e murre no mar, formando na sua
embocadura o peju-no Porto da Quarteira,
pouco distante de Silves. Vide Berlengas,
Carteia, Citania e Peniche.
Coe «ee CS 00 DEDE ES SSD DO DSO O Dr a
QUA
residente em Lagos, pediu, em junho de
1876. licença ao governo, para explorar as
ostreiras naturaes que existem entre a Quar-
teira e o Cabo de Santa Maria.
A Quarteira tinha foral velho, dado pelo
rei D. Diniz, em Alcobaça, a 15 de novem-
bro de 1297. (Livro IV de Doações do rei
D. Diniz, fl. 6, v., col. 1.º, in fine).
Casa vinculada da Quarteira
O rei D. Diniz deu os terrenos que con-
stituem o actual morgado da Quarteira, em
15 de novembro de 1297, e por aforamento
(é o foral) a Martim Marchão (ou Merchão),
com a obrigação de os povoar com eincoenta
moradores.
Estas terras são fertilissimas, e os melões
e melancias d'aqui, são de qualidade espe-
cial.
D. João I, mandou fazer n'estas terras os
primeiros ensaios da plantação da canna de
a«sucar.
Esta vastissima propriedade fica a 3 kilo-
m-tros 40 O. da povoação.
D. Affonso Y deu a Nuno Barreto, mor-
gado da Quarteira, por alvará de 3 de feve-
reiro de 1460, os direitos reaes do Porto da
Quarteira.
No t: mpo das almadravas, se lançou n"es-
te sitio, uma do atum, que deu grande re-
sultado.
D. Nuno José Severo de Mendonça Rolim
de Moura Barreto, foi 4.º duque e 2.º mar-
qu-z d'“L-ulé, 9º conde de Vall» de Reis,
924.º «entior da Azambuja, 12.º senhor da Pó-
voa e M-gdas, é 14.º senhor do morgado da
Quarteira. (Vide Loulé e Póvoa e Meadass).
Cada cabana que se constru» na Quartei-
ra, paga de fôro ao morgado, 120 réis; & se
fôr casa de p-dra, p ga 800 réis.
O sr. Augusto P-dro d: Mendonça Rolim
de Mura Barreto, feito conde da Azambuja
(de juro e herdade) em 3 de abril de 1860,
é o 25.º senhor da Azambuja, e 15.º senhor
do Quarteira.
(Vid+ 7.º volume, pag. 497, col. 2.º-—Pa-
lacio do Ferreirinha).
A' propriedads da Quarteira, que já era
uma das melhores da casa Louké, tem expe-
QUA
rimentado grandes melhoramentos desde que
está em poder do actual possuidor; o qual,
com a gr.? condessa ! vão alli passar algu-
mas temporadas, no verão, conquistando pe-
las suás optimas qualidades, o amor dos seus
numerosos caseiros, e o respeito e sympa-
thia de todas as outras pessoas que são ad-
mittidas à sua presença.
No sitio chamado Valle de Judio, proximo
da Quarteira, estã, em uma bonita veiga,
povoada de figueiras, amendoeiras e alfar-
robeiras, a capella de Nossa Senhora do Bom
Successo, construida em 1693, por iniciati-
va do beneficiado e thesoureiro da egreja
matriz de S. Clemente, da villa de Loulé, o
padre Diogo Fernandes Rasquinho.
A Senhora do Bom Successo é objecto de
grande devoção dos povos destes sitios.
QUARTEIS MILITARES — vide 4.º volu-
me, pag. 485, col 2.º
QUARTO DE CRUZADO —moeda de ouro,
do tamanho de um vintem em prata, e com
o valor de 100 réis. Foi mandada cunhar
pelo rei D. Manuel, e trazia sempre na bol-
sa grande quantidade d'estes quartos, para
dar esmolas aos pobres.
QUASA — portuguez antigo — casa. E des
hy a suso, como se vay dá quasa da Visiboha,
e comoho vay dá carreira do Sabugal. (Doc.
do mosteiro de Tarouca, de 1278).
QUASAL—portuguez antigo—casal. (Doc.
de Tarouca, de 1424). .
QUATRO IRMÃOS — logar muito agrada-
vel e pittoresco, Minho, nas faldas da serra
da Falpérra, na estrada de Guimarães para
Braga.
Deu-se o nome de Quatro irmãos, a qua-
tro penedos que parecem tampas de sepul-
tura. Segundo a tradicão, quatro irmãos,
d'estes sitios, filhos de Maria &o Canto, ama-
vam uma formosa menina, sobrinha do ab-
bade da freguezia. Ardendo em amor e ciu-
me, os quatro irmãos reptaram-se para n'es-
1 A sr. condessa da Azambuja, é filha do
falecido Antonio Bernardo Ferreira (o Fer-
reirinha da Régua) e da sr.* D. Antonia Ade-
laide Ferreira, hoje casada com o sr. Torres;
e irman do sr. Antonio Bernardo Ferreira (o
Ferreirinha) residente no Porto.
QUE 9
te logar decidirem à paulada, quem havia
de casar com a rapariga. Trez ficsram loga
mortos no campo, e o quarto, que ainda vie
veu algumas horas, é que coutou tudo ao
abbade, que os mandou enterrar no sitio da
contenda, que se ficou denominandu os Qua-
tro irmãos.
QUATRO VINTENS —moeda de prata qu:
| fez cunhar D. João TIL, e, depois, D. Phulippel,
com o valor de 80 réis. D Aptonio, prior do
Crato, acelamado pelo povo rei de Portu-
gal, fez tambem cunhar d'estas moedas, e de
cobre, do mesmo valor. As de prata, porém,
eram mais pequenas do que as anteceden-
tes,
QUEBRADA —portuguez antigo—enscada,
pequeno golfo de abrigo para embarcações
miudas. «Nom possam sser tomados em tos
dolos portos e abras e quebradas e ancora-
çooens de cada huum dus ditos R-gnos é
Senhorios.» (Côrtes de Lisboa, de 1380. —
Doe. da camara do Porto).
Tambem se dava antigamente o nome de
quebrada. à terra de pouco valor, ou a um
casal insignificante. É por isso que ainda ha
pelo reino bastantes aldeias com o nume de
Quebrada. 1
Á soldada que se pagava em pão, e que
constava de dois pães pur dia, se dava tam-
bem o nome de quebrada.
QUEBRAR — portuguez antigo — cobrar,
alcançar, adquirir, receber, reivindicar, etc.
QUEBRAR MOEDA ou APAGAR MOEDA
— cunhar moeda do mesmo nome e valor,
mas d» menos pezo. Vide Moeda.
QUEBRANTÕES —aldeia e monte, Douro,
na freguezia de S. Christovão de Mafamude,
concelho de Gaia, comarca do Porto.
1 Mas só tinha o nome de quebrada, a
propriedade de muito declive e pendurada
sobre profundos valles, sobre rios, cu sobre
o mar, e que era invadida pelas aguas.—
Anmossa quebrada, que trouve Ghurgo (Jorge)
Velho... que amoredes per vossas pessoas,
que fumegue (que a habiteix, cosinhando nºel-
la). —Huum maravidi por dous congros que 0
dito Moesteiro avia de aver da dita quebrada,
(Doe: do mosteiro d'Alpendurada, d- 1418)
—E que ponha no dito casal e quebrada, hua
mea duzea de huliveiras, (Doc. do convento
de Bustéllo, proximo a Penafiel, de 1482.)
0 QUE
Bispado e districio administrativo do
Porto.
O primeiro nome d'este monte foi o de
S. Nicclau, d-puis, de Quebrantões, e hoje
| para a ermida e principiou a ter logo om
|
QUE
esta santa imagem, grande devoção 0 povo
destes sitios.
D. Pedro Rabaldes, quiz aqui fundar im
se chama S rra do Pilar. (Vide Gaia, Pilar, ; mosteiro de freiras, e como elle tinha sdo
e 7.º volume, pag. 508, col. 2.2, no fim, e pag.
h144, col. 2.2).
É em Quebrantões a quinta que foi de An-
tonio Teixeira Cabral, capitão mór de Villa
Real de Traz-us-Muntes, descendente de uma.
das mais nobres familias da provincia, e val-
garmente Antonio Teixeira, de Mondrões, por
ter n'esta freguezia uma grande casa. (Vide
Mondrões).
Foi casado com D. Carlota Canavarro, fi-
lha do tenente general Philippe de Sousa
Canavarro.
Antonio Teixeira e toda a sua familia per-
tenceram sempre ao partido legitimista, po-
rém sua irman, D Marianna Teixeira, casou
com o infeliz desembargador da casa da
Supplicação, Francisco Manuel Gravito da
Veiga Lima, que, em 7 de maio de 1829
morreu enforcado no paubulo da Praça No-
va, por liberal, com mais nove companhei-
ros. (Vide 7.º volume, pag. 328, col. 2.º).
Teve geração.
É hoje possuidora das casas de Mondrões
e Quebrantões, uia filha de Antonio Teixei
ra, Casada com o herdeiro da nobilissima fa
milia dos Cirnes, do Puço das Patas, no
Porto, e senhores da honra de Gumiuhães.
No 7.º volume, pag. 308, col. 2.2, no fim,
tratei rapidamente da capella do Senhor
d' Alem, reservando-me para neste logar dar
sobre a materia mais amplas informações.
Houve no monte de Quebrantões, um mos-
teiro de freiras da ordem de Santo Agosti-
nho (graciana=) denominado de S. Nicolau
das Donas. fundado pelo bispo do Porto, D.
Pedro Rabaldes (ou Rabaldis) em 14140,
No alto do monte de Quebrantões havia
uma ermida dedicada a S. Nicolau, no logar
onde depuis se construiu o mosteiro da Sér-
ra do Pilur, de conegos regrantes de Santo
Agóstinho (cruzios). Vide Grijó.
“ Junto d'esta ermida, se a:hou, no dito an- '
no de 1440, um erucifixo, que foi levado
frade cruzio, do convento de Grijó, quiz ue
o convento fosse de agostinhas.
Tratou logo de fazer o mosteiro de indu-
sas (emparedadas) que ainda existia em
1300, extinguindo-se depois — não se sibe
quando — e das suas rendas se fez um 9e-
| neficio simples, que ainda existia em 152,
| Com o padroado da capella de S. Nicolau.
Quando os frades de Grijó fundaran o
mosteiro da sua ordem (cruzios) da Serra
do Pilar, taparam todo o monte de Quebrn-
tões ou S. Nicolau, e, para não ficar dertro
da cérca a capella d'este santo, obtiveram
licença do bispo do Porto, D frei Balthazar
Limpo, para a mudarem para a raiz do mn-
te, à beira do rio Douro. Esta licença lhes
foi concedida em 17 de junho de 1539.
Trataram logo os frades de fazer a capel-
la, e em 24 de agosto de 1540 foram para
ella mudadas as imagens do Senhor Cruei-
ficado, de S. Nicolau e de S. Bartholomeu.
A capella continuou a ter ainda por muito
tempo a invocação de S. Nicolau, mas foi
perdendo-a pouco e pouco, para tomar a de
senhor d' Alem.
Teve muitos annos uma rica confraria, e
se lhe fazia uma sumptuosa festa a 24 de
agosto.
Antigamente, quando havia falta de chu-
va, levavam o Senhor d'Além para a Sé, ou
para a egreja matriz de S. Nicolau, e ahi
estava até chover, fazendo-lhe preces, e, de-
pois de chover, uma grande festa.
Proximo a Quebrantões é a quinta de Ma-
ravidi ou do Marevidi! da qual é actual
possuidor, o sr. João Correia Pacheco Pe-
1 Parece-me mais apropriado o nome de
Marevide. do latino mare vidi (véde o mar)
porque «ffectivamente d'aqui se vê o mar.
Esta quinta fica entre as ruas da Bandei-
ra e o logar da Barrosa, na freguezia de
Gaia; mas uma boa parte d'ella, é na fregue-
zia de Mafamude. A rua da Bandeira é fo-
reira a esta quinta, que foi de João Pacheco
Pereira (o celebre manco de Gaia) vereador
|
|
|
QUE
reira de Magalhães (volume 7.º, pag. 5M,
col. 4º. e 525, col.? 2º).
Na capella desta quinta foi sepultado o
bravissimo brigadeiro Francisco Peixoto,
que foi mortalmente ferido, à frente do Te-
gimento de caçadores da Beira Baixa (n.º 8)
quando atacava a fortaleza da Serra do Pi-
lar, em 44 de outubro de 1832 Falleceu
d'ahi a dois dias, em casa de João Rodri-
gues da Cruz (o Suzano) na rua da Bandei-
ra, onde estava de quartel, e que é proxima
da quinta, a qual pertence ao sr. João Cor-
reia, por successão de seus antepassados, 08
Correias Craesbelkis.
A familia Craesb:k é oriunda da Allema-
nha. Pedro Craesbek, um dos principaes ca-
valheiros dos Estados de Bravante, reurou-
se para Portugal em 1560, fugido à perse-
guição do feroz principe de Orange.
As armas dos Craesbeks, são—em campo
azul, uma estrella de ouro, de seis pontas,
e sobre ella um crescente de prata, com as
pontas para cima; elmo de aço aberto, é por
no Porto, e juiz almotacé, bisavô do actual
possuidor.
O officio de almotacé é muito
antigo em Portu à], pois ja
existia no reinado de D. Di-
niz.
As suas obrigações e pre-
eminencias se acham aponta
das nas Ord. do Reino, liv. 1.º,
tit. 18 e 67, $ 14.
Competia-lhe prover de to-
dos os mantimentos necessa-
rios, os logares onde estivesse
a córte; e cuidar da conserva-
ção e reparos das pontes, cal-
cadas e caminhos, que ficassem
a cinco leguas de distancia do
seu districio. (Geographia His-
torica, de Lima, tom. 1.º, pag.
328 e 524.
Um filho do Manco de Gaia, por nome An-
tonto Correia Pacheco Pereira, sentou praça
de cadete, & morreu capitão de granadeiros,
do 2.º regimento de infanteria do Porto (de-
pois n.º 48). fez a campanha de 1762 feita
pela Inglaterra e Portagal contra a Hespa-
nha e a França, por causa do celebre pacto
de familia. Esta guerra terminou pelo tra-
tado de paz entre as quatro n-ções, feito em
10 de fevereiro de 1763. Antoniu Correia foi
um militar muito distincto. vi]
QUE 14
timbre, uma estrella de ouro como a das
armas.
Pedro Craesbek, fundou em Lisboa a 'ce-
lebre officina typographica craesbekiana,
cujos utencilios, à custa de grandes cabe-
daes, mandára vir da All-manha, e que prin-
cipisu a funccionar em 1590, sendo a mais
afamada do seu'tempo, e que durou nesta
familia até ao principio do seculo XVHI.
Faria e Sousa na 3.º parte da sua Europa
Portugueza, 1.º edição, pag. 3514, faz um
grande elogio a esta typographia, mas nem
todos os exemplares 0 trazem; porque, ten-
do D. João da Silva, marquez de Gruveia,
certa queixa contra Antonio Graesbk de
Mello, neto de Pedro Craesbek, em desforra,
fez tirar dos ultimos livros o tal elogio.
“Foi Pedro Craesbek proprietario da im-
prensa real portugueza, e D. Philippe ILlhe
concedeu a honra de cavalleiro da casa real,
com as mesmas honras e privilegios que o
rei D Manuel tinha concedido a Jacob Crom-
berger, que, por sua ordem tinha vindo da
Allemanha; e isto por uma carta de privile-
gio e fidalguia, passada a 25 de setembro
de 1617.
Casou Pedro Craesbek em Lisboa, com
D. Suzana Domingues de Beja, filha de João
Domingues de Beja, é de D. Catharina Go-
mes Pacheco ; e d'este casamento nasceram
além de outros —Lourenço Craesbek e Paulo
Craesbek. O primeiro casou em Verríde, com
D. Maria de Ceiça, filha do doutor Antonio
de Ceiça, corregedor de Torres Vedras, e de
D Maria de Araujo.
Paulo Craesbek succedeu na typographia,
e casou com D: Maria Torres Velloso, irman
do padre João Vieira Velloso, instituidor do
morgado da Patameira, e d'este matrimonio
nasceu
Pedro Graesbek, capitão de mar e guerra,
casado com D. Maria Garcez, da cidade do
Porto, e tiveram:
D. Marianna Garcez Craesbek, que casou
em Lisboa, com Manuel da Serra. familiar
do Santo Officio, e natural da freguezia de
Navió, no concelho de Ponte de Lima; que
instituiu um morgado na'terça de seus bens,
o qual herdou seu'filho, o doutor Francisco
Xavier da Serra Craesbek.
12 QUE
Antonio Craesbek de Mello, filho de Paulo
Craesbek e de sua segunda mulher, D. Ce-
cilia Soares, e cavalleiro de S. Thiago, suc-
cedeu na typographia e casa de seu pae.
Diogo Soares Craesbeck, ultimo filho: de
Paulo Craesbeck e da referida sua segunda
mulher, casou no Porto, com D. Thereza de
Sousa Ferreira, e foi procurador 'da camara
d'esta cidade, em 1686, e escrivão da mes-
ma-em 1700 e 1701.
Entre uutros tilhos d'este casamento, hou-
ve D. Joanna Maria Craesbeck de Mello, que
casou em S. Pedro do Sul, com Luiz Gor-
reia de Abreu, senhor do morgado e casa
de Anciães, e filho do capitão-mór da dita
villa,-José Correia d'Abreu e de sua mulher
D. Catharina de Vasconcellos. Foi sua unde-
cima filha
D. Rosa Francisca Craesbeck de Mello, que
casou com João Correia Pacheco Pereira (o
Manco de Gaia) familiar do Santo Officio,
vereador da: camara do Porto, em 1724 e
1725, deputado do subsidio militar e guarda
mór da saude. Exerceu todos estes cargos
com o maior desinteresse e rectidão, sendo
até severo em demasia, para os transgresso-
res das leis, ou dos accordãos da camara,
pelo que o seu nome se tornou proverbial,
e ainda hoje se diz no Porto e Villa Nova de
Gaia — 4 justiça do Manco de Gaia te caia
em casa! — (Era manco desde muito novo,
em consequencia de quebrar uma perna ca-
hindo abaixo de um cavallo bravo). Morava
no caes de Villa Nova de Gaia, em um pa-
lacete seu, que foi devorado por um incen-
dio, em 1857, e estã hoje reduzido a arma-
zem de vinhos, do grande exportador, o sr.
Antonio Ferreira Meneres, que comprou as
ruinas e as reedificou.
Foi filho do Manco de Gaia, outro João
Correia Pacheco Pereira, que sentou praça
no 2.º regimento do Porto, em 15 de janeiro
de 1756, e foi reformado em tenente coronel
de infanteria, a 13 de março de 1806. Falle-
ceu em 5 de agosto do mesmo anno, com 76
annos de idade, sendo sepultado na egreja
do mosteiro de Valle de Piedade, hoje redu-
zida a armazem de vinhos.
Foi senhor dá casa e quinta de Marevidi.
Casou em Villa do Gonde. com D. Glara Jo-
concelho de Cabeceiras de Basto. Era sobri-
QUE
sefa Margarida de Nuronha e Silva, filha de
Manuel Albirto da Silva; familiar do Sarto
Officio, cavalleiro professo na ordem de
Christo, sargento-mór da me-ma villa.
D'este casamento houve muitos filhos, e
entre elles, Manu=| Correia Pacheco Pereira,
senhor: da quinta de Marevidi, e de muitos
outros bens de seu pae. Seutou praça na ar»
tilheria du forte de Nossa Senhora das Na-
ves, de Leça da Palmeira (ou: Mattosinhos)
em 46 de julho de 1792, e, sendo cadete, pe-
diu e obteve baixa, em 1806.
Casou a 8 d- maio de 1810, com D. Maria
Benedicta de Moura Teixeira de Magalhães |
e Andrade, filha de Balthazar Luiz de Moura |
Magalhã-s, e de D. Thereza Angelica Tei-
xeira Fal:ão de Andrade, da: casa de Fundo
de Villa de Vides, na fregu-zia de Pedraça,
nha materna de Bernardo Teixeira Falcão
de Audrade, capilão-mór de Basto, e de D.
frei Paulo Teixeira, ultimo abbade geral do
convento de bernardos de Alcobaça, e esmo- |
ler-môr de el rei. Falleceu em 1833. |
Manuel Correia Pacheco Pereira e sua ma-
lher D. Muria Benedicta, tiveram os filhos
| seguintes :
D. Francisca Felicidade Correia Pacheco
Pereira de Magalhães, nascida a 23 de ja-
neiro de 1815. e que casou com seu primo,
o sr. doutor Bernardo Teixeira de Moura
Coutinho, comendador da ordem de Nussa
Senhora da Conceição de Villa Viçosa, fi-
dalgo cavalleiro da casa real, com exercicio
no paço, distincto advogado no Porto, e se-
nhor das casas de seus maiores, de Fundo
de Villa de Vides, Ossella, Telhado, Purtella,
Paços, e Abelheiro, na freguezia de Santa
Maria de Cauêdo,' ii de Celorico de
Basto.
D. Ermelinda Engracia Correia Pacheco
Pereira de Mugalhães, nascida a 47 de abril
de 1818, casada com o sr. doutor Adriáno
de Magalhães Barbosa de Pinho, esclarecido .
advogado na cidade de Penafiel, dos quaes
é filho o distincto doutor, o sr. Acacio aa
Magalhães € rreia Barbosa.
D. Emilia Ephigenia Correia Pacheco po:
reira de Magalhães, nascida em 16 de setem-
bro de 1819, que casou com o gr. Bento José
QUE
de -Gastro, da casa de Afreita, freguezia de
Nevogilde, no concelho de Lousada, e d'este
casamento existem duas filhas, as sr.º* D. Ma-
ria Maxima de Castro Correia, senhora da
casa de seus paes, e D. Bernarda Bertolina
de Castro Correia.
D. Rita Adelaide Correia Pacheco Pereira
de Magalhães, nascida em 2 de junho de
1829, e que vive na cidade do Porto, com
sua irmã, D. Francisca Felicidade, empregan-
do o seu tempo em actos de piedade e cari-
dade, sem ostentação, segundo os preceitos
do Evangelho.
D. Maria Alexandrina Correia Pacheco
Pereira de Magalhães, nascida em 29 de ja-
neiro de 1827, e vive na sua casa do Valli-
nho, freguezia de Beire, concelho de Pare-
des.
E os senhores
José Correia Pacheco Pereira de Maga-
lhães, que nasceu a 5 de março de 1822
Falleceu quando frequentava o quinto anno
de direito.
João Correia Pacheco Pereira de Maga-
lhães, que é o primogenito, e actualmente,
por successão, herdeiro e senhor da referida
quinta de Marevidi, proximo a Quebrantões,
em cuja capella (da invocação de S. João
Baptista) elle e todos os seus irmãos foram
baptisados, e onde, como já disse, foi sepul-
tado o valente e leal brigadeiro Francisco
Peixoto.
Nasceu a 27 de setembro de. 1811. Foi ca-
pitão da 4.º companhia do regimento de mi-
licias da Feira (do qual era coronel o hon-
radissimo fidalgo, Alvaro Leite Pereira de
Mello e Alvim, senhor dos morgádos de
Campo Bello, Atães, S. João Novo, do Porto,
Qubrantões e Gaia Pequena).
Durante a guerra fratricida de 1832 a
1834, fez toda a campanha no seu regimen-
to até abril de 1834, passando então para a
1.2 companhia de granadeiros, do regimento
de infanteria n.º 14, 'a qual commandou na
batalha da Asseiceira, em 16 de maio d'esse
anno; recebendo pelo seu exemplar com-
portamento nesta acção, os elogios do seu
coronel, João Antonio Apparicio.
Sempre fiel ao juramento que havia pres-
tado, acompanhou as suas bandeiras até
QUE 13
Evora, sendo um dos convencionados de
Evora Monte.
Depois d'esta guerra, geralmente desas-
trosa, seguiu os estudos superiores, em
Coimbra, formando-se em direito.
Foi juiz ordinario do julgado de Paredes,
por espaço de cinto annos, pois para a sua
casa do Barreiro, da freguezia da Magdale-
na, do concelho de Paredes, se haviam reti-
rado seus paes e toda a sua familia, 15 dias
antes do desembarque dos liberaes (em 8 de
julho de 1832) e na casa do Barreiro reside
desde então.
Até esse tempo residiam na quinta de Ma-
revide.
Foi administrador do concelho de Pare-
des, desde 28 de julho de 1851, até ao 4.º de
de setembro de 41863; sendo exonerado, a
seu pedido, por não querer ser juiz com taes
mordomos . .
Não é preciso dizer que em todos estes
cargos, foi sempre um magistrado exemplar
e imparcialissimo, administrando justiça re-
cta, tanto a gregos como a troyanos.
Dedicou-se então à advocacia, e sempre 0
seu escriptorio tem sido um dos mais con-
corridos de consultantes.
Casou em 21 de maio de 1854, com a se-
nhora D. Maria Adelaide da Cunha Teixeira
Vasconcellos Porto-Carreiro, nascida na ca-
sa de Coura, freguezia de Bitarães, em Pa-
redes, à 12 de junho de 1837, e é virtuosis- .
sima filha do nosso esclarecido academico e
conselheiro, o sr. doutor Antonio Augusto
Teixeira de Vasconcellos. (Vide vol. 7.º, pag.
5114 e 525).
D'este feliz consorcio ha actualmente dez
filhos, todos nascidos na referida casa do
Barreiro, e são, as senhoras :
1.º— D. Maria Correia de Porto-Garreiro
Craesbeck Pacheco Pereira, nascida em 14
de abril de 1867, e está a educar-se no con-
vento de Jesus, de Aveiro, o qual, desde 0
fallecimento da ultima freira, se conservou
habitado pelas seculares e educandas, que,
secundadas pelos principaes cavalheiros de
Aveiro, e pelos jornaes da localidade, reque-
reram e obtiveram a conservação do mostei-
14 QUE
ro e pequena cêrca, transformado hoje em
collegio de educação de meninas internas.
Como o governo apenas lhes
deu o edificio e a cêrca (e isso
sabe Deus o que custou!...)
aquellas virtuvsas senhoras,
que alli tinham vivido desde
a infancia, não tinham outros
meios de subsistencia, senão o
pouco que podiam adquirir
com o seu trabalho; por isso
estabeleceram um collegio, em
1876, que é ho;e um dos me-
lhores— senão o melhor — do
reino ; pois que a directora (a
gr.2 D. Leonor Angelica Car-
doso de Lemus) que alli foi
educada por uma sua tia frei-
ra, e alli vive ha mais de 30
annos, é uma perceptora sol-
“licita, virtuosissima e de gran-
de intelligencia e instrueção.
2.º—D. Antonia Craesbeck de Porto-Car-
reiro Correia Pacheco Pereira, nascida em
44 de março de 1869, e que está a educar
no mesmo collegio de Jesus.
3.º—D. Olinda Craesbeck Correia de Por-
to-Carreiro Pacheco Pereira, que nasceu a
28 de ouiubro de 1875.
E os senhores :
h.º— Manuel Correia de Porto-Carreiro
Teixeira de Vasconcellos, nascido em 114 de
setembro de 1855. Frequenta os estudos de
engenheria civil, na escola polytechnica.
d.º—José Correia Pacheco Pereira Graes-
beck de Porto Carreiro, nascido em 42 de
maio de 1857, e frequenta a universidade
de Coimbra, na faculdade de direito.
6.-— Antonio Correia Porto-Carreiro Tei-
geira de Vasconcellos, que se destina à vida
militar, e frequenta, para isso, à escola poly-
technica de Lisboa. Nasceu em 20 de novem-
bro de 1858.
7.º— Abel Correia Pacheco Pereira, nasci-
do em 45 de julho de 1860. É inhabil para
as lettras.
8.º — Luiz Correia Graesbeck Pacheco Pe-
reira de Porto-Carreiro, nascido em 21 de
novembro de 1861, e frequenta os prepara-
torios para estudos superiores.
QUE
9.º—Francisco Correia Craesbeck Pacheco
Pereira de Porto-Carreiro, nascido em 34
de março de 1863, e frequenta: os mesmos
estudos de seu irmão Luiz.
10.º— Antonio Craesbeck Correia Pacheco
Pereira, nascido em 7 de dezembro de 1872.
(Dão tambem a este menino o nome de An-
tonio da Trindade, por ser afilhado do bis-
po de Lamego, o sr. D. Antonio da Trinda-
de e Vasconcellos Pereira de Mello).
Termiaarei este artigo com um rasgo da
mais acrisolada franqueza e lealdade, do sr.
João Correia Pacheco Pereira de Magalhães,
é o seguinte :
Quando foi nomeado administrador do
concelho ds Paredes, disse ao sr. D. Pedro
da Costa Macedo, então governador civil do
Porto — «É preciso que v. ex * Saiba quem
sou e d'onde venho, para se não enganar
comigo: eu sou um official do exercito legi-
timista, convencionado em Evora Monte, e
por nenhum motivo deixarei as convicções
que mamei com o leite materno.» —O gover-
nador civil, que é tambem um cavalheiro
honradissimo, respondeu-lhe: —« Agrada-me
a sua declaração, que é um testemunho de
lealdade e cavalheirismo; meu pae tam-
bem foi realista e convencionado de Evora-
Monte, e eu nem por isso deixo de cumprir
rigorosamente os meus deveres, como ma-
gistrado superior do districto.»
Mesmo assim, o sr. João Correia soffreu
alguns desgostos durante 'o tempo da sua
administração, por ser trahido por alguns
liberaes furibundos; porém os liberaes hyn-
rados e imparciaes fizeram-lhe sempre, e
ainda fazem, a devida justiça.
Manuel Correia Pacheco Pereira (pae de
todos estes filhos e avô d'estes dez netos)
foi um dos mais perfeitos cavalheiros do
seu tempo; austero no cumprimento dos
seus deveres de cidadão e de pae de fa-
milia, antepunha a tudo as leis da honra
e da probidade. Catholico puro, foi sem-
pre um legitimista de antes qu-brar que tor-
cer, e honrando-se de o ser, tanto em parti-
cular como em publico; era inimigo deelara-
do de todos os impios, mações e demagogi-
QUE
cos, com os quaes, por nenhum respeito tran-
sigia; mas sendo ao mesmo tempo tolerante
para com os inimigos do seu partido, se
eram homens honrados e catholicos. Deu a
todos os seus filhos uma educação esmera-
dissima, incutindo-lhes nos corações os pu-
ros sentimentos que n'elle tanto resplande
ciam, não só com a palavra, mas, e ainda
mais, com o exemplo; achando em sua es-
posa um modelo de todas as virtudes reli-
giosas e domesticas, o que muito contribuiu
para que seus filhos e filhas sejam respeita-
dos e admirados como dignos descendentes
de tão virtuosos progenitores.
QUEIJADA—ireguezia, Minho, comarca e
concelho de Ponte do Lima, 18 kilometros
ao O. de Braga, 375 ao N. de Lisboa, 150
fogos (incluindo os da annexa).
Tinha em 1757, a freguezia da Queijada,
45 fogos, e a annexa 56—-ambas—101.
Orago, S. Juão Baptista.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna do Castello.
O antigo nome d'esta freguezia era Quei-
gada, que vem a ser o mesmo que Queija-
da, porque os nossos avós diziam queixo em
vez de queijo.
A mitra primacial apresentava o abbade,
que tinha 2508000 réis de rendimento.
Temannexa aantiga freguezia de Boulhosa:
(Vol 4.º, pag. 427, col. 4.º, no fim).
Estas duas freguezias formavam antiga-
mente um couto da ordem de Malta, do qual
era senhor o commendador de Chavão, com
jurisdição no civel.
No crime pertencia ao julgado de Alber-
garia. Denominava-se couto de Queijada e
Boulhosa. ,
E” terra muito fertil, e atravessada pelo
rio Ave e alguns ribeiros anonymos.
QUEIMADA — freguezia, Beira Alta, co-
marca e concelho de Armamar, 12 kilome-
tros de Lamego, 335 ao N. de Lisboa.
160 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Viseu.
,
Esta freguezia é muito antiga, pois já
existia em 1663 (vide Cambres) porém o
Portugal sacro e profano não a traz.
Na Régua não ha outro granito, senão 0
QUE 15
A 2 kilometros d'esta povoação, nas fal-
das do Monte Razo, e no sitio denominado
Santo Thyrso, em março de 1876, andando
usos operarios a abrir uma valla, em terra
do sr. Jusé Antunes da Silva, proprietario,
da freguezia de Queimadella, para a passa-
gem de uma agua pertencente ao mesmo e
ao sr padre Manuel Alves dos Anjos. paro-
cho da freguezia de S. Romão de Armamar;
appareceram, a mais de um metro de pro
fundidade, uma mó de moinho de mão, uma
porção de madeira lavrada, e algum carvão,
denotando tudo isto muita antiguidade.
Na serra de S. Domingos da Queimada (ou
São Domingos de Fontêlio) e mesmo junto à
capella do santo que dá o nome à serra, tem
apparecido muitas medalhas romanas, com os
bustus e inscripções de varios imperadores.
Ha n'esta serra grande abundancia de gra-
nito, de qualidade suparior para cantaria, o
qual se exporta para Lamego, Régua e ou-
tras povoações ainda mais distantes.
que vas daqui; porque no territorio d'esta
villa só se encontra sehisto e quartzo.
Entre a Queimada e a serra de S. Domin-
gos, está a formosa Veiga de Naçarães (que
os antigos denominavam de Nazarem, deri-
vado do arabe — nasrani) e n'esta veiga e
nas freguezias da Queimada e Queimadella—
a seguinte-é que se diz ter existido a pri-
mitiva cidade de Lamego, incendiada e ar-
razada pelas 14 legiões romanas; e que d'es-
te facto provém o nome de Queimada e Quei-
madella.
Para evitarmos repetições, vide o primei-
ro Fontêllo e Lamêgo. *
A veiga é uma especie de plató, e, ainda
que o solo é frio, é de um lindo aspecto, é
de produções variadissimas, por estar muito
bem cultivado. Vide Naçarães.
1 Segundo alguns escriptores, Queimada
é uma povoação toda construida de novo com
o resto dos materiaes da antiga Lum-go; e
Queimadella que lhe fica ao 8.0.; foi reedi-
fiada na parte destruida, mas haviam es-
| capado algumas casas ao incendio, por isso
“a esta se chamou assim, por não ter ardido
totalmente.
Esta distincção etymologica tem seu tanto
ou quanto de conto de velha.
16 “QUE
Suppõe-se que a antiga Lamego seja uma
cidade que Ptolomeu menciona na 2.º Tabua
da Europa, no cap 5º, e à qual dá o nome
de Lama, e à assenta entre 08 povos velo-
nes; ou então oura gnº denomina Laco-
nimurgum, tambem no paiz dos vetones.
Diz se ter sido uma das grandes povoa-
ções da Peni: gula.
QUI IMADELLA — freguezia, Beira, Alta,
comarca e concelh de Armamar, 6 kilome-
tros de Lamego, 330 ao N. de Lisboa, 150
fugos.
Em 1757 tinha 103 fogos.
Orago Nossa Senhora da Pi»dade.
Bispado de Lamego, districto alministra-
tivo de Viseu.
O abhad» da Figucira apresentava o cura,
que tinha 803000 e o pé d'altar.
E”, com» a antecedente, freguezia muito
autiga, e já existia antes da monarchia por-
tugu:za; mas 0 decumento mais antigo que
«della encontrei, foi um testamento de mão
commum, frito entre Lourenço Pires e sua
mulher, Marinh'Annes, no anno de 1314.
O marido diz— Mando o meu pelote (capa
de pelles) c a minha capa (capa d: panno,
ou capute) a João Joannes, de Queimadella.
-— A mulher diz-—- Mando o meu pelote a
quem cante missas por mandado do capel-
lão. (Due. de Lamego).
Para tudo o mais, vide Queimada.
QUEIMADELLA — fr: guezia, Minho, co-
marca e concelho de Fafe (foi do mesmo
concelho, mas da comarca de Braga) 24 ki
lometros ao E. N E. de Braga (a cujo arce- |
bi-pido e districio administrativo pertence)
e 580 ao N. de Lisboa, 230 fogos.
Em 1757 tinha 149 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
A mitra primacial apresentava o abbade,
que tinha 1408000 réis de rendimento, álém
do pé de altar.
E' povoação muito antiga, provavelmente
anterior à fundação da nossa monarchia.
Nas Inquirições reaes, mandadas fazer em
1310 pelo rei D Diniz (era eutão esta fre-
guezia do julgado da Maia!) se mandou fi-
car como estava, a Ferraria, 1 que traziam
1 A palavra Ferraria, aqui, não significa
QUE
por Honrra, toda, os gafos de Alfena, por
que tinha sido de D. João Peres da Maia.
Vide Alfêna.
E' terra muito fertil,
as d'estes sitios.
QUEIRAN—freguezia, Beira Alta, comar-
ca e concelho de Vouzella, bispado, distrieto
administrativo, e 12 kilometros ao N. de Vi-
Zu, 280 ao N. de Lisboa, 430 fogos.
Em 1757 tinha 300 fogos.
Orago, S. Miguel Archanjo.
Era commenda da casa das rainhas, as
quaes apresentavam o abbade, que tinha réis
3008000 de rendimento annual.
E' freguezia muito antiga, pois nas In-
quirições de D. Affonso III (1250) se men-
ciona a freguezia de S. Miguel de Queiran
como já existente em 1434.
N'essas Inquirições se diz que o logar de
Noumam ou Loumam d'esta parochia fôra
dado por D. Affonso Henriques n'esse anno
de 1134 a Pelagio Vezoiz.
Em 1290, nas Inquirições do rei D. Diniz
se achou que alli moravam doze homens, fo-
ramontãos, cujos casaes eram coutados. (Vi-
de Foramontãos).
A dois kilometros da egreja matriz, está o
logar de Igarei, onde ha uma capella dedi-
cada a Nossa Senhora das Neves.
Segundo a lenda, a imagem d'esta Senho-
como são todas
forja, ou qualquer officina de ferreiro; mas
sim um campo que dá herva (prado ou la-
meiro).
Vem de Ferran, certo pasto verde para
gado, cuja semente procede quasi sempre
das limpaduras do trigo, centeio e cevada,
por isto é que se dá o nome de farragem à
mistura de cousas heterogeneas, amontoadas
sem ordem alguma.
Em 1142, Simão Paes, deão da Sé de Vi-
zeu, emprazou us suas herdades de Gouveia
(então termo de Pinhel) na Beira Baixa, com
uv foro da sexta parte de todos os fructos (o
que se chamava dar de sesmaria) excepto
versas (hortaliças) e porros (alhos) e fruyias
das arvores. Além d'isto, uma Ochava (oita-
| vo, meia quarta) de trigo e outra de centeio,
e que cada um dos moradores ou emphiten-
tas podessem fazer a sua ferrãa de huma
Ochava, e não mais. Suam ferraginem de
singulis Ochavis, et non plus. er da Sé de
Vizeu, de 1142.)
Vide Ferragial.
QUE
ra appareteu em um monte proximo, aonde
hoje existe uma cruz, para memoria, e por |
isso se chamou o monte de Santa Cruz.
Diz-se que, depois, a mesma imagem appa-
recéra junto à estrada real, e perio de Iga-
rei.
O povo construiu logo n'aqu-lle sitio uma
ermida, toda de cantaria lavrada, com 82
palmos de comprimento e 34 de largo, com
um só altar, que é o da Senhora.
Esta imagem é formada de pedra fina e
de excellente esculptura.
Festeja-se no dia de S. Lourenço com o
evangelho das Neves, hindo a Senhora em pro-
cissão à egreja matriz.
Na mesma capella se festeja a imagem de
Santo Antão, e tanto em uma como em ou:
tra festividade, recebe a Senhora varias offer-
tas, que são applicadas para o culto divino
e repáros da capella. |
Os povos que concorrem para a festa, são
os de Igarei, Queiram, Quint-lla, e ainda
bastantes devotos das povoações visinhas e
da cidade de Viseu.
Phenomeno
Nos archivos do governo civil de Viscu
encontra-se o seguinte curioso decumento:
" Ex.me gr. —Eu indo a Vasconha conduzir
à sepultura o phenomeno da natureza, ob
servei o seguinte:
E' monstro da natureza humana, tinha a
cabeça de homem, da grandeza de uma bola
de jogar, o craneo coberto de cabello boni-
to côr de castanha madura, o osso coronar
um só, bem formado o rosto redondo, por
baixo do dito osso tinha dois narizes boni-
tos e bem formados, no meio dos narizes ti-
nha um olho com duas (a que se chamam) |
meninas para a parte de fóra do nariz di-
reito, e do esquerdo tinha seu olho, hem fer-
mados, com'pestanas 'e sobraucelhas; por
baixo dos narizes tinha duas boccas, bem
formadas; tinha um 36: queixo maxil-r com
uma só barba, duwas orelhas no logar natu-
Tal, bem parecido do rosto e só di-forme pe-
kos dois narizes, duas boceas é tres olhos;
QUE 17
| dois para a frente, cada um com duas ca-
nas, e cada mão com quatro dedos; tinha
uma só envimia no mei» do utro; até aus
quadriz é um só corpo; de cada um saem
duas pernas, duas do quadril direi o, e duas
dy esquerdo; entre cada duas pernas tem
um anus e uma parte pudenda feminina; as
pernas cada uma tem duss tibias osseas, ca-
da uma perna com seu pé, cada um vom
quatro d-dos. — Nasceu vivo. durou quasi
duas horas, abriu todos os olhos como as
boccas, fui baptisado—in pericolo—por Ma-
nuel Duart-.
E” o que pude colligir; hoje o mando en-
terrar, tendo esperado até ago a a ver se al-
guem Oo quereria remetter ao museu. —Deus
guarde v. ex.2, re-ilencia de Qu irã. 11 de
abril de 1867. —Ex =»º sr administrador do
concelho de Vouzella--Abbade José da Silva
e Funseca.
A esta freguezia se dava antigamente 0”
nome de Queiram, e no fural que ih» deu D.
Affonso III, em Santarem, no 1.º de dezem-
bro de 1272 se lhe dá o nome de Prado de
Qeirã de Lafões (Liv. 1.º de doações de D.
Affonso HI fl. 417 v., col. 1.º no tim).
QUEIRAZ ou QUIRAZ—freguezia, Minho,
comarca e concelho de Barcellos, 12 kilo-
metros ao O. de Braga, 360 ao N. de Lis-
boa, 160 fogos.
Em 1757 tinha 44 fogos.
Orago, o Silvador.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
“O abbade de Santa Maria de Gallêégos
| apresentava o vigario, que tinha 403000 réis
de rendimento. além do pé d'altar.
Esta freguezia está anuexa à de Roriz, no
mesmo concelho de Barcellos.
E' terra fertil.
QUEIRAZ wu QUIRAZ — freguezia, Traz-
os-Montes, comarca e concelho de Vinhaes,
| 85 kilom- tros de Miranda, 465 ao N. de Lis-
| boa, 120 fogos.
Em 1757 tinha 31 fogos.
Orago, S. P.dro apostolo.
Bispado e districto administrativo de Bra-
pescoço bem feito; de cada hombro saiam gança.
dois braços, dois virados para as costas e |
O papa e a mitra apresentavam alternati-
18 QUE
vamente o abbade, que tinha 6008000 réis
de rendimento.
Esta freguezia está annexa à de Villari-
nho, e por isso se chama officialmente—fre-
guezia de Quiraz e Villarinho.
Antigamente pertenceu ao concelho de
Santalha (hoje extincto) e à comarca de Bra-
gança.
QUEIRIGA—freguezia, Beira Alta, conce-
lho de Fráguas, comarca de Castro Daire, 48
kilometros ao N. de Viseu, 300 ao N. de Lis-
boa, 130 fogos.
Em 1757 tinha 99 fogos.
Orago, S. Sebastião, martyr.
Bispado e districto administrativo de Vi-
seu.
O abbade de Cotta apresentava o cara,
que tinha 63000 réis de congrua e o pé de
altar.
QUEIRIZ—freguezia, Beira Baixa, conce-
lho de Fornos d'Algodres. comarca de Celo-
rico da Beira, 42 kilometros ao S.E, de Vi-
seu, 300 a E. de Lishoa, 120 fogos.
Em 1757 tinha 89 fogos.
“ Orago, Santa Agueda.
Bispado de Viseu districto administrativo
da Guarda.
QUEIXO—portuguez antigo—queijo.
(Doc. do Mosteiro de Alpendurada de
1312).
QUELFES ou QUELFEZ — freguezia, Al-
garve.
Ja estã em Guelfez. (3.º vol., pag. 345,
col. 4.2).
Agora accrescento mais o seguinte:
Quelfes é o plural do adjectivo arabe quel-
fe—significa malhado. Deriva-se do verbo
cálefa, ter a côr negra, misturada com man-
chas amarellas.
Ha n'esta freguezia a capella de Nossa
Senhora do Rosario, construida pelos annos
de 1700, muito concorrida de romeiros no
dia da sua festividade, 1.º domingo de ou-
tubro.
QUELHA DE GONTA—mante, Beira Alta,
na freguczia de Riba-Feita, concelho de S.
Pedro do Sul, comarca de Vouztlla.
Bispado e districto administrativo de Vi-
seu.
Este monte, ou cabêço, fica a cavalleiro
E
ip
“oo eee
QUE
da aldeia de Lustosa, da mesma freguezia, e
D'elle se construiu, em 1875, uma elegante .
e formosa capella, dedicada ao S.S. Nome
de Jesus. por devoção e à custa do sr. Ma-
nuel Rodrigues de Carvalho Magalhães, do
referido lugar de Lustosa.
Do sitio onde está edificada a capella, se
avista uma grande extensão de território, e
os edificios mais altos da cidade de Viseu.
Gonta, é nome proprio de homem.
No Livro de Mumadona se diz, que D.
Flamula vendeu ao abbade Gonta, em 923,
a sua aldeia de Quintanella, na comarca de
Braga.
(Doc. do cartorio do arcebispado de Bra-
ga.) k
QUÉLUZ— aldeia, Estremadura, na fregue-
zia de Barcarena, concelho d'Oeiras, comar-
ca, districto administrativo, patriarchado e
14 kilometros ao N.0. de Lisboa. Tem (a al-
deia) 230 fogos.
E” situada em logar baixo, cercada de va-
rios outeiros de pouca elevação, mas em si-
tio ameno, fertil e saudavel.
D. Chrystovão de Moura (tristemente ce-
lebre por ser traidor à patria, e por isso
feito conde de Castello-Rodrigo, por Philippe
II, em 1590, e depois marquez do mesmo ti-
tulo e grande de Hespanha, por Philippe HI)
tinha aqui uma grande quinta com sum-
ptuosa casa de residencia, o que tudo foi
sequestrado por ordem de D. João IV, em
1640.
(Vide Castello Rodrigo, Guarda, Lisboa—
palacio de Corte Real—a pag. 125, e Mou-
ra). |
Além d'esta quinta, o mais, até à data da
restauração, era apenas uma aldeia insigni-
ficante.
Em 1654, D. João IV fundou com a quin-
ta dos Corte-Reaes e tudo mais que que el-
les possuiam n'este reino, bem como eom
os bens de todos os fidalgos que se tinham
bandeado com os castelhanos, a casa do in-
fantado, por alvará de 11 de agosto do mes-
1 O sequestro foi feito ao 2.º marquez de
Castello Rodrigo, D. Manuel de Moura Corte-
Real, filho do 1.º marquez, e que, como seu
pae, era partidario dos Philippes.
QUÊ
QUE 19
mo anno de 1654. em favor do filho 2.º dos | do os juizes a favor de D. Pedro, que depois
nossos reis, afim de estabelecer e formar
uma segunda linha de successão.
O filho segundo de D. João IV foi o in-
fante D. Theodosio, qu” falliceu de 47 an-
nos de idade, antes da fundação da casa do
infantado, p lo que. passou esta ao 3.º filho,
o infante D. Pedro, depois rei, 2.º do nome,
e que foi o 1.º senhor da casa do infantado,
a qual foi depois muito augmentada em ren-
dimentos, honras. e. privilegios pelo funda-
dor-e seus successores.
O infante D. Pedro, em 1667, foi habitar
o palacio de Quéluz, « alli urdiu a conspira-
ção palaciana, que deu em resultado a fugi-
da da rainha, D. Maria Francisca Isabel de
Saboia, a 2 de novembro do mesmo anno,
para o convento da Esperança, de Lisboa,
ea abdicação forçada de D. Affonso VI, logo
a 23 do mesmo mez.
D. Pedro, emquanto infante, e mesmo de-
pois de rei, poucos melhoramentos fez no
palacio de Quéluz.
Succedeu na casa do infantado seu filho
seguudo, o infante D..Francisco, que gosta-
va muito do palacio de Queluz, e n'elle re-
zidia todos os annos pela estação calmosa;
mas os habitantes da povoação gostavam
pouco da residencia do infante em Quéluz,
porque eram frequentes as suas travessuras
alli, travessuras que muitas vezes se trans-
formavam em crueldades.
Falleveu em 1742, e 0 povo acreditou que
a alma do infante vagueava todas as noites
em, torno da quinta, em castigo dos seus
peccados, e que esta punição só terminou
cem annos depois da sua morte —isto é—em
1842
O infante D. Francisco, foi senhor do pa-
lacio e quinta de Quéluz, por espaço de 35
annos, e bastantes melhoramentos fez n'esta
propriedade.
Morreu solteiro, mas deixou um filho na-
tural, reconhecido, que se chamou o senhor
D. João da Bemposta.
Por morte de D. Francisco, houve deman-
da entre o infante D. Antonio, 3.º filho de
D. Pedro II, e o infante D. Pedro, seu sobri-
nho (depois rei, 3.º de nome) por causa da
successão na casa do infantado, senteneian-
casou com sua sobrinha a rainha D. Ma-
ria T.
Foi D. Pedro, tanto no tempo de infante
como depois de rei, que elevou o palacio é
quinta de Quéluz ao grau de sumptuosidade
em que hoje se acham, adquirindo, por com-
pra, varias propriedades contiguas, para 0
alargamento da quinta, e encarregando o ar-
chitecto Matheus Vicente de Oliveira, e o
esculptor francez João Baptista Robillon, do
risco e execução de um novo palacio e da
planta e ornatos dos jardins e quinta.
Principiaram os trabalhos em junho de
1775, e progrediram até 23 de maio de 1786,
dia em que falleceu D. Pedro III. Pararam
os trabalhos, até que em 1794 D. Maria I
mandou construir um novo corpo do palacio,
onde rezidiu.
Tal era a magnificencia d'estas obras, que
todos os grandes rendimentos da casa do
infantado, apenas chegaram para se conclui-
rem os jardins, sendo preciso que a rainha
mandasse dar um grande subsidio, tirado
do thesouro publico, para a continuação do
palacio, que, mesmo assim, ficou incom-
pleto.
Davam-se aqui, nos dias de S. João Baptis-
ta e S. Pedro, e nos anniversarios natalicios
da familia real, as mais pomposas festas da
nossa côrte, nos tempos modernos.
Sob a direcção do architecto Ignacio de
Oliveira Bernardes, se construiu um theatro,
cuja abertura teve logar na noite de 17 de
dezembro de 1778, e serviu para solemni-
sar o anniversario natalício de D. Maria LI. !
Em razão do incendio, que destruiu uma
grande parte do palacio velho da Ajuda, foi
a familia real habitar o palacio de Quéluz,
desde os fins do seculo passado até 29 de
novembro de 1807. dia em que a familia real
fugiu para o Brazil; e no seu regresso (3 de
julho de 4821) tornou a habitar o palacio
de Quéluz. Pouco tempo depois, foi o rei com
seus filhos e filhas mais velhas, habitar o pa-
lacio da Bemposta, em Lisboa, ficando em
Quéluz sómente a rainha D. Carlota Joaqui-
t Tinha nascido a 17 de dezembro de
4734.
20 QUE
na, com a sua filha mais nova, a infanta
D. Anna de Jesus Maria, depois duqueza de
Loulé.
Nºeste palacio nasceram varios filhos de
D. João VI e da imperatriz-rainha D. Car-
lota Joaquina; mencionarei os seguintes :
D. Pedro, primeiro imperador do Brazil,
a 12 de outubro de 1798. (Falleceu no mes-
mo quarto onde havia nascido, a 24 de se-
tembro de 1834).
D. Miguel I, a 26 de outubro de 1802.
(Falleceu em Bromback, Allemanha, a 14 de
novembro de 1865).
D. Maria Thereza, princeza da Beira, da
qual adiante trato.
A infanta D. Izabel Maria, a 4 de julho de
4801, e fallecida no seu palacio de Bemfica,
a 22 de abril de 1876.
Foi em uma das capelas d'este palacio,
que, em 1827, se recebeu a infanta D. Anna
de Jesus Maria com o marquez (depois du-
que) de Loulé, em presença da imperatriz-
rainha, mãe da noiva.
Aqui falleceu, a 7 de janeiro de 1830, a
imp»ratriz-rainha, D. Carlota Joaquina de
Bourbon e Bragança.
O sr. D. Miguel I gostava muito d'este pa-
lacio, e n'elle residiu a maior parte do tem-
po, durante o periodo do seu reinado, com
suas irmãs solteiras, D. Izabel Maria e D. Ma-
ria d' Assumpção (que falleceu em Santarem
a 6 de janeiro de 1834).
O senhor D. Miguel, hia todas as quintas
feiras de Quéluz a Lisboa, dar audiencia a
todos os que a exigiam, no palacio das rai-
phas, tawbem chamado da Bemposta, junto
ao campo de Sant'Anna.
Com a sahida do senhor D. Miguel, com
suas duas irmãs solteiras, para as provin-
cias do norte, em 16 de outubro de 1892,
ficou o palacio de Quéluz apenas occupado
“por alvumas açafatas e ereados antigos da
casa real: só em 1894, para alli quiz ser
conduzido, ja quasi moribundo, o sênhor
D. Pedro de Bragança, que falleceu no dia
acima mencionado. RR
Desde então, a familia dos nossos reis, só
raras vezes, é por muito pouco tempo, tem
resididu no palacio de Quéluz, apezar de ser a
mais bella das habitações reaes de Portugal.
QUÊ
Nos ultimos tempos, como à senhora D.
Maria Pia gosta muito desta poetica viven-
da, tem para aqui vindo passar parte dos
verãos a familia real portugueza.
O palacio é composto de varios corpos,
differentes nas alturas, uns recuados outros
resaltando, cada um de diversa archit-ctura,
mas formando no todo uma agradavele pit-
toresca perspectiva.
As suas salas são vastas, primorosamente
adornadas, e deliciosamente situadas, cer-
cadas de formosos jardins, e bellos laranjaes
ajardinados, hortas e pomares amenissimos.
A sua architectura é, em quasi todas as
partes, de um gosto primoroso, e as decora-
ções dos aposentos, todas difierentes, são de
muito bom gosto e lindo effeito.
Treze salas são revestidas de magnificos
espelhos, com riquissimos caixilhos de talha
dourada, e os seus pavimentos, são, uas de
marmore de côres, em formoso xadrez, ou-
tros de varias madeiras, tambem de côres,
com formosos embutidos, variando de fórma
em cada sala. i
As maiores salas, em vastidão e riqueza,
são a sala das talhas e a das serenatas De-
nomina-se assim a primeira d'estas salas,
em razão das magnificas talhas do Japão que
a adornam. Tem no topo dois thronos, com
seus doceis sustentados por columnas oita-
vadas, guarnecidas de espelhos e dourados.
Com espelhos do mesmo modo emoldurados,
estão as portas e as paredes. O pavimento é
de marmore azul e branco, em xadrez.
No tecto vê-se uma pintura, repr-sentan-
do um grande concerto, no qual figura o rei
D. José e a rainha D. Marianna Victoria; O
famoso mestre de musica, David Peres, to-
cando cravo, ao lado do rei; a princeza D.
Maria (depois rainha, primeira do nome) e
as infantas D. Maria Francisca Benedicta
(depois, princeza do Brazil) D. Marianna Jo-
sefa e D. Maria Dorothea, com papeis de
musica nas mãos, em acção de cantarem; o
infante D. Pedro (depois rei, tereciro do no-
me) regendo o concerto; e muitos fidalgos
portuguezes.
Foi esta a sala destinada para os conicer-
tos da côrte, e n'ella se deram alguns esplen-
dorosos; mas depois se transformou em sala
QUE
de beijamãos, e para dar audiencias solem-
nes aos embaixadores estrangeiros.
Ficou desde então servindo para sala dos
concertos, a, por isso, denominada das se-
renatas, que é muito mais vasta e sumptuosa
que a precedente. Todas as suas paredes e
portas são revestidas, de-alto a baixo, de
magnificos espelhos, com molduras ricamen-
te esculpidas e douradas.
Da sala das talhas segue para a direita
uma galeria com varias salas mais peque-
nas, mas egualmente ricas, tendo o pavi-
mento de lindos e variados mosaicos, de ma-
deira de differentes côres, e nas paredes, for-
mosos relevos dourados ou prateados, e
grandes espelhos, tendo na extremidade in-
ferior, formosas paizagens e varias figuras,
primorosamente pintadas no vidro. 1
No fim d'esta galeria, está o pavilhão on-
de nasceu e morreu o primeiro imperador
do Brasil. Veem-se n'elle trez paineis, pin-
tados a óleo, com os retratos, do principe
D. Antonio (filho primogenito de D. João VI,
8 fallecido em creança), do principe D. Car-
los (irmão de Fernando VII, e avô de Car-
los VII) e da primeira mulher do mesmo
principe e sua sobrinha, a infanta D. Maria
Francisca, filha de D. João VI.
“O palacio de Queluz é, exteriormente, todo
construido de marmore, adornado de gran-
«de numero de columnas e pilastras, de or-
dem jonica e dorica; de balaustradas, esta-
tuas, vazos e outros ornatos. No tympano,
sobre a grande janella do centro, do referi-
do pavilhão, está um bello baixo-relevo, re-
presentando uma festa de Bacho.
A principal capella do palacio, fica do la-
do opposto dos jardins, com porta para a
rua. É vasta e luxuosa. O oratorio particu-
lar contém algumas obras d'arte, de muito
valor, sendo as principaes, varios paineis de
primorosa pintura e uma formosa “columna
de agatha, sustentando uma estatua de S.
Pedro, de prata, cinzelada com grande cor-
recção e-belleza.: (Foi presente, dado por
Pio VIk a D. João VI).
A quinta, pela sua vastidão e magnificen-
1 Treze salas d'este palacio, teem as pa-
redes revestidas de magnificos espelhos.
VOLUME VII
QUÊ 24
cia, corresponde à riqueza do palacio, é é,
sem contradicção, a mais bella e luxuosa, e
uma das maiores de Portugal.
Os jardins são em grande numero, mas os
principaes estendem-se diante das differen-
tes fachadas do palacio, e são adornados de
grande copia de estatuas e vazos de marmo=
re; e de lagos de todos os tamanhos e feitios,
com repuchos de formosa apparencia. Quem
d'estes jardins sãe para o parque, vê dois
altos pedestaes, servindo de baze a duas es-
tatuas equestres, representando a Fama. São
de marmore, e foram esculpidas por Manuel
Alves, e Silvestre de Faria Lobo, pelo dese-
nho do architecto francez Robillou, de que
já fallei.
A quinta é no gosto italiano, cruzando,
em todas as direcções, largas e compridas
ruas, orladas de frondoso arvoredo ; tendo
tambem jardins, estatuas, lagos, viveiros,
pomares de tangerineiras, ajardinados, cor-
tados de bellos lagos, de marmore, imitan-
do canaes; uma bella cascata; um jogo de
bola, assombrado por arvores gigantescas ;
um jardim botanico (hoje muito descurado)
com suas estufas; e, finalmente, o rio que
atravessa a quinta, encanado, e guarnecido
de assentos de pedra, de vazos e urnas, e
sendo atravessados (os canaes) por duas for-
mosas pontes, com suas casas de regalo; a
tudo isto orlado de copado arvoredo.
Ao parque segue-se a tapada,- separada
delle por uma cérca de muros. “Tem bastos
arvoredos, muitas e largas ruas, e é abun-
dante em caça miuda.
Em uma das cincoenta salas do palacio,
está cuidadosamente conservado, debaixo de'
um docel, é encerrado em cortinas de da-
masco encarnado, o retrato, em corpo intei-
ro, do sr. D. Miguel T. Este retrato foi tira-
do em Vienna d' Austria, na occasião do ma-
logrado- casamento d'aquelle principe, com
sua sobrinha, a sr.* D. Maria da Gloria, de-
pois rainha, segunda do nome; casamento
que, se se effectuasse, evitaria o! derrama-
mento de muito sangue portuguez, e'tantas
e tão grandes desgraças a que deram causa
os maus conselheiros do sr. D. Miguel.
- Nos vastos jardins que circumdam o pa-
lacio, ha formosissimas flores, distiiguindo-
2
22 QUE
se entre ellas, o bello geranium do Cabo, é
soberbas magnolias.
Os maravilhosos e innumeros jogos d'agua,
estão hoje muito mal tratados, e mais de
quarenta annos de abandono, transforma-
ram em vergonhosas ruinas esta rica pro-
priedade, a mais bella do reino. 1
Foi tambem neste palacio que nasceu, a
29 de abril de 1793, D. Maria Thereza, prin-
-ceza da Beira, filha primogenita de D. João VI
e de D. Carlota Joaquina, fallecida em Trieste
(llyria).
Casou em primeiras nupcias, com seu pri-
mo, o infante de Hespanha, D. Pedro Carlos,
almirante da marinha portugueza, fallecido
mo Rio de Janeiro. D'este casamento nasceu
um filho unico, o infante de Hespanha,
D. Sebastião, tambem já fallecido, ao qual
D. João VI conferiu as honras de infante de
Portugal.
D. Maria Thereza, tendo ficado viuva de
seu primeiro marido, casou passados muitos
anuos, com seu tio e cunhado, Carlos V, de
MHespanha, viuvo da infanta portugueza, D.
Maria Francisca.
Quéluz tem estação telegraphica com ser-
viço permanente, em quanto alli estã a fa-
milia real, e limitado, quando não reside
aqui; e vae ter (julho de 1878) iluminação
a petroleo, paga pela camara de Cintra, sen-
do os candieiros comprados pelos morado-
res da povoação.
- Entre as varias casas de campo e formo-
sas quintas de Quéluz, se distingue a resi-
«dencia dos srs. marquezes do Pombal, con-
struida pelos annos 1800, pelo segundo mar-
quez, Henrique José de Carvalho e Mello,
gentil-nomem da camara da rainha.
- À casa é pequena, e não se chegou a con-
cluir, por causa da invasão de Junot, em
1807. É de regular architectura, e bem or-
namentada, com bonitas salas, decoradas
com ricos estuques. Está situada quasi em
frente do palácio real, proxima á povoação
e à alameda que do lado do sul conduz ao
mesmo palacio real. Em volta da easa ha
1 Nos ultimos tempos, teem-se feito nos
edificios alguns reparos; mas ainda falta
muito a fazer.
QUÊ
uma vasta planície; mas sem jardins neny
arvoredos, o que a torna monótona. O fun-
dador tencionava plantal-os, mas a fugida:
para o Brazil, interrompeu todos os traba-
lhos. Hoje acha-se tambem abandonada esta.
vivenda e ameaçando proxima ruina nos es-
tuques e madeiramentos, mas não nas pa-.
redes, que são de optima cantaria.
Ha tambem em Quéluz uma excellente:
hospedaria, denominada Hotel União.
Em 25 de abril de 1828, o senhor D. Pe-
“dro, duque de Bragança, fez 4.º barão de:
Quéluz, ao doutor Antonio Bartholomeu Pi--
res, cirurgião da real camara, cavalleiro das.
ordens, da Corôa de ferro, na Italia; da Le-
gião de honra, em França; e do Leão de-
Zeringe, na Baviera.
O barão tinha nascido a 3 de fevereiro de
1795, e era filho de Antonio Bartholomeu:
Pires, e de sua mulher D. Marianna Joa-
quina.
Teve duas irmans, D. Luiza Isabel e D..
Maria Isabel.
O senhor D. Miguel I tambem deu o ti-
tulo de visconde de Quéluz, ao seu medico,,
e official-mór da sua casa.
O visconde de Quéluz, acompanhou sem-
pre o senhor D. Miguel, desde 9 de maio de
1824, dia em que sahiu a barra de Lisboa,
na sua estada em Vienna d'Austria, e até à.
sua chegada a Lisboa, em 22 de fevereiro
dé 1828.
- Depois, desappareceu, e os liberaes inven-
taram que o senhor D. Miguel o tinha assas-
sinado, ou mandado assassinar; mas, em
1834, quando o rei sahiu de Portugal, o vis-
conde de Quéluz se lhe foi juntar em Roma;
e este facto, fez aniquilar mais uma calumnia.
Disseram-me que o pae do visconde, era
um rico pádeiro, do Campo de Sant'Anna,
em Lisboa.
O aprazivel sitio de Quéluz está actual-
mente sendo muito concorrido, não só pelag
muitas distracções. que alli se encontram,
como pelo notavel aceio do hotel União.
Quando a familia real não está em Qué-
luz, a quinta, matta e raias são franquea-
dos ao publico.
QUE
QUERENÇA — freguezia, Algarve, na co-
marca e concelho de Loulé, 18 kilometros
de Faro, 235 ao S. de Lisboa, 238 fogos. .
Em 1757 tinha 253 fogos.
Orago Nossa Senhora d'Assumpção.
Bispado do Algarve, districto administra-
tivo de Faro.
A mitra apresentava o prior, que tinha de
renda dez moios de pão.
Esta freguezia é espalhada por casaes, e
em terreno aspero e barrocal.
Proximo da egreja parochial, está a aldeia
de Tór, e nella a capella de Santa Rita de
Cassia.
É terra muito abundante de fructa, prin-
cipalmente de ameixas reinóes, com as quaes
sustentam os porcos. Produz tambem muito
linho e azeite.
Perto da serra do seu nome, ha uma mi-
na de cobre, com vestigios de ter sido la-
vrada.
Pela freguezia correm duas ribeiras, pelo
S. a das Mercês; e pelo O. a de Benemola,
que, depois de unidas, tomam o nome de
ribeira de Tór, a qual no inverno é cauda-
losissima, alagando as varzeas, arrancando
e arrastando as arvores, na sua corrente im-
petuosa, e causando outros prejuizos. Tem
uma grandiosa ponte de cantaria, muito an-
tiga, de cinco arcos. Depois se junta a esta
ribeira, a do Algibre!, passa sob a ponte da
Quarteira é desagúa no mar, junto á povoa-
ção d'este nome.
Na margem da ribeira Benemola, ha uma
fonte (com vestigios de ser construida com
magnificencia) que nasce debaixo de uma
rocha gigantesca, com tamanha porção de
agua e com tal violencia, que corta a ribei-
ra (que já alli é bastante larga e de muita
agua) e vae buscar a margem opposta. No
verão, quando sécca a ribeira, só a agua da
tal fonte dá para mover as mós de varias
azenhas. Diz-se que esta agua tem a virtude
de fazer expellir as sanguesugas que o gado
bebe em outras fontes, pois a agua d'esta
não as cria.
? Provavelmente corrupção da palavra
arabe Algezira, que significa Ilha. Ha na
Hespanha, sobre o Mediterraneo, e perto de
Gibraltar, uma cidade assim chamada.
QUE 23
Em março de 4754, morreu n'esta fre-
guezia, um lavrador chamado Simão Gon-
alves, morador no sitio da Bascinha, com
146 annos de idade, pois tinha nascido em
1638. Enviuvou aos 109 annos, ao fim de 50
annos de casado. Casou segunda vez, logo
no mesmo anno, e no seguinte teve uma fi-
lha. Nunca se sangrou, nem tomou remedio
algum de botica, e jámais consultou medico
ou cirurgião. Pouco tempo antes de morrer,
hia, a pé, ouvir missa à egreja, que é a dis-
tancia de 6 kilometros. Era muito trabalha-
dor, optimo atirador, e de muita bondade e
caridade. O seu sustento ordinario era pão
com mel, legumes, coelhos e perdizes.
O territorio da freguezia é fertil em todas
as producções agricolas do nosso clima, me-
nos em trigo e cevada.
No arredondamento de 1836, se juntaram
a esta freguezia mais as aldeias do Barran-
co do Velho, e do Sérro Alto, que até então
eram da freguezia de Salir.
Querença, no antigo portuguez, significa-
va bem querer, amor, boa vontade, etc. Tam-
bem diziam querencia.
QUERIMONIA ou QUERIMA— portuguez
antigo — queixa ou querella que do juiz in-
ferior se interpõe para o superior, ou para
o soberano. Depois se deu a isto o nome de
aggravo.
QUERQUENAE ou AQUAE QUERQUENAE
— Vide Querquenos.
QUERQUENOS — povos da Lusitania, de
cuja comarca era cabeça, a cidade de Aque
Querquene, a 70 kilometros de Braga, para
a parte da serra do Gerez. O nome d'esta ci-
dade suppõe-se ser derivado do latino quer-
cus, que significa o carvalho, por haver por
estes sitios grandes mattas d'estas arvores.
Ignora-se o local onde existiu esta cida-
de, da qual fallam Plinio, Ptolomeu e Pom-
ponio Mella. É provavel que fosse destruida
pelos suevos, no seculo v, e que fosse em
algum dos sitios onde ainda se veem varias
ruinas, sobre as margens da famosa Geira.
Vide esta palavra.
QUÊS—portuguez antigo— queres. Ainda
hoje, na Terra da Feira, os rusticos dizem
queês, por queres—alfés, por alferes—palmás,
por palmares, etc.
24 QUI
QUINAL—portuguez antigo—25 almudes.
Vide Puçal.
QUINDENIO — portuguez antigo — certa
quantia de dinheiro que de 15 em 15 annos
se pagava à curia romana, das egrejas an-
nexas aces conventos dos religiosos. A uni-
versidade de Coimbra tambem pagava a Ro-
ma o quindenio, pelas rendas que os ponti-
fices lhe annexaram.
- QUINHENTOS RÉIS —antiga moeda d'este
nome e valor. Parece ser a moeda de ouro
de cinco tostões, ou o Meio Vicente, do rei
D. Sebastião, ou de D. João III.
QUIAIOS — freguezia, Douro, comarca e
concelho da Figueira da Foz (foi da mesma
comarca, mas do concelho de Maiorca, sup-
primido) 40 kilometros ao ONO. de Coim-
bra, 210 ao N. de Lisboa, 950 fogos.
Em 4757 tinha 300 fogos.
-. Orago S. Mamede.
Bispado e districto administrativo de
Coimbra.
O prior de Santa Cruz de Coimbra apre-
sentava o vigario, que tinha 2008000 réis
de rendimento.
É povoação muito antiga e foi couto, ao
qual o rei D. Manuel deu foral, em Lisboa,
a.23 de agosto de 1514. (Livro dos foraes
novos da Extremadura, fl. 95, v., col. 4.º).
É terra muito fertil em todos os generos
agricolas do nosso paiz. É nesta freguezia
a celebre lagõa do Bom Successo.
« QUINCHÃES — freguezia, Minho, na co-
marca e concelho de Fafe (foi do mesmo
concelho mas da comarca de Guimarães) 30
kilometros, a NE. de Braga, 360 ao N. de
Lisboa, 280 fogos.
«Em 1757 tinha: 200 fogos.
» Orago S. Martinho, bispo.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
“A mira primacial apresentava 0 bbade;
que tinha 6008000 réis de rendimento.
- QUINCHOSO —portuguez-antigo — (ainda
usado nas provincias;do norte com a mes-
ma significação). Vide Chousa e Chousal.
« QUINGOSTA— Vide Congósta.
- QUINTA antiga freguezia, Traz-os-Mon-
tes, ha muitos annos supprimida, a qual,
com a dé Aldeia Nova, tambem supprimida,
QUI
estão unidas à freguezia da cidade de Mi-
randa do Douro.
QUINTA DA AMOREIRA — grande pro-
priedade, Alentejo, que foi dos antigos con-
des de Santa Cruz, junto à villa de Monte-
Mór-novo, e pertencente à freguezia de Nos-
sa Senhora do Bispo, da mesma villa (e d'es-
ta eram alcaides-móres os referidos condes).
É uma propriedade muito antiga, pois já
existia no reinado de D. João I. Tem gran-
des pomares e muito arvoredo.
Havia n'esta quinta uma antiquissima ca-
pella, em ruinas, não se sabendo a quem ha»
via sido dedicada.
Pelos annos de 1687, estando os condes
n'esta quinta, a condessa, D. Thereza Mos-
coso Osorio Mendonça Espinosa Gusmão
Sandoval e Roxas (filha do marquez de Al-
moçan, primogenito da nobilissima casa de
Altamira, em Hespanha) resolveu reedificar
a capella, desde os fundamentos, mandando
collocar no altar, a imagem de Nossa Senho-
ra da Penha de França, que ficou sendo a
padroeira da capella, e à qual se fazia uma
grande festa, no dia da Assumpção (15 de
agosto).
Antigamente havia aqui missa, em todos
os domingos e dias sanctificados, paga Belos
lavradores das immediações.
QUINTA DA BOA VISTA — grande pro-
priedade, Extremadura, na freguezia de Nos-
sa Senhora das Candeias (Purificação) de
Alguber, concelho do Cadaval, comarca de
Alemquer.
Patriarchado e districto adm. de Lisboa.
Esta quinta é o solar de um dos ramos da
nobre familia dos Mellos, cujo morgado, n'es-
ta quinta, foi instituido pelos annos de 1590,
por Gião Fialho. capitão-mór de Ceuta, e
commendador da ordem de Christo, e é hoje
| seu representante, o sr. José de Mello Car-
reia Fialho Lobo da Silveira, cavalheiro mui-
to bem quisto n'estes:sitios, pela sua affabi-
lidade e; exemplar comportamento. Erido
volume 1.º, pag. 130, col. 4.2).
QUINTA (ou BANHOS) DA CAVACGA —
Beira Baixa, no concelho de Aguiar da Bei-
ra, comarca de Trancoso,
Bispado de Viseu, districto administrati-
vo da Guarda.
SP O
QUI
Esta quinta foi de Diogo de Lemos, de
Pena-Verde, fallecido em 1873, e tio do sr.
José de Napoles Lemos Manuel, da illustre
casa de Sarzêédo, e um dos mais ricos e es-
clarecidos proprietarios d'estes sitios.
Ha "n'esta propriedade uma abundante
nascente de agua mineral, que ainda (que
me conste) não foi devidamente analysada,
mas à qual já concorrem muitas pessoas que
padecem. de rheumatismo ou de molestias
cutaneas, e que com os banhos da Cavaca
teem obtido curas maravilhosas.
O sitio dos banhos é pittoresco e ameno,
e a 3 Kkilometros passa a nova estrada de
Castendo, a qual villa fica a 10 kilometros
dos banhos, e onde já ha char-à-bancs para
Viseu e outros pontos da Beira.
QUINTA DA FOZ —Extremadura (mas ao
S. do Tejo) na freguezia e 3 kilometros da
villa de Benavente, e junto à valla que des-
emboca no Tejo, está esta grande proprie-
dade, que é muito antiga, e pertenceu aos
condes da Castanheira. Ha n'ella uma ermi-
da, tambem muito antiga, que foi primeira-
mente dedicada ao martyr S. Sebastião, e no
tempo de D. João III se lhe mudou o pa-
droeiro para Nossa Senhora da Esperança,
ou Nossa Senhora das Préces, e vulgarmen-
te Nossa Senhora da Foz. Tem trez altares.
Esta ermida foi reedificada por João do
Quental, e a deixou por sua morte, bem co-
mo a casa e quinta da Foz, ao rei D. João II,
que a deu a D. Antonio de Athaide, 1.º con-
de da Castanheira, que ficou, e seus descen-
dentes, padroeiros da ermida, nomeando-lhe
capellão, cuja congrua era paga pela real
fazenda.
A festa da Senhora fazia-se na 2.º oitava
do Espirito Santo, e era concorridissima.
A quinta da Foz; passou depois para a
casa dos marquezes de Cascaes. Tinha annos
que'dava ao dizimo 100 moios de pão!
(Vide volume 4.º, pag. 383, col. 2.º).
QUINTA DAS AGUIAS — Beira Baixa, na
freguezia de Sernache (ou Cernache) do
Bom-Jardim. (Volume 2.º, pag. 247, col. 2:23).
No artigo pertencente à villa da Certan
(ou Sertan) a pag. 252, col. 4.º do 2.º volu-
me, disse que a Quinta das Águias de hoje;
é o que foi mosteiro de capuchos de Santo
QUI - 25
Antonio. Não é. O mosteiro de capuchos de
Santo Antonio da Certan, é hoje propriedade
da camara, e estão n'elle diversas reparti-
ções publicas.
O mosteiro da mesma ordem a que hoje
se dá o nome de Quinta das Aguias ! é ou-
tro, e fica a uns 7 kilometros do anteceden-
te, e na freguezia de Cernache (como disse
no logar citado do 2.º volume).
Um individuo da Roda, de Santa Apolo-
nia, que enriqueceu no Pará,-comprou o
edificio do mosteiro e a sua cêrca, transfor-
mando isto em uma formosa vivenda, que
hoje possuem seus herdeiros, porque o bra-
zileiro é já fallecido.
Ao sr. Ivo Pedroso Barata dos Reis, illus-
trado cavalheiro e rico proprietario, da villa
da Certan, primo dos srs. conde do Casal
Ribeiro, e Carlos José Caldeira, devo o ob-
sequio d'esta rectificação.
O sr. Barata publicou em 1874 uma. Des-
cripção topographica da villa da Sertan,
offerecendo-me um exemplar, o que cordial-
mente lhe agradeço.
QUINTA DAS GANNAS — Douro, subur-
bios da cidade de-Coimbra. É uma bella
propriedade, e pittorescamente situada.
É desta propriedade que tomou o titulo
o seu actual possuidor, o sr. D. José Maria
de Vasconcellos Azevedo Silva e Carvajal,
feito visconde da Quinta das Cannas, em 25
de abril de 1865; e conde do mesmo titulo,
em 44 de junho de 1870.
E' pertença desta quinta a famosa Lapa
dos Esteios. (Vide 5.º volume, pag. 392, col.
1.º, no principio).
QUINTA DAS LARANGEIRAS—Vide La-
rangeiras. (4.º volume, pag. 53, col. 2.º).
QUINTA DE LAMPASAS ou LAMPAZES?
—Traz-os-Montes, na freguezia de Bouçoães
(volume 4.º, pag. 426, col. 1.º).
Nºesta quinta .está o templo de Nossa Se-
nhora da Ribeira (ou da Assumpção) que é
1 Chama-se quinta das Aguias, pelas duas
que tem sobre as hombreiras da porta prin-
cipal.
2 Parece-me que se devia escrever Lam-
paso, que é synonimo de verbasco, planta.
| Tambem póde vir de Lampas, que significa
f
ructas novas, ou temporans.
|
|
26 QUI
a egreja matriz da freguezia, e de construc-
ção muit? antiga. A festa da padroeira é a
15 de agosto, e a ella concorrem os povos
de Villartão, e de outros muitos logares cir-
cumferentes. )
QUINTA DO CASTELLO—antiga e peque-
na freguczia, Traz-os-Montes. Foi supprimi-
da ha muitos annos, e estã encorporada na
fregu»zia da Alfandega da Fé.
QUINTA DO COVÊLLO-—grande proprie-
dade, Beira Alta, na freguezia de France.
(Volume 3.º, pag. 226, col. 2.2).
Fica esta quinta 12 Kkilometros ao E. de
Viseu, e no áro da mesma cidade. É a pro-
priedade muito vasta e rendosa, povoada de
muitos pomares e arvores silvestres, vastas
terras de lavoura, com abundancia de agua,
o que faz o sitio fertil e agradavel.
Tem um bom chafariz e alguns tanques,
e uma espaçosa casa de habitação, com abe-
goarias e mais officinas. Tudo isto está bas-
tante descurado, por ter andado ha muitos
annos em poder de caseiros. À casa, sobre-
tudo, está em grande ruina. A capella tam-
bem carece de reparos, e ha mais de 30 an-
nos que n'ella se não diz missa, por falta de
paramentos, mas não está profanada.
São actuaes donos d'esta quinta, os filhos
de Miguel Pinto Serpe; mas a maior parte
pertence aos srs. doutor Valeriano e a seu
irmão Francisco : aos outros irmãos peque-
na parte da quinta coube nas partilhas.
Quando a possuiam Valeriano Coelho de
Sousa e sua mulher, D. Helena de Sá, edifi-
caram n'esta quinta, em 1630, uma ermida,
dedicada a Nossa Senhora da Expectação,
com sua tribuna, para d'ella ouvirem mis-
sa os senhores da casa. Esta ermida está
unida e vinculada ás casas da quinta, cujos
rendimentos e os de outras propriedades fi-
caram a seus successores, com a obrigação
de terem um capellão que em todos os sab-
bados, domingos e dias sanctificados, dis-
sesse missa ao povo; e tambem com obri-
gação dos reparos da capella, e de fazerem
à senhora uma boa festa a 18 de dezembro
de cada anno. |.
O primeiro successor de Valeriano Coe-
lho, foi seu sobrinho, Francisco Serpe de
Sousa, que annexou à casa da Senhora, ou-
QUI
tras fazendas, para que na capella se disses-
sem tambem missas em todas as sextas feiras
do anno, ficando esta capella erecta em ca-
beça do vinculo.
É a ermida de muito boa fabrica, com
uma linda capella-mór, com seu formoso al-
tar, onde está a imagem da padroeira, de
1» 32 de alto. Tem mais as imagens de Nos-
sa Senhora da Piedade e de S. João Evange-
lista; a de S. Valeriano, martyr, e a de San-
ta Helena, mãe do imperador Constantino
Magno.
Em frente desta quinta (que tambem se
chama dos Serpes, por pertencer aos fidal-
gos d'este appellido!) está um alto e alean-
tilado monte, e no seu cume existiu uma
ermida, dedicada a Nossa Senhora da Pena,
ou da Penha. Era tão antiga esta ermida,
que se ignorava a data da sua fundação.
Estando em ruinas, pelos annos de 1700,
se mudou para a planivie ao fundo do men-
te, mas encostada aos rochedos. É fabricada
pelos moradores do logar do Covéllo, que
com esta santa imagem teem particular de-
voção.
Esta ermida é de fabrica muito modesta,
e está sujeita à administração da junta de
parochia respectiva. A festa da Senhora, se
faz todos os annos, a 3 de maio, com arraial
muito concorrido. Não tem outras rendas
senão as offertas e esmolas dos fieis.
O campanario do sino está assente sobre
umas rochas, nas quaes se vê gravada uma
inscripção em caracteres desconhecidos.
QUINTA DO INFERNO — Extremadura, na
ribeira de Alcantara, suburbios de Lisboa.
Nesta quinta se estabeleceu uma excel-
lente fabrica de estamparia e tinturaria de
algodões, propriedade dos srs. Fonseca & C.*
Principiou a fanccionar em uma segunda
1 Serpe, foi um appellido nobre em Por-
tugal, que deixou de usar-se, não sei por
que. Descendem dos antigos Serpes, O sr.
barão de Proença-Velha, general de brigada,
e seu irmão o sr. doutor Rodrigo Pitta de
Menezes e Castro, de Caminha, conselheiro
do supremo tribunal de justiça e par do
reino.
QUI
Áeira, 24 de agosto de 18741. Os trabalhos ,
foram dirigidos pelo mestre e gerente que
foi da antiga fabrica da Cabrita, o sr. João
“Pedro Freire da Fonseca, e pelo sr. Manuel
«Je Sá Pimentel Leão.
O motor, bomba e parte das machinas,
foram feitos na fabrica dos srs. Philippe
Linder & €.º, de Lisboa, e o resto veio de
Inglaterra.
Tem abundancia d'agua, pelo que, duran-
te a estação invernosa, lhe serve de motor,
uma roda hydraulica.
Em 3 de agosto de 1877, foram despacha-
“das na alfandega de Lisboa, para esta fabri-
a, quatro caixas com machinas, cujos di-
geitos importaram em 9108000 réis.
Diz-se que esta propriedade se chamou
antigamente Quinta das Cruzes? e que, an-
“dando um dia por estes sitios à caça, o rei
D. João VI, viu muitas cruzes, e perguntou
aos que o acompanhavam: Isto é algum ce-
miterio?—respondeu um d'elles—-Não, real
senhor, é a Quinta das Cruzes. — O rei, al-
ludindo à escabrosidade do terreno, disse
-— Quinta do Inferno, lhe chamarei eu. —E o
mome lhe ficou até à actualidade.
Hoje não diria o rei similhante cousa, pois
ha alli uma magnifica estrada de circumva-
lação.
tum
Ha mais logares em Portugal com o nome
1 Parece que similhante dia foi escolhido
pelos proprietarios, para a abertura da fa-
brica! Sendo ella na Quinta do Inferno, de-
via principiar a trabalhar no dia em que o
diabo anda à solta.
2 O primeiro nome d'esta propriedade,
foi Quinta da Ribeira. Quando em 25 de
agosto de 1580, o duque d'Alba veio sobre
Lisboa, com um exercito de 22:000 caste-
lhanos, D. Antonio, prior do Crato, com 4:000
homens fieis e decididos, porém mal arma-
dos e indisciplinados, o veio esperar à pon-
te de Alcantara; mas foi facilmente derrota-
do, e teve de fugir. Os castelhanos fizeram
uma horrivel matança nos portuguezes, sen-
dô muitos dos mortos, enterrados n'esta
quinta, a qual, das muitas cruzes que alli se
collocaram: então, tomou o nome de Quinta
das Cruzes, que lhe durou por uns 240 an-
nos, vindo-o a perder pelo motivo que se de-
clara no texto.
QUI 27
de Inferno; o mais notavel, é na freguezia
de Fornos, concelho do Castello de Paiva, e
situado sobre a margem esquerda do Dou-
ro, em frente do ponto denominado Pedras
da Rua.
Nesta aldeia do Inferno, tambem chama-
da Castello de Baixo, ha um dolmen, de con-
strucção differente de todos os outros da Pe-=
ninsula, e o mais moderno de todos, pois
pertence: à idade do ferro. Vide Castello de
Paiva.
QUINTA DO MORANGAL—Douro, na fre-
guezia de Espinhel, comarca e concelho de
Agueda, bispado e districto administrativo
de Aveiro.
É uma boa propriedade, instituida em
morgado, por Francisco Pinto d'Almeida e
gua mulher -D. Leonor, em 1580. Para cabe-
ça do vinculo, mandaram construir, pelo
mesmo tempo, uma formosa capella, de bem
lavrada cantaria, que dedicaram a Nossa Se-
nhora da Esperança.
Passados annos, D. Christovam de Santa
Maria, conego regrante de Santo Agostinho,
do convento de Santa Cruz de Coimbra, &
filho dos instituidores, adornou a capella
com a máxima perfeição e sumptuosidade..
Os administradores deste vinculo, tinham,
pela instituição d'elle, obrigação, não só de.
repararem a capella, mas tambem de nella
mandarem dizer quatro missas cada anno,
pelas almas dos instituidores. Depois, o re-
ferido D. Christovam lhe impoz mais outra
“missa annual, por sua alma.
A missa prineipal era no dia de Nossa
Senhora da Expectação (18 de dezembro).
Era cantada, e esse dia era consagrado à
festa da Senhora.
QUINTA DO OUTEIRO-— era o antigo no-
me da actual villa e freguezia de S. Miguel
do Outeiro, na comarca e concelho de Ton-
della. Vide Miguel do Outeiro (S.) e Outeiro
(S. Miguel do).
Supponho que esta freguezia teve princi-
pio em uma quinta, que foi de Alexandre
Faleão de Bulhões, e na qual ha uma ca-
pella dedicada a Nossa Senhora das Neves.
O territorio d'esta freguezia é muito abun-
dante de aguas, mas excessivamente frio no
inverno; todavia é clima muito saudavel, é
O QUI
tem aqui fallecido muitas pessoas de mais
de cem annos de edade.
QUINTA DOS GASCGOS cu DOS CASCOS 1
—Alemtejo, na freguezia de Nossa Senhora
da Natividade de Machéêde, comarca, conce-
lho e 12 kilometros a E. d'Evora.
Arcebispado e districto administrativo de
Evora.
Pelos annos 753, morreu o rei D. Affon-
so I, de Leão, o Catholico 2, ?succedendo-lhe
seu filho, D. Fruela I.
Logo no principio do reinado d'este ulti-
mo monarcha, Abd-el-Rhaman, kalifa de
Cordova, invadiu e assolou a nossa provin-
cia do Alemtejo, matando ou captivando
grande numero de portuguezes, praticando
toda a sorte de atrocidades, e tomando-nos
Lisboa, Evora, Beja, Santarem, e todo o ter-
ritorio desde o Tejo até ao cabo de S. Vi-
cente.
Havia por esse tempo, na Lusitania, uma
familia de nobres cavalleiros, appellidados
Gascos, ou por serem naturaes da Gascunha
(França), ou, o que é mais provavel, por te-
rem fugido para aquella provincia, na ante-
cedente invasão dos sarracenos, e d'onde
depois regressaram à Lusitania, no reinado
victorioso de D. Affonso, o Catholico, o qual
com seu irmão, D. Frucia, resgatou muitas
cidades do poder dos mouros. 3
Os Gascos acompanharam o rei D. Fruel-
la I na guerra contra Omar, filho de Abd-
el.Rhaman, que se havia rebellado contra
seu pae. Os christãos o derrotaram, assim
como a Ali-Ben-Tarif, que se lhe oppoz,
proximo a Setubal.
1 Tambem alguns lhe dão o nome de Quin-
ta do Casco.
2 Cunhado e suecessor- de D. Favilla, que
morreu despedaçado por um urso, quando
andava à caça. D. Affonso era filho de D. Pe-
dro, duque de Biscaia e Navarra, e descen-
dente do santo rei Ricaredo,
* Segundo outros escriptores, eram Cas-
cos, e não Gascos, os cavalleiiros de que aqui
trato, e eram uns fidalgos da cidade de Evo-
ra, que foram morgados da Quinta dos Cas-
cos, à qual depois, por corrupção, se chamou
dos Gascos.
E cerio que em Evora houve uma nobre
familia, appellidada os Cascos, que foram (e
ainda hoje são, os seus herdieiros) senhores
d'esta quinta, como adiante :se verá.
QUI
A tres kilometros da Venda das-Brussei-
ras, e no actual districio da freguezia de
Nossa Senhora da Natividade de Machêde
(que já então existia, pois foi creada em
672)! havia umas .taes ou quaes obras de-
defeza, das quaes, ainda em 1750, se viam
alguns restos, e uma torre arruinada. Aqui
se fizeram fortes os christãos, e derrotaram.
os mouros.
Parece que os Gascos, ou Cascos, se dis-
tinguiram nas guerras d'aquelle tempo, pelo.
que D. Fruella lhes deu o senhorio da quin-
ta que d'elles tomou o nome.
Em 1360, era senhor d'esta quinta, Gil
Rodrigues de Vasconcellos, que, per provi-
são de D. Pedro I, a erigiu em morgado.
Como não tivesse filhos legitimos, succedeu
no vinculo, seu sobrinho, Gonçalo Casco,
rico-homem no tempo de D. João I. De Gon-
galo Casco, foi filho João Casco; d'este, Dio-
go Casco; e d'este, Antonio Casco. Este foi
pae de Diogo Casco de Vasconcellos, pae de
Ruy Mendes de Vasconcellos, que succedeu
no morgado de Machêde. Ruy Mendes casou
com D. Anna Manuel, filha de Gonçalves
Gomes de Mello, e d'elles nasceu D. Agosti-
nho Manuel de Vasconcellos, que morreu,
por traidor à patria, degolado na praça do
Rocio, de Lisboa, no dia 29 de agosto de
1642, juntamente com o duque de Caminha,
seu pae (o marquez de Villa Real) e o conde
de Armamar.
Gil Rodrigues de Vasconcellos, instituidor
d'este morgado, é que, tambem em 4360>
mandou edificar, para cabeça do vinculo,
uma capella da invocação de Nossa Senho-
ra dos Remedios, junto ás casas da quinta,
e encostada às ruinas da antiquissima torre
de que acima fallei. (Outros pretendem que
esta capella já existia desde o seculo vil, é
que, estando arruinada, por velha, Gil Ro-
-drigues sómente a reedificou).
Esta quinta está encravada na herdade
1 Esta fréguezia e a actual de S. Miguel
de Machêde, formaram uma só parochia,
erigida no tal anno de 672, e que durou até
1200, em cujo anno se desmembrou a de
S. Miguel, formando freguezia independente.
(Vide vol. 5.º, pag. 14, col. 1.º)
QUI
do Paço da Quinta, e é seu actual possui-
dor, e ultimo morgado, o sr. Francisco de
de Brito Casco Solys. Tem a quinta dos Gas-
cos um grande lago. As casas estão desman-
teladas.
Na capella de Nossa Senhora dos Reme-
dios, ainda se diz missa; mas a sachristia e
o côro estão em ruinas.
O dono d'estas herdades (são trez) man-
dou fazer varias obras n'ellas, ainda ha pou-
cos annos, nas quaes gastou mais de dois
contos de réis; mas não curou da capella.
O actual rendeiro da quinta, o sr. Manuel |
Perdigão Gallego, e mais outros devotos, é
que em alguns annos, mandam, à sua custa,
fazer uma festa à Senhora.
Estes sitios foram povoados desde os tem-
pos pre-historicos, pois que no Monte do
Outeiro, da freguezia de S. Miguel de Ma-
chéde, ainda existe um dolmen, e os res-
tos de mais trez, nas immediações d'este
monte.
O nosso distincto e estudioso archeologo,
o sr. Gabriel Pereira, achou, no fim do an-
no de 1877, no monte do Outeiro (serra
dºOssa) tres dolmens, situados nas herdades
da Candieira, das Thesouras, e das Vidiguei-
ras. O primeiro está no meio do caminho
que vae da villa do Redondo”para o mostei-
ro de S. Paulo, a 200 metros à direita da
estrada. O segundo fica no caminho da ser-
ra e campo da Palhêta, e no caminho de 5.
Miguel de Machéde. O terceiro está na parte
murada da herdade das Vidigueiras.
Estão todos bastante arruinados.
O mais notavel é o dolmen furado da Can-
dieira. Está entre um olival e um pinhal, a
300 metros da estrada; e é formado por seis
grandes lages de schisto (que é a formação
geologica d'estes sitios) tendo dois nretros
- de altura. À lage do fundo, tem, a pouco
mais de meia altura, uma abertura circular,
feita com regularidade, e visivelmente arti-
ficial.
É o primeiro monumento megalithico que
em Portugal se conhece com esta pariicula-
ridade; é ignora-se o mister d'este buraco;
todavia é de muita importancia para os es-
tudos archeologicos.
QUINTA ROTA —Vide Samouco.
QUI 29.
N. B. As mais quintas vão.
nas freguezias onde são si-
tuadas.
QUINTAN—freguezia, Traz-os-Montes, co-
marca e concelho de Villa Real (foi da mes-
ma comarca, mas do extincto concelho de
Erméêllo), 65 kilometros ao NE. de Braga,
360 ao N. de Lisboa, 130 fogos.
Em 1757 tinha 25 fogos.
Orago S. Bartholomeu, apostolo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Villa Real.
A causa do grande augmen-
to de população, é porque está
unida a esta, a extincta fre-
guezia de Villa Cova.
O vigario de S. Miguel da Pena e o reitor
de Torguêda apresentavam alternativamente
o cura, que tinha 102000 réis de congrua e
o pé d'altar.
Quintan, Quintana e Quiniãa, no antigo
. portuguez significava quinta.
QUINTAN e TOCHA (ou ATOCHA) —fre-
guezia, Douro, na comarca, concelho e pro-
ximo a Cantanhêde, 24 kilometros ao N. de
Buarcos, 6 a E. do Oceano, 24 ao O. de
“Coimbra, e 2140 ao N. de Lisboa, 600 fogos..
Orago S. João Baptista. 1
Bispado e districto administrativo de
Coimbra.
Foi do supprimido concelho de Cadíma.
O mosteiro de Santa Cruz, de Coimbra,
apresentava o parocho, que tinha 150000:
réis de rendimento.
Esta freguezia é officialmente conhecida
pelo nome de Tocha, corrupção de Atocha;
mas foram duas freguezias independentes,
ambas dos cruzios de Coimbra: a da Quin-
tan é muito mais antiga, pois que a da To-
cha foi d'ella desmembrada no principio do
seculo xvu1, ficando parochia independente.
Hoje formam, outra vez, ambas, uma só fre-.
guezia. Nenhuma d'ellas vem no Portugal
Sacro e Profano. provavelmente, por esque-
cimento, pois já existiam havia muitos an-
nos antes da publicação d'este livro.
1S. João Baptista é o orago da freguezia
da Quintan, e Nossa Senhora d'Atocha, o
da freguezia da Tocha.
30 QUI
É terra muito fertil em todos os generos
agricolas do nosso paiz.
Quintan, Quintãa, e Quintana é portuguez
antigo, o mesmo que Quinta. Quintanilha é
o seu diminutivo, isto é, pequena quinta,
qnintinha.
Origem do nome de Atocha
A imagem de Nossa Senhora da Atocha,
é copia fiel da que o apostolo S. Pedro man-
dou de Antiochia para Madrid, e estã na
egreja do mosteiro de S. Domingos da mes-.
ma capital.
Um fidalgo gallego, chamado João Garcia
Bacellar, natural de Ponte-Vedra, residia na
côrte de Hespanha, em casa de um seu tio
conego, pelos annos de 1585. Era muito de-
voto da Senhora da Atocha, de Madrid, e,
vendo-se certo dia em perigo imminente,
prometteu à mesma Senhora, se o livrasse
delle, de lhe mandar construir um templo,
em logar êrmo. A senhora ouviu 'os seus
rogos; mas, como João Garcia tinha então
apenas dez annos, adiou o cumprimento do
seu voto.
Morto o tio conego, foi Garcia para casa
de um outro seu tio, homem riquissimo, que
vivia em Portugal, na villa de Buarcos, ca-
sado, mas sem filhos. Tinha a mulher uma
sobrinha, chamada Maria da Silveira Cardo-
so, que casou com Garcia, doando lhes os
tios todos os seus haveres.
Pelos annos de 1610, vindo os noivos de
Aveiro para Buarcos, passaram por uma di-
latada planicie de campos e charnecas, cha-
madas então Gandaras, onde havia uma
quinta dos cruzios, de Coimbra, denominada
“da Fonte Quente (em razão de haver n'ella
uma nascente de aguas mineraes, tepidas) e
junto à quinta, a casa de um lavrador, que
foi o primeiro que reduziu parte d'esta pla-
nicie à cultura, por aforamento ao mosteiro
de Santa Cruz, que era senhor d'estes ter-
renos, e onde hoje se estende a freguezia da
Tocha.
João Garcia Bacellar, na intenção de cum-
prir a sua promessa, propoz ao lavrador o
dar-lhe um casal que tinha na Cadima, de
muito mais valor, por esta propriedade das
QUI
Gandaras, o que o lavrador acceitou, depois
de obtida a devida licença, dos conegos de
Santa Cruz, aos quaes João Garcia aforou
mais terrenos contiguos. 1
Fez logo aqui uma ermida, dedicada a
Nossa Senhora d'Atocha, mandando fazer,
em Madrid, a imagem, imitando a de lá.
Principiaram logo os povos d'estas redon-
dezas a ter uma grande devoção a esta Se-
nhora, pelo que era a sua ermida concorri-
dissima.
O geral de Santa Cruz e os padres da sua
congregação, tambem se tornaram muito de-
votos da Senhora d'Atocha, e resolveram
transformar a ermida em um vasto e sum-
ptuoso templo, o que levaram a effeito, lan-
çando-lhe a primeira pedra, o geral, D. José, '
em 1661.
Construido o templo, quizeram os religio-
sos trazer para elle a imagem da capella, ao
que se oppoz Maria da Silveira Cardoso, já
então viuva de Garcia; e para que os cru-
zios lh'a não roubassem, se poz de guarda,
com todos os seus creados e creadas, à ca-
pella.
Sendo geral de Santa Cruz, D. Luiz da Sil-
veira, tio do conde d'Oriola e barão d'Alvi-
to, offereceu à viuva, para que consentisse
na mudança da Senhora, dois dotes de frei-
ra, para duas suas filhas; mas nem assim
ella cedeu.
Passados tempos, casou uma das filhas,
com Manuel Ribeiro da Silveira, natural de
Aveiro. e que tinha em Santa Cruz de Coim-
bra muitos parentes, e um, a quem muito
estimava, chamado D. Bernardo de Santa
Maria, que depois foi bispo de S. Thomé e
Principe, e outro que era seu cunhado.
Todos os padres se empenharam com o
genro da viuva. para ella ceder, o que elle
conseguiu, em 14670, indo a santa imagem
em grande triumpho para a sua nova egre-
ja, fazendo -se-lhe n'esse acto uma festa so-
1 Este vasto territorio, foi dado ao mos-
teiro de Santa Cruz de Coimbra, por D. Af-
fonso Henriqnes, pelos aonos de 11440.
O mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, foi
principiado por ordem do mesmo monarcha,
em 4141436, em memoria da grande victoria
obtida pelos portuguezes, em 1134, contra
Al-Bucaram, rei de Badajoz.
|
QUI
temnissima, à qual concorreram, além de to-
| dos os padres do mosteiro de Santa Cruz,
com a sua capella de musica, os povos de
muitas leguas em redor, em numero de mais
de 20:000 pessoas.
A festa principal é a 2 de julho (dia da
Nisitação de Nossa Senhora) por ser o dia
da dedicação do novo templo; havendo en-
tão antigamente aqui uma grande e concor -
ridissima feira.
Vinham aqui muitos cérios e grands nu-
mero de bandeiras, de diversas freguezias
e havia cavalhadas, corridas de touros, e ou-
tros divertimentos proprios da época.
Este sitio, que, ha pouco mais de dois se-
culos, não era senão uma vasta charneca e
matagaes, está hoje transformado em bellos
e ferteis campos, hortas e pomares, povoado
de varias aldeias, e clima muito saudavel.
“Tambem é abundante de peixe do mar, que,
como já disse, fica apenas a 6 kilometros de
distancia.
No dia da festa, recebiam-se muitas e avul-
tadas esmolas, em dinheiro, cêra, gado e ou-
tros generos, que os cruzios applicavam pa-
ra melhoramentos do templo.
A capella-mór, de fórma circular, é ma-
«gestosa e sustentada sobre oito columnas de
marmore. Foi feita à imitação de uma que
está no claustro de Santa Cruz.
No centro da capella mór, está o altar
principal, e n'elle a imagem da Senhora, em
“um throno quadrado, e sobre uma charola,
de quatro columnas, de talha dourada, de
modo que se vê a santa imagem de todos
08 lados da capella-mór.
A historia d'esta Senhora da Atocha, e da
sua ermida e egreja, com todos os seus pro-
menores, foi escripta pelas madres soror'
Isabel dos Seraphins, e soror Antonia de
S. Franciscó, filhas de João Garcia Bacellar
-e de Maria da Silveira Cardoso, as quaes o
mosteiro de Santa Cruz dotou'(em cumpri-
mento da sua promessa, como fica dito) pa-
ra entrarem no mosteiro de Tentugal; e foi
publicada pelo padre D. Matheus de S. Thia-
go, conego de Santa Cruz, sobrinho das re-
feridas religiosas, e neto dos fundadores da
egreja.
QUI
A quinta que foi dos cruzios, doou-a 0 co-
nego, D. Francisco Cardoso da Silveira, ir-
mão das duas religiosas, e filho de João Gar-
cia e mulher, a seu sobrinho (neto do dito
João Garcia) Eusebio Ribeiro da Silveira,
que a transmittiu aos seus successores.
QUINTAN DE PÊRO MARTINS—freguezia,
Beira Baixa, concelho de Figueira de Cas-
tello Rodrigo, comarca de Pinhel (foi. do
mesmo concelho e da comarca de Trancoso),
75 kilometros ao SE. de Lamêgo, e 360 ao
E. de Lisboa, 120 fogos.
Em 4757 tinha 93 fogos.
Orago, o Espirito Santo.
Foi do bispado de Lamego, e quando se
creou o de Pinhel, ficou pertencendo a este.
Districto administrativo da Guarda.
O reitor de Penha d'Águia apresentava o
cura, confirmado, que tinha 502000 réis de
congrua e o pé de altar.
E” terra fertil em centeio, castanhas e li-
nho; do mais, pouco.
Cria bastante gado, de toda a qualidade, e
é abundante em caça.
QUINTANELLA — portuguez antigo —
Quintanella e Quintanilha, é diminutivo de
Quintan, ou Quinta.
Na camara de Braga havia antigamente
muitas villas (casas de campo) e aldeias
d'este nome. .
D. Flamula vendeu ao abbade Gonta, em
923, 1.0 seu logar de Quintanella. (Livro de
Mumadona, no cartorio da mitra de Bra-
ga.)
QUINTANILHA—freguezia, Traz-os-Mon-
tes, comarca, concelho, districto administra-
tivo e bispado de Bragança (foi do extincto
concelho do Outeiro) 35 Kilometros ao N. de
i
1 A pag. 457 do vol. 6.º, col. 2.º d'esta
obra, tratando de: Paradu de Gonta, disse
que se não sabia com certeza a etymologia
da palavra Gonta.
Não sabe.
Póde ser corrupção Gontra (contracção de
Gontroide—Gertrudes) mas, como se vê do
Livro de Mumadona, póde tambem ser—e é
o mais verosimil—nome proprio d'homem.
Talvez que algum Gonta, fundasse esta Pa-
rada, ou fosse senhor della, e lhe impozes-
se O seu nome.
31
32 QUI
Miranda do Douro, 475 ao N. de Lisboa, 45
fogos.
“Em 4757 tinha 26 fogos.
Orago, S. Thomé, apostolo.
O augmento apparente da população, não
é porque ella tenha crescido, mas sim por-
que se lhe annexou a pequena freguezia das
Veigas, que tinha em 1757, 18 fogos.
O cabido da Sé de Bragança apresentava
O cura, que tinha 63000 réis de congrua e
o pé d'altar.
A freguezia das Veigas, tinha por orago,
S. Vicente, martyr.
Era da mesma apresentação, e curato,
com o mesmo rendimento do de Quintani-
dha. ,
Tanto uma como outra d'estas duas pe-
quenas frguezias, são muito antigas.
Em um documento que existe no cartorio
da mitra de Bragança, do tempo de D. Af-
fonso IV (1340) se diz que o mampastor (vi-
de Mempastor) que o mosteiro de Moreirol-
la punha nas aldeias de Montezinhos, e
Quintanilha, conhecia tambem das causas
crimes, juntamente com os juizes de Bra-
gança.
Para o seu foral, e outras curiosidades, é
preciso ver Outeiro, villa, Traz-os-Montes,
no 6.º vol. pag. 358, col. 1.2 e seguintes.
E' na freguezia de Quintanilha, o sanctua-
rio de Nossa Senhora da Ribeira, que já fi-
ca descripto na referida villa do Outeiro.
QUINTANS-— aldeia, Douro, parte na fre-
guezia e concelho d'Ilhavo, e parte na fré-
guezia de Oliveirinha, concelho d'Aveiro;
ambas na comarca, districto administrativo
e bispado d'Aveiíro. (Vide Ilhavo e Oliveiri-
nha.
Os diversos governos dos nossos dias tem
feito varios arredondamentos, mas, como
n'estas operações só actuam os interesses do
campanario, tem-se feito annexações e se-
parações mais despropositadas do que as
antigas; e as que havia de outros tempos,
em condições impossiveis, deixaram se con-
tinuar. 1
1 Vide Entre Ambos os Rios (o 2.)—e
Lourêdo, a pag. 451, col. 22, do 4.º vo-
lume.
QUI
O 'povo d'este logar tem por varias vezes
requerido ao governo, para pertencer a uma
só freguezia, do mesmo concelho.
Em 12 de septembro de 1855, a junta ge-
ral do districto, por proposta do governador
civil d'então (o sr. Anthero Albano da Sil-
veira Pinto) reprezentou ao governo n'este
sentido, mas foi o mesmo que nada,
Ha n'esta aldeia uma formosa capella de-
“dicada ao apostolo S. Bartholomeu, construi-
da em 1868.
Em 149 de maio de 1835, no sitio da Praça
da Palha, se deu um facto, cuja recordação
ainda hoje horrorisa os povos d'estes sitios
-—é o seguinte:
O capitão de ordenanças, Manuel Antonio
Freire Craveiro, acompanhou 0 exercito rea-
lista até Evora. Fiado no estipulado na con-
venção d' Evora Monte (27 de maio de 1834)
regressou a sua casa; mas, avisado de que
o queriam prender, escondeu-se com seus
filhos, em casa de seu compadre, Bento Fra-
goso. Este, violando as leis sagradas da hos-
pitalidade, e esquecendo-se dos favores que
havia recebido de seu compadre, foi denun-
cial-o a Aveiro.
Marchou logo d'alli uma força que, cer-
cando a casa de Fragoso, prendeu o capitão
| 6 seus cinco filhos, e chegando ao sitio da
Praça da Palha, assassinaram a todos com a
mais cobarde e ignobil barbaridade !
Mas a divina providencia nem sempre
guarda o castigo dos crimes para o outro
mundo.
Um anno depois da traição, foi Fragoso
tambem assassinado a tiro. Talis vita, finis
ita.
QUINTANS— freguezia, Beira Baixa, bis-
pado, districto administrativo, comarca e
concelho de Castello-Branco.
Esta parochia foi ha muitos annos supri-
mida, e está annexa à do Salgueiro, no mes-
mo concelho, comarca, districto administra-
tivo e bispado.
QUINTAS — freguezia, Beira Baixa, co-
marca e concelho do Sabugal, bispado, dis-
tricto administrativo e 24 kilometros ao S.0.
da Guarda, 315 ao E. de Lisboa, 120 fo-
gos.
Em 4757, tinha 101 fogos.
QUI
Orago, S. Bartholomeu, apostolo.
O antigo nome d'ests freguezia é— Quintas
de São Bartholomeu.
O vigario da villa de Touro, apresentava
* o cura, que tinha 62000 réis de congrua e o
pé d'altar.
O seu clima é excessivo, e por isso pou-
co fertil. |
Muito gado e caça, e peixe do Côa.
QUINTAS — antiga freguezia, Traz-os-Mon-
tes, comarca e concelho de Mirandella, 60
kilometros de Miranda, 420 ao N. de Lisboa,
15 fogos.
Em 1757, tinha 16 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
A mitra apresentava o cura, que tinha
98000 réis de congrua e o pé d'altar.
Esta freguezia foi supprimida ha muitos
annos, e unida à de Mirandella.
QUINTELLA —- portuguez antigo— dimi-
nutivo de quinta. Significa, pequena quinta,
quintinha.
QUINTELLA (Torre de)—Está esta muito
antiga e nobre torre solarenga, na freguezia
de São Romão de Noguéira, na comarca dos
Arcos de Valle de Vez, concelho da Barca.
Foi o solar de um ramo dos Araujos.
E" hoje representante d'esta nobre fami-
lia, e dono da torre de Quintella, o sr. Anto-
nio Pereira da Costa Lacerda.
Vide a 4.º Nogueira, de pag. 104, col. 2.º,
do 6.º volume-—e Ponte do Lima.
Quintella é um appellido nobre deste rei-
no, tomado da aldeia d'este nome.
O 1.º barão de Quintella, tirou brazão d'ar-
mas, em 12 de outubro de 1806— e é —em
campo de púrpura, duas bandas d'escaques
douro, d'uma só ordem: êlmo daço, id
to. Não tem timbre.
O 1.º barão de quintella, foi Joaquim Pe-
dro Quintella, senhor da villa do. Préstimo,
alcaide-mór de Sortélha, do conselho .da rai-
nha, D. Maria 1, conselheiro honorario da
reál “fazenda, commendador da ordem de S.
Thiago, cavalleiro da ordem de Christo; in-
stituidor do morgado do Farrôbo (vol. 3.º,
| mulher.
QUI So
h2h4:3178687 (!) ao qual ainda depois uniu
a terça.
Em março de 182, succedeu na casa, à
seu tio materno, o desembargador Luiz Re-
bello Quintella; e tambem herdou a casa de
seus paes, Valente José Duarte Pereira, e D.
Anna Joaquina Quintella.
- O 4.º barão de Quintella, nasceu à 20 de
agosto de 1748, e falleceu no 4.º de outubro
de 1817.
Tinha casado, a 19 de novembro de 18014,
com D. Maria Joaquina Xavier de Saldanha,
filha. de Joaquim Lobato d'Araujo e Costa
(da casa de Juste, em Braga) e de D. Maria
Leonor Xavier de Saldanha.
Tiveram um filho e uma filha:
Joaquim Pedro, que foi o 2.º barão de
Quintella, e 1.º conde de Farrôbo.
D. Maria Gertrudes, nascida a 28 de maio
de 1797. Foi condessa da Cunha, levando
por dote, 240 contos de réis, que foram vin-
culados, por decreto de 8 de setembro de
1824.
O barão teve uma filha natural (D. Joa-
quina Rosa) que nasceu a 8 de novembro de
1793, e foi legitimada em julho de 1812.
Falleceu a 28 de julho de 1823.
Tinha casado, em 15 de setembro de 1816,
com Luiz da Silva Athaide, fidalgo da casa
real, coronel do regimento de milicias de
Leiria, filho de Miguel Luiz da Silva d'Athai-
de e de D. Victoria Manoel Carneiro da Cu-
nha Porto-Carreiro. (Vide Pombalinho.)
Esta senhora, quando casou, teve escri-
ptura dotal, do 4.º dagosto de 1816, pela
qual levou um vinculo no valor de 48 con-
tos de réis.
Seu marido falleceu a 20 de dezembro de
1823, pouco mais de 4 mezes depois de sua
O morgado de Quintella foi instituído a
| 23 de junho de 1801. t
O senhorio da villa de Préstimo, foi-lhe
| dado a 43 de dezembro de 18042.
O baronato de Quintella, a 17 de agosto
de 1805.
“ O condado de Favidho (isto é—o titulo
eee eme e uni
de conde de Farrobo) a 4 de abril de 1833.
pag. 151, col. 4.2, no fim) no valor de réis BU pra 5 coma Mtb q RA DDS (457
St QUI
O 2.º barão de Quintella, e 4.º conde do
Farrobo, foi Joaquim Pedro Quintella do
Farrobo.
Foi tambem o 2.º senhor da villa do Prés-
timo, alcaide-mór de Sortêlha, par do reino,
grão-cruz da ordem de Nossa Senhora da
Conceição de Vilia Viçosa, commendador de
S. Thiago, cavalleiro da de Christo, coronel
de milicias (de cavallaria), inspector geral
dos theatros, vice-presidente do conservato-
rio real de Lisboa.
Nasceu em 11 de dezembro de 1801; suc-
cedeu a seu pae, no 1.º de outubro de 1817;
casou à 19 de maio de 4819, com D. Marian-
na Carlota Lodi, dama da ordem de Santa
Isabel, nascida a 3 de dezembro de 1798, e
fallecida a 22 de julho de 1867.
D'este casamento houve 7 filhos.
4.º (por ordem de edades), D. Maria Joa-
quina, que nasceu a 20 de outubro de
1819.
2.º, D. Maria Carlota, nascida no 4.º de
janeiro de 1824.
3.º, D. Maria Magdalena, nascida a 18 de
abril de 1822.
4.º, Joaquim Pedro Quintella do Farrobo
(actual, e 2.º, conde do Farrobo, feito em 18
de maio de 1848) nascido a 18 de maio de
1823.
5.º, D. Marianna Hortensia, nascida a 3
de maio de 1825.
6.º, D. Maria Palmira, nascida a 9 de |
julho de 1826.
7.º, Francisco Jayme Quintella, nascido a
22 de setembro de 1827.
O 1.º conde do Farrobo, casou em segun-
das nupcias, com mademoiselle Pinault (da
qual já tinha filhos) em Lisboa, na fregue-
zia da Encarnação, a 7 de fevereiro de 1869,
e ainda vive esta senhora.
Elle falleceu, em Lisboa, a 24 de septem-
bro de 1869.
Foi o 1.º conde do Farrobo um dos fidal-
gos que maiores serviços prestou à causa
da liberdade, salvando -a, especialmente uma
vez, quando as guarnições da esquadra cons-
titucional se amotinaram-por falta de paga-
mento das suas soldadas. !
Foi tambem um dos industriaes mais ac-
tivos, animando a creação de muitas fabri-
cas, que hoje prosperam e que devem a sua
fundação à iniciativa do illustre tinado.
O 4.º conde do Farrobo era conhecido
egualmente como um dos homens de maior
gosto pelas bellas artes, com as quaes con-
sumiu grosso cabedal. Os bons artistas en-
contraram sempre no conde do Farrobo um:
protector incansavel e dedicado.
QUINTELLA—freguezia, Traz-os-Montes,
comarca e concelho de Vinhaes, 70 kilome-
tros de Miranda, 480 ao N. de Lisboa.
* O premio que tirou dos enormes sacri-
ficios que fez aos liberaes, foi dar cabo da:
sua casa, uma das maiores (senão a maior)
do reino, e deixar seus filhos na pobreza.
Ha poucos dias, e passados 45 annos de
reclamações e requerimentos (!) deram aos
filhos, como por esmola, uma insignificante
pensão!
O 1.º conde do Farrobo era em 1828 um.
grande realista; mas quando o governo do
sr. D. Miguel publicou em 412 e 18 de no-
vembro de 1831, o decreto do emprestimo
forçado, em cumprimento do qual se pedia.
ao então barão de Quintella 20 contos de
réis, a juro de 2 e meio por cento ao anno;
ao que elle se negou, e pelo que foi exauto--
rado de todas os suas honras e privilegios,
se declarou liberal.
Quem lucrou com isto, foi o partido do-
sr. D. Pedro.
Se o barão de Quintella não mudasse de-
opinião, seria infalivel a perda dos liberaes,
pois não tinham dinheiro, nem quem lh'o
-| emprestasse, e o futuro conde do Farrobo
lhes adiantou (pelo exclusivo do tabaco, por
tempo de 12 annos) 2:500 contos de réis,
em 10 de novembro de 1832.
Em abril de 1833, fez-lhes segundo em-
prestimo, de outros 2:500 contos. (Para evi-
tarmos repetições, veja-se o que disse no
7.º volume, pag. 357, col. 1.2, e sua nota.)
Os liberaes nem lhe deram o exclusivo do
contracto do tabaco, nem lhe pagaram, nem
acceitarim a auctoria na celebre e diutur-
na causa que ao conde propoz a sociedade
Lino 4 Pimenta; e foi d'este modo que ba-
queou.a enorme casa Farrobo.
O conde, em vista de tão negra ingrati-
dão, entregou ao sr. D. Luiz I todos os ti-
tulos e condecorações que havia recebido
dos liberaes, em 1867, e desde então protes-
tou assignar-se simplesmente barão de Quin-
tella, como seu pae.
QUI
Em 1757, tinha 40 fogos.
Orago, Santa Marinha.
Bispado e districto administratrativo de
Bragança. |
| - OQ reitor de Santa Mano apresentava O
* cura, que tinha 65500 réis de congrua e o
| péd'altar.
Esta freguezia está ha muito tempo uni-
da à de S. Julião de Paçô, no mesmo con-
celho. i
QUINTELLA-—aldeia, Traz-os-Montes, na
freguezia de Villa-Marim, comarca, conce-
ho, districto administrativo e proximo a Villa
Real.
Existe aqui uma torre antiquissima, bas-
tante arruinada.
Em um desgnho da mesma torre, que se
vê em um tombo, tambem muito antigo, se
lé por baixo do desenho, esta decima:
Junto a Villa-Real
Se vê uma torre antiga,
Que contra a hoste inimiga
Fez um conde, Portugal
Com mil foros; para a qual
Dita torre de Quintella,
Ainda hoje toda aquella
Visinhança reconhece
Dos foros o tombo a este.
E desta maneira ella.
Os dois ultimos versos nem por isso se en-
tendem lã muito bem.
Talves haja êrro de cópia.
QUINTELLA D'AZURÁRA—freguezia, Bei-
ra Alta, comarca e concelho de Mangualde,
18 kilometros de Viseu, 300 ao N. de Lis-
boa, 120 fogos.
Em 1757, tinha 104 fogos.
Orago, S. João Baptista.
Bispado e districto administrativo de Vi-
zeu.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
2502000 réis de rendimento.
E” terra pouco fertil, mas ha abundancia
de gado e caça.
QUINTELLA DE CÊA- aldeia, Beira Bai-
xa, na freguezia, comarca e concelho de Céa,
bispado de Coimbra, districto aotulstentã:
vo da Guarda.
QUI So
Ha n'esta povoação importantissimas fa-
bricas de lanificios.
Em dezembro de 1874, foram despacha-
das na alfandega de Lisboa, 20 caixas com
machinismo, para a fabrica da sr.º viuva
Montelano e Filhos, no valor de 1:7008000-
réis.
A 5 de janeiro de 1875, foi despachada na
mesma alfandega, uma machina completa
para cardar e manufacturar lan, para a fá-
brica, tambem de lanificios, dos srs. Antonio
Simões Pereira & C.:
QUINTELLA DE LAMPAÇAS — freguezia,
Traz-os-Montes, comarca, concelho, districto
administrativo e bispado de Bragança, 60
kilometros ao N. de Miranda, 455 ao N. de
Lisboa, 120 fogos.
Em 14757, tinha 101 fogos. .
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
A casa de Bragança apresentava o abbade,
que tinha 2508000 réis de rendimento.
E' povoação muito antiga, e gosava dos
grandes privilegios concedidos aos foreiros
da casa de Bragança, donataria d'esta fre-
guezia.
D. Affonso 3.º lhe deu foral, em Constan-
tim de Panoyas, a 9 de julho de 1252.
(L.º 2.º de Doações de D. Affonso TII, fl.
d0 v., e L.º de foraes antigos de leitura nova,
fl. 148 v., col. 1,2)
QUINTELLA DA LAPA —freguezia, Beira
Alta, concelho de Cernancêlhe, comarca de
Moimenta da Beira (foi da mesma comarca,
mas do concelho, supprimido, de Caria e
Rua) 35 kilometros ao S.E. de Lamego, 300
ao N. de Lisboa, 150 fogos.
Em 4757, tinha 140 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Viseu.
O reitor da villa de Rua, apresentava o
cura, que tinha 608000 réis de rendimento
e o pé d'altar. (Vide Lapa, villa).
N'esta: freguezia tem o seu nascimento o
rio Vouga (o Vucca dos antigos.) Vide o 1.º
Pecegueiro.
Esta freguezia está situada em parte da
penhascosa e desabrida Serra da Lapa, de
onde lhe vem o nome.
-E' povoação antiquissima, pois já existia
36 QUI
em 11814, quando os dez filhos de D. Mayor
Soares, doaram a sua mãe e a suas trez fi-
lhas, Dordia, Thereza, e Mayor, varias pro-
priedades que tinham no bispado de Lame-
go, sendo incluidas n'estas, dois casaes na
Quintela da Lapa.
Para evitarmos repetições, ver Ferreira
d' Aves, vol. 3.º, à pag. 172, eol. 2.23, e pag.
473.
Nossa Senhora da Lapa
Está este famoso sanctuario edificado na
serra do seu nome, e nos limites d'esta fre-
guezia, e proximo ao logar de Quintella.
Foi um dos mais celebres e concorridos
pelos nossos avós, tanto que delle tratam
muitos escriptores destinctos, e entre elles,
Jorge Cardozo (Agiologio Lusitano, tom. 1.º,
pag. 474); Frei Bernardo de Brito (Monarch.
Lus., parte 2.º, cap. 23); Frei Luiz dos An-
jos (Jardim de Portugal, pag. 130); Antonio
Leite (Hist. de Nossa Senhora da Lapa, livro
1.º, cap. 3); Frei Agostinho de Santa Maria
(Sant. Mar., tomo 3.º, pag. em e tomo 7.º,
pag. 382.)
Resumindo o mais que me foi possivel, o
que escreveram estes antiquarios, e deixan-
do de mencionar differentes factos, maravi-
lhosos, tratarei apenas do templo e da sua
padroeira, e dos factos que com isto tenham
relação. à
D. Ramiro III, de Leão, foi acclamdo rei,
por fallecimento de seu pae (D. Ordonho IV,
que apenas reinou um anno, porque morreu
em uma batalha contra os mouros, junto a
Córdova) foi acclamado rei, repito, quando
tinha apenas cinco annos de edade (967) e
sua mãe tomou conta da regencia, durante
a menoridade do filho.
Chegado à edade legal, D. Ramiro, tomou
conta do governo dos seus estados, mas em
breve teve contendas, que degeneraram em
guerras, com seu primo, D. Bermudo (filho
de D. Ordonho II) de Portugal e Galliza (de-
pois, Bermudo II, cognominado o Gotoso) é
com'os condes d'estes dois reinos.
Para poder 'com mais vantagem combater:
os seus inimigos christãos, fez tréguas com
o Kalifa de Córdova, o grande capitão Al-
(à guerra.
QUI
Mançor, mas, como: as não fez com o rei
mouro de Sevilha, este invadiu a Lusitania
(que já então se principiava a chamar Por-
tugal) e assolou muitas povoações, não reti-
rando para Andaluzia, senão quando as suas
tropas foram atacadas por uma grande peste
que as disimava (980).
As discordias continuaram com os portu-
guezes e gallegos, e Al-Mançor, em vista
disto, quebrando as tréguas, invadiu Portu-
gal (981) saqueando e assolando muitas po-
voações, sendo as principaes Coimbra, Por-
to, Braga, Vianna, e Britonia do Lima. Pas-
sou para o sul do rio Douro, e tomou Lame-
go, Viseu, e outras muitas povoações e cas-
tellos da provincia da Beira, destruindo os
templos e mais casas de oração, e martyri-
sando quantos frades e freiras poderam ha-
ver às mãos.
(Vide Seixas, do concelho de Villa Nova
de Foz Côa.)
Depois de destruir todas as terras d'estes
sitios, tomou o caminho de Trancoso, pelo
alto da serra de Pêra, atravessando 0 logar
onde hoje se vê a villa de Aguiar da Beira.
Deu em um mosteiro de freiras, fundado
junto ao logar de Sermillo (ou Decermillo)
no sitio onde ainda existe a capella de Nos-
sa Senhora do Mosteiro, assassinando ou ca-
ptivando todas as religiosas, e suas crea-
das.
Segundo a tradição, alguns capitães e al-
caides christãos, fizeram cara aos mouros
em uma planicie, a que hoje se dá o nome
de Campo do Desbarate ou da Matança, pro-
ximo ao logar do Souto, termo de villa de
Aguiar, e, apezar da desigualdade do nume-
ro, e à custa de muitas vidas, foram os mou-
ros derrotados, fugindo Al-Mançor, com os
que poderam escapar, para o mente'gu ca-
beço chamado de Al-Mançor.
Entretanto, a guerra continuava entre D.
Ramiro e D. Ordonho, tendo os condes e se-
nhores acclamado este pç como rei de
Portugal e Galliza.
Nesta desastrosa guerra morreu, tanto de
um como de outro partido,'a flor dos guer-
reiros 'christãos; e no ultimo combate, foi
mortó:D Ramiro II (985) o:que poz termo
Abriu El
QUI
Em 998, ainda o feroz Al-
Mançor tornou a invadir a
Galliza, mas o perigo commum
fez unir os principaes chris-
tãos, e D. Bermudo. II, com
os condes D. Forjaz Vermuiz,
e D. Garcia Fernandes, e ou-.
tros senhores, offereceram ba-
talha a Al-Mançor, nas plani-
cies. de Alcantanaçor (junto a
Osma). Al-Mançor ficou mor-
talmente ferido, e o seu exer-
cito foi completamente; anni-
quilado.
- Segundo os escriptores citados, e a tra-
dição popular, algumas pessoas que pode-
ram fugir a tempo, do mosteiro de Sermil-
lo, levaram: comsigo uma imagem da SS.
Virgem, com quem tinhamparticular devo-
cão, ea esconderam na serra, depois cha-
mada da: Lapa, entre quatro penedos, em
forma de gruta, onde esteve por espaço de
515 annos (desde 983 até 1498.)
“Uma menina, muda de nascimento, por
nome Joanna, natural do logar de Quintella,
andando na serra, a guardar o gadoide seus
paes, fei achar:na. tal gruta a imagem da
Virgem (1498) e a metteu na cêsta onde
guardava as maçarocas e o pão--porque a
imagem tem apenas 07,55 de altura,
Persuadia-se a creança que aquillo era
uma boneca, e a despia e vestia muitas ve-
zes ao dia, com as roupas que podia haver
(a imagem é de roca) e a:enfeitava com flo-
res, tanto no monte como em: casa, no que
empregava todo o seu tempo.
A mãe, zangada por isto, tirou a imagem
dlas mãos da filha, e hia deital-a ao fogo; mas
foi tal a afílição da filha, que cobrou, a falla, |
e-em altos brados disse claramente —«Tá !
não faça isso!»
A mãe ficou com os braços séccos e para-
Jíticos, e aos'seus gritos e da filha, accudiu
a Visinhança, que, sabendo do caso, conduzi-
ram; a santa imagem para a lapa onde ap-
parecêra, e para onde a menina guiou aquel-
la gente.
«sã Tá, portuguez. antigo — significa — sus-
pendal Tenha:mão!
VOLUME VIII
QUI * 87
Logo:que a Senhora foi collocada no sitio
onde tinha sido descoberta, ab a-mãe
de Joanna a saude:
Trataram logo os povos inte pg de
construir um altar à Senhora, dentro da
mesma lapa, e Bi E] amais fer-
vorosa devoção.
Em: breve a fas: dos ida sá axilas
Senhora'da Lapa (que assim se ficom deno-
minando) attrahiu ao sitio, não:só osipovos
da Beira, mas ainda os detodo o reinope até
da Castella-Velha, que:é:a provincia hespa-
nhola: que. fica mais: perto; tendo logar as
continuas romarias, desde a Paschoa do Es-
pirito Santo, até outubro decada anno.
Como producto das avultadas offerendas
à Senhora, se lhe construiu um magestoso
templo, conservando-se a lapa, no mesmo
estado em que se viu em 1498, e fica na ca-
pella-mór, do lado da Epistola.
O altar do devotissimo Menino Jesus da
Lapa, fica tambem encostado ás pedras que
formam a capella da Senhora.
Em poucos annos se tornou: o: Sanctuario
de Nossa Senhora da Lapa, não só o mais
formoso : da Beira, mas ainda de todo o
reino.
Santo Ignacio de Loyola, instituiu a fa-
mosa Companhia de Jesus, em 1534, no rei-
nado de D. João: III, e este monarcha em bre-
ve admittiu esta ordem: em Portugal, esta-
belecendo-lhe muitas rendas, para sustento
da congregação, epara ni das suas
egrejas e collegios.
Como eram: grandes os sondas do
Sanetuario de; Nossa: Senhora da Lapa, os
deu o rei aos jesuitas,' com a obrigação. de
darem metade á universidade de Coimbra.
Pelos annos: de 4700, deram: os padres da
Companhia, junto ao. Sanctuario, principio
a um grande collegio, que x não se ag a
concluir.
Pela extincção-dos jesuitas (1759) “pie
todas as rendas para a universidade!
- Entre os quadros e mais objectos, memo-
rando os milagres da Senhora, se vê, pen-
durada de uma-das traves de ferro da egre-
| ja, a pelle de um crocodilo, que um devoto,
natural. destes sitios, matou na India e offe-
receu à Senhora.
3
38 + QUI
A descrença dos nossos dias, teh feito
decahir muito a concorrencia dé devotos
ao templo de Nossa Senhora da Lapa, mas,
se não é nem metade do que era ha um se-
culo, ainda esta egreja é uma das mais fre-
quentadas da Beira.
QUINTIÃES on QUINTAEE ee freguezia,
Minho, comarca e concelho de Barcellos, 24
kilometros ao O. de Braga, 360 ao N. de Lis-
boa, 120 fogos.
Em 4757, tinha 104 fogos.
Orago, Santa Maria (Nossa Senhora do 0").
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O D. abbade benedictino do convento de
Carvoeiro, apresentava o vigario, que tinha
de rendimento 1005000 réis, e o pé de al-
tar.
E' n'esta freguezia a casa e torre solaren-
ga de Aborim, na qual viveu Lourenço Go-
mes de Aborim, e que depois passou aos
Barbosas.
Em 19 de maio de 1638, morreu na Ba-
hia, o valoroso capitão, Sebastião do Souto,
natural d'esta freguezia, e que no Brasil foi
o terror dos hollandezes. Morreu em um
combate contra elles, ferido mortalmente,
com uma bala no peito, na noite que pre-
cedeu o referido dia; mas deixou bem vin-
gada a sua morte, pois que n'esse e n'outros
combates, assaltos e batalhas, havia morto ou
aprisionado grande numero de inimigos.
É terra fertil, e cria muito gado de toda
a qualidade. (Vide Rans).
QUINTIÃO — aldeia, Beira Alta, na fre-
guezia de Cambres, comarca, concelho e 3
kilometros ao NO: de Lamego.
É povoação mais antiga do que a monar-
chia portúgueza, e tinha aqui varias pro-
priedades Pedro Viegas, que, por consenti-
mento de D. Affonso I, vendeu, em 14163, a
D. Thereza Affonso. (Vide Cambres, a pag.
3 do 2.º volume, e Magueija, a pag. 34 do
volume 5.º)
Esta povoação está situada em terreno
aprazivel, fértil e saudavel, entre a antiga
estrada de Lamego à Varosa (em frente da
Régua) e a nova, ultimamente construida,
como complemento da de Trancoso à Régua, |
pela margem esquerda do rio Varosa.
QUI
É nesta aldeia a excellente casa e boa.
quinta, que foi do conselheiro Antonio José
da Costa, rico proprietario e capitalista.
QUINTINO (São) —freguezia, Estremadu-
ra (Riba-Tejo) comarca de Villa Franca de
| Xira, concelho de Arruda dos Vinhos (foi
do extincto concelho de Sobral de Monte
Agraço, comarca de Alemquer), 30 kilome-
tros ao ENE. de Lisboa, 640 fogos.
Em 1757 tinha 420 fogos.
Orago Nossa Senhora da Piedade e S. Quin-
tino.
Patriarchado e districto administrativo de
Lisboa.
A mitra patriarchal apresentava o vigario,
collado, que tinha 1508000 réis.
Esta freguezia é de clima saudavel, por
estar em um alto, e muito fertil.
A egreja matriz é um bom templo, man-
dado construir pelo rei D. Manuel, em 1520.
Ainda ha quatro ou cinco annos, aqui vi-
via (e não sei-se ainda vive) Maria Joanna,
que nascera em 1759. É avó da mulher do
sr. Manuel Dias dos Reis, proprietario e ne-
gociante na villa da Alhandra.
QUINTOS—freguezia, Alemtejo, concelho,
comarca e proximo de Beja, 70 kilometros
ao O. d'Evora (a cujo arcebispado perten-
ceu), 155 ao S. de Lisboa, 240 fogos.
Em 4757 tinha 203.
Orago Santa Catharina, virgem e martyr.
Bispado e districto administrativo de Beja.
A mitra apresentava o cura, que tinha
540 alqueires de trigo, de renda annual.
É terra muito fertil em toda a qualidade
de fructos do nosso paiz, cria muito gado de
toda a qualidade, e é abundante de caça.
É aqui a 24.º estação dos caminhos de
ferro do sul e suêste, contando da estação 4
do Barreiro, e comprehendendo as estações
do ramal de Setubal.
Fica esta freguezia 6 kilometros ao O. do
Guadiana, e 35 ao O. do rio Chança, que di-
vide, n'estes sitios, Portugal da Hespanha.
Antigamente eram os Quintos a ultima po-
voação de Portugal por este lado (hoje é Fi-
calho, ou Villa Verde de Ficalho) e por isso,
quando os nossos paes se zangavam com al-
guem e o não queriam:mandar para O iD-
ferno, diziam: Vae para os Quintos. Ainda
RAB
hoje nas provincias do norte se roga esta
praga.
QUIRAZ—Vide Queiraz.
QUITERIA DE MÉCA (Santa) —Já a pag.
60, col. 2.2, do 3.º volume fallei d'esta fre-
guezia, sob a denominação de Espiçandeira
e Méca. Aqui acerescento mais o seguinte :
RAB 39
Em 21 de outubro de 1873, falleceu em
Santa Quiteria de Méca, Francisco Xavier
de Lemos Castello Branco, filho dos viscon-
des do Real Agrado, e irmão do elegante
prosador e mavioso poeta, o sr. João de Le-
mos Seixas Castello Branco. (Vide Real-
Agrado.)
R
-
R—como letra numeral, valia antigamen-
te 800, e com um til por cima, 80:000. Tam-
bem valeu algum tempo 40. (Em um livro
da Torre do Tombo, copiado em tempo do
rei D. Duarte, 1433 à 1498, se vê escripto—
Era de HI'RV annos, por 1345-—mas no ori-
ginal estava — E.MCCCXLV, como nós hoje
escrevemos.
RABAÇA—rio, Traz-os-Montes, que nasce
na Galliza, e junto ao Ragua, entra no Túa.
Vide Ragua.
Dá-se-lhe este nome, em razão das mui-
tas rabaças (plantas aquaticas) que cria nas
suas margens.
RABAÇA—freguezia, Beira Baixa, conce-
lho, comarca e 48 kilometros da Guarda (foi
da mesma comarca, mas do extincto conce-
lho de Jarméllo), 324 kilometros a E. de Lis-
boa, 37 fogos.
Em 1757 tinha 44 fogos.
Orago S. Martinho, bispo.
Bispado e districto administrativo da
Guarda.
O prior de Santa Maria de Jarmêéllo, apre-
sentava o cura, que tinha 100 alqueires de
centeio, 2 de trigo e 2 almudes de vinho.
Esta freguezia foi supprimida ha muitos
annos, e annexa à de Jarméllo.
RABAÇAL — freguezia, Beira Baixa. Foi
antigamente do concelho supprimido de Ma-
rialva, comarca da Meda; depois, passou a
ser do concelho da Meda, comarca de Villa
Nova de Foscôa. Em 24 de outubro de 1855,
passou para o concelho de Foscôa, e, final-
mente, em 48 de dezembro de 1872, ficou
pertencendo ao concelho da Meda, comarca
de Foscôa, 60 kilometros ao SE. de Lamego,
360 ao NE. de Lisboa, 130 fogos.
Em 4757 tinha 94 fogos.
Orago S. Paulo (a conversão de S. Paulo).
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo da Guarda.
O abbade de S. Thiago, de Marialva, apre-
sentava 0 cura, que tinha 68400 réis de con-
grua e o pé d'altar.
É terra pouco fertil. Muito gado e caça.
Todos sabem que rabaçal, significa logar
onde ha muitas rabaças. Vide Rabaça, rio1.
RABAÇAL — villa, Douro, no concelho de
Penella, comarca da Louzan (foi cabeça de
um concelho, extincto por decreto de 6 de
março de 1852),? 24 kilometros ao S. de
Coimbra, 180 ao N. de Lisboa, 150 fogos.
Em 1757 tinha 35 visinhos. 3
Orago Santa Maria Magdalena.
Bispado e districto administrativo de
Coimbra.
A universidade de Coimbra, por coneur-
so, apresentava o cura, que tinha 308000
réis de congrua e o pé d'altar.
É povoação muito antiga, e já povoada no
1 Na nossa Ilha da Madeira, ha tambem
um rio chamado Rabaçal.
2 Quando era cabeça de concelho, perten-
cia à comarca de Soure.
O primeiro nome d'esta villa foi Ladeya,
ou Ladéra.
* Estou persuadido que é erro do Poriu-
gal Sacro. Esta villa era mais importante no
meiado do seculo passado do que é hoje, pelo
que não me parece provavel que ella tenha
augmentado em população, mais de tres
quartas partes.
40 RAB
“tempo dos mouros, e ainda a pouca distan-
“cia da villa ha um logar chamado Alcala-
-mougque, corrupção das palavras arabes al-
«calá (fortaleza ou castello) e mocamo (logar
-santo) e vem pois a significar Castello da
Mesquita. Todavia, o mais antigo documen-
to que achei desta villa, é de 1139. É uma
doação que D. Affonso Henriques fez, em
junho d'esse anno, às donas (freiras) de Cel-
las, a par da ponte de Coimbra, de uma her-
dade no sitio da Ladeya, quae vocatur Ra-
bazal.
Quando D. Affonso Henriques foi dar a
gloriesa batalha do Campo d'Ourique (25 de
julho de 1139) já Leiria, Ourem, Ega, Redi-
nha, Soure, Pombal, Zêzere, Cardiga, Castel-
lo d'Almourol, Céra, Penella, esta-villa do
-Rabaçal, e outras terras ao sul de Coimbra
“eram dominadas pelos portuguezes.
Em 11141, o conde D. Henrique e sua mu-
lher, a rainha D. Thereza, deram foral à vil-
la de Soure, o que prova que já este terri-
torio tinha sido resgatado do poder dos mou-
ros; mas, pela doação que a mesma D. The-
“reza fez, em 1128, da referida villa de Sou-
-re, aos cavaleiros do Templo, lhe dá todas
“as terras entre Coimbra e Leiria, que então
“estavam despovoadas, porém ainda em poder
dos mouros.
D. Affonso Henriques tomou Leiria em
1135; Ourem em 4136, e em 1137.já deu fo-
yal à villa de-Penella; portanto, é incontes-
tavel que o Rabaçal foi resgatado em 1135.
O primeiro foral d'esta villa, foi-lhe dado
pelos templarios, em 2 de maio de 4222. 1
1 Existem bullas dos papas Honorio III,
Celestino IV, Alexandre IV e Urbano IV,
“que eximiam da sujeição episcopal as egre-
jas e castellos de Ega, Redinha e Pombal,
que os templarios haviam construido.
Supprimida a ordem do Templo, foi o Ra-
baçal transformado em uma commenda da
ordem de Christo, e dada aos condes e se-
nhores de Tentug gal (hoje duques do Cada-
val) e era da correição do ouvidor de Ten-
tugal, no tempo em que a villa possuia 0
magistrado d'esta ' denominação. Os condes
de Tentugal, eram tambem senhores da Pó-
“voa de Santa Christina, onde está o mosteiro
que foi de franciscanos, fandado pelo leigo,
frei João de Lamego, e com esmolas do in-
fante D. Pedro, irmão do rei D. Duarte.
RAB
Está impresso no tomo 4.º das Dissertações
chronologicas, a pag. 271.
O rei D. Manuel lhe deu foral novo, em
Lisboa, a 48 de julho de 1514. (Livro de fo-
raes novos da Extremadura, fl. 72, v. col. 1.2)
A villa do Rabaçal está sobre a estrada
velha, de Coimbra para Lisboa, estendendo-
se por uma planicie amena e saudavel.
Ainda que os seus arrabaldes sejam muito
pedregosos, são todavia bastante alegres e
ferteis; e, como os terrenos d'esta freguezia
e immediatas são calcarios, produzem gran-
de colheita de cereaes e bom azeite. Tambem
criam muito gado, e ha bastante caça. Opti-
mos queijos.
Quando a villa do Rabaçal era cabeca de
concelho, pertencia-lhe a villa do Pombali-
nho, que fica 7 Kkilometros ao sul, e cujo
priorado era do padroado dos frades Der -
nardos do mosteiro de Ceiça, antes de 0 ser
da universidade.
Tambem aqui tinham muitos Pio Os con-
des d'Almada, descendentes de D. Antão de
Almada, um dos heroes de 1640.
O concelho do Rabaçal era composto de
cinco freguezias, com 4:200 fogos. Na sua
suppressão passaram para o concelho de
Soure, as freguezias de Pombalinho e Degra-
cias, e para o de Condeixa, as d'Alvorge,
Rabaçal e Zambujal. Por decreto de 27 de
julho de 1853, passaram as freguezias de Al-
vorge e Rabaçal para o concelho de Penella.
Entre as freguezias que formaram o anti-
go concelho do Rabaçal, está encravada a de
Tapeus, que era do concelho do Pombal, já
no districto administrativo de Leiria; e que,
depois de muitas representações, passou pa-
ra a comarca e concelho de Soure, no distri-
cto administrativo de Coimbra.
Os moradores do Rabaçal, tinham antiga-
mente o privilegio de não pagarem fintas, e
seus gados podiam pastar livremente nas
coutadas, sem serem obrigados a livramen-
to ou coima, mas só pagavam o damno, se
o houvesse.
RABAL—freguezia, Douro, concelho e co-
| marca de Bragança, 54 kilometros ao N. de
RAB
Miranda do Douro, 500 ao N. de Lisboa, 86
fogos. Em 14757 tinha 91 fogos.
Orago S. Bartholomeu, apostolo.
A casa de Bragança apresentava 0 reitor,
que tinha 503000 réis e o pé d'altar.
É terra pouco fertil, mas cria bastante
gado de toda a qualidade, e nos seus mon-
tes ha bastante caça.
RABALHA, RABHALVA e RABEHABRA
—medida antiga, de solidos e liquidos, da
cidade do Porto. Diz-se que tomou este no-
me, da freguezia de Ramalde (suburbios do
Porto) onde primeiro foi usada. Acho mais
provavel que se dissesse—medida do arra-
balde, que simplificando-se e corrompendo-
se, se chamou rabalha. Além d'isso, vê se
em documentos do seculo x1v, que esta me-
dida era usada em outras muitas terras do
reino.
RABÁS ou RABAZ — portuguez antigo —
ladrão. Lobo rabaz, vem do latino lupus ra-
paz. Ainda hoje temos o substantivo rapa-
cidade, que é da mesma origem.
RABEL ou RABIL—portuguez antigo—o
mesmo que arrabil, pequena rebeca, usada
pelos pastores. Na nossa ilha da Boa-Vista
(Cabo Verde) ha uma freguezia chamada
Rabil, fica na costa.
RABÉLLO — nome que se dá aos barcos
que navegam no Douro; em razão de terem,
em vez de léme, uma monstruosa espadella,
que é um madeiro em fórma de rêmo, quasi
tão comprido como o mesmo barco.
Os lémes ordinarios nada fariam contra a
corrente impetuosa d'este rio; e mesmo as-
sim, nos pontos, é preciso que toda a tripu-
lação (nos barcos maiores 14 e 46 homens)
vá à espadella, e nem sempre evitam um nau-
fragio, pois todos os annos se despedaçam
muitos barcos contra os rochedos que erri-
cam 0 Douro.
À ré d'estes barcos, ha uma especie de va-
randa (uns sete ou oito palmos mais alta do
que o leito do barco) a que elles chamam
pégada, d'onde sustentam a espadelia e go-
vernam o barco.
Da configuração destes barcos, com a sua
immensa espadella, em fórma de rabo, lhes
veio o nome de rabélios, que é como se dis-.
sesse rabudos.
RAB h4
O nome de rabéllos, foi, com o tempo,
passando aos tripulantes, e por fim aos ha-
bitantes do Alto Douro.
Os barcos rabellos são os mais frageis e
desgraciosos de Portugal; qualquer pancada
os faz em pedaços. A madeira do fôrro não
é lavrada nem pintada, e as tábuas, são ape-
nas sobrepostas umas ás outras.
Por maiores que sejam, não teem senão
uma vella, mas esta é de proporções enor-
mes. Os maiores barcos podem trazer 80 pi-
pas cheias.
Aos barcos do Douro que não teem péga-:
da (mas todos teem espadella) dão o nome
de rodeiros. Estes são mais pequenos, e, or-:
dinariamente, servem para conduzir fructas,
madeiras, carvão, lenha, carqueja, etc.
Os barcos do Tejo e do Sado, que nave-
gam em rios sem pedras, são muito mais so-
lidos, cintados com grossas chapas de ferro,
e fortemente encavernados. Ao mesmo tem-
po são muito elegantes, pintados e aceiados.
Os barqueiros é que não ficam a dever nada,
quanto a grosseria, aos dos barcos rabéilos,
Em se concluindo o caminho de ferro do
Douro, ninguem de certo se torna a querer
arriscar aos perigos de uma viagem pelo:
rio, nem a mandar por elle as suas Rirena
das, para baixo ou para cima.
Vide Rebêllo.
RABUDOS — Os portuguezes chamavam
aos castelhanos rabudos; e estes, em o
ra, chamavam-nos judios. *
Dois fundamentos tiveram os portuguezes
para a alcunha de rabudos que impozeram
aos hespanhoes: o primeiro foi a balella que
correu, de que a rainha D. Brites, mulher:
de D. Affonso III, nascera com rabo! ?
Isto foi tão geralmente acreditado, que o
nosso rei D. Sebastião, no 1.º de agosto de
1 Os francezes tambem chamam vabudos
aos inglezes: isto, tomado de uma palavra
equivoca, que tanto póde significar rabudo,
como bizarro, guapo, gentil, etc.
2 D. Brites, descendia, por sua mãe, da
nobilissima casa de Gusmão; e os hespanhoes
diziam que muitos membros d'esta familia,
nasciam com rabo! Foram pois os nossos vi-
sinhos que tiveram a culpa de lhe pôrmos a
alcunha de rabudos. )
h2 RAG
1569, fez abrir todas as sepulturas dos reis
que estão sepultados em Alcobaça, sob pre-
texto de ver o estado dos seus corpos, mas,
na verdade, só para se desenganar se a rai-
nha D. Brites era rabuda. Viu-se que era
uma grande pêta. O segundo motivo foi por
que a tal D. Brites foi que introduziu em
Portugal a moda hespanhola das cottas de
rabo ou caudatas, trajo só usado pelas mulhe-
res da familia real e pelas grandes senhoras.
Como D. Brites usava dos taes vestidos de
cauda, e os portuguezes nunca tinham visto
semelhante cousa, entraram a dizer que a
rainha tinha rabo; e assim passou à poste-
ridade o falso testemunho, transformando-se
o enfeite em defeito natural. Hoje, todas as
senhoras portuguezas são rabudas; e quan-
to maior fôr a cauda, mais elegancia signi-
fica.
Em alguns documentos antigos tambem se
chamava letra rabuda, à gothica.
RACO— herdade, assim chamada, no Alem-
tejo, freguezia do Cercal, comarca e conce-
lho de Odemira (vol. 2.º, pag. 241, col. 1.º).
A herdade do Raco, fica a 3 kilometros da
egreja do Cercal, e é situada à beira da es-
trada que da freguezia vae a Odemira. É
hoje apenas uma granja (monte, como alli
lhe chamam) de pouca importancia; mas,
segundo a tradição, foi uma colonia impor-
tante fundada pelos phenicios, e depois ha-
bitada pelos carthaginezes, e pelos romanos,
que exploravam aqui abundantes minas de
cobre, ferro e outros metaes; o que se pro-
va pela grande copia de escorias que se veem
n'estas immediações, e demonstra que esses
metaes eram aqui mesmo fundidos, para
facilmente poderem ser transportados a ou-
tras localidades.
É um sitio ameno, aprazivel e fertil, po-
voado de frondosas arvores, principalmente
vetustos e gigantescos castanheiros, alguns,
talvez, contemporaneos dos romanos.
Por muitas vezes se teem aqui achado se-
pulturas, ossos humanos, armas, ferramen-
tas e outros objectos antiquissimos, alguns
cujo uso e utilidade actualmente se ignora,
e todos grandemente oxidados. |
Pelo grande numero de sepulturas que se
RAI
rios (de barro, de vidro, e até de prata) can-
| deias, amphoras, anneis, tijolos, telhas, bra-
celêtes, machados e ferros de lanças, de co-
bre e ferro, vê-se que era uma colonia mui-
to populosa, e que os povos antigos aqui fi-
zeram uma diuturna residencia.
O virtuoso e esclarecido bispo de Beja,
D. Frei Manuel do Cenaculo Villas Boas,
aqui mandou fazer algumas escavações, com
bom resultado, e os objectos archeslogicos
então encontrados, se acham actualmente no
museu de Evora. ;
Quem percorrer os arrabaldes dio Raco,
fica assombrado dos immensos trabalhos de
exploração que se fizerara aqui, principal-
mente nas serras da Mina, e do Rosalgar.
São obras verdadeiramente collossaes, e cus-
ta a comprehender como homens com tão
poucos meios dynamicos, e só à força de
braços, levassem ao cabo, trabalhos tão es-
tupendos, e que só vendo-se se póde d'elles
fazer idéa.
Os sêrros que cercam a herdade do Raco,
estão todos minados, em difierentes sentidos,
assemelhando-se a cidades subterraneas.
É provavel que os arabes ampliassem as
obras dos mineiros que os precederam.
RADAR ou RODAR—(a vinha) portuguez
antigo — tambem se “dizia redrar e redar.
Era cavar a vinha segunda vez.
Hoje na Terra da Feira, em Arouca, Pai-
va e outras terras, dá-se á segunda sacha do
milho, o nome de arrendar, evidemtemente
corrupção de rodar.
Vem do antigo portuguez rédra, que si-
gnificava defeza (redrar, o mesmo que am-
parar, ou defender) e como na segunda cava:
se chegue a terra para 0 pé da videira (ou
do milho) para o defender do sol, por isso
se lhe chamou redrar, que se adulterou em
radar, rodar, redar, e, por fim, em arrendar.
RAGUA —rio, Traz-os-Montes, que nasce
na Galliza, e entra na direita do Tua (já uni-
do ao Rabaça, da mesma procedencia) abai-
xo de Valle de Telhas. Vide Rabaça, rio.
RAIMONDA ou REYMONDE — freguezia,
Douro, comarca de Lousada, (foi da conaar-
ca de Santo Thyrso), concelho de Paços de
Ferreira, 25 kilometros ao NE. do Portos
teem encontrado, com seus vasos lacrimato- ; 320 ao N. de Lisboa, 160 fogos.
RAI
Em 1757 tinha 150 fogos.
Orago S. Pedro, apostolo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
3508000 réis de rendimento annual.
É a maig rica e fertil freguezia do con-
celho.
Ha aqui uma capella publica, dedicada à
“Santo Amaro, e outra particular, da invo-
cação de Jesus, Maria, José, na casa do Pi-
nheiro, na aldeia de Parada.
N'esta aldeia de Parada, nasce um regato
“anonymo, que recebe em Sanguinhães outro
regato (que vem de ao pé da capella de San-
to Amaro) formando então um ribeiro, que
rega e moe, e vae juntar-se (proximo à quin-
ta de Villar, freguezia de Paços de Ferreira,
abaixo da ponte do Sobrão) a outro que vem
de São Fins de Ferreira. Estes ribeiros reu-
nidos, e juntos a outro que vem da fregue-
zia de S. Pedro de Ferreira, formam o rio
Ferreira.
Raymonda é mome de mulher (Raymun-
-da); talvez que alguma assim chamada, fosse
em tempos antigos, senhora d'esta freguezia,
€ lhe impozesse o seu nome.
RAIVA — portuguez antigo — infamia, la-
Dbéu, aleive, nota, etc.
RAIVA — aldeia, Douro, na freguezia de
Farinha Podre, no concelho de Pena Cova,
comarca de Coimbra, d'onde esta aldeia dista
25 kilometros.
Bispado e districto administrativo de
Coimbra.
É situada à beira do Mondego, em logar
bastante agradavel.
É o termo. ordinario da navegação do
Mondego, no estio; mas no inverno, em
quanto ha ábundancia de aguas, vão os bar-
cosaté à Foz Dão, e d'aqui, em carros ou
em cargas se conduzem os objectos de com-
mercio, até ao centro da Beira Baixa, ao O.
e E. da serra da Estrella.
RAIVA — freguezia, Douro, concelho e 10
kilometros ao ONO. de Castello: de Paiva
(villa-de Sobrado, que é a sua capital), co-
marcae 48 kilometros ao NO. de Arouca,
35 ao E. do Porto 345 ao N. de Lisboa: 270
fogos.
RAI h3
Em 1757 tinha apenas 79 fogos.
Orago S. João Baptista.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Aveiro. !
O real padroado apresentava o abbade,
que tinha mais de 6002000 réis de rendi-
mento. (Tinha sido primeiro dos marquezes
de Marialva).
Está a freguezia situada na margem es-
querda do Douro, do qual a egreja matriz
dista apenas uns 250 metros.
É terreno muito accidentado, com montes
de bastante elevação ; mas em grande parte,
povoados de arvores silvestres, e as suas en-
costas e valles são muito ferteis em todos os
fructos do nosso paiz. O seu clima é sobre-
mode saudavel.
Tem seis capellas publicas: S. Domingos,
na serra do seu nome; S. Lourenço, na al-
deia de Fulgoso; Nossa Senhora das Amoras,
na aldeia de Oliveira do Arda; uma na al-
deia de Serradéllo, não sei de que santo; e
outra na de Gondarem, dedicada a S. Lou-
renço; e uma particular, de Nossa Senhora,
na casa do sr. Luiz Paulino Pereira Pinto
d'Almeida, na aldeia de Midões. As duas ul-
timas são muito proximas do Douro.
A mais celebre é a da Senhora das Amo-
ras. (Vide Arda). à
É atravessada por varios ribeiros, e o rio
Arda a divide, pelo O., da freguezia de Pé-
dorido.
1 É uma d'aquellas divisões absurdas e
disparatadas que se observam em muitas
terras de Portugal. Como vemos no texto,
dista apenas 35 Kilometros do Porto, viagem
de-tres ou quatro horas, pelo Douro, e per-
tence ao bispado de Lamego, que lhe fica 60
kilometros a E., e ao districto d'Aveiro, que
lhe fica a-.75 kilometros ao SO. não. tendo
para nenhuma destas duas cidades caminho
de qualidade alguma; pois-os a que se dá
este nome, não são mais do que uma sequen -
cia de barrancos e precipicios, atravessando
ribeiros caudalosos (sem pontes) e monta-
nhas e brejos! Além d'isso não tem esta fre-
guezia nem todo o concelho e a comarca,
negocios alguns a tratar em Lamego é Avei-
ro, senão 08 à me é obrigada. pela sua de-
pendencia civil, administrativa ou ecclesias-
tica; pois que todo 0 seu commercio se faz,
com a cidade do Porto, com à qual está em
simmunicação constante, co
kh RAM
Incontestavelmênte'é povoação muito an-
tiga, e já habitada. pelos: povos pre-histori-
cos, do que ha claros vestigios, em varias
mâmoas, no Monte Grande, e: RENO ao
logar de Serradêllo:
Teem-se aqui achado objectos archeologi-
cos, como 'mós para moer 'cereaes, manual:
mente, columnas toscas, fornos, etc.
“Tambem é certoô que, dé tempos remotis-
simos se exploraram por estes sitios varias
minas de metal, que se não esgotaram, pois
ainda algumas estão em lavra: (Vide Midões,
aldeia, Douro, nesta freguezia).
Pelo sr. visconde de Freixo foi descoberta
uma mina de chumbo, nos sitios da Ribeira
da Lomba e Fontella, em:março de 4874, e
da qual obteve diploma de descobridor legal,
em maio de 1873. Pelo mesmo tempo foi con-
cedida outra de galena; ao sr. doutor Frede-
rico: Augusto: Pereira: Cabral de Vasconcel-
los, proximo à aldeia de Gondarem.
Em maio: de: 1877, foram' considerados
descobridores legaes das minas de chumbo
argentifero do Baltidão e ribeiro'da Gardu-
nha (tudo n'esta freguezia) os srs. Miguel da
Costa Fariãe José Carneiro de Sampaioe Silva.
Ná aldeia de Fulgoso, passa a grande zona |
carboniféra de Pijão, que se explora no Fôjo
e em Pédorido. Vide Castello'de Paiva.
Ha em difíerentes partes d'esta freguezia
aftoramentos metallicos, e muitas nascentes
de aguas ferruginosas, nenhuma das quaos
foi ainda Aualiiada.
RAMADA —=- Minho: Na: cidade de Braga.
Diogo Jácome; distincto fidalgo deste reino,
senhor da honra de Vimieiro, cavalleiro da
casa real, “etc. | Veio para Braga, em 1996,
como seu: parente, o arcebispo: D. Martim
Affonso Pires da Charnéca, que 6 fez alcaide-
mór aErvédo. Mandou- lhe, ; além d'isso, con-
struir umas: casas; junto. ao paço archiepisco-
pal,as quaes “erigiú em” honra, sob'o titulo
de honra” da Ramada; é que foi o Primeiro
solar. dos Avellares.. É ci
O arcebispo, D. Diogo de; Sousa, em.10 de
abril de'4509, por escripturapublica desta
data, trocou a honra d da Ráinadá, pelo casal
d'Avellar, Desta, casa é actualmente Tepre:
sentante, o sr, Francisco: Jacome; de Sousa
Pereira de Vasconcellos. > o ves cumunes
RAM
RAMADA ou RAMATA-— portuguéz anti-
go — pesca que se fazia com ramos, lançan-
do grande copia d'elles nos pégos mais pro-
fundos, para que o peixe, subindo das lapas
e Taizes, se acolhesse aos ramos, d'onde eram
agarrados à mão.
RAMALDE — freguezia, Douro, concelho
de Bouças, comarca e 4 kilometros ao N: do
Porto, 318 ao:N. de Lisboa, 600 fogos
Em 4757 tinha 407 fogos.
Orago o Salvador.
Bispado e districto administrativo do:
Porto.
As religiosas franciscanas do mosteiro de:
Santa Clara, do Porto, apresentavam o reitor;
que tinha 1808000 réis e o pé d'altar.
É n'esta freguezia a famosa capella de:
Nossa Senhora da Hora ou das Sete Fontes,
no sitio mesmo chamado Senhora da Hora,
a cuja imagem 'se faz uma concorridissima:
romaria, em quinta feira da sua Ascenção.
Ha sempre comboyos a preços reduzidos,
no dia d'esta romaria, pela companhia dos.
caminhos de ferro da Povoa de Varzim, que
tem uma estação mesmo no logar da sda
ra da Hora.
Fica perto do Carvalhido.
“Para se evitarem repetições, vide vol. 7.º,
pag. 411, col. 1.º
Ramalde é uma vasta, (otnáósa; rica, sádia
e fertil freguezia dos arrabaldes do Porto, é
que muito tem prosperado n'estes ultimos
tempos. Os habitantes da cidade aqui fazem:
frequentes excursões, principalmente no ve-
rão. Veem-se aqui muitas casas, de elegan-
te apparencia; e as raparigas d'aqui (ramal-
deiras) são justamente tidas como muito for-
mosas; vestem -se com muita elegancia; são,
| em geral, muito bem feitas, e os: seus trajes
aldeãos são dos mais bonitos d'estes sitios,
“Tenho corrido Portugal todo por muitas
vezes, e em parte nenhuma vi aldeanas tão
gentilmente vestidas comonos arrabaldes do:
Porto, tanto ao sul, como ao morte do Douro:
“Ha tambem n'esta freguezia a capella'de
Nossa Senlkiora'do Porto, na aldeia de-Re+
quezende; fazendo-se à Senhora, uma-esplen-
dida festa, a 15 de ur do pi anno e
da sua Assumpção).
Em 7 de dezembro de 4836, foi feito barão
RAM
* de Ramalde, o sr. Christiano Nicolau Kopke.
Vide Rabalha.
“RAMALHAL — freguezia, Extremadura,
' comarca e concelho de Torres Vedras, h8
* Kilometros ao N. de Lisboa, 160 fogus.
Em 1757 tinha 106 fogos.
Orago 8. Lourenço.
Patriarchado e districto administrativo o
Lisboa.
Os beneficiados da collegiada de S. Mi-
guel, do Torres Vedras, apresentavam 0 cu-
ra, que tinha 4008000 réis de rendimento.
E' terra fertil em cereaes, optimo vinho e
algum azeite.
RAMALHÃO (quinta do) — Extremadura,
em Cintra. Foi antigamente paço e parque
real, construidos, o paço e a quinta, pela
imperatriz-rainha, D. Carlota Joaquina, mu-
lher de D. João VI. Foi esta propriedade jul-
gada bens nacionaes, posta em praça, e ar-
rematada pelo fallecido par do reino, José
Isidoro Guedes, depois visconde de Valmor,
que augmentou o palacio e a quinta, fazen-
- do-lhe grandes melhoramentos. Hoje é da
sua viuva. 1
E' um passeio muito frequentado por to-
dos os touristes que visitam Cintra, e que
teem bom gosto; porque, na verdade, a pro-
priedade do Ramalhão é uma formosissima
vivenda.
Havia aqui, em uma capellinha, um san-
to, que o povo cria ser de carne e osso, e,
é certo que, atravez da vidraça que o guar-
dava, se via um formoso mancebo, que pa-
recia estar dormindo. Diz-se, porém, que são
os ossos de S. Bento, cobertos de céra.
O congresso havia jurádo a ot gão;
1 Asra D. Amelia Augusta da Silva Li-
ma, 1.º viscondessa de Valmór, e irman do
actual juiz de direito do Redondo, o sr. Ben.
to José da Silva Lima, casou em segundas
nupcias, com o sr. José Joaquim Pinto da |
Silva, da cidade do Porto.
José Isidoro Guedes, tinha sido feito vis-
conde, em duas vidas, em 44.de março ide
1867, e como morreu sem filhos; legitimos,
passou o titulo para seu sobrinho, 4 E
Fausto de Queiroz Guedes, feito visconde de
Valmór, em 26 de janeiro de 4870.
RAM h5
em 23 de setembro de 1822, e D. João VI e
a córte, no 4.º de outubro.
Convidada a rainha D. Carlota Joaqui-
na “para prestar o mesmo juramento, em
22 de novembro, recusa-se obstinada-
mente. As córtes exautoram a rainha, e
a mandam sahir do reino (4 de dezembro).
D. João VI sanceciona este decreto! Mas a
rainha, não quiz obedecer'a tão absurda sen-
tença, allegando que estava doente. Foi en-
tão desterrada para a sua quinta do Rama-
lhão, onde seu filho, o senhor D. Miguel, à
foi buscar, em junho de 1823, depois deter
facilmente vencido as tropas liberaes, em
maio, na guerra chamada da poeira. *
Quando a quadrupla alliança obrigou à
sahir de Portugal, pela convenção de Evora-
Monte, o senhor D. Miguel I, tomou este
principe, no estrangeiro, o titulo de conde
do Ramalhão.
RAMALHEIRA —Vide Eburobriga.
RAMALHOSO—Vide Portella da Gaiva e
Ramalhoso, a pag. 251, col. 4.º do 7.º vo-
lume.
RAMAZÃO ou RAMAZAM — Nome das duas
unicas festas de obrigação, que teem os que
seguem a religião de Mafoma. São moveis, e
no espaço de 33 annos, caem em todos os
mezes do anno, porque é lunar o anno mus-
sulmano. O primeiro ramazão, tem logar no
dia primeiro da lua que segue à do ramazão
— quaresma: dos mahometanos. Esta festa,
chamada bairão, dura trez dias, e asseme-
lha-se à paschoa dos judeus, e ao nosso en-
trudo. Immolam cordeiros ou bois, e por is-
so lhe chamam tambem aid el courban (fes-
ta dos sacrifícios). O pequeno bairam (aid
saghir) tem logar no primeiro dia do mez
de chawal, no fim dos jejuns do ramazam.
Vide Vairão.
RAMELLA ou REMELLA-freguériá, Bei-
ra Baixa, concelho e comarca da Guarda,
1 Os portuguezes ainda n'esse tempo se
não tinham transformado em duas alcateias
' de tigres, sedentos de sangue e carnagem,
| como foram desde 1828 até 1836; pelo que
na campanha da restauração, não houve
mortos nem feridos: o que ambos os parti-
dos fizeram foi muito pó, e por isso se cha-
| mou à tal campanha, guerra da poeira.
46 RAN
d'onde dista 12 kilometros, e 300 ao E. de
Lisboa, 160 fogos.
Em 41757 tinha 73 fogos.
Orago S. Pedro (vulgarmente S. Pedro-da
Teixeira).
Bispado e districto administrativo da
Guarda.
A mitra apresentava o prior, que tinha
708000 réis de rendimento, e o pé d'altar.
Cereaes, fructas, legumes, gado e caça.
O nome d'esta freguezia é arabe, e a pa-
lavra ramel, que significa areal. (Chronica
do rei D. Manuel, por Damião de Goes, par-
te IV, cap. 57, pag. 552)..
RAMEZAL — Vide Midões, aldeia, Douro,
na freguezia da Raiva, concelho do Castello
de Paiva.
RAMIRÃO— Vide Casal-Vasco e Ramirão.
RAMIRES—freguezia, Beira Alta, comar-
ca e concelho de Sinfães (foi, até 24 de ou-
tubro de 1855, do concelho de Ferreiros de
Tendaes, comarca de Rézende), 48 kilome-
tros ao O. de Lamego, 325 ao N. de Lisboa,
80 fogos. Em 1757 tinha 45 fogos.
Orago Santa Marinha.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Viseu.
O abbade de Miumães apresentava o cura,
que tinha 124000 réis de congrua e o pé
d'altar.
E' povoação muito antiga, e ainda aqui se
veem os restos de um castello, que se diz
ter sido construido pelos godos.
Ramires é nome patronimico, significa, fi-
lho ou descendente de Ramiro. (Vide, para
o appellido Ramires, volume 4.º, pag. 133,
col. 4.º).
E" terra fertil. Bom azeite, e cid vi-
nho verde.
RANA ou RANNA — Vide Bia de
Ranna (São).
RANCORA, RANCOURA ou RANCURA —
portuguez antigo—querella ou queixa, dada
ao juiz da terra, contra alguem.
RANDE — Vide Milhundos.
RANDE—freguezia, Douro, comarca e con-
celho de Felgueiras (foi da comarca de Lou- |
sada, concelho de Barrosas), 36 kilometros
ao NE. de Braga, 330 ao N.. de Eita 130
fogos. ú
RAN
Em 4757 tinha 96 fogos.
Orago S. Thiago, apostolo.
Arcebispado de Braga, distrieto adminis-
trativo do Porto.
O papa e a mitra, de Braga, apresentavam
alternativamente o abbade, que tinha réis
2704000 de rendimento.
É terra fertil.
RANHADOS— villa, Beira Baixa, concelho
da Méda, comarca de Villa Nova de Foz-Côa
(foi da comarca e concelho da Meda, e em
tempos mais antigos, foi da comarca de La-
mego, e em 4810, era da comarca de Pinhel),
hô kilometros de Lamego, proximo a Pene-
dôno, e 360 ao NE. de Lisboa, 200 fogos.
Em 4757 tinha 240 fogos.
Orago S. Martinho, bispo.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo da Guarda.
O padroado real apresentava o reitor, que
tinha 1608000 réis de rendimento.
E' povoação muito antiga, e situada em
alto, onde existem as ruinas de um vetusto
castello, cuja construcção se attribue aos
godos.
O .seu primeiro foral lhe foi dado pelo rei
D. Diniz, em Coimbra, à 26 de julho de 1286.
(Livro 2. de Doações do rei D. Diniz, fl. 423,
V., Col. 2.2).
O rei D. Manuel lhe deu novo foral, em
Lisboa, a 29 de novembro de 1512. (Livro
de foraes novos da Beira, fl. 31 v., col. 2.2).
Era terra do infantado.
Perto da villa, ha as aguas mineraes, a
que chamam as Caldas, São sulphureas he-
patisadas, ou mineralisadas pelo gaz hydro-
genio sulphurado, e da mesma composição
chymica das de Alcafache, S. Gemil e ou-
tras. Teem (as de Ranhados) o grau de ca-
lor, de 100 à 103 F., ou 33 T/, a 34 R.
Applicam-se com bom suecesso, interna-
mente, ou em banhos (segundo a natureza
“das molestias) nas paralysias, rheumatismos,
gôta, molestias cutaneas; e em todos os ca-
sos em que são uteis as aguas, Eneas, ou
salinas.
E rig fertil.
OS — villa, Beira Alta, comarca,
concelho e proximo. (ao sul) de Viseu, 285
kilometras ão N. de Lisboa, 260 fogos:
“RAN
Em 1757 pertencia à freguezia da Sé, de
Viseu.
Orago Nossa Senhora da Ouvida.
Bispado e districto administrativo de Vi-
seu.
Não vem no Portugal Sacro e Profano,
porque, quando esta obra foi publicada, ain-
' da não existia como parochia independente.
No logar do Olival, ha uma formosa ca-
pella, dedicada a Santa Eufemia, à qual se
faz uma grande festa em setembro, que é
concorridissima, não só por familias das al-
deias visinhas, mas, e principalmente pelas
de Viseu; recebendo a Santa, na vespera e
no dia da festa, muitas e valiosas offertas.
No mesmo dia se faz egual festa à referi-
da Santa, na egreja da freguezia, e como os
mordomos de uma e outra solemnidade an-
dam picados, capricham em ver qual das
* confrarias se distingue mais pelo esplendor
da festa. Regularmente, a romaria da capel-
la é mais concorrida.
Em ambas as partes ha musica e fogo
preso, na vespera, e no dia; sermão, missa
cantada, procissão, etc. !
A ermida de Santa Eufemia, fica a uns
800 metros ao E. da villa de Ranhados, e é
bastante antiga, como adiante se verá.
Nossa Senhora da Ouvida (ou das Neves,
ou do Rosario, como tambem a denominam)
esteve primeiro na capella de Santa Eufe-
mia, por tempo de mais de 40 annos.
Em 1629, se instituiu a irmandade de Nos-
sa Senhora da Ouvida, approvada no mesmo
anno pelo doutor provisor, Manuel Leitão,
mestre-escola da cathedral de Viseu, e go-
vernador do bispado em sede vacante.
Augmentou a devoção à Senhora, e com
ella o numero de irmãos; pelo que estes re-
solveram construir-lhe casa propria, mesmo
no logar de Ranhados, o que se levou a ef-
feito, em 1656, sendo juiz, o padre Antonio
Rodrigues, natural de Ranhados e mestre de
grammatica no seminario diocesano: e logo.
mesmo em 4656, foi transferida, em solem-
1 Tambem n'esta freguezia se faz todos os
annos, a 24 de junho, uma esplendida festa
a S. João Baptista, que é ca concorri-
dissima.
RAN 47
ne procissão, a Senhora, para a sua nova
egreja, hoje matriz da freguezia.
Este padre Antonio Rodrigues concorreu
muito para a obra, não só com avultadas
esmolas que deu do seu bolso, como das que
agenciou pelos seus amigos e conhecidos.
Tambem foi o mesmo padre, que à sua
custa comprou um chão a João de Carvalho,
para n'elle se edificar a egreja e suas de-
pendencias.
A irmandade, constava no principio do se-
culo passado de 160 irmãos, e 25 irmans,
donzellas. ou viuvas honestas. Cada irmão
solteiro, tinha por seu fallecimento, 60 mis-
sas; 08 casados 40; e as mulheres 20.
Tinha a irmandade um capellão, que era
obrigado a dizer missa, todos os domingos
e dias sanctificados, pelos moradores do lo-
gar, que eram os que lhe pagavam.
Tinha mais oito capellães, irmãos, para
dizerem as missas pelos que morriam, pagas
pela irmandade.
Os irmãos fallecidos tinham dois anniver-
sarios, por todos; o primeiro, na 1.º sexta
feira da quaresma; e o segundo, na 1.º sexta
feira de setembro.
Os irmãos seculares, eram obrigados a Te-
zarem um rosario por cada irmão que mor-
ria, é a acompanhal-o à sepultura, sob pena
de meio tostão de multa. A mesma pena ti-
nham, faltando no dia da festa, e o dobro, se
faltassem aos anniversarios.
Para o governo da irmandade, havia um
reitor, ou juiz; um escrivão; um thesourei-
ro; um apontador; um mordomo e quatro
deputados, de eleição annual.
Os irmãos davam à entrada, 200 réis em
dinheiro, e uma vella de cêra de meio arra-
tel, e annualmente 120 réis.
No dia 8 de junho de 1876, falleceu no
Rio de Janeiro (Brasil) o subdito portuguez
Francisco Rodrigues Loureiro, natural d'esta
freguezia, baptisado na egreja da Sé de Vi-
seu, e casado com D. Bernardina de Senna
Loureiro. Deixou uma fortuna superior a
500 contos de réis.
Deixou a seus paes, em quanto vivos, 700
réis diarios, e mais o rendimento de 10 con-
tos de réis em apolices, para elles e para sua
h8 RAN
filha Maria, irman do testador, e por morte
dos trez, ficam as apolices para os filhos do
mesmo testador.
Deixou 5008000 réis, em moeda forte, pa-
ra reparos e melhoramentos da egreja de
Ranhados, e 502000 réis para esmolas aos
pobres.
Deus lhe dará no ceu, o premio d'estas
boas obras.
Esta villa de Ranhádos, é muito antiga,
mas ignora-se a data da sua fundação, e a
origem ou etymologia do seu nome.
"No Corpo chronologico, parte 2.2, maço
74, documento 48, existe a Inquirição, e au-
to, feito no 1.º de abril de 1518, para a in-
stiluição do seu foral, mas este não se che-
gou a expedir.
E' terra muito fertil. Gado e caça.
RANHOADA —portuguez antigo—fressura
de qualquer animal.
RANS — Douro. Esta freguezia estã ha
muitos annos unida à de Cannas, e para não
haverem repetições remetto o leitor para o
volume 2.º, pag. 77, col. 4.2, Aqui só aceres-
centarei mais: |
Em um manuscripto, intitulado Memorias
genealogicas, obra do doutor Manuel da Cu-
nha Andrade e Sousa, se lê o seguinte:
«Além de outros logares, deu o rei D. Af-
“fonso III, de Leão 1, por motivo de serviços,
! D. Affonso II, de Leão, foi com justiça
cognominado o Grande. Alcançou assignala-
das e gloriosas victorias contra os mouros.
Desde que subiu ao throno, fortificou as pra-
ças mais importantes dos seus reinos. Em
Portugal, reedificou os castellos de Braga,
Chaves e Viseu; mas, quando os christãos,
estavam occupados na reconstrucção d'esta
ultima praça, foram inopinadamente ataca-
dos pelo, Kalifa de Cordova, que a tomou,
depois de uma heroica resistencia ; porém
em breve D. Affonso o Grande entra em Por-
tugal, resgata Viseu, e leva as suas armas
gloriosas até Coimbra. 4
» Construiu ou reedificou ainda mais cas-
tellos, deu uma nova e mais regular organi-
sação ao paiz, edificou ou reconstruiu varios
templos, entre elles, a famosissima Sé de Se- |
vilha, essa obra maravilhosa que ainda hoje
admiramos. ; |
Cançado de guerras e de outros incom-'
modos do seu reinado, dividiu os seus domi-.
RAN
a seu parente mui proximo, D. Hermenegil-
| do, conde do Porto e de Tuy, o logar de
Bordallo, em que está a honra de Barbosa,
na era de 866. D'esta honra foram senhores
seus descendentes até 1420, em cujo anno à
comprou D. João de Azevedo, bispo do Por-
to, passando depois aos Azevedos Athaides,
que hoje a conservam. :
O conde D. Hermenigildo teve por filhos,
D. Guterre Mendes Arias, conde do Hermi-
hio é Cella Nova, e governador do Porto, e
de todo o territorio desde esta cidade até à
da Guarda; isto, pelos annos 924.
De D. Hermenegildo foram filhos, o cele-
bre S. Rozendo, bispo de Dume—D. Affon-
so Guterres — e D. Nuno Guterres, ambos
condes de Cella Nova—Santa Adozinda, ab-
badessa — e D. Paterna.
De D. Nuno Guterres foram filhos, D. San-
cho Nunes de Barbosa, que foi o primeiro
que se appellidou de Barbosa — e o conde
D. Gomes Nunes.
De D. Sancho Nunes de Barbosa foi filho
D. Pedro Nunes de Barbosa, rico-homem de
D. Affonso II. E foi filho d'este, D. Martim '
Pires de Barbosa, rico-homem de D. Affon-
so III, e que foi morto no logar de Marran-
cos, termo da Portella das Cabras, proximo
à raia de Galliza. (Vide a segunda Portella,
da col. 4.2, de pag. 244, no 7.º volume).
“A quinta de Marrancos era
muito antiga n'esta familia, e
por sentença do 1.º de abril
de 1637, se julgou ser solar
della.
Foi filho de D. Martim Pires, e de sua mu-
lher, D. Mór Ayres, Pedro Fernandes de Bar-
bosa, vassallo de D. Affonso IV, e seu com-
panheiro na gloriosa batalha do Sallado (30
de outubro de 1340).
Pedro Fernandes de Barbosa, casou com
D. Châmoa (ou Charna)' Martins, filha de
Martim Martins de Aborim e de sua mulher
D. Alda Esteves, senhora do couto de Bran-
dára, e da casa de Aborim, onde fizeram seu
solar. k
nios pelos seus dois filhos, dando a D. Or-
donho II, Portugal e Galliza, e a D. Garcia,
Leão e Castella; terminando seus dias no:
remanso da paz.
j
RAP
A casa solarenga d'Aborim,
é na freguezia de S. Martinho
d'Aborim, então annexa. à de
Santa Maria de Quintiães; mas
hoje independente, e da co-
marca e concelho de Barcellos.
D'este matrimonio foi filho, Gonçalo Fer-
' nandes de Barbosa, que herdou a casa de
* seus paes.
Foi um militar distincto pelo seu valor e
* patriotismo. Tomou o partido do Mestre de
Aviz, ao qual se apresentou com 20 soldados
“de cavallo, armados à sua custa, e com elles
combateu arrojadamente, na gloriosa bata-
lha de Aljubarrota, em uma segunda feira,
14 de agosto de 1385.
Foi seu neto, Alvaro de Barbosa, que com
sua mulher (d'este) D. Maria Gonçalves Ma-
"ciel, instituiram o morgado d'Aborim, em
1472, 52 annos depois de vendida a antiga
| honra de Barbosa, em S. Miguel de Rans.
D'esta honra são hoje possuidores, os her-
deiros (filhos) de D. Miguel Vaz Guedes de
' Athaide Azevedo Brito Malafaia. Vide Bar-
bosa, Canas e Rans.
RANNA—Vide S. Domingos de Mondo
RAPA-—freguezia, Beira Baixa, comarca e
“concelho de; Celorico da Beira, 12 kilome-
tros da Guarda, 315 ao E. de Lisboa, 90
fogos.
Em 1757 tinha 64 Pi
Orago Santo André, apostolo.
Bispado e districto administrativo da
Guarda.
A mitra apresentava o prior, que tinha,
603000 réis e o pé d'altar.
Muito gado e caça; do mais, pouco.
RAPA VELHA —um dos pontos do Douro
“(7.º volume, pag. 199, col. 2.2) 1.
Fica a 6 kilometros do logar de Linhares,
termo da villa transmontana de Anciães. A
uns 3 kilometros do dito logar, e a 4ô me-
tros do rio Douro, proximo do Gachão da
Rapa, está um grande rochedo, que se des-
penha para o rio, e sobre o rochedo, um pe-
1 Não se confunda com o ponto da Rapa,
que é muito mais abaixo, e em n tento do con-
celho de Rézende.
RAP 49
nedo de 67,60 de alto, e da fórma de um
tonel.
Tinha uma inscripção antiquissima, que,
por gasta, se não póde ler.
Pelos annos de 1720, José Macedo Rosales,
de S. Jcão da Pesqueira, mandou seu irmão,
Antonio Rosales de Carvalho, morador no
logar de Nogarêlho, que fica proximo do re-
ferido penedo, que o fosse examinar. Eis,
em resumo, o que informou Carvalho.
Entre o Cachão da Rapa e a Pesqueira do
Marulho, no termo d'Anciães, comarca da
Torre de Moncorvo, está um grande penedo,
proximo da corrente do rio, mas onde não
chegam as aguas delle.
Segundo a tradição, ao fundo d'este pene-
do havia uma entrada para uma gruta, cujo
centro ainda ninguem se atreveu a investi-
gar.
Diz-se que, querendo um clerigo de Li-
nhares examinal-a, sahiu d'ella mudo, não
tornando a recobrar a fálla, e nem por es-
cripto disse o que lá dentro viu.
Já se não vê a tal gruta, mas vê-se o sitio
onde, pelos annos 1705, entraram uns desco-
nhecidos, com picões, alavancas e outros in-
strumentos, e convidando operarios do logar
de Nogaréllo (aos quaes pagaram generosa-
mente) para os ajudar, romperam a gruta,
e consta que levaram uma grande cruz de
prata e outros objectos de valor.
Diz-se que no verão mana das fendas d'es-
te rochedo um betume, semelhante a pe-
troleo.
Ao fundo do nenedo, da parte que olha | pa-
ra o Douro, existe um portal, que parece
obra da natureza, e dá entrada para uma
grande sala, com assentos em redor, e no
meio uma grande meza, tudo de pedra. Nºes-
ta sala ha uma porta, que provavelmente
conduz a outras interiores, que ningnem
tem querido examinar.
Consta que o padre Domin-
gos Mendes, na manhã de S.
João, do anno de 1678, com se-
brepeliz e estola, pretendeu
penetrar n'estas concavidades,
em busca de thesouros encan-
tados; mas que, entrando na
segunda sala, sentiu um chei-
RAP
ro tão pestilente, e teve tal me-
do, que fugiu tremendo, e fi-
cou mentecapto o resto de seus
dias, que foram poucos. Tam-
bem se diz que pouco depois
de sahir d'este antro, lhe ca-
hiram todos os dentes.
Tudo isto consta de um re-
latorio que Antonio de Sousa
Pinto e o reitor João Pinto de
Moraes, mandaram à academia
real das sciencias; mas pare-
ce-me que isto é outra versão
da historia do clerigo de Linha-
res, contada por Antonio Ro-.
Sales de Carvalho.
“A esta penha ainda o povo chama o pene-
do das letras, alludindo à mencionada in-
scripção.
RAPOILA ou RAPOULA — freguezia, Bei-
ra Baixa, (no Riba-Côa), comarca e conce-
lho do Sabugal, 24 kilometros ao SO. da
Guarda, 300 a E. de Lisboa, 70 fogos.
Em 4757 tinha 69 fogos.
Orago Santa Maria Magdalena.
Bispado e districto administrativo da
Guarda.
Foi antigamente da comarca de Castello
Branco, que lhe fica 75 kilometros ao N.
Dá-se vulgarmente a esta freguezia a de-
nominação de Rapoila do Cóa.
O vigario de Santa Maria, da villa do Tou-
To, apresentava o cura, que tinha 74500 réis
de congrua e o pé d'altar.
Na margem 0. do rio Côa, e à raiz de um
pequeno monte, distante 3 kilometros da po-
voação, nascem trez mananciaes de agua sul-
phurea, cujo cheiro se conhece a mais de 60
metros de distancia. É limpida e transparen-
te, e de sabor enjoativo e algum tanto amar-
go. Deposita na sua passagem um lodo ama-
rellado, que, depois de secco e lançado no
fogo, arde com chamma, espalhando um
cheiro suffocante a enxofre. Nas nascentes,
vêem-se estalar na superficie, muitos bolhões
de gaz. A temperatura d'estas aguas, na nas-
cente, é de 9% a 400 gr. F., ou 273/, a 301/;
de R.
Ê mineralisada pelo gaz hydrogenio sul-
“phurado, e contém substancias salinas, taes
como muriatos de soda e calcareo, e algum
de magnezia. Não tem ferro, nem outra al-
guma substancia metallica.
Dão a estas aguas o nome de Caldas da
Ribeira de Boi.
Não ha aqui nenhuma commodidade para
que os doentes possam tomar banhos. Ape-
nas existe uma pequena pia de pedra, onde
os pobres se banham, sem o minimo res-
guardo, pois nem uma insignificante chou-
pana alli se vê.
RAPOZA—freguezia, Extremadura (ao S.
do Tejo), concelho de Almeirim, comarca da
Chamusca, 95 kilometros ao NE. de Lisboa,
18 ao SE. de Santarem, 80 fogos.
Em 41757 tinha 68 fogos.
Orago Santo Antonio, de Lisboa.
Patriarchado de Lisboa, districto adminis-
trativo de Santarem.
Os descendentes de Luiz amóbso de Mes-
quita, apresentavam o vigario, collado, que
tinha 1508000 réis de rendimento.
Terra muito fertil em cereaes. Algum vi-
nho e azeite.
RAPOZEIRA—freguezia, Algarve, conce-
lho e 3 kilometros ao O. da Villa do Bispo,
comarca de Lagos, 60 kilometros de Faro,
215 ao S. de Lisboa, 160 fogos.
Em 4757 tinha 62 fogos.
Orago Nossa Senhora da Encarnação.
Bispado do Algarve, districto administra-
tivo de Faro.
A mitra apresentava o cura, que tinha trez
moios de trigo de rendimento.
A esta freguezia está, ha muitos annos,
unida a da Carrapateira. (Vol. 2.º, pag. 148,
col. 4.º).
Disse alli que o concelho de
Villa do Bispo havia sido sup-
primido em 41855, é engano,
ainda existe.
E' uma aldeia pequena e pobre.
Na manhã do dia 4.º de novembro de
1755, tinha 90 fogos, e d'ahi a poucos mo-
mentos apenas 43 casas ficaram de pé, pois
que o terramoto d'esse dia, derrubou 771
D'ahi-a dois annos, 49 casas haviam sido
reconstruidas.
Esta freguezia está situada em um baixo,
RAR
bastante abafado, e cortado pela ribeira da
Rapozeira, que morre no barranco de Bena-
goitão.
Benaçoitão é corrupção do
arabe Ben-Zaatam, (nome pro-
prio de homem) significa des-
cendente de Zaatam.
E' terra doentia, em razão das aguas es-
tagnadas em que abunda.
Proximo da povoação, ha um antigo e bom
chafariz, de pedra, onde a agua é em gran-
de abundancia e de boa qualidade. Os seus
remanescentes regam a horta da Rapozeira.
A egreja matriz é pequena mas bonita.
Esta freguezia, a da Carrapateira e a de
Sagres, estiveram algum tempo unidas á da
Villa do Bispo.
Como ha muitas aguas, o terreno da fre-
guezia é muito fertil. ;
Entre a Rapozeira e a aldeia da Figueira
está a egreja de Nossa Senhora de Guada-
lupe, muito antiga, e que consta ter sido dos
templarios. Esta egreja e umas casas que lhe
ficam proximas, nada soffreram com o refe-
rido terramoto, o que o povo attribuiu a mi-
lagre da Senhora.
RARÁPIA — antiga cidade da Lusitania.
E” hoje a pequena villa do Castello, que foi
capital do antigo concelho de Ferreira de
Aves, hoje supprimido.
A pag. 171, col. 2.2 do 3.º volume, tratan-
do de Ferreira d' Aves, disse que era povoa-
ção antiquissima, provavelmente do tempo
dos romanos. Confirmando esta minha as-
serção, 0 rev.mº gr. Luiz Augusto da Fonse-
ca Almeida e Campos, digno e illustrado ab-
bade collado da freguezia do Castello de Fer-
reira d'Aves, teve a bondade de me mandar
as seguintes informações, que eu cordeal-
mente lhe agradeço.
Porque não farão o mesmo,
todos os senhores paroçhos, a
quem tão humilde e encareci-
damente tenho pedido esclare-
cimentos sobre as suas paro-
chias?
Pois deviam-o fazer; porque
esta obra não é de um partido,
é de todos 0s portuguezes, e já
RAR 91
que quasi nenhumas camaras?
se importaram com os Annaes
dos seus respectivos munici-
pios, que o governo tanto lhes
recommendou, ao menos, era
bom que tudo ficasse consi-
gnado no Portugal Antigo e
Moderno.
Diz pois o referido sr. abbade de Ferreira
d'Aves:
«Entre os rios Paiva e Vouga está situado
o antigo concelho de Ferreira d'Aves, hoje
supprimido, não ficando mais do que o seu
nome na freguezia de Ferreira d'Aves.
Era capital do concelho, e o é hoje da fre-
guezia, a villa do Castello, assim chamada,
por constar que no tempo do famoso Viria-
to, o Herminio, havia n'ella um castello, cu-
ja pedra serviu, passados seculos, para a
construcção da actual egreja matriz. Assim
o affirma Braz Garcia Mascarenhas, no seu
Viriato Tragico, canto 5.º.
N'essa epoca, tinha a villa do Castello o
nome de Rarápia, com foros de cidade; o
que o mesmo Braz Garcia assevera, dizendo
que no ánno de 445, antes de Jesus Christo,
ganhando Viriato a batalha por elle dada
contra o pretor romano Cayo ? fôra o bravo
lusitano descançar e receber os parabens,
para a sua cidade de Rarápia.
Este nome (Rarápia) se deriva do latino
Rara pietas, alludindo à rara piedade, de Vi-
riato, para com a deusa Vaccuna *, celebra
da por Ovidio, no livro 6.º dos seus Fastos.
Não se sabe quando esta antiquissima ci-
dade perdeu o seu nome de Rarápia, talvez
fosse no principio do seculo vit, quando os
mouros invadiram a Lusitania. É certo que
1 Que me conste, só a camara de S. Thia-
go de Cacem, mandou escrever 0s seus An-
naes do Municipio, pelo esclarecido sr. padre
Antonio de Macedo e Silva.
2 Mascarenhas commette aqui um peque-
no anachronismo. Viriato venceu o pretor
Cayo Plaucio, no anno do mundo 3852, que
corresponde ao de 152 antes de Jesus Chris-
to; e derrotou o pretor Cayo Negidio, no an-
no do mundo 3860, ou 144 antes de Jesus
Christo.
3 E, provavelmente, tambem ao deus dos
lusitanos Endovelico (Cupido).
59 BAR
no anno 1200 de Jesus Christo, já tinha o
nome de Ferrária (em portuguez, Ferreira).
como consta do tombo das religiosas bene-
dictinas, de Ferreira.
O mesmo nome s2 vê a fl. 46 v., do mes-
“mo tombo, onde está copiado o testamento
do 4.º bispo da Guarda, D. Martinho Paes,
natural d'esta villa do Castello de Ferreira
d'Aves, e fallecido em Roma, a 12 de novem-
bro de 1228. N'este testamento se lê-—Boves
quos hebeo in Ferrária.
Ainda em 24 de fevereiro de 1284 conser-
vava o nome de Ferrária, na occasião em
que se procedeu à divisão das rendas, entre
o bispo de Viseu, D. Nicolau, e seus cone-
gos, ficando estes com a terça parte dos di-
zimos de Ferrária.
- Plinio diz— Ferraria dicitur a feracitate
ferri. Eis d'onde vem o nome de Ferreira
(abundante de minas de ferro).
Esta freguezia confina ao E., com o con-.
celho de Aguiar da Beira—ao S. com o de
Satan (onde hoje pertence esta freguezia) —
ao SO., com o de Viseu—e ao N., com 0 ex-.
tincto concelho de Caria e Rua (ou Caria é
Lapa).
A freguezia de Ferreira d' Aves, constando
de varias povoações e quintas, contém 803
fogos, e 3:363 almas.
Foi senhor donatario d'este concelho, D.
Nuno Caetano Alvares Pereira de Mello, du-
que do Cadaval, conde de Tentugal e mar-
quez de Ferreira; titulo este, que foi dado
ao seu progenitor, D. Rodrigo de Mello, con-
de de Tentugal, por D. João III, em 4550,
(Vide Tentugal).
Eram os marquezes de Ferreira os pa-
droeiros da villa d'este nome.
O primeiro senhor de Ferreira d'Aves, foi
Ruy Pires, cujo senhorio lhe deu a rainha
D. Thereza, viuva do conde D. Henrique,
pelos annos de 4126. Foi Ruy Pires tambem
o primeiro que usou do Ed de Fer-
reira.
D. Thereza lhe deu por armas—em cam-
po verde, quatro faxas de ouro, e por tim-
bre um abestruz, com uma forrasinra de ou-
ro no bico.
“Ha em Ferreira dois mosteiros—o de frei-.
ras benedictinas, ainda povoado — é o de
“RAR
frades capuchos da Conceição, supprimi-
do.»
Até aqui, o sr. abbade de Ferreira.
A pag. 171, col. 2.2, do 3.º volume, disse
eu que em frente de Ferreira, na margem
esquerda do Vouga, ficava Villa Rei.
O referido sr. abbade, a quem devo as cu-
riosas notícias de Rarápia, diz-me que-não
póde affirmar ou negar a existencia de tal
Villa Rei; mas que lhe parece que nunca
existiu alli povoação com tal nome.
O sr. Francisco Cabral Paes, da villa da
Rua, diz-me tambem terminantemente, que
tal povoação de Villa Rei, nunca existiu por
estes sitios. RH
Os meus leitores teem visto a franqueza
com que sempre tenho rectificado os erros,
que más informações, ou enganos de escri-
ptores antigos, me tem feito commetter; mas,
n'este ponto, não dou a mão à palmatoria tão
facilmente; porque, o que disse, foi fundado
na auctoridade do nosso grande investiga-
dor, frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo,
e em outros escriptores dignos de credito.
Os dois cavalheiros a que me refiro, teem
razão, Não existe actualmente, em; frente da
freguezia de Ferreira d'Aves, povoação al-
guma com o nome de Villa Rei; mas isto
não prova a sua não existencia em outras
eras, ou que não se lhe tenha mudado o no-
me: o que prova é que nenhum dos contem-
poraneos tem noticia de haver na margem
opposta do Vouga uma povoação chamada
Villa Rei, que, ou deixou de existir, ou foi
chrismada.
O que é certo, é que, em 1517, Villa Rei
formava parte do concelho de Ferreira de
Aves, e que o rei D. Manuel, constituiu dois
concelhos independentes, um em Ferreira
outro em Villa Rei. Já se vê que esta ultima
villa ainda existia no principio do seculo xvr.
Diz o referido sr. abbade, que talvez seja
erro de copia, e que chamaram Villa Rei a
“uma aldeia da freguezia de Ferreira, cha-
mada villa da Ribeira, na margem direita
do Vouga. Mas Viterbo. diz positivamente
“que era uma villa (e não aldeia) sobre a mar-
gem esquerda, do Vouga...
“Notemos que Viterbo foi religioso capu-
NE EEN
RAS
cho, no convento de Ferreira; que aqui vi-
veu muitos annos; aqui escreveu o seu Elu-
cidario (onde falla na tal Villa Rei) e que,
finalmente, aqui falleceu. Custa-me a acre-
ditar que um escriptor tão escrupuloso, e
sempre tão exacto, faltasse assim à verdade
em uma cousa tão sua conhecida.
Actualmente, na margem esquerda do
Vouga, em frente de Ferreira d'Aves, são as
pequenas freguezias de Decermillo (ou Ser-
millo), Romans, Villa Longa !, e Mioma, to-
das do concelho de Satan.
- RASCAM— portuguez antigo — escudeiro,
pagem, creado grave.
RASCAR — portuguez antigo —dar vozes,
gritar sobre alguem, ou aqui d'el-rei contra
F. Vide Caritél.
RASCOA—portuguez antigo—creada gra-
ve, aia de senhoras.
RÁSO — portuguez antigo —- humilde, po-
bre, abatido, desherdado dos bens da fortu-
na, plebeu. D'aqui vem soldado raso, o pos-
to mais inferior da milicia.
RASTÊLLO — nome antigo do local onde
depois se construiu o famoso templo dos
monges de S. Jeronymo, de Belem, e onde
agora se admira, junto à egreja, e ao O.
della, o formosissimo edificio da casa pia,
em construcção, e que, antes de poucos an-
nos, será um dos mais bellos de Portugal.
(Vide Belem e Jeronymos.)
Ao que disse de Belem, a pag. 308, col. 2.º,
do 4.º volume, e na palavra Jeronymos, na
col. 2.º da pag. 409, do 3.º volume, accres-
cento mais o seguinte :
O esclarecido archeologo e engenheiro ci-
vil, o sr. Joaquim Possidonio Nareiso da Sil-
va, achou em março de 1875, oceulto pelos
degraus do pulpito moderno, e no pilar do
cruzeiro da egreja de Belem, um medalhão
com o busto de Boutaca, architecto dei
sumptuoso monumento.
O sr. Silva affirma que Boutaca era por-
tuguez, apesar do seu nome hespanhol, ou
italiano. Segundo o sr. Silva, este architecto
4 Quem sabe se a actual Villa Longa, se-
rá a antiga Villa Rai?
VOLUME VIII
Ed
"RAS 53
militou na Africa, onde foi armado cavallei-
ro, em 144714, na praça d'Arzilla, pelo conde
de Borba. Depois, estudou na Italia, e no seu
regresso a Portugal, é que o rei D. Manuel
o encarregou de construir a egreja e mos-
teiro de Belem. Que este monarcha premiou
Boutaca, em 1505, com o fôro de fidalgo ca-
valleiro.
Fernão Lopes de Castanheda, natural de
Santarem, e um dos companheiros de Vasco
da Gama, principia assim a sua Historia do
descobrimento e conquista da India, pelos
portuguezes :
«Partimos do Rastello hum sabado, que
eram oito dias do mezide julho, da dita era
de 1497, nosso caminho, que Deos nosso Se-
nhor leixe acabar emfseu descanço. Amen.»
N'este mesmo dia, na ermida de Nossa Se-
nhora do Rastéllo, fundação do immortal in-
fante D. Henrique, se disse missa e fizeram
orações, implorando à Santissima Virgem a
sua protecção, para a feliz viagem e bom
successo d'ella, no meio de um concurso
enorme de povo, de todas as condições e ge-
rarchias.
Animados com a esperança no patrocinio
da Virgem dos Navegantes, se partiu o gran-
de Vascojda Gama, acompanhado de seu ir-
mão Paulo da Gama, de Nicolau Coelho, e
outros intrepidos capitães, e nautas deste-
midos, no meio das orações, bençãos e la-
grimas de muitos milhares de portuguezes
que assistiam à partida.
Hiam aquelles novos argonautas empre-
hender a solução de um (importantissimo
problema geographico e maritimo, qual, a
passagem do Cabo das;Tormentas (desde en-
tão Cabo da Boa Esperança) que o audaz
navegante BartholomeufDias suppunha im-
praticavel.
E Deus protegeu Vasco da Gama e os
seus, que, não só passaram além do temivel
promontorio, mas descobriram o caminho
maritimo para essejEldorado que se chama
India, e deram depois aojreinoide Portugal,
por vassallos, trinta e seis soberanos asiati-
cos, alguns poderosissimos.
Vasco da Gama, dobrou o Cabo da Boa
| Esperança, a 20 de novembro, fazendo a sua
entrada nos mares da India.
h
04 RAS
A 10 de julho de 1499, chega a Lisboa a
noticia da descoberta da India, e a 29 do
mesmo mez, entra gloriosamente no Tejo o
immortal Vasco da Gama, de volta da sua
expedição, uma das maiores e mais audazes
emprezas dos tempos modernos.
O rei premiou os portentosos serviços de
Vasco da Gama, com o pronome de Dom, e
com o habito de Christo, para elle e seus
herdeiros! (Bons tempos eram esses, em
que o dom e o habito de Christo se julga-
vam premio sufficiente para tão grandes fa-
ganhas...)
A viagem de Vaseo da Gama deu tambem
causa à descoberta das Indias Occidentues,
como antigamente se denominava a Ameri-
ca; pois que, mandando o rei D. Manuel a
Pedro Alvares Cabral, com 13 naus, em de-
manda da India, em 1500, um furioso tem-
poral o obrigou a correr para O., e assim
descobriu as costas do Brasil, a 25 de abril;
ao mesmo tempo em que um dos seus capi-
tães (Gaspar Corte Real) descobre a Terra
Nova.
N'este mesmo anno principia a fundação
do mosteiro de Belem.
Em vista de tantas prosperidades, D. Ma-
nuel, em 145014, toma os titulos de Senhor da
Navegação, Conquista e Commercio, da Ethio-
pia, Arabia, Persia e India.
N'ºesse mesmo anno de 1504, João dá Nova,
indo em viagem para a India, descobre a ilha
da Ascenção, e derrota a poderosa armada
do rei de Calecut. Foi a primeira victoria
naval dos portuguezes nos mares asiaticos.
No anno seguinte, 4502, D. Vasco da Ga-
ma, nomeado grão-almirante, torna à India,
com uma esquadra de 20 naus. Derrota o
rei de Quilôa, e faz tributarios de Portugal,
varios reis indianos.
D. Vasco da Gama, chega ao Tejo, de vol-
ta da sua segunda viagem à India, no 1.º de
setembro de 1503, trazendo o primeiro tri-
buto que a Portugal pagaram os reis d'esta
parte da Asia.
Na sua terceira viágem à India, o grande
D. Vasco da Gama fallece em Cochim, em
1524; mas não morreu o seu nome glorioso,
nem a fama dos seus feitos sobrehumanos.
Foi em cumprimento de uma promessa à
RAT
Santissima Virgem, que o rei D. Manuel fun-
deu o maravilhoso mosteiro dos Jeronymos,
ese sumptuoso monumento que attesta à
posteridade, o valor, a abnegação e o patrio-
tismo dos nossos antepassados.
comem
Foi ao real mosteiro de Belem, que o rei
D. Manuel deu a famosa Biblia, em 7 volu-
mes, manuscripto em pergaminho, com vi-
nhetas e allegorias, primorosamente colori-
das e douradas, e que é a nossa maior pre-
ciosidade bibliographica.
O impio Junot a roubou, em 1807, levan-
do-a para a França, em setembro de 1808,
junta a grande numero de outros objectos
de grande valor, que havia roubado em Por-
tugal. Só depois da restauração, é que, em.
1816, se conseguiu que o rei Luiz XVIII,
mandasse aos herdeiros de Junot entregar
ao nosso embaixador, a Biblia (incompleta!)
pelo resgate de 40:000 francos (7:6008000.
réis) que tivemos de entregar aos possuido-
res do roubo!
Havia ainda na livraria d'este mosteiro,
um riquissimo Breviario, por onde rezava a
rainha D. Catharina, mulher de D. João III,
e umas Horas Canonicas, pelas quaes se diz
fazia a sua reza o malogrado rei D. Sebas-
tião. Vide Belem e Jeronymos.
RATA (ponte da) — Douro, no concelho,
comarca, bispado, districto administrativo e
14 kilometros ao ESE. de Aveiro, está a fre-
guezia de Eirol, sobre a margem esquerda
do rio Vouga.
É nesta freguezia e proximo da confluen-
te do Agueda com o Vouga, que está a pon-
te da Rata, atravessando o primeiro d'estes
dois rios.
Principiou a construir-se esta ponte, em
19 de maio de 14865, e concluiu-se a 18 de
outubro de 1866. Custou 4:1488500 réis.
Fez o desenho e superintendeu n'esta obra,
o sr. Silverio Augusto Pereira da Silva, es-
clarecido director das obras RR do dis-
tricto de Aveiro.
RATES —villa, Minho, comarca, concelho.
e proximo da Póvoa de Varzim (foi do mes-
mo concelho, mas da comarca de Villa do
Conde) 6 kilometros ao S. de Barcellos, 20
em
RAT
ao O. de Braga, 350 ao N. de Lisboa, 250
fogos.
Em 1757 tinha 190 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
A mitra apresentava o reitor, que tinha
1502000 réis e o pé d'altar.
D. Manuel I lhe deu foral em Lisboa, a 4
de setembro de 1517. (Liv. de foraes novos
da Minho, fl. 145, col. 4.2. Veja-se a minuta
para este foral, na gaveta 20, maço 12, 0.º
16).
Esta povoação é incontestavelmente de
fundação antiquissima, e ha toda a proba-
bilidade de ser anterior ao tempo dos roma-
nos.
Foi muitas vezes arrazada e reconstruida
durante as guerras diuturnas da edade mé-
dia, e depois, tambem os gallegos mais de
uma vez a destruiram. '
Diz-se que o mar chegava antigamente
até esta villa, por um esteiro ou canal; e é
certo que d'elle ainda restam alguns ves-
tigios.
“ E dPaqui, segundo alguns escriptores, que
lhe vem o nome de Rates, palavra latina, que
significa náus, por chegarem aqui as do im-
perio romano.
Se dermos credito a todos os antigos es-
criptores, já antes do anno 45 de Jesus
Christo, existia aqui uma egreja christan, que
havia fundado S. Pedro de Rates, que se diz
ter sido o primeiro christão, o primeiro bis-
po, e primeiro martyr da Europa.
S. Thiago Maior o converteu ao christia-
nismo, é o sagrou bispo de Braga.
S. Pedro, sagrou depois Basilio, 4.º bispo
do Porto; Epitanio, 1.º bispo de Tuy; e no-
meu e sagrou ainda, os primeiros bispos
de Lisboa, Coimbra, Iria-Flavia (hoje Pa-
drão, na Galliza) Amphiloquia (hoje Oren-
se, provincia d'este nome) e Eminio (Ague-
da.)
S. Pedro era natural de Rates,! e para
aqui fugiu à perseguição que lhe faziam e
a todos os christãos, os legados do trucu-
1 Dizem alguns que S. Pedro de Rates era
natural de Braga; mas é êrro; elle só alli
foi bispo.
RAT 5)
lento imperador Nero; e já esta povoação
era de christãos.
Os romanos aqui o vieram achar, orando
na sua egreja, onde o martyrisaram, no re-
ferido anno de 45, e arrazaram a egreja, fi-
cando o corpo do Santo martyr sepultado
sob as suas ruinas.
São Felix, primeiro eremita da christan-
dade, o procurou passados dias, e o enter-
rou decentemente, até que foi trasladado pa-
ra a Sé de Braga, onde jaz.
Consta que S. Pedro de Rates fundou aqui
um mosteiro de anacoretas, que ainda exis-=
tia em 716, sendo n'esse anno destruido pe-
los serracenos.
O conde D. Henrique o reedificou, pelos
annos de 4100, pondo n'elle monges da Cha -
ridade, que mandou vir de França. 1
Em 141452, D. Mafalda, mulher de D. Af-
fonso Henriques (avó da rainha Santa Ma-
falda, d'Arouca) mandou construir um sum-
ptuoso tumulo a São Pedro de Rates; ree-
dificou a egreja e augmentou o edificio do
mosteiro, pondo n'elle 42 religiosos cruzios
com seu prior, D. Pedro Fafez.
A virtuosa rainha doou a este mosteiro
muitas e valiosas rendas; e seu marido cou-
tou a freguezia, dando-lhe grandes privile-
gios.
(Já então não havia n'este mosteiro frades
da Charidade, pois tinham regressado a
França.)
Ainda em 1315, era mosteiro de conegos
regrantes de Santo Agostinho (cruzios) mas
depois não ha mais noticias delle, senão
que passou a commendatarios, e que, em
1566, foi unido, para sempre, ás commen-
das de Christo.
O 4.º prior secular, foi João de Souza, fi-
lho de Pedro de Souza de Seabra, que tem
no Minho numerosa descendencia.
A 3 kilometros d'este mosteiro, ficava O
da Junqueira, no concelho de Villa do Con-
de. (Vol. 3.º, pag. 427, col. 2.2—a 3.º Jun-
queira.) .
No adro da egreja de Rates, ha muitas se-
pulturas antiquissimas; e na egreja estão
1 Eram monges cluniacenses, do mostei-
ro da Charité, em Auxerre (França).
56 RAT
os corpos de São Felix, e de seu sobri-
nho.
Tambem aqui esteve o corpo de S. Pedro
de Rates, até que o arcebispo, D. Frei Bal-
thazar Limpo, o fez transferir para a Sé de
Braga, ficando em Rates, um dente, um dé-
do, e parte dos ossos do Santo.
A trasladação do corpo de S. Pedro de
Rates, para a Sé de Braga, foi feita com a
maior pompa e lusimento, e collocado em
capella propria.
No seu tumulo se gravou a seguinte in-
scripção:
AQUI JAZ O CORPO DE SÃO PEDRO MARTIR,
DISCIPULO DO APOSTOLO SÃO THIAGO:
TRESLADADO DA EGREJA DE RATES,
POR DOM BALTHEZAR LIMPO,
ARCEBISPO DE BRAGA, A ESTA
SEPULTURA, QUE SE LHE FEZ
POR MAYOR VENERAÇÃO,
E POR SER O PRIMEIRO PRELADO
DESTA IGREJA. AOS 17 DE OUTUBRO DE 1552.
Consta que a povoção de Rates, já no
tempo dos romanos, era composta de chris-
tãos, aos quaes os gentios chamavam rati-
nhos.
No anno 69 de Jesus Christo, Nero man-
dou Otho Sylvio por governador para as Hes-
panhas, como proconsul.
Era homem justiceiro, mas moderado, não
perseguindo os christãos.
No anno 74, a Nero succedeu Vespaziano,
um dos imperadores que mais beneficios fez
à Lusitania, abrindo estradas, e construin-
do em muitas povoações magnificas obras.
O povo de Rates, e das outras povoações
christans, poderam então prestar livre cul-
to á sua religião.
Succedeu-lhe seu filho, Tito, que poz o
celebre naturalista e geographo Plinio, por
questor, nas Hespanhas.
Tambem n'este tempo, foram felizes os
christãos; mas não assim durante.o imperio
do cruel Domiciano, em cujo tempo o san-
gue dos martyres inundou o solo da pa-
tria.
Felizmente, no anno 100, subiu Trajano
ao throno do imperio, e foi amigo-e prote-
ctor dos lusitanos; bem como seu successor,
RAT
Adriano, e depois d'este, Antonino Pio, e
Marco Aurelio.
Foi durante este longo periodo, que a re-
lígião catholica se radicou e generalizou na
Lusitania; mas ainda houve muitos marty-
res, no tempo dos imperadores Gallieno,
Claudio, Aureliano; e muitos mais no tem-
po do cruel Diocleciano, que mandou go-
vernar as Hespanhas, o feroz Daciano.
Chegou finalmente o feliz tempo do pri-
meiro imperador christão, Constantino Ma-
gno, e a religião christan foi acatada em to-
do o imperio. (306.)
O 4.º rei godo da Lusitania, foi Leovegil-
do, que era ariano; mas, fallecendo, em-586,
lhe succedeu seu filho, Flavio Ricaredo, tam-
bem ariano; mas tendo seu paemandado mar-
tyrisar Santo Hermenegildo—filho de Leo-
vegildo e irmão de Flavio Ricaredo — este
se converteu ao catholicismo, a rogos de S.
Leandro, bispo de Sevilha, e, o proprio rei,
se fez missionario do seu povo.
Foi n'este reinado, e no anno de 590, que
Santo Estevam foi abbade do mosteiro de
Rates, e aqui falleceu.
Assistiu ao 3.º concilio de Toledo, no qual
os godos abjuraram a heresia ariana.
Diz a lenda, que, quando morreu o santo
abbade, se viram muitos anjos a levarem a
alma do santo para o céu.
Proximo a esta, ha a freguezia de Maciei-
ra de Rates, no concelho de Barcellos, e da
qual é orago Santo Adrião. (Vol. 5.º, pag.
14, col. 2.3, à 2.2 Macieira.)
O antigo nome d'esta freguezia, era San-
to Adrião de Maceira.
Era aqui o solar dos Masseiras, appellido
antigo e nobre de Portugal, tomado da quin-
ta da Maceira.
O 1.º que tomou este adtitinio, foi D.
Lourenço (Gomes Maceira (ou da Maceira)
valoroso militar, do tempo de D. Affonso IH.
Suas armas eram:.
Escudo dividido em palla; na 4.º, de pra-
ta, duas flores de liz, azues, em palla -—- na
2.2, tambem de prata, meia aguia de púr-
pura, armada de negro.
Elmo d'aço, aberto; e por timbre, uma
RAT
flor de liz, douro, entre dois ramos de ma-
cieira, verdes, com maçans de prata.
Em agosto de 1876, o sr. Manuel Ferrei-
ra Serra, natural de Rates, e residente no
Rio de Janeiro, offereceu ao governo portu-
guez um predio e seu terreno, que tinha
n'esta freguezia de Rates, para o estabele-
cimento de uma escola, denominada de Ca-
mões, para a qual deixou um sufficiente le-
gado. Antonio Joaquim Guimarães, tambem
daqui natural, e fallecido na cidade de Por-
to-Alegre (Brasil) mandou que esta es-
cóla fosse destinada ao ensino das linguas
portugueza e franceza, e principios de agri-
cultura.
Deixou rendas para a sustentação e ves-
tuario de alguns alumnos internos.
Rates, vae ter um valioso melhoramento.
A companhia dos caminhos de ferro, de
via reduzida, do Porto à Póvoa dé Varzim,
já procede activamente aos trabalhos do
prolongamento da linha, da Póvoa a Villa
Nova de Famalicão (e pretendem leval-a até
Chaves, em Traz-os-Montes.)
O 4.º lanço, da Póvoa a Rates, está quasi
concluido, e os outros em construcção.
O terreno d'esta freguezia, é muito fertil
em todos:os generos do nosso paiz, e o seu
clima é saluberrimo, como em quasi toda a
provincia do Minho, à qual, até 1834, esta
freguezia pertencia (e todas as mais, até ao
rio Douro.)
Terminarei este artigo. declarando qual
a causa do martyrio de S. Pedro de Ra-
tes, segundo a tradição e memorias eseri-
ptas.
Havia por esses tempos, no territorio bra-
charense, um regulo gentio (provavelmente
romano) que tinha uma filha, coberta de le-
pra. -
O santo bispo a cura, por meio das suas
orações, e ella e sua mãe, em vista de um
milagre de tal natureza, se convertem à
fé christan. !
O régulo, enraivecido por isto, e esqueci-
do do que devia ao santo, o manda assassi-
RAT 91
nar, mesmo d'entro do templo, como já fica
dito.
Um anachoreta christão, chamado Felix,
e um seu sobrinho, tambem anachorêta, fo-
ram procurar o cadaver do santo, debaixo
do entulho do templo, e o sepultaram em
logar sagrado, até que, reconstruido o tem-
plo, para alli se recolheram os ossos de S.
Pedro de Rates.
Ha muito quem negue a vinda do apos-
tolo S. Thiago Maior, às Hespanhas, pelos
annos 40 de Jesus Christo, e, por consequen-
cia, a conversão de S. Pedro de Rates, por
aquelle santo; mas é esta a tradição imme-
morial nas Egrejas da Peninsula Iberica.
O padre Rivaux a confirma, no tomo 4.º
da sua Historia Ecclesiastica; e outros es-
criptores, mesmo estrangeiros, sustentam a
verdade d'esta peregrinação do santo apos-
tolo. à
O que é certo, é que S. Pedro de Rates, é
contado como o primeiro prelado da dioce-
se braccarense, e é n'esse facto que a Egre-
ja de Braga fundamenta a sua primazia so-
bre todas as Egrejas peninsulares.
RATOEIRA—freguezia, Beira Baixa, co-
marca, concelho e proximo de Celorico da
Beira, 48 kilometros da Guarda, 325 ao E.
de Lisboa, 120 fogos.
Em 4757, tinha 105 fogos.
Orago, S. Sebastião, martyr.
Bispado e districto administrativo da
Guarda.
Os priores da collegiada de Celorico da
Beira (o prior de Santa Maria, apresentava
dois annos—o de S. Martinho, um anno)
apresentavam o cura, que tinha 68000 réis
de congrua e o pé d'aliar.
É annexa a esta freguezia a de Casas do
Rio.
(Vol. 2.º, pag. 145, col. 1.2)
E terra fertil em cereaes e pa ga-
do e caça.
RATTON—appellido nobre em Portugal,
cuja familia veio da cidade de Briançon, no
Delphinado (França.)
Passou a Portugal, na pessoa de Jacques
Ratton, que se estabeleceu em Lisboa, e te-
ve de sua mulher, madame Francisca Rat-
58 RAU
ton (nascida Ballon) outro Jacques Ratton,
o qual, casando com D. Anna Clamousse, fi-
lha de Bernardo Clamousse, consul de Fran.
ça na cidade do Porto, teve por filhos, Dio-
go Ratton Clamousse, e outros.
Suas armas são:
Em campo azul, chefe de prata, carrega-
do de um rato negro, andante; contra-chefe
de ondas, com um atum negro nadante.
Timbre, meio rato.
Este Diogo Ratton, foi o 4.º barão de Al-
cochete.
Foi 2.º barão do mesmo titulo, seu filho,
o sr. Bernardo Daupiás, feito em 26 de maio
de 1836 —e 3.º barão o sr. Jacome Leão
Daupiás, feito em 17 de janeiro de 1840.
Em 18 de fevereiro de 1852, foi feito vis-
conde de Alcochete, o 2.º barão, o sr. Ber-
nardo Daupiás. :
(Vide Barroca d'Alva, a pag. 342, col.
2.2, no fim, e seguintes, do 1.º vol., onde
trato mais detidamente d'esta familia.
RAUSADOR — ROUSADOR e ROUÇOM —
portuguez antigo — o que rouba donzellas,
para abusar violentamente da sua honesti-
dade; ou o que violava as mulheres que en-
contrava em casa (d'ellas ou d'elles) contra
sua vontade.
O foral da villa de Lourinhan, dado em
12148, por D. Affonso II, diz:
O rousador seja preso, e justiçado: se fo-
gir, pague CCC (300) soldos ao Pretor, e ave-
nha-se com os Pais, ou parentes da mu-
lher.
No foral de Villa Verde dos Francos, no
concelho de Alemquer, dado no mesmo an-
no de 1218, se determina que o matador
pague 4:000 soldos, e, não os tendo, seja en-
forcado.
Egual pena impõe ao roxo (rousador.)
Nas Inquirições reaes, de 1258, se achou
que a ordem do Hospital, tinha na fregue-
zia de Santa Cruz, da Maia, seis casaes que
lhe havia empenhado frei Adrião, o qual foi
ter a um moinho e forciavit ibi unam mu-
lierem, e o rico homem que então era se-
“nhor da Maia, mandabat ei Raussum; e pa-
ra satisfação d'aquelle crime, contrahiu o
referido empenho.
O crime de rauso, ou rouço, era antiga-
RAZ
mente punido com tanta severidade, que, o
que o praticasse perdia o direito a qualquer
doação que tivesse da corôa; não exceptuan-
do d'esta pena, nem as mais poderosas or-
dens de cavallaria; o que consta da clausu+,
la de muitas d'essas doações.
D. Pedro 1, andando à caça nos arredores
de Lisboa, ouviu duas mulheres ralhando,
e uma chamar a outra rouçada.
Inquerindo a causa d'este insulto, soube
que ella havia sido rouçada pelo homem com
quem casou.
Deu logo ordem para que o rausador fos-
se enforcado.
Debalde a mulher se lançou aos pés do
rei, dizendo-lhe que, não só ella havia per-
doado o crime, mas que até o criminoso o
havia reparado pelo casamento. Nada lhe
valeu, e o infeliz foi justiçado.
Isto não foi um acto dejustiça, mas eruel-
dade estupida e inaudita.
RAVÊNA— antiga cidade da Lusitania,
que foi arrazada pelos árabes, no principio
do 8.º seculo, e cujo assento hoje se não
póde marcar com exactidão.
Dizem alguns que estava edificada a 2ki-
lometros de distancia da villa de Almendra,
na Beira Baixa, concelho de Villa Nova de
Foz-Côa, sobre um monte a que hoje dão o
nome de Calábre.
Outros sustentam que a cidade de Ravê-
na, existiu no monte ainda chamado de Ra-:
vena, sobranceiro à aldeia de Urróôs,no con-
celho de Moncorvo, em Traz-os-Montes.
(Note-se que o monte Calábre, fica ape-
nas a 5 kilometros do de Ravêna.)
Para não estarmos com repetições, vide
Almendra, Galiabria e Urrôs (do concelho
de Moncorvo.)
RAYA-—portuguez antigo—rainha— Pro-
nuncia-se raia.
RAZ—portuguez antigo—cabeça ou cabe-
ceira.
É a palavra árabe—Ráz—da qual nós fi-
zemos rêz.
Geralmente, significa cabeça; mas, quan-
do se reffere a animaes, designa o numero
singular de qualquer especie: v. gr—um
bôi, ráz bacar—um carneiro, ráz ganam—
um cavallo, ráz chail.
REA
É por isso que nós ainda hoje dizemos
— F. tem tantas cabeças de gado; que é o
mesmo que se dissessemos, tantas rêzes.
RAZA-—formosa povoação, Douro, na fre-
guezia e concelho de Villa Nova de Gaia.
O seu nome vem de que, antigamente, se
chamava propriedade de Raza e serrão,
aquella que só pagava fôro em annos alter-
nados—isto é—um anno sim, outro não.
Proximo a esta povoação fica a de Afora-
da (por corrupção Furada) cujo nome tal-
vez tivesse a mesma origem.
REAL —portuguez antigo — arraial, onde
está o rei, o general, ou a bandeira real.
REAL — antiga moeda portugueza. 1
Havia reaes de ouro, de prata e de cobre.
Os reaes d'ouro são do principio da mo-
narchia, assim como as mealhas d'ouro.
O real de prata, foi cunhado no tempo de
D. João I, e valia 20 reaes de cobre.
O rei D. Manuel mandou lavrar reaes de
prata, do mesmo valor, porém de menos
pêso; e: de valor de 30 réis, que eram do
. peso dos de D. João I.
Os reaes de prata, de D. João III, valiam
HQ réis.
No tempo de D. João IV tambem se lavra-
ram reaes de prata, do valor de 40 reaes de
cobre; mas muito inferiores no peso, aos
antecedentes.
Estes ainda chegaram aos nossos dias,
com o valor de 50 réis (meio tostão.)
No archivo da camara municipal do Por-
to, existe uma carta de D. João II, do anno
de 1489, pela qual manda que o real de
prata, seja de 20 réis, e o meio real, de 10
réis; e que, em cada marco de prata, haja
144 peças dos ditos reaes e 228 dos ditos
meios reaes; e que fosse o preço do marco
de prata 24280 réis, que é o preço de seis
cruzados.
Antes de D. Affonso V, tambem havia
reaes com o valor de 3 1/, libras, das anti-
gas, que, sendo de 36 réis cada uma, vi-
nham a valer 126 réis.
D'estes reaes se falla em uma carta de
compra do cabido de Lamêgo, feita em 1454.
1 Chamava-se real, por ter de um lado o
escudo real das armas portuguezas.
REA 59
Havia reaes brancos e prêtos, de cobre.
Os brancos foram mandados lavrar pelos
reis, D. Duarte, e D. Affonso V. Chamavam-se
brancos, por terem muita liga de prata. Os
que se bateram antes de 1446, valiam 10
ceitis e trez quartos de ceitil. Foi subindo o
valor d'estes reaes — sempre com o mesmo
peso—até que no principio d'este seculo, já
valiam 6 ceitis.
Era tanta a confusão por causa da altera-
ção do valor da moeda, que nos contratos se
estipulava o valor do real.
No cartorio da freguezia de S. Martinho,
de Cintra, existe uma escriptura, feita a 2
de dezembro de 1464, pela qual, a collegia-
da deu de aforamento um terreno em Rio de
Mógos, por 18200 réis brancos, de 35 libras
0 real.
O real preto, assim chamado, por ser ex-
clusivamente de cobre, foi mandado lavrar
pelo rei D. Duarte, e 10 d'elles faziam um
real branco.
Para evitar tanta confusão, desde D. João IE
até D. João III, se lavraram reaes pretos de
6 ceitis. Tinham de uma parte um R coroa-
do, e da outra, o escudo do reino, com a
nome do rei na orla.
D'esta moeda lavrou tambem o rei D. Se-
bastião, com o valor de 3 ceitis. Tinham de
uma parte, um S coroado (Sebastianus) e da
outra, um R, entre dois pontos, no alto, e a
letra SEBASTIANUS Tes.
Este mesmo soberano mandou lavrar à
moeda chamada real e meio, que valia 9
ceitis.
REAL — freguezia, Douro, comarca e 18
kilometros ao NO. de Arouca, concelho e 3
kilometros ao ONO. da villa de Sobrado, ca-
pital do concelho de Castello de Paiva, 50
kilometros ao O. de Lamego, 75 ao NE. de
Aveiro, 36 ao E. do Porto, 6 ao S. do rio
Douro, 315 ao N. de Lisboa ; 240 fogos.
Em 41757 tinha 200 fogos.
Orago Santa Marinha.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Aveiro. ,
A casa dos fidalgos da Boa Vista, da villa
de Sobrado (Pintos Mirandas Montenegros)
apresentava o abbade, que tinha 6008000
réis de rendimento.
60 REA
É nesta freguezia a extincta villa de No-
0es. (Vide 6.º volume, pag. 108, col. 2.º).
É terra muito fertil em todos os generos
agricolas do paiz.
Os Pintos, padroeiros da egreja
de Santa Marinha, de Real
Já depois de tratar dos Correias, da Rua
Chan, na col. 1.º da pag. 526 do 7.º volume,
perdeu esta nobilissima familia o seu chefe,
e um dos filhos d'ella.
Falleceu a 9 de outubro de 1877, na sua
casa da Boa Vista, em Paiva, o sr. Bernar-
do Jusé Pinto de Vasconcellos de Miranda
Montenegro, fidalgo da casa real, com exer-
cicio no paço. Tinha sido cadete de cavalla-
ria, passando depois a coronel de milicias.
Era o 42.º padroeiro da egreja de Reale da
de Lazarim, no concelho de Tarouca, e am-
bas no bispado de Lamego. Foi 414.º admi-
nistrador do vinculo da Rua Chan (Porto) ;
9.º do de Val Bom (vide Sete CGapellas); 8.º
do da Fervoença, em Sinfães; 8.º do de Tu-
hias; 6.º do de Alvarenga (vide Torre d'Al-
varenga); 7.º do de Santa Cruz; 5.º do de
Vegíde, ambos na freguezia de Sobrado de
Paiva. Senhor da quinta da Boa Vista, solar
d'esta familia.
E no dia 29 de julho do mesmo anno de
1877, tinha fallecido repentinamente, de uma
aneurisma, andando a passear nos jardins do
Palacio de Crystal portuense, e na edade de
27 annos, o sr. Pedro Augusto Pinto de Vas-
concellos de Miranda Montenegro.
Depois de concluir os estudos preparato-
rios, no lyceu do Porto, sentou praça em 22
de setembro de 1867 (tendo 17 annos de eda-
de) no regimento de infanteria n.º 5. Fez
depois exame de madureza, na universidade
de Coimbra, logo a 11 de outubro, e no mez
seguinte, matriculou-se na escola do exer-
cito, sendo declarado primeiro sargento, as-
pirante a official, por ordem do exercito, de
15 de novembro do mesmo anno de 1867.
Em dezembro.de 1869, terminou o curso
de infanteria e cavallaria, e foi promovido a
alferes graduado, a 19 de janeiro de 4870.
Pouco depois, foi escolhido pelo sr. conde
de Torres Novas (o general José de Vascon-
REA
cellos Correia, commandante da 3.º divisão
militar) para seu ajudante de campo; e o
general o amava como se fosse-seu pae.
Em 13 de agosto de 1872, foi promovido
a alferes effectivo, e a tenente, em 28 de
agosto de 1875.
Padecendo havia dois annos, da molestia
de que falleceu, havia ido, em 1876, para a
Italia, onde se demorou cinco mezes, pares
cendo gozar melhor saude no seu regresso
a Portugal, mas, passados tres mezes, falle-
ceu repentinamente, como já disse; e assim
perdeu a patria um militar esclarecido e
brioso, e os seus parentes, e todos quantos o
conheciam, um amigo verdadeiro.
Fallei tambem no artigo Correias da rua
Chan, do sr. Augusto Pinto de Miranda Mon-
tenegro, irmão do antecedente; aqui aceres-
cento :
Este senhor é bacharel, formado em ma-
thematica, major de engenheiros; condecora-
do com o habito de S. Bento de Aviz, pelos
relevantes serviços feitos na provincia de
Cabo Verde, como director das obras publi-
cas; commendador da ordem de Christo; e
fidalgo da casa real, com exercicio no paço.
Tem, até hoje, sido deputado ás córtes, em
duas legislaturas.
Tratemos agora dos padroeiros da egreja
de Santa Marinha, de Real.
A nobilissima familia dos Pintos, de Real,
teve principio no conde Dom Mendo de Sou
sa, mordomo-mór de D. Sancho I, alcaide-
mór de Lisboa, em 1186.
Casou com D. Maria Rodrigues, filha do
conde D. Rodrigo Martins Osorio, senhor de
Villa-Lobos, Cabreira, e Ribeira, e da con-
dessa D. Maria Forjaz, filha de D. Forjaz Ber-
mudes. Foi seu filho
2.º— D. Garcia Mendes de Sousa, por al-
cunha o d'Eixo, que succedeu na casa de
seus paes, por ter fallecido, em 23 de feve-
reiro de 1237, seu irmão primogenito, D.
Gonçalo Mendes de Sousa, mordomo-mór de
D. Affonso II. D. Garcia casou com D. Elvi-
ra Gonçalves de Torombo, filha de D. Gon-
calo de Torombo, e de sua mulher, D. Xi-
mena Paes. |
REA
“Foram seus filhos, D. Gonçalo Garcia de
Sousa, alferes-mór de D. Affonso II, e
3.º — D. João Garcia de Sousa, o Pinto1,
que foi o primeiro d'este appellido. É este o
tronco d'esta familia, dos Pintos de Real. Foi
senhor da villa d'Alegrete, e casou com D.
Urraca Fernandes, filha de D. Fernando Pi-
res Pelegrin, bisneto do famoso D. Egas Mo-
niz. Foi seu filho
hº— D. Elvira Annes Pinto, que casou
com D. Guterre Soares de Menezes, senhor
1 Pinto, principiou por alcunha; mas elle
a adoptou como appellido honroso, pois pro-
cédia de ter sahido salpicado (pinto) de san-
gue em uma batalha contra os mouros do
Álemtejo, na qual se havia distinguido como
bravissimo militar. Isto, segundo Villas-Boas;
mas, frei Manuel de Santo Antonio, ultimo
reformador do cartorio da nobreza, diz que
procede de Payo Soares Pinto, que viveu no
tempo do conde D. Henrique, na quinta do
Paço, da villa da Feira, e falieceu antes de
1126, em cujo anno, sua mulher, D. Mayor
Mendes, vendeu a mesma quinta ao mosteiro
dos cruzios, de Grijó.
Supponho ser engano do frade (pois, até
ao seculo xi, não vejo nenhum fidalgo de
appellido Pinto) e que é certo o que diz
Villas-Boas; mesmo porque concorda com
os documentos existentes na casa dos Pintos,
de Real.
Estes Pintos trazem por armas—em cam-
po de prata, 5 crescentes de púrpura, em
aspa. Elmo de prata, aberto; e por timbre,
um leopardo de prata, armado de púrpura,
com um crescente do escudo, na espadua.
Antonio Soares d'Albergaria, diz (fl. 164,
V.) que o primeiro que se acha com o ap-
pellido de Pinto, é areia Soares Pinto (3.º
neto do conde D. Mendo de Sousa) nas In-
quirições do rei D. Diniz, em cujo tempo, ti-
nha o titulo de vassallo do rei.
Os descendentes do conde D. Mendo de
Souza, deixaram as armas dos Souzas, e Os
quarteis das Quinas, que alguns ainda tra-
zem, e tomaram por armas (isto, segundo
Albergaria) em campo de prata, 5 cadernas
“de crescentes de púrpura, em aspa; élmo de
prata, aberto, e por timbre, um leão de pra-
ta, lampassado de púrpura. As cadernas de
crescentes, são as ganhadas por um ascen-
dente d'esta familia, na batalha de Mértola;
e o leão do timbre, pelo sangue que herda-
ram do rei D. Ramiro, de Leão, seu proge-
nitor.
Quanto a mim, o que ganhou as 5 cader-
nas do crescente, foi o mesmo D. João Gar-
cia de Sousa (n.º 3).
REA 61
- de São Felices e Osa, e rico-homem. Foi seu
filho ;
5.º—Garcia Soares Pinto, casado com D.
Maria Gomes d'Abreu, e foi seu filho
6.º— Vasco Garcia Pinto, que casou com
D. Urraca Vasques de Sousa, filha de Ruy
Vasques de Sousa (o de Panoyas) neto do
conde de Souzão. Foi seu filho
7.º — Ayres Vaz Pinto, casado: com D.
Constança Rodrigues Pereira, filha de Payo
Rodrigues Pereira, conde da Feira, e foi seu
filho
8.º—Ruy Vasques (ou Vaz) Pinto, senhor
de Ferreiros de Tendaes-e suas egrejas, de
juro e herdade, com mero e mixto imperio;
alcaide-mór da villa de Chaves, por D. Ma-
nuel I; senhor da quinta de Covellos; adian-
tado d'Entre Douro e Minho, e regedor das
justiças. Este Ruy, era da familia dos Pintos
de Riba Bestança.
Para evitarmos repetições ;
os que desejarem saber os
grandes serviços que fez à pa-
tria, este Ruy Vasques (ou
Vaz) Pinto, vejam o que es-
crevi na 2.º col. de pag. 178,
do 3.º volume.
Ruy Vasques Pinto, casou com D. Catha-
rina Maria (ou Mecia) de Mello, filha de Mar-
tim Afionso de Mello, e de D. Brites de Sou-
za, que foram o tronco dos Mellos. Foi seu
filho
9.º — Ayres Pinto de Mello, que, por ser
um fidalgo muito distincto, os parochianos
da egreja de Real, lhe doaram, voluntaria-
mente, o padroado d'ella. Casou com D.Bran-
ca Gil d'Almeida, filha de Lopo d'Almeida,
1.º conde de Abrantes. (Era irman de D. Jor-
ge, bispo de Coimbra, e de D. Francisco de
Almeida, o famoso vice-rei da India. Foi seu
filho
10.º— Fernão Pinto, fidalgo escudeiro, e
armado cavalleiro em Tanger (Africa) para
onde tinha ido guerrear os mouros, com
uma companhia de cavallos, pagos à sua
custa. Casou com D. Beatriz Fernandes An-
dorinho, filha de Lopo Fernandes, fidalgo e
estribeiro-mór do infante D. Fernando. Foi
seu filho
11.º — Fernão Lopes Pinto, fidalgo caval-
62 REA
leiro, que casou com D. Maria da Costa de
Miranda, dama do paço, descendente dos
Costas de Santarem e Thomar; e irman de
Afionso Lopes da Costa, governador de Ma-
laca. Foi seu filho |
12.º — Gaspar Pinto de Miranda, fidalgo
da casa real, e casado com D. Lucrecia de
Sampaio, da casa de Paços, em Pombeiro,
filha de Gonçalo de Figueiredo, e de D. Fran-
cisca de Sampaio. Foi seu filho
13.º— Heitor Pinto de Miranda, fidalgo da
casa real, e veador da casa do infante D. Pe-
dro. Casou com D. Anna Beliago Carneiro,
filha de Gonçalo Carneiro Baldaia e de D.
Guiomar Beliago. (Este Gonçalo Carneiro
era lente de Coimbra, e, depois de viuvo,
tomou ordens, e foi bispo do Porto. Foi filho
de Heitor Pinto e sua mulher.
14,º — Gaspar Pinto de Miranda, que ca-
sou com D. Maria Ribeiro, sobrinha de D.
João Ribeiro, bispo de Malaca, e filha de
Antonio Gonçalves Ribeiro, e de D. Theo-
dosia do Valle e Brito, irman de Manuel de
Couros, commendador de Oleiros. Foi seu
filho
15.º — Pantaleão Pinto de Miranda, fidal-
go da casa real, e casado com sua prima,
D. Marianna de Souza, filha de Fernão Ri.
beiro Soares de Miranda, e de D. Jeronyma
da Silva. Foi seu filho
16.º— Gonçalo Vaz Pinto de Miranda, fi-
dalgo da casa real, casado com D. Lourença
Clara da Silva Baldaia, da casa de Canel-
las.
Foi condecorado com o habito de Christo,
pelos serviços prestados contra os castelha-
nos, na guerra da restauração; e D. Pedro II
lhe deu um padrão de 65000 réis, por ter
sustentado à sua custa, uma companhia de
soldados, na dita guerra.
17.º—Martinho José Pinto da Silva de Mi-
randa, fidalgo da casa real, casado com D.
Maria Isabel Clara de Menezes Sotto Maior.
Foi seu filho
18.º—Bernardo José Pinto de Vasconcellos
de Miranda Montenegro, fidalgo da casa real,
etc. Foi seu filho
19.º — Martinho José Pinto de Vascon-
cellos de Miranda Montenegro, etc. Foi seu
filho
REA
20.2-Bernardo José Pinto de Vasconcellos
de Miranda Montenegro, etc. 1
Para evitarmos repetições
escusadas, vide no artigo Por-
to os Correias da Rua Chan
(na col. 4.2 da pag. 526 do 7.º
volume) tudo o que diz res-
peito a estes quatro ultimos fi-
dalgos.
Foi filho de Bernardo José Pinto
21.º— Albino Pinto de Vasconcellos de Mi-
randa Montenegro, etc. (Vide 7.º volume,
pag. 530, col. 2.3).
Supponho, com bons fundamentos, que o
nome de Real, dado a esta freguezia, lhe
provém de ter sido em outros tempos, um
reguengo.
É povoação antiquissima, e que já existia
no tempo dos romanos, do que ha claros ves-
tigios. Até já era habitada nos tempos pre-
historicos, como o provam os monumentos
megalithicos que ainda por aqui existem.
Mesmo como parochia christan, tem com
certeza mais de 800 annos.
Em 1061, reinando D. Fernando, o Magno,
de Castella, Leão e Portugal, fez o presby-
tero Fromosindo Romariguiz, doação, a seu
filho, o sacerdote Sandila, de Baselicas et de
omnia sua rem: et fuit ipso: Fromosindo
Presbitero Fraigenidi, et Barbadi et ex vene-
rabilibus parentibus suis, et ganavit, et com-
paravit ereditates pro pretio, et scrituras in
Villa Rial, territorium Enegia subtus mons
Serra-Sicca, discorrentem rivulo Sardoura
flumen Durio. (As egrejas —Baselicas—que
lhe doou foram as de S. Salvador, S. Pedro
e Santa Christina).
Para se entender melhor esta doação, é
preciso ver Arêja, no volume 1.º pag. 238 I,
col. 1.2
REAL — freguezia, Minho, concelho, co-
marca e 6 kilometros de Braga, 360 ao N.
de Lisboa, 220 fogos.
1 Do sr. Bernardo José Pinto de Vascon-
cellos de Miranda Montenegro, só restam
hoje vivos dois filhos legitimos: o sr. doutor
Albino, que vem a ser o n.º 21, e seu digno
irmão, o sr. Martinho Pinto; dos quaes já
fallei no artigo Porto—CGorreias da Rua Chan.
REA
Em 1757 tinha 208 fogos.
Orago S. Jeronymo.
Arcebispado e distrito administrativo de
Braga.
A mitra e os monges benedictinos de Tra-
vanca, apresentavam alternativamente O ab-
bade, que tinha 6003000 réis de rendimento.
É povoação antiquissima e foi villa (casa
de campo) de um patricio romano residente
em Braga. Dividia o termo de Braga do de
Dume, no tempo do rei D. Affonso VI (o Ma-
gno) de Castella e Leão, pae da nossa rainha
D. Thereza, mulher dao conde D. Henrique.
Esta divisão foi feita pelos annos de 1080.
Nas Inquirições do rei D. Diniz (1300) se
acham duas villas ou aldeias com o nome
de Real, ambas perto de Braga : uma deno-
minada Real Velho (a que foi villa romana)
na antiga freguezia de S. Fructuoso; outra
chamada Real Novo, na freguezia de Semêlhe.
A quinta de Real Velho foi depois morga-
dia dos descendentes do nosso grande his-
toriador João de Barros, que eram tambem ||
morgados em Leiria. 1
Real Novo pertencia a uma familia nobre
e antiga, cuja casa estã hoje unida à dos se-
nhores Bandeiras, de Traz da Sé, da cidade
do Porto. Á quinta do Real Novo se dá hoje
o nome de quinta do Paço. (Vide Semêlhe).
Houve n'esta freguezia, um mosteiro de
frades benedictinos, fundado pelos annos
690 de Jesus Christo, por S. Fructuoso (que:
supponho ser o primeiro padroeiro da fre-
guezia). Na egreja do mosteiro existe a ca-
pella e sepultura do fundador, cujo cadaver |
seu
aqui existiu por mais de 400 annos; mas,
nos principios do seculo x1r, o arcebispo de'
S. Thiago de Compostella, o furtou, levan-
do-o para a sua Sé, onde está.
1 Os morgados de Real Velho e Leiria ti-
nham uma particularidade que não me-consta
haver em outro qualquer vinculo de Portu-
gal. Se o administrador tinha dois filhos, ca-
da um herdava um d'estes morgados; mas se
tinha só um, ficava com ambos, e assim an-
davam unidos até haver dois filhos, para se
separarem. Ainda mais: se faltava filho va-,
rão em um dos vinculos, herdava-o o admi-
nistrador do outro, dando-o a seu filho se-
gundo, se o tinha: e assim'seguia sempre a
linha com estas condições.
REA 63
Esta capella foi um dos trez templos que
os mouros deixaram aos christãos bracca-
renses, para o culto divino, mediante certo
tributo; porém os monges abandonaram q
mosteiro, que ficou deshabitado, e a cêrca
abandonada até ao meiado do seculo x1, em
que os arcebispos de Braga tomaram conta
d'isto, e aqui fizeram uma bella casa e quin-
ta de récreio; até que o arcebispo D. Diogo
de Souza, deu o antigo mosteiro e suas de-
pendencias, aos frades franciscanos da pro-
vincia da Piedade, que aqui se estabelece-
ram, até 1894.
Expulsos os religiosos, foram o edificio e
cérca vendidos, e é hoje uma boa proprie-
dade particular.
O territorio d'esta freguezia é muito fer-
til em todos os generos agricolas do paiz.
REAL — freguezia, Douro, comarca, con-
celho e proximo d'Amarante, 40 kilometros
ao NE. de Braga, 50 ao NE. do Porto, 360 ao
N. de Lisboa, 220 fogos.
Em 1757 tinha 208 fogos.
Orago o Salvador.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
6004000 réis de rendimento. É terra fertil.
REAL —freguezia, Beira Alta, no concelho
de Penalva do Castello, comarca de Man-
gualde, 20 kilometros de Viseu, 310 ao N.
de Lisboa, 110 fogos.
Em 1757 tinha 66 fogos.
Orago S. Paulo, apostolo.
Bispado e districto administrativo de Vi-
“O abbade do Castello de Penalva, apresen-
tava o cura, que tinha 68000 réis de con-
grua e o pé d'altar.
É terra pouco fertil, mas cria bastante ga-
do e caça.
REAL — ribeiro, Douro, na freguezia de
Laundos, concelho e comarca da Povoa de
Varzim. Nas margens deste ribeiro e no si-
tio da Agua Ferrea, da mesma freguezia, ha
minas de ferro, manganez e antimonio. O sr.
Francisco Pereira de Azevedo, do Porto, ma-
nifestou estas minas, na camara da Povoa,
em 12 e 22 de novembro de 1873; mas es-
tão abandonadas,
64 REA
REAL AGRADO-—no Pezo da Régua, Traz-
os-Montes. Em 41 de junho de 1805, o prin-
cipe regente (depois D. João VI) fez baro-
neza do Real Agrado, a D. Joanna Rita de
Lacerda Castello Branco; e, em 43 de maio
de 4810, lhe deu o titulo de viscondessa,
com honras de grande. Era dama da ordem
de Santa Isabel, açafata de D. Maria I, e da-
ma da rainha D. Carlota Joaquina. Falleceu
a 6 de março de 1822.
Succedeu-lhe nos titulos, e foi 2.º barão €
2.º visconde do Real Agrado, Ignacio Xavier
de Seixas Lemos Castello Branco, fidalgo da
casa Teal, commendador da ordem de Chris-
to, cavalleiro da Torre Espada, condecorado
com a cruz n.º 2, da guerra peninsular, e
coronel do exercito. Nasceu em 21 de setem-
bro de 1771, e casou em 7 de abril de 1812,
com D. Maria do Carmo Vaz Pinto Guedes,
que havia nascido a 2 de outubro de 1781.
Era filha e herdeira de José Vaz Pinto Gue-
" des, capitão-mór de Penaguião, e de sua mu-
lher D. Josefa Candida da Silva.
D'este matrimonio nasteram quatro filhos.
4.º — Francisco Xavier de Lemos Seixas
Castello Branco, feito alferes de cavallaria
n.º 6, do exercito do senhor D. Miguel I, em
12 de março de 1834. Foi um dos officiaes
realistas cujos postos foram garantidos pelos
liberaes, por acções que durante a lucta me-
receram esta classificação. Commendador da
ordem de S. Thiago. Nasceu a 7 de setem-
bro de 1814.
2.º — José, nascido a 30 de dezêmbro de
1815.
3.—João de Lemos Seixas Castello Branco,
maviosissimo poeta, bem conhecido, e do
qual já tratei n'esta obra. Nasceu a 6 de
maio de 1819.
4.º—D. Maria Luiza, nascida a 2 de fes
reiro de 1821.
Eram netos de Francisco Xavier de Sei-
Xas Lemos Castello Branco, irmão da 4.º ba-
roneza e 4.º viscondessa do Real Agrado.
Foi fidalgo da casa real, e commendador da
ordem de S. Thiago.
Casou com D. Maria Josefa Pereira de Mi-
randa, filha de Alexandre Pereira de Miran-
da, senhor da casa de Lourosa, e de D. Mi-
Chaella Thereza Ferreira de Castro e Lima..
REB
D'este casamento houve nove filhos :
1.º— Antonio, abbade de Sande.
2.º—João, conego da Sé de Braga.
3.º—Francisco, abbade de S. Miguel de
Entre ambos os rios.
k.—o monsenhor D. Joaquim.
“ 5.º—Domingos, beneficiado.
6.º—D. Lucia Bernarda.
7.º—Ignacio, que foi o 2.º barão e 0 2.º
visconde do Real Agrado.
8.º—D. Maria Jacintha.
9.º—D. Joanna Rita, que foi açafata
D. Maria I, e depois esteve ao serviço da in-
fanta D. Isabel Maria, filha de D. João VI.
Todos já são fallecidos.
REBENTINA ou REBENTINHA — portu-
guez antigo—ira, furor, raiva, etc. Na His-
toria da fundação da egreja de S. Miguel,
de Penaguião, se lê: «Ouvindo esto D. Go-
mez, € os que hião com el, creceo-lhe a re-
bentina, e nom le catarom as Hordens.» Es-
te documento é de 1191.
REBOLEIRO —freguezia, Beira Baixa, co-
marca e concelho de Trancoso, 48 kilometros
de Viseu, 355 ao N. de Lisboa, 65 fogos.
Em 1757 tinha 51 fogos.
Orago Santa Catharina, virgem e martyr.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo da Guarda.
O commendador de Sernancélhe (da or-
dem de Malta) apresentava o cura, que tinha
308000 réis e o pé d'altar.
É terra pouco fertil. Muita caça.
Esta freguezia tinha os grandes privilegios
dos caseiros de Malta.
REBOLOSA ou ROBELOSA — freguezia,.
Beira Baixa, comarca e concelho do Sabu-
gal, no Riba-Côa (foi da mesma comarca,
mas do extincto concelho de Villar Maior)
120 kilometros ao SE. de Lamego, e 360 ao
E. de Lisboa, 80 fogos.
Em 4757 tinha o7 fogos.
Orago Santa Catharina, virgem e martyr.
Bispado de Pinhel (foi do bispado de La-
mego), districto administrativo da Guarda.
'O vigario da villa d'Alfaiates, apresenta-
va O cura, que tinha 358000 réis 6 0 pé de
altar.
Terra fertil em trigo, centeio e gado; do
mais pouco.
REB
RÉBORA, RÓBORA, RÉVORA e REVORA-,
ÇÃO— portuguez antigo—offerta, mimo, pre- |
sente, etc. que 0 comprador dava ao vende-
dor, e o doado ao doador, além do estipula-
do na escriptura. Tambem se dava rébora ao
soberano, ou ao senhor da propriedade
vendida, trocada, ou doada; e por isso se vê
em quasi todos os documentos antigos, d'es-
ta natureza, a dicção—roboro et confirmo.
A rébora consistia em cousas de pouco
valor, com respeito aos bens de que tratava
à escriptura. Era, um' par de esporas, uns
sapatos, um capote, uma saia, um podengo,
um par de guantes (luvas), uma vacta, um
porco, etc.
Tambem se dizia rébora, a maioridade de
qualquer individuo; mas a idade não era a
mesma em todos os documentos: em uns
vê-se marcada à rébora, aos 13 annos, em
outros aos 15, e em outros aos 48.
Quando se não designavam os annos da
rébora, entendia-se o termo por puberdade,
que era, como actualmente—nos homens, a
idade de 14 annos, e nas mulheres a de 12.
(Cod. Alf., livro 4.º, tit. 38, 8 4.º, e tit. 107,
S 44).
REBORDAINHOS — freguezia, Traz-os-
Montes, (foi villa) no concelho e comarca de
Bragança, 54 kilometros ao N. de Miranda,
465 ao-N. de Lisboa, 95 fogos.
Em 1757 tinha 76 fogos.
Orago Santa Maria Magdalena.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
Amitra apresentava o vigario ad nutum,
que tinha 78500 réis de congrua e o pé de
altar.
É terra pouco fertil e pobre. Gado e caça.
“ Foi aldeia da freguezia de Rebordãos.
REBORDÃOS — serra, Minho e Traz-os-
Montes. (Vide Medúlio, monte, vol. 5.º, pag.
157, col. 1.º).
REBORDÃOS-=Vide Rebordões.
REBORDÃOS —villa, Traz-os-Montes, con-
celho e comarca de Bragança, 45 kilometros
ao N. de Miranda, 465 ao N. de Lisboa (fica
proximo á freguezia de Rebordainhos, que
antigamente pertencia á parochia d'esta vil-
la), 135 fogos.
Em 1757 tinha 115 fogos.
REB
Orago Nossa Senhora d'Assumpção.
A casa de Bragança apresentava o abba-
de. que tinha 3008000 réis de rendimento.
É povoação muito antiga, talvez do tempo
dos romanos, e, com certeza, do tempo dos
godos. D. Sancho I lhe deu foral em Coim-
bra, em novembro de 1208. (Livro de doações
de D. Affonso III, fl. 614 v., e Livro de foraes
antigos de leitura nova, fl. 25, col. 2.2).
D. Diniz, lhe deu outro foral, confirmando
o antigo, e augmentando os seus privilegios,
em Lisboa, a 18 de maio de 1285. (Livro 3.º
dos bens proprios d'el-rei, fl. 81 v.).
Esta freguezia tinha grandes privilegios,
por ser da casa de Bragança.
Junto a esta villa está a serra ou monte
da Nogueira, de bastante altura, e no seu
cume existe a ermida de Nossa Senhora da
Serra ou da Natividade, que poucas vezes
se avista de longe, por estar quasi sempre
envolta em nevoeiro. É templo de boa con-
strucção, e antiquissimo, pois já existia no
tempo dos godos, e foi reparado no tempo
do conde D. Henrique. As festas da Senhora
são no dia da sua Natividade, e a 5 de agos-
to, dia de Nossa Senhora das Neves. Esta é
a principal.
Teve uma rica irmandade, e tem JURO,
por bullas apostolicas.
É um templo vasto, pois tem 40 metros
de comprimento, e de trez naves, divididas
por dez columnas de pedra, cinco de cada
lado.
Antigamente, recebia a Senhora muitas e
valiosas offertas, em dinheiro e generos, e
muitos devotos se pezavam a trigo, em cum-
primento de votos.
A 5 de agosto, fazia-se tambem uma gran-
de feira.
Teve eremitão, presbytero, apresentado
pelo abbade de Rebordãos.
Consta que perto da ermida houve um
antiquissimo castello, que, estando arruina-
do, se aproveitaram os seus materiaes para
a construcção da casa do eremitão.
REBORDÃOS ou SOUTO DE REBORDÃOS
—Minho. Vide o segundo Rebordões.
REBORDECHÃO — Vide Pedras Salgadas.
65
Antigamente-tinha este logar o nome de Re-
vorêdo-Ghão e Reverde-Chão, e era um Ca-
66 REB
sal, ao qual D. Affonso III deu foral, em ja-
neiro de 1255. (Maço 9.º de forães antigos,
n.º8, 1. 16 v).
REBORDÊLLO-—aldeia, Douro, na fregue-
zia de Canedo, comarca e concelho da Feira,
d'onde dista 20 kilometros ao ENE., 30 ao
SE. do Porto, 5 ao S. do rio Douro, e 300
ao N. de Lisboa, 16 fogos.
Era no seculo xrv da freguezia de Parada
- do Monte.
É terra muito pobre, pois que os seus mo-
radores vivem quasi exclusivamente de fa-
zer mólhos de carqueija, que vão vender à
aldeia de Pé de Moura, sobre a margem es-
querda do Douro, e é daqui conduzida para
a cidade do Porto.
Ha aqui uma capella, pequena, de pouca
valia, mas muito antiga, dedicada a Santa
Barbara, virgem e martyr, à qual fazem
uma festa (à custa de esmolas) na primeira
oitava da Paschoa.
Esta aldeia está situada na encosta occi-
dental da serra de Lavercos, no sitio nuno!
minado monte da Ossa.
Corre-lhe ao sopé o rio Inha, que a 3 ki-
lometros de distancia, morre no rio Douro,
no sitio chamado Foz da Inha.
Vide Mosteiró do Ribeiro, no 5.º volume,
a pag. 560, col. 2.2
REBORDÊLLO — freguezia, Traz-os-Mon-
tes, comarca e concelho de Vinhaes, 70 ki-
lometros de Miranda, 450 ao N. de Lishoa,
180 fogos. Em 1757 tinha 135 fogos.
Orago S. Lourenço.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
Está annexa a esta freguezia, a de Valle
d'Arneiro.
O real padroado apresentava o abbade,
que tinha 3008000 réis de rendimento.
É terra de clima excessivo, mas fertil em
cercaes, fructas, legumes e hortaliças. Cria
muito gado, e nos seus montes ha grande
abundancia de caça.
É povoação muito antiga, e chamava-se
Revordélio.
REBORDÊLLO (antigamente Revordêlio)
— freguezia, Douro, comarca e concelho. de
Amarante, 48 kilometros ao NE. de Braga,
370 ao N. de Lisboa, 70 fogos.
REB
Em 1757 tinha 99 fogos.
Orago Nossa Senhora das Dores (antiga-
mente Nossa Senhora das Neves).
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto. «
O D. abbade: benedictino, do mosteiro de
Arnoia: (S.João do Ermo), apresentava o
cura, que tinha 102000 réis de ad: eo
pé d'altar.
Esta povoação ia antigamente à
comarca e concelho de: Celorico de Basto.
É terra fertil.: Bom vinho verde. Muito
gado e caça.
Tinha foral velho, dado por D. Affonso HI,
em Guimarães, a 16 de maio de 1258. (Li-
vro 1.º de Doações de D. Affonso III, fl. 29,
V.; Col. 4.2, no principio).
REBORDÕES ou REBORDÃOS — fregue-
zia, Douro, comarca e concelho de Santo
Thyrso, (foi da mesma comarca, mas do ex-
tincto concelho de Negréllos), 24 kilometros
ao SE. de Braga, 335:a0 N. de Lisboa, 220
fogos.
Em 1757 tinha 123 fogos.
Orago S. Thiago, apostolo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
O bailio de Leça, a mitra de Braga, e 0
D. abbade benedictino de Santo Thyrso,
apresentavam: alternativamente o abbade,
que tinha 4008000 réis de rendimento.
Foi honra e villa.
Em 1226, era senhor d'esta villa, Gil Mar-
tins, filho de Martim Fernandes de Sá, e a
deu n'esse anno aos monges bentos de Santo
Thyrso.
É terra fertil. Cria muito gado de toda à
qualidade.
REBORDÕES ou REBORDÃOS—freguezia,
Minho, comarca e concelho de Ponte de Li-
ma, 24 kilometros a O. de Braga, 385 ao N.
de Lisboa, 120 fogos.
Em 1757 tinha 105 fogos.
Orago Santa Maria (Nossa Senhora da Ex-
pectação).
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
O D. abbade benedictino de S. Romão de
Neiva, apresentava 0 vigario, que tinha réis
703000 é o pé d'altar.
REB
E terra fertilissima, situada proximo da
margem esquerda do poetico rio Lima.
Na serra da Nó, limites d'esta freguezia,
está o sumptuosissimo templo de Nossa Se-
nhora da Boa Morte, do qual já tratei no vo-
lume 2.º, col. 1.º, e volume 6.º, pag. 101, sob
a palavra Nó, serra do Minho.
Junto ao templo da Senhora, ha vestigios
de antigos edificios: dizem uns, que são os
restos de uma fortaleza romana; outros sus-
tentam, que são ruinas de um mosteiro de
monges bentos.
Ao monte do Nó, chamavam também ser-
ra de Rebordões; e D. Ordonho II, rei de
Oviêdo e Leão, e sua mulher, D. Elvira, na
doação que fizeram da Correlhan, a S. Thia-
go de Compostela (Galliza) em 914, dão a
este monte o nome de Monte Nahor, ou
Mayor.
Já se vê que é povoação muito antiga. Vi-
de o Rebordões seguinte.
REBORDÕES (Souto de) — antigamente
Souto de Robordãos. (É a freguezia seguinte.)
Entre os termos da villa de Ponte do Li-
ma, e freguezia da Correlhan, e extintos
coutos da Queijada, Cabaços e Feitosa, es-
tava o concelho do Souto de ReboRdaa; ha
muitos annos supprimido.
Era da corôa até ao tempo do rei D. Di-
niz.
Este monarcha o deu, pelos annos de 1310,
a seu filho bastardo, D. Affonso Sanches, (o
de Villa do Conde) e este vendeu o senho-
rio, a Gil Affonso de Magalhães, senhor da
casa de Magalhães, Terra da Nóbrega, Mo-
rilhões, e Font'-Árcada, que tomou o titulo
de donatario d'este concelho, e o possuiu e
os seus descendentes, até que acabaram os
senhores donatarios.
Rendia este senhorio, aos seus donatarios,
338000 réis annuaes, que a camara do con-
celho recebia do povo, e entregava ao do-
natario.
O concelho era apenas composto de duas
freguezias (e por isso, muitos lhe dão o ti-
tulo de Souto.)
Eram—sS. Salvador do Souto (a seguinte)
que em 1700 tinha 140 fogos—e Santa Ma-
ria de Rebordões (a antecedente) que no
mesmo anno de 1700, tinha 100 fogos.
REB 67
Nada menos de 7 foraes foram dados a
este pequeno concelho.
4.º D. Affonso Henriques lhe deu o 4.º,
sem data, que seu neto, D. Affonso II, con-
firmou em Santarem, a 3 de fevereiro de
1218.
2.º Dado por D. Sancho I, em 1196.
3.º Dado pelo mesmo soberano, em agos-
to de 1207. Este é datado de Correlhan.
h.º Dado por D. Affonso III (quando ain-
da regente) em março de 1247.
à.º Dado pelo mesmo monarcha, em Gui-
marães, a 27 de maio de 1258.
6.º Dado pelo mesmo D. Affonso III, em
Leiria, a 8 de março de 1268.
7.º Dado tambem por D. Affonso III, em
Lisboa, a 16 de septembro de 1270.
(Vide Franklim, pag. 287 e 288.)
Todos os foraes subsequentes, confirma-
vam os antecedentes, e lhes augmentavam
os privilegios.
Vê-se que este concelho, ainda que pe-
queno, era de grande importancia no prin-
cipio da nossa monarchia.
REBORDÕES ou REBORDÃOS antigamen-
te denominada SÃO SALVADOR DO SOUTO
DE REBORDÃOS—freguezia, Minho, na co-
marca é concelho de Ponte de Lima, 18 ki-
lometros ao O. de Braga, 365 ao N. de Lis-
boa, 210 fogos.
Em 4757 tinha 123 fogos.
Orago, o Salvador.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna,
A mitra primacial apresentava o prior,
que tinha 2508000 réis de rendimento.
É terra fertilissima, como todas as das
margens do Lima, e suas proximidades.
Muito gado de toda a qualidade, e peixe
do rio e do mar,
Esta freguezia era a séde do extincto con-
celho do Souto de Rebordãos.
Vide o Rebordões antecedente.
REBORDOSA — freguezia, Douro, na co-
marca e concelho de Paredes (era do mes-
mo concelho, mas da comarca de Penafiel),
9h Kilometros ao N.E. do Porto, 340 ao N.
de Lisboa, 410 fogos.
Em 1757, tinha 336 fogos.
Orago, S. Miguel, archanjo.
68 REB
Bispado e districto administrativo do
Porto.
O real padroado apresentava o abbade,
que tinha 1502000 réis de rendimento.
É uma das maiores e mais ricas fregue-
zias do concelho; é terra fertil em todos os
fructos do nosso clima.
Cria muito gado de toda a qualidade.
Aqui foi abbade, até 1834, o distincto
orador sagrado, Alvito Buela Pereira de Mi-
randa.
Era violentissímo nos seus sermões, sem-
pre repletos de paixões politicas; e por isso
foi, e ainda é, detestado pelos liberaes, que
lhe votaram um ódio implacavel.
Era do mesmo módo furibundo nos seus
escriptos; mas o homem imparcial deve con-
fessar que este esclarecido ecclesiastico pro-
phetisou, com a maior exactidão, o futuro
do catholicismo, em Portugal.
Em certa occasião (1831) na egreja de
Santo Ildefonso, no Porto, subiu ao pulpito,
e antes de principiar o sermão, disse—sSe
meste templo está algum liberal, previno-o
de que o meu discurso o hade fazer ama-
rello.
Isto ouvi eu; e confesso que é até onde
póde chegar o rancor politico do ministro
de uma religião toda de paz e caridade.
De mais — «Não é com vinagre que se
apanham moscas.»
REBORÊDA ou ROBORÊDO-—freguezia do
Alto Minho, no concelho e 5 kilometros ao
E.N.E. de Villa Nova da Cerveira, comarca,
e 14 kilometros ao O. de Vallença, 60 kilo-
metros ao 0.N.0. de Braga, 415 ao N. de
Lisboa, 175 fogos.
Em 1757 tinha 141 fogos.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
Orago, S. João Baptista.
Tem ha muitos annos annexa a extincta
freguezia de Gontige.
- O real padroado, o morgado de Santo An-
tonio (na freguezia de Santa Martha, termo
de Vianna) e o morgado da quinta da Gra-
ciosa, termo de Ponte-de Lima, apresenta-
vam alternativamente o abbade, que tinha
de rendimento 4008000 réis.
É uma das maiores, mais ricas.e ferteis
REB
freguezias do concelho; e está formosamen-
te estendida em uma vasta planicie sobre a
margem esquerda do rio Minho, ficando-lhe
em frente a Galliza (ao N.)
É atravessada pela estrada real de 1.
classe, de Lisboa para o norte, concluida em
1866; e tambem pelo caminho de ferro do
Minho, em construcção, o que, com certeza,
augmentará a prosperidade desta freguezia
e limitrophes.
Está n'esta freguezia a torre solarenga
dos Roboredos ou Roboredas, construida por
Gonçalo Annes de Reborêdo.
Foi seu filho, João Gonçalves de Rebore-
do, que casou com D. Sancha Gonçalves de
Barroso, e foram estes os progenitores dos
Reboredos de Alcacer do Sal, Alter do Chão,
Foz-Côa, Setubal, Torres Novas, etc.
Vê-se em papeis antigos, este appellido es-
cripto de quatro modos diversos—Rebolêda,
Reborêdo, Roborêda, e Roborêdo.
Nos manuscriptos da casa Palmella, que
são os mais exactos em genealogias e ap-
pellidos, vem sempre escripto Roborêdo.
Para as suas armas, vide Alcacer do
Sal.
O ramo principal desta familia, está ho-
je na Galliza, porque D. Garcia Ordonhes
de Roborêdo, casou n'aquella provincia, e
nunca mais voltou a Portugal. 1
Hoje, esta familia, em Hespanha, é repre-
sentada por D. Ignacio Pereira de Reborê-
do, que foi official do exercito de Carlos
VII. '
Não se sabe se esta freguezia tomou o no-
me dos Reborêdos, ou se estes tomaram o
appellido da freguezia onde tinham o seu
solar; 0 que é certo, é que Reboréêdo, ou Ro-
borêdo, é nome proprio de homem.
É tambem nesta freguezia a grande quin-
ta da Gandarélla, da qual são actuaes pos-
suidores, os filhos e herdeiros de Sebastião
de Castro Lemos, da casa do Côvo, em Oli-
veira de Azemeis, e de sua mulhor, D. Emi-
lia Maria Antonia Pamplona de Souza Hols-
“40 conde D. Pedro, diz que os Reboredos
da Galliza, procedem de Fernam Gonçalves,
cavalleiro da Terra de Souza (hoje Paredes)
e de sua mulher, D. Oxanea Dias d'Urrô.
REB
tein, que era irman da senhora condessa de
Rézende, mãe do sr. conde do mesmo ti-
tulo.
A quinta da Gandarélla, tambem tem uma
torre desmantellada, e grandes casas, em
ruinas.
Era do vinculo instituído por Diogo de
Caldas Barbosa, abbade de Covas (coliateral
dos Castros do Côvo) o qual vinculo foi, de-
pois de 1640, incorporado ao de Villa Nova
da Cerveira; e é por isso que veio aos Cas-
tros, do Côvo, bem como as casas de Lapel-
la, Táias, Lára, e Troporiz, que tambem
eram do vinculo do abbade de Covas.
Tenho à notar aos meus lei-
tores, que o que diz respeito
à torre dos Reboredos, foi ex-
trahido do Diccionario abre-
viado, ete., de José Avelino de
Almeida, professor ofíicial de
latim e latinidade, da villa de
Valença do Minho.
Eu fui a Reboreda umas
poucas de vezes, e não vi lá
vestigios de outra torre, senão
a da Gandarella.
Desconfio que o abbade de
Covas, comprou o que aqui ti-
nham os Reborêdos, e que a
sua torre e a dos Castros, é
uma e mesma cousa.
Esta freguezia é antiquissima, e pertenceu,
até ao 15.º seculo, ao bispado de Tuy.
Diz-se até que existiu aqui uma cidade
gothica, chamada Gontige; e é certo que ha
bastantes vestigios de antigas construc-
ções.
Vide Gontige.
(Gontige, é corrupção de Gontiz, nome
patronimico, que significa, filho, ou da fa-
milia de Gonta).
REBORÊDO ou ROBORÊDO — montanha
de bastante altura, Traz-os-Montes, proximo
e da freguezia é concelho da villa da Torre
de Moncorvo, e, em grande parte, povoada
de arvores silvestres.
É abundantissima de minas de optimo
ferro, superior em qualidade, e ainda mais
em quantidade, ás-minas de ferro da serra
dos Monges.
VoLUME vIH
REB 69
Os sitios onde mais abunda o minerio,
constituindo a maior parte do sólo, são:
Fragas dos apriscos, Alto do Chapeu, Bar-
ro Vermelho, e Sobralhal; todas nos limites
da freguezia da Torre de Moncôrvo, e a do
Cabêço da Múa, ja no districto da freguezia
de Felgar, do mesmo concelho.
O sr. Adolpho Leuschner, alemão, e enge-
nheiro de minas, foi reconhecido descobri-
dor legal das minas de ferro do monte Re-
borédo, em junho de 1876.
Pelo ministerio das obras publicas e mi-
nas, haviam sido encarregados os distinctos
engenheiros de minas, os srs. João Ferreira
Braga, e Pedro Victor da Costa Sequeira,
de examinarem estes jazigos, e, segundo o
seu relatorio, é necessario um capital de 700
contos de réis, a qualquer empreza que ten-
te aproveitar devidamente o minerio d'es-
te monte.
Na minha opinião (que pouco vale) ainda
com 700 contos se não aufeririam todos os
lucros que estes riquissimos jazigos pódem
dar; porque as minas estão em muito más:
condições, a muitos respeitos;—41.º, porque
o combustivel vegetal d'estes sitios (mes-
mo concedido que os seus donos o quizes-
sem vender) em poucos mezes se esgotaria,
e para vir de longe, não valia a pena—2.º,
seria precizo tornar navegavel o rio Sabor,
desde Reborêdo até ao Douro (ou até ao ca-
minho de ferro do Douro, quando se con-
struir—se construir—n'estas paragens) para
o que ter-se-hiam de expropriar grande nu-
mero de mottas, madrías, levadas e açudes,
o que montaria a muitos contos de réis
— 3.º, porque, ficando, como ficava, carissi-
mo o combustivel vegetal, teria de vir o mi-
nerio em procura de carvão mineral, das
minas de Paiva, ou São Pedro da Cóva, pa-
ra a primeira fundição; e, ainda que o mi-
nerio dê (como se calcula) 50 por cento de
ferro, sempre seria preciso o dobro da des-
peza da conducção, visto ser o dobro do pê-
so—bL.º, o grande custo de boas estradas, em
espiraes, ou lacêtes, desde a baze, àté ao
cume da montanha—5.º, finalmente, os gran-
des perigos de nauíragios no Douro.
As minas de ferro, carvão, phosphato de
cal, e outros mineraes baratos, para que
5)
70 REB
deem resultados animadores, dependem, en-
tre outras condições, da sua situação topo-
graphica, proximo de caminhos de ferro, ou
de rios navegaveis; de modo que, sem gran-
des sacrifícios, possam hir procurar as in-
dustrias, e não estas procurar o mineral.
Em conclusão: só uma companhia pode-
rosissima, e coadjuvada pelo governo, póde
tirar das minas de ferro de Reborêdo, gran-
des e animadores resultados; e, ao mesmo
tempo, trazer a riqueza e prosperidade ao
concelho da Torre de Moncorvo e imme-
diatos. '
Vide Reborêto.
REBORÊTO ou ROBORÊTO-—monte, Traz-
os-Montes, a 18 kilometros ao S. de Mon-
corvo, junto ao logar d'Urrós, e ao O. da
egreja de Santo Apollinario.
A corôa d'este monte está cercada de for-
tes muralhas, em ruinas, e dentro do seu
ambito, vestigios de alicerces de muitas ca-
sas, 0 que prova ter aqui existido uma gran-
de povoação.
Do lado do norte, abaixo das referidas
muralhas, e ao fundo de uns altos rochedos,
estã uma concavidade subterranea, chama-
da Buraco dos mouros, que é uma galeria,
- com sufficiente largura para 5 ou 6 pessoas
a par.
Ainda não houve quem se atrevesse a che-
gar ao fim d'este antro.
Os que mais n'elle tem avançado, encon-
travam, de distancia em distancia, uma es-
pecie de salões, tudo manifestamente obra
dos homens.
Suppõe-se, com bons fundamentos, que
sejam minas esgotadas, que os romanos la-
vraram no seu tempo.
Sabemos que o nosso povo attribue aos
arabes todas as obras antigas, cuja origem
desconhece; e é por isso que chamam a esta
extença galeria, Buraco dos mouros; mas, é
muito mais provavel que seja obra romana;
não só porque esta provincia esteve muitos
annos sob o dominio dos imperadores, co-
mo pela grandeza que elles costumavam em-
pregar nas suas construeções: não assim
os mouros, que construiam tudo, ou quasi
tudo, mui tosca e passageiramente; nem el-
les estiveram n'esta provincia, tão pacifica-
REG
mente, e por tanto tempo, que podessem
executar obra de tanto dispendio e tão gran-
diosa.
Ao contrario, sabemos que os romanos
foram senhores pacificos da Peninsula his-
panica, por espaço de quasi 500 annos, e
que das Asturias e Galliza (em cuja cir-
cumseripção se comprehendia a actual pro-
vincia de Traz-os-Montes) extrahiram gran-
de copia de ouro, prata e outros metaes.
Crê o povo da freguezia de Urrôs, e das
immediatas, que as ruinas que se veem na
corôa do monte, como já disse, são os res-
tos da cidade romana de Ravêna, na qual
foi martyrisado Santo Apolhinario. Vide Ca-
labria, Ravêna e Urrôs.
REGA ou RESSA — portuguez antigo—o
logar exposto ao sol, soalheiro.
Julgo que de reça, é que o nosso povo fez
restia (uma restia do sol.)
Na minha opinião, tem a mesma origem
as palavras rocio (antigamente resaiu) e
ressaio, ou arressaio; porque nós damos o
nome de rocio, à planicie mais ou menos
vasta, desprovida de arvoredos que a abri-
guem dos ardores do sol; e de arressaio, à
encosta ou monte nas mesmas condições.
Em frente de Porto de Rei, na freguezia
de Barqueiros, no concelho de Mezão-Frio,
comarca de Pezo da Régua, ha um areal, na
margem direita do Douro, ao qual, pela sua
exposição aos raios do sol, se dá o nome
de Réça, e tambem o de Passagem (por ter
alli existido a barca de passagem, chamada
de Por-Deus, ou por uma capella dedicada
ao Senhor da Bôa Passagem, que está em
uma quinta, logo acima do areal da Réça.)
Logo acima d'este logar, está a fregue-
zia de Frende, na comarca e concelho de
Baião.
É em Frende (e não em Trende como lhe
chamavam quasi todos os jornaes, tratando
do assassinato de um homem) que se con-
struiu um dos tunneis do caminho de ferro
do Douro.
RECÁBDO ou RECÁBITO —portuguez an-
tigo—recebimento solemne, de homem com
mulher, em face da egreja, segundo og ca-
nones; porisso, à mulher assim casada se
dava o nome de recabedada.
REG
REÇAGA-—portuguez antigo —rectaguarda
(de um corpo de exercito.)
RECÁPITO — portuguez antigo — recado
que se manda por algum mensageiro, a
outra pessoa.
Ainda hoje se usa este termo na Italia,
com a mesma significação.
RECARDÃES-— villa, Douro, comarca, con-
celho e 1:500 metros ao S.0. d'Agueda, 18
kilometros a N.E. d'Aveiro, 40 ao N. de
Coimbra, 245 ao N. de Lisboa, 240 fogos.
Em 14757 tinha 141 fogos.
Orago, S. Miguel, archanjo.
Bispado e districto administrativo de
Aveiro.
(Foi do bispado de Coimbra.)
O cabido da Sé apresentava o prior, que
tinha 3002000 réis de rendimento.
É terra fertil, efica a 1:500 metros ao S. do
rio Agueda (margem esquerda) 9 kilome-
troo a N.E. da estação do caminho de ferro
do norte (Oliveira do Bairro.)
É povoação muito antiga, e o seu nome
significa—Terra dos Recáredos.
O documento mais antigo que se encon-
tra com respeito a esta villa, é do anno 1016,
em que (segundo o Livro Preto da Sé de
Coimbra) Resemundo Maureliz, doou ao
mosteiro da Vaccariça (Mealhada) a aldeia
de Recardães.
No archivo do mosteiro de Pedroso (10
kilometros ao S. do Porto) existia um inven-
tario dos bens que tinha adquirido D. Gon-
calo e sua mulher, D. Flamula ! feito (o inven-
tario) no anno de 1050 de Jesus Christo.
- Neste inventario se menciona o mosteiro
de Sala, o de S. Julião, metade do de Ceda-
rim (Cedrim) e metade da egreja de Recar-
dães.
Foi cabeça de concelho e da comarca, com
juiz de fóra, camara, e mais empregados
civeis e municipaes.
1 Este D. Gonçalo era filho do conde D.
Mendo Luci, ao qual D. Affonso V, de Leão,
tinha feito governador d'estas terras, e ti-
nha do dito rei, regalengo, et condadu, et
mandamenta in rripa Agata.
D. Afiunso V deu estes senhorios ao con-
de D. Mendo, quando residia (o rei) em Mon-
te-Mór-Velho, sobre o Mondego.
REG 71
Metade da freguezia d' Agueda, que fica na
margem esquerda (S.) do rio d'este nome
e à qual, parte, ge dá o nome de Sardão,
pertencia à comarca de Recardães: a outra
metade, a villa d'Agueda, propriamente di-
ta, era da comarca d'Aveiro.
Era no logar do Sardão que o juiz de fó-
ra de Recardães fazia as suas audiencias; e
ainda existe a casa da camara, hoje cadeia.
D. Affonso Henriques deu aos templarios
o senhorio de Recardães, e elles aqui insti-
tuiram uma commenda.
Foram tambem estes cavalleiros que con-
struiram a actual egreja, no reinado de D.
Sancho I.
Foi commendador e senhor donatario de
Recardães, D. Fernando (ou Fernão) San-
ches, 3.º dos filhos naturaes do rei D. Di-
niz, nascido depois do rei estar casado com
a rainha Santa Isabel, mas antes d'ella ter fi=
lhos.
É porisso que D. Fernando usava por bra-
zão d'armas, o escudo real, com a quebra
de adulterino.
D. Diniz amou muito este filho, e o en-
cheu de dadivas e beneficios.
Em 1290, lhe doou os bens confiscados
por dividas a Pedro Eannes, almoxarife de
Lisboa; por carta régia, datada de Santas
rem, a 28 de fevereiro d'aquelle anno.
Sendo ainda muito creança, o entregou
seu pae aos cuidados de D. João Simão,
meirinho-mór da casa do rei, seu valido, &
um dos nobres e instruidos fidalgos da sua
côrte, ao qual nomeou tutor e administra-
dor geral da casa de D. Fernando.
Era senhor da egreja de São Pedro de Ta-
rouca, a qual deu ao mosteiro de Salzêdas
(por auctorisação paterna) em troca da egre-
ja de Fonte-Arcada (hoje do concelho de
Sernancélhe, comarca de Moimenta da Bei-
ra) por escriptura de 3 de agosto de 1297.
A propria rainha, Santa Isabel, amava
muito a D. Fernando, pelo que o rei, por
carta de 21 de janeiro de 1298, lh'o entre-
gou juntamente com seus dois outros filhos
bastardos, D. Affonso Sanches, e D. Pedro
Affonso, para serem todos tres por ella go-
vernados, ou dar-lhes tutores e curadores,
quaes ella bem quizesse.
12 REQ
Foi cancellario de D. Fernando, o abbade |
de S. Pedro das Aguias, D. João Eannes.
Foi este D. Fernando que concluiu as
obras da egreja de S. Francisco, de Lamê-
go, e construiu a sua antiga capella-mór,
onde se mandou sepultar, mas isto não te-
ve effeito, como adiante se verá.
Casou com D. Froilhe Annes de Briteiros,
filha de D. Joãc Rodrigues de Briteiros, ri-
co-homem, e de D. Guiomar Gil de Sovero-
sa, grandes fidalgos d'esses tempos. 1
Esta D. Guiomar, era filha de D. Gil Vas-
ques de Soverosa, rico-homem, que morreu
na batalha de Gouveia, na guerra civil, en-
tre alguns fidalgos portuguezes, a qual te-
ve logar em 1277, no fim do reinado de D.
Affonso III.
Não houve filhos deste casamento.
Em 1294, seu pae, D. Diniz, lhe deu o
senhorio de Recardães, e de outras terras
do julgado do Vouga.
Em 1300 lhes deu tambem a herdade da
Orta de Nomão, que fora d'Egas Mendes, es-
cudeiro, sobrinho do bispo de Lamego.
Em 29 de agosto de 1303, lhe deu as Li-
zirias dos Portos, no termo de Santarem.
Em 1306, lhe deu o reguengo de Oliveira
do Conde.
Foi em extremo liberal, particularmente
com seus irmãos, e como não tinha filhos
fez doação de muitas aldeias e rendas, em
varias partes do reino, a seu irmão bastar-
do, D. João Affonso, por escriptura feita no
mosteiro de S. Domingos das Donas (Santa-
rem) em -31 de janeiro de 1323.
Pelo mesmo tempo, deu a seu irmão le-
gitimo, D. Affonso (depois rei, 4.º do nome)
todas as herdades que possuia no termo de
Santarém. ?
ID. João Rodrigues de Briteiros, era filho
de Ruy Gomes de Briteiros, rito-homem, é
grande privado de D. Affonso Il, e seu
mordomo-mór; e de D. Elvira Annes, da ca-
sa de Amaia, filha de D. João Pires de Amaia,
o que se achou na batalha da Varzea dos
Cavaleiros (hoje comarca e concelho da
Certan) em 1246, e matou sete léonezes, de'
sete lançadas; e de.D. Guiomar Mendes, fi-
lha do conde D. Mendo.
2 D. Affonso IV deu depois estas proprie-
dades, a sua mnlher, a rainha D. Brites, fi-
REG
Em 43 de novembro de 1327, doou todos
os bens que lhe restavam, ao mesmo D. Af-
fonso, já então rei.
Pelos annos de 1329, estando na sua com-
menda de Recardães, aqui faleceu, no mez:
de julho.
Foi sepultado na capella de S. Cosme e
S. Damião, da egreja de S. Domingos das
Donas, em Santarem.
Instituio capella, com missa quotidiana,
para o que deixou muita fazenda, para ser
administrada pelo convento dominico.
Eram as propriedades de Cabeça Aaguia
e cinco hastins 1 de terra, em Vallada do
Riba-Tejo, que os frades dominicos depois
trocaram por outros, no casal do Paço do
Telheiro.
Seu sepulchro, é uma arca de pedra, de
obra antiga, e estã da parte do Evangelho,
embutido na parede, com a sua-estatua em
vulto, feita da mesma pedra, e o seu brazão
d'armas.
Teve uma inscripção, ha muitos annos
illegivel, por gasta: depois se lhe gravou ou-
tra que diz:
SEPULTURA DE D. FERNANDO SANCHES,
FILHO D'EL-REI D. DINIZ.
TEM MISSA QUOTIDIANA.
No cartorio d'este mosteiro, entre muitos
breves, de graças e privilegios, havia um.
que prohibia abrir-se esta sepultura, sem.
ordem da congregação dos cardeaes.
D. Diniz, teve só dois filhos legitimos—D.
Affonso IV, que lhe succedeu na corôa, e D.
Constança, que casou com D. Afionso IV, de
Castella.
Teve 6 filhos bastardos:
1.º, D. Affonso Sanches, conde d'Albu-'
lha de D. Sancho IV, de Castella, que as
deu ás capellas e hospital que instituiu na
Sé de Lisboa (julgo que no edificio hoje ca-
deia do Aljube, junto da egreja cathedral.)
1 Hastim, astim ou astil, era uma medida
agraria usada no Riba-Tejo.
Tinha 25 palmos craveiros de largo, em
toda a extensão do campo, vinha, predio,
monte ou paúl.
No campo de Coimbra, diz-se aguilhada.
REC
querque, e mordomo-mór de D. Affonso
IV. 1
2.º, D. Pedro Affonso, conde de Barcel-
los.
3.º, D. Fernando Sanches, senhor de Re-
cardães.
h.º, D. João Affonso, alferes-mór, e proge-
nitor dos Ponces, por casar com D. Joanna
Ponce.
5.º, D. Maria Affonso, que casou com João
de Lacerda.
6.º, D. Maria Sanches, que foi freira em
Odivellas.
Pela suppressão da ordem do Templo
(13144) ficou esta commenda pertencendo à
corôa, até que, em 1319, foi, com tudo o
mais que pertencêra aos templarios, para a
ordem de Christo, que o rei D. Diniz então
instituira.
Eram commendadores os duques d'Avei-
ro, que possuiram isto até 1759, em que,
com a vida, no patibulo, perderam todos os
bens para a corôa.
Os templarios deram o 4.º foral a Recar-
dães, pelos annos de 1150; mas perdeu-se
sem d'elle ficar cópia.
D. Manuel lhe deu foral novo, em Lisboa,
a 20 de março de 1516. (Livro dos foraes
novos da Extremadura, fl. 218 v., col. 2.)
Este foral servia tambem para Carvoeiro,
Feiteira, Lombada, Paradella, Póvoa, Say-
ma, Troviscal, e Villa Nova.
Em 20 de fevereiro de 1876, foi feito ba-
rão de Recardães, o sr. José Cerveira de
Mello.
RECAREI — freguezia, Douro, comarca e
concelho de Paredes (foi do mesmo conce-
lho, mas da comarca de Penafiel) 25 kilo-
1 D. Affonso Sanches, era filho de D. Al-
donça Rodrigues Telha.
Casou com D. Thereza Martins, filha de
D. João Afíonso de Menezes, conde de Bar-
calos, e neta de D. Affonso IV, de Cas-
tella.
D. Affonso Sanches e sua mulher, foram
senhores de Villa do Conde, e fundadores
do mosteiro real de Santa Clara, de freiras
franciscanas desta villa, em cuja egreja es-
tão sepultados.
Vide Villa do Gonde.
REC 73
metros ao N.E. do Porto, 320 ao N. de Lis-
boa, 230 fogos.
Orago, Nossa Senhora do Bom Despacho.
Bispado e districto administrativo. do
Porto.
Esta freguezia não vem no Portugal Sa-
cro e Profano, nem no Diccionario Geogra-
phico, do Flaviense.
E' terra fertil.
A egreja matriz, estava bastante arruina-
da, mas em novembro de 1876, o governo
lhe mandou dar 5008000 réis, do dinheiro
das bulas, para reparos.
E' n'esta freguezia a 4.º estação do cami-
nho de ferro do Douro (não contando a prin-
cipal.)
Era natural d'esta freguezia, 0 infeliz dou-
tor, Manuel Luiz Nogueira, juiz de fóra de
Aveiro, enforcado, por liberal, com mais 9
companheiros, na Praça-Nova do Porto, em
7 de maio de 1829. 1
Tambem se disse que era natural de Bal-
tar; provavelmente, por ser terra mais co-
nhecida, e proximo a Recarei, que lhe fica
a 8.0.
Vide a nota.
Ainda vivem na casa onde nasceu 0 dou-
tor Nogueira, os sobrinhos, filhos de seu ir-
mão José Luiz Nogueira, fallecido ha pou-
cos annos.
Julgo que o nome d'esta freguezia, é cor-
rupção de Recaredo, nome proprio de ho-
mem, que antigamente se pronunciava Re-
carêdo, e hoje se escreve e pronuncia Ri-
cardo.
RECGEANÇA — portuguez antigo — susto,
mêdo, receio, temor, etc.
RECEÃO ou RECIÃO—aldeia, Douro, na
freguezia de S. Martinho de Caramôs, comar-
ca e concelho de Felgueiras.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
Houve em Receão, o mosteiro de Santa
Maria, de freiras (conegas) agostinhas, que
1 A sentença diz que era natural do Por-
to, e eu assim o disse a pag. 329, col. 1.º
do 7: vol.; mas o sr. doutor José Barbosa
Leão, que é natural d'estes sitios, diz que O
infeliz Nogueira era de Recarei.
74 REG
ficava a 1:500 metros do de S. Martinho de
Caramôs.
Foi fundado pelos annos de 141450, e D.
Afíonso Henriques o coutou, pelo mesmo
tempo.
Em 1172, D. Vaasquida, abbadessa d'este
mosteiro, poz demanda ao prior de Caramôs, |
D. Payo Fromarigues, para este lhe largar
uma grande herdade, que fóra de D. Ara-
gonta Mendes.
Não se sabe como, nem quando este mos-
teiro se extinguiu.
RECEÃO ou REGIÃO — freguezia, Beira
Alta, concelho, comarca e proximo (ao S.)
de Lamego. Tinha 25 fogos.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Viseu.
Esta freguezia foi supprimida ha muitos
annos, mas é celebre pelo que se segue:
Houve aqui o mosteiro de S. Lourenço, de |
freiras benedictinas, fundado por D. Dordia, |
mulher de D. Soeiro, por carta de testamen- |
| tissima Virgem, à qual, um fidalgo asturia- .
| no mandou edificar uma ermida, da invoca-
| ção de Nossa Senhora do Amparo, e vulgar-
to, feita em 1184, dotando-o com muitas
rendas.
D. Affonso Henriques coutou o mosteiro
no principio do anno de 1185!, e o deu a
Mendo Soares.
O rei D. Diniz, pelos annos de 1300, deu
a estas freiras o fôro de fidalgas da casa real,
para ellas e successoras; e D. Pedro, bispo |
de Lamego, lhes deu os dizimos da freguezia
de Receão.
Quatro versões tenho encontrado com res- |
peito ás relígiosas deste mosteiro.
1,2 — Segundo um documento que existe
Do archivo episcopal de Lamego, consta que
em 1435, só existiam n'este mosteiro, D.
Clara Fernandes, abbadessa, e mais duas
freiras; e ellas mesmas pediram ao. Mestre
João, bispo de Lamego, que 'as mandasse
para outro mosteiro da sua ordem, toman-
do conta deste o mesmo prelado. Elle as-
sim o fez, dando o mosteiro e cérca aos co-
negos de S. João Evangelista (loyos) cuja
ordem elle tinha fundado em Portugal.
2º-—No 2.º volume do Panorama, pas. 67,
1 D. Affonso Henriques morreu em Coim-
bra, a 6 de dezembro de 1185. Tinha nasci-
do em Guimarães, à 25 de julho de 1109.
REG
col. 2,2, no fim, se diz: — «Qual'esta era (a
immoralidade dos frades e freiras) se póde
conhecer de um facto acontecido em Recião,
no xv seculo. Era abbadessa d'este conven-
to, uma certa Clara Fernandes, havendo no
| mosteiro mais duas freiras. Ligou-se a abba-
dessa com uma d'ellas, e disfarçadas com tra-
jos de homem, mataram a outra. Clara Fer»
nandes, passou a Santarem, onde casou; e,
matando d'ahi a pouco o marido, invocou o
seu fóro ecclesiastico, como abbadessa, e,
sendo remettida ao bispo de Lamego, em
cuja diocese ficava Recião, foi absolvida e
restituida ao seu cargo.» |
3.º—No 7.º volume do Santuario Marian-
no, a pag. 305, se lê o que passo a resumir,
e é:
Proximo ao rio Varosa, e a pouca distan-
cia de Lamego (cousa de um kilometro) em
uma lapa, que estava ao pé de um grande
carvalho, appareceu uma imagem da San-
mente, do Carvalho.
1 E certo que, nos tempos antigos, havia
mais desregramento nas ordens religiosas,
do que depois do seculo xvr; porque os reis
e os prelados fizeram todas as diligencias
| para pôr tudo em regra. Mas c que mais
desacreditava os mosteiros do sexo femini-
no, era o facto de muitos d'elles vão serem
de freiras professas, mas de beatas que não
proferiam voto algum. Estes eram os mais
devassos, salvas honrosas excepções.
Tambem não era rigorosamente guardada
a clausura, e as freiras (mesmo professas)
sahiam quando queriam, com uma simples ,
licença da respectiva abbadessa.
Outras freiras não tinham o minimo ren-
dimento, vivendo do seu trabalho, o que era
motivo de graves immoralidades.
No reinado de D. Diniz, requeriam as frei-
ras, publicamente, ao rei, para que lhes le-
gitimasse os filhos, declarando nas petições
quem eram os paes, ainda que estes fossem
clerigos seculares ou regulares.
Nas côrtes d'Evora (as segundas reunidas
n'esta cidade) de 1391, às quaes presidiu
D. João I, os povos pediram ao rei que pro-
videnciasse sóbre a desordem em que esta-
vam os mosteiros de ambos os sexos, em
Portugal.
REG
Principiaram os povos d'este sitio à ter
grande devoção com esta Senhora, e a da-
rem-Jhe muitas esmolas e valiosas offertas,
unico rendimento da ermida.
Parece que esta capella estava em uma
fazenda das freiras de Recião, e como o sitio
era alegre e ameno, ellas mudaram para aqui
o seu mosteiro; mas, passados poucos annos,
mudaram de opinião, e se tornaram para O
seu antigo mosteiro; vindo para o novo, 08
conegos de S. João Evangelista, que tambem
não gostaram do sitio, e regressaram ao seu
mosteiro, de Santa Cruz, em Lamego, pas-
sado pouco tempo.
A egreja da Senhora do Amparo, é vasta,
e nella se enterravam os moradores do lo-
gar d'Alvellos, que era então uma parochia,
filial da Sé de Lamego.
Os bispos applicaram para as obras da
egreja da Senhora do Amparo, algumas fa-
zendas e as terças de certas freguezias.
O fundador da egreja—o tal asturiano—
havia mandado alli construir algumas casas
para romeiros e para o eremitão, dando tam-
bem a este duas cércas, para que elle dos
seus rendimentos podesse viver.
Este templo está sobre um têso, d'onde se
vê o rio Varosa, que lhe corre ao sopé.
Supponho que esta egreja foi matriz da
freguezia de Receão, antes de se annexar à
da Sé de Lamego; porque vejo em documen-
tos antigos denominar-se Santa Maria de
Receão.
h.3-—Vejamos agora o que diz, em resumo,
frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (re-
ligioso franciscano do mosteiro de Ferreira
d'Aves) no seu Elucidario, a pag. 299, col.
2.2, da segunda edição.
De um instrumento, datado de 13 de se-
tembro de 1458, que é do consentimento que
deu o bispo de Lamego, D. João da Costa,
para tornarem os conegos seculares de S.
João Evangelista (loyos) a povoar o mostei-
ro de Receão, em virtude de uma carta Te-
gia de D. Affonso V, no tal documento, re-
pito, se leem varias replicas e treplicas, pe-
las quaes consta que—havendo o bispo, D.
João da Costa, dito, que D. João de Chaves,
seu antecessor, sem fórma alguma de direi-
REG 79
to, expulsára do seu mosteiro, as freiras de
Receão, o que fôra causa dellas abusarem
de seus corpos, e causarem gravissimas des-
ordens e escandalos; elle, para dar cumpri- ,
mento às ordens do legado á latere, D. Al-
varo, bispo de Silves, fizera restituir ao di-
to mosteiro, a sua abbadessa, D. Clara Fer-
nandes, etc.
João d' Arruda e João da Facha, trepli-
cando, disseram — que, quando o bispo de
Viseu veio a este mosteiro de Receão, «achou
«trez molheres, nom em habito, trajo, esta-
«do, nem vida de freiras, nem de religiosas,
«mas de seculares, sem regra e ceremonias
«della, a saber—uma Clara Fernandes, que
«nunca soube lér, nem rezar, nem trouyve
«habito, cogulla, nem véo preto, nem fizera
«em algum tempo profissom ; a qual, pelo
«senhor da terra, ! e contra sua vontade, foi
«posta em o dito mosteiro, em nome de ab-
«badessa, antes que ella fosse monja, ou to-
«masse habito, e fizesse profissom; mas, as-
«sim como entrou, assim viveo, sempre em
«habito e actos de vida secular, dormindo
«carnalmente com quem lhe apprazia, notô-
«riamente; especialmente com Alvaro de Al-
«vellos, de quem tinha filhos; e que usava
«com elle tão parceiramente, como se fôra
«sua molher.
«E outra, Maria Rodrigues, que nom me-
«nos o fazia com quem lhe apprazia, espe-
«cialmente com o abbade de Melcões, ? de
«quem assim tinha ao e filhas, e tem hoje
«em dia,
«E uma velha, irmã “de Alvaro Gil, abba-
«de que foi de Barcos. à qual, as ditas Cla-
«ra Fernandes e Maria Rodrigues, em trajo
«de homens, huma noite, com uma calça de
«arêa, déram tantas calçadas, de que, segun-
«do fama, morreo.
«As quaes duas molheres, o, dito senhor
«bispo, por via de visitaçom, conselho, nem
«amoestaçom, nunca pôde meter a Regla,
«nem a vida de monjas. E, vendo-as incor-
«regiveis, mandou a Maria Rodrigues, ao
1! Era o conde de Marialva, pae da tal
Clara Fernandes, e governador da Beira,
residente em Lamego.
2 Melcções é uma Treguezia proxima, hoje
annexa a Cepões.
76 REG
«mosteiro de Jacente, da ordem de S. Bento,
«no arcebispado de Braga (hoje Jazente) on-
«de ainda agora vive: e a dita Clara Fer-
«nandes nom quizerom receber em mosteiro
«algum da dita ordem, nem de outra algu-
«ma, por sua dissoluçom e má vida: e o dito
«senhor bispo lhe assignou certa pensom e
«mantimento, com condiçom que vivesse re-
«ligiosamente. E ella aceitou a dita Provi-
«som; mas logo, a poucos dias, tornou a usar
«do seu costume, e dormir com quem lhe
«apprazia; e especialmente com um guar-
«diom de São Francisco, da dita cidade, que
«chamavom frei Rodrigo Tourinho (cujo fi-
«lho he um môço que a dita Clara Fernan-
«des ora tráz comsigo).
«E depois se partiu da dita cidade para
«Santarem, e tomou hi marido. E, co viven-
«te, leixou aquelle, e foi casar com outro a
«Lisboa, chamando-se leiga, e nom freira :
«à qual o primeiro marido demandou e ven-
«ceu por molher, e está em posse dos bens
«patrimoniaes d'ella, como seu marido.
«E o dito Senhor Bispo, poz suas Cartas
«de Edicto, para reformar o dito mosteiro,
«e nom acudio alguem da dita ordem, ho-
«mem nem molher, nem de outra alguma
«aprovada Religiom, que para a dita casa e
«mosteiro de Reciam quizesse vir morar,
«nem manter; assi por ser muito pobre e
«dilapidado, como por ser em mão logar, de
«montarhas, só, entre serras. Pela qual ra-
«zom, 0 dito Senhor Bispo, d'acordo e con-
«selho de seu cabido, reduzio o dito mostei-
«ro em Igreja secular, sem cura. Em 29 de
«dezembro de 1435 e a 3 de janeiro de 1436,
«fez doaçom do dito mosteiro, aos conegos
«seculares de S. Salvador, de Villar de Fra-
«des, que hoje dizemos loyos.
«E depois, foi tudo aprovado, ratificado,
«e confirmado de certa sciencia, por Euge-
enio IV, e depois, por Nicolau V.
«E nom houve hi mais freiras, nem mais
«barregans, nem outras dissoluçoens, como
«o dito Senhor Bispo diz, por dinigrar os
«feitos do Bispo de Viseu, e dar evazom! a
“À Evazom — portuguez antigo — desculpa,
cor, ou pretexto com que se cobre ou pre-
tende disfarçar um acto máu.
o
«seus feitos proprios, que fez, como se todo
«o mundo espanta, etc.
«E protestão que não querem tomar pos-
«se do dito mosteiro, da mão do Senhor Bis-
«po, mas sim do corregedor, ou outro mi-
«nistro d'El-Rei.»
De tudo isto, e muito mais que do dito
instrumento consta, deu fé o notario apos-
tolico, Diogo Lourenço, conego da Sé de
Lamego. (Doc. de Receão, que existia no
cartorio do convento de Santa Cruz, da mes-
ma cidade).
Para que algum impio se não aproveite
do que fica dito, para argumento das suas
diatribes contra as religiosas de outros mos-
teiros, note-se que a casa de Receão nunca
foi mosteiro de freiras professas, mas sim
uma especie de recolhimento, no qual as
suas habitadoras não estavam sujeitas a voto
ou regra alguma, como claramente se deduz
do que diz Viterbo.
Tendo tantas vezes fallado em frei Joa-
quim de Santa Rosa de Viterbo, n'esta obra,
julgo a proposito dar aqui um resumo da
sua vida e obras.
Primeiramente, rectifico um erro que más
informações me fizeram commetter. Disse a
pag. 172, col. 2.º, do 3.º volume, que Viter-
bo nasceu pelos fins do seculo xvrr, ou prin-
cipio do xvirr. Não é exacto como vamos ver.
Na raiz oriental da penhascosa e desabri-
da serra da Lapa, em sitio ameno, e abun-
dante de vinho, cereaes e deliciosas fructas,
está a povoação e freguezia de Gradiz, do
concelho de Aguiar da Beira, comarca de
Trancoso.
N'esta aldeia, que fica proxima da mar-
gem esquerda do Távora, nasceu frei Joa-
quim de Santa Rosa de Viterbo, a 13 de
maio de 1744.
Professou no convento de menores refor-
mados, da provincia da Conceição, de Por-
tugal, a 7 de setembro de 1760.
Era vulgarmente conhecido pelo padre
Gradiz.
Tinha uma memoria rara, e de tal reten-
tiva, que bem se podia dizer que a sua ca-
beça era uma livraria. Quasi todo o seu tem-
po passava a ler, ou escrever; pelo que, em
REG
poucas materias scientificas era. hospede ;
mas, a sua paixão dominante era a historia,
e, sobre tudo, as inscripções e mamuscriptos
antigos, em cujas materias foi wm mestre
consummado, chegando onde nimguem ha-
via chegado em Portugal, como (o attestam
os seus escriptos, e principalmente o seu
Elucidario, obra merecidamente: estimada
pelos sabios nacionaes e estrangeiros.
Para a composição d'esta obra, viajou frei
Joaquim por muitas partes do resino, inda-
gando e examinando os monumentos roma-
nos, gothicos e arabes, é esquadrimhando to-
dos os manuseriptos antigos e raros; para 0
que estava munido de uma ordem regia.
As copias tiradas por elle, ficaram valen-
do como originaes, por uma provisão do
rei.
Trabalhou muito na Torre do Tombo, cujo
logar de guarda-mór lhe foi offerecido. Tam-
bem se lhe offereceu um bispado, no ultra-
mar; mas nada d'isto acceitou.
Além de um grandissimo numero de ma-
nuscriptos que mandou para a academia
real das sciencias de Lisboa, da qual era
correspondente, e do que trabalhou na chro-
nica da sua provincia, compoz as obras se-
guintes :
Sermões apostolicos originaes. Porto, 1791,
in-8.º, um volume.
Elucidario das palavras, termos e phrases
que em Portugal antigamente se usaram.
Lisboa, 1798-1799, in-folio, dois volumes.
Diccionario portatil das palavras, termos
e phrases, que antigamente se usaram e que
hoje regularmente se ignoram; resumido, cor-
recto e addiccionado, etc. Coimlbra, 4825,
in-4.º, um volume. É posthumo.
Botica rural. Manuscripto,
Thesouro da misericordia divina e huma-
na. Manuscripto.
Apparatus ad Universam theologiam. Ma-
nuscripto.
Companheiro fiel, etc. Manuscrijpto.
Gompendio do diccionario de Mloreri, com
varias addicções e notas, etc. Mamuscripto.
Resumo do viajante universal. Manuscri-
pto.
Historia universal e chronologicia da Egre-
ja de Portugal.
REG 71
Deixou aínda varias obras ineditas de me -
nos importancia.
Nos ultimos annos da sua vida (estando
no mosteiro da Fraga, em Ferreira d' Aves)
foi accommettido de uma apoplexia, que,
privando-o algum tanto do juizo, o obrigou
a pôr termo aos seus trabalhos litterarios.
Falleceu no referido mosteiro da Fraga,
em 13 de fevereiro de 1822; e foi sepultado
entre a porta do capitulo e a que dá sahida
para a portaria.
RECÊBEDO — portuguez antigo — recibo,
resalva, quitação, ete: É do seculo x.
RECEBIMENTO —portuguez antigo—sala,
quarto, aposento.
RECENDER — portuguez antigo — descen-
der.
RECEZINHOS — freguezia, Douro, na co-
marca e concelho de Penafiel (foi do conce-
lho de Santa Cruz de Riba Tamega, comar-
ca de Amarante), 40 kilometros ao NE. do
Porto, 345 ao N. de Lisboa, 260 fogos.
Em 1757 tinha 209 fogos.
Orago S. Martinho, bispo.
Bispado e districto administrativo do
Porto.
É terra fertil. Muito gado.
A mitra e o D. abbade benedictino, no
convento de Bostêllo (proximo a Penafiel)
apresentavam alternativamente o abbade,
que tinha 6008000 réis de rendimento.
No alto do monte está a capella de Santa
Cruz, e junto della as ruinas de castellos
antigos.
É n'esta freguezia a casa vinculada dos
Ferreiras, morgado instituído por D. Mayor
Lourenço, mulher de Lourenço Annes Re-
dondo, hoje unido à casa de Cavalleiros.
(Vide a freguezia seguinte).
Ha tambem a casa de Leiros, de Manuel
de Sousa da Silva, descendente de Martim
Goncalves Alcoforado, ao qual D. João I deu
o senhorio do concelho de Santa Cruz de
Riba Tamega, em 1390.
RECEZINHOS—freguezia, Douro, comar-
ca e concelho de Penafiel, (foi do concelho
de Santa Cruz de Riba Tâmega, comarca de
Amarante), 48 kilometros ao NE. do Porto,
345 ao N. de Lisboa, 150 fogos.
Em 1757 tinha 315 fogos.
18 REC
Orago S. Mamede.
Bispado e districio administrativo do
Porto.
Os morgados da casa de Cavalleiros, apre-
sentavam o abdade, que tinha 5008000 réis
de rendimento.
r
E terra fertil. Muito gado.
A casa de Cavalleiros, é uma das mais il-
lustres d'Entre Douro e Minho. É hoje do |
sr. D. Rodrigo José de Menezes, feito conde
de Cavalleiros, em 17 de novembro de 1865.
É nobilissima a estirpe d'esta illustre ca-
sa, de fidalgos distinctos pela antiguidade
da sua nobreza, e ainda mais pelos seus me-
recimentos.
Martim Ferreira foi um heroe do exercito
portuguez, nas guerras contra Castella. Em
um recontro, junto a Guimarães, no qual os
castelhanos foram derrotados, recebeu uma
cutilada no nariz e na face, pelo que se fi-
cou cognominando Martim Narizes.
Tambem foram d'esta familia, frei Gual-
ter Machado, e frei Martim Ferreira d'Eça,
cavalleiros de S. João de Jerusalem; fidalgos
distinctissimos, pelos seus grandes serviços
à religião e á patria.
RECEZINHOS —Vide Castellões de Rece-
zinhos.
RECHAN ou RECHANO—portuguez anti-
go — pequeno plano, no meio de uma por-
tella ou viso. Uma especie de plató. Rechan,
ainda se usa com a mesma significação.
RECIÃO— Vide Receão.
RECLAMADOR —Vide Roque Amador.
REÇGOAR — portuguez antigo —livrar do
captiveiro, resgatar, libertar, etc. (Doc. das
freiras bentas, do Porto, de 1278).
D'aqui reçaom, por livramento, resgate,
etc. É contracção de redempção.
Tambem se dizia reçoar, em vez de arra-
zoar, discorrer, etc.
REGONHECENÇA — portuguez antigo —
reconhecimento, memoria, lembrança, agra-
decimento, etc.
Chamava-se reconhecença, à pensão ou
tributo que se pagava aos bispos e seus ca-
bidos, d'aquellas egrejas que elles tinham
libertado do pagamento da terça pontifical,
(Vide Sazes).
RED
Em muitas freguezias do bispado do Por-
to, se dá o nome de conhecença (abreviatura
de reconhecença) ao fôro de um alqueire de
milho que paga cada homem casado, e meio
alqueire cada solteiro, ou viuvo, annualmen-
te, ao seu parocho. Em algumas freguezias, a
conhecença é de alqueire e meio para os ca-
Sados e tres quartas para solteiros e viuvos.
RECONTAMENTO — portuguez antigo —
relação, exposição, relatorio, narração, etc.,
circumstanciada de qualquer facto. (Doc. da
camara de Coimbra, de 1464).
REGORREIÇÃO — portuguez antigo—-pa-
rochia ou freguezia. Tambem se dizia recur-
reição, recorrício, collação.
RECROBAR — portuguez antigo—plantar,
cultivar, aproveitar, etc. (Prazo de Tarouca,
de 1309).
Supponho que de recrobar se diz hoje,
por corrupção, decruar ou decroar. É a pri-
meira sacha do milho.
RECTIDÃO —portuguez antigo—a perten-
ca ou dependencia de uma herdade, quinta,
ou casal. Villa Barriolos... et omnem meam
rectitudinem de ipsa quintana. (Doc. do Pa-
ço de Souza, de 1146 e 1165).
RECUDAR — portuguez antigo — recusar,
negar-se à petição de alguem. (Monarchia
Lusitana, tit. 5.º. liv. 16.º, cap. 56).
RECUDIR—portuguez antigo —sahir, vir
a ser para o futuro. (Doc. de Moncorvo, de
1380).
RECUDIR — portuguez antigo — tornar a
acudir, olhar para alguma parte.
RECGURÇÃO — portuguez antigo — limite,
termo, freguezia, territorio, circumscripção.
RÊDE — aldeia, Traz-os-Montes, freguezia
de Fontellás, comarca e concelho do Peso
da Régua, d'onde dista 5 kilometros ao O.,
90 ao E. do Porto, 600 ao NO. de Lamego,
335 ao N. de Lisboa, proximo da margem
direita do Douro.
Fica perto da Rêde, a aldeia das Caldas,
da mesma freguezia de Fontellas, onde são
as nascentes d'aguas mineraes, vulgarmente
chamadas do Mollêdo. (Vide Mollêdo).
Pelo meio da aldeia das Caldas, passa a
estrada real, do Porto à Régua, com diligen-
cia diaria. Tambem lhe passa perto o cami-
nho de ferro do Douro, em construcção.
RED
De Lamego para o Mollêdo, ha uma es-
trada real, antiga, de 6 kilometros de com-
primento; mas, por ser muito declivosa, foi
substituida por outra, com declive muito
suave, concluida em 4873. Mas esta tem
quasi 15 Kilometros de comprimento, por |
causa das muitas voltas que dá, nos valles
do rio Varosa.
No Mollédo ha hoje duas boas hospeda-
rias; varias lojas de mercearia e de outros
generos, bem sortidas; e casas suficientes
para habitação dos banhistas, que fazem aqui
a sua residencia, por ser pequena a aldeia
das Caldas, e não haver commodos sufficien-
tes na Rêde.
Tambem no Mollêdo ha um palacete con-
struído de novo, do sr. Francisco José da
Silva Torres.
A antiga e nobre casa da Réêde, é o solar
da familia Borges Cerqueiras Alpoins. É um
vasto palacete, de architectura simples e se-
vera, rodeado de uma extensissima matta,
pomares, vinhedos e terras de lavoura, tudo
de grande fertilidade, formando tudo uma
magnifica e rendosa quinta.
É hoje representante d'esta illustre fami-
lia, é dono da casa, o sr. Francisco Borges
de Cerqueira Alpoim Cabral, moço fidalgo
da casa real, com exercicio no paço. É este
cavalheiro, o herdeiro e senhor dos prazos
e vinculos de seu pae.
É casado com sua prima, a sr.* D. Aman-
cia Borges de Cerqueira Alpoim Cabral e
Menezes, e tem successão.
É filha de José Maria Borges de Cerquei-
ra Alpoim Cabral, que foi tenente coronel
de milicias, fidalgo da casa real, senhor do
vinculo e prazo da Rêde, quinta do Mira-
douro, e dos morgados de Mollães, padroei-
ro da capella e sachristia do mosteiro de
S. Francisco de Mezãofrio.
Seu irmão (tio do sr. Francisco Borges)
João Borges de Cerqueira Alpoim Cabral,
foi brigadeiro de cavallaria, 1 chefe de estado-
maior do general visconde do Pezo da Ré-
1 Foi despachado tenente coronel, em 43
de abril de 1823; coronel, em 9 de julho de
o e brigadeiro, em 26 de outubro de
RED 19
gua, no exercito realista, convencionado em
Evora-Monte. Era commendador de Malta.
Casou, em 1847, com D. Maria Fortunata
Teixeira da Cunha Pinto, da antiga casa da
Boa Vista, em Celorico de Basto. !
Era avô do sr. Francisco Borges de Cer-
queira Alpoim Cabral, Bernardo do Carmo
Borges de Cerqueira Cabral e Queiroz, fi-
dalgo da casa real, senhor dos prazos e vin-
culos mencionados, capitão-mór de Mezão
frio e governador da praça de Villa Nova da
Cerveira.
Foi casado com D. Maria Xavier Alpoim
da Silva Menezes e Abreu, da antiga e nobi-
lisssma familia dos Alpoins, do Minho.
REDINHA— villa, Extremadura, comarca,
concelho e 10 kilometros do Pombal, 30 ki-
lometros ao S. de Coimbra, 140 ao N. de
Leiria, 155 ao N. de Lisboa, 390 fogos.
Em 41757 tinha 420 fogos.
Orago Nossa Senhora da Conceição.
Bispado de Coimbra, districto administra-
tivo de Leiria.
O rei (como grão-mestre da ordem de
Christo) pelo tribunal da mesa da conscien-
cia, apresentava 0 vigario, que tinha 1002000
réis de rendimento.
É povoação antiquissima, com toda a pro-
babilidade, do tempo dos romanos, se não
anterior ao seu dominio. Consta que o seu
primeiro nome foi Rhoda, palavra persa, que
significa jardim. Depois, se chamou Rodina,
e parece que os arabes lhe não mudaram o
nome, porque ainda o conservava no prin-
cipio do seculo xII.
O conde D. Henrique e os seus capitães,
tinham conquistado aos mouros varias po-
voações e vastos territorios entre o Douro e
o Mondego. Os mouros. temendo a vingan-
ça dos portuguezes, tinham abandonado to-
das as terras entre Coimbra e Leiria; mas
os christãos ainda não tinham tomado posse
dellas.
Em 41428, a rainha D. Thereza e seu filho
D. Affonso Henriques, deram aos templarios,
1 Esta casa é hoje representada pelo sr.
Manuel Osorio d'Aragão Magalhães Machu-
ca (Osorios Aragões, de Lamego) primo co-
irmão e cunhado do actual senhor da casa
da Rêde.
80 RED
todo este territorio abandonado; e elles con-
struiram logo, ou reconstruiram, os castellos
de Ega, Pombal e Redinha.
D. Gualdim Paes, grão-mestre da ordem
do Templo e os seus frades (cavalleiros tem-
plarios) deram foral a esta villa—ainda en-
tão chamada Rodina — em junho de 1159.
(Maço 3 de foraes antigos, n.º 1).
O rei D. Manuel lhe deu foral novo, em
Lisboa, a 46 de dezembro de 1513. (Livro
de foraes novos da Extremadura, fl. 109%)
col. 2.2).
Cumpre notar que os ponti-
fices Honorio III (1246), Celes-
tino IV (1241), Alexandre IV
(1254) e Urbano IV (1261), por
bullas apostolicas, eximiram
da sujeição episcopal, as egre-
jas e castellos da Ega, Pombal
e Redinha; confirmando pelas
mesmas bullas, a doação de
D. Thereza e de seu filho.
A primitiva cidade de Rhoda, não oceu-
pava exactamente o chão da actual villa. Es-
tava fundada em uma varzea que fica ao
NO., alem da ponte, e ha vestigios d'esta
antiquissima povoação, a cujo sitio ainda
se chama Róda.!
Parece que, mesmo quando existia a ci-
dade, havia do outro lado do rio uma po-
voação mais pequena, à qual, por isso, se
deu o nome de Rodina, e é a actual Redi-
nha.
Fica entre o Pombal (ao S.) e Condeixa
(ao N.) sobre a antiga estrada de Lisboa ao
Porto.
Tem duas ribeiras, uma ao S. e outra ao
N., que unidas formam o rio Danços ou
d'Anços, que rega e fertilisa a povoação e
seus arrabaldes. Nascem estas ribeiras a 3
kilometros da villa, ao sopé de uma serra, e
junto á capella de S. Lourenço.
1 Segundo alguns historiadores, a cidade
de Rhoda, foi fundada pelos gregos, no an-
no 3640 do mundo, ou 364 annos antes de
Jesus Christo. Destruida pelos alanos no se-
culo v, foi reedificada pelos godos, no seculo
seguinte. Os arabes a arrazaram no seculo
VIII, € não tornou a reedificar-se; mas fun-
dou-se então a villa.
RED
Ignora-se a etymologia do nome Anços.
Segundo uns, é corrupção de Ancho—largo
— porém outros querem que venha de An-
dança, que no antigo portuguez significava
—dita, ventura, felicidade, fortuna, etc.
Á entrada da villa está uma boa ponte de
pedra, muito antiga, e em bello sitio, e d'ella
se goza uma deliciosa vista.
No alto da serra do Poyo, está uma capel-
la de Nossa Senhora da Lapa, ou da Estrella,
construida em uma grande gruta natural, e
junto della, algumas casas para os romei-
ros. Perto da capella ha ainda varias ouiras
grutas. O sitio é de grande elevação e muito
alcantilado.
Dentro da gruta que serve de capella, ha
uma fonte, por traz do altar; e ao pé da mes-
ma serra do Poyo ha uma lagôa que nunca
sécca. Todo o mais resto da serra, é comple-
tamente árido e sécco. A lagôa tem uns 20
metros de cireumferencia.
À caverna que se transformou em templo,
tem 14 metros de comprido, 9 de altura á
entrada, e 2 de altura no fim. Tem de lar-
gura à entrada 4" 40, e 37,50 no fim.
No meio do corpo da egreja se veem duas
grandes sepulturas, mas não se sabe quem
n'ellas foi sepultado.
A ermida foi reedificada pelos annos de
1670, à custa do padre João Ribeiro, natural
da Redinha.
A imagem da padroeira é de marmore, e
de um metro de altura, fóra a peanha, que
é da mesma pedra (a imagem e a peanha são
um monolitho). Na peanha estão esculpidas
as armas dos Souzas.
Sobre a cabeça da Senhora se vê uma co-
rôa, ainda feita da mesma pedra.
Teve eremitão, com casas de residencia e
uma pequena cêrca; mas ha muitos annos
que o não tem.
D. Alvaro de S. Boaventura, bispo de Coim-
bra, pretendeu fundar aqui um hospicio: de
anachoretas, mas não o levou a efeito, por
que falleceu antes de principiar a obra.
Tambem no logar de Jagardo, d'esta fre-.
guezia, está a ermida de Nossa Senhora de
Guadalupe, que foi de grande devoção dos
povos d'estes sitios.
RED
A primitiva ermida era muito acanhada e
estava em ruinas, e, segundo a tradição, em
um anno de grande sécca, rebentou junto da
ermida uma copiosa fonte, de optima agua
potavel, à qual o povo attribuia a virtude
de curar varias enfermidades.
O povo não deixou de attribair a milagre
o nascimento desta fonte n'aquelle anno, e
a devoção á Senhora, que tinha diminuido
muito, tornou a trazer a este sitio grande
numero de romeiros, que se vinham curar
dos seus achaques, com a agua milagrosa da
fonte da Senhora,
Pelos annos de 1680 principiaram os de-
votos a construir um novo e vasto templo,
para a Padroeira, e casas para o eremitão e
romeiros, e, em 14690, já todas as obras es-
tavam concluidas.
Na villa ha tambem a egreja da Miseri-
cordia, com sua irmandade.
Tem a egreja dos Terceiros, fandada em
1682.
Todos sabem que, pela suppressão da or-
dem do Templo, em 1314, passaram todos
os seus bens para a ordem de Christo, e a
Redinha foi feita commenda desta nova or-
dem.
Até 1834, o collegio dos cavalleiros de
Christo, de Coimbra (vulgó collegio de Tho-
mar, vol. 2.º, pag. 334, col. 2.2) tinha pela
parte de cima da villa, uma casa, muitas
azenhas, um lagar e muitas fazendas, e, des-
de aqui até à villa de Soure, eram d'este
collegio todos os moinhos e lagares; pois
que os reis de Portugal lhe tinham conce-
dido o privilegio exclusivo dos moinhos,
azenhas e lagares destes sitios.
Foi na Redinha o solar dos Prêtos. Prêto
é um appellido nobre d'este reino, procedi-
do d'alcunha. O primeiro que usou d'este
appellido, foi Gonçalo Pires Prêto, vassallo
de D. João IL
Uns Prétos usam do brazão dos Negros,
outros porém trazem por armas —em cam-
po de ouro, cinco coticas negras em faxa:
élmo de aço aberto; e por timbre, um braço
negro, com um bastão de ouro na mão.
RED
Condes da Redinha
81
Sebastião José de Carvalho e Mello, 4.º
conde de Oeiras e 1.º marquez do Pombal,
instituiu para seu filho segundo, José Fran-
cisco de Carvalho Mello e Daun! um mor-
gado, do qual é cabeça a quinta de Montal-
vão, na freguezia dos Olivaes, proximo a
Lisboa. Esta quinta é hoje dos srs. condes
da Redinha. (Vol. 5.º, pag. 455, col. 1.2),
Esta quinta havia dado D. José 1 ao mar-
quez do Pombal, por carta regia de 19 de
agosto de 1776, para fazer uma casa sepa-
rada da do Pombal, no referido filho segun-
de, dando-lhe ao mesmo tempo o titulo de
conde (1.º) da Redinha.
Henrique José de Carvalho e Mello, filho
primogenito do 4.º marquez do Pombal, foi
o 2.º marquez d'este titulo, 2.º conde de
Oeiras, gentil-homem da camara de D. Ma-
ria I, grão-cruz das ordens de Christo e Tor-
re Espada, presidente da meza do desem-
bargo do paço e da da consciencia e ordens,
no Rio de Janeiro, onde morreu sem deixar
filhos. :
Herdou a casa e os titulos, seu irmão José,
4.º conde da Redinha, que ficou sendo 3.º
conde de Oeiras e 3.º marquez do Pombal,
commendador da ordem de S. Thiago, e cor-
reio da primeira plana, da córte: nascido no
1.º de abril de 1753, e fallecido no 1.º de ja-
neiro de 1824.
Sua mulher, depois de viuva, succedeu a
sua tia, D. Lugia de Menezes, da casa de S.
Thiago, no morgado que instituiu o immor-
tal Affonso de Albuquerque; e a sua prima,
a ultima marqueza de Minas, nos morgados
desta casa.
D. Francisca de Paula do Populo de Lo-
rena, viuva do 4.º conde da Redinha, tinha
nascido a 28 de novembro de 1754, e falle-
ceu a 12 de setembro de 1837. Era primei-
ra filha legitimada de Nuno Gaspar de Lo-
1 Este filho do marquez do Pombal, casou
em 24 de setembro de 1776, com D. Fran-
cisca de Paula do Populo de Lorena, sobri-
nha do marquez de Távora; de maneira que
os actuaes descendentes do 4.º marquez do
mi procedem do perseguidor e da vi-
ctima
82 RED
rena, e de sua segunda mulher, D. Maria |
Ignacia da Silveira, filha de D. Bernardo José
de Lorena e Silveira, 5.º conde de Sarzê-
das.
Foram filhos do 4.º conde da Redinhá, e
da referida sua mulher :
1.º — Sebastião José de Carvalho e Mello
Daun e Lorena, 4.º conde de Oeiras, e 4.º
marquez do Pombal.
2.ºD. Maria Leonor Ernestina, condessa
de Rio Maior.
3.º—D. Joanna Carolina.
h.º — Nuno Gaspar de Carvalho Daun e
Lorena, 3.º conde da Redinha, par do reino
(em 1826) commendador da ordem de S.
Thiago. Succedeu a seu pae, no condado e
morgado que lhe anda annexo, no 4.º de ja-
neiro de 18214. Tinha nascido a 45 de janei-
ro de 1795. Casou a 30 de agosto de 1815,
com D. Maria Victoria de Sampaio, filha dos
4.ºs marquezes de Sampaio, nascida a 28 de
março de 1798, e fallecida a 5 de julho de
1837.
D'este matrimonio houve seis filhos.
4.º — Manuel Maria da Luz de Carvalho
Daun e Lorena, que foi 4.º conde da Redi-
nha, e alferes de cavallaria. Nasceu a 20 de
novembro de 1818, e falleceu a 29 de agosto
de 1837, sem filhos.!
2.º— D. Maria Ignez da Luz Carvalho
Daun e Lorena, nascida a 17 de fevereiro
de 1821.2
1 Morreu na batalha .do Chão da Feira
(aldeia da Extremadura, proximo à villa da
Batalha) servindo às ordens do marechal
Saldanha, contra o general, conde do Bom-
fim, chefe das tropas setembristas, na guerra
chamada dos marechaes.
2 Esta senhora, casou, em primeiras nu-
pcias, com o doutor Antonio de Brito e Cas-
tro de Figueiredo Mello e Costa, de Coim-
bra. Foi uma das victimas dos ferozes estu-
dantes que assassinaram e roubaram os len-.
tes e conegos, no Cartaxinho, em 18 de mar-
ço de 1828.
O doutor Mello e Costa só deixou de ser
ferido, quando o julgaram morto; mas só es-
tava gravissimamente ferido, e assim esca-
pou. Esteve mezes em perigo de vida, e sa-
rou, ficando todavia aleijado de um quadril.
D'este casamento houve varios filhos, que
morreram pequenos, e a sr? D. Maria Ma-
nuela de Brito, nascida a 9 de março de
RED
3.º—0 sr. Antonio Maria da Luz de Gar-
valho Daun e Lorena, nascido a 414 de julho
de 1822, e casado, a 12 de maio de 1843, com
a sr.2 D. Maria Joanna Curvo Semedo Del-
gado da Silva. 1
Este cavalheiro é o senhor
e representante da casa dos
condes da Redinha; mas, co-
mo pertence ao partido legiti-
mista, não tem querido accei-
tar o titulo, nem a commenda
de S. Thiago, dos governos li-
beraes. É por nascimento, o 5.º
conde da Redinha.
4.º— O sr. Francisco Maria da Luz de
Carvalho Daun e Lorena, nascido a 14 de
setembro de 1825.
Casou com sua prima co-irman, a sr.* D.
Maria Magdalena de Noronha, nascida a 10
de junho de 1819, e filha de D. José Maria
Carlos de Noronha de Castilho Barreto, se-
nhor de varios vinculos, e de sua tia mater-
na (da sr.: D. Maria Magdalena) a sr. D. Ma-
ria Ignez de Sampaio Mello e Castro. Ha
duas filhas d'este matrimonio, a sr.? D. Ma-
ria do Sacramento de Carvalho Daun e Lo-
rena, nascida a 414 de janeiro de 1855; e a
gr.2 D. Maria Victoria de Carvalho Daun e
Lorena, nascida a 8 de março de 1858.
Tiveram tambem um menino, chamado
Nuno, que morreu de poucos dias.
5.º — A gr. D. Maria Francisca da Luz
1845, e que está casada com seu tio pater-
no, o sr. Luiz Maria, filho mais novo dos
terceiros condes da Redinha.
A sr.2 D. Maria Ignez, depois de viuva do
doutor Mello e Gosta, casou com o sr. D. Sal-
vador Manuel de Vilhena, representante da
nobilissima casa vincular dos senhores de
Pancas, e condes d'Alpedrinha, commenda-
dor da ordem de Christo, nascido a 26 de
maio de 1830. E formado em direito, pela
universidade de Coimbra, e, seguindo a vi-
da da magistratura judicial, é actualmente
juiz de direito da comarca de Reguengos, no
Alemtejo, onde reside.
1 E filha do desembargador da casa da
Supplicação, o doutor Antonio Delgado da
Silva, cavalleiro da ordem de Christo, e de
sua mulher, a sr.? D. Maria Amalia Ludovi-
ce Curvo Semêdo, e nascida a 42 de maio
de 1826.
Não ha filhos d'este matrimonio.
|
RED
Carvalho Daun e Lorena, nascida a 20 de
novembro de 1824.
Esta senhora falleceu a 21 de setembro
de 1847. Havia casado a 17 de junho de 1844,
com seu primo co irmão (tambem já falle-
cido) Manuel Antonio de Sampaio Mello e
Castro Albuquerque: Mendonça Furtado Mo-
niz e Torres de Lusignan, feito conde de
Sampaio, no 4.º de dezembro de 1834, e
marquez do mesmo titulo, em 17 de feve-
reiro de 1866.
D'este casamento houve dois filhos, o sr.
Antonio Pedro de Sampaio Mello e Castro
Albuquerque Mendonça Furtado Moniz e
Torres de Lusignan, nascido a 29 de junho
de 1845, e é o actual conde de Sampaio—e
Nuno de Sampaio, ete., que falleeeu de pou-
cos dias.
6.º—0 sr. Luiz Maria da Luz de Carva-
lho Daun e Lorena, nascido a 9 de maio de
1828.
Este senhor é o que (como já disse) está
casado com sua sobrinha, a sr.: D. Maria
Manuela de Brito, filha de sua irman, a sr.º
D. Maria Ignez, e do doutor Mello e Costa.
Esta esclarecida familia, reside parte do
anno em Lisboa, e o resto, na sua deliciosa
quinta da Portella, junto à nova ponte do
mesmo nome, sobre o Mondego, proximo a
Coimbra. (Vide vol. 7.º, pag. 250, col. 1.2,
no fim, e seguinte).
D'este casamento ainda não ha filhos.
Alem dos seis filhos já mencionados, dos
terceiros condes da Redinha, ainda houve
mais tres — José (que era o primogenito),
Sebastião e João. O ultimo falleceu de 3 an-
nos, € 08 Quiros dois, apenas viveram pou-
cos dias.
O titulo de conde da Redinha, é hoje me-
ramente honorario, pois que os condes nada
possuem actualmente na villa do seu titulo.
Quem ainda alli tem bastantes propriedades
e rendas, são os srs. marquezes do Pom-
bal.
O actual sr. conde da Redinha o que pos-
sue é o seu vinculo dos Olivaes, que é a
quinta de Montalvão, a qual fica descripta
no 6.º vol., pag. 248, col. 2.2,
re ee E e eres e EO Ot E E re retira e mete aeee ee e
RED
res
Massena, não se atrevendo a atacar as li-
nhas de Torres Vedras, retira sobre o Pom-
bal, mas os alliados o seguem e perseguem
no Pombal, na Redinha, na Foz d'Arouce, e
no Sabugal, obrigando os francezes a passa-
rem o Côa, e entrar em Hespanha, a 4 de
abril de 18114. O combate da Redinha, em
que os nossos ficaram victoriosos, como em
toda a parte, teve logar a 12 de março do
dito anno de 1844.
83
Em 6 de janeiro de 1877, choveu tão co-'
piosamente por estes sitios, que transformou
os campos em vastas lagõas. Na villa do Pom-
bal, arrastou ou desmantelou muitos muros,
e na rua da Corredoura, da mesma villa, a
agua rebentava por quasi todas as casas,
convertendo-as em tanques. A cheia, arras-
tava na sua corrente impetuosa, arvores, ca-
banas, utencilios caseiros e varios animaes.
Na Redinha causou este temporal alguns
contos de réis de prejuizo. As aguas inun-
daram varias casas, entrando tambem em
um celleiro, d'onde levaram todos os cereaes
e legumes que continha. A estrada dºesta vil-
la para a do Louriçal, ficou em muitas par-
tes intransitavel; e em varias localidades
das visinhanças, cahiram muitas casas (que
na maior parte, são construidas de barro),
ficando seus habitantes reduzidos à miseria
e sem abrigo.
Sepultura de Herodes
Ha duvidas sobre a localidade em que foi
assassinado Herodes. Pretendem alguns que
foi em Villa Velha do Rodam; porém segun-
do a opinião mais geralmente seguida, e à
antiquissima e constante tradição, foi na ci-
dade romana de Rhoda (e não na actual vil-
la da Redinha, alegrem-se os seus morado-
res) que o regente da Baixa Galiléa, Herodes
Antipa, veio terminar seus dias torpemente.
A semelhança dos antigos nomes de Ro-
dium e Rhoda, é que deram causa à duvida;
porque nem os da Redinha, nem os de Villa
Velha querem a honra da tal façanha.
Frei Bernardo de Brito (Monarchia Lusi-
84 RED
tana, 2.2 parte, cap. 3.º) diz que os rhoden-
RED
da) ? fiada em que, por ser inverno, e es-
ses mataram à pedrada pelos annos 60 de | tar o rio muito gelado, poderia passar so-
Jesus Christo, o rei Herodes, em desforra de |
ter mandado degolar S. João Baptista.
Herodes Antipa II, que os historiadores
intitulam rei de Jerusalem, mas que, da sen.
tença que adiante se lê, consta que era re-
gente da Baixa Galilea, foi filho de Herodes
Antipa É, que tinha o mesmo emprego, pelo
imperador Augusto, e que foi o que degolou
os innocentes.
Herodes II, foi o que desprezou Jesus
Christo, quando lhe foi remettido por Poncio
Pilatos, e o que mandou degolar S. João Ba-
ptista, por exigencia de sua filha Herodias.
Era este malvado, assassino, ladrão, adul-
tero e incestuoso, e tão dado aos prazeres
mundanos, que, por um baile, prometteu,
com juramento, metade do reino de Jeru-
salem.
Pouco depois da Paixão de Jesus Christo,
aceusado por seu irmão Agripa, foi desthro-
nado pelo imperador Cayo Caligula, e des-
terrado para a cidade de Leão (França) com
sua mulher e filha, ambas cognominadas He-
rodias.
De França, fugiu para Hespanha.
Dizem uns, que elle morreu miseravel-
mente em Lerida (Catalunha) e outros di-
zem que, vagueando de terra em terra, veio
ter à Lusitania, e chegando a uma povoa-
ção chamada Rhoda (outros dizem Rodium,
e aqui é que está a duvida) e alli, sendo co-
nhecido, foi morto às pedradas, pelo povo,
arrastando-o depois para uma caverna que
estava (e ainda está) à beira do rio, onde o
arremeçaram, cobrindo-lhe o corpo com pe-
dras.
O que é certo, é que, tanto
em Villa Velha de Rodam, co-
mo na Redinha, se mostra uma
caverna onde se diz que Hero-
des fôra precipitado.
Em Villa Velha, esta caver-
na fica na margem do Tejo, e
a da Redinha, é na margem do
Anços.
Tambem segundo a tradição, Herodias,
filha de Herodes, querendo passar a vau 0
rio Sicores (hoje chamado Segre, em Leri-
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bre elle, se quebrou o gelo sob os seus pés,
e ella foi ao fundo, ficando só com a cabe-
ca de fóra, tanto perneou, para sahir, que
morreu degolada pelo gelo.
De tudo isto, o que é authentico é que
Herodes fugiu com a sua familia, da cidade
de Lyão, França, e atravessando os Pyre-
neus, vieram acabar os seus dias misera-
velmente na Peninsula hispanica.
Tendo fallado de Herodes, julgo a propo-
sito transcrever aqui a sentença pronuncia-
da contra Jesus Christo.
Foi extrahida de uma cópia, eseripta em
pergaminho, e encontrada na cidade de
Aguila (reino de Napoles) em 1580.
É” a seguinte:
No anno XEX de Tiberio Cesar, impera-
dor romano, de todo o mundo, monarcha
invencivel, na Olympiada CXXI, e Illiada
XXIV, e na creação do mundo, segundo o
numero e compartimento dos hebreus, qua-
tro vezes mil cento e oitenta e sete, e da
progenie do romano imperio, o anno LXXIIL,
e da libertação da servidão de Babylonia, o
anno MGCVII, sendo governador da Judêa,
Quinto Servio, sob o regimen e governo da
cidade de Jerusalem, presidente gratissimo,
Poncio Pilatos, regente da baixa Galilêa, He-
rodes Antipa; pontifice do summo sacerdo-
cio, Caifaz, Alis Almael Magni do templo;
Rohan Anchabel, Fanchino Centaurio, con-
sules romanos, e da cidade Jerusalem Quin-
to Cornelio Sublime e Sexto Pompilio Rus-
to; no mez de Março, no dia 25 d'elle.
Eu Poncio Pilatos, aqui presidente do im-
perio romano, dentro do palacio da archi-
residencia, julgo, condemno e sentenceio a
morte, à Jesus, chamado da plebe, Christa
Nazareno, e de patria galileo, homem sedi-
cioso da lei de Moyses, contrario ao grande
imperador Tiberio Cesar. Determino e pro-
nuncio por esta, que a sua morte seja em
1 Outros dizem que, temendo, com razão,
ter a mesma afirontosa morte de seu pae,
conseguiu fugir até perto de Leiria (sempre
os nomes parecidos a causarem duvidas) e
morreu no rio Liz.
RED
cruz, fixado com cravos à usança dos réos,
porque aqui, empregando e juntando mui-
tos homens ricos e pobres, não cessou de
promover tumultos em toda a Judêa, fingin-
do-se filho de Deus, rei de Israel, ameaçan-
do-os com a ruina de Jerusalem e do sacro
templo, negando o tributo a Cesar, tendo
ainda o atrevimento de entrar com ramos e
em triumpho, e com parte da plebe, dentro
da cidade de Jerusalem, e no sacro templo.
E mando que se leve pela cidade de Je-
rusalem a Jesus Christo. ligado e açoutado,
e que seja vestido de purpura e coroado de
alguns espinhos, com a propria cruz nos
hombros, para que seja exemplo a todos os
malfeitores; e com elle quero que sejam le-
vados dois ladrões homicidas; e sairão pela
porta Jayarda, agora Antoniana, e que se
leve Jesus ao publico Monte da Justiça, cha-
mado Calvario, onde elle crucificado e mor-
to, fique o corpo na cruz, como espectacu-
lo a todos os malvados, e que sobre a cruz
seja posto o titulo em tres linguas: hebrai-
ca, grega e latina (Jesus Nazarenus Rex Ju-
deorum).
Mando outro sim que nenhum de qual-
quer estado ou qualidade se atreva temera-
riamente a impedir a tal justiça por mim
ordenada, administrada e executada com to- |
do o rigor; segundo os decretos e leis ro-
manas e hebreas, sob pena de rebellião ao
imperio romano.
Testemunhas da nossa sentença. Pelas do-
ze tribus de Israel: Rabbaim Daniel, Rab-
baim Joannim, Bonicar, Barbarsu, Ladi Pe-
tuculai. —Pelos phariseus: Bulia, Simeão, Ro-
nol, Rabbani Mondrani, Boncurfossi—Pelos
hebreus: Nitambera.—Pelo imperio e presi-
dente de Roma: Lucio Sextilio, Amassio
Chilio.
REDONDÊLLO—freguezia, Traz-os-Mon-
tes, comarca e concelho de Chaves, 70 kilo-
metros ao N.E. de Braga, 420 ao N. de Lis-
boa, 185 fogos.
Em 1757, tinha 125 fogos.
Orago, S. Vicente, martyr.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Villa Real.
A mitra apresentava o vigario, collado,
que tinha 1008000 réis de rendimento.
VOLUME VII
RED 89
O seu clima é excessivo, mas saudavel.
Produz poucos cereaes e fructas, mas é
abundante de gado e caça.
REDONDO —villa, Alemtejo, cabeça de con-
celho e de comarca (foi sempre capital de
concelho, mas da comarca de Evora, e de-
pois da de Monsaraz) 33 kilometros ão N.E.
de Evora, 18 ao S. de Villa Viçosa, 150 aq
S.E. de Lisboa, 850 fogos. |
Em 1757, tinha 698 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Annunciação.
Arcebispado e districto administrativo de
Evora
O papa e a mitra, apresentavam alternati-
vamente o prior, que tinha 2005000 réis de
rendimento, além do pé d'altar.
Tem uma bôa feira a 4 de outubro de ca-
da anno.
O concelho do Redondo é composto de
sete freguezias, todas no arcebispado d'Eva-
ra—são:
Adaval (ou Andaval), Freixo, Monte-Vir-
gem, Montouto, Redondo, Santa Suzana, €
Zambujal; todas com 1:650 fogos.
A comarca é composta de trez conce-
lhos:
Alandroal, com 1:400 fogos.
Redondo, com 1:650 fogos.
Reguengos, com 1:950 fogos.
Total, 5:000 fogos.
A villa do Redondo está situada em uma
planicie, junto à serra d"Ossa, e diz-se que
o nome lhe proveio de um grande rochedo
redondo (talvez alguma anta) que existio on»
de hoje se vê a egreja da Misericordia, e 0
seu hospital.
É terra múito fertil em todos os generos
agricolas do nosso clima; cria muito ga-
do de toda a qualidade e é abundante de
caça.
É povoação antiquissima, como adiante
veremos.
D. Affonso III lhe deu foral, em 1250, mas
Franklim não traz este foral.
D. Diniz I lhe deu outro foral, em Santa-
rem, a 27 de abril de 1318 (Livro 3.º de doa-
ções de D. Diniz, fl. 148 v., col. 1.º).
O rei D. Manuel lhe deu foral novo, em
Lisboa, a 20 de outubro de 1516 (Livro de
foraes novos do Alemtejo, fl. 104, col. 2.º)
6
86 RED
Tinha um antiquissimo castello, cuja con-
strucção se attribue aos romanos.
O rei D. Diniz o mandou reedificar, em
1312; mas está em ruinas.
No outeiro de S. Gens (serra d'Ossa) ter-
mo d'esta villa, existem os restos da torre
de vigia, ou almenara, onde o famoso Viria-
to, herminio, e, depois delle, Sertorio, ti-
nham as suas esculcas, para darem signal
da aproximação dos romanos.
Tem um soffrivel theatro.
A plantação de vinhas, tem tido um ex-
traordinario desenvolvimento, desde 1675
para cá, tendo-se plantado muitos milheiros
de bacellos.
Os srs. Antonio Ruy Gomes, Francisco Au-
gusto Ferreira, e José Geraldo Gomes, são
os lavradores que mais alli se tem distingui-
do n'esta cultura.
A villa se tem tambem enriquecido com
muitos melhoramentos, quasi todos devidos
aos seus habitantes, porque são laboriosos,
applicados, pacificos e emprehendedores.
Honra lhes seja.
Neste concelho ha minas de cobre.
Em abril de 1877, a sr.: D. Amelia d'Al-
meida Matta, espoza do sr. Ignacio Maria do
Monte, deu á luz quatro meninos, vivos, que
foram baptisados.
mes
No termo do Redondo, do lado do O., en-
tre esta villa e a de Estremoz, e quasi a egual
distancia de qualquer d'estas villas, está um
cabeço, que antigamente se chamou Monte
do Trigo, e que hoje se chama Monte Vir-
gem, ou Monte da Virgem, por aqui se achar
uma imagem da S.8. Virgem, em uma lami-
na de pedra, em relevo, contendo a adora-
ção dos reis magos.
O povo lhe construiu logo alli uma ermi-
da, e desde então o Monte do Trigo se ficou
chamando Monte da Virgem.
Com esmolas e offertas à Senhora, se am-
pliou o templo, que se transformou em uma
boa egreja, que os arcebispos d'Evora ele-
Varam a matriz.
A primeira visita que nella se fez, foi em
1569. no tempo do arcebispo D. João de
Mello.
Não se sabe em que anno foi construida
RED
a primitiva ermida; mas com certeza foi
antes do reinado de D. João II (1481-1494)
porque no pavimento se vê uma campa que
diz—AQUI JAZ JOÃO GODINHO, HOMEM HONRADO
D'EL-REI DOM JOÃO II.
A principal festa da Senhora, é no dia 6
de janeiro (Epiphania).
Os de Estremoz tambem aqui vinham fa»
zer uma grande festa à Senhora, na domin-
ga infra oitava da Natividade.
Fóra da villa do Redendo, mas a pouca
distancia, está uma formosa egreja, con-
struida no fim do seculo xvrr, e dedicada a
Nossa Senhora da Saude.
Segundo a tradição, a origem d'este tem-
plo é a seguinte:
Havia na villa um clerigo, chamado Ma-
noel Simões, natural do termo d'Evora, e
parocho do Redondo, que, hindo a Roma,
trouxe de lá uma imagem da S.S. Virgem,
de grande perfeição, e a tinha em sua casa,
com o maior respeito.
Por morte do padre, o povo levou a ima-
gem da Senhora para a ermida de S. Se-
bastião, que tambem fica fóra da villa, e
aqui esteve até ao anno de 1658, em que se
lhe construiu casa propria, que é uma vasta
e bella egreja, para onde a santa imagem
foi mudada em procissão, com grande ma-
gnificencia, havendo por essa occasião uma
grande festa.
Ha aqui algumas bôas fabricas de panos.
Tinha um mosteiro de frades capuchos, da
provincia da Piedade.
Disse que esta povoação era antiquissi-
ma, € é.
EE Já vimosíque existia no tempo dos roma-
nos,f poisfquek of grande Viriato, O » beirão,
aqui fez o seu quartel general, provavelmen-
te no castello, e que tinha a sua almenára
no monte de São Gens.
Depois da sua morte, tambem aqui habi-
tou o famoso Sertorio; mas isto ainda não
é a prova da sua remota antiguidade, porém
a existencia de monumentos megalithicos
que se teem encontrado nas suas proximi-
dades.
RED
(Para evitarmos repetições, veja-se 0 fi-
nal do artigo Quinta dos Gascos, n'este vo-
lume.)
Vê-se pois que os povos pre-celtas já ha-
bitavam estas paragens, muitos seculos an-
tes do nascimento de Jesus Qhristo, deixan-
do bastos vestigios da sua permamencia n'es-
tes logares.
Condes do Redondo
Os condes do Redondo, os marquezes de
Minas, e os marquezes de Bórba, são da
mesma familia.
O 4.º conde do Redondo, foi D. Vasco
Coutinho (que já era conde de Borba) feito
por D. João II, em 16 de março de 1486.
O 1.º marquez de Minas, foi D. Francisco
de Souza, por Philippe III, em 2 de janeiro
de 1608.
Em 15 de janeiro de 1842, foi feito mar-
quez do mesmo titulo, D. Braz da Sil-
veira.
Em 4 de janeiro de 1869, teve este titulo,
D. Pedro da Silveira e Lorena. E, finalmen-
te, em novembro de 1876, foi feito marquez
de Minas, o sr. D. Alexandre da Silveira e
Lorena.
Os condes de Borba e do Redondo, pas-
saram a ter o titulo de marquezes de Bor-
ba, em 15 de dezembro de 18144.
O segundo marquez de Borba, foi Fernan-
do Maria de Souza Coutinho Castello-Bran-
“e Menezes, 14.º conde de Redondo, 12.º se-
nhor de Gouveia de Riba Tamega (perto da
villa de Amarante) 1, védor da casa real, par
do reino, em 1826, grão cruz das ordens de
S. Thiago e da Conceição, commendador da
de Christo, tenente coronel de cavallaria, um
dos governadores do reino, e presidente do
real erario, em 1810.
Succedeu a seu pae, em 13 de outubro de
1813.
Tinha nascido a 25 de outubro de 1776,
e morreu a ô de março de 1834.
Tinha casado a 15 de maio de 1795, com
* Os condes do Redondo, eram senhores
de Gouveia de Riba-Tamega, diesde 18 de
o de 1473, por mercê de D. Affon-
so V.
RED 87
' D. Eugenia Manuel, dama da rainha D. Ma-
ria I, e das ordens de Santa Isabel e de S.
João de Jerusalem, e era 4.º filha dos 3.º
marquezes de Tancos.
D'este casamento nasceram nove filhos:
1.º, José Luiz Gonzaga de Sousa CGouti-
nho CGastello-Branco e Menezes, 15.º conde
do Redondo, 43.º senhor de Gouveia, védor
da casa real, e alferes de cavallaria.
Succedeu a seu pae, no condado, a 5 de
março de 1834.
Tinha nascido a 14 de outubro de 1797,
e casado a 30 de maio de 1819, com D. Ma-
ria Luiza José da Costa, dama da ordem de
S. João de Jerusalem, que tinha nascido a 26
d'agosto de 1800.
Era filha dos 6.:* condes de Soure.
D'este casamento nasceram a sr.* D. Ma-
rianna Luiza, a 48 de maio de 1821, e o sr.
Fernando Luiz de Souza Coutinho Castello-
Branco e Menezes, a 10 de julho de 1835,
é o actual representante d'esta nobilissima
familia; porque seu pae falleceu em 1863.
2.º, Antonio de Souza Coutinho, que foi
conde-barão d'Alvito.
3.º, João Luiz de Souza Coutinho Gastello-
Branco, cavalleiro da ordem de S. João de
Jerusalem, nascido em 23 de junho de 1804,
e fallecido no seu palacio de Santa Martha
(Lisboa) a 2 de junho de 1867.
O Diario Pópular (de Lisboa) de 4 de ju-
nho de 1867, publicou o seguinte necrolo-
gio :
«Na madrugada de domingo 2 do corren-
te, pelas 3 horas e meia, falleceu 0 ex.mº sr.
João Luiz de Souza Coutinho Castello Bran-
co, terceiro filho dos ex.=* marquezes de
Borba, no palacio d'esta nobre familia, no
largo de Santa Martha.
O fallecido havia nascido no dia 23 deju-
nho do anno de 18014: foi um perfeito mo-
delo das virtudes civicas, e religiosas de
seus illustres antepassados, a cuja memoria
soube prestar o maior respeito.
Seguiu o partido legitimista, sendo um
dos honrados membros delle, respeitando
todavia as opiniões adversas.
Soffreu, como bom christão que era, com
a maior resignação a prolongada doença a
que succumbiu, recebendo com grande pie-
88 RED
dade e devoção os ultimos soccorros espi-
rituaes, que já por mais de uma vez, du-
rante a sua enfermidade, havia recebido.
Viveu christâmente, e assim morreu, re-
petindo elle mesmo com o venerando sacer-
dote, que o ajudava a passar a hora extre-
ma, os respectivos Psalmos, e orações da
agonia, entregando placida e tranquillamen-
te a sua alma ao Creador.
Acompanhamos a nobre familia do falleci-
do na sua dôr e saudade, e rogando a Deus
que se compadeça de sua alma, e prostran-
do-nos todos ante a Cruz da Redempção, di-
gamos alli o Requiem ceternam dona eis Do-
mine, Et lux perpetua luceat ei.»
k.º, D. Margarida, condessa da Atalaia,
nascida a 414 de janeiro de 1804.
5.º, Duarte, cavalleiro da ordem de S.
João de Jerusalem; nascido a 17 de agosto
de 1808 e fallecido em Santarem, a 20 de
abril de 1834.
6.º, Manuel, cavalleiro da ordem de S.
João de Jerusalem; nascido a 25 de agosto
de 1809.
7.º, D. Francisca, condessa da Lapa, nas-
cida a 5 de abril de 1814.
8.º, D. Maria Francisca, condessa de Pom-
beiro (mãe do actual marquez de Bellas) nas-
cida no 4.º d'abril de 1815.
9.º, D. Maria de Jesus, nascida a 27 de
março de 1820.
As armas destes titulares, são:
Escudo esquartellado, no 1.º e 4.º, as qui-
nas de Portugal, e no 2.º e 3.º as armas de
Lyão. Timbre, um leão d'ouro.
—
Membros mais notaveis d'esta familia
D. Vasco Coutinho, conde de Borba, e 4.º
conde do Redondo.
Foi capitão d'Arzilla (Africa) e um dos
cavalleiros que mais se distinguiram, pelo
seu valor e intelligencia, nas guerras contra
os turcos.
D. João Coutinho, 2.º conde do Redondo,
filho de D. Vasco Coutinho e de D. Cathari-
na da Silva, foi um cavalleiro de estremado
valor, de grande intelligencia, de uma bella
figura, e agradavel tracto.
Foi muitos annos capitão d'Arzilla, em
cujo governo succedêra a seu pae.
RED
Defendeu aquella praça de todo o poder
do rei de Fez, com inexcedivel bravura, e
ainda hia provocar os mouros aos seus pro-
prios acampamentos, ficando sempre victo-
rioso, e tornando-se o terror dos inimigos
das armas portuguezas.
Referindo-se a este heroe, disse o impe-
rador Carlos V ao infante D. Luiz, duque de
Beja, e filho do nosso rei D. Manuel.
«Quien tuviera aqui aora el conde de Re-
dondo, con sus duzientos africanos!» tantos
eram os portuguezes com que D. João Cou-
tinho havia conseguido tantas e tão assigna-
ladas victorias.
Sahindo da praça d'Arzilla, com 140 lan-
ças, em 48 de junho de 1514, encontrou na
serra do Farrobo (serra do Carneiro) uma
grande partida de mouros, sendo 800 de ca-
vallo, e muitos mais a pé, commandados pe-
lo seu famoso alcaide Loroz.
Não se atterrou o magnanimo D. João Cou-
tinho, com a desproporção do numero, di-
zendo aos portuguezes—«São Jorge, e a el-
les!»
Foi profiada e mortifera a peleja, mas os
mouros tiveram de fugir, derrotados, dei-
xando no campo 200 mortos, em cujo nu-
mero entraram muitos mouros dos princi-
paes, com 41 captivos, entre elles o alcaide
de Alcacer-Quibir, o adail de Molei-Nacer,
dois Xeques 1 e outros nobres mouros.
1! Xéque (Xeche) palavra arabe, é titulo
de honra. '
Significa homem de provecta edade, an-
cião de probidade, conselho, auctorida-
de, etc.
Entre os arabes do campo e os mouros da
India, os xeques são governadores do terri-
torio que comprehende uma tribu, cabilda,
ou familia.
Entre os persas, dá-se ao imperador o
nome de Xeque, que elles pronunciam Xá
(Schah.)
Entre os godos ou saxonios, chamavam
Alderman, ao mesmo a que os arabes dão o
nome de xeque. (Os inglezes anda usam
este termo com a mesma significação.)
Xeque, corresponde ao latino senator, e
ao portuguez, italiano, francez e hespanhol
— senhor.
Ha tambem quem diga que sir (que osin-
glezes pronunciam sar) é corrupção de xe-
que, que no arabe moderno se pronuncia
gaque; e é daqui que julgo vir schah.
RED
Dos portuguezes poucos morreram, reco-
lhendo à praça com valiosos despojos, in-
cluindo 93 optimos cavallos, ricamente ajae-
zados.
Ao seu estremado valor, juntava a gene-
rosidade e bizarria de um verdadeiro fidal-
go portugusz; basta para prova o exemplo
seguinte:
Tinha captivo em Arzilla, como já disse,
onobre e velho alcaide d'Alcacer-Quibir, pae
de uma formozissima menina.
Um joven e rico serraceno, pretendia ca-
sar com ella, e obteve em resposta que só
casaria com elle, se conseguisse a libei dade
do pae.
O mouro, monta um formoso cavallo, e di-
rigindo-se a Arzilla, lança-se aos pés do
conde e, depois de declarar o amor que ti-
nha à donzella, e a condição que elle pro-
punha ao seu casamento, lhe disse:
«Sou tão nobre, como o alcaide que con-
servaes prisioneiro: elle é velho e pouco pó-
de combater. Eu sou moço e não careço de
robustez nem de coragem, pelo que as ar-
mas portuguezas pouco tem a receiar de um
ancião, o que não acontece a meu respeito:
pois bem, eu me declaro vosso captivo, e
dae a liberdade ao pae d'aquella que amo
mais do que a propria vida e a liberdade.»
D. João Coutinho ficou maravilhado'de
uma acção tão briosa, e de um affecto tão
raro; e summamente enternecido respondeu
ao mouro:
«Mancebo, o acto de dedicação e abnega-
ção que praticaes, é proprio de um bizar-
ro cavalleiro, e não se dirá que um capitão
do rei de Portugal vos fica inferior em ge-
nerosidade. Eu vos mando entregar 0 ca-
ptivo, sem condições; levaeo e sede feli-
Zes.»
Mandou logo soltar o alcaide, deu-lhe um
optimo cavallo, muitos e valiosos presentes,
e acompanhou os mouros até fóra dos mu-
ros da praça.
No dia 1.º d'abril de 1520, se deu um fa-
cto nos arredores de Arzilla, que deu muito
que rir, e foi divulgado em todas as nossas
possessões da Africa, e em Portugal, em pro-
za e verso, pelos litteratos do tempo.
RED 89
Adoecera na praça um nobre cavaleiro,
geralmente estimado por suas boas partes.
A molestia degenerára em pulmonar, e os
medicos lhe receitaram caldo de kágados.
Resolveram-se 20 cavalleiros portuguezes,
quasi todos nobres, a hir à pesca dos kága-
dos, a uma ribeira que ficava a pouca dis-
tancia da praça.
Sahiram pois no dia referido, e, vendo o
campo livre de mouros, marcharam descui-
dosamente para o rio.
Deixaram os cavallos a pastar em liber-
dade, e despindo-se, se deitaram à agua,
uns a pescar os kágados, outros a baaha-
rem-se.
Quando mais entretidos andavam com o
divertimento, veem-se cercados inopinada-
mente por um numeroso esquadrão de ca-
valleiros mouros, do exercito do rei de Fez.
Os christãos assim surprehendidos, ape-
nas tiveram tempo de empunhar as lanças
e montar a cavallo, nus como estavam, mas,
com tal bravura se defenderam, que todos
poderam recolher-se à praça, sem perda de
um unico; deixando apenas por despojos da
batalha, os seus vestidos, armas e escu-
dos.
Quando esta cavalgada entrou em Arzilla,
no costume de Adão e Eva, muito se riram
todos, e o bravo capitão não foi o que me-
nos graça lhes achou; e os mandou logo ves-
tir à custa da fazenda, e lhe fez outras mui-
tas mercês; ficando memoravel e muito ce-
lebrado este successo, entre mouros e chris-
tãos.
Depois de ter prestado relevantissimos
serviços à religião e à patria, e achando-se
doente por causa do clima africano, D. João
Coutinho deu o governo da praça, a seu fi-
lho, D. Francisco Coutinho, que foi 3.º con-
de do Redondo, e regressou a Lisboa, onde
foi geralmente estimado e respeitado pelo
rei e pela côrte, sendo nomeado ministro é
conselheiro d'estado.
Falleceu este benemerito portuguez, no
dia 11 d'abril de 1542, com geral sentimen-
to da nação, e particularmente de D. João
IT, que muito o estimava.
D Francisco Coutinho, 3.º conde do Re-
90 RED
dondo, digno filho de tal pae, e tão bravo
guerreiro nos campos de batalha, da Euro-
pa, Africa e Asia, como prudente e integer-
rimo magistrado, apezar do seu genio folga-
são e engraçadissimo.
Estimava os homens de talento e os cora-
josos, qualquer que fosse a classe a que per-
tencessem, e por isso era geralmente bem
quisto.
D. João III o fez vice-rei da India, e foi o
segundo n'aquelle governo, que tomou da
mão do grande D. Constantino de Bra-
gança.
Conseguiu illustres vitorias no Estreito,
no Malabar e na ilha do Ceylão.
Celebrou pazes com o Camorim, e fez ou-
“tros muitos e valiosos serviços a Portugal e
à India portugueza.
Estando um domingo de quaresma a ou-
vir missa na Sé de Gôa, prégou um frade
franciscano, versando o sermão sobre as
muitas injustiças que se praticavam na In-
dia.
Na semana seguinte, foram dois frades
da mesma ordem do prégador, levar-lhe uma
petição, requerendo uma cousa manifesta-
mente injusta.
D. Francisco Coutinho poz por despacho
—Haja vista o padre pregador de domingo,
e junta ao sermão, volte para defrerir como
fôr de justiça.
Ordenando-lhe a rainha regente, D. Catha-
rina, que não desse soldo aos soldados que
hiam de novo para a India, senão passados
seis mezes, respondeu:
«Esqueceu a Vossa Alteza declarar o que
lhes farei se os achar furtando, porque—se
dizem a Vossa Alteza, que d'estes se fazem
cá homens, eu acerescento, que d'estes ho-
mens, sendo mal pagos, se fazem cá ladrões.»
Muitissimos ditos de infinita graça se con-
tam deste fidalgo, os quaes não menciono,
por não enfadar mais o leitor.
Estando o conde do Redondo quasi no fim
do trienio do seu vice-reinado, falleceu em
Gôa, a 28 de fevereiro de 1564.
D. João de Souza, da casa dos senhores
de Gouveia de Riba-Tamega, filho do 4.º con-
de do Redondo, e sobrinho do grande arce-
RED
bispo d'Evora, D. Diogo de Souza, da mes-
ma familia, bispo do Porto, arcebispo de
Braga, e, por fim, 20.º e ultimo arcebispo
de Lisboa.
Nasceu em Lisboa, no anno de 1647, e
falleceu na mesma cidade, a 29 de septem-
bro de 4710. 1
Para evitarmos repetições, vide 4.º vol.,
pag. 275, col. 2.2
No 3.º vol. do Anno Historico, a pag. 107,
vem uma extensa biographia d'este insigne
prelado; mas diz que elle falleceu a 23 de
janeiro de 1710.
Não pude saber qual d'estas duas datas é
a verdadeira.
Ha mais notícias sobre os condes do Re-
dondo, no 6.º vol., pag. 595, col. 4.2
O actual representante d'esta esclarecida
familia e dos marquezes de Borba, é osr. D.
Fernando Luiz de Souza, filho dos ultimos
condes do Redondo, e que não tem querido
acceitar o titulo, do governo liberal.
Este cavalheiro tem uma boa propriedade
no termo de Bellas, chamada quinta do Bom
Jardim, onde reside habitualmente apesar de
ter o seu palacio de Santha Martha, um dos
mais vastos e mais bem construidos de Lis-
boa.
É tão solida a sua fábrica, que o grande
cataclismo do 4.º de novembro de 1755 não
lhe causou o minimo prejuizo.
Contiguo ao palacio, tem uma extensa
quinta, a maior de Lisboa.
Todos sabem que a nossa academia das
bellas artes, está no velho e acanhado edifi-
cio que foi mosteiro de São Francisco da Ci-
dade.
Quadros e desenhos de grande mereci-
mento, estão alli amontoados, em tão mã
disposição, por falta de salas, que alguns
já estão podres, ou muito damnificados.
O sr. marquez de Souza Holstein, esclare-
cido secretario da academia, com outros ca-
valheiros, a quem dôe ver as nossas cousas
1 Foi sepultado no cemiterio dos pobres,
na Sé de Lisboa, sem epitaphio algum, co-
mo tinha ordenado.
RED
em tal abandono, depois de muitas investi-
gações, acharam que 0 palacio dos condes
do Redondo estava nas melhores condições
para n'elle se estabelecer a academia, ten-
do, de mais a mais, a necessaria amplitude
para alli se guardarem as innumeras lapi-
des romanas e outros objectos archeologicos,
que se encontram com profusão por todo o
paiz (como temos visto n'esta obra) e que
alli estariam ao abrigo de profanações, e
constituiriam um museu archeologico de
grande valor, para as artes e sciencias. 1
Assim o decidiram os illustres engenhei-
ros, os grs. marquez de Souza Holstein, An-
tonio Thomaz da Fonseca, José Antonio
Gaspar, e Ricardo Julio Ferraz, commissio-
nados para examinarem o palacio e quinta
em questão.
A casa, que, como já disse, é vasta é de
solidissima construcção, tem quasi todos os
madeiramentos de optimas arvores do Bra-
zil, e, com mui pouca despeza, se prestava
para 0 fim projectado, por consistir na sua
maxima parte, em vastos salões.
Junto ao palacio ha um jardim de 500 e
tantos metros de comprido, por 200 de lar-
go, ao nivel do pavimento nobre (a casa é
de dois andares) onde facilmente se podiam
edificar novas salas, à medida que fossem
sendo necessarias.
A quinta, tem 48 hectares de cxtensão,
isto ê-—CENTO E OITENTA MIL METROS QUADRA-
TOS.
O governo não quiz dar por tudo isto
1 Já temos um museu archeologico, esta-
pelecido na egreja gothica do Carmo, devi-
do à iniciativa e à dedicação do sr. conse-
lheiro Joaquim Possidonio. Narcizo da Sil-
“va, coadjuvado por alguns membros da real
associação dos architectos civis e archeolo-
gos portuguezes (a cujo numero me honro
de pertencer) e já alli se admiram muitos
objectos de grande merecimento; mas, uma
associação particular, sem outros rendimen-
tos alem da insignificante mensalidade de
500 réis que dá cada socio, tarde e mal pó-
de attingir o grau de prosperidade de que
é merecedor tão patriotico emprehendimen -
to, emquanto o governo de Portugal se con-
servar—como até agora—em totale reprs-
-hensivel indiferença, para com objecto de
tanta valia.
RED 914
mais de 80 contos de reis, apezar dos enges
nheiros mencionados o avaliarem em mui-
to mais.
Estes exames e avaliações foram feitos em
maio de 1876, e até hoje nada se decidiu!
Pois o governo fazia uma bella acquisição,
porque alem de ter um optimo edificio pa-
ra a academia das bellas artes, e museu ar-
cheologico, podia abrir novas ruas na quin-
ta, e fazer quasi o dinheiro da compra, ven-
dendo terreno a particulares, para novas ha-
bitações, tão necessarias em Lisboa.
Na villa do Redondo nasceu, em 1812, o
sr. João Anastacio Rosa (vulgarmente, Rosa
pae) distincto pintor e optimo actor drama-
tico.
Seus paes o destinavam para o estado
ecclesiastico; mas como pão tinha“vocação
para padre, quizeram que elle fosse me-
dico.
Em 1828, porém, apparecendo no Redon-
do um pintor hespanhol, e vendo a propen-
ção que Rosa tinha para o desenho, lhe deu
algumas lições, admirando-se dos rapidos
progressos do discipulo.
Seus paes o mandaram então para Lishoa
cursar a aula regia de desenho, que nesse
tempo era no Thesouro Velho.
Vendo a aptidão do alumno, o engenhei-
ro director (general Rapozo) o mandou pa-
ra o palacio da Ajuda, para praticar com à
insigne pintor, João da Cunha Taborda, di-
rector dos trabalhos artísticos d'aquelle pa-
lacio, no reinado do sr. D. Miguel I.
Alli estudou com aproveitamento, até que,
em 24 de julho de 1833, entrando os libe-
raes em Lisboa, sa alistou em um dos bata-
lhões moveis, então creados pelo governo do
duque de Bragança.
Finda a guerra de 1834, e parando as
obras do palacio da. Ajuda, Rosa viveu do
officio de pintor, tirando retratos a oleo, no
que foi e ainda e, muito perito.
Quando o visconde de Almeida Garrett
tentou restaurar o theatro nacional, organi-
zando a companhia do theatro dos Condes,
foi nomeado director Emilio Doux, o qual
annunciou que dava lições de declamação,
n'aquelle theatro.
92 REF
Rosa foi dos primeiros a acudir ao cha-
mamento, e aqui temos um optimo pintor
transformado em um dos melhores artistas
dramaticos (em todos os generos) dos nos-
sos dias.
Seus filhos, Augusto, e João, seguem as
pizadas de seu digno pae, e são tambem
dos mais eximios actores da scena portu-
gueza.
Os condes do Redondo apresentavam as
justiças do concelho, e os moradores lhe pa-
gavam 63300 réis de jugada, que eram 33
alqueires de cada moio que semeassem.
Tinham mais os oitavos do vinho e 503000
réis de portagem.
(Vide Valladeira.)
REDONDOS—freguezia, Douro, comarca,
concelho e proximo da Figueira da Foz, 40
kilometros ao O. de Coimbra, 195 ao N. de
Lisboa.
Em 4757, tinha 116 fogos.
Orago, a Vera Cruz.
Bispado e districto administrativo de Coim-
bra.
O mosteiro de Santa Cruz, de Coimbra,
apresentava o cura, que tinha 408000 réis
eo pé daltar.
O logar de Redondos tinha foro de villa,
e era concelho que se denominava de Buar-
cos e Redondos, até 12 de março de 4774,
em que foi creada a comarca de Figueira
da Foz do Mondego.
Redondos fica junto a Buarcos, e está nas
mesmas condições.
Vide Buarcos e Figueira da Foz.
REDRUFE--casa vincular de um ramo dos
Magalhães (os Magalhães de Redrufe) em
Cabeceiras de Basto, na provincia do Mi-
nho, arcebispado e districto administrativo
de Braga.
É seu actual representante o sr. José Fal-
cão de Magalhães.
REFECE ou ARFECE — portuguez antigo
vil, baixo, zote, cousa ou pessoa de mui
pouca valia.
Tambem se chama refece à moeda baixa
no metal é no valor.
REFENAS-— portuguez antigo—retens.
REFEREDIÇO, REFEREDOR ou REFER-
REF
TEIRO—portuguez antigo—o que se arre-
pende de ter dado alguma cousa.
O que referta, lançando em rosto o bem
que fez. |.
REFERTA-—portuguez antigo—porfia de
palavras, contenda, disputa.
REFERTAR — portuguez antigo—dispu-
tar, impugnar, não querer, pôr demanda,
contrariar, impedir.
REFERTEIRA — portuguez antigo —mu-
lher desdenhosa, esquiva, etc.
REFERTEIRO—portuguez antigo—teimo-
so, pertinaz, que se não convence da razão.
"REFERTO —portuguez antigo—embaraço,
contenda, opposição, contradicção, etc.
REFERTORIO— portuguez antigo—refei-
torio. |
REFESTÊLLO—portuguez antigo—(ainda
usado na Terra da Feira), festa, musicata
de rapazes, descante, etc.
REFIÃO — portuguez antigo—rufião. —É
curioso o Cod. Alf. no Liv. 3.º, tit. 15, $ 47
e 18.— Diz, em resumo: Refião é o que tem
pubricamente mancéba na mancebia, pera a
emparar e defender, por o guainho elicito
que della leva.
Não gosava privilegio clerical, tanto na
pessoa como nas suas cousas, O elerigo ca-
sado, que fôr—1.º, carniceiro, matando, es-
folando, cortando, etc. —2.º, taberneiro—3.º,
refião—h.º, jogral (o que tocava, por dinhei-
ro, qualquer instrumento, sem ser em fes-
tas de egreja)—5.º, tregeitador (truão, bôbo,
farcista, pantomineiro, etc.)—6.º, goliardo
(o que come e bebe na taberna) —7.º, bu-
fam (bufarinheiro.)
REFONTOURA--freguezia, Douro, comar-
ca e concelho de Felgueiras (foi do mesmo
concelho, mas da comarca de Lousada) 35
kilemetros ao N.E. de Braga, 360 ao N. de
Lisboa, 190 fogos.
Em 1757, tinha 156 fogos.
Orago, S. Cypriano.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
9008000 réis de rendimento.
É terra muito fertil em todos os fructos
do nosso clima, cria muito gado e é abun-
dante de caça.
REF
Era natural d'esta freguezia, D. Goldora
Goldares de Refontoura, padroeira do mos-
teiro de Bustéllo, proximo a Penafiel.
D. Goldora teve de D. Gonçalo Mendes de
Souza, a D. Elvira (outros dizem Marinha)
que casou com Martim Pires d'Aguiar, e fo-
ram paes de Pedro Martins Alcoforado.
Foi por iste que os Alcoforados vieram à
ser padroeiros do convento de Bustêllo.
REFOYOS, REFOIOS ou REFOJOS—fre-
guezia, Minho, comarca de Celorico de Bas-
to, concelho de Cabeceiras de Basto, 40 ki-
lometros ao N.E. de Braga, 380 ao N. de
Lisboa, 700 fogos.
Em 4757, tinha 414 fogus.
Orago, S. Miguel, archanjo.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O D. abbade benedictino do mosteiro d'es-
ta freguezia, apresentava o vigario, triennal
(que era um monge do mesmo convento) e
tinha 504000 réis de benesses.
É povoação muito antiga, e foi villa e cou-
to, com a denominação de Refoyos de Busto.
Tem uma sentença de foral, dada pelo rei
D. Diniz, em 44 de janeiro de 1307.
(Gav. 15, maço 8, n.º 24.)
El rei D. Manoel lhe deu foral novo, em
Lisboa, no 4.º de outubro de 1513.
(Liv. de foraes novos do Minho, fl. 49 v.,
col. 2.2)
Fica esta freguezia situada perto da mar-
gem direitá do Tâmega.
Tem festa e feira a 29 de setembro, dia do
seu padroeiro. Dura trez dias.
Refoyos, é tambem um appeilido nobre
em Portugal, cuja familia procede de D.
Mendo Affonso de Refoyos, tomado (o appel-
lido) do senhorio da Torre de Refoyos, que
é o seu solar, e teve numerosa descendencia.
Floresceu D. Mendo, no tempo de D. Af-
fonso Henriques, e está sepultado na capel-
la-mór da egreja do mosteiro de Refoyos
do Lima.
Os Refoyos trazem por armas— em cam-
po de prata, 4 coticas de púrpura, em palla.
Timbre, duas pernas d'aguia, de ouro, em
áspa, com uma das coticas nas garras, en-
tre 4 plumas de púrpura.
(Vide Refoyos do Lima.)
REF 93
É n'esta freguezia o sumptuoso mosteiro
de monges benedictinos (cuja egreja serve
de matriz da freguezia) fundado em 670, no
reinado de Recesvindo, filho de Chindas-
windo, por o rico-homem Hermigio Fafez.!
Mediante o tributo imposto, existiu este
convento, praticando-se n'elle o culto catho-
lico, em todo o tempo da dominação árabe,
chegando a ter então 67 religiosos.
Em 1403, sendo rei de Portugal D. Diniz,
passou a abbades commendatarios.
Pelos annos de 1525, D. João III o deu a
seu filho bastardo, D. Duarte, arcebispo de
Braga e prior-mór de Santa Cruz de Coim-
bra; e depois, a frei Diogo de Murça, ? que
obteve do papa Paulo III, pelos annos de
1549, um breve para se extinguir o conven-
to, e fazer em Coimbra os collegios de S.
Bento e S. Jeronymo; e do remanescente,
outro, para 12 estudantes ecclesiasticos po-
bres.
Os monges, porém, oppozeram-se a este
breve, e o convento não foi supprimido, mas
ficou com 12 religiosos e um prior, sujeitos
à reforma. 3
Em 41570, entraram os abbades triennaes,
pela reforma ordenada pelo papa Pio V.
O convento sustentava o collegio, alem dos
dois de Coimbra.
Em Traz-os-Montes tinha muitas rendas,
que dividia com a casa de Bragança, as
quaes lhe foram doadas por Vasco Gonçal-
1 Outros dizem que o seu fundador foi
D. Gomes Soeiro. R
É certo que o retrato de D. Gomes Soei-
ro está em um grande quadro, a oleo, no sa-
lão que foi do capitulo, com esta inseripção
—D. GOMES SOEIRO, FUNDADOR D' ESTE MOSTEI-
RO, EM 670. o
A ser isto verdade, não póde haver duvi-
da que foi este o fundador.
2 Este frei Diogo fez grandes obras no
mosteiro e aqui falleceu.
3 Tão boas razões apresentaram os mon-
ges, que o proprio D. frei Diogo de Murça,
requereu ao pontifice a conservação do mos-
teiro, e foi o papa Paulo IV, que, em 1555,
auctorisou a conservação do convento.
D. Diogo falleceu n'este mosteiro, em 1570,
e foi sepultado na capélla-mór.
O seu retrato esteve até 1834 no collegio
dos Jeronymos, de Coimbra.
94 REF
ves Barroso, casado com D. Leonor d'Alvim,
e n'este mosteiro foi sepultado.
D. Leonor, depois de viuva, casou com o
grande condestavel D. Nuno Alvares Perei-
ra, e d'este casamento nasceu D. Brites (ou
Beatriz) Pereira, que casou com o infante
D. Affonso, filho natural de D. João I. e de
Ignez Fernandes Esteves, filha de Mem da
Guarda. o Barbadão, e que foi (D. Affonso)
o 4.º conde de Barcellos, e o 4.º duque de
Bragança, e tronco da real casa de Bra-
gança.
A egreja de S. Miguel de Refojos de Basto,
e o seu mosteiro, é um dos mais Importan-
tes e dos mais sumptuosos monumentos da
provincia do Minho, e mesmo em Lisboa,
n'este genero, só lhe póde ser comparado o
mosteiro do Coração de Jesus (Estrella) com
o qual tem grande semelhança, na fachada
da egreja e no magnifico zimborio.
Esta obra magestosa, foi concluida em
1690.
Em frente do mosteiro ha uma alamêda,
e quasi no fim della, um elegante e magni-
fico cruzeiro, construido em 1847.
Dão entrada para a alameda, trez largas
ruas, atravessando-a em todo o seu compri-
mento, o pequeno rio Basto, bem canalisa-
do; o qual entrava por baixo de uma peque-
na ponte para as terras que foram do mos-
teiro, e que hoje está substituida por uma
mova e bôa ponte, que dá passagem à estra-
da de 2. classe ha pouco construida.
Ao lado da: ponte, está a estatua de um
miliciano, toscamente cinzelada, tendo no
ventre a seguinte inscripção—PoNTE DE S. MI-
GUEL DE REFOYOS, ANNO DE 1690.
Está o mosteiro situado no fundo da bacia
de Cabeceiras de Basto.
Apezar das muitas rendas que se tiraram
ao convento, para os trez collegios, como fi-
ca dito, ainda elle ficou muito rico, não só
pelo grande numero de fóros que recebia,
como pelas muitas propriedades que pos-
suia em Barroso, e que lhe tinham sido doa-
das por Vasco Gonçalves Barroso, d'este
concelho, primeiro marido de D. Leonor de
Alvim.
Vasco Gonçalves Barroso,
só deu aos monges a sua mea-
REF
ção, e é por isso que a de sua
“mulher veio depois a ser da
casa de Bragança.
Os monges mandavam para Coimbra 3:500
cruzados (1:4008000 réis) ficando para el-
les, só 300 cruzados, dos fóros e rendas;
mas, com o direito de padroado de todas as
egrejas aunexas a este convento, e os seus
dizimos, o que montava ainda a uma ara
de somma:
Tinham os monges um grande couto, com
juiz no civel e orphãos, e mais empregados
judiciaes e municipaes, da nomeação do D.
abbade, que lhes deferia o juramento e as-
signava as suas cartas.
Ao mosteiro pertenciam todos os direitos
reaes do couto, e as penas (multas) por
transgressões de posturas.
O prelado do convento, era ouvidor nato
do seu couto, tanto no civel, como no crime.
Este couto tinha sido comprado pelo ab-
bade D. Bento Mendes, a D. Affonso Henri-
ques, por 800 morabitinos, como consta de
um quadro que representa o abbade entre-
gando ao rei a quantia ajustada, e receben-
do d'elle a carta de mercê, que é do theor
seguinte (tradueção do latim.)
Eu, Egregio D. Affonso, por amor de vós,
Bento Mendes, que muito estimo, faço couto
para o mosteiro de. Refoyos, firme e valioso,
por oitocenios morabitinos, que de vós recebi,
e tudo quanto n'elle me pertence, dou por li-
vre e absoluto, etc. ,
Este convento foi em varias epocas colle-
gio da ordem, e em 1834 ainda tinha um
abbade, um prior, 12 monges, e 25 crea-
dos.
Os fóros e dizimos d'este convento, ren-
diam annualmente, de 12 a 13 mil cruzados,
e o mesmo rendiam os que foram para os
trez collegios de Coimbra.
Tinha uma valiosissima livraria, que foi
mandada para Braga, em 1838.
Alem dos livros roubados (e de certo, dos
melhores) durante os quatro annos que o
convento esteve abandonado, foi o resto tão
mal acondiccionado, que muitos se perde-
ram pelo caminho.
A fachada do mosteiro tem 5 janellas de
peito e 8 de sacada.
|
REF
No centro tinha as armas da ordem, que
foram picadas em 1834!
Em continuação ao mosteiro, está a vasta
e sumptuosa egreja, com seu grande porti-
co, e para à qual se entra por um extenso
pateo gradeado.
Tem duas elegantes torres, circumdadas
de pyramides. Uma d'ellas tem bons sinos,
sendo o maior, de uma optima composição
metalica, e com excellente som.
A outra nunca teve sinos, e parte fui der-
rubada por um raio, em 1829; mas logo ree-
dificada, por um mestre pedreiro, por alcu-
nha o Longuinhos (por ser o construetor da
estatua equestre de S. Longuinhos, no Bom
Jesus do Monte, em Braga) que aqui mesmo
morreu asfixiado, por ter dormido com um
fogareiro acceso, dentro de uma das casas
do mosteiro; tendo de concluir a obra da tor-
re, um seu filho.
Entre as torres, está a elegante cruz de
pedra, e no tympano, as armas da ordem.
Tambem entre as mesmas torres, está 0
altar do archanjo S. Miguel, tendo na frente
uma varanda de 11 metros de extensão.
N'este altar se dizem missas, no dia da
sua festa (29 de septembro) assistindo a ellas,
«Ja alameda fronteira, milhares de pessoas;
porque, alem das da terra, concorrem os
que vem à feira de S. Miguel, que fica pro-
xima.
Por baixo deste altar, e aos lados do por-
tico, estão as estatuas de S. Bento e Santa
Escolastica, admiraveis pela sua primorosa
esculptura e naturalissima expressão.
O zimborio, que principia a 19 metros de
altura, tem, na base, 36 metros de circum-
ferencia, e é rodeado por uma varanda in-
terior. Tem altura de 33 metros. Na base da
cúpula, que é circumdada por outra varan-
da, mas exterior, tem as estatuas dos doze
apostolos, de tamanho natural, e no remate
a de S. Miguel, de 27,64 de alto, e em volta
ainda outra Varanda.
O templo é de architectura composita, e
em fórma de cruz, medindo 2:819 metros
«quadrados.
Tem um soberbo côro, com excellente or-
gão, tendo em frente, outro fingido, para Sy-
metria. Um d'elles é encimado pelas esta-
REF 95
tuas da Fé, Esperança e Caridade; o outro
pelas da Justiça, Fortaleza e Temperança.
Ambos são sustentados por feias cariatides,
e medonhos minotauros. No centro da grade
que o circumda, está uma grande cruz com
a imagem de Jesus Christo crucificado, de
tamanho natural, que é considerada como
objecto rarissimo n'este genero.
Além do altar-mór, ha quatro lateraes, ses
parados do corpo da egreja por uma magni-
fica grade de ébano. Tem tambem dois bel-
los pulpitos.
No corpo central, que fórma a cruz, tem»
à direita, uma boa sachristia, e no fundo à
capella do Santissimo Sacramento, de fórma
circular. Tanto a capella-mór, como a do
Santissimo, estão guardadas por grades de
ébano. Da mesma preciosa madeira são as
archibancadas, com suas estantes na frente,
onde se sentava o cabido.
O altar-mór é magestoso, e tem um ma-
gnifico throno, sobre columnas douradas,
tendo 167,66 de altura; e, em dias de festa,
é iluminado por 90 velas de cêra. Tem dos
lados, em tamanho natural, as imagens de
S. Bento, e sua irman Santa Escolastica, fan-
dadores da ordem benedictina.
Tinha esta egreja, uma rica custodia de
ouro, que pôde escapar à rapacidade fran-
ceza, mas não escapou à de portuguezes de-
generados, que a roubaram em 4834. A que
hoje tem, é de prata dourada, e foi offereci-
da à egreja, pelo fallecido bemfeitor, Joaquim
José de Andrade Basto.
Tambem em 1834 roubaram um rico res-
plandor de Nossa Senhora.
Ainda em 27 de abril de
1878, appareceu roubada a Se-
nhora das Dôres, d'esta egre-
ja, levando-lhe os ladrões, pul-
seiras, anneis, cordões, e ou-
tros objectos de ouro e prata,
no valor aproximado de réis
3008000.
No dia seguinte apparece-
ram roubadas as almas que
estão collocadas em cima da
ponte chamada Ponte Pé, d'es-
ta freguezia.
Todos os altares da egreja são de rica e
96 REF
primorosa talha dourada, e as imagens que
os adornam, são de grande magnificencia.
Na vasta sachristia que está contigua à ca-
pella-mór, ha dez formosos quadros, a oleo,
representando a genealogia do povo de Deus,
desde Adão até Jesus Christo.
Fóra d'esta sachristia ha um quadrilongo
de 147,75 de comprido, do qual se sobe, por
oito degraus, para o grande pateo da esca-
daria. Esta é sustentada por um arco obli-
quo, de difficilima execução, o unico do seu
genero, em Portugal, que causa admiração
a quantos architectos o teem visto.
Os elaustros formam uma vasta quadra,
de 42 metros, e são sustentados por elegan-
tes columnas de pedra, tendo no centro do
pateo que circumdam, uma grande taça de
granito. É por aqui a entrada para a parte
do edificio onde estão estabelecidas as re-
partições publicas, e tambem para o côro e
as torres.
Tem o mosteiro dois grandes salões, am-
pla casa de capitulo, com seu altar, a vasta
sala que foi livraria dos frades, e muitas ou-
tras salas e quartos para hospedes.
No refeitorio dos hospedes ha um quadro
representando os monges do Vaticano, à
meza, com o patriarcha S. Bento, e n'ella 0
calix envenenado.
Este mosteiro e as suas cêrcas, foram ven-
didos em 14834, e os comprou, em praça pu-
blica, João Antonio Fernandes Basto, que
falleceu em 24 de agosto de 1873. O actual
proprietario, é o sr. Alexandre José Fernan-
des Basto, irmão do comprador.
Ao fundo da alamêda, em que já fallei,
está o edificio que foi tribunal do couto de
Refojos de Basto, com casa de audiencia e
cadeia, tendo na fachada as armas de Por-
tugal e as da ordem benedictina. Ardeu em
1853, mas foi logo reconstruido. Serve
actualmente de hospedaria.
Pretendem alguns que Basto é corrupção
de Bástulos, povos antigos, que fundaram
aqui uma cidade, 500 annos antes de Jesus
Christo.
O doutor João de Barros, nas suas Anti-
guidades d' Entre Douro Minho, dz que Ce-
lorico é corrupção de Celiobriga, cidade fun-
REF
dada pelos povos celerinos, e diz que Ptolo-
meu dá a esta cidade o nome de Celiobrico.
O que é certo, é que, no monte de Célhas,
perto de Curraes, se encontram vallas eir-
culares, que parece terem sido rodeadas de
muralhas, cujos materiaes teem sido apro-
veitados para construcção de muros e valla-
dos. Tambem aqui teem apparecido diversas
pedras semelhando campas de sepulturas :
tanques, bacias e outros objectos, que deno-
tam antiguidade remotissima.
Segundo a tradição, o rio de Curraes, co-
briu uns tanques ou poços, onde os antigos
tomavam banhos de aguas mineraes, que
nasciam n'este sitio.
Junto ao tal rio, e proximo ao logar onde
se diz que estavam as referidas thermas,
ainda brotam de uma penha que está sobre
o rio, aguas evidentemente sulphureas.
No monte chamado Cividade, proximo ao
logar de Chacim, se veem restos desmante-
lados, de antiquissimas fortificações; tijolos,
cavidades nos rochedos, e grandes pedregu-
lhos esphericos (penedos errantes) colloca-
dos sobre outros mais pequenos. São antas
pre-celtas.
Entre os diversos montes e onteiros d'es-
te concelho, os mais notaveis são — Nossa
Senhora da Orada, Torrinheiros, e o inac-
cessivel e medonho Nariz do mundo, na ser-
ra do Batóco. N'elles e entre outros meno-
res, rebentam muitos mananciaes de agua,
que formando varios ribeiros e arroios, re-
gam e fertilisam diferentes valles do con-
celho.
Os rios e ribeiros principaes deste con-
celho, sio— Túmega, que aqui divide a pro-
vincia do Minho da de Traz-os-Montes; mas
que não serve n'estes sitios para irrigação,
por correr profundo e arrebatado, por entre
penhascos. —O Bessa, famoso pela grandeza
e boa qualidade das trutas que se criam nas
suas aguas.
Os ribeiros chamados Rio Douro, Rânha,
Cabeceiras, Curraes e Seixo, todos regam e
moem, e todos morrem no Tâmega.
Ha neste concelho a ponte de Gavêz sobre
o Tâmega, a qual é, metade do Minho e me-
tade de Traz-os-Montes. Tinha 5 arcos, 95
metros de comprimento, 57,75 de largura, €
REF
177,50 de altura. Foi alargada, para dar pas-
* sagêm a estrada para Villa Pouca d'Aguiar,
Chaves, Miranda, etc. (Vide vol. 2.º, pag.
247, col. 2.º).
Ha tambem a ponte do Pé, sobre o ribei-
ro Cabeceiras; a do Seixo, sobre o mesmo
ribeiro; a do Árco, e uma elegante e magni-
fica, novamente construida, tambem sobre 0
mesmo ribeiro, que dá passagem à estrada
de Cavêz.
No concelho, ha varias nascentes de aguas
mineraes, ferreas e sulphurosas, sendo as
principaes, em Curraes, Fundão, Lamas é
Fontão; quasi todas em completo abandono.
O territorio d'este concelho é fertil em
optimo vinho verde, que exporta em grande
quantidade, principalmente para o Porto,
onde o vinho de Basto é muito estimado.
Produz além d'isto, e em abundancia, todos
os generos agricolas do nosso paiz; mel, cêra,
cortiça, optima madeira de castanho e outros
muitos generos. Cria muito gado, de toda a
qualidade, tem vastos montados, com gran-
de numero de arvores silvestres, de toda a
qualidade; e produz e expprta magnifica
madeira de castanho.
Tambem n'estes ultimos tempos se tem
por aqui semeado vastos pinheiraes.
É terra muito povoada e bem cultivada,
apezar da falta que se vae sentindo (aqui e
em toda a provincia) de braços para a agri-
cultura, pela progressiva emigração para O
açougue das Terras de Santa Cruz.
O clima é ameno e saudavel; e abundan-
tissimo de agua potavel, de optima quali-
dade.
REFOYOS ou REFOJOS (de Riba d' Ave)
— freguezia, Douro, comarca e concelho de
Santo Thyrso, 20 kilometros ao NE. do Por-
to, 335 ao N. de Lisboa, 185 fogos.
Em 4757 tinha 165 fogos.
Orago S. Christovão.
Bispado e districto administrativo do
Porto.
Os herdeiros de Miguel Brandão da Silva
apresentavam o abbade, que tinha 1:0002000
réis de rendimento.
Foi villa e cabeça de concelho, com justi-
gas proprias d'elle, sob o nome de Refoyos
da Maia.
REF 97
É povoação muito antiga. Tem uma sen-
tença de foral, dada pelo rei D. Diniz, a 44
de janeiro de 1307. (Gaveta 15, maço 8,
n.º 24).
D. Manuel lhe deu foral novo, em Lisboa,
no 1.º de outubro de 1513. (Livro de foraes
novos do Minho, fl. 49, v., col. 2.2).
Trata-se n'este foral das terras seguintes:
Agrella, Parada da Castanheira, 8. Gião e
Souto Longo.
Na freguezia de S. Thomé, que era do jul-
gado de Refoyos de Riba d'Ave! se achou,
pelas Inquirições do rei D. Diniz (1310) que
trez casaes eram trazidos per onrra per q
Espital e per Agous Santas, per Encenssoria.
(censo) que lhe pagarom, isto é, por censo
que os donos dos trez casaes se obrigaram
a pagar, a fim de serem onrrados e isentos
do que deviam pagar à corôa.
Foram senhores d'este concelho os Perei-
ras Forjazes, condes da Feira. Manuel Perei-
ra (com licença de D. João III) vendeu este
senhorio a Manuel Cirne da Silva, e por ex-
tineção d'estes Cirnes, passou à corôa. D. Pe-
dro II o vendeu a Roque Monteiro Paim.
Este concelho e o couto de Negréllos, fo-
ram supprimidos ha muitos annos, e unidos
ao de Santo Thyrso.
O couto de Negrélios com-
prehendia duas freguezias —
S. Mamede e S. Thomé.
É terra fertil, e cria muito gado de toda
a qualidade.
REFOYOS ou REFOJOS—freguezia, Traz-
os-Montes, comarca e concelho de Bragan-
ca, 60 kilometros de Miranda, 455 ao N. de
Lisboa. Em 1757 tinha 28 fogos.
Orago Nossa Senhora da Expectação.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
Esta freguezia foi supprimida ha muitos
annos, e encorporada na de S. Mamede, de
Alimonde.
O abbade de Alimonde apresentava o cu-
ra, que tinha 82000 réis de congrua e o pé
d'altar.
É da casa de Bragança.
1 É a actual freguezia de Negréllos, co-
marça e concelho de Santo Thyrso.
98 REF
REFOYOS ou REFOJOS DO LIMA — fre-
guezia, Minho, comarca, concelho e 4 kilo-
metros de Ponte do Lima, 30 kilometros ao
O. de Braga, 380 ao N. de Lisboa, 520 fogos.
Orago Santa Maria.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
Não vem no Portugal Sa:ro e Profano, de
certo por esquecimento, pois é freguezia
muito antiga.
Está esta freguezia sobre a margem di-
reita do rio Lima, e é aqui o pégo chama-
do Fonte da Brévia, de bastante profundi-
dade.
Grande mosteiro de conegos regrantes de
Santo Agostinho (cruzios). Foi fundado por
D. Affonso Ancemondes, intrepido capitão
das hostes do conde D. Henrique, e seu ami-
'go e inseparavel companheiro.
Morrendo o conde, em um recontro, quan-
do sitiava a cidade de Astorga (1112) veio
D. Afíonso Ancemondes para a sua quinta e
morgado de Refoyos do Lima, que é em um
valle d'esta freguezia, e aqui viveu no cas-
tello e torre, chamados dos Malheiros, por
depois pertencer aos cavalheiros d'este ap-
pellido, de Vianna do Lima.
D. Affonso Ancemondes, era rico-homem
e um grande senhor em Portugal.
Apenas se estabeleceu definitivamente no
seu solar, deu logo principio à egreja e mos-
teiro dos cruzios, dedicando-as à Santissi-
ma Virgem, e foi primeiro prior d'este con-
vento, seu filho, D. Pero Mendes, que era
arcediago da Sé de Tuy.
Principiou a obra no mesmo anno de 1142,
e em 41420 tomaram os conegos posse d'elle,
Em 1124, vindo a este mosteiro o cardeal
Jacintho, legado apostolico do papa Calix-
to II, nas Hespanhas, confirmou o fundador,
por escriptura publica, a doação que havia
feito ao convento, de todos os bens de raiz e
foros que possuia em varias partes. Esta es-
criptura foi feita em 40 de novembro da era
de Cesar 1162, que é o dito anno 1124 de
Jésus Christo.
Esta escriptura está feita e assignada por
D. Affonso Ancemondes, assignando-a tam-
bem seu filho, D. Mendo Affonso, e suas fi-
lhas, D. Maria Affonso e D. Gelvira Afionso,
REF
e seus netos, D. Mendo Gelvires, D. Diogo
Gelvires e D. Nuno Gelvires.
No mesmo anno de 1124, a rainha D. The-
reza e seu filho, D. Affonso Henriques, de-
ram o titulo de conde de Refojos do Lima,
a D. Mendo Affonso, filho de D. Affonso An-
cemondes, dando-lhe o condado que D. Af-
fonso Henriques já aqui possuia.
O conde D. Mendo casou com D. Gontina
Paes, e, não tendo filhos d'este casamento,
deram todo o seu condado e os paços em
que viviam e onde morreram, em junho de
11440, ao mosteiro dos cruzios ; sendo esta
doação confirmada por D. Affonso 1 em
agosto do mesmo anno.
O paço d'estes fidalgos, estava junio ao
mosteiro, no logar onde agora se vê a torre
antiga, em frente (para o O.) do mosteiro,
e que ainda muitos seculos depois se conti-
nuou a chamar paço. (É à tal torre, a que
hoje se chama dos Malheiros).
Na carta pela qual D. Afionso Hedriques
confirmou a doação do mosteiro e o coutou,
se lê o seguinte (traducção do latim barba-
ro d'aquelle tempo): «O condado e couto
«de Refojos, demarcado por seus termos, a
«saber — pela portella de Nogueira, contra
«Val de Vez — pela portella de S. Simão,
«contra Ponte do Lima—e do Penêdo até à
«insuella do meio do rio, com quanto den-
«tro d'estes termos tinha D. Mendo Affonso,
«etc.»
Esta confirmação está assignada pelo rei,
pelos grandes da sua côrte, pelo arcebispo
de Braga, e pelos bispos de Tuy!, Porto,
Coimbra, Lamego e Viseu.
Outras muitas pessoas ricas, doaram boas
propriedades e valiosas rendas a este mos-
teiro.
Foi o mosteiro primeiramente sujeito ao
bispo de Tuy, em cuja diocese estava; mas
o bispo d'esta cidade, D. Payo, o isentou da
jurisdição episcopal, o que foi confirmado
1 Por esta occasião, era de Portugal a ci-
dade gallega de Tuy, a qual D. Affonso I ti-
nha tomado a seu primo, o rei de Castella.
Até então, o bispado de Tuy chegava à mar-
gem direita do rio Lima. (Vide Braga no lo-
gar competente). Tendo os dois primos feito
as pazes, restituiram um ao outro o que lhe
haviam tomado.
REF
pelo cardeal Jacintho, legado apostolico, em
44 de novembro de 1154, segundo (e ulti-
mo) do pontificado de Anastacio IV.
Esta isenção foi confirmada pelos papas
Adrianno IV, em 4156; Alexandre II, em
1163; Innocencio IV, em 1250; Julio II, em |
1308; e, finalmente, por S. Pio V, em 1565.
A capella de S. João Evangelista, no logar
das Penas, d'esta freguezia, foi fundada por
D. Gonçalo João, segundo prior do convento,
em 1160, e junto à capella fez uma alberga-
ria para agazalhar peregrinos e passageiros
pobres.
N'esta capella e albergaria, viveu e mor-
reu, o santo varão Romeu, natural de Italia.
Este Romeu já aqui estava quando se prin-
cipiou a construir a capella, pelo que é pro-
vavel que fallecesse antes do anno 1200. Foi
sepultado na mesma capella; mas, em 1582,
foram os seus ossos! mudados para à ca-
pella-mór da egreja do mosteiro, com este
epitaphio :
ROMEUS HOC TUMULO TEGITUR
VIRTUTIBUS HEROS INCLYTUS;
AUSSONII GLORIA MAGNA SOLI.
(Aqui jaz, n'este tumulo, o famoso heroe
em virtudes, Romeu, grande gloria de Au-
sonia, sua patria).
No mesmo anno de 1582, foram traslada-
dos os ossos do conde D. Mendo Affonso
(que estavam em uma arca embebida em
uma das paredes da egreja velha) para a ca-
pella-mór, da egreja, do lado da Epistola,
com esta inscripção :
HOC COMITES MENDI
REQUIESCUNT OSSA SEPULCHRO,
QUI TEMPLO HUIC OMNES
IPSE DIDICAVIT OPES.
OBILT
ANNO DOMINI 1142.
1 Parte dos seus ossos, porque a outra
parte tinha sido roubada pelo povo, para
religuias, com que tinha grande devoção.
Os frades, vendo esta pia profanação, e que
em poucos annos não restaria um só osso
o santo, Os levaram para a egreja do mos-
eiro.
REF 99
(N'esta sepultura descançam os ossos do
conde D. Mendo, que doou a esta egreja to-
das as suas riquezas. Falleceu em 11442).
Ignora-se o caminho que levaram os ossos
de D. Affonso Ancemondes.
Os priores do mosteiro, foram perpetuos,
desde a fundação d'este, até 1564, em que
se annexou ao de Santa Cruz, de Coimbra.
O ultimo prior-mór perpetuo, de Refojos, *
foi D. Julião d'Alva, que passou a bispo de
Miranda; e o primeiro prior trienal, nomea-
do pela congregação de Santa Cruz de Coim-
bra, foi D. Theotonio de Mello, irmão do
monteiro-mór de Ponte de Lima.
José Avellino d' Almeida, no seu Dicciona-
rio abreviado de geographia, diz que D. Men-
do e sua mulher, como não tivessem filhos,
doaram o condado ao convento, e de todos
os seus bens, só reservaram para si a tor-
re e castello em que vivia seu pae, juntamen-
te com o paço e alguns bens livres em volta
delle, do que depois se compoz o morgado dos
Ferrewas, de Guimardes, que lhes vem pelos
Pereiras, de Bertiandos: o de Antonio Perei-
ra Rego e o da Torre, que possuiu Diogo Ma-
lheiro.
Estou persuadido que é engano: é certo
que a torre dos Malheiros e o seu morgado
passaram ao dominio de particulares; mas,
provavelmente, muito depois de 1140, e por
troca; compra, ou outro qualquer contracto
cuja natureza ignoro. Fundo-me em que na
inscripção tumular do conde D. Mendo se
diz, que elle doara ao mosteiro todas as suas
riquezas (qui templo huic omnes ipse didi-
cavit opes.) Se elle lhes não tivesse dado.
tudo, certamente os frades não .o diriam.
Atorre dos Malheiros, ou do Paço, foi o so-
lar dos Refoyos, descendentes por linha co»
lateral, do conde D. Mendo.
Teve D. Mendo um filho bastardo, cha-
mado Martim Garcia de Parada, e uma filha,
tambem bastarda, que casou com Salvador
1 O penultimo prior-mór, foi S. Carlos
Borromeu. Passou o priorado a D. Julião
d'Alva, pela renda annual de 500 cruzados
(2008000 réis).
100 REF
Gonçalves, filho de Gonçalo Dias, o Gid, se-
nhor de Góes. D'estes filhos bastardos des-
cendem os Farinhas, os Mouras, e outras fa-
milias nobres de Portugal e Galliza.
Quanto ao appellido de Refoyos, já fica
mencionado no artigo Refoyos de Bastos,
para onde remeto o leitor.
“O dono actual da quinta da Torre, e o sr.
dr. Antonio de Magalhães Barros d' Araujo
Queiroz, da villa de Ponte do Lima. A tor-
re, que é muito alta, está perfeitamente con-
servada, porque o sr. Queiroz lhe mandou
arrancar as heras que a cobriam quasi até
ao cimo, lavar a pedra e tomar-lhe com cal
todas as juntas, a fim de conservar este mo-
numento historico. Os paços acastellados que
cercavam a torre estão completamente des-
mantelados, e o sr. Queiroz vae mandal-os
demolir, e no seu ambito fazer um terraço
e jardins, que ficarão superiores á quinta,
porque a torre está em uma eminenciá no
centro d'ella.
Os bens que os Malheiros aqui possuiram
(os que reservaram da doação ao mosteiro)
pertenciam, na sua maior parte, no meiado
do seculo 47.º, a Lopo Malheiro Barriga,
que os herdou de seu tio, Diogo Malheiro
Marinho. e os constituiu (o Barriga) em
vinculo, por escriptura de 29 de agosto de
1648.
Esteve o vinculo sempre n'esta familia até
que a ultima descendente della, D. Maria
Antonia Malheiro d'Araujo Barriga, falleceu
na sua casa e quinta da Ribeira, freguezia
de Figueiredo, comarca e concelho d'Ama-
res, no dia 3 de janeiro de 1875, instituindo
por seu herdeiro universal, seu primo co-
irmão, o sr. Leonel d'Abreu Lima, solteiro,
da casa do Ameal, freguezia de Meadella,
concelho e proximo da cidade de Vianna.
Foi este cavalheiro, que, por escriptura
publica de 30 de maio de 1876, doou a quin-
ta da Torre e suas dependencias, ao actual
possuidor, o sr. Queiroz.
Quando o convento se annexou ao de Santa
Cruz, de Coimbra, estava a egreja e mos-
teiro, que ainda eram os primittivos, em
grande ruina. Quizeram os frades mudal-o
para Ponte do Lima; porem o povo d'esta
REF
villa se oppoz tenazmente, e o mosteiro foi
reedificado onde estava.
" No tempo do marquez do Pombal, ven-
deu-se o mosteiro, passando os frades para
o convento do Mafra; mas D. Maria I, os
tornou a pôr no seu antigo mosteiro.
Ha na egreja um espinho da corôa de
Christo, que os frades eram obrigados a le-
var à Ponte do Lima no dia 3 de maio de
cada anno.
Foi commendatario do couto de Refoyos
do Lima, D. Rodrigo de Mello de Lima, fi-
lho 2.º de D. Leonel de Lima, 1.º visconde
de Villa Nova da Cerveira.
D. Rodrigo era tambem senhor da casa de
Anquião, e a deu em dote a sua filha, D. Joan-
na de Mello, para casar com João Gomes de
Abreu, filho, tambem segundo, de Leonel de
Abreu, senhor de Regalados. D'elles proce-
dem muitas familias nobres do Minho.
Tem annexa a freguezia de Santa Eulalia,
que em 1757, tinha 90 fogos, e era apresen-
tada pelo bailio de Leça. O reitor tinha 1004
réis de rendimento.
Não sabia o que era feito do mosteiro
d'esta freguezia, nem o seu estado presente.
Vali-me do sr. dr. Custodio Maria Vel-
loso, de Villa do Conde, que escreveu ao seu
amigo e condiscipulo, o sr. dr. José Joaquim |
de Castro Feijó, de Ponte do Lima, e eis as
informações que este cavalheiro se dignou
dar-nos.
O corpo do edifício do mosteiro, conserva
a primittiva architectura. Está ligado à egreja
pelo que foi sala de visita dos conegos. A
frontaria d'esta parte era irregular, destoan-
do a parte que era interiormente occupada
pela dita sala, do resto até à egreja. O pro-
prietario actual, apeou parte da frontaria
d'este lance, que liga o corpo principal do
edificio, à egreja, e a mandou construir em
symetria com a parte que constituia a fron-
teira da referida sala de visitas, e fez n'esta
parte um optimo salão de baile.
No corpo do edificio, tem conservado to-
das as suas antigas divisões e repartimentos,
limitando-se apenas aos precizos reparos.
REG
Todo o edificio está muito bem conser-
vado, e, em parte, muito melhorado.
O mosteiro e cêrca, assim como alguns
campos da sua dependencia, foram vendidos
pelo governo, depois de 1834. Comprou-os
por 48 contos de réis, José Mendes Ribeiro,
da cidade de Vianna. Tudo isto é actual-
mente propriedade de seu filho, o sr. Thomaz
Mendes Norton, residente em Ponte do Lima.
A cérca, que é hoje uma bella quinta, tam-
bem estã muito melhorada.
A egreja e sachristia pertencem à junta
de parochia, de Refojos, por ser parochial, e
a melhor do concelho. Está perfeitamente
conservada, e com esmolas dos fieis, e com
ajuda do cofre da bulla da Santa Cruzada,
se construiu ha pouco tempo uma elegante
torre para Os sinos.
REFUGIDOS — aldeia, Extremadura, na
freguezia de Cadafaes, comarca e concelho
d'Alemquer (vol. 2.º, pag. 27, col. 4.2) Tem
J2-fogos.
A origem do nome desta aldeia, tem sido
causa de varias contestações; mas é opinião
mais corrente, que é porque para aqui se
retiraram os mouros, depois de perderem o
castello d'Alemquer.
A primeira noticia que se encontra d'esta
povoação, refere-se aos grandes prejuizos
que sofíreu com as chuvas e 0 terramoto de
1435. Já então esta povoação era muito an-
tiga, pois que os historiadores dizem que a
cheia levou a azenha dos Refugidos que se
andava reedificando. Ainda ha vestigios d'es-'
ta azenha, proximo à povoação.
Os francezes saquearam esta aldeia, em
1808, e assassinaram um lavrador, crivan-
do-o de feridas, no sitio chamado Pedra da
Paciencia, onde foi encontrado por seus fi-
lhos, depois da retirada dos invasores.
Foi natural desta aldeia, frei Manuel dos
Refugidos, frade capucho, e prégador famo-
so, no reinado de D. João IV.
Refugido, é portuguez antigo —significa re-
fugiado.
RÉGA—portuguez antigo — regra, ou in-
stituto (de qualquer ordem monacal.) —Man-
dou ao Moesteiro do Banho, que era da Rega
de Santagostinho da sobrepsliza, etc. (Docu-
mento da Sé de Viseu.)
VOLUME VII
REG 1014
REGADAS —freguezia, Minho, comarca e
concelho de Fáfe (foi da comarca de Celo-
rico de Basto) 36 kilometros ao N. E. de
Braga, 375 ao N, de Lisboa, 180 fogos. Em
1757, tinha 189.
Orago Santo Estevam.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O prior do convento da Graça, em Braga,
(Populo) apresentava o reitor, que tinha
802000 réis de pé d'altar.
É terra fertil. Gado e caça.
REGAENGO—Vide Reguengo.
REGALADOS— Vide Pico de Regalados.
REGALEIRA (quinta da)—Extremadura,
na freguezia de Cintra.
Pertenceu antigamente a um padre, que
lhe mandou pôr, na rua principal, as cruzes
da Via-Sacra, as quaes ainda se veem por
entre musgosos penedos, e arvores frondo-
sas. É abundante de aguas crystalinas e fri-
gidissimas. Tem uma rica e formosa: casca-
ta, e preciosos marmores. Os seus prados
sempre verdes, e todas as mais formosuras da
natureza e da arte, tornam esta quinta uma
das mais bellas e agradaveis d'estes sitios.
Para o lado da estrada dos Pisões, tem
um gigantesco castanheiro da India, uma
das notabilidades de Cintra.
Em 7 de novembro de 1840, foi feita ba-
roneza da Regaleira, a sr.: D. Ermelinda
Monteiro d'Almeida: e, em 145 d'abril de
1854, foi feita viscondessa do mesmo titulo;
e, no mesmo dia feita baroneza da Regalei-
ra, à sr.* D. Maria Isabel Allen Palmeira:
Em 25 d'abril de 1854, foi feito barão do
mesmo titulo, o sr. Paulo Allen de Moraes
Palmeira.
REGALENGO—Vide Reguengo.
REGALINDO — Vide Reguengo.
REGANHO — portuguez antigo — Vento
norte. |
REGARDAR — portuguez antigo — talvez
herdado dos gallos-celtas.—É gallicismo an-
tiquissimo—significa, voltar os olhos; olhar
para traz. É corrupção do francez regar-
der.
REGATO-— ribeiro, Douro, na freguezia de
Avô, comarca da Tábua, concelho d'Oliveire
do Hospital.
7
102 REG
Bispado e districto administrativo de Coim- :
J
|
|
bra.
Nasce junto à Aldeia das Dés (freguezia
do mesmo concelho) e desagúa na ribeira de
Loriga, acima da Ponte das Tres Estradas.
REG
O seu desmantellado castello, foi redifi-
cado pelo rei D. Diniz.
Era a egreja, collegiada, a qual cm a
extincção dos dizimos, em 4834, deixor de
existir. Tambem desde o mesmo anno dei-
Já a pag. 284, col. 2.º do 1.º vol. tratei da | xou de haver aula de latim. «
villa d'Avô; mas, como desde que escrevi
aquelle artigo (1841) tem havido alterações
na divisão territorial, direi aqui.
O concelho d'Avô, foi supprimido pelo de-
creto de 24 de outubro de 1855.
A villa não fica ao N., mas ao E. de Coim-
bra. É situada em um profundo e ameno
valle, e é tripartida pelos rios Alva e Poma-
res. Alem da ponte de que fallei no 4.º vol.,
tem sobre o Pomares uma de madeira, cha-.
mada de Santo Antonio, que foi antigamente
de pedra, e é na confluente dos dois rios.1
Dista a villa, 9 kilometros de Oliveira do
Hospital, e fica a egual distancia das villas
de Penalva d'Alva e de Côja: 12 da villa da
Tábua; o mesmo de Midões e 21 de Fajão e
de Loriga.
Teve capitão-mór, e juiz ordinario, com
jurisdicção tanto no civil como no crime e
orphãos. Tinha casa da camara, vereadores,
etc.
Pela povoação de Gallizes, que dista 3 ki-
lometros d'Avô, passa a estrada real de Coim-
bra e Lisboa para a cidade da Guarda, vil-
las de Celorico da Beira, Almeida, etc.; de
maneira que de Avô se póde hir por Coim-
bra para Lisboa ou directamente, separan-
do-se da estrada de Coimbra na Venda No-
Ya, junto a Santo André de Poyares.
O foral que D. Sancho I deu a Avô, é da-
tado do 4.º de maio de 1187.
A D. Urraca Affonso, de que fallo no 4.º
vol., filha bastarda de D. Affonso Henriques,
foi casada com D. Pedro Affonso, neto do
grande D. Egas Moniz. Supponho que não
tiveram filhos, pois que o senhorio da villa
passou para os bispos de Coimbra, que eram
alcaides-móres della.
1 Em setembro de 1878, uma furiosa cheia
destruiu esta ponte e outras mais d'estes si-
tios, e causou grandes prejuizos aos pro-
prietarios de Avô e povoações limitrophes,
arrazando-lhes algumas casas, muros e cam-
pos.
Houve n'esta villa um mosteiro de em-
plarios, do qual ainda ha vestigios: sã os
cubiculos ou eellas onde viviam os frades,
e existem proximo à capella, que foi a egreja
do mosteiro.
Braz Garcia Mascarenhas, de que fall no
1.º vol., tratando d' Avô, foi, no tempo é D.
João IV, governador da praça de Alfaiates, no
Riba-Côa, então muito importante, por ser
proxima da raia de Hespanha.
Os 150 homens com que se apresentor em
defeza da patria, em 1640, eram de cavilla-
ria, e pela bravura com que se portaram
durante a guerra, foram cognominados os
leões da Beira.
REGAVÃO —rio, Traz-os-Montes, na co-
marca e concelho de Montalegre. Tem a sua
origem ao S. do logar de Codeçoso da Chan
(freguezia de Meixêdo) e tomando uma di-
recção tortuosa, pelas planicies da freguezia
da Chan, recebe pela margem direita, junto
ao logar de Negrões, o ribeiro da Castanheira,
e da esquerda, o riacho de Morgade. To-
mando depois uma direcção quasi de E. a
O., e tendo recebido varios ribeiros que se
lhe juntam por ambas as margens, atravessa
as freguezias de Villa da Ponte, e Punêras,
abaixo da celebre e legendaria ponte da Mi-
sarella (vide Misarella, ponte da) depois de
receber o rio da Ponte do Arco, a 6 kilome-
tros da Misarella.
O seu curso é de 42 xeilontero:
Rega, móe, e cria muito peixe miudo, de
boa qualidade.
Alguns tambem dão ao Regavão o nome
de rio da Misarella, e outros, rio da Villa da
Ponte.
O valle cortado por este rio, principia em
Codeçoso e finda nos pe dinda de Mi-
sarella.
É dominado (o valle) ao N., pela cordi-
lheira que corre ao 8. do Cávado, chamada
Peliteiros, Penedos de Santa Catharina,ete.,
até à Roca Ponteira. Ao S., pela serra das
10
REG
Alturas, desde Morgade até ao ribeiro da
Ponte do Arco, e depois por um ramo da
serra da Cabreira, que, aproximando se de
outro ramo da referida cordilheira, fórma 0
pittoresco sitio da Misarella.
Ao N. do rio ficam as freguezias da Chan,
' Viade, Fervidellas, e Reigoso; e ao S. as de
Morgade, Negrões, Villa da Ponte, Pondras,
-e Venda Nova.
No angulo formado pelos rios Cávado e
Regavão, ficam as freguezias de Santa Mari-
“nha do Ferral, e Covêllo do Gerêz. (Vide
Montalegre.)
REGEDOURA ou NOGUEIRA DA REGE-
DOURA-— Esta freguezia já fica descripta com
o 2.º nome, a pag. 108,- col. 4.º do 6.º volu-
me, mas aproveito este logar para fazer uma
rectificação. -
Não é na freguezia da Regedoura, conce-
lho da Feira, que se fabrica optima telha;
mas na aldeia da Regedoura, freguezia de
Vállega, concelho d'Ovar—a seguinte.
Tambem depois de publicado o artigo de
Nogueira da Regedoura, tive noticia do fa-
cto notavel acontecido n'esta freguezia em
1873; é o seguinte :
Em 41847 nasceu n'esta freguezia uma
creatura da especie humana. Foi baptizar-se
à egreja matriz, e o parocho, que era velho
- e falto de vista, como alguem lhe dissesse
“que a creança era hermafrodita, a examinou,
decidindo que era fêmea, e a baptisou, im-
pondo-lhe o nome de Rosa.
Foi esta creada como pertencendo ao sexo
feminino, e nas occupações proprias de uma
menina; mas, chegando aos 16 annos, deu
taes mostras de pertencer ao sexo barbado,
que os paes a mandaram vestir de homem,
-e principiaram a dar-lhe o nome de Joa-
quim.
Tudo correu bem até 1871; mas n'esse
-anno a ex-Rosa namora-se de certa menina
e pretende casar com ella, sob nome de Joa-
“quim com que seus paes (d'elle) o tinham
chrismado, auctoritate qua fungor. Era-lhe
. precisa a certidão de edade, mas era cousa:
, que não havia no livro dos baptismos.
Expoz-se o caso ao doutor provisor, que,
“depois de sério exame, mandou que se la-
vrass9 novo assento, dando ao bi-sexual o
REG 403
nome de Joaquim, e ao seu proprietario os
foros de homem; mas não auctorisou o ca-
samento sem que o nodente se submetesse
a um exame, na escola medico-cirurgica do
Porto, a qual decidiria sobre o sexo do pre-
tendente.
Como tudo isto demandava despezas, e
sobretudo demoras, a que os futuros noivos
se não queriam sujeitar ; foi elle viver ma-
ritalmente com a rapariga, para casa d'esta
(setembro de 1873) e lá esperam a decisão
dos homens competentes.
Regedoura, é portuguez antigo —significa
regedoria. Os nossos avós diziam sempre
oura, por orta; e isto ainda acontece em
grande parte do Algarve.
Outro caso muito semelhante aconteceu
na aldeia do Reguengo, freguezia de Gui-
sande, do mesmo concelho da Feira. Vide q
1.º Reguengo.
REGEDOURA— aldeia, Doc na freguezia
de Vállega, comarca e concelho d'Ovar.
É celebre pela optima telha que aqui se
fabrica, a melhor do reino. O barro para ella
vem das proximidades da capella de Nossa
Senhora d'Entr'aguas, Gondes, Ribeira de
Mouro e outros sitios proximos.
"Tambem na Fontella, aldeia-da freguezia
d'Avanca (e não de Pardilhó, como por mal
informado disse no artigo desta freguezia)
e que fica uns 6 kilometros a E. do Oceano,
ha barro da mesma qualidade, com o qual
se fabrica telha egual à da Regedoura, que
fica apenas a 6 kilometros de Fontella, pela
que tanto faz (para a qualidade) dizer telha
da Regedoura, como da Fontella, pois o bar-
ro é todo extrahido da mesma zona.
Nos sitios onde se extrahe o barro, tem
por vezes apparecido restos de navios, en-
tergados na argilla.
REGEDOURO ou RECIDOURO—freguezia,
Alemtejo, comarca, concelho, districto admi-
nistractivo, arcebispado e 15 kilometros de
Evora, 115 ao S.E. de Lisboa, 50 fogos.
Em 1757, tinha 78 fogos.
Orago S. Braz.
A miltra apresentava o cura, que tinha de
rendimento 390 alqueires de trigo, e 73 de
cevada.
É terra muito fertil em cereaes, e produz
104 REG
algum azeite, e outros fructos.
caça. deb
REGEITAR, ARREGEITAR e REZEITAR
—portuguez antigo, ainda usado nas comar-
cas d'Arouca, Sinfães, e outras do norte do
Douro—significa, atirar, arremeçar, empur-
rar, impellir, etc.
Gallicismo antiquissimo em Portugal, tal-
vez herdado do gallo-celta. É corrupção do
verbo francez rejeter, que tem a mesma si-
gnificação.
De rejeter ainda nós fizemos o verbo re-
jeitar, que tambem significa (como no fran-
cez) —engeitar, recusar, lançar fóra, etc.
REGILDE — freguezia, Douro, comarca e
concelho de Felgueiras (foi da comarca de
Lousada, concelho de Barrosas) 30 kilome-
tros ao N.E. de Braga, 355 ao N. de Lisboa,
170 fogos.
Em 1757, tinha 130 fogos.
Orago Santa Comba.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
3008000 réis de rendimento.
É terra fertil. Cria muito gado bovino, que
exporta, sobre tudo, para Inglaterra.
RÊGINAL—portuguez antigo— Original.
REGNO — portuguez antigo —reino. Pro-
nuncia-se renho.
RÊGO-—freguezia, Minho, comarca e con-
celho de Celorico de Basto, 36 kilometros ão
N.E. de Braga; 370 ao N. de Lisboa, 500 fo-
gos.
Em 1757, tinha 281 fogos.
Orago S. Bartholomeu, apostolo.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O D. abbade benedictino-do convento de
Pombeiro, apresentava o vigario, que tinha
304000 réis e o pé de altar.
É terra fertilissima em todos os generos
agricolas do paiz, e produz optimo vinho,
denominado de Basto. Cria muito gado de
toda a qualidade, que exporta, e nos seus
montes ha muita caça.
Posto que o seu clima seja bastante exees-
sivo, é muito saudavel.
Rêgo, é um appellido nobre em polida
Nos registos de D. Fernando 1, se faz men-
Gado e
REG
ção de Gonçalo Vasques do Régo, seu vas-
sallo, ao qual deu uma us na Ribeira de
Loures.
D. João I armou cavalleiro, na batalha de
Aljubarrota, a Alvaro do Rêgo.
Parece que este appellido foi tomado da
aldeia do Rêgo, na comarca de Guima--
rães.
Trazem por armas—em campo verde,
banda de ondas d'azul e prata, carregada de
3 vieiras, de ouro, realçadas de negro: êlmo
de aço, aberto; e por timbre, uma das viei-
ras do escudo, entre duas plumas de verde,.
guarnecidas d'ouro.
REGO DA MUATA-—freguezia, Extrema-
dura, comarca de Figueiró dos Vinhos, con-
celho d'Alvaiázere, 48 kilometros ao S. de
Coimbra, 195 ao N. de Lisboa,
Em 41757, tinha 198 fogos: hoje, com a
freguezia de Cabaços que lhe está annexa,
conta 250 fogos.
Orago S. Pedro ad vincula.
' Bispado de Coimbra, districto administra-
tivo de Leiria.
(Vide Cabaços, ou Rêgo da Murta, no 2.º
vol. pag. 6, col. 1.:-para evitarmos repeti-
ções). -
Fica junto da ribeira da Murta, onde se
vé um templo de tres naves, de construeção
tão antiga, que se ignora quando foi funda-
do, e só se sabe que ainda existia em 1159.
Segundo a Chronica dos religiosos domi-
nicos, por o nosso famoso classico, frei Luiz
de Sousa, esta egreja era de um mosteiro da
sua ordem, pois na parte 4.º, livrp 4.º, cap.
6.º, diz: — Entre Leyria e o Beco, ha huma
Igreja de tres naves, cercada de edificios ar-
ruinados, em que ainda hoje se enxergão si-
naes de claustros, e oficinas grandes. Cha-
mão-lhe Mosteyro, e persevéra a tradição
que foi nosso.
Apesar do respeito devido a tão esclare-
cido escriptor, não me persuado que este
mosteiro fosse da ordem dos prégadores,
pela simples razão de ser instituída muitos
annos depois de não existirem senão as rui-
nas do mosteiro. É mais provavel que fosse
de templarios. É verdade que no altar-mór
se vê a imagem do patriarcha S. Domingos,
fundador da ordem dos prégadores, mas po-
REG
“dia alli ser collocada muitos seculos depois
de já não existir o mosteiro.
Na doação que D. Affonso I fez aos caval-
leiros do Templo, em 1159, se inclue o mos-
teiro do Rêgo da Murta. Vê se que já exis-
tia, e é provavel que fosse fundação dos
monges benedictinos, e que estivesse aban-
donado pelos frades, fugidos às crueldades
dos mouros.
RÉGUA — villa, Traz-0s-Montes, etc.
Posto que está villa já fique descripta a
pag. 698, col. 4.2, do 6,º vol., refiro-me alli
mais ao Pêso, que lhe fica sobranceiro, e a
“cousa de um kilometro ao N., do que á villa
da Régua, propriamente dita. É por isso que
no artigo Pêso da Régua, remetti o leitor para
este logar.
A Régua teve principio em 1700, na mes-
quinha choupana de um pobre pescador,
por isso cognominado o Cabana.
Em 41790, a companhia dos vinhos aqui
mandou construir os seus armazens, e tama-
nho desenvolvimento teve o commercio dos
vinhos do Alto-Douro, que em 1820, o valor
das vendas d'este genero, somava em perto
de oito milhões de cruzados! Foi isto que
fez prosperar, enriquecer, e dilatar-se a po-
voação até ao Pêso, de maneira que hoje
formam as duas, uma só villa, unida e con-
tinua.
Tem um bom caes, feito pela companhia
dos vinhos, e as casas são regulares e de boa
apparencia, distinguindo-se as da compa-
nhia dos vinhos, a do sr. Osorio (proximo à
egreja) e a dos viscondes do Real-Agrado.
O palacio da sr.* D. Antonia Adelaide Fer-
reira, viuva de Antonio Bernardo Ferreira
(o Ferreirinha) e hoje casada em segundas
nupcias, com o sr. Francisco José da Silva
Torres, é um edificio vasto e muito elegante,
Nas suas proximidades, ha casas de campo
de bella apparencia.
sem
O conde D. Henrique e sua mulher, D. The-
reza, deram a D. Hugo, seu companheiro, e
bispo do Porto, muitas terras destes sitios,
e metade do rendimento da barca da passa-
gem.
Os bispos do Porto, fizeram deste senhô-
REG 105
rio um couto, do qual tiveram a jurisdicção
civil, até 1789.
Pela extincção do couto, foi a Régua (o
Pêso da Régua, entende-se) elevada à cathe-
goria de capitania de ordenanças; e em 1835,
à de cabeça de julgado e comarca.
O antiquissimo templo de S. Faustino,
unico edificio que existia na Régua antes de
1700, e que era matriz do Pêso, estava já
muito arruinado, e em 1734, uma grande
cheia do Douro, arrazou-o. Hoje, no logar
que elle occupava, estã a capella de Nossa
Senhora do Cruseiro.
Tem praça (mercádo) diario, onde se ven-
dem legumes, pão, fructas, e outros generos;
e uma feira mensal, muito concorrida.
Proximo à Régua, é o formoso valle de
Godim, povoado de lindas casas e assombra-
do de frondoso arvoredo.
Os armazens da Régua, podem recolher
14:000 pipas de vinho, aguardente, geropiga
e vinagre.
A Régua é patria do nosso distintissimo
poeta, o sr. João de Lemos Seixas Castello-
Branco, e de seus irmãos. Vide Real-Agrado.
Fundou-se aqui um hospital de caridade,
cujos estatutos foram approvados pelo go-
verno, em 5 d'agosto de 4873. O sr. Manuel
Teixeira da Costa, de Covellinhas, deu para
elle, 16 leitos de ferro, com os competentes
enxergões, colchas e fronhas. Bem haja.
A inauguração d'este hospital, foi no dia
16 de novembro do dito anno (em um do-
mingo.) Deram-lhe o titulo de hospital de
D. Luiz I:
Foi um dia de grandes festas e geral re-
gosijo para o povo da villa e immediações.
Todas as despezas d'esta esplendida solemni-
dade foram à custa dos cavalheiros da di-
recção do hospital.
O sr. D. Luiz I, deu para as obras, 5008000
réis. A casa é elegante e de boas dimensões
para o seu movimento.
Os bemfeitores que maiores esmolas de-
ram para esta obra de caridade, alem do sr.
D. Luiz, foram os srs. Joaquim de Almeida
Soares, Francisco da Costa Guilherme, Ma-
nuel Teixeira da Costa, José Custodio Mon-
teiro, e Manuel José d'Oliveira Lemos.
106: REG
Este ultimo é o dono da casa do hospital,
e a arrendou á commissão por 808000 réis
annuaes.
Em 24 de setembro de 1875, teve logar à
inauguração do caminho de ferro, pelo sys-
tema americano, da Régua a Villa Real. Em
razão dos accidentes do terreno, os carros
eram tirados nas subidas, por bois. Não deu
resultado : fui dinheiro perdido, pela com-
panhia transmontana, que, todavia, merece
elogios pela sua tentativa.
Em 5 de novembro de 1875, falleceu no
Péso da Régua, Francisco Guedes Leite, fi-
lho do ultimo capitão-mór d'esta villa, José
Guedes Leite. Eram dois homens de bem, e
porisso geralmente estimados e respeitados.
Francisco Guedes Leite, deixou irmãos, e
uma filha unica, a sr.* D. Maria Bernarda
Guedes Leite, a todos os respeitos dignis-
sima descendente de tão nobres progenito-
res.
Leite, é um appellido nobre em Portugal.
Foi tomado da alcunha imposta a Alvaro Pi-
res, no reinado de D. Affonso IV. — As armas
d'estes Leites, são—em campo verde, 3 flo-
res de liz, douro, em roquete—êlmo d'aço,
aberto, e por timbre, uma das flores de liz
das armas.
Outros Leites, trazem as flores de liz em
campo azul, e por timbre, uma pomba bran-
ca, com as azas abertas, e com um ramo de
ouro no bico.
Outros usam as armas antecedentes, mas
por timbre, a cruz dos Pereiras, entre duas
flores de liz, d'ouro.
Os Leites Pereira, são um ramo dos Lei-
tes, que se aparentou com os Pereiras, do
Porto.
Estes teem por armas—escudo esquartel-
lado, no 4.º e 4.º as armas primeiras dos
Leites, e no 2.º e 3.º, de púrpura, uma cruz
de prata, floreada e vazia do campo : élmo
d'aço, aberto, e por timbre—a cruz das ar-
mas, entre duas flores de liz, verdes.
“Ainda outros Leites Pereiras trazem—es-
cudo esquartellado, no 4.º e 4.º as armas
primeiras dos Leites, e no 2.º e 3.º, de ver-
de, cruz potenteia, de púrpura e vazia de
REG.
prata. O mesmo êlmo, e por timbre, a cruz
das armas, entre duas flôres de liz, d'ouro.
Em janeiro de 1876, falleceu, na sua casa
do Extremadouro, freguezia de Fontellas»
proximo a esta villa, com 100 annos de eda-
de, D. Maria Delfina da Cunha Leite Pereira
de Vasconcellos, mãe do antigo deputado e
governador civil, o sr. Antonio Felisberto da:
Silva e Cunha, e avó do sr. Eduardo Pinto
da Silva e Cunha, empregado superior do
ministerio do reino, e tambem antigo depu--
do. Eram bisnetos d'esta senhora, o sr. Je-
ronymo Pimentel, que tambem tem sido de-
putado, e o sr. Henrique da Cunha, secreta-
rio geral do governador civil d'Evora.
D. Maria Delfina, descendia, por seu pae,
da illustre familia dos Cunhas, de Provezen-
de, que hoje-é representada pelo sr. Jero-
nymo Pimentel. Por sua mãe, descendia da
nobilissima familia dos Leites Pereiras de
Mello, de Campo-Bello, e dos Homens Carnei-
ros de Vasconcellos, de Atães.
Era viuva de Luiz da Silva Pereira de
Oliveira, socio da academia real das scien-
cias, corregedor de Miranda do Douro, e
auctor da obra intitulada—pRIVILEGIOS DA -
NOBREZA E FIDALGUIA DE PORTUGAL, livro
muito apreciado, e hoje ráro.
Deixou numerosa descendencia — filhos,
netos, bisnetos, e terceiros netos, espalhados
por quasi todas as provincias de Portugal,
e até por paizes estrangeiros.
A Régua prineipiou a ser iluminada, com
azeite de purgueira, em fevereiro de 1876.
Ha n'este concelho minas de ferro, chum-
bo, estanho, cobre e outros metaes.
Em dezembro de 1876, tendo a compa-
nhia transmontana liquidado, uma comjpa-
nhia suissa requereu ao governo portuguiez»
licença para ensaiar na linha americana, uma
locomotiva a vapor, apropriada e fabricada
para subir fortes rampas e pequenas curvas»
descer, adiantar, retrogradar, e parar, com
toda a facilidade. A experiencia deu soffri-
vel resultado; mas nunca mais se fallou «em
semelhante cousa, até 25 de julho de 18:77.
REG
Neste dia, a companhia transmontana fez
nova experiencia com outra logomotiva a
vapor, que andou 5 kilometros em 28 mi-
nutos, sem o minimo accidente desagrada-
vel; Assistiu o director das obras publicas | A quinta dos Vergonças, na
do districto, é grande concurso de povo.
A experiencia fez-se entre a Régua, e a
povoação de S. Gonçalo de Lobrigos.
Ao sahir da estação da villa, ha uma su-
bida, com curvas de pequeno raio, e ram-
pas bastante fortes. A locomotiva subiu e
desceu as rampas, e passou as curvas sem
dificuldade, parando, avançando e retrogra-
dando à vontade dos machinistas.
Deus dé coragem á companhia transmon-
tana para levar a effeito um emprehendi-
mento de incontestavel vantagem para os
povos d'esta provincia.
Para se fazer uma ideia aproximada do
valor da casa do famoso Ferreirinha, da Ré-
gua, julgo curioso resumir aqui o valor do
que importaram as propriedades de seu fi-
lho, o sr. Antonio Bernardo Ferreira, na
avaliação a que se procedeu no inventario,
por fallecimento de sua esposa, D. Antonia
Candida Ferreira, em setembro de 1877. —
Eil-o :
Cinco moradas de casas na
Dgihan do ss cisso is é 22:8168200
Uma casa terrea, no caes ia
mesma villa... .......... 1:0398600
Quatro armazens na mesma
Mugabe Si Sead 6:6083800
A quinta das Diabas (!) nos
limites da mesma villa... 12:422,8000
A quinta o Vallado, em Villa-
rinho de Freires......... h7:6048000
A quinta de Villa-Maior, em
Lobiigos tis im os. 28:1948000
A quinta do Rôdo, em S, José
de Godim............... h2:844 8000
A quinta Nova do Rôdo, na
mesma freguezia de Godim. 4:7808000
Um campo no Rôdo, da mes-
ma freguézia.. 0. .5..0; 2402000
A propriedade do Rechão de
Cima, na ribeira do Rôdo,
da mesma freguezia,..... - 2708000
REG 107
A vinha dos Lameiros, na
mesma freguezia..... pgs 003000
A vinha das Mirouços, na
mesma freguezia......... 8003000
| freguezia de Lobrigos.... 9:6328000
Montee pinhaes do Maurinho,
na freguezia do Loureiro. 3:002,3900
Somma...... 180:2833500
Note-se que aqui não entram moveis nem
semoventes, nem tudo quanto o sr. Antonio '
Bernado possue na cidade do Porto. E no-
te-se, principalmente que a herança do Fer-
reirinha foi dividida pela sua viuva, pela
sr.* condessa da Azambuja, sua filha e pelo
referido sr. Antonio Bernardo Ferreira.
A exportação dos vinhos do Alto Douro,
pela Régua, para o Porto e de lá para todo
o mundo, antes do oidium e do philoxera,
valia, termo medio, SETE MIL CONTOS, annual-
mente.
Mas o Douro está ameaçado por estes dois
flagelos, e se forem no espantoso progresso
e horrivel desenvolvimento em que tem hido
ha alguns annos, ai dos proprietarios do
Alto Douro, que ficarão, na sua maior parte,
reduzidos a uma espantosa miseria, que re-
flectirá terrivelmente no commercio e in-
dustria do Porto, aos quaes os vinhos do
Douro davam um poderosissimo impulso.
Custodio José Vieira
Nºesta villa nasceu, a 27 de março de 1822,
filho de paes remediados de bens da fortuna,
o sr. Custodio José Vieira.
Depois de fazer exame de preparatorios,
matriculou-se no 1.º anno juridico, na uni-
versidade de Coimbra, em outubro de 1843.
Em 1846, tomou parte na guerra deno-
minada Maria da Fonte ou patuleia, sendo
um dos bravos defensores da causa popular.
O general, Bernardo de Sá Nogueira, então
visconde de Sá da Bandeira ! nomeou-o com-
1 Tinha sido feito barão de Sá da Bandei-
ra, em 4 d'abril de 1833: visconde do mes-
mo titulo, no 4.º de dezembro de 1834. Foi
feito marquez em 13 de fevereiro de 1864.
108 REG
“missario-civil de uma das tres cireumscri-
pções em que então dividiu o Algarve.
Terminada a guerra, pela intervenção es-
trangeira que produziu a convenção de Gra-
mido, continuou os seus estudos, tomando O
grau de bacharel em direito no anno de
1849.
Em 1848 estreou-se como jornalista, no
jornal republicano o Ecco popular, de que
era proprietario o livreiro já fallecido, José
Lourenço de Sousa. !
Passou depois a ser um dos principaes
redactores do Nacional, que seguia a mesma
politica democratica do Ecco popular, e no
qual tambem collaborava o então conego,
sr. Antonio Alves Martins, hoje dignissimo
bispo de Viseu.
Em quanto que nos jornaes defendia as
ideias politicas que do coração tinha ado-
ptado, se tornava celebre no foro, como um
dos mais esclarecidos advogados do Porto,
sobre tudo, em defesa de jornaes accusados
por abuso de liberdade de imprensa, commo-
vendo o auditorio com a vehemencia dos
seus discursos, e com a energia da sua pa-
lavra auctorisada; o que lhe deu a bem me-
recida fama de um dos melhores juriscon-
sultos do paiz.
Como proprietario e redactor principal
do jornal O Portuense, continuou sendo um
infatigavel e incorruptivel campeão do par-
tido popular, que o elegeu deputado, em
1867.
Em 14871, foi nomeado commissario geral
dos estudos, e reitor do lyceu do Porto, lo-
gar que pouco tempo exerceu, porque pediu
a sua exoneração, que lhe foi concedida.
Fallecendo em Lisboa o conselheiro Gon-
çalves de Freitas, director-geral das contri-
buições directas, foi este emprego offerecido
ao sr. Custodio José Vieira, que o acceitou
e está exercendo com a integridade propria
do seu caracter austero e imparcialissimo.
Pouco depois, foi eleito deputado por Lis-
boa.
“1 Foi tambem neste jornal que mais tar-
de se estreou o sr. José Joaquim Rodrigues
“de Freitas, esclarecido lente da escola poli-
techinca do Porto.
REG
Como sr. doutor Custodio José Vieira oc-
cupa um logar tão elevado na sociedade,
não quero que este artigo se attribua a li-
sonja; porisso terminarei dizendo —é um
transmontano verdadeiro, que é o mesmo
que dizer—um portuguez d'antes quebrar
que torcer.
REGUDEIRO ou REGODEIRO — freguszia,
Traz-os-Montes, comarca da Mirandella (foi
da mesma comarca, mas do supprimido con-
celho da Torre de Dona Chama) 70 kilome-
tros de Miranda do Douro, 420 ao .N. de Lis-
boa.
Em 1757, tinha 10 fogos!
Orago Santo Amaro.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
O abbade de Guide apresentava o cura,
que tinha 82000 réis de congrua e o pé de
altar (não chegando todo o seu rendimento
annual a 128000 réis!)
Esta freguezia foi, ha muitos annos, jus-
tamente supprimida, e encorporada à de 8,
Mamede de Guide,
REGUEIRA DE PONTES —freguezia, Ex-
tremadura, concelho, comarca, districto,
bispado, e 6 Kilometros de Leiria, 138 ao
N. de Lisboa, 200 fogos.
Orago S. Sebastião, martyr.
Junto ao logar de Regueira de Pontes,
sobre a estrada de Leiria a Ortigosa, logo
passando o rio, existia uma capella muito
antiga, dedicada ao martyr S. Sebastião, com
seu alpendre e sachristia. Foi reconstruida
em 4743, fazendo-se-lhe uma outra sachris-
tia, sendo n'esse mesmo anno elevada a pa-
rochia, dando-lhe o bispo de Leiria, uma
pia baptismal, que havia sido da egreja de
Nossa Senhora dos Anjos, da mesma ci-
dade.
Ainda antes de ser egreja matriz, havia
na capella uma confraria das almas, que no
dia da sua festa dava um bodo aos pobres,
que constava da carne de quatro bois, 5 al-
mudes de vinho, 18000 réis de pão cosido,
e egual quantia em dinheiro. Este bodo ces-
sou quando se reformaram os estatutos, em
1753.
O sino maior, foi fundido mesmo n'esta
aldeia, em 1760, e custou 1238460 réis—e
REG
o mais pequeno, em 1761, e custou 762320
réis. »
Como o templo fosse pequeno para ma-
triz de uma freguezia, se comstruiu o actual,
que é uma boa e vasta egreja. As obras prin-
" cipiaram om 4758; e o chão para a nova
egreja foi comprado por 118480 réis.
Concluiu-se o templo em 4795.
É terra fertil..
REGUENGA — freguezia, Douro, comarca
e concelho de Santo Thyrso, 20 kilometros
ao N. do Porto, 320 ao N. de Lisboa, 160 fo-
gos.
Em 1757, tinha 127 fogos.
Orago, Santa Maria.
Bispado e districto administrativo do
Porto. 0]
O real padroado apresemtava o abbade,
que tinha 1508000 réis de rendimento, alem
do pé d'altar.
É terra fertil. Muito gado de toda a qua-
lidade.
Para a sua etymologia, vide Reguengo.
REGUENGO, REGAENDO, REGAENGO, RE-
GALENGO, e REGALINDO—com fodos estes
nomes se distinguiam, desde o tempo dos
reis das Asturias, todas as terras que eram
patrimonio real, e que tinham hido á corôa
por direito de conquista, confiscação, heran-
ça, escambo, etc. etc.
Varios soberanos doaram: bens reguengos
a egrejas, mosteiros e vasgallos que queriam
favorecer ou premiar.
Ás propriedades ruraes d”esta natureza, se
dava tambem o nome de reguengueiras.
Tambem se denominavam reguengos, os
fóros, direitos, ou regalias que em qualquer
territorio, villa, cidade, comeelho, ou couto,
se pagávam à corôa; e era iisto a que se cha-
mava direito real.
REGUENGO-— aldeia, Douro, na freguezia
de Guizande, comarca, concelho e 8 kilome-
tros ao N.E. da Feira.
Nasceu aqui um individmo da especie hu-
mana, considerado do sexo feminino, e ba-
ptisado com o nome de Anma. Quando já ti-
nha 40 annos, querellou d”elle uma rapari-
ga, pelo crime de tentativa de rouço.
Depois do competente exame, verificou-se
que a ré era hermafrodita; mas, em vista
REG 109
dos depoimentos das testemunhas da accu-
sação, decidiu-se que predominavam no réu
as tendencias masculinas, e foi declarado ho-
mem por uma sentença, sendo chrismado
pelo agente do ministerio publico com o nome
de Antonio.
Pouco depois d'esta sentença, o tal Anna-
Antonio, casou com uma rapariga da fregue-
zia de Louredo, e ambos ainda vivem.
No mesmo concelho aconteceu outro fa-
cto egual. Vide a 1.º Regedoura.
REGUENGO—freguezia, Extremadura, co-
marca de Porto de Mós, concelho da Bata-
lha (foi da comarca e concelho de Leiria) 12
kilometros ao N.0O. de Leiria, 130 ao N. de
Lisboa, 560 fogos.
Em 1757, tinha 477.
Orago, Nossa Senhora dos Remedios.
Bispado e districto administrativo de Lei-
ria.
O povo apresentava O cura, que tinha
1108000 réis.
Reguengo é uma povoação antiquissima,
e, segundo se collige de uma inscripção que
está na capella da torre desta freguezia, já
era povoada no tempo dos romanos. Eis a
inscripção :
FILIA PIENTI.. cc. co 00 o
0 ANNOTUM Laberia, Lucii
filia, ma (ter) pienti (ssimae)
(A sua piedosissima filha, .... que mor-
reu de .... annos .... mandou fazer este
monumento, Laberica, filha de Lucio.)
Vê-se que esta inscripção está mutilada,
e tem, alem d'isso, letras apagadas. Pela
parte de cima devem faltar duas linhas—a
primeira que costuma ser a dedicação aos
deuses manes (D. M.) e a segunda, que de-
via conter o nome da fallecida.
Falta-lhe tambem a ultima linha usual nos
monumentos funerarios dos romanos, que
era S. T. T. L. (sit.tibi terra livis—a terra
te seja leve.)
Esta Laberia, filha de Lucio, era uma no-
110 REG
bre romana, flaminia! de Evora e da pro-
vincia da Lusitania.
Parece que esta sacerdotisa foi celebre no
seu tempo, porque Diogo Mendes de Vas-
concellos, diz que na antiga egreja de Santo
Estevam, de Leiria, estava embebida na pa:
rede do frontespicio esta inscripção : -
LABERIAE L. F. GALLAE
FLAMINICAE EBORENSE.
FLAMINICAB PROV. LVSI-
TANIAE IMPENSAM FVNE-
RIS, LOCVM SEPVLTVRAE
ET STATVAN D. D. COLLI-
PPONECIVM DATANI L.
SVLPICIVS CLAVDIANYVS.
Laberiae, Lucii filiae, Gallae, flaminicae
eborense, flaminicae prov.nciae Lusitaniae
inpensam funeris locum sepulturae et sta-
tuam. decreto decurionum collipponensium
datam Lucius Sulpicius Claudianus.
(Lucio Sulpicio Claudiano, fez à sua custa
o funeral, deu logar para a sepultura, e le-
vantou esta estatua, que lhe foi concedida
por decreto dos decuriões de Callipo (Lei-
ria, a velha) a Laberia Galla, filha de Lucio,
flaminia d'Evora e da provincia da Lusita-
nia.
A primittiva egreja de Santo
Estevam, foi demolida em 1507,
e edificada a actual, e a lápide
que continha a inscripção, des-
appareceu: provavelmente foi
aproveitada para alvenaria da
nova egreja.
Fallam d'esta inscripção, alem de Vascon-
cellos, já citado, frei Bernardo de Brito, o
visconde de Paiva Manso, Gruter, Manoel de
Faria e Sousa, Hubner, e o sr. Victorino da
Silva Araujo, professor do lyceu de Leiria ;
mas todos com mais ou menos variantes.
Eu escolhi a que me pareceu mais cor-
recta.
—
Mesmo como parochia catholica, esta fre-
! Os sacerdotes dos antigos romanos, cha-
mavam-se flamines, e as sacerdotizas, flami-
nias, flaminicas ou flaminícies. Tinham obri-
gação de sustentar sem interrupção o fogo
sagrado, e daqui lhe provem o nome. (Vide
a 2.º Chellas, vol. 2.º, pag. 287, col. 2.º)
REG
guezia é mais antiga do que o bispado de
Leiria, pois foi creada por D. Pedro, bispo
da Guarda e prior-mór do real mosteiro de
Santa Cruz de Coimbra, a requerimento dos
povos do Reguengo, em 1512.
Esta freguezia e outras muitas do actual
bispado de Leiria, formavam um isento de
Santa Cruz.
D. Pedro deixou aos parochianos o direito
da apresentação do cura, mas, das rendas
do prior-mór, .só tirariam para o paracho-
23500 réis cada anno; e ficariam com a obri-
gação da fabrica da egreja.
Até 1512, esta aldeia pertencia à fregue-
zia de S. Martinho, e o povo da nova fregue-
zia ficou obrigado a hir duas-vezes no anno
(nos dias do Corpo de Deus e de S. João Ba-
ptista) visitar a sua velha matriz.
Com a suppressão da freguezia de S. Mar-
tinho, cessou esta obrigação.
Quando se instituiu esta freguezia, com-
binaram os freguezes em dar ao paríocho.
(que era o capellão da ermida erecta em
matriz) de ordinaria, 80 alqueires de ttrigo
e 25 almudes de vinho môsto (depois, em
logar do vinho, davam-lhe 25 alqueires de:
trigo) e os taes 28500 réis do prior-mór. Ti-
nha tambem o pé d'altar e as offertas (só da
egreja parochial.) Tinha mais de amemtas,,
25 alqueires de trigo, 17 perpetuos e 83 vo-
luntarios, e outra amenta ! de um alqueire
de azeite, à safra.
1 A palavra amentar é uma das summa-
mente elasticas do portuguez antigo.
1.º—E voz pastoril, e significa enfeittiçar
ou encantar, chamando pºr canto, os Itobos
para destruirem os rebanhos do visiinho.
(Magica carmine lupus convocare.)
2.ºAmentar se dizia quando o gado» an-
dava alegre, saltando e rotouçando. Julgza-se
vir do latino armentum.
d.º—Trazer à lembrança, recordar, eetc.,
(quasi in mentem, seu memoriam revooca-
re.)—Não me emente—isto é—não falles em
mim, ou não se lembre de mim.
4.º— Amentar, ou emmentar, é o acto) em
que os parochos, ou seus curas, rezam, , an-
tes da missa convevtual, pelas almas doss de-
funtos cujos herdeiros lhe pagam as emmen-
tas.
Pretendemalguns queenmen-
ta é corrupção de memenatar,
REG
Tudo isto é que o Portuguez Sacro e Pro-
fano avalia em 1102000 réis.
Quando se creou esta parochia, foi eleita
por sua padroeira a Santissima Trindade ;
mas quando se construiu a egreja actual,
| mudou-se a invocação para Nossa Senhora
dos Remedios.
Já disse que o capellão da antiga ermida
foi o primeiro parocho da freguezia, e as-
sim se continuou a denominar por muiito
tempo : depois é que se lhe deu o titulo de
cura. ED
Quando se creou o bispado de Leiria, em
1545 (4.º vol., pag. 72, col. 1.º) os parochia-
nos do Reguengo obtiveram um breve aposs-
tolico para que dos dizimos se pagasse à.
ordinaria ao capellão, obrigando-se elles a
darem annualmente, um cirio, de uma Ii-
' bra de pêso, à egreja de S. Martinho, donde
haviam sido desmembrados. O cirio era dado
no domingo de Paschoa.
Principiou esta freguezia com 80 fogos, e
ahi a 93 annos (1605) já contava 360.
No alto, sobranceiro à egreja parochial,
estã a ermida de Nossa Senhora do Fetal,
ou Feital. A primittiva era antiquissima, e
por se dizer no responso dios
defuntos, memento mei Deus,
etc.
Ementar ou emmentar, é ainda uma via-
riante de amentar, e tem as seguintes sigmi-
ficações :
1.:-—Escrever em livro ou em rol, o que
se gasta, compra, vende, ou despendo; e ao
tal livro ou rol se chamava ementa. (Ordem.,
"livro 1.º tit. 78, $ 5.º)
2..—Ementa se chamava tambem ao livro
em que se escreviam, em resumo, as cartas
régias, doações, graças, mercês, ete. (Cod.
Alf., livro 1.º, tit. 40, $ 1.º)
3.*—Ementar—dizer em summa, recapi-
tular, trazer à memoria as acções (boas ou
más) de qualquer individuo.
4.2— Ementa se chama o rol que os paro-
chos teem na mão quando rezam pelas al-
mas dos defuntos, e o vão lendo, para lhe
não esquecer nenhum.
De ementa é que vem a pa-
REG 11
provem-lhe o nome, de ser a imagem da Se-
nhora achada por uma pegureira, em uma
feiteira (mouta de fectos) onde a ermida foi
construida. Era apenas uma edicula e quasi
debaixo do chão, pois se descia para ella,
por tres degraus. Deu-se-lhe a invocação de
Nossa Senhora da Fé; mas o publico sempre
lhe ficou chamando Nossa Senhora do Fetal.
Como o povo dos arredores principiasse
a ter muita devoção com esta Senhora, accu-
diram as esmolas e offertas em grande quan-
tidade, e então se lhe construiu um bello
templo, que é o actual, no anno de 1585, se-
gundo se vê de uma inscripção, embebida na
parede da egreja, que diz: j
NO ANNO DE 1585
SE FEZ ESTA EGREJA
DE NOSSA SENHORA DO FETAL
COM AS ESMOLAS DOS FIEIS CHRISTÃOS
E SE VAY RENOVANDO
E SE VÃO FAZENDO OBRAS
COM AS DITAS ESMOLAS
O bispo e o cabido, buscaram um pretexto
para lançarem mão das esmolas e offertas da
Senhora, ficando obrigados à fábrica da ca-
pella, mas 0 povo, se a quer reparada, quan-
do ella precisa de concertos, o tem feito à
sua custa.
Tem uma confraria que no seculo 47.º
chegou a ter 900 irmãos, tanto da freguezia
como de outras, e até de fóra do bispado.
lavra ementairo (inventario)
portuguez antigo, ainda muito
usado do nosso povo das al-
deias. Sigoifica ementariação
(rol, indice, elencho, etc.) de
todos os objectos que consti-
tuem uma herança.
As amentas gu ementas dos parochos, são
de duas qualidades—uma obrigatoria, outra
voluntaria. A primeira todos os herdeiros
teem obrigação de pagar no primeiro anno
do fallecimento do parente, e consta de um
alqueire de trigo ou de milho, segundo o
costume da parochia. A segunda (a volun-
taria) é se 0 freguez se avem com o parocho
por certa offerta annual, para lhe ementar
m perpetuum (em -quanto os herdeiros pa-
garem, bem entendido) as almas dos seus
parentes fallecidos.—No primeiro caso, diz
0 parocho—Pela alma de F., pater noster.—
No segundo, diz—Pelas almas a que e obri-
gado F. (o offerente) pater noster.)
112 REG
A festa da Senhora faz-se no 4.º domingo ,
de outubro, havendo na vespera e no. dia»
não só uma concorridissima romagem, mas
tambem uma boa feira. Havia tambem anti-
gamente um grande bodo para os que d'elle
se quizessem utilizar.
- A ermida tem alpendre, 3 altares, sachris-
tia, € casas para os romeiros.
- Alem da confraria da Senhora, ha aqui
outra do Espirito Santo.
Logo abaixo da ermida, na margem do ca-
minho, ha um poço, e sobre elle, em um ni-
“cho de pedra, estã a imagem de Nossa Se-
nhora da Consolação. É advogada contra as
verrugas.
Na serra que principia por cima do logar
do Reguengo, a uns 6 kilometros de distan-
cia da aldeia, está a ermida de S. Mamede,
Faz-se-lhe a festa no domingo anterior ao
dia de S. João Baptista, havendo tambem
então, feira e bodo. Tem uma confraria, au-
ctorisada por uma provisão régia.
Teem os povos d'aqui muita devoção com
este santo; mandam-lhe dizer muitas mis-
sas, na roda do anno, e creem que elle lhes
guarda os seus gados, que pascem na serra,
dos lobos que alli ha.
Na aldeia da Torre-de Maqueixa, desta
freguezia, ha uma ermida, dedicada a Santa
Iria, a cuja fabrica são obrigados os mora-
dores do logar.
Fica a 9 kilometros de Leiria.
Segundo a tradição, Santa Iria é natural
d'este logar, e a capella foi construida nas
casas em que ella nasceu. À
A capella tem sachristia, e alpendre.
Ha n'esta capella uma confraria de defun-
ctos, muito antiga. Tem bodo no 2.º domingo
de outubro. |
-—
Diz-se que ao logar da Torre de Maguei-
Xa, se dava antigamente o nome de Torre da
Magacia, que, no portuguez antigo, significa
Torre da Magia ou da Feitiçaria por ter per-
tencido a um magico, ou feiticeiro. (!)
REG
Junto ao logar de Alcanada ! existia, de
tempos immemoriaes, uma capellinha, dedi-
cada a Santo Ilário.
Em 1567, foi demolida, e em seu logar se
construiu a actual, dedicada ad Evangelista
S. Matheus. Tem 30 alqueires de trigo de
rendimento. No dia da festa, ha bodo aos
pobres ; e, alem da confraria do padroeiro,
ha outra de defuntos,
No logar das Torrinhas, ou Piqueiral, ha
a ermida de Santa Maria Magdalena, cons-
truida em 4600, por visitação, sendo bispo,
D. Martim Affonso Mexia, para administrar
os sacramentos aos povos d'estes logares ;
que são obrigados á fábrica, assim como os
mais das outras aldeias que d'aqui são sa-
cramentados.
Na aldeia de Valle-Magro, ha uma ca-
pella, de Santa Maria, construida tambem
por visitação, no tempo do mesmo bispo, no
anno de 1608. É tambem para administração
dos sacramentos dos visinhos do logar e im-
mediatos, que todos são obrigados à sua fa-
brica.
Havia ainda n'esta freguezia a ermida de
S. José, no logar de Alqueidão da Serra. Em
1620, o bispo, D. Martim Affonso Mexia,
erigiu a capella em egreja matriz, dia fre-
guezia de Alqueidão da Serra, que m'esse |
anno creou, desmembrando-se, com qutras |
aldeias, da freguezia do Reguengo.
Foi arbitrado ao parocho (cura) o ren-
dimento de 80 alqueires de trigo, 25 almu-
des de vinho mosto, as offertas e o pé «de al-
tar. Os parochianos lhe deram casa paira re-
sidencia, como se obrigaram, quando pedi- |
ram ao prelado a creação da sua parochia.
Principiou esta freguezia com 70 fogoss: em |
1757, ainda só tinha 73, e hoje tem 200.
Dista 18 kilometros de Leiria.
- Parte do logar d'Alqueidão da Serra, per-
1 Alcanada, como Alcanêde, significca lo-
gar sombrio, ou temperado. Tambem ssigni- |
fica homem pensador, prudente, reflesctido, |
etc.—Deriva-se do verbo arabe canatta, ser
sombrio, temperado.
REG
| tence á freguezia de S. João, da villa: de Por- |
* to de Mós(!) por sentença que obtewe a casa |
| de Bragança, contra o bispo, D. IDiniz de
Mello.
Ficou pertencendo a esta freguezia d'Al-
queidão, a aldeia da Motta-Longa, conde ha
' uma capella dedicada a Santa Cattharina ;
feita tambem para administração dos sacra-
mentos, e a cuja fabrica são obrigados os
moradores do logar.
A palavra alquidão, deriva-se dlo árabe
alqueidam, que significa passos, ou passa-
das. D'aqui vem o nome de Alqueiidão que
teem 29 aldeias, quasi todas na Extremadu-
ra. Propriamente significa—terra medida a
passos.
De alqueidam, se deriva :
1.º—Alquiar (portuguez antigo, que de-
pois se disse alquilar) e vem a ser-—ateigar,
dar de renda qualquer propriedadie movel
ou semovente. D'aqui, alquilê, o que aluga
bêstas.
2.º— Alquidar, dar de renda a terra me-
dida. É por isto que à propriedade: que seu
dono não cultivava, e costumava: sempre
trazer de rendas, se dava o nome de alquei-
dão.
A camara munieipal de Lishoa, tinha vas-
tas propriedades no Riba-Tejo, que Ilhe cons-
tituiam um dos seus principaes rendimen-
tos, chamadas Terras do Alqueidão. Foram
desarmotisadas pelo governo, em 187/6-—quer
dizer—havendo uma banca-rôta, lá «se vão os
rendimentos das Terras do Alqueidião.
No 1.º de dezembro de 1834, foi ffeito vis-
conde do Reguengo (mas não seii de qual
Reguengo) o general, Jorge d'Avilez Juzarte
—e em 4 de julho de 1870, foi feito viscon-
de do mesmo titulo, o sr. Jorge Fredlerico de
Avilez,
Nasceu n'esta freguezia, soror Maria do
Rosario (antes de ser freira, Maria. Thereza
Ignacia) religiosa do mosteiro do Sacramen-
to, da cidade de Lisboa.
Foi por' muitos annos considerada, como
uma freira de grandes virtudes; mas isto
não foi o suficiente para escapar a graves
REG 113
accusações que d'ella fizeram à Inquisição.
Foi enterrada nos medonhos carceres do
Santo Oficio (palacio dos estãos, onde hoje
é 0 theatro normal) e taes tormentos fizeram
soffrer à desgraçada, que à obrigaram a
confessar tudo quanto os inquisidores qui-
zeram, apezar de serem os mais ignobeis
absurdos, que hoje nos fazem rir, mas que
n'esse tempo causaram lagrimas de sangue
e dores atrocissimas a milhares de victimas.
A sentença contem tão repugnantes im-
moralidades, termos tão improprios de um
tribubal, que só a posso comparar ao inde-
centissimo processo da nullidade do matri-
monio, da tristemente celebre duqueza de
Nemours, D. Maria Francisca Isabel de Sa-
boya, contra D. Afonso VI.
Depois de muitos dias dos mais incompor-
taveis tormentos e das mais dolorosas tortu-
ras, obrigaram a confessar a desgraçada
Maria do Rosario, que :
Na edade de sete annos lhe appareceu o
demonio, em casa de um tio della, parocho
de uma freguezia de Evora, e que estabele-
cera com o demonio relações amorosas.
Quando a Té chegára aos 13 annos, de
novo lhe appareceu o demonio, e com elle
celebrou pacto expresso, por um escripto
feito com o proprio sangue, tirado de um
braço com um alfinete.
Pelos poderes que o demonio seu esposo
lhe concêdera, fez feitiços a seu proprio pae,
que d'isso falleceu, e a sua mãe, que mor-
reu doida.
Concebeu sete filhos do mesmo demonio,
com a singular circumstancia de que a ges-
tação do féto nunca durara mais de tres me-
zes.
De um estudante a quem apparecêra invi-
sivelmente, teve uma filha, que duas feiticei-
ras mataram sugando-lhe o sangue pela lin-
gua.
Á sua parte matára cinco crianças, beben-
do-lhes o sangue, e tomava-se de raiva quan-
do as suas companheiras matavam alguma
sem lhe darem noticia.
Sendo considerada por todos como mulher
de virtude, fôra consultada por outra mulher
que tinha o marido na India, e desejava sa-
ber d'elle. Maria do Rosario, à meia noite,
114 REG
untou-se com unguento, e foi à India, pegou
no homem, que estava dormindo, e n'essa
mesma noite o trouxe a Lisboa, em uma em-
barcação, apresentando-o à mulher, que to-
mou o caso por milagre de Santo Antonio.
A feiticeira, que não desejava alegrias a nin-
“guem, pegou outra vez no homem e recon-
duziu-o á India na mesma noite.
Confessou tambem que, quando celebra.
ra os desposorios com o demonio, este a le-
vára a uma casa, onde elle se sentára n'um
throno, rodeado de negros; que tambem alli
havia frades com os seus capéllos ; que a fi-
zeram bailar com todos; e que seu esposo
lhe offerecêra uma bebida composta de la-
gartixas e outros bichos; que ella bebéra por
fineza, mas que ficara com o estomago an-
ciado: que fizera varias viagens, em figura
de gato e de corvo; que o demonio tomava
muitas vezes a forma d'ella, para a substi-
tuir nas funcções da cosinha, e no toque dos
sinos do convento, emquanto ella andava
pelo mundo fazendo das suas; que o demonio
a tinha visitado sete vezes, nos carceres do
Santo Officio, para a consolar; e disse mais,
que o numero das pessoas que se lembra de
ter morto com feitiços chegaria a cento e
trinta e sete.
O tribunal do Santo Ofício, em vista das
explicitas confissões da ré, diz no final da
sentença que deixa o rigor do direito e sim-
plesmente lhe impõe a pena de hir a auto de
fé, levundo habito e carocha, e a ser reclusa
perpetuamente nos carceres do Santo Ofhcio,
para salvação da sua alma.
É notavel, esta piedade dos inquisidores!
Se o menor dos crimes que a infeliz foi
obrigada a confessar, fosse verosimil, era
sufficiente para ella ser queimada; mas a
Inquisição contentou-se com a pena de re-.
clusão perpétua. Ella lá tinha as suas rasões,
para nós impenetraveis..
REGUENGO-—freguezia, Alemtejo, conce-
lho, comarca, districto administrativo, bis-
pado, e 3 kilometros de Portalegre, 180 ao
S.E. de Lisboa, 200 fogos.
Em 1757 tinha 124 fogos.
Orago, S. Gregorio Magno.
A mitra apresentava o cura, que tinha 90
REG
alqueires de trigo de renda, e o pé de altar. . |
É terra fertil.
Í
REGUENGO —freguezia, Alemtejo, conce-
lho de Alter do Chão, comarca da Frontei- |
ra, 40 kilometros d'Elvas, 480 ao E.de Lis- | 1
boa.
Em 4757, tinha 58 fogos.
Bispado d'Elvas, districto administrativo |
de Portalegre.
Orago, S. Bartholomen, apostolo.
A mitra apresentava 0 cura, que tinha 96
alqueires de trigo e o pé de altar.
Esta freguezia está ha muitos anms uni- |
da à de Alter do Chão, e por isso & diz—
Alter do Chão e Reguengo.
REGUENGO D'ALCALÁ-—Vide Alcíçovas,
villa.
Alcalá, é palavra árabe, significa castello,
ou fortaleza. Na Hespanha ha varias povoa-
ções com o nome d'Alcalá, e uma cidade na
Castella-Nova.
Note-se que alcalá, como alcásba (que os
árabes pronunciavam alcáceba) são synoni- |
mas, e ambas significam a mesma cousa. .
Por não hir no logar competente, fallarei
aqui dos condes das Alcáçovas.
O primeiro conde das Alcáçovas, foi D, |
Francisco de Salles Henriques Pereira de |
Faria Saldanha Vasconcellos de Lencastre |
(que era o 12.º senhor das Alcáçovas) feito |
no 4.º de dezembro de 1834. Era commen- |
dador da ordem de Christo, cavalleiro da de |
Torre Espada, e tenente do exercito liberal, |
perdendo um braço no cerco do Porto. Foi
militar distincto.
Nasceu a 42 de dezembro de 18114, e suc-
cedeu na casa a seu avô materno; em:24 de
fevereiro de 1822.
Era filho de D. Thereza Francisca de Pau- |
la, filha unica de D. Caetano Alberto Henri-
ques Pereira de Faria Saldanha de Lencas- '
tre, 44.º senhor das Alcáçovas, fallecido a |
21 de fevereiro de 1822, e de D. Maria Do-
mingas de Castro. |
D. Thereza Francisca de Paula, nasceu a
27 de fevereiro de 1788, e casou a:27 de fe-
vereiro de 1808, com Luiz de Vasconcellos |
e Souza (segundo filho dos 2.ºº marquezes |
de Castello Melhor), do conselho de sua ma- |
REG
* gestade, veador da infanta D. Isabel Maria
* «filha de D. João VI), par do reino, feito em
1835, capitão de infanteria, inspector geral
do Terreiro, e nascido a 6 de fevereiro de
47914.
D. Thereza morreu a 2 de janeiro de 1821.
O 4.º conde das Alcáçovas, teve quatro ir-
mãos:
1.º—D. Marianna, nascida a 8 de janeiro
de 1814. Casou, a 20 d'agosto de 1897, com
Carlos Leme Vieira Guedes, moço fidalgo, e
administrador do morgado de Valle do Cou-
to, em Mezão-frio.
2.º— D. Leonor, nascida:a 20 d'agosto de
1848, e fallecida a 10 de fevereiro de 1836.
3.º— D. Caetano de Lancastre, nascido a
24 d'agosto de-1819, e foi o 2.º conde das
Aleaçovas, feito em 22 de maio de 1840.
h.º—D. Helena, nascida a 31 de dezembro
de 1820, e fallecida a 23 de janeiro de 1836.
O senhorio das Alcáçovas, foi dado a esta
familia, por D. Duarte I, em 1439.
O seu palacio em Lisboa, é na rua da Cruz.
É 3.º conde das Alcáçovas, o sr. D. Luiz
Henriquez de Faria Pereira e Lencastre.
Lencastre, é um appellido nobre em Por-
tugal. O primeiro que com elle se encontra,
é D. João de Lencastre, feito marquez de Tor-
' res-Novas, por D. Manuel I, e 4.º duque de
Aveiro, por D. João II, em 1547.
Era filho primogenito de D. Jorge, duque
de Coimbra, filho bastardo de D. João II. 1
As armas dos Lencastres são as mesmas
de que usavam os duques de Aveiro — as
armas de Portugal, com a quebra de bastar-
dia, e por timbre, um pelicano.
REGUENGO DA CARVOEIRA — ou sim-
! D. João II fez todas as diligencias para
que seu filho bastardo, D. Jorge, subisse ao
throno, vista ter morrido seu unico filho le-
gitimo, D. Aflonso (da quéda de um cavallo,
junto a Santarem, em 14491); mas sua mu-
lher, a virtuosissima rainha D. Leonor, e a
maior parte dos fidalgos, oppozeram-se te-
nazmente, à pretenção do monarcha, e suc-
cedeu-lhe na corôa seu primo e cunhado,
D. Manucl, duque de Beja, natural de Alco-
chête, e filho do infante D. Fernando, duque
de Vizeu, filho do rei D. Duarte. D. Manuel
era irmão da rainha D. Leonor.
REG 115
plesmente Carvoeira. Já fica descripto sob
esta ultima palavra, no 2.º vol., pag. 139, col.
1.2; mas já não estã annexa a Chileiros, co-
mo alli se diz.
REGUENGO-GRANDE — freguezia, Extre-
madura, concelho da Lourinhan, comarca de
Torres Vedras, 60 kilometros ao N.0. de Lis-
boa.
Tem 200 fogos.
Em 1757, tinha 130 fogos.
Orago S. Domingos.
Patriarchado e districto administrativo de
Lisboa.
O sacro collegio patriarchal e o prior e
beneficiados da egreja de Santa Maria d'Óbi-
dos, apresentavam simultaneamente o cura,
que tinha 41003000 réis de rendimento e o
pé de altar.
É terra fertilissima.
Perto d'esta freguezia passavam as famo-
sas linhas de Torres Vedras, que tanto mêdo
incutiram aos francezes.
REGUENGO DO RIBA-TEJO — aldeia, Ex-
tremadura, freguezia, concelho e comarca
do Cartaxo (era do concelho da Azambuja,
supprimido em 1876, e da comarca d'Alem-
quer), 60 kilometros ao N.E. de Lisboa, a
cujo Patriarchado e districto administrativo |
pertence.
É n'este logar a ponte do Reguengo, onde
está a 10.2 estação do caminho de ferro do
norte e leste. (Vol. 7.º, pag. 184, col 1.2)
Esta povoação sofireu gravissimos prejui-
zos com as inundações de novembro e dezem-
bro de 1876; assim como as terras do Alquei-
dão, da camara municipal de Lisboa, que são
n'estes limites.
A maior inundação, foi nos dias 6 e 7 d'a-
quelle ultimo mez, cobrindo os vastos campos
dó Reguengo e das terras immediatas. Tor-
nou-se digno dá gratidão geral d'estes po-
vos, em tão terrivel conjunctura, o sr. José
Vicente da Costa Junior, de Salvaterra de
Magos, que, com imminente risco de vida,
salvou varias pessoas, animaes e generos,
em um barco seu, conduzindo tudo para
Salvaterra, apezar da violencia da tempes-
tade e do furor vertiginoso das ondas.
Vide Riba-Tejo.
REGUENGOS ou VILLA NOVA DE RE-
116 REG
GUENGOS— villa, Alemtejo, cabeça do con-
celho do seu nome, na comarca do Redondo,
35 kilometros d'Evora, 135 ao S.E. de Lis-
boa. Tem 600 fogos.
Em 1766, tinha 291 fogos.
Orago, Santo Antonio de Lisboa.
Arcebispado e districto administrativo de
Evora.
A mitra apresentava o cura, que tinha
240 alqueires de trigo e 60 de cevada.
É terra fertilissima. Muito gado, de toda
a qualidade.
A freguezia dos Reguengos está situada
entre campinas, pertencentes à casa de Bra-
gança, da qual era reguengo, € d'ahi lhe vem
o nome.
Pelos annos de 1680, 12 kilometros ao E.
de Monsaraz, existia em um sitio solitario,
porém ameno e fertil, uma antiga ermida,
dedicada a Santo Antonio de Lisboa. ! A bel-
leza do logar, foi, pouco a pouco attrahindo
para aqui desde aquelle anno, algumas fa-
milias, que construiram as suas casas em
volta da ermida, e tanto foi crescendo à po-
voação, que, pelos annos de 1760, o povo re-
quereu e obteve que a aldeia fosse elevada
à cathegoria de parochia, quando o logar já
era composto de uns 280 fogos. A capella
de Santo Antonio ficou servindo de egreja
matriz, para o que, passados poucos annos
(1710) foi acerescentada, e, como ainda não
tivesse a capacidade sufficiente, tornou a ac-
crescentar-se; mas, apezar d'isso, ainda é
acanhada para a população, em vista do des-
envolvimento que esta tem tomado.
As casas são, pela maior parte, baixas, é
as ruas summamente tortas, pela falta de
cuidado que houve no seu alinhamento des-
de o principio, pois que cada um construia
a sua casa onde melhor lhe parecia.
1 É preciso notar que se em 1680 estava
o sitio deserto, é porque tinha sido abando-
nado pelos seus habitantes, depois da des-
truição das suas casas, com as guerras con-
tinuas dos seculos vir, IX e x, e ainda hoje
ha vestigios de construcções antiquissimas.
Isto já no principio do seculo xi era Te-
guengo, e como tal lhe deu foral, D. San-
cho I, em 1205, como adiante veremos, e é
provavel que já por estes sitios habitassem
alguns reguengueiros (caseiros da corôa).
REG
Este povo é sobremaneira industricso, e,
além da agricultura, fabrica varios tecidos
de lan, como saragoças, estamenhas, man-
tas, cobertores, e chapeus.
Foi esta povoação crescendo à custa da
villa e praça de guerra de Monsaraz, pois
que, estando esta construida em uma aspe-
ra eminencia, propria para uma fortaleza,
não o era para as outras commodidades da
vida;'e a aldeia de Reguengos, em pouco
tempo excedeu em importancia a antiga vil-
la de Monsaraz, e isto foi causa da antipa-
thia que por muitos annos existiu enire as
duas povoações; antipathia que ainda não .
está completamente extincta.. |
O governo, em attenção ao desenvolvimen-
to da nova povoação, mudou para aqui a sé-
de do concelho de Monsaraz, por carta de
lei, de 18 de abril de 1838; e por outra carta
de lei, de 29 de fevereiro de 1840, foi elé-
vada à cathegoria de villa, com o nome de
Villa Nova de Reguengos. Notemos, porém,
que já em 1205, o foral lhe dá o nome de
Reguengo de Villa Nova, 0 que prova que
já então, ou mais proximo ou mais distante
da capella de Santo Antonio, existia uma tal |
ou qual povoação, ou, pelo menos, alguma
herdade da corôa.
O concelho de Reguengos é composto de |
cinco freguezias, todas: do arcebispado de |
Evora, e com 1:900 fogos. São— Campo, Ca- |
ridade, Corval, Monsaraz, e Reguengos.
Tinha mais trez freguezias, do mesmo ar- |
cebispado, que passaram a formar 0 conce- |
lho de Mourão, e eram — São Braz da Gran- |
ja, Nossa Senhora da Luz, e Mourão e S. Leo- |
nardo, annexas, todas com 920 fogos.
É povoação antiquissima. D. Sancho I lhe
deu foral, em Coimbra, no 4.º de julho de |
1205, e seu filho, D. Affonso II, o confirmou |
tambem em Coimbra, em novembro de 12147.
“(Maço 12 de foraes antigos, n.º 3, À. 40. |
col. 1.º)
Não teve foral novo. |
O nome que lhe dá o foral velho, é Re- |
quengo de Villa Nova. |
Diz-se que foi uma cidade romana, com 0 |
nome de Ourégia, ou Turégia. (Vide Ouró- |
ga, ou Touréga, a pag. 311, col. 22 do 6.º |
| vol.)
REG
Em 1837 appareceu no logar do Monte da
Azinheira, d'esta freguezia, em um curral
de bôis (1) um tumulo romano (ao qual mui-
tos dão o nome de sarcophago) ! de marmo-
re branco.
Estava tapado com tres lagens, collocadas
sobre barras de ferro, chumbadas.
Tinha dentro um esqueleto, e á cabecei-
ra, um vaso lacrimatorio, de vidro.
É monolithico (de uma só pedra) e está
cavado em fórma de banheira, arredondado
nas cabeceiras. Tem 17,95 de comprido, pela
parte superior, e 17,80 pela inferior: 0,65
de alto, e 07,63 de largo.
É ornado, exteriormente, de baixos-rele-
vos bem esculpidos, com um busto (tambem
em baixo-relevo) de homem, com toga. Tem
várias figuras d'homêns, todas aladas, e uma
junta de bôis, puthando a um drado, a cuja
rabiça pega um mancebo que os guia. Tem
as quatro estações, figuradas por outras tan-
tas mulheres, com os attributos, ou emble-
mas, proprios.
- Não tem inseripção, mas é de suppôr que
o figurão que aqui jazia, viveu no primeiro
ou segundo seculo do christianismo.
Esta preciosidade archeologica foi vendi-
da pelo seu proprietario, à camara munici-
pal do Porto, por 50 libras, e foi para o seu
museu (Allen) em 1867, e alli se conserva.
Nas immediações do referido logar do
Monte da Azinheira, appareceram outras
muitas sepulturas, a maior parte de mar-
more branco, com ornatos de marmore pre-
to, cobertas de tijolo e cada uma com seu es-
queleto, e vaso lacrimatorio, de barro verde,
vidrado.
Tudo foi destruido, sendo à pedra empre-
gada (depois de partida!) em fazer paredes.
Tambem appareceram algumas urnas ci-
! Sarcophago, não é, como muitos affir-
mam, . synonimo de tumulo, ou mausoleu.
Significa litteralmente, tumulo vazio. Quan-
do o individuo que se queria memorar, ti-'
nha sido sepultado nas ondas, ou que, por
qualquer motivo, não se sabia do cadaver, se
lhe ergia um sarcophago. Então no epita-
phio não se escrevia H. S. E. (hic sepultus
est); a sim A. P. M. (ad perpetuam memo-
riam).
VoLuME vil
REI Err
nerarias, de barro, da capacidade de 40 a 48
litros; pedaços de chumbo, em barras e em
tubos; e algumas moedas romanas, de prata.
Ha por estes sitios vestígios de uma anti-
quissima povoação, como pégões de arcos,
aqueductos, galerias subterraneas, e aboba-
das, dentro das quaes estavam penduradas
pequenas alampadas “de barro (terebratu-
las); alicerces de edificios, mós de moinhos,
tijolos, e outros objectos.
Pretendem alguns antiquarios, que são os
restos da cidade romana Turégia, ou Taure-
régia; mas, se esta povoação existiu, não se
sabe ao certo qual foi a sua situação, ape-
nas se sabe que era na actual provincia do
Alemtejo. D'este logar a Evora, são 35 kilo-
metros, e André de Rezende diz que Turé-
gia ficava a 8 milhas d'Evora (isto é, 16 Kis
lometros, pouco mais ou menos), na estra-
da d'esta cidade para Alcacer do Sal. (Vide
6.º vol., pag. 314, col. 1.º) ;
Tambem no Monte da Azinheira se achou,
no principio d'este seculo, uma lapide com
uma inscripção latina (que não copio, por
ser muito extença) do anno 593 de Roma. +
Para fugir a repetições, remetto o leitor
que quizer saber tudo quanto de antigo diz
respeito a Reguengos, aos artigos Monsaraz
e Ourega.
REGUFE, ou REGOUFE — freguezia, que
existiu na provincia do Minho, comarca e
concelho de Barcellos. A egreja matriz era
no sitio onde hoje se vêem os restos de uma
capella. O orago d'esta freguezia, era o Sal-
vador. Foi encorporada, ha mais de duzentos
annos, à freguezia d'Alheira. Vide esta pa-
lavra.
REI— Tanto das actas braccarenses, como
de quasi todos os documentos escriptos na
baixa latinidade, consta que n'esses tempos
se dava O titulo de rei a todos os grandes
senheres. O mesmo se vê nas historias de
1 Roma foi fundada no 'anno do mundo
3251, ou 753 antes do nascimento de J.-C.,
por consequencia, o anno 593 de Roma, cor-
responde ao anno do mundo 3844, que ê o
anno 160 antes de J.-C.
8
118 REI
Aragão e Navarra, pois se dava o titulo de
rei, ao senhor de qualquer territorio ou co-
marca. E
Durante o dominio dos mouros na Penin-
sula hispanica, tambem elles tomavam este
titulo, se possuiam qualquer cidade ou re-
gião. É por isso que vemos, rei de Lamego,
rei de Coimbra, rei de Santarem, rei de Ba-
dajoz, rei de Cintra, ete., etc.
D. Fernando Magno, dando a seu filho,
D. Garcia (1065), os condados de Portugal e
Galliza, o infante tomou o titulo de rei.
As filhas dos monarchas de Hespanha e de
Portugal, até ao seculo x1rr, se denominavam
rainhas.
Assim se assignava D. Thereza, mulher do
conde D. Henrique, e sua irman (della) D.
Urraca, senhora de uma pequena parte da
provincia de Traz-os-Montes.
O primeiro rei de Portugal que foi ungi-
do, foi D. Affonso V.
REI D'ARMAS — vide 3.º vol., pag. 372,
col. 4.º
REI (S. João de Rei) — freguezia, Minho,
comarca e concelho de Póvoa de Lanhoso.
Já está sob a palavra João de Rei (S.), no 3.º
vol., pag. 414, col. 2.º
Está, ha muitos annos, annexa a esta fre-
guezia a de S. Pedro da Ajuda, ou de Ajude.
Como o facto que vou referir, teve logar
annos depois de publicado o 3.º volume, não
tenho remedio senão relatal-o aqui.
Nasceu n'esta fregueziá e aqui falleceu,
em abril de 1877, Antonio Manuel da
Costa.
Esteve muitos annos no Brazil, onde jun-
tou bons cabedaes. Regressando à sua ter-
ra natal, ahi viveu e morreu na maior mise-
ria, como se fosse um dos mais pobres da
freguezia.
Pelo seu testamento, conheceu-se que dei-
xou uma riqueza superior a oitenta contos
de réis fortes, instituindo por seu herdeiro -
universal um irmão.
Deixou 70 contos de réis nominaes, em |
inscripções de assentamento, metade à0 hos-
pital de S. Marcos, em Braga, e outra me-
tade ao sr. Pinto Leite, do Porto.
REI
Deixou um conto de réis fortes, paraser
distribuido pelos pobres da sua fregugia ;
mas esta deixa foi causa de uma reniida
questão.
Os pobres da freguezia de Ajuda, queiam
ser contemplados, visto que a sua freguzia
estã annexa à de S. João de Rei; porém, os
d'esta freguezia allegaram que Ajuda, son-
tinúa como curato separado, no qual sãofei-
tos todos Os officios parochiaes, desobriga,
etc., e que só no temporal está annexa, não
tendo regedor nem junta de parochia, por
não haver numero de fogos sufficientes jara
isso.
Por fim venceram os de S. Juão de Rei.
Tambem depois de estar publicado + 3.º
volume, recebi os seguintes apontamentos
que teve a bondade de me mandar o pve-
rendissimo' sr. padre José Lopes d'Aratjo e
Silva, da freguezia de S. João de Rei, e que
eu muito agradeço, porque, na verdade, são
curiosissimos.
Peço desculpa de algumas pequenas mas
inevitaveis repetições.
S. João de Rei foi povoado pelo conde
D. Ozorio de Cabreira, filho de D. Sancho
Velloso e de Moninha Forjaz, e descendente
dos reis de Leão; D. Ozorio, veio em 4093,
com o conde D. Henrique, para Portugal;
povoou, e assenhoreou-se das terras de Ca-
breira e Ribeira, S. João de Rei, Berredo e
Lanhoso, e fez o seu solar entre Homem e
Cávado; perto d'Almares, na casa e torre dos
Vasconcellos, da qual ainda ha muitos ves-
tigios. Foi casado, segundo uns, com D. San-
cha Moniz, e segundo outros, com D. Rufa
Moniz, sua prima, e neta de D, Fermaado Ma-
gno, primeiro rei de Castella e Leão.
Sendo, João Affonso de Beça, senhor de
S. João de Rei, perdeu o senhorio d'esta
tgrra e outras, por ser infiel a el-rei D. João I,
e. passou a Lopo Dias d'Azevedo, filho de
Diogo Gonçalves d' Azevedo e de D. Aldonça
| Coelho, senhora de Terras de Bourc, e neta
de Pedro Coelho, valido de D. Affonso IV,
a quem D. Pedro I mandou tirar o coração,
|
REI
pelo peito, em Santarem, estando ainda
vivo. 1
Lopo dias d'Azevedo, era decimo setimo
neto de D. Arnaldo, natural d'Allemanha, da
geração dos imperadores, que veio para Por-
tugal em 4016, na armada dos normandos,
e senhor do couto e casa de Azevedo e Cas-
tro, e de terras de Bouro, que por servir
com muita satisfação e lealdade a el-rei
D. João T, foi armado cavalleiro, pelas mãos
do mesmo rei, na batalha d'Aljubarrota, a
14 d'agosto de 1385, e investido nos senho-
rios de S. João de Rei, Aguiar de Pena, e
Jales em Traz-os-Montes, e nos direitos reaes
da honra de Frazão, no termo do Porto.
S. João de Rei foi concelho, composto de
quatro freguezias, abaixo mencionadas, com
foral dado por el-rei D. Manuel a 25 de de-
zembro de 1514, com o nome de Sanhoane
de Rei.
1 Teve logar esta barbara vingança (mais
do que justo castigo) em 1357, na praça, em
frente do paço real, hoje chamado largo de
Cimo de villa. .
D. Pedro I, de Portugal, pactuára com
seu sobrinho, D. Pedro, tambem 4.º (o Cruel)
de Castella, de este lhe entregar Pedro Coe-
lho, Diogo Lopes Pacheco e Alvaro Gonçal-
ves—os tres asssassinos de D. Ignez de Cas-
tro—e o tio lhe entregar D. Pedro Nunes de
Gusmão, adiantado-mór de Leão; D. Mem
Rodrigues Tenorio; D. Fernando Gudiel de
Toledo e D. Fortão Sanches Calderon (que
foi o mesmo que entregal-os ao carrasco.) O
rei castelhano não pôde entregar senão Al-
varo Gonçalves e Pedro Coelho, porque Dio-
go Lopes Pacheco conseguiu fugir para Fran-
ça, vestido de almocreve.
D. Pedro, apenas viu os dois assassinos,
deu com um azurrague, que sempre trazia,
em Pedro Coelho, que rompeu em publicas
injurias contra o rei. Este disse então. — Olá!
trazei-me sebola e vinagre para este coelho.
Os dois assassinos foram condemnados,
sem fórma alguma de processo. A Coelho,
foi-lhe arrancado o coração pelo peito, e a
Gonçalves, pelas costas, sendo depois quei-
mados na mesma praça, na presença do rei,
que, emquanto os dois cadaveres eram quei-
mados, estava elle jantando a uma janella.
Os fidalgos castelhanos que haviam sido
entregues ,a D. Pedro Cruel, morreram tam-
bem, no meio dos mais atrozes supplicios.
(Os que desejarem saber mais circum-
stanciadamente este facto, vejam 0 3.º vol.,
pag. 250, col. 2.º e seguintes.)
REI 149
'S. Pedro d'Ajude, ao norte de S. João de
Rei, e banhado pela margem esquerda do
Cávado, tinha 30 fogos, em 1850; sendo ab-
bade José Carlos Pereira, annexqu-a a S. João
de Rei, que se achava vaga por fallecimento
do abbade João José d'Araujo. Santa Maria
de Verim, ao poente d'Ajude e sul do Cá-
vado, tem 92 fogos, era commenda de Christo
com a annexa de Friande: a sua egreja é
muito antiga, fui mosteiro dos Templarios,
e sagrada em 14314, pelo arcebispo D. Paio
Mendes; o senhor do concelho, recebia o
sexto dos fructos d'esta freguezia ; tem em
Pégo Negro, margens do Cávado, uma fonte
sulfurea, e medicinal. S. Martinho de Mon-
sul, ao sul de Verim e do Cávado, tem 164
fogos, o logar de Pousadella foi Couto da
Marqueza de Niza, a cadeia e o pelourinho
com a pedra d'armas, estão derribadas; 0 se-
nhor da terra recebia o quinto dos fructos. S.
João de Rei, ao nascente de Monsul, tem com
a annexa d'Ajude 140 fogos; o senhor do con-
celho recebia o quarto dos fructos ; a egreja
d'esta freguezia dista de Braga 16 kilome-
tros, d'ella se desfructa a ribeira do Cávado
desde o Salgueiral até quasi á sua foz, que é
em Fão. Os senhores d'esta terra perderam to-
dos os foros e regalias que tinham, e os seus
descendentes ainda aqui possuem algumas
propriedades e uma casa em ruinas.
" Produz em annos temperados, muito pão,
bom vinho, muito azeite, laranja e mais fru-
ctas; caça de monte, coelho, lebre e perdiz;
do rio, vogas, escalos, barbos, algumas tru-
tas, e em alguns annos lampréas e salmões.
Em 1836, reuniu-se este concelho ao da
Povoa de Lanhoso, e por carta de lei, de 4 de
julho de 1837, tornou a ser reintegrado, ad-
dicionando-se-lhe as sete freguezias seguin-
tes: Santo André de Friande, que pertencia
ao concelho da Ribeira de Sôas, tem 126 fo-
gos, e é banhada pela margem esquerda do
Cávado. As seguintes pertenciam à Povoa
de Lanhoso: S. Martinho d'Aguas Santas,
ao sul do Cávado, de 130 fogos, Santa Maria
de Moure, ao sul de Aguas Santas, de 84 fo-
gos; já não existe n'esta freguezia o celebre
castanheiro, que dava um moio de castanhas,
nem a vide que dava trinta almudes de vi-
nho, como diz o padre Antonio de Carvalho
120 REI
na sua Corographia, mas ainda hoje ha perto
da egreja uma carvalha que dá quarenta
alqueires de bolotas, ou oito centos litros
pouco mais ou menos; 8. Julião de Covellas
ao sul de Moure, de 66 fogos; S. Martinho |
de Ferreiros, ao nascente de Covellas, de
98 fogos; ainda existe n'esta freguezia a casa
e torre que foi solar dos Machados; Santo
Estevão de Geraz e Santa Tecla, annexas, ão
nascente de Ferreiros, de 154 fogos. Já não
existe n'esta freêguezia a torre de Berrêdo,
solar dos Berrêdos, como diz o padre Car-
valho. .
REI SALVADOR — freguezia, Alemtejo,
comarca d'Elvas, concelho de Monforte (em
24 de-outubro de 1855 passou para o con-
celho da'Fronteira, mas, em 18 de dezembro
de 1872, tornou para o concelho de Mon-
forte), 24 kilometros d'Elvas, 270 ao E. de
Lisboa, 45 fogos.
Em 1757, tinha 38 fogos.
Orago, o Salvador.
Bispado d'Elvas, districto administrativo
de Portalegre.
A mitra apresentava'o prior, collado, que
tinha de rendimento (a que chamam bóllo)
180 alqueires de trigo.
É terra fertil em cereaes.
REIGADA ou ARREIGADA ! — villa, Bei-
ra Baixa, concelho a 12 kilometros ao N. de
Almeida, comarca de Pinhel (foi da comarca
do Sabugal) 12 kilometros a E. de Pinhel,
333 a E. de Lisboa, 110 fogos.
Orago, S. Vicente, martyr.
Districto administrativo da Guarda, pa-
triarchado de Lisboa, por ser do grão-prio-
rado do Crato. |
Não vem no Portugal Sacro e Profano,
por esquecimento, pois é freguezia muito
antiga.
É a melhor povoação do concelho, e está
situada em uma fertil planície.
O rei D. Manuel lhe deu foral, em Evora,
1 Esta villa já fica descripta, sob o nome
de Arreigada, no 4.º vol, pag. 238 PP, col..
4.º: (a 22 Arreigada) mas aqui rectifico al-
guns êrros, causados pela posterior mudan-
ca de divisão administrativa, e augmento o
mais que d'esta povoação vim a saber.
REI
a 15 de novembro de 1519. (Livro de foaes
novos da Beira, folha 157, col. 1.º).
Tem foral novissimo, dado por D. JoadV,
em 4650, dando-lhe então o titulo de vila.
REIGADO ou ARREIGADO—portuguezan-
tigo ainda muito usado.
O que está connaturalisado, firme, fixo es-
tabelecido em alguma terra, tendo casa fa-
milia.
Mando, que o Alcaide meor da Villa, seja
vesinho, ou se faça vesinho arreigado, con'é
de costume. 4
(Documento da camara secular de Cim-
bra, de 1331).
Guardem bem as Gidades e Villas, comho-
mens jurados naturaes, ou moradores erei-
gados na terra.
(Codigo alf., liv. 4.º tit. 30, in princ).
Ao pé da letra, significa o que garhou
raizes, radicado.
REIGAMENTO ou ARREIGAMENTO —or-
tuguez antigo, fiança ou abono de pessoa
que estava reigada na terra. ;
Mando, que este arreigamento, quando se
ouver a fazer, que se faça nas naves em-
barcações) que esteverem na aqua, quetan-
gerem: o seu termho de villa Nova, ou Gaya.
E este arreigamento “se não deve fazer n'a-
quelles averes, cujos'donos forem arreigados,
por aver outros jhadores. da
Assim o determinou D. Affonso IV, nas
quartas córtes de Santarem, de 1340. 1
(Documento da camara do Porto).
REIGOSO —freguezia, Traz-os-Montes, co;
marca,- concelho e 19 kilometros ao SO. de
Montalegre (foi da mesma comarca,'mas do
supprimido, concelho de Ruivães) 51 kilome-
tros a N. E, de Braga, 360 ao N. de Lisboa,
110 fogos:
Em 1757, tinha 68 fogos.
Orago, S. Martinho, bispo.
Arcebispado-de Braga, districto adminis-
trativo de Villa Real.
1 Viterbo diz que estas côrtes foram con-
vocadas por D.'Affonso:IV, em 1369. E erro,
foram em 1340. Em 1369 já D. Pedro I rei-
nava havia 12 annos, porque seu pae falle-
céra em Lisboa, a 28 de maio de 1357. As
ultimas côrtes a que presidiu D. Affonso IV,
foram as quartas de Lisboa, convocadas em
1352. (Volume 2.º, pagina 393, col. 1.º).
REI
O abbade de S. Pedro do Covéllo do Ge-
rêz, apresentava o vigario collado, que tinha
808000 réis e o pé de altar.
Esta: freguezia está situada em terreno le-
vemente aceidentado, na margem direita do
Regavão, que lhe corre ao sul.
A 'egreja matriz, foi construida em 1614.
A parochia compõe-se de trez aldeias, Rei-
goso, séde da parochia; Ladrugães, e Cur-
raes.
Tem duas capellas publicas — uma, dedi-
cada a S. Lourenço, em Ladrugães — outra
de 8. Miguel, em Curraes.
Fica a freguezia, abrigada do norte, pela
serra de Lamas, é é abundante d'aguas, o que
a torna muito fertil em milho, centeio, bata-
tas e feijões.
Antigaroente produzia algum vinho verde ;
mas hoje não o ha n'esta terra.
Pelo centro da freguezia, passa a antiga
estrada de Braga, para Montalegre.
Pelo E. da freguezia, corre o ribeiro de
Vallongo, que nasce na serra da homba do
Rêgo, proximo a Fervidellas, e morre, com
6 kilometros de curso, no iRegavão.
Réga, móe, e traz algum peixe miudo.
REIGOSO — freguezia, Beira Alta, comar-
ca de Vousella, concelho de Oliveira de Fra-
des, 30 kilometros ao N. de Vizeu, 270 ao
N. de Lisboa, 100 fogos.
Em 1757, tinha 69 fogos.
Orago, S. Lourenço.
Bispado e districto administrativo de Vi-
zeu.
A mitra apresêntava o abbade, que tinha
2508000 réis de rendimento.
É terra fertil, em gado é caça.
REIMBRAR — portiguez antigo, (tambem
se dizia remembrar e renembrar) lembrar.
D'aquireimbrança, recordação, lembrança.
Ne dl do verba saxonio, remember (lem,
brar). »
Os iloria ainda teem'o nd com
a mesma significação. É
REIMONDA ou REYMONDA — já está sob
a palavra Raimondo, aqui acerescento:
Reimondo, ou Reymondo, é appellido no-
bre em Portugal. Veio da Galliza, mas não
se sabe quem o trouxe a este reino. O 4.º |
que se acha com este appellido, é João Rei-
REL 121
mondo, alcaide mór de Lisboa, que assistiu
à doação" que o rei D. Diniz fez da villa da
Lourinhan, a seu filho bastardo, D. Affonso
Sanches, conde de Albuquerque. (Vide villa
do Conde).
As armas dos Reimondos, são — escudo
esquartellado — no 4.º e 4.º, de azul, uma
flor de liz, de prata — no 2.º e 3.º, do mes-
mo, uma arvore verde. Timbre, um peixe
(reimão) de prata, com um ramo da arvore
do escudo, na bocca.
REITOR — portuguez antigo, juiz árbitro-
Hoje dá-se o nome de reitor ao que rege
a universidade, ou qualquer egreja.
Na cathegoria ecclesiastica, reitor é o lo-
gar intermediario entre o vigario e:0 ab-
bade.
RELAMPADO ou RELAMPADOS —portu-
guez: ântigo — aliviado, abolido, relaxado,
extincto.
Seria proveito dá vossa terra taaes degre-
dos serem relampados.
(Côrtes de Leiria e Santarem, convocadas
por D. Duarte 1, em 14934.
Vide vol. 2.º, pag. 394, col. 2.º
RELAÇOM — portuguez antigo. — Casa da
relaçom, a que hoje chamamos casa da ca-
mara.
Fazer relaçom, era o mesmo que dizer-—
dar audiencia, fazer justiça às partes.
"RELEGADO — portuguez antigo — pegado,
prêso, unido, aferrado.
Vem do latino religatus.
"Não tem em eilas havenças, que os tenham
relegados, e de ligeiro se vão, quando lhes
praz.
(Documento da camara:;do Porto, de 1439.)
Relegado era synonimp de telego.
O vinho eia era o que se vendia no
relêgo.
RELEGAGEM — — portuguez antigo — certa
pensão ou fôro que se pagava do vinho ven-
dido por algum particular, emquanto dura-
va o relêgo.
Era de/10 até 15 soldos por tonel.
(Documento da camara sectilar de Coim-
bra, de 1361).
Na cidade de Silves, se pagava de relega-
“gem, por cada carga cavallar, um almude, e
por carga asnal, meio almude.
122 REL
(Documento da camara de Silves, de 1398).
RELÊGO — portuguez antigo — parece ser
contracção, ou abreviatura, de regalengo.
Era um direito com que o soberano, ou
seu donatario, podia livremente vender o
vinho que nos seus reguengos, coutos ou ju-
gadas se criava: e isso, em certos mezes, é
por uns tantos dias, durante os quaes mais
ninguém podia vender vinho sem se expor
à pena de relegagem.
O tempo do relego, vinha marcado nos
foraes, provisões, ou carta de mercê.
É por isto que tambem 'se dava o nome
de relêgo, ao lagar, tulha, adega ou celleiro;
em que O tal vinho se fazia' e guardava.
RELÊGO — portuguez antigo—tambem se
dava este nome ao a que nós hoje chama-
mos relêvo. EAR
Huus castiçaes de prata, dourados, e la-
vrados de sinzel de meio relêgo.
(Documento de Alpendurada, de 1346).
RÊLHO — portuguez antigo — o fecho, ou
fivelão com que se apertavam ôs cintos pre-
ciosos das senhoras portuguezas.
RELIGAS — portuguez fantigo — reliquias
de santos.
Mando as minhas religas, a minha filha,
D. Berengueira.
(Documento de Almoster, do 1287).
RELIQUIAS — freguezia, Alemtejo, comar-
ca e concelho de Odemira, (foi do mesmo
concelho, mas da comarca de Ourique) 105
kilometros ao O. d'Evora, 140. ao 8. E. de
Lisboa, 250 fogos.
Em 1757, tinha 160 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
Bispado e districto administrativo de Beja.
(Foi do arcebispado d'Evora, até à crea-
ção do de Béja).
A mitra apresentava o cura, que tiuhá 198
alqueires de trigo. ú
É terra fertilissima em cereaes. Mito
gado e caça.
Em um domingo, 5 de septeraira de 1873,
pelas 9 horas da manhân, prineipiou um
pavoroso indendio, na herdade do Valle da
Casca, freguezia de S. Luiz, e propagou-se
com tal velocidade, quê, pouco depois, ar-
diam soberbas mattas, pertencentes às fre-
guezias do Salvador, e das Reliquias:
REM
Causou enormes prejuizss aos seus pro-
prietarios.
REM-— portuguez antigo—cousa—vem do
latino rem. Até ao seculo 11.º significava as
couzas que qualquer possuia, tanto em mo-
veis, como em imoveis ou sempventes.
Em 4061, reinando D. Fernando Magno,
fez o presbytero Fromosinho Romariguiz,
doação a seu filho, o padre Sandila—de Ba-
seticas, et omnia suo rem, etc.—Desherdan-
do o mesmo presbytero Fromosinho, a seu
filho Fernando, por lhe ser desobediente, diz
—pra quo exivi meo filio Fernando, de meo
praecepto, exhaeredavi cum de tota mea rem.
(Doc, d'Alpendurada, de 1062.) )
REM—portuguez antigo — absolutamente
nada, cousa nenhuma. Esta era a significa-
ção d'este vocabulo, nos documentos dos se-
culos 12.º, 43.º e 14.º Vem do francez rien
(talvez já viesse dos gallos-celtas.) Os fran-
cezes modernos, para darem mais força à
expressão, dizem rien du tout.
REMAESCER — portuguez antigo — ficar,
restar. Vem do latino remaneo. (Doc. de Sar-
zedas, do anno de 1312).
REMEDIOS (Nossa Senhora dos) — Vide
h.º vol., pag. 41, col. 4.º—a 2.º Lamellas.
Ao que então disse, tenho a accrescentar
os successos posteriores.
Depois de 23 annos de assiduos trabalhos
do ermitão José Lopes, para a conclusão do
formoso templo de Nossa Senhora dos Re-
medios da Divina Providencia, na aldeia de |
Lamellas, freguezia, concelho e comarica 'de
Castro Daire, e por ordem do sr. bispo de |
Lamego, foram, no sabbado de Ramos, 13
de abril de 1878, em visita ao novo-templo,
o arcipreste do districto, o reverendo sff. An-
tonio Bizarro, e o abbade da respectiva fre- |
guezia, o reverendo sr. João de Barros, com |
auctorisação para benzerem a egreja e ser |
admittida ao culto divino, se a achassem nas |
circumstancias. ,
Ficaram os dois ecclesiasticos maravvilha-
dos do que viram. O templo estáva no maior |
aceio.; o altar-mór de bella talha modlerna,
com o sem thronô para a exposição do» San-
tissimo, e n'elle uma rica banqueta nova, |
dourada, e mais quatro altares lateraess, com |
formosissimas imagens, e, alem disso, todos |
*
REM
os mais paramentos e alfaias necessarias,
sendo alguns destes objectos de grande
preço.
O sr. arcipreste, como visitador, marcou
logo o dia 30 d'aquelle mez, para a benção
do têémplo, e assim se effectuou.
Foi esse-um dia do maior rigosijo para
os fieis d'aquelles sitios, que todos concor-
reram a esta solemnidade. Todos os bemfei-
tores da obra e-grande numero de senhoras
e cavalheiros, das principaes familias de
Castro Daire e outras povoações, se acharam
presentes a este acto.
Os meninos de Baltar, Villa-Pouca, Santa
Margarida, Farejinhas e Lamellas, prévia-
mente ensaiados pelo digno capellão da nova
- egreja, entoaram alegres canticos a Nossa
Senhora dos Remedios.
Houve missa cantada, em acção de gra-
ças, estreando-se então os riquissimos pa-
ramentos e frontal, houve um commovente
sermão, e missas resadas, nos altares late-
raes.
Todas as provincias de Portugal concor-.
reram para esta obra, menos a do Algarve,
onde José Lopes não foi, e Assim um homem
pobre e analphabeto, à força de incommo-
dos, humiliações e perseverança, conseguiu
levar ao cabo, com feliz exito, uma empreza
a que outro qualquer, em melhores cir-
cumstancias, se não abalançaria.
A Santissima Virgem lhe pagará na glo-
ria eterna os trabalhos a que elle se sujei-
tou n'esta vida, para lhe erigir um templo,
digno da Rainha dos Anjos.
REMEDIOS (Nossa Senhora dos) — Vide
Peniche.
Depois de escripto o artigo d'esta villa e
praça de guerra, teve alli logar o facto se-
guinte. :
Em maio de 1877, deu à costa, no Cabo
Carvoeiro, proximo ao templo de Nossa Se-
nhora dos Remedios, um enorme sperma-
cete, já sem cabeça, e ao qual o povo deu o
nome de baleia. Foi vendido por 1003000
réis, para se lhe extrahir o azeite e à pre-
“ciosa gordura, a que se dão 0 nomê de sper-
mácete, matéria bem conhecida.
Foi enorme o conturso dê povo para vêr
o monstruoso cetaceo. eh
REM 123
REMEDIOS (Nossa Senhora dos) — Vide
Lamego.
REMEDIOS (Nossa Senhora dos) — San-
ctuario, na Extremadura, freguezia d'Al-
vega, concelho e 12 kilometros ao S. de
Abrantes. (Vol. 1.º, pag. 176, col. 2.º)
É um bom templo, com 9 metros de com-
prido, por 4 e meio de largo, todo revestido
de azulejo, interiormente, no corpo da égre-
ja, e tem mais a capella-mór, tambem azu-
lejada, com 3,770 de comprido, por 3 de
largo. Tem altar-môr e dois lateraes: sa-
christia, de abobada, e alpendre.
Segundo a tradição, esta ermida fvi egre-
ja matriz de uma freguezia que já não exis-
te, e à qual pertencia a actual villa do Sar-
doal. Tinha prior, que dizia missa e admi-
nistrav» OS sacramentos aos freguezes, me-
nos o do baptismo, que se hia administrar
à ermida de S. Simão, que fica ao'N. do
Sardoal, e onde ainda existia em 1730, a pia
baptismal.
(Para evitar repetições, vide Sardoal).
A festa da Senhora dos Remedios, de Al-
vega, costuma fazer-se a 15 d'agosto, e é
concorridissima; porém a maior de que ha
noticia, foi feita em agosto de 1877, sendo
juiz (reitor) o sr. D. Miguel Pereira Couti-
nho, que então era deputado às cortes, pelo
circulo d'Abrantes.
Alem da devoção que os povos d'estas re-
dondezas teem à Senhora dos Remedios, ac-
crescia a circumstancia de haver a cumprir
muitos votos que foram feitos pela occasião
das inundações do inverno de 1876, inva-
dindo o Tejo completamente o logar de Al-
vega, arrazando quatro casas, e causando 0u-
tros grandes prejuizos, não havendo toda-
via desgraças pessoaes a lamentar.
Houve na vespera da festa, um esplendi-
do fogo de artifício, musica e arraial, e no
dia, missa cantada, sermão, Te-Deum lauda-.
mus (em acção de graças, por não mofrer
ninguem na inundação) e grande concurso
de povo d'estes “arredores, que. correu a
dar graças à Santissima Virgem pelos bene-
ficios recebidos.
REMEDIOS (Nossa Senhora dos) — San-
tuario; Beira Baixa, na freguezia d'Alfrivida,
ou Alfrevida, no concelho de Villa Velha do
124 REM
Rodam, comarca, districto administrativo,
bispado, e 12 kilometros de Castello-Branco.
Fica o templo da Senhora a;pouca distan-
cia da ribeira de Alfrivida, muito abundante
de peixe, que lhe entra do rio Tejo, no qual,
a pouca distancia, se vae metter.
Seguudo a lenda, a imagem da Santissima
Virgem appareceu no tronco de uma so-
breira, que estava junto de uma: fonte em
terreno dos ascendentes de Manuel Brandão
Castello-Branco, os quaes levaram para sua
casa a santa imagem, em quanto se lhe não
construiu ermida propria, para a obra da
“qual muito concorreram os mesmos, e to-,
do o povo do logar.,
Como a imagem apparecida é muito pe-
quenina, pois só tem palmo e meio (0,733)
d'alto, se mandou fazer outra da mesma in-
vocação, para estar no altar-mór; de 1,710
d'alto, e de boa esculptura.
O templo é grande e bello; tem um espa-
goso alpendre, com uma fonte, a cuja agua
attribue o povo muitas. virtudes therapeu-
ticas.
REMEDIOS (Nossa ano dos) — San-
ctuario, Beira Baixa, na freguezia, concelho,
comarca, districto administrativo, bispado,
e 2 kilometros da Guarda. |
Está a egreja da. Senhora dos Remedios
na estrada que vae da cidade para a vilia
do Sabugal.
Foi fundada por Simão Antunes a Pina,
prior de trez egrejas (S. Pedro de Jarméilo,
S. Pedro da Remolla, e S. Pedro da Cidade)
clerigo de grandes virtudes e muito devoto
da Santissima Virgem, e que vivia no meia-
do do seculo xvi.
“Segundo a tradição, o motivo que levou o
padre Simão a edificar este templo, e dedi-
cal-o a Nossa Senhora dos Remedios foi o
seguinte:
O logar onde hoje vemos a egreja, era
triste e solitario, e, nem-pastores, nem ca-
minhantes se atreviam a passar por alli de
noite, porque lhes appareciam medonhos
Phantasmas que os aterravam, pois que as
bruxas e duendes vinham qui fazer as suas
reuniões (sabbaths) por ser uma encrusi-
lhada das estradas que vem da Aldeia. do
Bispo, para a Povoa de Milleu, e da referi-
REM
da, para o Sabugal. Alem disso era o sitio
um emaranhado mattagal, habitado por ani-
maes ferozes de varias especies.
Feita a egreja, e destruidos os mattos a
uma grande distancia em redor, ficou o si-
tio limpo e alegre, e nunça mais alli foram
vistos os taes phantasmas. i
Esta egreja pertence à freguezia da Sé,
cujo parocho apresentava o capellão.
Instituiu-se logo uma irmandade, que
mandava. aqui, em todos os primeiros sab-
bados de cada mez, dizer uma missa pelas
almas dos irmãos vivos e defuntos.
Conta a tradição, que no primeiro sabba-
do de agosto de 1696, estando o padre Fran-
cisco da Guerra, natural da cidade e capel--
lão da Senhora, para dizer missa, viu-se que
não havia agua. Um dos confrades da irman-
dade, que tinha uma enxada na mão, disse:
—«Se à Senhora quizesse, bem podia fazer
aqui rebentar uma fonte» e cavando no chão,
logo à segunda cavadella nasceu um maman-
cial de agua perenne, e é a que está nO al-
pendre.
Tanto se propagou a devoção à Senlhora,,
que. concorriam a visital-a, não só 08 lhabi-
tantes da cidade, mas os de muitas lesgguas
de distancia, e trazendo-lhe grande partes dos
romeiros, toda a qualidade de ex-votos (e of-
fertas.
Como o concurso dos romeiros crescia de
anno para anno, se ampliou o templo), fa-
zendo-se lhe uma nova capella-mór, de «can-
taria lavrada, e é hoje um bom templo,, ain-
da bastante visitado dos fieis.
REMEDIOS (Nossa Senhora dos) —Eixtre-
madura, no bairro d'Alfama, hoje denaomi-
nado bairro oriental, na cidade de Lisbboa.
Está esta egreja no principio da rua: canti-
gamente chamada das Portas da Cruz, ee ho-
je, rua dos Remedios, na freguezia de, S3anto
Estevam e perito das célebres obras de SSanta
Engracia. |
Eis à origem desta egreja :
Pelos annos de 1470, ainda não haviãa em
Lisboa hospital, da Misericordia (que sóó fai
principiado em 1492) e os pescadores do » alto,
com o fim de accudirem aos seus collegass en-
fermos, instituiram uma irmandade, denaomi-
nada do Espirito Santo, e, como não tinnham
REM
casa propria, esteve a irmandade na egreja
parochial de S. Miguel, de Alfama; mas só
tinha por fim os sufiragios dos irmãos falle-
cidos e o seu enterro em tumba propria.
Suscrando-se algumas duvidas e conten-
das com os clerigos, por causa de interesses
insignificantes, decidiram construir egreja
propria.
Escolheram o sitio, no logar onde acaba a
rua da Regueira e principia a das Portas da
Cruz, e alli construiram um bom templo,
(1581) de boa architectura e grande robus-
tez, e o dedicaram ao Espirito Santo.
Bullas pontificaes approvaram ps estatu-
tos d'esta irmandade, e lhe concederam va-
rios previlegios.
Foram continuando por muitos annos, com
a sua tumba levantada, e coberta com um
rico panno de velludo preto, com barra,e
cruz de brocado de ouro, franjado do mes-
mo, e uma riquissima cruz, com sua manga
egual ao panno da tumba, e tudo com a di-
visa do Espirito Santo, que era uma pomba
branca, cercada de um resplandor de ouro-
Enterravam não só os irmãos, mas tam-
bem suas mulheres, filhos, creados e escra-
vos, mandando-lhes fazer os suffragios dos
estatutos, e tudo gratuitamente.
Á egreja annexaram um hospital de cari-
dade, para os irmãos, pobres, e aos que fal-
leciam davam mortalha e sepultura, e: man-
davam-lhe dizer certo numero de missas.
“Instituido o hospital, da Misericordia na
praça do Rogio (hospital de Todos os San -
tos) oppoz-se a direcção d'estehospital, a que
irmandade do Espirito Santo enterrasse 08
seus defuntos com tumba levantada, e sus-
citou-se renhida demanda; porem sendo pro-
vedor do hospital de todos os Santos, Ma-
thias d' Albuquerque, veio a um accôrdo com
os pescadores, que, por escriptura publica,
de 12 de agosto de 1602, se obrigaram a
mandar enterrar sómente os irmãos, suas
mulheres e filhos (em quanto estes estives-
sem debaixo do patrio poder) e mais nin-
guem.
Até aqui ainda se não falla de Nossa. Se-
nhora dos Remedios, pelo que o seu appa-
recimento parece ser posterior ao, anno de
1602.
REM 125
Na egreja do Espirito Santo, havia um
poço, à entrada da porta.principal, em um
canto à esquerda.
Hindo am servente de pedreiro tirar agua
do poço, veio no balde uma imagem da San-
tissima Virgem, o que causou grande sur-
preza e alegria aos officiaes da, irmandade.
Foi tão grande a devoção que o povo prin-
cipiou a ter com esta santa imagem (a que
deu o titulo de Nossa Senhorasdos Reme-
dios) que pouco a pouco foi esquecendo a
denominação do antigo padroeiro, e dando-
se-lhe a dos Remedios; e mais tarde se deu
o mesmo nome à rya onde a egreja está si-
tuada, nome que ainda hoje conserva.
A rua dos Remedios, prin-
cipia pelo S.0., na Ribeira-Ve-
lha, no largo do chafariz de
Dentro (mesmo junto ao chafa-
riz) e finda na rua do Paraizo
(vide Portas da Cruz).
A rua da Regueira, é a pri-
meira à esquerda na rua dos
Remedios, indo do lado do
chafariz de Dentro, e finda no
-Jargo do Salvador, que per-
tence às freguezias de S. Vi-
cente de Fóra, S. Miguel, e
Santq Estevam.
REMEDIOS (Nossa Senhora dos) —santua-
rio, na Extremadura, na freguezia da Espi-
candeira. (Vol. 3.º, pag. 60, col. 2.º)
«À egreja de Nossa Senhora dos Remedios
fica perto da aldeia da Espiçandeira, e, se-
gundo as, memorias escriptas no livro das
visitas da freguezia, a sua origem é a se-
guinte : *
Em 1410, andando Miguel, filho de Miguel
Leitão, do logar da Bordalia, e Cosme, filho
de Thomaz Gomes, do logar da Patacaria
(ou Petacaria) ambos de menor, edade, à
brincar junto a uma fonte que está em um
souto de arvores silvestres, proximo ao dito
logar da Bordalia, acharam sobre a mesma
fonte, uma imagem da Santissima Virgem,
de 1,710 d'alto, e de uma perfeita escul-
ptura,
Correram as duas creanças a dar parte do
achado a seus paes e visinhos, os quaes
tendo o caso por milagroso, trataram logo
126 REM
de construir uma ermida à Senhora, à qual
deram a invocação dos Remedios, no mesmo
logar da Bordalia, e logo appareceu um de-
voto que quiz ser eremitão da Senhbra.
Toda a gente da freguezia e circumvisi-
nhas, principiou logo a ter grande devoção
com à Senhora, e lhe faziam muitas roma-
gens e ofertas.
Á agua da fonte onde a Senhora appare-
ceu, attribuem a virtude de curar as febres
intermitentes, molestia endemica d'estes si-
tios.
Faziam-se a esta Senhora duas grandes
festas cada anno, uma à 11 d'agosto, e outra
a 8 de setembro, ás quaes concorriam não
só Os povos da freguezia e immediatas, como
das villas'de Alemquer, Azambuja, Pontével,
e Santarem.
Parece que a razão porque se lhe fazia a
primeira festa a 14 d'agosto, é por que n'esse
dia é que foi achada pelos dois meninos.
REMEDIOS (Nossa Senhora dos) — san-
tuario, Extremadura, na freguezia de S. Vi-
cente do Paúl (6.º vol. » PAS. 907, col. 1.2, ul-
tima linha).
Esta egreja já fica descripta no mesmo
6.º vol. a pag. 688, col. 2.2
Todos os mais santuarios
de Nossa Senhora dos Re-
medios, vão nos logares on-
de estão situados.
REMÊÉLHE —freguezia, Minho, comarca e
concelho de Barcellos, 48 kilometros ao O.
de Braga, 360 ao N. de Lisboa, 120 fogos.
Em 41757, tinha 85 fogos, comprehenden-
do a freguezia de Molde, annexa.
O orago da freguezia de Remelhe, é Santa
Marinha, e o de Molde, é S. Thidgo apos-
tolo.
Arcebispado e GisinICIO administrativo de
Braga.
O real padroado apresentava o cura, de
ambas as freguezias, que tinhá de rendimen-
mento 552000 réis e o pé d'altar.
REMELLA— Vide Ramella.
REMEMBRAR — pon ua Vide
Reimbrar.
REMIMAR — portuguez antigo — remir,
esgatar, perdoar. (Doc. d'A Ipendurada, de
REN
de 1286 e 1336.) Daqui, remimento, remis- |
são, resgate, perdão, etc.
REMOÃES-—freguezia, Alto-Minho, comar-
ca e concelho de Melgaço (foi do mesmo con- |
celho, mas da comarca de Monção) 70 Kilo-
metros ao N. de Braga, 430 ao N. de Lis- |
| boa, 56 fogos.
Em 1757, tinha 50 fogos.
Orago, 8. João Baptista.
Arcebispado de Braga, e districto admi-
histrativo de Vianna. |
O abbadê de S. Payo de Melgaço, ápre-
sentava 0 vigario, collado, que tinha 85000
réis de congrua e'o pé d'altar.
Clima excessivo e pouco fertil. *
REMOÉLLA — portuguez antigo — acinte,
pirraça, desfeita, etc. |
REMONDES ou REIMÔNDES — freguezias |
Traz:;os-Montes, comarca e concelho do Mo- |
gadouro, 180 kilametros ao N.E. de Braga, |
410 ao N. de Lisboa, 70 fogos. |
Em 1757, tinha 60 fogos.
Orago, Santa Catharina, virgem e mar-
tyr. , ;
“Arcebispado de Braga, districto adminis. |
trativo de Bragança.
O real padroado apresentava o cura, que |
tinha 84000 réis de congrua e o pé de al-|
tar.
O nome desta freguezia iglinca fito,
ou dá familia de Reymondo (Raymundio). De-
pois dizia-se Raymundes.
REMOUCO—ribeira, Douro, no concelho |
da Tábua. Nasce perto da aldeia de' Olar, e.
depois de tomar o nome de Ribeira d” Ázere, |
desagúa no Mondego.
RENDAR —portuguez antigo—pagarr foros» |
pensões, ou rendas. É dos seculos 12:.º, 43.º
e 14.º ;
RENDER —portuguez antigo—pagar. Atá |
que rendamos a vós, a dita patte das; erda- |
des dobradas. (Doc. da universidade, de; 1323.) .
RENDO-fr reguezia, Beira Baixa, (no Riba- |
Côa) comarca e concelho do Sabugal, 420
kilometros ao S.E. de Lamego, 300 a E. de
Lisboa, 175 fogos.
Em 1757, tinha 188 fogos.
"Orago, S. Sebastião, martyr. !
"Bispado de Pinhel, districto adminisitrativo
da Guarda. ,
REN
REN 127
O arcediágo do Côa (da Sé de Lamego, à pre virem, que no Anno do Nascimento de
cujo bispado pertenceu esta freguezia até à | Nosso Senhor Jesus Christo de mil quinhen-
“ereação do de Pinhel) apresentava o cura,
que tinha-408000 réis e o pé d'alltar.
RENDUDO—portuguez antigo—rendido.
RENDUFE — freguezia, Minho, comarca e
2 kilometros a E. de Villa Verde, concelho
e 5 kilometros a O. d'Amares (atté 1855, do
mesmo coúcelho, mas da tomara do Pico
de Regalados), 9 kilometros ao N..O. de Bra-
ga, 370 ao N. de Lisboa.
Tem 180 fogos.
Em 1757, tinha 186 fogos.
Orago-Santo André, apostolo. Mas da fre-
guezia primitiva (capella) era a Santissima
Trindade.
Arcebispado e districto adminiistrativo de
Braga. ?
O templo do extincto mosteiro; benedicti-
no serve de egreja EUR d'esta fregue-
zia.
For villa e couto, com justiças proprias;
mas nunca teve foral, velho ou movo. !
O D. abbade do mosteiro de Remdufe, apre-
sentava o parocho, que era um monge do
mosteiro, de nomeação triennal, e tinha
63000 réis, de congrua, e o pé d”altar.
O nome de Rendufe, procede de D. Ren-
dufo, marido de D. Acha, senhor d'este lo-
gar. Vide adiante. *
A antiga egreja matriz era, segundo a tra-
dição geral" na freguezia, a pequena capella
de S. Braz, com a denominação de Santissi-
ma Trindade da Capella, segundio Carvalho
eo Port. Sacro e Profano, ou, segundo o do-
cumento seguinte, o Salvador da: Capella.
No anno de 1596 passou a ser matriz d'es-
ta freguezia a egreja do mosteiro, como
consta do traslado d'uma escriptiura, que se
conserva no archivo parochial, ceilebrada en-
tre os reverendos padres do mosteiro e Os
freguezes da Capella, cujo theor é o seguin-
te: — «Contracto dos muito reverendos pa-
dres do mosteiro de Rendufe e os freguezes
da Capella. g n
«Em nome de Deus. Amen. Saibão quan- |
tos este instrimento de obrigaçam para sem- |
! O coúto era só no civel) com Juiz, eleito
ne monges. O D. abbade servia de ouvi-
or
| tos noventa e seis anhos, aos treze dias do
mez de outubro do dito anno, em este mos-
teire' de Santo André de Rendnfe, que está
sito em seu couto, deste concelho de Entre
Homem e Cávado, na casa do capitulo do
dicto mosteiro, estando em elle fazendo
capitulo, por som de campa, tangida, sê-
gundo seu uzo e antigo costume, o muito
reverendo padre frei Engenzo de San-Thia -
go, abbade do dito mosteiro, e o padre frei
Urbano, prior, e frei Francisco das Chagas,
e frei Anselmo da Conceição, e frei Felix, e
frei Roberto, e frei Pedro, e frei João, e os
mais padres abaixo assignados, todos mon-
ges-e conventuaes do dieto mosteiro, e por
elles foi dito perante mim taballiam e tes-
temunhas, tudo ao diante nomeada, que a
mayor parte dos freguezes da freguezia do
Salvador da Capella, anexa ao dito seú mos-
teiro, tinhão dito e consentido que eram con-
tentes que a dita freguezia da Capella, se
tornasse a encorporar no dito mosteiro, co-
mo já em tempo antigo foi, por lhes parecer
ser serviço de Nosso Senhor e proveito de
suas almas, o que unhão assignado em hum
autho que disso fez Manoel Pereira, notário
apostolico; feito no mesmo dia, o. que fizeram
assignaram com a condiçam que elle padre
abbade e convento os desobrigasse de toda
a fabrica da dita Igreja perpetuamente para
sempre, e porque. elles padres eram disso
contentes se obrigaram em seus nomes e seu.
mosteiro e Successores a fazerem sempre à
dita fabrica e tudo o mais necessario para
se administrar os Sanctissimos Sacramentos;
e todas às obras que se em todo o tempo fi-
zerem e mandarem fazer por vesitaçam e
vesitaçoens e de outrá qualquer maneira
que seja necessario, porque elles padres des-
obrigam os freguezes disso é os querem às
suas custas fazerem Sempre e lhes farão seu
| altar dentro do dito mostéiro em parte cóm-
| moda......! os ture como sempre foram
curados é lhes manúdarão tanger*os sinos
| quando for necessario e: aos defuntos de
' graça e os bancos e toda a fabrica para 0
1 Está uma palavra que se não pôde lêr
po? estar o papel carcomido.
128 REN
presente e futuro, de hoje para sempre, e
que darão no dito mosteiro adro commodo
onde se sepultem e que querendo qualquer
dos dictos freguezes trazer os ossos de seus
antepassados da dita Igreja ao mosteiro, lhes
darão sepultura assim dentro no mosteiro
gomo fora, assim como os tem na dita Igre-
ja; finalmente estarão em sua freguezia no
dicto mosteiro como sempre estiveram na
Igreja sem fazerem os freguezes cousa algu-
ma de fabrica, e que os freguezes terão suas
confrarias livremente como sempre tiveram
sem elles padres dominarem nellas, nem im-
pedirem em cousa alguma e ficarem liber-
tados de tudo ditado, para sempre; e assim
o outorgaram e mandaram escrever, 'e obri-
garam os bens e rendas do dicto seu mos-
teiro ao assim cumprir como se n'esta escri-
ptura contem e eu taballiam como pessoa
publica estipulante e acceitante o estipulei
e acgeitei em nome das partes, a que tocar
possa, que presentes não estivessem, e pe-
dir os instrumentos e os mandarem dar, e
outorgaram estando a tudo presentes por
testemunhas os senhores — Manuel Pereira,
de Agro Longo — e Belchior Rebello, tabal-
liam em Villa Cham — e Salvador Gonçal-
ves, da Quintam, de Lago, deste couto; e eu
Antonio Fernandes, taballiam, o escrevi. —
Frei Engenzo de São Thiago—Frei Anselmo
da Conceiçam—Fr. Urbano—Fr. Roberto da
Assençam—Fr. Pedro de Guimaraens—Frei
Felice-—Frei Adriano—Frei Marco das Cha-
gas —Frei Callistro de Faria—Belchior Re-
bello—Manoel-Pereira—Da testemunha Sal-
vador Gonçalves, uma cruz — Frei João de
São Bento—Frei Bento.»
A egreja mencionada no documento su-
pra e que principiou então a servir de ma-
triz da freguezia, foi, segundo diz frei Leão
de São Thomaz, edificada por Dom; Henrique
de Sousa, ultimo commendatario e um dos
maiores bemfeitores do mosteiro, assim no
espiritual, como no temporal; e estava con-
struida (a egreja) onde esteve o lagar, que
foi no meio do andar terreo do dormitorio,
ehamado o Gollegio. 1
? Encontro a seguinte contradieção:—Fr.
Leão de São Thomaz diz — Que Dom Henri-
que de Souza entrou no governo do mostei-
REN
Ha n'esta freguezia tres capellas—sS Braz,
antiga matriz, e Senhora das Neves, ão da
freguezia; e S. Sebastião, pertencent; à ir-
mandade do Senhor dos Passos e S. febas-
tião; tambem, pertencem a esta irmadade
as capellinhas dos Passos da Paixão d& Nos-
so Senhor, existentes ao sul da cérca 10 ca-
minho pow onde segue a procissão d Pas-
sos, que: esta mesma irmandade faz 10 do-
mingo da Paixão, de dois em dois. anms, ou
antes, um anno sim, outro hão.
Foi couto, e compunha-se das fregiezias
de—Barreiros, Bico, Rendufe e Lago; » n'el-
le apresentava o mosteiro um juiz para as
causas civeis, e no crime do dito coub, co-
nheciam as justiças do concelho de Entre
Homem e Cávado (Amares).
Esta freguezia é situada em terrem pla-
no, mas agradavel e fertil, principalmente
nos fructos proprios do-paiz. É banhada ao
O. pelo rio Homem, que a separa da fregue -
zia- da Loureira;:e cortada ao sul pelaestra-
da districtal de Barcellos a Montalegre.
O templo, se não se recommenda porgran-
dezas architectonicas, é notavel. pelas suas
proporções e solidez da construcção. A fron-
taria principal está virada ao poente e a
capella mór ao oriente, conforme determi-
nam a liturgia e constituições apostolicas.
Interiormente é de uma só nave e em fór-
ma de cruz. Tem de comprimento, afóra as
sparedes, cuja espessura. é 2" 25, da porta
principal até ao cruzeiro 24",40:; do cru-
zeiro à grade da capella-mór 57,10 ;.dita ca-
pella-mór 17.13; 0 espaço que fica por detraz |
desta 3,37 e tem de largura o corpo daegre-
ja 10»,15;0 cryseiro 21,7;a capella mór 77,90;
altura do pavimento ao tecto, que é de abo-
ro no anno de 1550, e que foi o ultimo com-
mendatario; e que a 10 de setembro de 1570
foi nomeado por primeiro abbade o padre
frei Placido de Villa-lobos: no icruzeiro da
actual egreja está uma campa com a inscri-
pção, que diz — Que D. Henrique de Souza
falleceu a 3 de fevereiró de 4551. Se não ha
contradicção — como pôde D. Henrique de
Souza fazer tantos serviços ao mosteiro, den-
tro de um anno? Qual a razão porque o mos-
teiro esteve tanto tempo sem abbade?
Ou D. Henrique: de Souza prestou. estes
serviços antes de ser commendatario? Vide
a 14.2 inscripção.
REN
“bada de tijolo e volta quasi inteira, uns 16”.
A“capella mór tem menos altura, e tecto de
estuque. O corpo da egreja tem uma porta
"e dois arcos de cada lado; as portas dão
para os fundos das torres, onde ha duas ca-
pellas, dedicadas, a da'esquerda de quem en-
“tra e direita da egreja, a Nossa Senhora da
Soledade, e à da esquerda; ao Senhor dos
Passos; e nos arcos quatro altares; o pri-
- meiro da esquerda, dedicado ao Santo Ama-
ro; o segundo a Santa Escholastica, e tem
gravada no arco do lado do Evangelho a se-
guinte inscripção :
J. P. BREVE DO
SS. P. PIO VI. PS.4º
NO AN. DE 1779.
HE ESTE ALTAR
DE S.tá ESCOLAS-
TICA PREVILEGI
ADO IN PERPTU-
UM P.2 TODOS OS
SACERDOTES RE-
GULARES E SECU-
"LARES E SEM AL-
GUMA LEMITAÇÃO.
Os da direita da egreja são dedicados, o
* primeiro, hindo da porta principal, a S. Pla-
cido, e o segundo a S. João. Os supeda-
neos destes altares estão divididos do resto
do pavimento por uma grade de pau.
Tem quatro frestas, duas de cada lado,
porém, as do sul estão inutilisadas, por es-
tarem tapadas com a abobada da escada do
côro; tornando por isso o corpo da egreja
bastante escuro.
Entre o corpo da egreja e o cruseiro tem
dois pulpitos de madeira com talha dourada,
para os quaes se entra do cruseiro por es-
cadas de pedra, abertas no meio das pare-
des.
Nos intervallos das sanefas dos altares e
pulpitos, logo por baixo da cornija da egreja,
estão ém peanhas, que sahem da parede,
quatro imagens, de tamanho natural, de san-
tos, pintadas de branco, sendo duas de cada
lado.
O cruseiro conta dois altares, que são col-
laeteraes da capella mór; o da parte da epis-
tola dedicado ao Crucificado; e o do evan-
gelho a Nossa Senhora do Rosario.
REN 129
No topo do sul abre-se uma porta, que
dá para os claustros e serve de porta tra-
vessa; e superior a esta porta está uma ja-
nella, que dá para o andar superior do claus-
tro, da parte do nascente, e servia para os
monges fazerem a visita ao SS. Sacramento.
No topo norte, abre-se a capella do SS.
Sacramento. Ha aqui, cruseiro, sete campas ;
a 4.º (contando da capella do SS.),e a 7.: não
teem inscripção ; a 3.? tem, mas não se póde
ler, por estar quasi apagada.
A 2.º tem a seguinte :
S.2 DO COMEN
DATARIO D.
HENRIQUE DE
SOUSA FID º DA
CAZA DE S.º MA-
G.ie GR.iº BEMEEI-
TOR DESTE MOS-
T.º MANDOV
REEDIFICAR
OP. P. FR. M.ºl DOS
ANIOS D. ABB.º
DESTA CASA.
FALECEO O DI-
To FL A 3 DE
Fy."º DE 1551
3.2 ilegivel.
ha
$.2 DO M. R.
P.P.F.R.
ANT.º DE
S. BOAU.? D.
ABB.º. DES-
TE MOST."º
EALECEO
Aos 26 DE
IUNHO DE
1745
Ga
“a
S.3 DO R.Pº. Pp.
P. GERAL
FR. THOMAS
e DO SACRAM.!º
FALECEQ
NO P.'º DE IU-
NHO DE
4747
REN
6a
130
S. DO R.mº P, M. D.
FR. FERNANDO
DE JESUS M.º 9.º
223 vES GERAL
BENEDI-
CTINO
FALLECEO
AOS 18 DE JUNHO
DE
1773
Existe tambem no cruseiro um cofre ou
arca de madeira, ignorando-se o que ella
contem. Dizem conter este cofre as reliquias
d'um santo, ou de pessoa com opinião de
santo, que os monges d'este mosteiro furta-
ram aos monges d'Adaúfe.
A capella mór está separada do cruseiro
por uma grade de pau, de simples, mas bo-
nito feitio. Tem por cada lado tres grandes
frestas envidraçadas, que lhe dão muita luz ;
a que está do lado da epistola, junto ao
arco, serve de entrada para um coreto, onde
estã um pequeno orgão; e por baixo d'esta
fresta está uma porta, que dá serventia
para a sachristia; em frente d'esta porta
está uma outra que não tem sahida exterior
e serve sómente para fazer symetria a esta.
A tribuna, toda de talha muito bem tra-
balhada e com os pedestaes de pedra e dou-
rada, é magestosa; O altar mór está sepa-
rado da tribuna e tem um rico frontal de
madeira; o sacrario, tambem dourado e
muito bem trabalhado, está no fundo da tri-
buna atraz do altar. No centro da tribuna
estão trez imagens de corpo inteiro e esta-
tura natural, sendo a do centro de Santo
André, apostolo, a do lado do evangelho, de
S. Bento, e a do lado da epistola de S. Ber-
pardo.
Abaixo dos degráus do presbyterio, estão
duas ordens de assentos, para O clero; a or-
dem superior tem estantes.
A capella do SS. Sacramento, que separa
do cruseiro uma balaustrada ou grade de
pedra, é de abobada de pedra e fórma cir-
cular, cujo diametro é 77,393. Tem altar, sa*
crario e tribuna, tudo de pedra, dentro d'um
arco, aberto na parede. Tem duas grandes
frestas, uma ao nascente e cutra ao poente;
REN
e sobrepostas a estas outras duas, mais pe-
quenas; e dentro do arco do altar tambem
duas, as quaes todas dão bastante luz.
O pavimento é lageado, em fórma de xa-
drez, de marmore branco e preto. Tem seis
seraphios de pedra e de estatura, pouco me-
nos de natural, collocados, em pedestaes de
pedra, dois aos lados da grade ; dois aos la-
dos do altar e os outros dois aos lados do
arco do altar. Tem tambem quatro imagens,
egualmente de pedra, e de tamanho natural,
collocadas sobre peanhas, que resaltam da
parede ; uma de S. Pedro, à entrada da ca-
pella, do lado do evangelho, com à seguinte
inscripção.
“E
HUM INDIGNO
PREL.º DESTE MOS-
TR.º P.los AN. CHRISTO
1777. MADOU FABRI-
CAR ESTA CAP. P.2 0 SS, SA-
CRAM.!O E SENDO SEG.ºº UEZ D.
ABB.º P.los AN. DE XPO. 1783
A. FES ADORNAR DE SUMP-
“TUOSAS ALFAIAS E EN-
RIQUEGER DE INDUCG.2*
DECLARADAS NAS AL-
MOFADAS CORRES-
PONDENTES.
Outra, Jesus Resuscitado, junto ao» altar,
e a inscripção.
jr
O SS. P.º PIO VI
CONC.!º INDUEG.? PLE.?
A TODO O FIEL XPÃO
Q. ARREPN.ºº CONFES.“º E CO-
MG.º UISITAR ESSA CAP.?
DESDE AS PR.ºS UESP.ºS ATE O
POR DO SOL NO DIA SEG.!º RO-
GANDO A D.* P.!a conc.dia DOS PRINN-
CP S XPAOS EXTIRP.CãO DAS HE-
- RESIAS E EXALTA.(ãO DA ST. M.º Ed-
GR.º EM CADA HU DOS DIAS E FES-;-
TAS Q. UAO NAS AL-
MOFADAS DO OU-
TRO LADO
A 3.2 Nossa Senhora da Conceição, ), junto!
ao altar do lado da epistola, e a inscicripção:
seguinte: 4
REN
DA
“SAO OS DIAS
DE INDULGENCIAS'
NESTA CAP.º O DE REIS, é
DOMINGO DE RAMOS,
O DA ASCENSÃO DO SNR.,
O CORPO DB D.*, O DO
CORAÇÃO DE IESUS,
| O DE s.to ANDRE APOST.º,
| O DA COMEMORAÇÃO
DOS FIEIS DEFUNTOS,
PELOS QUAES SE PO-
DE APLICAR POR MODO
DE SUFERAGIO.
A 4º S. Paulo, junto à grade ou à entra-
da da capella do lado do epistola é a ins-
cripção seguinte :
10.2
A MESMA E PLE-
NR.2 INDULG.2 FOI CONG.º2
NA FOR.Ma JA EXPRESSA NAS
DUAS FESTAS DA IMACU-
“LADA CONCEIÇÃO É ANUCI-
AÇÃO DA VIRGE MARIA MÃI
DE D.* SNRÃ NOSSA E NAS
OUTRAS SINCO FESTAS DA M.2
SNRA. E EM CADA HUA
DELAS SINCO AN. E CINCO
QUARENTENAS DE PER-
DÃO. TODAS SAO IN-
DULG.2S PERPT.?*
Estas quatro inscripções estão gravadas
na parede, de traz das imagens dos Santos.
O altar é sagrado, assim como toda a
egreja.
Por cima da porta principal, do lado de
dentro, se eleva o côro, que tem de compri-
mento 407,15; e duas ordens de assentos,
com 49 cadeiras, tendo a ordem superior
29 e a inferior 20; está ornado em toda a
volta com quadros de madeira, guarnecidos
de talha dourada, representando a vida de
S. Bento ; no centro está uma imagem de Je-
sus crucificado, de tamanho natural e de boa
escultura. Tem muita luz, que lhe é forne-
cida por trez grandes frestas. Em dois ac-
crescimos, que se seguem ao côro, como en-
| costados às paredes lateraes do templo, es-
“tá, no do lado do norie, um! grande e bom
orgão, com caixa de talha, e no do lado
REN 134
do sul, uma caixa em tudo semelhante à ou-
tra, mas sem orgão.
- À sachristia, sem cousa que mereça men-
ção, está ao S. da capella mór e N. da esca-
da de Santa Escholastica e tem de comprido
31» 05; e de largo 6,56.
Entre a sachristia e capella mór ha um
corredor lageado, com a mesma largura
da sachristia e comprimento de 8” 86; tem
duas portas, que abrem, uma para o claus-
tro, e outra para a capella mór. A servidão
para o coreto do orgão pequeno, que está
na capella mór, é por este corredor.
Tem uma fonte com sua concha, onde os
sacerdotes purificam as mãos antes e depois
da celebração da missa ; e ao sahir da porta
da capella mór uma campa com a seguinte
inscripção.
bd
Ss? DO R.Mº
Pe MºO D.”
FR. PEDRO
DA ASCEN-
ÇÃO Q. FA-
LECEO AOS
26 DE Kv-
LHO DE
1718.
A serventia que leva ao côro e torres, é
por uma escada, ao sul da egreja, de boa
pedra, com tres lanços ; tendo o 4.º lanço
3 degraus; 0 2.º 32 e 3.º 3; no cimo do se-
gundo lanço tem uma porta que abre para
o andar superior do claustro. Esta escada
tem de largura 27,87 ; e está coberta de abo-
bada de tijolo, e tapada do sul por uma pa-
rede de altura, quasi da egreja, a qual pa-
rede facêa com a torre do sul e com o topo
do cruseiro da egreja. A entrada para esta
escada é pelo claustro, e por ella desciam
os monges, que já não eram collegiaes, para
a egreja.
No frontespicio da egreja não ha obra sin-
gular ; e assim pela parte de cima se termina
com um triangulo de pedra, que toma toda
a sua largura; e à base d'este triangulo, que
é um frizo de pedra, liso, se seguem por
| baixo trez grandes frestas de fórma elliptica
que dão luz para o côro da egreja. Depois
132 REN
das ditas frestas, se veem trez nichos, fican-
do no do centro a imagem de Santo André;
no do norte a de S. Bento, e no do sul à de
Santãá Escholastica. Estas imagens são de pe-
dra e tamanho natural.
Logo pela parte inferior dos nichos, e por
cima das padieiras da porta principal, estão
gravadas em pedra, no centro, as armas da
Ordem benedictina, e nos lados as duas ins-
cripções seguintes :
No lado norte.
122
O RiDº
P. P. IVBILA
DO FR. P.º DOS
MARTIRES SEN-
DO D. ABBADE
G.! LÃÇOV A IL?
PEDRA FVTAL 1
DESTA IGRA. AOS
8 DE bro pg
1716.
No lado sul.
VM
INDIGNO
FILHO DE S.
BT.º SEDO DO
ABB.º DEST MOS-
To MADOV FA-
ZER ESTA IG.
A QVAL SE ACABOU
AOS 30 DE ABRIL DE
4749
Nos dois angulos da fachada da egreja, es-
tão duas torres quadradas, de hoa cantaria.
Tem na base 5,50, por lado e as cupulas
são de tijolo. Foram construidas juntamente
com a egreja.
A porta principal abre sobre o adro, la-
geado de boa pedra, o qual tem de compri-
mento 13.”, e de largura, medido de norte a
sul, 25,” ; é fechado por uma balaustrada de
pedra, que tem 1,” d'altura. Do adro des-
ce-se, por uma escada de cantaria, com qua-
ro degraus, para um terreiro que tem a
1 Fundamental.
REN
mesma largura do adro, e de comprimento
de nascente a poente uns cento e tantos me-
tros. O templo oceupa:o lado-do E..;a parte
do mosteiro, chamada galeria, occupa parte
do lado S.; e os restantes lados são occupa-
dos por muros de proppiedades, 0 outr'ora per-
tencentes ao mosteiro. No lado norte está,
em frente da galeria, mettida na parede da
cérca, uma linda fonte, com sua concha e
tanque, e tem esculpidas em-pedra as armas
da Urdem, e gravada a era de 1742.
Alguns metros ao O. d'esta fonte, está a
antiga casa das audiencias e cadeia do couto;
hoje serve de sala da aula regia de instru-
cção primaria. Tem escada com patim para
o terreiro. Quasi no fim d'este está um cru-
seiro, ordinario, de pedra.
D. Egas Paes de Penágate, começou à fun-
dar este mosteiro alguns annos antes de 1100
da era vulgar; por. que no anno de 1091, o
abbade de Rendufe, foi um dos juizes árbi-
tros n'uma questão, havida entre os monges
de S. Pedro d'Arouca e uma senhora, cha-
mada D. Godinha. A contenda versava so-
bre a pretenção de os mônges lhe concede-
rem o dito mosteiro, para n'elle recolher
suas filhas e parentas, visto ser padroeira
do mesmo.
Edificado o mosteiro em termos de ser ha-
bitado, foi D. Egas Paes pedir aos mostei-
ros de Adaúfe e das Montanhas de Nossa
Senhora da Abbadia, monges para que ha-
bitassem o seu novo mosteiro. Do mosteiro
de Adaúfe lhe deram cinco monges e da
Abbadia tres, os quaes eram da mesma or-
dem de S. Bento.
D. Egas obrigou-se a dar o mosteiro con-
cluido e provido com sustentação necessaria
para os monges; mas occupado e enthusias-
mado com amores illicitos com uma sua pa-
renta'em grau proximo, e por cujo Tespeito
estava censurado pelo arcebispo, S. Geráldo,
descuidou-se de satisfazer seu compromisso.
«N'este tempo, convidou o conde D. Hen-
rique a S. Giraldo para que lhe dissesse
missa de pontifical em uma festa, que fazia
em Guimarães, onde se achavam reunidas
as principaes pessoas do seu condado. Es-
tando já o santo prelado revestido de todas
as vestes pontificaes, subiu ao altar, e viran-
ssa
REN
do-se para o povo, viu a D. Egas Paes, junto
ao conde, disse com liberdade christan: —
Lancem fóra da egrejaa Egas Paes, porque é
peccador público e por tal está evitado! da
egreja, como membro podre, e se assim o não
fizerem, nem proseguireicom o sacrifício, nem
vós ouvireis missa. Soffreu D. Egas tão mal
o dito, que confiado no valimento do prin-
cipe, se attreveu a maltratar o santo, vomi-
tando mais peçonha pela boca, do que lan-
garia de si uma vibora pisada. Finalmente
foi tal a colera e paixão, de que se deixou
vencer, que intentou afirontal-o comas mãos,
e certamente o faria, se Deus Nosso Senhor
não castigasse logo esta soberba, permittindo
entrasse o demonio n'elle; o que fez o inimi-
go universal de nossas almas, atormentan
do lheo corpo horrivelmente. Levaram-o en-
tão meio morto para fóra da egreja, e o san-
to arcebispo continuou com a missa, que
tinha principiado, sem alteração alguma.
Acabada a missa, o conde D. Henrique, e
sua mulher, a rainha D. Thereza, e os mais
fidalgos, que alli se achavam, pediram hu-
mildemente ao santo, se compadecesse da
miseria d'aquelle homem, e que rogasse a
Deus por elle. S. Geraldo, tendo compaixão
do miseravel, fez oração a Deus e logo o de-
monio deixou de o atormentar e cobrando o
seu júizo perfeito, veio lançar-se aos pés do
santo, pedindo-lhe perdão das affrontas que
lhe dissera, e promettendo emenda de sua
escandalosa vida, e mereceu, pelas lagrimas
do arrependimento, ter uma venturosa mor-
te, que adquiriu com obras santas e piedo-
sas, sendo uma d'estas a conclusão e dota-
ção d'este mosteiro. Aconteceu isto pelos an-
nos de 1107 da era vulgar. E n'este mesmo
anno começou à pagar sua pensão à Sé pri-
maz de Braga, como tambem pagavam ou- |
tros mosteiros mais antigos, assim consta do
livro do archivo da Sé, chamado Liber fidei,
no qual se lêem estas palavras: —A Monas-
terio Rendufe solvitur Ecclesiae Bracharensi,
ab anno mcvi. A Monasterio de Adaufe sol-
vitwr Ecclesiae Bracharensi, ab anno 1077,
A Sancta Maria de Bouro olim Abbatia in
* Excommungado.
VoLUME Val
REN 133
montanis solivitur Ecclesiae Bracharensi ab,
anno S88.»
E deste amno por diante começou o mos-
teiro a crescer a olhos vistos, assim em ren-.
das, como en monges.
O commendatario D. Henrique de Sousa,
edificou a egreja anterior à actual, toda de
cantaria, à sua custa, e comprou muitas ca-
sas para augimentar as rendas do convento.
Os nossos antigos reis honraram este mos-.
teiro com mercês reaes, que lhe fizeram, e
lhe deram a jurisdicção de quatro coutos.
Eram o do mosteiro, que se compunha das
freguezias de Barreiros, Bico, Capella, e hoje
Rendufe, e Lago; o de S. Thiago de Saba-
riz, o de S. Pedro de Codeceda, e o de Santa
Maria de Paredes Secas, hoje S. Miguel de
Paredes Secas. 1
O edifício do actual mosteiro é de fórma
quadrangular, com tres dormitorios, um à
E., outro ao S., outro a O., fechando o qua-
dro, ao N., a egreja. Estes dormitorios cons-
tam de cellas, com janellas para a cêrca e
corredores que se communicam uns com os
outros e com o andar superior do claustro.
O dormitorio do E., unido à capella-mór
pelo norte, tem de comprido 45,"36, e de
largo 5,250, sendo de corredor 2,763. No
andar terreo estã a sachristia, e no superior,
pegado à. capella-mór, a sala que foi a li-
vraria. Tem ao S. uma sacada sobre a horta,
e no centro uma escada de cantaria que da-
va serventia para a cêrca e claustro ; 8 por
ella desciam os collegiaes, quando iam para
a egreja. Chama-se escada de Santa Escho-
lastica.
É tradição que este dormitorio foi o mos-
teiro que D. Egas Paes mandou Suiniva,
mas tem sofírido reformas.
O dormitorio do S., tem de comprido
1 Dizem o padre Antonio Carvalho da Cos-
ta, Corographia Portugueza, fls. 209 e 227,
segunda edição, e fr. Leão de S. Thomaz,
Benedictina Lusitana, pag. 329, tom. 2.º «Que
estes dois contos ultimos se perderam com
o decorrer dos annos.» Se estes auctores
fallarsm verdade, então o mosteiro tornou a
adqairir a regalia dos ditos coutos, pois em
4834 tinha ainda o referido mosteiro a ju-
risdicção dos mesmos.
9
134 REN
31,30, e de largo 8,m25; sendo de corredor
3," 60.
Diz fr. Leão de S. Thomaz, que foi edifi-
cado pelos annos de 1650 e tantos.
O dormitorio do O. tem de comprido, de
norte a sul, 141”; e de largo 10,760, sendo
de corredor 3,772. O andar inferior é de
abobada de tijolo, e são n'elle o refeitorio, Do-
tica e outras officinas; tem uma porta que
abre para o adro, e sobre a verga d'ella
está a era de 1688. No andar superior tem
sobre 6 adro duas portas com sacadas: muito
proximo ao angulo externos. e O., tem uma
varanda coberta com grandes vistas, virada
ao poente; a casa do capitulo é tambem n'este
andar. É n'este lanço por uma escada de
cantaria a entrada para todo o mosteiro.
A serventia d'esta escada é pelo claustro.
Este lanço foi reservado, quando ha poucos
annos se vendeu o mosteiro, para residen-
cia parochial. '
Segue para E. em perfeito alinhamento
pelo S. com os dormitorios do nascente e
meio dia, um cutro dormitorio chamado—
Collegio; o qual tem de comprimento de E,
a O. 44 metros e de largo 9,755. Compõe-se
d'um corredor pelo centro com a largura de
3,"88, e pelos lados de cellas, com janellas
para a cêrca. Logo à entrada está, do lado
' do norte, a sala das aulas, e quasi no fim e
do mesmo lado está o archivo, que é todo de
pedra. Tem no fim, virada ao nascente, uma
varanda coberta, medindo a mesma largura
do dormitorio.
Este dormitorio era destinado sómente
para os collegiaes, chamando-se por isso 0
Collegio.
Prolonga-se para O., faceando pelo norte
com o dormitorio do poente, um outro lan-
ço, chamado a Galeria, o qual tem de com-
primento, de E. a O. 52,776; e de largo 9,"55.
Consta d'um corredor, medindo de largo
3,"88, com dez grandes janellas, para o nor-
le, sobre o terreiro, e duas, para o poente,
sobre o caminho; e oito salas com janellas,
para o sul, sobre o pateo. No andar inferior,
que é de abobada de tijolo, estão os cel-
leiros.
Este lanço era designado para residencia
do D. Abbade, recebedor e mestres jubilados.
REN
A portaria principal do mosteiro é pelo
terreiro junto ao adro, por baixo da sala da
entrada da galeria.
Ao sul da galeria e ao O. do dormitorio
do poente, está um quinteiro (pateo) cireum-
dado pelo sul e poente de casas para casei-
ros; é tambem n'este quinteiro a cosinha do
mosteiro, hoje do parocho.
O mosteiro e claustro tinham sido refor-
mados, principalmente nos fórros, no primei-
ro quartel do seculo actual.
No centro do mosteiro está 0 claustro, qu
é quadrangular e mede de largura 3,74; e
de comprimento, nos lanços de E. O. 31,768,
e nos de N. e 8. 31,730.
O centro é occupado por um jardim, no
meio do qual está um chafariz com taça e
tanque.
O claustro tem dois andares. O terreo,'
muito bem ladrilhado de pedra, servia de
cemiterio para os monges, que não tinham
exercido o professorado ou cargo superior
na ordem, porque estes eram enterrados no
cruseiro da egreja, e os freguezes no corpo
da mesma.
No lanço do norte, debaixo das escadas
do coro, está, com porta para o claustro,
uma capella, dedicada a Nossa Senhora da
Abbadia. !
O andar superior é construido sobré no-
ve arcos de pedra, em cada lanço, abertos
para o jardim e formados em dez columnas
inteiriças de pedra, sendo duas meio embe-
bidas nos pés direitos. No lanço E. ha, no
angulo interior E.S., uma fonte com concha,
de que se serviam os collegiaes; no topo
norte abre para a egreja, em frente da ca-
pella do Santissimo Sacramento, uma janella
destinada para os monges visitarem o San-
tissimo Sacramenio. No peitoril d'esta ja-
nella estã, para a parte de claustro, a se-
guinte inscripção :
1 Sendo esta capella pequena, e tendo de
madeira o soalho e altar e n'este uns farra-
pos de cortinas, apesar de lhe ter ardido a
porta no dia 29 de julho de 1877, escapou de
ser devorado pelo incendio. Este aconteci-
mento causou admiração a muita gente, che-
gando a ser julgado por alguns miraculoso,
REN
142
ESTE M. (mosteiro) MADOV REEDIFI-
CAR ODOARIO DE SOVSA,
COMEDAT.º DELE, POR QUIR
TODO POR TRA. ÂNO 1551. 1
Communica este andar com todos os cor-
redores dos dormitorios.
O mosteiro tem uma grande cêrca conti-
gua, murada sobre si, de pedra, a qual tem
dentro campos, hortas, pomares, uma deveza
de muitas arvores e uma eira muito bem
ladrilhada de pedra, cujo comprimento, (da
eira) de N. a S. é 277,70 e largura de E. a
O. 23 metros.
O mosteiro, cêrca e outras propriedades
rusticas foram julgados bens nacionaes e
vendidos; a cêrca e propriedades rusticas
logo: depois da extineção das ordens re-
ligiosas, e o mosteiro ha poucos annos. Tudo
isto, menos a egreja que é a matriz da fre-
guezia, como já O era antes; um pequeno
bocado da cêrca, deixado para passal do pa-
rocho, que foi vendido no dia 4 d'agosto de
1877, por 2:9964800 réis; o dormitorio do
Q. destinado para residencia parochial, e
algumas outras propriedades, tudo isto digo,
foi- comprado pelo commendador Antonio
Ignacio Marques, ex-official maior do go-
verno civil de Braga.
“É hoje o mosteiro e parte da cérca de An-
tonio dos Santos d' Azevedo Magalhães, chefe
de secção na direcção das obras publicas do
mesmo districto. Tem-o como um dos her-
deiros do finado commendador, de quem é
genro.
No dia 29 de julho de 1877, pela volta das
9 para as 10 horas da noite, rebentou no an-
dar superior da galeria, ao lado do poente, um
violento incendio, que em menos de cinco
horas reduziu a cinzas e a um montão de
ruinas todo o mosteiro.? f
Graças ao vigoroso e reforçado das pare-
des, ficou apenas salva das chammas a egre-
ja, o celleiro, morada dos caseiros, cosinha e
“1 A ultima palavra da 3.º linha e as tres
primeiras da quarta, não se entendem.
2 O incendio foi casual; não obstante al-
guns jurnaesdizerem o contrario.
»
REN 135
os andares, que eram de abobada, deman-
dando ainda assim concertos e reparos.
A galeria acabou de ser coberta em ou-
tubro do mesm? anpo de 1877.
No dia 28 d'agosto de 1876 tinham-se reu-
tido n'este mosteiro 32 sacerdotes, e ahi, de-
baixo da direcção dos reverendos João Ba-
ptista Melly e Francisco Pereira, fizeram por
dez dias exercicios espirituaes. que conelui-
ram com uma solemne festa, feita com toda
a decencia e aparato religioso.
Quem presenciou, n'estes dez dias o es-
tado de conservação em que ainda se acha-
va o mosteiro, a caridade e humildade dos
directores, a docilidade e obediencia dos ex-
ercitandos (uns parochos encanecidos e ou-
tros jovens levitas), 0 psalmodiar cadenciado
do Officio Divino, o enthuxiasmo e devoção
dos fieis, quem presenciou tudo isto, repito,
não póde deixar, ao contemplar um montão
pavoroso de ruinas, de sentir uma viva sau-
dade e verter copiosas lagrimas.
45.º—Toscripção que está na fonte do ter-
reiro, em frente da egreja do mosteiro :
EM LATICES PHEBI POTA
PERIGRI NE LI QUORES
EXILIVM AVXILIE NIL
SIBI AVA RE TENET
NIHIL SIBI.
Devo este curiosissimo artigo ao obsequio
do esclarecido abbade de Caires, no conce-
lho d'Amares, o reverendo sr. José dos San-
tos Moura.
Do precedente artigo vê-se a razão por-
que eu, no 2.º vol., pag. 99, col 4.º, na pri-
meira Capella, disse que não achava esta
freguezia nos mappas modernos. O antigo
nome d'esta freguezia, era Capella de Ren-
dufe, e é a mencionada no logar citado.
O que se segue é transcripto de um im-
presso publicado pelo distinctissimo doutor,
o gr. José Joaquim da Silva Pereira Caldas,
lente de mathematica, no lyceu de Braga,
(Peço aos meus leitores desculpa de algu-
mas pequenas, mas inevitaveis repetições,
mas não podia—nem devia—cortar ou sup-
136 REN
primir uma unica palavra, escripta por es-
criptor de tão grande auctoridade.)
I-A umas duas leguas a norte de Braga,
nos territorios denominados outr'ora Entre
Homem e Cávado, edificou-se em tempos
abtiquissimos um mosteiro da Ordem de S.
Bento, — religião entrada em nosso paiz nos
annos de 537 da era vulgar, e inaugurada
no mosteiro de Lorvão a umas duas leguas
de Coimbra—mosteiro ao depois de religio-
sas da Ordem de S. Bernardo.
Foi este mosteito, o de Santo André de
Rendufe, no concelho d' Amares na actuali-
dade—concelho rural dos mais importantes
do nosso districto de Braga.
I-—Deu coméço a este mosteiro D. Egas
Paes de Penagate, fidalgo dos principaes en-
tão na córte do nosso conde D. Henrique —
tronco a que devemos os lineamentos da
nossa autonomia nacional, e de quem temos
a ossada veneranda na Sé cathedral braca-
rênse.
Era D. Egas Paes o sogro do alferes-mór
do conde D. Henrique, o aguerrido e deno-
dado D. Fafes Luz, pae de D. Godinho Fa-
fes, de quem a nossa villa de Fafe tomára o
nome.
Teve logar este comêço do mosteiro al-
guns annos antes de 1100 da era vulgar, —
visto que no anno de 1091 fôra juiz árbi-
tro um abbade do mosteiro de Rendufe,
numa contenda entr: os monges de S. Pe-
dro d'Arouca — ao depois de religiosas da
Ordem de S. Bernardo — e a padroeira en-
tão do mesmo mosteiro.
HI— Chamava-se D. João este abbade; e
foi companheiro seu na arbitragem, o abba-
de D. Pedro do mosteiro de S. João de Pen-
dorada, com o senhor de Paço de Sousa, D.
Egas Hermiges, fidalgo de nobilissima ge-
ração.
A fidalga padroeira era D. Godinha, avó
de D. Egas Odoris:— e a contenda que ella
suscitára, era a pretenção de lhe cederem
os monges o convento. para recolhimento
das filhas e parentas da mesma padroeira,
dando-lhes esta em troca o mosteiro de 8,
Martinho: de Cutujães.
IV— Edificado o mosteiro de Rendufe —
REN
em termos de ser habitado — foram tomar
conta d'elle cinco religiosos do mosteiro de
Santa Maria d'Adaúfe, e trez do mosteiro
das Montanhas da Senhora da Abbadia. —
Pediu estes monges a estes mosteiros o mes-
mo D. Egas Paes.
Eram da mesma Ordem de S. Bento am-
bos estes mosteiros, denominando-se ao de-"
pois mosteiro de Santa Maria de Bouro o ul-
timo d'elles.
V— Descuidou-se D. Egas Paes (embeve-:
cido em amores censuraveis com uma sua
parenta em grau proximo) de continuar a
edificação do mosteiro de Rendufe.
Aconteceu no entanto — no meio deste
decurso de tempo — que o arcebispo braca- -
rense S. Geraldo, n'um dia de solemnidade
na córte vimaranense, do conde D. Henrique,
o fizesse pôr fóra da egreja como excom-'
mungado, sob pena de não começar sem
isso O sacrifício da missa.
Cahiu então em si D. Egas Paes; e recon-
ciliado com o primaz das Hespanhas, a ro-.
gos e solicitações da mesma côrte, acabou é
dotou galhardamente o mesmo mosteiro.
Teve isto logar nos annos de 1107 ad era
vulgar.
VI—A situação d'este mosteiro, comquan-
to em paragem um pouco baixa, é d'uma po-
sição agradavel e pr azenteira, como todas as
situações campestres em montanhas do Mi-
nho.
O templo d'este mosteiro é digno da Or-
dem do patriarcha dos monges do Occiden-'
te, oriundo da antiquissima familia dos Ani-
cios, de que fôra um dos membros o impe-
rador romano Justiniano. au das
Edificou esta egreja o commendatario D.'
Henrique de Sousa, um dos maiores bem-
feitores do mosteiro. ? 2
Vll-—Honraram outr'ora os nossos reis o
mosteiro de Rendufe, dando-lhe a regalia
da jurisdieção de quatro coutos. — Eram O
do mosteiro; o de S. Thiago de Sabariz, ao”
1 D. Henrique de Souza, varão de muita
virtude, e grande caridade, foi assassinado
à traição, por Francisco Mar 'hado, que o con-
vidára para jogarem. A causa d'este crime .
foram ciumes, mas depois provou-se ig B.
Henrique estava innocente.
REN
pé do Pico de Regalados; o de S. Pedro de
Codecêda em terras então de Nóbrega, e de-
pois de Ponte da Barca; e o de Santa Maria
“de Paredes Seccas, em terras de Santa Mar-
tha de Bouro, donde, segundo a tradição, era
senhor D. Egas Paes.
Com o decorrer dos annos, perderam a
dois d'estes coutos os religiosos, ficando ape-
nas com o do mosteiro e o de Sabariz, até
os ultimos tempos em que os tiveram. 1
- Teve isto logar em 1834, com a suppres-
são das ordens monasticas, ordenada então
em decreto de 28 de maio, referendado pelo
affamado estadista, Joaquim Antonio de
“Aguiar — filho da cidade de Coimbra.
VIHI—Entre os abbades memoraveis d'es-
te mosteiro — depois do começo da reforma-
ção do cardeal infante D. Henrique, em 1569,
como legado da Sé A postolica — occorrem-
nos à lembrança quatro d'estes abbades
triennaes.
Fr. Balthasar de Braga, oriundo da capi-
tal do Minho a que dá honra. — Deve-se-lhe
a erecção do convento magnifico de Lisboa,
delineado pelo insigne architecto Balthasar
“Alvares, e de que se lançára à terra a pri-
meira pedra em 1598. — Deve-se-lhe egual-
mente a erecção do convento da Victoria, no
- Porto, não inferior ao de Lisboa na mages-
tade da construcção. —Deve se-lhe a impres-
são das Constituições dos Monges de S. Ben-
to da Congregação de Portugal, obra dada à
luz, em Lisboa, em 4590, em 4.º, na officina
-typographica d'Antonio Alvares. — Deve-se-
-lhe emfim a impressão do Breviarium Mo-
-nasticum Reformatum secundum consuetudi-
-nem Monachorum Nigrorum Ordinis Sancti
Benedicti Regnorum Portugalliae, obra dada
à luz em Coimbra, em 1607, em 4.º, na offi-
-cina typographica de Diogo Gomes Loureiro.
Fr. Gonçalo de Moraes, oriundo de Villa-
Franca de Lampazes, em Traz -os-Montes,
eleito ao depois bispo do Porto pelo rei D.
Filippe II, com sagração em 1602, e a quem
deve os comêços o mosteiro do Milagre em
Santarem, com dadivas de rendas e esmolas
durante o seu episcopado. — Foi eleito, em
Tibães, em 1587.
1 Além dºisto, tinham seis grandes quin-
tas é innumeros campos.
REN 137
Fr. Martinho Golias, eleito em 1599, oriun-
do de Guimarães. —Foi varão dos mais esti-
maveis então da Ordem Benedictina, e um
dos filhos mais exalçadores do berço da mo-
narchia, nas virtudes que o adornavam, apa-
rentado com as familias mais illustres da
nossa provincia do Minho.
Fr. João do Apocalipse, oriundo de Gui-
marães, como fr. Martinho Golias. —Foi elei-
to em 1608:—e fr. Gregorio Argaez, na Per-
la de Cataluna, pag. 498, $ 134, o elogia so-
bremodo, qualificando-o nestas poucas pa-
lavras: — Talento cultivado con las letras q
las virtudes.
IX — Fr. Martinho Golias, nobilissimo no
appellido, foi uma das vergonteas mais vi-
cosas — uma das hastes mais floridas — da
parentella do dr. Rui Gomes Golias, mestre-
eschola da collegiada da Senhora da Olivei-
ra, em Guimarães, e instituidor do morgado
e capella do nome de Jesus, com tribuna para
as suas casas nobres, na antiga rua dos For-
nos, no berço da monarchia.
Fr. João do Apocalypse, prégador famige-
rado no seu tempo, deixou-nos em manuscri-
pto a Chronica da Religião de S. Bento de
Portugal, e dos Reis em cujo tempo floresceu,
e das fundações dos seus Mosteiros.
Dividida em 40 livros, com 390 folhas ao
todo, conservava-se respeitosamente no mos-
teiro de S. Salvador de Travanca, onde este
monge antiquario exhalára a vida, em 22 de
abril de 1632.
X — Com este mosteiro de Rendufe, con-
viveu outr'ora o nosso Francisco de Sá de
Miranda, filho egregio de Coimbra, assisten-
te então na proxima quinta da Tapada:—
casa das mais illustres da nobiliarchia mi-
nhota, e onde elle exhalára os ultimos alen-
tos, em 45 de março de 1558, retirado do
bulicio do mundo desde muitos annos.
Com este mesmo mosteiro conviveu egual-
mente seu cunhado Manuel Machado d'Aze-
vedo, senhor d'Entre Homem e Cávado, de
quem nos escrevêra a vida o marquez de
Montebello, Felix Machado da Silva Castro
e Vasconcellos, n'um volume raro — em que
ha versos de correspondencia poetica entre
estes dois engenhos seiscentistas.
Com este mosteiro, emfim, conviveu na
138 REN
sua primeira quadra da vida, o nosso finado
amigo D. João d'Azevedo Sá Coutinho, pro-
sador e poeta de renome, uma das vergomn-
teas mais egregias da casa e quinta da Ta-
pada, e a quem Braga é devedora do seu pri-
meiro periodico politico e litterario, em 1836
— O Cidadão Philanthropo.
XI— Em 1809, na invasão do nosso paiz
pelo exercito francez do general Soult, ao
mando de Napoleão, arvorou-se o mosteiro
de Rendufe n'um castello fortificado.
Os monges e os collegiaes armaram-se em
defeza da patria, fazendo causa commum
com o povo das cercanias, e com as tropas
a que se reuniram.
Abandonaram os exercicios religiosos; e
adornados dos atavios militares, hostilisa-
ram os nossos invasores com garbo e de-
nodo.
XII--Depois da retirada do exercito fran-
cez, acolheram-se de novo ao mosteiro de
Rendufe, assim os religiosos como os seus
collegiaes.
Não foi no entanto possivel, nem à auste-
ridade do prelado, nem à seriedade dos mes-
tres, corrigir então os excessos dos colle-
giaes, e induzil-os a reatar o fio dos estudos,
interompidos na occasião do seu alistamen-
to patriotico.
Acostumados á vida soldadesca, não se
reaccommodavam aos exercicios claustraes
— preferindo aos aromas do incenso o chei-
ro da polvora, e o clangor das cornetas às
harmonias do orgão.
XIII — No meio d'este estado anarchico,
surgiam conflictos graves a cada instante
no mosteiro de Rendufe —appellidado então
entre o povo o castello dos tyrolezes.
A obediencia monastica, desceu n'esses
dias ao maximo do postergamento: — e 0
mosteiro teve de ser entrado à força — não
sem resistencia—por tropas alli enviadas de
Braga.
XIV— Sobre-sahiu n'esta lucta collegial, o
nosso finado amigo Antonio do Carmo Ve-
lho de Barbosa, filho egregio de Barcellos,
de quem soubemos estas especies, em nosso
berço das Caldas de Vizella, estando alli a
banhos este illustrado parocho de Leça do
Bailio.
REN
D'ellê soubemos egualmente, que O fizer
ram andar de convento em convento com os
companheiros, em castigo da turbulencia
contra os superiores: — não sendo elle ain-
da assim dos mais punidos, graças à insi-
nuação da palavra de que a natureza o do-
tára, aproveitada opportunamente em defe-
za propria.
Alguns dos collegiaes — sem egual com-
promettimento escholar— pagaram em rigo»,
roso carcere o excesso da insubordinação.
XV—Convertido em propriedade particu-
lar este mosteiro de Rendufe— depois da re-
generação política de 1834, roborada entãona
batalha da Asseiceira, em 16 de maio —era
hoje senhor d'elle o nosso amigo, Antonio dos
Santos d'Azevedo Magalhães, chefe de sec-
ção, na direcção das obras publicas do nos-
so districto.
Tinha-o elle de seu, como um dos herdei-
ros do finado commendador Antonio Igna-
cio Marques, ex-official do governo civil de
Braga, e proprietario dos mais abastados,
mais trabalhadores, e mais economicos do
nosso districto.
“Fôra elle— sogro do nosso amigo —o que
o arrematára primitivamente em praça pu-
blica.
XVI-No domingo preterito, 29 de julho,
rebentou n'este mosteiro um incendio vio-
lento, com apparencias de não casual. — Tr-
rompeu impetuoso na volta das 9 para as 40
horas da noite, com visos d'abafado até então.
Trabalharam debalde os povos da locali-
dade, no affan de salvar das chammas o edi-
fício incendiado.—Foram impotentes os seus
braços — e infructuosa a sua dedicação —
para sustar por um pouco sequer a inten-
sidade do fogo.
O mosteiro abrasado — rúbido com o cla-
rão das chammas — apparentava a erupção.
pavorosa d'um vulcão, no lance do seu maior
afogueamento.
XVII—Na volta das 2 para as 3 horas da
noite, partiram d'aqui, de Braga, para Ren-
dufe, os bombeiros voluntários, com outros
collegas seus, dos municipaes.
Trabalharam com energia e coragem, au-
xiliados d'um sem numero de povo das cer-
| canias. — Era tarde no entanto. — Não ha-
REN
«via heroismo proficuo em similhantes altu-
ras.
Até o calor intensissimo—com o deslum-
bramento do clarão — oppunha resistencia
aos SoCcorros.
XVIII— Das immensas casarias do mos-
teiro de Rendufe — augmentadas e melhora-
das com o volver dos annos, e reformadas
de todo no primeiro quartel do seculo actual
— restam agora apenas as ruinas desolado-
ras.
Campus ubi Troja fuit — no dizer senten-
cioso do cantor augusto da ENEIDA — só Os
raios do sol aquecerão alli d'ora ávante, er-
mos e solitarios, os vestígios dum passado
memoravel.
Graças ao vigoroso e reforçado das pare-
-des, ficou apenas salva das chammas à egre-
ja—com o celleiro e a morada dos caseiros
—— demandando ainda assim concertos e re-
-paros.
XIX — Deixando aqui bosquejada a histo-
ria do mosteiro de Rendufe, lembrar-nos-
-hemos sempre com saudade, que nas pedras
d'aquellas ruinas — tisnadas e resequidas —
muitas ha, que foram testemunhas d'asper-
rimas penitencias, dos que deixavam ou-
trora o mundo pelo claustro.
Muitas ha, que presenciaram alli nos mi-
nistros do Christo—com o volver incessante
dos seculos — muita vida de fé, apoiáda na
crença — muita vida d'esperança, confiada
no galardão — muita vida de caridade, libe-
ralisada na esmola.
XX—No meio do montão pavoroso de rui-
nas, muitas nos estão alli dizendo na mudez
da contemplação, o que nos decanta assim
na sua ARRABIDA O Nosso Alexandre Hercu-
lano:
«Aqui veiu talvez buscar asylo
«Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
«Despenhado nas trevas do infortanio!
«Aqui gemeu talvez o amor trahido,
«Ou pela morte convertido em cancro
«D'infernal desespêro! aqui soaram
«Do arrependido os ultimos gemidos,
«Depois da vida derramada em gôsos,
«Depois do gôso convertido em tédio!»
REN 139
XXI—Resta-nos agora apenas — em meio
das ruinas — a amplidão da egreja salva,
para nos patentear ainda, nas suas campas,
a morada extrema de muitos justos: — va-
rões venerandos, que viveram n'aquelle mos-
teiro muita vida de contrieção, especada na
emenda — muita vida d'uncção, embevecida
no Altissimo.
Braga, 1 d'agosto de 1877.
O professor do Lyceu Bracarense
Pereira Caldas.
É tradição que n'este mosteiro falleceu
D. Rendufo (que deu o nome ao logar), ca-
sado com D. Acha, dos quaes foram filhos,
D. Pedro Rendufes; D. Toda Rendufes, que
casou com D. Martim Anião, alcaide-mór de
Coimbra; D. Mór Rendufes, que casou com
D. Fernão da Cunha. Parece que d'estes foi
herdeiro, D. Egas Paes de Penagate.
Logo abaixo do mosteiro, está a quinta da
Regada, que fui de Jácome Coelho. Produzia
600 alqueires de pão e 20 pipas de vinho.
Para as Caldas de Rendufe, vide S. Thia-
go de Caldellas, e vol. 2.º, pag. 43, col. 4.º
Em 25 de outubro de 1824, toi feito pri-
meiro barão de Rendufe, Simão da Silva
Ferraz de Lima e Castro, commendador da
ordem da Conceição, intendente geral da po-
lícia da corte e reino, em 1823, e conselhei-
ro do conselho da fazenda e deputado às
côrtes, em 1834, e par do reino em 1835.
Em 143 de outubro de 1852, foi feito 1.º con-
de de Rendufe, seu filho, o 2.º barão do mes-
mo titulo, Simão da Silva Ferraz de Lima e
Castro.
O 4.º barão de Rendufe, nasceu a 13 de
maio de 1795. Era filho de Thomaz da Silva,
Ferraz, moço fidalgo, commendador da or-
dem de Christo, deputado da companhia do
Alto-Douro, nascido a 8 d'abril de 1760, e
fallecido a 13 de janeiro de 1833.
Tinha casado, no 1.º de setembro de 1787,
com D. Anna Aurelia de Lima e Castro, nas-
cida a 17 de julho de 1755, e era filha de
Thomaz Antonio de Carvalho Lima e Cas-
tro, do conselho de D. Maria [, fidalgo da
casa real, cavalleiro da ordem de Christo,
14.0 REN
e desembargador do paço, e de sua mulher,
D. Joanna Margarida Barbosa Correia.
- O 4.º barão de Rendufe, teve tres irmãos,
todos mais velhos do que elle:—4.º, Thomaz
Antonio, commendador da ordem de Chris-
to, coronel de milicias, e recebedor-geral da
fazenda, da provincia de Traz-os-Montes. —
2.º, D. Maria Urbana. — 3.º, D. Anna Au-
gusta.
O 1.º barão de Rendufe, tornou-se célebre
como deputado, nas côrtes abertas em 45 de
agosto de 1834, pelos insultos que dirigiu ao
sr. D. Miguel I, pintando-o como o «maior
monstro produzido desde a creação do mun-
do, (1!) mil vezes peior do que Nero, Cali-
gula,» etc., etc.
Na sessão de 28 do dito mez, mandou para
a mesa, uma proposta com dois artigos—
1.º, para se applicarem ao sr. D. Miguel, as
penas do livro 5.º, tit. 6.º das Ordenações
(morte natural) como traidor á patria. —2.º,
que desde logo fosse privado da prestação
de 60 contos, estipulada na convenção de
Evora-Monte (prestação que aliás nuncahou-
ve tenção de se lhe dar, como publicamente
disse em côrtes, o tristemente celebre mi-
nistro, Agostinho José Freire.
Tambem na sessão antecedente, o depu-
tado Sousa Azevedo, tinha proposto que fos-
se Tatificado pelas côrtes, o decreto de 18 de
março d'esse anno, que exauctorou o sr. D.
Miguel, e que ss declarasse que a sua su-
cessão, nunca podesse reinar em Portugal.
(Este deputado foi um grande miguelista até
1829, mas virou a casaca por o não fazerem
desembargador da casa da supplicação. Ha
a este respeito um folheto muito interessan-
te, publicado em 41842.) O deputado Silva
Sanches, tambem pediu a pena de morte
para o sr. D. Miguel, se voltasse à Portugal.
RENDUFE —freguezia, Minho, comarca e
concelho de Guimarães, 18 Kilometros ao
REN
Foi couto e villa, ha muitos annos suppri-
midos.
Pouco fertil;
toda à qualidade.
RENDUFE —freguezia, Minho, comarca e
concelho de Ponte do Lima, 40 kilometros
ao O. de Braga, 385 ao N. de Lisboa, 100 fo-
gos.
Em 4757, tinha 83 fogos.
Orago o Salvador.
Arcebispado de Braga, districto ad
trativo de Vianna.
O arcediago da Labruja (da Sé de iai
apresentava o vigario, que tinha 704000 réis
de rendimento.
É terra fertil. Gado e caça.
No monte de Travanca, d'esta freguezia,
se deu a grande batalha, em que D. Fran-
cisco de Sousa, conde do Prado, desbaratou
o exercito castelhano, em 9 de agosto de
1663.
RENDUFINHO —freguezia, Minho, comar-
ca e concelho da Povoa de Lanhoso, 12 ki-
lometros ao N.E. de Braga, 370 ao N. de
Lisboa, 170 fogos.
Em 1757, tinha 1401 fogos.
Orago Nossa Senhora da Misericordia.”
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A mitra apresentava 0 abbade, que tinha.
3608000 réis de rendimento.
É terra muito fertil, e cria muito gado,
de toda a qualidade,
Nasceu n'esta freguezia, e aqui falleceu no
dia 23 de agosto de 1876, 0 doutor Francisco
Hilario Teixeira de Brito, um dos ornamen-
tos do fóro portuguez, cavalheiro de reco-
nhecida probidade, e porisso estimado eres-
peitado de quantos o conheciam. Foi depu-
tado às cortes pelo partido legitimista, a que
sempre pertenceu, em 1858, pela Póvoa de
Lanhoso; mas não chegou a tomar assento .
mas cria bastante sem de
N.E. de Braga, 360 ao N. de Lisboa, 100 fo- | na camara, por não querer prestar jura-
gos.
Em 1756, tinha 80 fogos.
Orago, S. Romão.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O cabido de Guimarães apresentava o cu- :
Ja, que tinha 308000 réis e o pé d'altar.
mento.
Era casado com a sr.º D. Felizarda Rosa
Vieira de Campos, irmã do sr. abbade, José
Bento Vieira de Campos, a qual ainda vive. |
| Teve dois filhos, o
os srs. doutores, Antonio.
'* Bernardino Ribeiro de Brito, e padre Fran-.
cisco José Ribeiro Vieira de Brito.
REP
O ilustre finado deixou um irmão, o sr.
padre José Narcizo Ribeiro de Souza e Brito.
- RENGA ou RENGUE, e, por fim, RENQUE
—portuguez antigo—fiada, corrente, fileira,
carreira, etc. — Vem do francez rang que si-
gnifica o mesmo.
RENHUÇAR ou RENUNÇAR-—portuguêz
antigo—renunciar, largar, demitir de'si, etc.
Relinquimus e renhuçamos quanto direito nós
haviamos, etc. (Doc. de Arnoia de 1299). —
Eu-Polinhairo Steves, renunço o fóro que me
mom possa a el chamar. (Doc. de Moncorvo,
de 1337.)
RÊO, RÊU, e ARRÊO—portuguez antigo—
a fio, de fio a pavio, a seguir sem interru-
pção.
REPEENDIMENTO, e RREPEENDIMENTO
—portuguez antigo — satisfação, paga, Te-
compensa, ete.—Dou a Maria Carvalho, a
minha leira d'olival, em rrepeendimento dos
peccados do meu filho. (Doc. de S Christo-
vam de Coimbra, de 1348.) Vem do latino
rependo.
REPÊZES —-aldeia, Beira Alta, na antiga
freguezia de S. Martinho, extramuros e um
dos curatos de Viseu, hoje freguezia de San-
ta Maria, da mesma cidade, donde dista ape-
nas um kilometro.
Ha n'esta aldeia uma bonita capella, de-
dicada a Santa Eulalia, na qual se faz todos
os annos uma concorrida festa ao nosso por-
tuguez Santo Antonio, de Lisboa.
“Nesta povoação nasceu, pelos fins do secu-
lo 16.º, um christão-novo! chamado Antonio
Dias Ribeiro.
! Em 1485, foram expulsos de Hespanha
todos os judeus, que se espalharam por va-
rias nações da Europa, vindo muitos d'elles
para Portugal, onde os acolheu favoravel-
mente D. João II. Seu filho unico, D. Affon-
so, morre junto a Santarem, em 1491, da
queda de um cavallo, deixando viuva e sem
filhos, a sua joven esposa, a princesa D. Isa-
bel, herdeira do throno de Castella.
Fallecido De João II (25 de outubro de.
4495) e não podendo elevar ao throno, seu.
filho bastardo, D. Jorge, duque de Coimbra,
como muito pretendêra, foi acclamado rei, '
seu primo e cunhado, o duque de Beja, fi-
lho do infante D. Fernaado, duque de Viseu,
£ filho do rei D. Duarte.
REP sa
Era muito devoto da Santissima Virgem,
e, como era bastante rico, lhe mandou cons-
truir uma formosa capella, com a invocação
de Nossa Senhora dos Prazeres, no logar de
Abravezes, freguezia da Sé de Viseu, e pro-
ximo da mesma cidade.
Para evitarmos repetições, vide 7.º vol.,
pag. 660, col. 2.
REPOSTEIRO MÓR ou REPOSITARIO-
MÓR-—é um dos principaes oficios da casa
real portugueza.
Ha duvidas sobre a data d'estes grandes
D. Manuel contratou o casamento com a
princesa D. Isabel (a viuva do principe D.
Affonso) mas sob a condição de expulsar
os judeus, e mouros, de Portugal, o que elle
fez em 1497, com a ambição de vir a ser rei
de Portugal e Hespanha; deixando sahir d'es-
te reino as immensas riquezas dos expulsos.
Ficou porem sem ellas e sem o throno de
Hespanha (apesar de ser jurado rei d'este
reino, em Toledo, a 28 d'abril de 1498) por-
que D. Isabel morreu de parto, em Zarago-
ça, e seu filho,!D. Miguel da Paz, pouco lhe
sobreviveu. D. Manuel casou em segundas
nupcias com sua cunhada, a princesa D. Ma-
ria, irmã de D. Isabel, recebendo se em Al-
cer do Sal, em 15014. D'este casamento teve
—D. João, depois rei, 3.º do nome; D. Isa-
bel, que casou com o imperador Carlos V;
D. Brites, que casou com o duque de Sa-
boia; D. Luiz, duque de Beja; D. Fernando,
duque da Guarda; D. Affonso, cardeal, D.
Henrique, cardeal e rei; D. Duarte, duque
de Guimarães, e D. Maria e D. Antonio, que
morreram de pouca edade.
D. Manuel casou em terceiras nupcias,
com D. Leonor, filha de Philippe I, de Cas-
tella, da qual teve, D. Carlos que morreu de
| pouca edade, e D. Maria, que fvi senhora de
Viseu e Torres Vedras.
Não consta que este rei tivesse filhos bas-
tardos.
Muitos mouros e judeus preferiram ado-
ptar a religião catholica, a sahirem de Por-
tugal. Aos que foram expulsos, se lhe tira-
ram os filhos menores de sete annos, que fo-
ram baptisados, e educados na religião chris-
tã. A estes e aos adultos convertidos se ficou
chamando christãos-novos, e foram sempre
olhados com despreso pelos christâãus-velhos,
e muitos d'elles morreram nos carceres da
Inquisição, ou queimados em vida; porem a
maior carnificina d'estes infelizes, foi em
Lisboa, a 19 d'abril de 1506, em cujo dia fo-
ram assassinados (e muitos queimados vi-
vos) 4:000 christãos novos. (4.º vol., pag.
| 441, col. 1.2, e pag. 172, col. 2.º, no fim.)
142 REP
officiaes do paço. Frei Antonio Brandão diz
que o officio de reposteiro-mór (repositarius
maior) foi creado por D. Affonso II, em 12147,
sendo o primeiro que o teve, Pedro Garcia. 1
No reinado de D. Sancho II, tinha este offi-
cio, um tal Dominicus Scribanus Maius Re:
positarius, que assignou como testemunha,
o foral de Santa Cruz da Villariça, em 1225.
(Doc. de Moncorvo.)
Em quanto em Portugal não houve cama.
reiros móres, eram os reposteiros-móres
que tinham este exercicio.
O emprego de reposteiro-mór, é o de des-
cobrir a cadeira do rei, nas funcções publi-
cas, e está junto della, em quanto o monar-
cha se não levanta.
Pela Ord. do livro 3.º, tit. 4.º, tinham os
reposteiros-móres os mesmos privilegios que
“os alferes-móres, etc.
No reinado de D. João III, entrou o officio
de reposteiro-mór, na casa dos Távoras, na
pessoa de Bernardim de Távora, 3.º filho de
Alvaro Pires de Távora.
Por morte de Bernardim de Távora (neto
do 4.º reposteiro-mór d'esta familia, de egual
nome) e não tendo filho varão, herdou a ca-
sa, sua filha, D. Guiomar de Távora, casada,
em segundas nupcias, com Luiz de Souza e
Vasconcellos, 3.º conde de Castello-Melhor,
que, em razão d'esta alliança, foi reposteiro-
mór de D. Affonso VI, e assim passou o offi-
cio, para a casa de CGastello-Melhor.
Não eram só os reis que tinham repostei-
ros-móres: da rainha D. Philippa, mulher
de D. João I, foi reposteiro-mór, Fernão Lo-
pes de Avreu: da rainha D. Leonor, filha de
D. Fernando I d'Aragão e mulher do nosso
rei D Duarte, foi reposteiro mór, Vasco da
Fonseca: do infante D. Duarte, tinha sido
reposteiro-mór, Diogo Fernandes d'Almeida,
que continaou no mesmo emprego, depois
! Mas, no codicilo de D. Saneho I, feito
em 1181, e que se acha no cartorio da Sé de
Viseu, se lê— Tetum repositum, tam pânus,
quam vasa argentea, et scudellas, et culiares
et quid in Reposito est, etc.—o que parece
demonstrir que já então havia reposteiro,
visto que havia reposito.
REQ
de D. Duarte ser acclamado rei; do infante
D. Fernando, irmão de D. Duarte, foi repos-
teiro mór, Fernão Rodriyues.
Entre os monges tambem havia o officio
de reposteiro, que vinha a ser o mesmo que
vestiario.
Segundo 0 Cod. Air, livro 2.º, tit. 43, 0
reposteiro vinha a ser o mesmo que thesow-
reiro.
REPRÊZA—freguezia, Alemtejo, comarca
e concelho de Monte-Mór-Novo (foi da mes-
ma comarca, mas do concelho d'Arraiolos),
30 kilometros d' Evora, 90 ao S.E. de Lisboa.
Tem 80 fogos.
Em 1757, tinha 50 fogos.
Orago Nossá Senhora da Purificação (vul-
go das Candeias).
Arcebispado e districto administrativo de
Evora.
O rei, pelo tribunal da mesa da conscien-
cia e ordens, apresentava o prior, que tinha
de rendimento, 340 alqueires de trigo, 120
de cevada, e 108000 réis em dinheiro.
É terra fertil, sobre tudo em cereaes.
REPREZA (quinta da)— Alemtejo, na fre-
guezia de Orióla. Vide 6.º volume, pag. 293,
col. 2.º
REPROCHAR— portuguez antigo —repre-
hender, censurar, criticar, etc. — É gallicis-
mo, que, apezar de tão escusado, foi muito
usado em Portugal, n'outro tempo. Ainda
hoje ha escriptores afrancezados que em-
pregam este verbo inutilissimo.
REQUEÃO, ou REQUIÃO — freguezia, Mi-
nho, comarca e concelho de Villa Nova de
Famalicão, 48 kilometros ao O. de Braga,
340 ao N. de Lisboa.
Tem 300 fogos.
Em 1757, tinha 193 fogos.
Orago, S. Silvestre, papa.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
“A mitra primacial apresentava o reitor,
que tinha 2505000 réis de rendimento.
Esta freguezia pertenceu ao antigo julga-
do de Vermuim, do qual era cabeça Villa
Nova de Famalicão.
Diz-se que o nome d'esta freguezia pro-
|
REQ
vêm do substantivo latino requie, descanço:
será. 1
A situação desta freguezia é aprazivel, e
o seu terreno é muito fertil. Cria muito ga-
do, de toda a qualidade.
Tinha um mosteiro de frades cruzios, fun-
dado no seculo x1r, pelos templarios, e que,
em 41319, passou para os cruzios. 2
Em frente d'esta freguezia fica outro mos-
teiro, tambem de cruzios, de fundação mui-
to antiga (1095) na freguezia de Landim (an-
tigamente Nandim) do mesmo concelho. Vi-
de Landim e Nandim.
Em 1418, o arcebispo de Braga, D. Fer-
-nando da Guerra, converteu o mosteiro de
Requião em egreja secular, por breve do pa-
pa Martinho V.
É n'esta freguezia a casa de Ninães, e n'el-
la nasceu, em 1782, D. João da Assumpção
Carneiro, ultimo geral dos conegos regran-
tes, da congregação de Santo Agostinho, de
Santa Cruz de Coimbra. 3
Falleceu na sua casa de Ninães, em 18 de
“janeiro de 1873, com 90 annos de edade.
Foi em toda a sua vida um varão virtuo-
sissimo. Tomou ordens de presbytero em
1205, e foi por trez triennios reconduzido no
generalato da sua nobilissima ordem.
Decidido e exemplarissimo legitimista, foi
de grande representação nos reinados dos
srs. D. João VI, e D. Miguel I.
Foi sepultado no logar mais distincto do
- cemiterio de Requião, no dia 20 do dito mez
e àanno.
1 É tradição que, quando se fundou o mos-
teiro, estava este sitio deshabitado, e que os
frades, em vista da sua amenidade, lhe de-
ram o nome de Requie et folgamça, que de-
generou em Requião. Póde ser. )
2 Mas a Benedictina Lusitana diz que, em
1176, o mosteiro era de monges bentos. Tal-
vez dos templarios passasse aos bentos e de-
pois aos cruzios.
3 Não se confunda esta casa de Nindes,
com o paço de Ninães, de que «adiante fallo.
A casa de Ninães é de abastados e honra-
dissimos lavradores, e não de fidalgos. O avô
de D. João da Assumpção Carneiro, teve dois
filhos—Maauel Carneiro, a quem deu a casa
da Ribeira, que é hoje de seu fillho, o sr. Ma-
theus Carneiro—e Antonio Carmeiro (pae de
D. João) ao qual deu a casa de Ninães, que
é a mais importante e rica do logar.
e e err trt ret et tr eee tea tio meme
E a
|
REQ 143
Os pobres, de quem era a Providencia,
muitos annos chorarão a sua morte.
É da casa de Bragança.
Ha n'esta freguezia a ermida de Nossa
Senhora da Pedra leital (pedra que causa
leite!)
É um bom templo, com alpendre e sa-
christia; e tão antigo, que se não sabe quem
foi o seu fundador.
Os povos destes sitios teem grande devo -
ção com esta Senhora, e lhe fazem uma gran-
de festa a 5 de agosto (dia de Nossa Senho-
ra das Neves), que é sempre muito concor-
rida.
Antigamente, em todos os domingos e dias
santificados hia o povo à capella rezar o ter-
ço; e era então a Senhora visitada por mui-
tas romagens, não só dos habitantes d'estes
sitios, mas até dos povos distantes.
Junto à ermida ha alguns gigantescos car-
valhos, que se julgam tão antigos como a
capella.
Tambem junto à ermida (á esquerda de
quem entra) está um grande penedo, com
umas cortaduras, que servem de escadas,
abertas n'elle. Ao seu cume sobem as mu-
lheres que teem falta de leite, e, depois de
rezarem uma Ave Maria, beijam a pedra,
crendo que, fazendo isto, lhes acode o leite.
Foi este penedo que deu o titulo à Se-
nhora.
Existiu n'esta freguezia a casa do Paço de
Ninães (ao qual José Avellino d' Almeida, no
seu Diccionario abreviado, por engano, dá o
nome de Paço de Novaes).
Esta nobre casa deu assumpto ao sr. Ca-
millo Castello-Branco, para o seu formosis-
simo romance, que intitulou — O SENHOR DO
PAÇO DE NINÃES.
Segundo o padre Carvalho (Chorographia
Portugueza, pag. 327) a casa do Paço de Ni-
nães, foi fundada por um tal Affonso Fer-
nandes de Novaes, castelhano, senhor do
castello de Novaes, em terra de Queiroga
na Hespanha.
É por esta circumstancia que alguns es-
14.4 REQ
criptores se teem enganado, chamando ao Pa-
co de Ninães, Paço de Novaes.
Novaes, é uma antiga fre-
guezia deste mesmo concelho,
de que eram donatarias as frei-
ras de Santa Clara (francisca-
nas) de Villa do Conde, e que
hoje estã unida à de Ruivães.
Talvez que esta freguezia,
tomasse o nome, do tal Affon-
so Fernandes, e que este ou
seus descendentes fossem se-
nhores do que depois foi das
referidas freiras; mas é mais
provavel que o appellido per-
tença a outros Novaes, que 0
tomassem d'esta freguezia.
Diz o mesmo pedre Carvalho, que o Paço
de Ninães, é o solar dos Pimenteis, em Por-
tugal; mas nos manuscriptos da casa Pal-
mella, dá-se-lhe uma origem muito diversa.
- Vidê no 4.º vol., pag. 384, col. 2.2
Ainda ha poucos annos se viam restos do
nobre paço de Ninães. Era um lanço de pa-
rede que donotava muita antiguidade, com
suas séteiras e janellas ogivaes. Hoje já nada
d'isto existe.
Ficava o paço de Ninães perto da actual
casa dos srs. Carneiros, de Ninães.
O que foi da famila do paço de Ninães (ou
pelo menos, o terreno em que foi o paço) é
hoje do sr. Francisco Ignacio d'Aguiar Pi-
menta Carneiro, da casa da Verêia (vulgo
Brêia) na freguezia de Vermoim.
O antigo paço de Ninães, pertence, ha
muitos annos, á familia do sr. Pimenta Car-
neiro; mas, nem elle mesmo sabe porque ti-
tulo, pois que um incendio lhe devorou
quasi todos os titulos da sua casa.
REQUEÃO (quintas de) —e Torre de Vas-
concellos, Minho, proximo à villa d'Amares,
no districto da freguezia de Ferreiros. É o
mais antigo morgado que a nobilissima fa-
milia Vasconcellos possuiu em Portugal.
No 3.º vol., pag. 176, col. 2.2, no fim, e
seguinte, fallei na Torre de Vasconcellos:
aqui serei mais explicito.
“Tambem tenho d'aqui rectificar um érro
em que teem cahido muitos escriptores, e
REQ
no qual eu tambem por culpa d'elles, cahi—
é dizerem que Mariim Moniz era filho de
D. Egas Moniz (4.º vol., pag. 384, col. 2.2)—
o que não é verdade, pois apenas é da mes-
ma familia, como adiante veremos.
Da Torre de Vasconcellos, apenas existem
algumas paredes desmanteladas, e das quin-
tas de Requeão, até o nome se perdeu, e sup-
põe-se que eram proximo ao terreno hoje
chamado as minas.
A maior parte do que constituia o mor-
gado dos Vasconcellos, nºesta freguezia, per-
tence actualmente aos srs. condes da Figusi-
ra, por herança dos Machados.
Muito perto d'estas minas, e ao N. E. d'el-
las, existe a capella de Santa Luiza, de cons-
trucção antiquissima, e que se suppõe ter
pertencido à familia Vasconcellos, e fazer
parte da quinta da Torre. Hoje é publica:
Segundo a tradição, em uma noite, ves-
pera de Natal, sé juntaram na referida guin-
ta, trez irmãos, da familia Vasconcellas, e
todos tres bispos, que então sagraram a ca-
pella. É certo que sobre a porta, em uma
lapide, se lê esta inscripção :
ESTA CAPELLA HE SAG-
RADA E SEGUNDA VES RE-
EDIFCADA, TEM RELIQUI-
AS, NO ALTAR, E INDULG.º
Vamos ao Martim Moniz.:
Nos Retratos e elogios dos varões e donas,
se lê o que aqui digo em resumo. (Não cito as
paginas, porque o livro não tem numeração.)
1147
D. Martim Moniz, cavalleiro nobilissimo,
foi filho 2.º de D. Mousinho Ozorio de Ca-
breira, e Ribeira, conde d'estas terras, e de
D. Maria Nunes, filha de D. Nuno Soares,
fundador do mosteiro de Grijó.
Era neto do conde D. Ozorio de Cabreira
e Ribeira 1 que veiu para Portugal com o
conde D. Henrique, e ao qual serviu, nas
guerras do seu tempo. Teve o seu domici-
lio na comarca de Vianna e foi casado com
i Este conde D. Ozorio, era filho do in-
fante D. Velloso, que era filho incestuoso de
D. Ramiro 3.º de Leão, e de sua irmã, D. Er-
menezinda.
REQ
D. Rufa Moniz, filha de D. Mousinho Fer-
nandes de Touro, e neto do rei D. Fernan-
do, pae de D. Affonso o 6.º (ao qual cha-
maram imperador).
D. Martim Moniz, obrou prodigios de va-
lor na memoravel batalha de Campo d' Ouri-
que, em 25 de julho de 1199.
Alguns dos nossos historiadores o confun-
dem com outro D. Martim Moniz, filho do
grande D. Egas Moniz; mas advirta-se que
este commandava a ala direita do exercito,
com 2:000 infantes e 200 ginetes, na bata-
tha d' Ourique, e n'ella morreu. Além d'isso,
os da sua familia tomaram os appellidos de
Coelhos e Viégas, que depois mudaram em
Athaides; e o nosso D. Martim Moniz, veiu
à tomada de Lisboa, oito annos depois, e os
seus descendentes tomaram o appellido de
Vasconcellos.
Foi casado com D. Theresa Affonso, filha
bastarda do rei D. Affonso de Leão. O filho
primogenito de D. Martim Moniz e de D.
Thereza Affonso, foi D. Pedro Martim da
Torre, rico-homem. Chamou-se da Torre por
ser senhor da Torre de Vasconcellos, solar
d'esta familia, e das quintas de Requeão, com
12 casaes, que eram honras de sua famiha.
D. Pedro Martins, casou com D. Thereza
Soares da Silva, filha de D. Soeiro Pires Es-
cacha da Silva, ! e de D. Froila Viegas, dos
guaes nasceu D. João Pires” o primeiro que
se appellidou de Vasconcellos, por ser se-
nhor da Torre d'este nome, no reinado de
D. Affonso 3.º
Todos sabem que o nosso D. Martim Mo-
Diz, atravessando-se na porta do N. do cas-
tello de Lisboa (a que fica para o lado do
convento da Graça) franqueou a entrada aos
portuguezes, como fica dito no logar citado
do 1.º volume.
D. Afonso Henriques, em memoria d'este
acto de coragem e abnegação, lhe mandou
collocar o busto sobre a dita porta. Por bai-
xo do busto se gravou, d'alli a 500 annos,
a seguinte inscripção : A
! Supponho que foi este fidalgo que deu
o nome à freguezia de Suuropires, Beira.
Baixa, comarca e concelho de Pinhel.
REQ
EL-REJ DO AFFONSO HENRIQUES
MANDOU AQUI COLOCAR ESTA
STATUA E CABEÇA DE PEDRA, EM
MEMORIA DA GLORIOSA MORTE
QUE DO MARTI MUNIZ,
PROGENITOR DA FAMILIA DOS
VASCONCELLOS, RECEBEU NESTA PORTA
QUANDO, ATRAVESSANDO-SE N'ELA
FRANQUEOU AOS SEUS A ENTRADA,
COM QUE SE GANHOU AOS MOUROS
ESTA CIDADE, NO ANNO DE 1147
145
—s,
JOÃO ROIZ DE VASCONCELLOS E SOUZA,
CONDE DE CASTELMELHOR, SEU
DECIMO QUARTO KETO POR BARONIA,
FEZ AQUI PÔR ESTA INSCRIPÇÃO,
NO ANNO DE 1646.
Tudo quanto os Vasconcellos tinham em
Amares, passou depois à corôa, e D. João
1.º o vendeu a Pedro Machado, que ficou sen-
do senhor d'Amares.
Este Pedro Machado é progenitor do sr.
conde da Figueira, e é por isso que elle é o
actual senhor da desmantelada Torre de Vas-
“concellos, e de tudo mais que pertence a esta.
familia, em Amares.
REQUEIXADA — portuguez antigo —aca-
nhada, estreita, opprimida. Tambem signifi-
cava deserta, despovoada. Dizem, que a ter-
ra do dito logo (logar) he requeixada por
tal guiza, que non ha hi homee, que aia (te-
nha) terra que avonde huma junta de bois
a lavrar... A minha terra fica por esta
rrazom mays requeixada para os meos fo-
ros e direitos. (Dec. da camara secular de
Lamego, de 1352.)
Ainda hoje ha varias propriedades com o
nome de Requeixadas, que lhe provem de
terem sido antigamente em sitio despo-
voado.
REQUEIXADA (quinta da) — Extremadu-
ra, freguezia da Triana, em Alemquer. Esta
quinta e a do Contador, formavam um vin=
culo, que: em 4707 era administrado por
D. Thomaz de Napoles Norouha e Veiga,
descendente de Estefanc de Napoles, filho
do infante da Hungria e principe da Morêa,
e neto de Carlos II, rei de Napoles, Hun-
gria e Jerusalem. O repr: sentante desta no-
bre familia, é actualmente o sr. D. Thomaz
de Napoles, feito 4.º visconde d'Alemquer,
146 REQ
em 44 de dezembro de 1873. É filho do sr.
Manoel Joaquim d'Almeida, feito 1.º barão
d'Alemquer, em 3 de julho de 4862. O sr.
D. Thomaz herdou estas quintas, por parte
de sua mãe.
REQUEIXARÍA —portuguez antigo—o que
pertence aos queijos e lacticinios (porque
os nossos avós diziam queixo em vez de quei-
jo.)—Homeens de todolos Officios, asy como
da mantearia, copa, reposte, requeixaria,
erquitaria, e de forno, etc. (Livro Vermelho
do rei D. Affonso V, n.º 34.)
REQUEIXO — portuguez antigo — ainda
muito usado nas provincias do norte. — Si-
gnifica, acanhado, comprimido, oppresso,
constrangido, etc. — Tambem significa de-
serto, despovoado — Terra de requeixo (ter-
ra deserta.)
REQUEIXO—freguezia (foi villa), Douro,
concelho, comarca, di=tricto administrativo,
bispado, e 45 kilometros a E.S.E. de Avei-
ro, 45 ao N.0. de Coimbra (a cujo bispado
pertenceu), 245 ao N. de Lisboa, 566 fo-
gos.
- Em 1757, tinha 624 fogos.
Orago S. Pelagio (S. Paio).
“ A casa de Bragança, a quem esta fregue-
zia pertence, apresentava o prior, que tinha
8503000 réis de rendimento.
D. Manoel lhe deu foral e a fez villa, em
Lisboa, a 2 de junho de 1516. (Livro de fo-
raes novos da Extremadura, fol. 220, col.
E)
Veja-se a minuta para este foral, na gav.
20, maço 12, n.º 12.
Esta minuta pertence tambem ao bo da
villa d'Eixo.
Para a sua etymologia, vide mo
e o Requeixo antecedente.
Chamava-se antigamente Requeixó de Ri-
ba Vouga, e pertencia ao concelho d'Eixo,
que foi supprimido.
Está esta freguezia situada junto à mar-
gem esquerda do Rio Agueda, e 0 seu ter-
reno é muito fertil em todos os generos
agricolas do nosso clima; todavia já foi mais
povoada, como vemos no principio d'este
artigo; provavelmente pela sua pouca salu-
bridade.
-O marnel chamado Pateira de Fermentél-
REQ
los (que tem 3 Kilometros de comprido por
1 de largo) posto estar quasi todo na fre-
guezia de Fermentéllos, banha tambem, em
parte, as freguezias do Espinhel, Óis da Ri-
beira, e esta de Requeixo.
Estes terrenos são em grande parte inva-
didos pelas aguas da ribeira Cértima (ou
Cértoma) que os atravessa, formando uma
infinidade de ilhotas no Paúl do Panno, sob
as quaes, e apenas coberta por uma delga-
da capa de terra, existe uma vasta turfeira,
reduzida a vaza.
Ainda nos sitios mais enchutos, treme o
chão com o attrito dos pés.
Em differentes logares ha poços cavados
pela natureza, e de grande profundidade.
Diz-se que ha aqui galerias e cavernas
subterraneas, occupadas pelas agia esta-
gnadas.
Estes terrenos podem comparar-se aos
bogs, que estanceiam entre Carudulla e Bal-
linderry, na Irlanda.
Uma párte do pantano, produz arroz, o
resto apenas produz uma infinidade de plan-
tas aquaticas, que o povo aproveita para
adubo das terras.
Tem sido por varias vezes lembrado o en-
xugamento d'este marnel, ou por um bom
systema de drainagem, ou construindo um
canal que communicasse a lagôa com a ria
d'Aveiro, é que teria uns 85 kilometros de
extensão; mas as despezas d'estas ubras fo-
ram calculadas em um milhão de crusados,
e o plano ficou no papel.
Este melhoramento, tornando melhores as
condições de salubridade, dariam um juro
vantajoso pelo capital empregado, pois trans-
formariam em bellos e ferteis campos, 0
que hoje são terrenos doentios e quasi im-
productivos.
O logar de Requeixo, séde da freguezia,
tem 116 fogos.
Foi couto, que, com o d'Eixo, foi doado
por D. Pedro, conde de Barcellos, (o auctor
do Livro das linhagens) filho bastardo do
rei D. Diniz, ao mosteiro de Santo Thyrso.
(Ben. Lusit., edição de. 1644, tom. 2.º, pag.
39, 8 5.º)
O logar de Roqueiro e todas as mais ter-:
REQ
ras do antigo termo d'Eixo, são reguengas,
e d'ellas foram donatarios os condes de
Barcellos, e é por isso que vieram à casa de
Bragança.
A egreja parochial é boa, porém mal si-
tuada, porque fica proxima à pateira de
Fermentellos, e isolada da povoação, que
fugiu d'aquelle logar, pela sua insalubrida-
de, vindo, em 1774, a formar a povoação de
S. Paio.
Tanto a estatua de S. Paio, que está no
frontispicio da egreja, como algumas das
imagens de santos que estão no seu inte-
rior, revelam muita antiguidade, pelo tosco
da sua esculptura.
É a freguezia abundante de peixe, do rio
Agueda, e do mar.
Na pateira tambem se pesca algum peixe,
e enguias monstruosas.
São optimas as laranjas de Requeixo,
sobretudo as do Carregal e Mamodeiro.
Na ultima divisão judicial (Lei de 46 de
abril de 1875) ficou Requeixo sendo séde
do juizo ordinario, composto das freguezias
de Eixo, Eiról, Oliveirinha, Palhaço, Nariz
e Requeixo.
N'ºesta divisão attendeu-se mais a influen-
cias de campanario, do que à commodidade
dos povos.
Notemos uma coincidencia — o rio Féve-
ros, do Minho (vol. 3.º, pag. 181, col. 1.2)
passa pela povoação de Requeixo, que foi
villa (casa de campo) e o Requeixo de que
aqui trato, está na margem do Cértima,
que antigamente se chamava tambem Fé-
veros. Ainda ha outro ribeiro com o nome
de Féveros, que divide a freguezia de Avin-
tes da de Oliveira do Douro, no concelho de
Gaia. (3.º vol., pag. 180, col. 2.2 no fim.)
Parece me que Féveros vem do portuguez
antigo febre, que significava fraco. Nas côr-
tes do Porto, de 1373, convocadas por D.
Fernando 1, se diz—E por a moeda que era
febre, lhis nom acrescentaramos nas tençus,
etc. Moeda febre, queria dizer moeda fraca,
que tinha liga, ou falta de peso legal.
No logar de Requeixo, ha uma capella,
dedicada a Nossa Senhora da Purificação
REQ 147
(ou das Candeias) da qual não pude obter
informações.
Junto ao logar do Rêgo do Espinheiro, a
3 kilometros de Requeixo, está a ermida de
Nossa Senhora dos Envendos, dentro dos
limites da freguezia de Requeixo, mas per-
tence à egreja de S. Simão, de Oyan, do
concelho de Oliveira do Bairro, comarca da
Anadia. (Esta freguezia de Oyan, foi um
curato annexo à freguezia de Espinhel.)
A ermida da Senhora é antiquissima, mas
não se sabe quando nem por quem foi fun-
dada.
A lenda da Senhora dos Envendos é
muito extensa, direi aqui sómente o prin-
cipal.
Appareceu em um sitio despovoado, en-
tre uma mouta de carvalhos, estando dois
sinos ao pé da imagem da Virgem. Foi
achada por uma menina que andava a guar-
dar cabras.
Ainda então não existia a freguezia de
Oyan, que era uma aldeia da do Espi-
nhel.
A menina deu parte do achado, e o pa-
rocho do Espinhel foi buscar a imagem pa-
ra a sua egreja, em quanto se lhe não con-
struiu casa propria, no logar do appareci-
mento, o que se levou logo a effvito.
Passados annos, e como a ermida estava
em terreno pantanoso, proximo à pateira
de Fermentellos, lhe construiram uma nova
capella, no alto de um monte fronteiro.
Feita a nova ermida, levaram a Senhora
e os sinos, em um barco, para ella, mas, ao
atravessarem a lagôa, foi o barco ao fundo,
com a imagem e os sinos.
Como a lagôa tem pouca altura, os tripu-
lantes, tiraram a Senhora da agua, e depois
de enchugar esta, e entendendo que a Se-.
nhora queria só estar na sua antiga ermida,
a tornaram a conduzir para ella; menos os
sinos, que não poderam tirar da lagõa; os
quaes ainda por muitos annos depois, se ou-
viram tocar debaixo da agua, em dia de. 5.
João.
Ainda ha vestigios de alicerces da capella
do monte.
Esta capella (a nova) fica perto da quinta
148 REQ
do Morangal, na freguezia do Espinhel. (5.º
vol., pag. 538, col. 1.2, no fim.)
Quando se construiu a capella, era o sitio
um deserto inculto e um denso matagal;
mas em volta da ermida se foram construin- |
do casas de habitação, e em poucos annos,
estava creado o logar do Rêgo do Espinhei-
ro, com mais de 30 fogos.
A festa da Senhora, é a 8 de setembro,
dia da sua Natividade.
Ha tambem n'esta capella uma antiquis-
sima imagem (de pedra) de Nossa Senhora
das Febres (nome talvez tomado de Féveros,
antigo nome do rio Cértima, como fica
dito.)
Em 1685, cahiu um raio mesmo por de-
traz do retabulo, mas não causou outro pre-
juizo na capella, senão fazer um buraco no
forro, no sitio por onde entrou.
Em março de 1876, deu-se n'esta fregue-
zia uma coincidencia notavel, que refiro por
a julgar digna de menção.
Haviam aqui nascido duas creanças no
mesmo mez, e sendo baptisadas no mesmo
dia, a ambas pozeram o nome de Roza. Fo-
ram crescendo as duas moças, e ultima-
mente no dia em que uma era atacada pela
molestia que alli grassa, cahiu à outra de
cama à mesma hora.
Como o mal se lhes aggravasse, foram
sacramentadas uma apoz outra, com diffe-
rença de poucas horas; afinal morreram as
infelizes Rusas no mesmo dia e quasi à
mesma hora.
É natural d'esta villa, D. frei José da As-
sumpção, missionario apostolico, do semina-
rio do Varatojo, nomeado bispo de Lamego
em janeiro de 1833, e confirmado em con-
sistorio de 23 de junho do mesmo anno, não
chegando a receber as bullas, por causa da
guerra civil d'esse tempo.
Poucos mezes administrou o bispado, mas,
durante elles, mostrou que era um prelado
de grande illustração e muitas virtudes.
À aproximação das tropas liberaes de |
Lamego, fugiu, levando todas as pratas da
egreja, que depositou nas mãos de D. Maria
José Esteves, de Celorico da Beira, com ex-
Pressa recommendação de só às entregar a
RER
“elle ou ao seu legitimo successor no bispa-
| do; e com effeito, fallecendo D. frei José da
| Assumpção, e succedendo-lhe D. José de
| Moura Coutinho (Vide Telhó) aquella senho-
ra lhe entregou tudo, sem a minima falta,
em 1844.
D. frei José da Assumpção, falleceu nos
arrabaldes de Lisboa, em 18 de outubro de
18414,
Escreveu e publicou (sem nome de au-
ctor) as obras seguintes:
Defensor da Religião, em 3 volumes.
Palestras religiosas, em 4 volumes.
Homilias, 2 volumes.
Disputas, 6 volumes.
Cathecismo, À volume.
Além de outros muitos escriptos de me-
nos vulto, tudo sobre assumptos religio-
sos.
REQUESTA — portuguez antigo — peleja,
bulha, refrega, desafio, contenda, etc. — Vem
do verbo requestar, pelejar, etc.
Hoje tem a palavra requestar outra signi-
ficação — quer dizer — pretender, fazer dili-
gencia por conseguir, namorar, etc.
REQUEZENDE — aldeia, Douro, na fre-
guezia de Ramalde, concelho de Bouças,
comarca do Porto.
É uma bonita povoação, nos suburbios do
Porto.
Ha nesta aldeia uma formosa capella, de-
dicada a Nossa Senhora do Porto, à qual sé
faz uma concorridissima festa, a 15 de
agosto de cada anno, vindo romeiros, não
só dos arredores, mas até, em grande nu-
mero, .da cidade do Porto.
Requezende, é corrupção de Requezendo,
nome proprio d'homem (gôdo) ou—e é o
“mais provavel—de Requezendes, patronimi-
co de Requezendo.
REQUISIR— portuguez antigo—rogar, pe-
dir, supplicar, etc.
RÉRIZ—villa, Beira Alta, comarca, con-
celho e 6 kilometros a S.0. de Castro Daire
| (foi até 1834, cabeça de concelho, e sendo
então supprimido, passou a formar parte do
concelho do Sul. Sendo este supprimido em
1855, passou para o de Castro Daire) 30
kilometros ao N.0. de Viseu, 310 ao N. de
Lisboa, 243 fogos.
RER
“ Em 1757, tinha 150 fogos.
- Orago S. Martinho, bispo.
Bispado e districto administrativo de Vi-
seu.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
4003000 réis de rendimento.
- Foram donatarios d'esta freguezia os Cas-
tros das treze aruellas, senhores de Rézen-
de, representados actualmente pelo sr. con-
de de Rézende. to
É povoação muito antiga. D. Manoel I
lhe deu foral, em Lisboa, e foro de villa, a
9 de maio de 1514. (Livro de foraes novos |
da Beira, fol. 77, col. 2.º)
A antiga villa de Rériz, tinha em 1757,
apenas 60 fogos, e o resto da freguezia 90.
"Está situada ao fundo de um monte as-
pero, chamado Cabeçadas, ramo da serra do
Gafanhão, que lhe fica proxima, ao norte.
"Á raiz deste monte, passa o rio Paiva, que
divide, aqui, o bispado de Viseu do de La-
mego; e tambem aqui se destaca a serra de
Monte Muro, na direcção de E. a O.
No alto do monte, em um plató, estã a an-
tiquissima ermida de Nossa Senhora de Rho-
des, Ao fundo lhe fica a povoação de Rériz,
cuja egreja parochial está edificada em um
têso, chamado serra do Ladairo! que corre
para 08. por espaço de 24 Kkilometros, até
à cordilheira de Alcófra—antigamente—Al-
cuba.
No alto pois da serra ou monte das Cabe-
çadas, fundou o celebre eremitão, Leovigil-
do (ou Vigildo) Pires de Almidra (ou d'Al-
meida) a capella de Nossa Senhora de Rho-
“des (a que alguns escriptores, dão errada-
mente o titulo de Nossa Senhora da Rosa.)
Não se sabe com certeza o anno em que
Leovigildo construiu a capella, mas suppõe-
se, com bons fundamentos, que foi em 1140,
pouco depois da gloriosa batalha de Ouri-
que, em 25 de julho de 1139.
O capitão, Diogo Ribeiro Pinto d'Almei-
À Ladairo, portuguez antigo — significa —
“procissão, rogativa, clamôr, ladainhas, etc.
—Deu-se lhe este nome, porque antigamen-
te vinham aqui.os povos em procissão, no
mez de maio, fazerem os seus clamores, (ou
cramadouros, como então se dizia.)
VOLUME VIII
RER 149
| da, na descripção que publicou da origem
d'esta capella, dá a Leovigildo a seguinte as-
| cendencia.
(Note-se porem que este es-
criptor é suspeito, por ser Al-
meida, e portanto pretender
nobilitar o seu appeltido, que
aliás não precisa tão remota
ascendencia para ser nobilis-
simo, pelas brilhantes acções
praticadas pelos que em todos
os tempos o teem usado.)
A familia dos Almeidas, teve principio em
Celocorio, capitão romano,jfilho de Lucio Ca-
tilio Severo, (Lurio Caio Atilio) governador
de Braga e ouvidor da Biscaia pelos roma
nos, e de Almidra Assenta. !
Os descendentes de Celocorio estabelece-
ram-se em Toledo, e d'elles procedia Epita-
cio de Almeida ? que, com seus. irmãos, vie-
ram para Portugal, em 570, fugidos às cruel-
dades de Leovigildo, rei gôdo herege, e de
Ariamiro seu tio. 3
1 O que aqui vão de patranhas |—Accres-
centou a Lucio Caio Atilio, o appellido Se-
vero, que elle nunca teve. Era governador
da Lusitania e da Galliza. Os romanos nun-
ca tiveram magistrados com a denominação
de ouvidores, nem (que os tivessem) Lucio
Caio o pudia ser da Biscaia, que fica na ex-
tremidade opposta (septentrional) da Penin-
sula. Sua mulher chamava-se Calcia Bruta,
'e não Almidra Assenta, nem semelhantes
nomes são romanos (nem de outra nação, que
eu saiba.)
Este Lucio Caio Atilio e sua mulher, Cal-
cia, são os paes das nove irmãs, santas de
Braga. (Vol. 4.º, pag. 442, col. 2.2)
O nome de Celocorio parece-me tão ro-
mano, como Almidra.
2 Aqui encaixou o Almeida, que timbem
nunca foi appellido romano : é o substan-
tivo árabe almeida, que significa mêza. O
appellido Almeida, foi usado 9 ou-10 secu-
los depois, tomado da nossa praça de Almei-
da, na Beira Baixa.
3 Outra patranha!—Theodomiro, rei dos
suevos, ahjurou o arianismo em 564, e mais
nenhum rei suevo ou godo tornou a ser'he-
rege. Ariamiro não era tio de Leovigildo,
mas filho de Theodomiro e pae de Eburico,
“todós catholicos. Leovigildo, rei dos gôdos,
só tomou conta do reino dos suevos em 585
(e não em. 570) e não perseguiu os catholk-
cos, porque tambem o era e muito.
10
150 RER
Epitacio d'Almeida, fundou, junto ao rio
Paiva, no bispado de Viseu, a quinta de Re-
bello, primeiro solar d'esta familia, e que fica
a meia legua de Rériz, e n'ella viveu com
seus irmãos.
Este Epitacio d'Almeida, casou com Leo-
vigilda, sobrinha de Leovigildo, 15.º rei dos
godos. !
Foi 4.º neto d'este Epitacio, outro Epita-
cio d'Almeida, que teve tres filhos, o pri-
meiro dos quaes se chamou Leovigildo Pi-
res de Almeida. Este, tendo 20 para 25 an-
nos, doou, por carta de testamento, ao se-
gundo irmão, a quinta de R-bello, da qual
o doado tomou o apprllido. ?
Esta quinta é hoje (1700) possuida, por
Christovam d Almeida, de 8. Pedro do Sul.3
«Movido (Leovigildo—palavras textuaes)
de huns grandes desejos da virtude, voltan-
do as costas ao mundo, desterrando-se de
sua patria, e da companhia de seus irmãos,
se foy, pelos annos de 179,4 a viver solita-
rio em os campos de Ourique, junto a Cas-
tro Verde, onde fazia uma dura e aspera pe-
nitencia.»
«Aqui viveu sessenta annos, louvando a
1 Então Leovigildo, herege (segundo o tal
capitão) e perseguidor dos catholicos, deu a
sobrinha em casamento a um dos seus per-
seguidos?
2 Tambem isto não é liquido. Nos manu-
seriptos da livraria Palmella—quasi sempre
exactissimvs—diz se «Rebêllo, appellido no-
bre em Portugal, cuja fumilia tem seu solar
no couto de Rêbêllo (donde tomou o appelli-
do) no concelho de RORIZ, na provincia do
Minho, comarca da cidade dc Porto. (E a
actual fregu-zia de Roriz comarca e conce-
lho de Santo Thyrso.) Mas, frei Manuel de
Santo Antonio, diz que, na freguezia de S.
Martinho, no bispado de Viseu. O primeiro
que usou d'e-te appellido, foi Mem Ro'tri-
ques, senhor do dito couto. que o herduu de
seu pae, Ruy Vasques, o qual vivia no rei-
nado de D. Affonso III. Os R-bellos trazem,
por armas, em campo azul, tres cuticas de
ouro, em faxa, cada uma carregada de sua
flôr de liz. de púrpura, ficando todas tr:s
em banda. Elmo de prata, aberto; e por tim-
bre, um leopardo d'ouro, armado de azul.
com uma flôr de liz do escudo, na testa.
3 Adiante tratarei desta quinta, para não
interromper a narrativa do tal capitão.
4 E manifesto erro typographico. Deve
lêr-se 1709.
RER
Deus, em santa contemplação, até ao tempo
em que El-Rey D. Affonso Henriques foy
buscar ao Rey Ismario, é aos outros quairo
Reis Mouros, que o acompanhavão contra os
christãos.»
Resumamos agora.
Foi este santo eremitão que, na vespera
da batalha, se dirigiu à tenda de D. Affonso
Henriques, animando-o e promettendo-lhe a
victoria. Segundo a Monarchia portugueza
(parte 32º, Livro 10, cap. 2.º) foi João Fer-
nandes de Sousa (fidalgo da casa de D. Af-
fonso Henriques, descendente de D. Sveire
Belfaguer, tronco da illustre casa de Suusa)
o intruductor do eremitão, na tenda do prin-
cipe.
Vencida a batalha, regressou Leovigildo
a Rériz, e fundou logo a casa da Senhora de
Rhodes.
Outros pretendem que Leo-
vigildo não construiu de no-
vo, mas reedificou a casa da
Senhora, que seu quinto avô,
o tal primeiro Epitamio de Al-
meida, havia fundado com o
titulo de Nossa Senhora da Na-
tividade.
Querem alguns, que o titulo de Rhodes
seja corrupção de Rhoda, palavra persa, que
significa jardim ou paraizo : outros porém
dizem que é por ter a santa imagem vindo
da ilha *de Rhodes, mandada pelos cavallei-
ros de Rhodes, depois, chamados de Malta,
uma das ordens militares creadas na Pales-
tina, no principio do seculo 42.º, e cuja séde
principal n'est» reino era a villa do Crato.
N'esta ermida vivru Leovigildo trez an-
nos, morrendo aos 90, em. cheiro de santi-
dade, no dia 47 de julho de 1143.
Foi sepultado juuto à capella em frente
do altar-mór.
Ainda aqui existe a irmandade de Nossa
Senhora de Rhodes, por elle fundada. Pos-
sue ella uma rica bandeira, tendo no centro
um primoroso retrato de Leovigildo, attri-
buido ao nosso Grão Vasco, que alguns pre-
tendem ser natural da aldeia de Mossão,
d'este concelho, o que não é provavel.
(Vide Moinhos do Pintor.)
Esta bandeira, que acompanha à sepultu-
RER
ra os irmãos defuntos, tem de um lado a
imagem da Senhora, e do outro, a batalha
de Ourique, entre dois rios, figurando o Co-
bres, e o Terges. De uma parte estão os
christãos, e da outra, Os cinco reis mouros.
No centro Jesus Christo crucificado, e aos
pés da cruz, D. Affonso Henriques, de joe-
lhos.
Da boca de Jesus Christo sae esta legen-
da:— Ego enim aedificator, et dissipator Im-
periorum, et Regnorum sum: Velo enim in
te, et, in semine tuo Imperium mihi stabili-
re, ut deferatur nomen meum in exteras gen-
tes: et ut agnoscant Successores tui Datorem
Regni; et insigne tuum ex pretio quo ego nu-
manum genusemi, et ex eo, quoego à Judaeis
emplus sum, compones: eterit mihi Regum
sanciificatum, fide purum, et pietate dilectum.
Junto ao rei, vê-se o escudo das cinco
Quinas, e a um lado o eremitão, fallando a
D. Affonso Henriques, da tenda, entre som-
bras.
“(Ou a bandeira é muito grande, ou as fi-
guras e as letras são muito pequenas, para
caber tudo isto!)
Lucio Catilio d'Almeida, 3.º irmão de Leo-
vigildo, fvi um dos batalhadores de Ourique
(já devia ser bem velho!) e consta que cor-
tou a cabeça a Ismael, um dos reis mouros
companheiros de Ismario. Cortaria.
Este Lucio Catilio, teve quatro filhos:
O 4.º chamava-se Leovigildo, (ou Iliovi-
gildo ou Vigildo) d'Almeida—o 2:º foi mon-
ge de Cister, no mosteiro d'Alcobaça—o 3.º
foi Rodrigo Pires d'Almeida, do qual pro-
cedem nubilissimas familias—o 4.º fui Fer-
não Alvares d'Almeida, tronco dos Almei-
das, marquezes d'Abrantes.
Do 3.º filho, Rodrigo Pires d'Almeida, nas-
ceu Gonçalo Annes d'Almeida, e d'este, Es-
tevam Piras d'Almeida, que casou na fre-
guezia do Gafanhão, na casa dos condes de
Penella.
Este Estevam Pires d'Almeida, reedificou
segunda vez a ermida de Nossa Senhora de
Rhodes.
Dava-seuma singularidade n'esta ermida.
A sua capella-mór estava dentro dos marcos
da freguezia do Gafanhão, e o corpo da egre-
ja, na de Rériz, o que originou diversas con-.
RER 1514
tendas entre os respectivos abbades. Vieram
por fim a um accordo, assentando que ag
offertas e mais direitos parochiaes fossem di-
vididos entre ambos.
Eram elles que apresentavam o eremitão
da capella, e a pruvisão era assignada pelos
dois.
O templo é de boa fabrica, e a capela.
mór tem seu arco cruseiro de pedra bem la-
vrada. É vasto o corpo da egreja, teudo uma
boa sachristia, e umagalilé ou alp+ndre, as-
sente sobre columnas d» cantaria lavrada.
Em frente da porta travessa (que fica aq
E.) está um carvalho gigantesco, e proximo,
para o mesmo lado, ua boa fonte, con-
struida de pedra de cantaria.
As casas que eram residencia do eremi-
tão, ficam proximas à ermida.
A imagem da Senhora, é de marmore
branco (pedra d'Ançan) de boa esculptura,
com um metro de alto.
É a Senhora de Rhodes objecto de grans
de devoção dos povos destes sitios, e lhe fas
zem varias romarias pelo decurso do anno,
Teve uma rica irmandade, composta de
200 irmãos, 75 irmãs, e quantos clerigos
nella quizessem entrar.
Tinham de sufiragios, trez officios, de nos
ve lições, assistidos por nove clerigus, alem
de outras rezas particulares.
Cada anno se fazia um anniversario, por
todos os irmãos defuntos, no primeiro sab-
bado da quaresma, ao qual eram obrigados
a assistir todos os irmãos, com suas ópas
brancas, e com murças. Havia, para 08 ir-
mãos, indulgencia plenaria, por bullas apos-
tolicas.
A festa principal da Senhora é no dia da
sua Natividade (8 de setembro) havendo en
tão jubileu.
Esta confraria era não só composta de ir.
mãos das freguezias de Rériz e Gafanhão,
mas tambem dos das freguezias do Sul, S,
Martinho das Moutas, Pepim, e Alva, todas
do bispado de Viseu; e de Castro Daire, Pi-
nheiro, e Parada d'Esther, no bispado de
Lamego.
À procissão sas um anno da egreja de Ré-
riz (a um kilometro da ermida) e no outro,
da egreja da aldeia de Grijó, freguezia do .
152 RER
Gafanhão, a egual distancia da ermida, para |
a parte do O.
A egreja parochial de Rériz, foi edificada
pelos Castros das treze aruellas, senhores
(hoje condes) de Rézende, os quaes tinham
aqui uma antiquissima casa, que hoje é fo-
reira à nobre familia dos Pintos Ribeiros,
cujos ascendentes eram da familia do famo-
so dr. João Pinto Ribeiro, o heroe de 1640.
(Vide 4.º vol, pag. 317, col. 22, no fim.)
Esta familia reside na casa do Balcão, d'esta
freguezia.
Ainda existe, mas muito desfigurada, a
tasa que foi dos Castros, e que conserva ain-
da o nome de Paço.
A capela de S. Sebastião, hoje publica,
tambem foi dos Castros, bem como um poço
que ha no rio Paiva, chamado o Pégo da
Dona.
Pelos annos de 1780, sendo abbade de Ré-
riz o padre Agostinho, reformou a egreja
matriz, à sua custs,e é o magestoso templo
que hoje admiramos.
Fica em uma eminencia sobranceira à
villa. A capella-mór é oitavada e termina
em um zimborio, que foi primeiramente de
vidro, mas depois foi coberto de chumbo,
por causa dos temporaes.
Tinha ainda em 1852 casa da camara, ca-
deia e pelourinho, como memoria da antiga
autonomia do concelho de Rériz, mas os il-
lusirados camaristas de então, não o enten-
deram assim, e derribaram tudo!
É tambem n'esta freguezia a casa vincu-
lar, denominada de S. José, da qual é actual
proprietario, o sr. José Maria Bandeira Mon-
teiro Subágua, ou Subaga, da Granja.
O appellido Bandeira d'esta familia, pro-
cede de Gonçalo Pires Bandeira, o qual, na
batalha de Tôro, resgatou a bandeira portu-
gueza do poder dos castelhanos, arrancan-
do-a das mãos do fidalgo hespanhol Sotto-
Maior.
"A distancia de um Kilometro da villa de
Rériz, está a nobilissima casa do Testamento,
de cuja tamilia descendia o eremitão Leo-
vigildo Pires d'Almeida.
l
RES
Já a traz fica a sua genealogia.
Esta casa é hoje de um descendente de
Rodrigo Pires d'Almeida, (3.º filho de Lucio
Catilio, do qual já fallei) que é o sr. Anto+
nio Maria d'Almeida Azevedo da Cunha é
Vasconcellos, feito visconde de Rériz, em 18
de julho de 1866.
Tem o sr. visconde a honra insigne de ser
descendente do famoso Duarte d'Almeida—
o Decepado—alferes-mór de D. Affonso V, e
um dos mais bravos guerreiros do seu tem-
po, e o qual, na batalha de Toro (Hespanha)
dada em maio de 1476, tendo-lhe os caste-
lhanos cortado a mão direita, empunhou a
bandeira com a esquerda, e sendo-lhe tam-
bem cortada esta, segurou a bandeira com
os dentes; e d'aqui lhe veio a alcunha de
Decepado. (Vide Paços de Vilharigues, 6.º
vol., pag. 397, col. 2.2; principio.)
A freguezia está situada em um valle, na
margem esquerda do Paiva, cercada por
quatro montanhas escarpadas. Junto à villa
ha uma extensa veiga, cortada e regada pelo
rio, que, correndo em quasi toda a parte
precipitado por entre penedias, aqui corre
placido e sereno, fertilisando os campos,
que produzem muitos cereaes, vinho, legu-
mes e, sobretudo, grande abundancia de li-
nho, que se exporta transformado em finas
teias, e constitue um dos rendosos commer-
cios da freguezia.
Cria tambem muito gado, principalmente
cabras e ovelhas, e os seus montes são abun-
dantissimos de caça.
O rio fornece aos povos da freguezia opti-
mo peixe, sobretudo saborosissimas trutas,
que são das melhores é maiores do paiz.
As suas inguias tambem são excellentes,
e tão grandes como lampreias.
Ha n'esta freguezia vestígios de construc-
ções arabes, e na serra das Almenáras, é
em outras muitas partes, ainda se vêem res-
tos dos telegraphos de que usavam os amti-
gos luzitanos.
(Vide Almenára e Facho.)
Ha tambem minas de ferro, que se não
exploram.
RESAIU, REÇAIO e ARRESSAIO —portn-
RET
guez antigo—Rocio. Quomodo vadit pelo re-
saiu. (Doc. de Tarouca, de 1208.
RESPONSO-— portugu:z antigo—resposta.
Tambem diziam responsom, no mesmo sen-
tido.
RESPONSOM — portuguez antigo—toda à
qualidade de tributos, foros, pensões, etc,,
que se pagavam ao rei ou aos direitos se-
nhorios. y
RETEAR —portuguez antigo—encurralar,
obrigar a recolher, fechar, etc.
RÉTO—portuguez antigo—duello, desafio.
Hoje dizemos repto.
RETORTA—freguezia, Douro, concelho e
comarca e 4 kílometro ao E.N.E de Villa do
Conde, 3 ao E.S.E. da Póvoa de Varzim, 25
ao N. do Porto, 335 ao N. de Lisboa, 70 fo-
gos.
Em 1757, tinha 46 fogos.
(Em 4500 tinha apenas seis fogos!)
Orago, Santa Maria, e antigamente, Santa
Marinha.
- Bispado e districto administrativo do Porto.
O parocho (abbade) obtinha o beneficio
por concurso synodal, e tinha 3008000 réis
de rendimento.
Ainda que a freguezia é pequena em po-
pulação, é vasta em territorio.
Está situada sobre a margem esquerda do
rio Ave, que a separa da freguezia de Fro-
mariz 1 que lhe fica ao N., separando tam-
bem o bispado do Porto do arcebispado de
Braga.
A egreja matriz fica a poucos metros do
rio, mettida entre arvoredos, na encosta de
um monte, de pouca elevação.
- É pequena, mas muito bonita e escrupu-
losamente tratada. |
A primittiva egreja foi edificada em tem-
pos de que não ha memoria, e tambem se
não sabe com certeza quem foi o seu funda-
dor.
Dizem uns, que foi edificada por um san-
to anachoréta; outros dizem, que, nos seus
principios, era uma capella partisular, per-
tencente a D. Soeiro Mendes da Maia, rico-
! Fromariz (vulgo Formariz) é corrupção
de Frumarigues, filho ou da familia de Fru-
mario.
RET 153
homem do conde D. Henrique, que tinha
aqui o seusolar. 1
D. Soeiro Mendes era pae do conde D.
Mendo Soares, e este, pae de Soeiro Mendes,
o Bom; de D. Payo Mendes, arcebispo de
Braga; e do grande Gonçalo Mendes da Maia,
o Lidador, rico-homem, e adiantado (o 1.º
que teve este titulo, em Portugal) de D. Af-
fonso Henriques
“(Vidê vol. 3.º, pag. 347, col. 1.º, e Q2—e
5.º vol., pag. 36, col. 1.2, no principio).
O rei tinha feito fronteiro-mór do Alem-
tejo (adiantado, como então se dizia) ao sem
velho amigo e fiel companheiro, Gonçalo
Mendes da Maia, inimigo implacavele vence-
der constante das hostes agarenas, que tres
miam só ao ouvir pronunciar o seu nome,
Em 4 d'abril de 41170 2 e proximo à cida-
de de Beja, encontrou-se o Lidador com o
1 Terá a freguezia da Retorta a honra de
ser a patria do inclito guerreiro, Gonçalo
Mendes Maia, o Lidador? É verdade que isto
só consta da tradição (que eu saiba) mas,
na falta de outros do :umentos, tem ella gran-
de valia
Todos os escriptores dizem que elle era
natural da Maia (onde tomou o appellido).
A Terra da Maia comprehendia antiga-
mente 44 freguezias, que formavam uma
extensa comarca, que durou até 1834, e a
freguezia da Retorta, e as cirecumvisinhas,
eram da comarca e Terra da Maia.
Como os eseriptores dizem apenas que o
Lidador era da Maia, sem declararem de
qual das 44 freguezias d'esta antiga circum-
seripção, póde muito bom ser d'esta. Mas q
solar do Lidador era na freguezia de Gui-
lhabreu (que tambem foi comarca da Maia,
e hoje o é da de Villa do Conde.)
Guilhabreu fica a uns 40 kilometros ao
S.E. da Retorta.
Podia muito bem ser o Lidador natural
da Retorta, onde seu avô tinha o paço, 0 q
solar delle (Lidador) ser em Guilhabreu.
Dizem uns que Guilhabreu é corrupção de
Gil Abreu, outros pretendem que seja de
Guy de Abreu.
2 No logar citado, do 5.º vol., disse eu
(guiado pelo que diz o sr. Pinheiro Chagas,
nos seus Portuguezes Ilustres, pag. 8) que
foi em 11469. O sr. J. L. Carreira de Mello,
na sua Historia Chronologica, pag. 73, diz
que foi em 1185. Escolho o meio termo, é
sigo O- Ann. Historico—tomo 4.º, pag. 429,
que marca o anno 11470.
154 RET
rei mouro Al-Boleimar 1 e, posto que os por-
tuguezes fossem em numero muito mais in-
ferior, vfferecrram bizarramente batalha aos
mouros. Durou esta muitas horas, mas 08
portuguezes sairam victoriosos, ficando mor:
to no campo, Al-Boleimar, e grande numero
dos seus guerreiros.
Malo lidador havia embainhado a espada,
foi accommettido por Al Boacem, rei de
Tanger ? que vinha em soccorro de Al-Bo-
leimar.
Foi casado com D. Leonor Viegas, filha
do famosissimo Egas Moniz, e deixou des
cendencia, da qual procedem nobilissimas
familias portuguezas e hes[ anholas.
Tudo o mais que diz respeito a D. Soeiro
Mendes (o velho) e a seus descendentes,
vae, em resumo, no logar citado do 6.º vo-
lume.
Se a egreja foi capella d'esta familia, é
provavel que 9 seu paço fosse onde hoje é
a resilencia parochial
Não se sabe como depois passou este se-
nhorio pura as religiosas benedictinas do
mosteiro da Ave Maria, do Porto.
Como a egreja antiga era muito pequena,
em 1742 (segundo consta de uma inscripção
1 Segundo diz o conde D. Pedro, este Al-
Boleimar, era um dus homens-de mais for-
cas do seu t: mpo, cortando facilmente, com
os seus pesados golpes, as mais fortes arma-
duras.
2 Tinha vindo a Portugal, assegurar a vil-
la de Mértola, de que era senhor, e com a
quel se havia levantado um seu emir, ou al
caide.
- A batalha foi terrivel; os portuguezes,
apesar d» extenuados do primeiro combate,
ganharam novas forças, em vista do perigo.
e à voz do seu intrepido chefe, arreme-
cando-se furiosamente contra os mcuros, os
derrotarasi, escapando poucos. e entre elles
Al-Boacem, que deveram a salvação á velo
cidade dos seus cavallos.
Mas esta victoria custou cara aos portu-
guezes |
Gonçalo Mendes da Maia, morreu no fim
della, coberto de feridas, e na edade de 95
annos.
(S: frei Francisco de Santa Maria não er-
rou a data, O que quasi nunca lhe aconte-
ceu, nascera o Lidador, em 1075).
RET
que está sobre a porta travessa) foi reedifi-
cada e ampliada. -
Tinha na frente um alpendre, que então
se demoliu, oceupando o corpo da egreja o
logar que elle occupava.
Sobre a verga (ou padieira) da porta da
sachristia, lê-se a seguinte inscripção :
O ABB. ANDRÉ DARAUIO SILVA
MANDOU FAZER AS ACHRISTIA NA À
ERA DE 1672 coM HUA MISA CAD-
A MES E HUA AMENTAL TODOS 0-
S DOMINGOS POR SUA ALMA E
FICA O CAMPO DE TOUGUES 2
DIZIMO A DEOS LINHARES. *
Logo abaixo da egreja, estão as azenhas
da Retorta, que rendem 14:200 alqueires de
milho por anno.
Eram antigamente pertença da egreja, e
foram depois as que deram o titulo ao ba-
rão da Retorta, do qual adiante tratarei.
Hoje são propriedade da Companhia in-
dustrial agricola portuense. +
Diz-se que o nome de Retorta,vem a esta
freguezia de duas grandes voltas que faz
aqui o rio Ave.
Uns 6 ou 700 metros ao O. da egreja, é a
estação do caminho de ferro do Porto à Po-
voa de Varzim e Villa Nova de Famalicão
1 Queria dizer a sachristia, na.
-2 Tougues, é uma freguezia proxima, é
do mesmo concelho.
3 Não entendo. Supponho que queria di-
zer que o campo em Tougues se chamava
dos Linhares; mas na escriptura de com-
pra, diz-se Linhaes.
O abbade da Retorta, André d'Araujo e
Silva, comprou em 11 de janeiro de 1664, a
Maria Jorge, a Polla, solteira, por 268000
réis, o campo dos Linhaes, na freguezia de
Tougues, e o deu à sua egreja, com as con-
dições da inseripção.
4 Esta companhia anda construindo, em
frente d'estas azenhas, na margem opposta
do rio (direita)/em terreno da freguezia de
Fromariz, uma grande fábrica de fiação e
tecidos d'algodão, e tambem fabrica de moa-
gem (de que serão propul-ores 0 vapor e à
agua do Ave) no local onde havia umas an-
tigas azenhas, que a companhia comprou,
assim como os passaes da Retorta e outras
propriedades.
RET
(esta ultima parte ainda por concluir.) A
estação é já na freguezia de Villa do Conde.
Barão da Retorta
Domingos Miguel da Cunha Velho Sotto-
Maior d'Azevedo e Mello Távora d'Alberga-
ria e Castro, moço fidalgo da casa real, com
exercício no paço, commendador das ordens
de Christo e da Conceição; condecorado
com a medalha militar da expedição a Per-
nambuco, em 1824, e com as honras de te-
nente-coronel.
Nasceu no Rio de Janeiro, em 42 de abril
de 1806.
Casou em Portugal, com a sr.? D. Anna
Emilia de Castro Almeida Ferraz, que ain-
da vive, tendo d'este matrimonio 47 filhos,
dos qua»s são hoje vivos 13: Domingos, Mi-
guel, Lourenço, José, Antonio, Fernando,
Alberto, D. Maria, D. Julia Emilia, D. Anna,
D. Julia, D. Felismina, e D. Joaquina, e 36
netos.
Quasi todos os filhos estão casados.
Foi commandante do batalhão movel de
Bercellos, em 1847, e tinha sido almotacé
da mesma villa, e feito barão (1. º) da Re-
torta, em 3 de novembro de 1853.
Seguiu sempre o partido liberal.
Falleceu em Braga, em o de outubro de
1877.
Era o mais rico lie de Villa do
Conde, e um dos mais ricos proprietarios
de B.rcellos, e morreu pobre, sem ter nada
de seu (!) em casa de seu filho, o sr. Lou-
renço da Cunha Velho Sotro Maior.
As azenhas da Retorta, que deram o ti
tulo ao barão, pertenciam à egreja d'esta
freguezia: metade era um prazo fateusim
perpétuo dos antepassados do barão, e do
qual pagavam 2 alqueires de trigo, 5 de
milho, 20 de centeio e duas lampreias, fóra
o dizimo.
A outra metade era prazo de vidas, do
qual pagavam de renda à mesma egreja, 20
alqueires de pão meiado (milho e cen-
teio).
Vieram à familia dos Velhos, de Villa do
Conde, por uma renovação de emprazamen-
to, feito pelo abbade da Retorta, André de
REV 155
Araujo e Silva, em 18 de outubro de 16414,
a Juão Pires Velho e sua mulher Maria de
Macedo.
Este emprazamento foi renovado em 12
de outubro de 1708, pelo abbade desta fre-
guezia, Antonio Ferreira d'Avellar, em Ma-
noel Luiz Velho de Macedo e sua mulher,
D. Josefa Maria Luiza de Mello.
Era esta propriedade que constituia o ba-
ronato.
No cartorio d'esta egreja havia muitos li-
vros e documentos antigos (provavelmente
de grande valor historico) mas foram de-
vorados por um incendio.
Agradeço ao rev.mº sr. José Antonio Fer-
reira Monteiro, actual abbade desta fre-
guezia, à franqueza com que me mandou a
minha casa todos os papeis que restam, e
pelos quaes pude redigir o presente ar-
tigo.
RETOUÇAR — portuguez antigo — saltar,
dançar, tripudiar, calcar. Ainda se usa nas
provincias do norte.
RETRAER — portuguez antigo — arreme-
dar, representar. (É d'Azinheiro.)
RETRAÇAR — portuguez antigo — agaza-
lhar, dispor, preparar, etc.
RETRAHIR—portuguez antigo—tornar à
tirar o que se tinha dado, ou não dar o que
se tinha promettido.
Retrahir-se, tambem queria dizer —reco-
lher-se, retirar-se, esconder-se, ete.
RETROITAR— portuguez antigo—contra-
riar, contradizer. Tambem averiguar a câu-
sa com maior exactidão. Quero terlado (tra-
slado) do dito processo, e da dita sentença,
pera aver conselho, pera retroitar e empu-
nar e poêr meu direito contra todo. (Doc. do
seculo XvI).
REVÉL — aldeia, Traz-os-Montes, na fre-
guezia de S. Miguel de Trez-Minas, comarca
e concelho de Villa Pouca d'Aguiar.
Em um monte sobranceiro a esta aldeia,
existem umas concavidades. Foram minas
de estanho, provavelmente já eita
pelos romanos.
Ainda ha vestígios de um assude, ou ca-
no, por onde conduziam a agua do rio Ti-
156 REV
nhella, tomada no logar de Tinhéllo de Ci-
ma, a uns 10 kilometros de distancia, at-
tendendo ás repetidas voltas do cano, atra-
vessando, por baixo do chão, um grande
monte, no logar de Folhagosa.
Consta que estas minas tornaram a ser
lavradas, pelos anos de 1584, por um hes-
panhol, natural de Madrid, chamado Fer-
nando Annes, pae de Cosme Machado, e
do qual procedem os Machados destes s1-
tios.
REVELAR MULHER — portuguez antigo
—conhecel-a carnalmente.
REVÊLHE — freguezia, Traz-os-Montes,
comarca e concelho de Vinhaes, bispado e
districto de Bragança, 80 kilometros ao N.
de Miranda, 480 ao N. de Lisboa.
Em 4757, tinha 14 fogos.
Bispado e districto de Bragança.
O reitor de Fiozêllo apresentava o cura,
que tinha 84000 réis de congrua e o pé
d'altar.
Esta pequena freguezia foi supprimida, e
incorporada à de Cabeça da Egreja, da
mesma comarca, concelho, bispado e dis-
tricto.
REVÊLHE—freguezia, Minho, comarca e
concelho de Fafe (foi do mesmo concelho,
mas da comarca de Guimarães) 30 kilome-
tros ao N.E. de Braga, 370 ao N. de Lisboa,
170 fogos.
Em 1757, tinha 105 fogos.
Orago Santa Eulalia.
Arcebispado e districto de Braga.
O real padroado apresentava o abbade,
que tinha 3708000 réis de rendimento.
É terra muito fertil em cereaes, e cria
muito gado de toda a qualidade. Caça,
REVÉLLES — freguezia, Douro, comar-
ca de Monte-Mór Velho (foi da comarca de
Soure, concelho extincto da Abrunheira) 30
kilometros ao O. de Coimbra, 190 ao N. de
Lisboa, 250 fogos.
Em 1757, tinha 276 fogos.
Orago Nossa Senhora do O (ou da Expe-
ctação, do Porto, ou da Esperança, pois
com todos estes nomes é conhecido).
Bispado e districto de Coimbra.
A mitra apresentava o vigario, que tinha
1703000 réis de rendimento.
REV
É terra fertil, e freguezia muito antiga.
Em tempos remotos, pertenceu à fregus-
zia de Nossa Senhora da Alcáçova, da villa
de Monte Mór Velho.
A egreja matriz estã situada no alto do
monte, proximo á povoação de Revélles.
A capella dedicada antigamente a Nossa
Senhora a Velha, e, depois, a Nossa Senhora
da Saude, é antiquissima, e consta que foi
a primeira matriz da freguezia. Estã situa-
da ao pé de um monte, e junto ao rio Mon
dêgo, a pouca distancia da quinta da Ga-
lêta, que foi dos jesuitas, de Coimbra.
Fica a ermida entre a freguezia de Revél-
les e a extincta de Peras-Alvas, e por isso
tambem a denominam Senhora de Revélles,
ou Senhora de Peras-Alvas.
Tambem fica perto da quinta da Alumiei-
ra, que foi dos conegos de Santa Cruz, de
Coimbra, e não mui distante da villa de
Buarcos.
A imagem é de pedra, e de hoa escul-
ptura, apezar da sua antiguidade. Tem um
metro de altura.
A capella é de boa construcção e ampla :
tem altar-mór, e dous lateraes; sachristia é
grande átrio. Está cercada de alpendres em
volta, sustentados por columnas de pedra.
Faz-se a sua festa em dia de Sant'Anna,
mãe de Nossa Senhora (a 30 de julho.) O
rei lhe concedeu uma feira franca de trez
dias, por tempo de cinco annos, na occasião
da festa; depois se lhe concedeu que fosse
perpétua. Principiava no dia 26 de julho,
mas já ha muitos annos que se não faz esta
feira.
A nova matriz principiou a edificar -se em
1638, e continuaram as obras até 1640.
Com a restauração, se deu mais desenvol-
vimento ás obras e foi a egreja accrescen-
tada. É um bom templo.
Do seu adro se vê o Oceano, a barra da
Figueira, Buarcos, o rio Mondego e varias
povoações. Vê-se do mar, a grande distan-
cia,
REVERSO—portuguez antigo—a pessoa
que se entrega a todos os vicios e immora-
lidades. E sendo caso que esta Margarida
RkZ
seja desmanchada e reversa, que nom faça
* feitos de booa molher, etc. (Doc. de S. Pedro.
de Coimbra, de 1529.)
REVINHADE —freguezia, Douro, comarca
e concelho de Felgueiras (foi do mesmo con-
celho, mas da comarca de Lousada) 30 kilo-
metros ao N.E. de Braga, 355 ao N. de Lis-
boa, 75 fogos.
Em 4757, tinha 70 fogos.
Orago, Santa Maria.
Arcebispado de Braga, e districto admi-
nistrativo do Porto.
O reitor de S. Pedro de Torrados, apre:
sentava o reitor, que tinha 508000 réis e o
pé d'altar.
É terra fertil. Gado e caça.
REZENDE —freguezia, Minho, comarca e
concelho de Coura (era do mesmo concelho,
mas da comarca de Vallença) 50 kilometros
a N.E. de Braga, 415 ao N. de Lisboa, 80 fo-
gos.
Em 1757, tinha 75 fogos.
Orago, o Salvador.
Arvebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
O abbade de Santa Marinha, da Cunha,
apresentava o vigario, que tinha 408000 réis,
e o pé d'altar.
Terra fertil em cereaes e algum vinho.
Muito gado, de toda a qualidade, e grande
abundsncia de eaça.
REZENDE — villa, Beira Alta, cabeça de
concelho e comarca, 48 kilometros ao O. de
Lamego, ! 315 ao N. de Lisboa, 800 fogos.
Em 1757, tinha 649 fogos.
Orago, o Salvador.
Bispado de Lamego, e districto adminis-
trativo de Viseu.
O conde-almiranta (conde de Rézende)
apresentava o abbade, que tinha 7504000
réis de rendimento.
O concelho de Rézende, é composto de 15
freguezias, todas no bispado de Lamego. São
—Anreade, Barrô, Cárquere (ou Quarquere)
Feirão, Felgueiras, Fontoura, Freigil, Mio-
1 Fallo do centro do concelho, porque, da
sua extremidade E., que é a freguezia de S.
Martinho de Mouros, apenas dista de Lame-
go 6 kilometros.
REZ 197
mães, Ovadas, Panchôrra, Páus, Rézende»
S. Cypriano, S. Martinho de Mouros, e S.
Romão—todos com 4:500 fogos.
A comarca é composta só do seu julgado.
Não tinha foral velho,
D. Manuel lhe deu foral, em Lisboa, a 16
de julho de 4514, (Livro dos foraes novos da
Beira, fl. 96 v., col. 2.º)
O concelho de Rézende estende-se por um
terreno bastante accidentado, sobre a mar-
gem esquerda do Douro, subindo sempre
para o S., até alguns montes e serras de di-
versas denominações. Tem bastantes valles,
de pequenas dimensões, mas bastante ferteis,
por serem regados por varios ribeiros que
descem das alturas. Grande parte dos seus
montes são arborisados, e offerecem, a quem
navega pelo Douro, uma vista pittoresca.
Ha por estes sitios muitos vestígios de te-
rem sido povoados desde tempos remotissi-
mos, e uma anta que existe nas ruinas do
castello de 8. João, na freguezia de Miomães,
prova que já aqui habitaram os povos cel-.
tas, ou pre-celtas. (Vide Miomães.)
Adiante darei noticia de outras antigui-
dades.
É provavel que este territorio se despo-
voasse com as continuas e destruidoras
guerras da edade media, e que assim O
achassem os mouros quando, em 817, se
apossaram das terras em redor de Lamego
e até à margem esquerda do Douro. Por uns
200 annos, estiveram elles senhores d'este
territorio, e, ou o deixaram despovoado no
que depois constituiu o concelho de Rézen-
de, ou apenas alli tiveram algumas quintas
ou casas de campo.
O concelho de Rézende foi, até 24 de ou-
tubro de 1855, muito mais limitado do que
hoje é, tendo apenas de comprido, pela mar»
gem do Douro (de E. a O.) 8 kilometros; é
de largo (de N. a 8.) 3 kilometros.
Então foram supprimidos no districto de
Viseu seis concelhos—Mões, Leomil, Ferrei-
ros de Tendaes, Trevões, São Fins, e S. Mar-
tinho de Mouros—ficando este ultimo encor-
158 REZ
porado no concelho de Rézende; bem como
e d'Aregos, tambem supprimido.
Mas tiraram-lhe da comarca, o concelho
de Sinfães, e o, então supprimido, de São
Fins, para com elles e com o, tambem então
supprimido, concelho de Ferreiros de Ten
daes, formarem a nova comarca de Sinfães,
tambem sobre a margem esquerda do Dou-
ro, e que termina, pelo O., com o rio Paiva,
que divide o concelho de Sinfães do do Cas-
tello de Paiva.
O concelho de Rézende, tem agora 18 ki-
lometros de comprido, de E. a O., sempre
pela margem esquerda do Douro, na sua
maior parte. É separado do concelho de La-
mego (a E.) pelo desabrido monte das Dor-
nas e pela frigida serra das Meadas, desde a
Cavallar até à Mesquitella, e daqui até à Ri-
beira e Bernardo, à beira do Douro.
É separado do antigo concelho de Sinfães,
pelo O., por o ribeiro de Cabrum, que desce
da serra da Gralheira e desagúa no Douro,
em Frieira, ou Rapa. Como o concelho de
Sinrães foi accrescentado com 6 de São Fios,
supprimido em 4855, ficou o actual conce-
lho de Sinfães limitado ao O. pelo rio Pai-
va, que o separa, na sua maior parte, do
concelho do Castello de Paiva, e o resto com
o de Arouca (comprehendendo tambem o ex-
tincto concelho d'Alvarenga).
Pelo S., parte com o concelho de Castro
Daire, desde a Cavallar até aos montes da
Gralheira.
Pelo lado do N., todo o concelho é limita-
do pelo rio Douro.
O nome d'este concelho, procede do 1.º se-
nhor christão que o povoou, D. Rosendo, ou
Rausendo Ermiges, irmão de D. Thedon, e
de D. Toda Alboazar Ramires, filhos de D.
Ermigio (uu Hermigio) Godines, e de D. Dor-
dia Ozores; netos de Alboazar Ramires e de
D. Helena Godines; e bisnetos de D. Rami-
ro II, de Leão, e da formosa moura Zaira,
da qual tenho fallado em varios logares
d'este Diccionario. (Vide Ancora, rio.)
D. Rosendo Ermiges, vindo com seu ir-
mão D. Thedon, para Portugal, pelos annos
1030, reinando em Leão D. Bermudo III;
em Castella, D Sancho I; e na Navarra, D.
Sancho II. Aqui os dois irmãos guerrearam
REZ
og mouros, sem tréguas, e a sua gloriosa vi-
ctoria dada nas margens do rio Távora (1037)
os tornou senhores de todo o territorio que
constitue o actual concelho de Rézende.
N'esse mesmo anno de 1037,
havendo desavenças entre D.
Bermudo III e seu cunhado
D. Fernando, o Grande, de
Castella, foi D. Bermudo mor-
to, na batalha de Lantade, e,
não tendo filhos, D. Fernando
uniu os dois reinos de Cas-
tella e Leão, ficando Portugal
formando parte d'este novo
reino.
D. Fernando, o Grande, terminada a guer-
ra com os leonezes, entrou em Portugal, to-
mando aos mouros as praças de Badajoz,
Evora, Beja, Merida e Cêa. Marchando para
o norte, tomou-lhes d'assalto, Viseu e La-
mego. (Esta ultima era defendida por Za-
dão-Iben, que ficou tributario do rei chris-
tão.)
Consta que o rei de Leão deu a D. Ro-
sendo todas as terras que elle havia con-
quistado aos mouros (ou, mais propria-
mente, resgatado) na margem esquerda do
Douro.
D. Rosendo, agradado do sitio de Rézen-
de, fundou a casa e quinta a que deu o
seu nome, e que mais tarde se denominou
quinta do Paço.
Em volta d'esta quinta, se foram pouco
a pouco construindo diversas habitações e
quintas, e assim se deu principio à povoa-
ção d'este territorio.
Constituído o reino de Portugal, em 1093;
tratou o conde D. Henrique de alargar os
seus limites, arrancando do poder dos mou-
ros varias terras ao sul do Douro.
Em 14102, era rei de Lamego Echa-Mar-
tim, que, não só se negou a pagar o tributo
a D. Henrique, mas ainda invadiu e saqueou
algumas povoações christans.
Carregados de despojos, marchavam os
mouros para Lamego; porém, a 50 kilome. -
tros de distancia, para O., D. Henrique e
seu companheiro, o rico homem D. Egas
Moniz, lhes sahiram ao encontro, junto á
REZ
villa d'Arouca, e os derrotaram, retoman-
do-lhes todos os roubos e fazendo prisionei-
ro Echa-Martim. (Para evitarmos repetições,
vide vol. 1.º. pag. 238 B B, e seguintes.)
Depois d'esta derrota, e ainda mais, por
Echa Martim se fazer christão, o odiavam e
desprezaram os seus vassallos, pelo que elle
cedeu dus seus direitos e do seu pequeno
reino ao conde D. Henrique, que deu a .
Egas Moniz os territorios de Lamego, Leo-
mil, Salzêdas, e S. Martinho de Mouros, tudo
a pouca distancia a E. de Rézende.
(Vidê Cárquere Quarquere).
Já disse que ha em Rézende vestígios depo-
voação celta, e, s-gundo a tradição, foi Car-
quere uma cidade (isto é, o centro de uma
circumseripção) no tempo dos romanos, e
que comprehendia o territorio que estanceia
desde a Devêza 1 até à ponte de Carcavel
los, e daqui até aos Paços e maita dos pa-
dres.
É certo que dentro deste ambito teem ap-
parecido, enterrados, caldeirões, culheres,
varios instrumentos de ferro, pedras lavra-
das, tijolos, moedas de ouro, prata e cobre;
e algumas de um metal desconhecido, de
varios imperadores, até Constantino Magno.
Tambem em 1732, em uma escavação jun:
to ao mosteiro de Cárquere, appareceu uma
lapide com a figura de Diana, em baixo-re.
levo, de um metro de altura e 0,7 60 de
largura, com a inscripção:
DIANA SACCELLO FLAVA
CARCAVELLUS F. A. B. XXV.
Esta lapide foi mandada collocar, pelo
doutor Alexandre Pinto, no meior da pare-
de da sua casa de Bêba.
Em outros sitios d'este concelho tem appa-
recido em diferentes épocas, vestigios de
povoações antiquissimas.
Passados uns 70 annos, os descendentes
de D. Rosendo, mudaram o seu domicilio
para Távora (d'onde lhes veiu o appellido)
e a quinta do Paço—não se sabe porque ti-
1 Já se vê que dou os nomes actuaes.
REZ 159
tulo, firou pertencendo a D. Egas Moniz, e é
hoje propriedade dos Castros, senhores de
Rériz, e condes de Rezende.
D. Egas Moniz foi senhor da Feira, Arou-
ca, Cresconha (em S. Thiago de Piães) Ré-
zende, Lamego, S. Martinho de Mouros, Leo-
mil, Salzêdas, e varias terras ao norte do
Douro.
Tudo isto consta de uma escriptura que
existe no cartorio do mosteiro d'Arouca,
feita na era de 1220 (1182 de Jesus Christo).
É certo que D. Affonso Henriques foi cria-
do em Rézende, mas dizem uns que na quin-
ta do Paço, outros que em Carquere, e ou-
tros que em S. Thiago de Piães,
Entendo que foi n'esta ultima freguezia,
e na povoação de Cresconha.
(Vide vol. 7.º, pag. 8, col. 1,2 no fim e 2.2).
Nas Inquirições de D. Affonso 3.º, se diz —
(tradução) — Viemos com os homens bõos
(Iouvados) a este logar, e achamos que a quin-
ta de Rézende (a do Paço) Mirão, Vinhós,
Sinfães, Ossaes, Cimo de Rezende, Massas,
Crujeiros, Tedões, Morganhos, Ferroz, Fel-
queiras, Minhães, Egreja de São Salvador,
Chãos dos Paços, Veirós, Rendufe. São Se-
miliano, Paredes, Novaes, Tabuadêllo, Villa
Garcia, Quintan, e Córvo, todas estas villas
são da honra de Rézende, que foi de D. Egas
Moniz.
Todas estas povoações são no antigo con-
celho de Rézende, que poucas mais com-
prehendia.
Vê-se que a cathegoria de honra é anti-
qui-sima em Rézende, por aqui ser creado
D. Affonso IT.
Nas Inquirições reaes, do rei D Diniz se
lê—Ttem, na freguezia de 8. Thiago de Piães,
a quinta que chamam Cresconha, que foi de
D. Egas Moniz, e é povoada, que a viram as
testemunhas sempre honrada desde que se
recordam, e que ouviram dizer que o foi de
mui longe, e que crearam alli D. Affonso o
primeiro.
r
Rézende não é uma villa propriamente
dita, mas um aggregado de quintas, granjas
e casaes.
160 REZ
A casa da camara e cadeia, que estava na |
povoação de Vinhós, hoje é em 8. Gens.
A egreja matriz está em uma elevação,
entre as aldeias de Minhães, Ossaes, e Prés-
timo, e quasi no centro da freguezia. A sua
capella-mór. é de abobada, bem lavrada, e
construida em 1634, à custa de D. João de
Castro, ascendente dos condes de Rézende,
para sepultura de seus paes, sua e de seus
descendentes.
Tambem foi este D. João de Castro que
mandou fazer um cruzeiro, para sepultura
dos abbades, o que tudo consta de uma in-
scripção que está em uma lapide embebida
na parede interior da capella, do lado do
Evangelho, que diz:
D. JOÃO DE CASTRO, PADROEIRO
DESTA EGREJA, IN SULIDUM,
SENHOR D ESTE CONCELHO DE
REZENDE, E DOS DE PENELLA,
BEM VIVER, SUL, RERIZ,
E DAS HONRAS DE EIRÓS, GOZENDE,
RIBADELLAS, OU RIBELLAS, E
MONTAO, MANDOU FAZER
ESTA CAPELLA, PARA SEPULTURA
DE D. SIMÃO DE CASTRO E DE
D.2 MARGARIDA DE VASCONCELLOS,
SEUS PAES, E PARA ELLE E SEUS
DESCENDENTES,
E O CRUZEIRO, PARA SEPULTURA
DOS ABBADES SÓMENTE, POR
ESTAREM EXCLUIDOS DESTA
CAPELLA. ANNO DE 1634.
A egreja é vasta e bôa, mas esteve em
pessimo estado de conservação, e vm gran-
de abandono, hoje está reparada convenien-
temente.
Havia n'esta egreja uma collegiada com
quatro beneficiados, um com 802000 réis de
rendimento—outro com 1328000 réis—ou-
tro com 408000 réis—e o ultimo, com réis
603000.
Todos estes beneficios eram apresentados
pelo abbade da freguezia, que tambem apre-
sentava 0 cura de Felgueiras.
Tudo isto acabou, ha muitos annos.
Os dizimos d'esta freguezia, rendiam an-
nualmente 1:5008000 réis, dos quaes tinham
os condes 1:3648000 réis, e o abbade réis
- 1358500 réis.
]
|
Esta divisão foi feita por bullas aposioli-
cas.
Ao N. de Rézende, e a pouco mais de um
kilometro da margem esquerda do Douro,
está o paço dos condes-almirantes (condes
de Rézende) padroeiros da egreja.
É o paço que foi de D. Egas Moniz, e
portanto antíquissimo, o que facilmente se
vê da sua architectura e do miseravel esta-
do de ruina em que se acha este venerando
monumento, que tantas glorias nos recorda,
e que era digno de melhor sorte.
É de vastas dimensões e não tem vesti-
gios de ter em tempo algum, torre, ou ou-
tra qualquer obra de defesa.
Junto ao paço, e ao E., está a capella de
Santo Antonio, tambem antiquissima.
Na frente do edifício ha uma avenida,
murada dos dois lados, que vae até à es-
trada publica, e ao fundo da avenida, junto
às casas, se vêem os restos de um alto cha-
fariz, de excellente construcção.
A casa está no centro da quinta do Paço,
e esta é vasta e rendosa, constando de fer-
teis campinas, tendo annexa a alugõa de D
João, na serra da Gralheira, alem de va-
liosos foros que lhe pagam os povos de Fel-
gueiras e Veiros; mas perdeu um dos seus
melhores rendimentos, que eram os dizi-
mos.
Ao N.E. do paço, e a pequena distancia,
fica a magestosa casa de Ossaes de Baixo,
da qual é actual pruprietaria, a familia do
sr. José Joaquim Pereira dos Santos, natu-
ral d'esta casa, feito (1.º) barão de Fornél-
los, em 45 de outubro de 1851, e fallecido
em 1852.
Seu filho, o sr. Fernando Maria Pereira
dos Santos, foi feito barão (2.º) do mesmo
titulo, em 14 de janeiro de 1864.
N'esta quinta, tambem chamada de Saes,
mandou construir a Sr.* D. Maria José de
Fornéllos, ajudada por sua irmã, a sr.* D
Virginia, em 4874, uma linda capella, dedi-
cada a Nossa Senhora de Lourdes, à qual,
desde 1875, se faz uma sumpluosa festa.
“O papa Pio IX, concedeu a esta capella,
por breve apostolico, indulgencia plenaria,
REZ
para os que no dia da festa (1ô de agosto)
se confessarem e commungarem.
Os reverendissimos bispos do Porto e La-
mego tambem concederam 40 dias de in-
dulgencia, aos que visitarem a capella no
dia da solemnidade da Senhora.
Deus não deixara sem premio a obra d'es-
tas duas nobilissimas damas.
Ao E. do paço, está a excellente casa de
Villa Pouca, que é um palacête no gosto mo-
derno, e pertence ao sr. José Manuel Tei-
xeira Pinto de Figueiredo, que aqui reside.
Um pouco acima da egreja matriz, está a
nobre casa de Cottas, do sr. José Maria Car-
doso Borges Coutinho, que a herdou dos
seus parentes Borges.
Nasceu n'esta casa o celebre jurisconsul-
to, Manoel Borges Carneiro, escriptor de
grande merito, e homem de bem.
Uniu-se aos revoltosos de 16 de maio de
1828, e não querendo fugir para a Ingla-
terra, como fizeram os mais espertos (os que
tinham promovido a revolução) foi preso 6
morreu, n'esse mesmo anno, na cadeia do
Limoeiro, em Lisboa.
A pouca distancia, e ao S. da casa de Cot-
tas, está a antiga casa do Préstimo, ou Aprés-
timo, propriedade das sr.'s Albergarias, de
Lamego.
Foi d'esta esclarecida familia, D. Fran-
cisco Gomes Monteiro, lente da universidade
de Coimbra, e depois bispo de Vizeu.
Tambem foi desta familia, o virtuosissi-
mo e caridoso padre Sebastião Pereira Mon-
teiro, que morreu abbade da freguezia de
Miumães.
Ao S.E. do paço, fica a antiga casa de
Massas (vulgarmente chamada a casa gran-
de, posto ser mais pequena do que as de
Ossaes e Villa Pouca). Pertence á sr. D.
Maria Leonor, e a seu filho, o sr. Manoel Pe-
reira.
Ao S. de Massas, mas em pequena distan-
cia, está a casa da Granja, propriedade do
sr. José Maria Bandeira Monteiro Subágua,
REZ 161
do qual já fallei em Rériz, e para lá remetto
0 leitor.
É tambem em Rézende, a nobre casa do
Enxertado (ou Outeiro do Enxertado) que
foi da esclarecida familia dos Lemos.
É seu actual possuidor, o sr. Luiz Malhei-
ro Peixoto Mello e Vasconcellos, feito barão
de Castro Daire, em 23 de maio de 1840.
Alem das casas nobres que ficam mencio-
nadas, ha ainda em Rézende outras muitas
notaveis, não só pela grandeza dos edificios,
como pela antiguidade e nobreza de suas
familias; taes são—a da Portella de S. Gens,
do gr. doutor Augusto de Sousa Pinto—a de
Ossaes dz Cima (ou quinta das Vinhas) a
qual, segundo a tradição, é das mais antigas
e nobres de Rézende—a quinta de Safões,
dos srs. Sousas, da Lagariça—a cása de
Béba—a de Semilião;--a quinta do Matto,
dos srs. Cardosos—e a de Paredes, muito an-
tiga. a
Ainda ha n'este concelho outras casas di-
gnas de nota, que não menciono, por não
ter obtido os esclarecimentos que pedi.
Uma das melhores povoações do conce-
lho é S. Gens, situada em uma planicie e
constando de uma comprida rua, com alguns
edifícios bons.
É aqui que residem, o juiz de direito, o
delegado, os trez escrivães de direito, e 08
officiaes de diligencias; e n'esta povoação
se construin, em 1874, uma boa casa da ca-
“mara, tribunal das audiencias e cadeia. Até
então não havia para isto edificio proprio,
era uma casa arrendada.
Feiras — Ha em Rézende as seguintes—
em Vinhós, mercado, a 29 de cada mez, é
feira annual, a 29 de setembro, e mercado
a 7 de cada mez, e feira d'anno a 25 de ju-
lho, em S. Christovão.
O principal modo de vida d'estes povos, é
a agricultura, mas tambem se fabricam mui-
tos tamancos, pannos de linho, pentes (de
canna) para teares, pão de trigo, doces de
varias qualidades (sendo de grande fama, as
162 REZ
cavacas de Rézende) e outros objectos, que
exportam em grande quantidade.
Ha tambem muitos negociantes de gado
bovino.
Os que habitam proximo do rio Douro
(Mirão, Loureiro, Ribuura, e outros) empre-
gam-se na navegação fluvial, couduzindo
para o Porto os generos que sobejam do
consumo; além de grande quantidade d'al
queires de trigo que se exportam por terra,
para Lamego, Marco, Canavezes, Amarante,
etc.
Pelo rio, o que mais exportam para o Por-
to, são castanhas, batatas, laranjas e outras
frutas, e vinho.
Varios ribeiros regam e fertilizam este
concelho, sendo o principal o Córvo, que
desce dos montes Coelhoso e S. Christovam
e passando por entre as aldeias de Felguei
ras e Veiroz, e por entre as fregurzias de
Rézende e Cárquere, morre na margem es-
querda do Douro, na Foz do Mirão. É atra-
vessado p:mr tres pontes de pedra—a de Car
cavellos (muito alta e robusta) a do Córvo e
a de Fornéllys. Suas aguas são tambem em-
pregadas em fazerem mover as rodas de um
lagar de azeite, e oito moinhos de cereaes.
Rézende é tambem um appellido nobre em
Portugul, cuja familia procede de Martim
Afionso de Bayão, que deixou o appellido da
sua varonia (Bayão) por haver herdado o
senhorio de Réz-nde, por sua mãe, D. Ur-
raca Afionso. Suas armas, são — em cam-
po d'ouro, duas cabras, de negro, gotadas
d'ouro, passantes, em palla. Elmo d'aço aber-
to, e por timbre, uma das cabras. (Alberga-
ria diz que as cabras são de vermelho, a
que chama esfolladas.). Alguns Rézendes,
continuaram a uzar das armas dus Bayões.
Consta que a primeira propriedade rural
que os jesuitas tiveram em Portugal. foi na
freguezia de Cárquere, deste concelho.
Em março de 1875, falleceu na Régua, o
doutor Alexandre Vieira Pinto, presidente
da camara municipal da mesma villa, e na-
tural de Rézende. Escreveu -um pequeno li-
REZ
vro sobre antiguidades de Rézende, que está
inédito. Tem bastantes cousas aproveitaveis,
que eu respiguei para este artigo.
Ha um barão de Rézende, feito em 21 de
maio de 1844-—-é o sr. João Xavier de Mo-
raes Rézende. Note-se, porém, que este ca-
valheiro é apenas barão do seu app-llido, €
nada tem com o concelho de Rézende.
Tivemos tambem um marquez de Rézen-
de; mas este, como o barão, nada tem com
o concelho d'este nome. Menciono-o aqui,
por ser portuguez; por pertencer a uma das
mais nobres familias d'este reino, e final-
mente, por ser um'homem de bem, e um
escriptor distincto.
Uma rapida biographia do marquez de
Rézende, se acha a pag. 588, col. 4.2 do 6.º
volume, para onde remetto o leitor. Aqui só
acerescentarei, que nasceu em Lisboa, a 22
de setembro de 1790, e falleceu na edade de
84 annos e cinco mezes.
Condes de Rézende
Os condes de Rézende, são os Castros le-
gitimos, denominados os Castros das treze,
por trazerem no seu escudo d'armas, em
campo de prata, 13 aruellas azues, e por
timbre, um leão de ouro.
Descendem de D. Fernando de Castro,
conde de Castro Xerez e senhor de Lemos
(Hespanha) e irmão da infeliz D. Ignez de
Castro, mulher de D Pedro I. de Portugal.
Note-se, porém, que D. Fernando, era filho
legitimo e sua irmã, filha natural.
Os Castros, de Ré-ende, tiveram o titulo
de almirantes de Portugal, em 23 de feverei-
ro de 1317—de senhores de Penella, em 28
d'abril de 1378—de senhores de Bem-viver,
em 22 d'abril de 1424—de morgados de Ré-
zende, em 5 de fevereiro de 1465.1
O 4.º conde, de Rézende, foi D. Antonio
1 Esta familia teve tambem o senhorio da
capitania dos Ilheus, e das villis de Cama-
mú, Boupéba, Cayni, e Iaparica, e de mais
50 leguas de territorio, no estado (hoje im-
perio) do Brazil.
REZ
José de Castro, por mercê de D. José I, em
10 de junho de 1754.
Não deixou de si nota digna de menção,
o 2.º conde de Rézende, que falleceu em Lis-
boa, no seu vasto palacio de Santa Clara, 1
em 23 de março de 1819
Foi 3.º conde de Rézende, D. Luiz Inno-
cencio Benedicto de Castro, 13.º senhor de
Penella, 14.º senhor de Bem-Viver, senhor do
morgado de Rézende, 17.º almirante de Por-
tugal, 7.º capi:ão da guarda real dos archei-
ros, commendador das ordens de Christo e
Torre Espada, governador da praça d'Abran-
tes. inspector das milicias do Alemtejo, e
marechal de campo.
Nasceu em 5 de setembro de 1777; casou
em 2 de março de 1813, com D. Maria José
Emerenciana da Pi-dade Silveira, filha de
D. Braz José Balthazar da Pi-dade e Silveira.
Succedeu a seu pae, em 23 de março de
1819, e falleceu a 7 de janeiro de 1824.
Foi 4.º conde de Rézende, D. Antonio Be-
nedicto de Castro, filho unico do anteceden-
te. Teve todos os senhyrios e titulos de seu
pae, e foi feito par do reino, em 1826, e por-
teiro-mór da casa real, no 4.º de dezembro
de 1834.
Foi commendador da ordem de Christo, e
8.º capitão da guarda real d'archeiros.
Nasceu em 30 de novembro de 1821, e
falleceu em 1865.
Tinha casado com a sr. D Maria Balbina
Pamplona de Susa Holstein, nascida a 20
d'agosto de 1819. Era filha de Manuel Pam-
plona Carneiro Ringel Velloso Barreto de
Figueirôa, 1.º visconde e 12.º senhor dé Bei-
re, padroeiro de Santo André de Sobrado,
commendador das ordens de Christo e Tor-
re-Espada, tenente general do exercito, de-
1 Este palacio, que era um dos maiores
de Lisboa, fica perto (ao E.) das celebres
obras de Santa Engracia, & da estação prin-
cipal dos caminhos de ferro do norte e leste,
que lhe fica logo abaixo, ao sul. :
Esta ao fundo do largo de Santa Clara, e
do novo mercado, construido em 1877.
O palacio está em grande abandono, e em
parts destelhado: mas ainda «sá habitado
por diversos inquilinos, na parte melhor con
Se EVA, onde taunbem ha um pequeno thea-
TO.
REZ 163
putado ás cortes, em 1837, governador das
armas do Porto, em 1823, e das do Alemte-
jo, em 1826.
Nasceu à 3 de outubro de 1774, e suc-
cedeu na casa de seu pae, em janeiro de
1815.
Casou em 22 d'abril de 1818, com D. Ma-
ria Helena de Sousa Holstein, 4.º filha do
conde de Palmella, D. Alexandre de Sousa
Holstein, e de sua 2.º mulher, D. Balbina de
Sousa.
Falleceu (o visconde de Beire) em 12 de
maio 1848. Tinha sido feito visconde, por D.
João VI, em 3 de julho de 1824.
Teve quatro filhas.
12 Asra D. Maria Balbina Pamplona de
Sousa Holstein, que, como já disse, casou
com o 4.º conde de Rézende, e ainda vive,
no seu palacio do Campo de Santo Ovidio,
no Porto.
22 Asra D. Henriqueta, que nasceu a 21
de agosto de 1820, e morreu a 17 de julho
de 418353.
32 Asr* D. Emilia Maria Antonia Pam-
plona de Sousa Holstein, que nasceu em 49
de outubro de 1824, e falleceu em 31 de ou-
tubro de 1856. Tinha casado, em março de
1846, com Sebastião de Castro Lemos Ma-
galhães e Menezes, da casa do Covo, junto
a Oliveira de Azemeis, do qual teve quatro
filhos e quatro filhas. Uma d'estas (a 2.º) é
a actual senhora condessa da Ribeira, D.
Maria Helena de Castro Pamplona de Sousa
Holstein, e a 4º à sr.2 D. Maria Izabel de
Castro P. de S. H., está casada com o gr. D.
Manuel da Gama, filho do fallecido marquez
de Niza.
ka A sra D. Julianna de CG. P. de S. A.
nascida a 23 de outubro de 1822. Casou
com Geraldo José Braamcamp (irmão do sr.
Anselmo Jusé Braamcamp) e morr:u sem fi-
lhos. Seu marido tambem já falleceu.
O primeiro (e ultimo) visconde de Beire,
era filho de José Pamplona Carneiro Rangel
d- Tovar, 11.º senhor de Beire. padroeiro de
Santo André de Subrado, fidalgo da casa
real, cavallciro da ordem de S. João de Je-
rusalem, major governador do castello do
Queijo (junto a Mattosinhos.) Tinha succe-
164 REZ
dido na casa, a seu irmão João Pamplona
Carneiro Rangel. Morreu em janeiro de 1815.
Havia casado com D. Antonia Ignacia Bar-
reto de Miranda, filha de Barnabé Velloso
Barreto de Miranda, morgado de Santa Mar-
tha (junto a Vianna do Minho) fidalgo da
casa real, e de sua mulher, D. Antonia The-
reza Correia d'Araujo, senhora do morgado
de Cabéda, na freguezia de Villar de Maça-
da, em Traz-os-Montes.
José Pamplona, teve seis filhos :
1.º—D. Maria Amalia Pamplona, que foi
viscondessa de Canellas.
2.º—Manuel, (o visconde de Beire.)
3.º—D. Marianna Pamplona, que casou.
com o fidalgo da Boa-Vista, Martinho Pinto
de Miranda Montenegro. (Vide no artigo
Porto, Correias, da Rua-Chan.)
4.º—João Pamplona, que foi capitão de
cavallaria da ordem de S. João de Jerusa-
Jem.
9.º—D. Anna, que morreu solteira.
6.º—D. Joanna, que casou com João Tho-
maz d'Araujo Rangel e Castro, senhor da
casa de Franzeres (em Gondomar) fidalgo da
casa real e alferes do regimento de infante-
ria n.º 6 (1.º do Porto.) Ficando viuva, casou
com Manuel Velho.
Tornemos aos condes de Rézende.
Fallecendo o 4.º conde de Rézende, D. An-
tonio, foi feito conde (5.º) do mesmo titulo,
de juro e herdade, em 19 de julho de 1866,
séu filho primogenito, D. Luiz Manuel Bene-
dicto da Natividade de Castro Pamplona de
Souza Holstein, que nasceu a 24 de agosto
de 1844.
Frequentou o curso da academia polyte-
chnica da cidade do Porto, completando os
seus estudos como um dos mais distinctos
estudantes do seu tempo.
Apezar das verduras da mocidade, que o
fizeram praticar bastantes actos menos refle
ctidos, induzido por más companhias, pre-
feriu sempre os estudos aos prazeres, e, em
quanto não soubesse perfeitamente a sua li-
ção, não se entregava aos divertimentos.
Chegado aos 25 annos de edade, desligou-
se completamente dos mãus companheiros,
e dedicou-se com fervor a ser um verdadei-
REZ
ro catholico, e um cidadão pacifico e exem-
plar.
Foi par do reino, como lhe pertencia por
direito hereditario, e foi, pelo gr. D. Luiz I,
nomeiado official-mór da casa real, e almi-
rante honorario de Portugal.
Em 1874, foi eleito presidente da Associa-
ção Catholica, do Porto, defe idendo-a bri-
lhantemente na camara dos pares, das injus-
tas e calumniosas imputações que lhe dirl-
gira um outro par.
Falleceu em 23 de maio de 1875, tendo
um passamento verdadeiramente christão e
edificante, com todos os sacramentos da
egreja. j
Por fallecimento do 5.º conde de Rézen-
de, succedeu no titulo, seu irmão, o sr. D
Manuel Benedicto de Castro Pamplona de
Sousa Holstein, feito conde de Rézende, de
juro e herdade, em abril de 1876, e vem a
ser o 6.º conde de Rézende.1
Em 22 de junho de 1876, casou, na cidade
do Funchal (ilha da Madeira), com a sr.* D,
Mathilde da Camara Carvalhal, filha primo-
genita, e herdeira, do sr. D. Antonio daCa- |
mara do Carvalhal- Esmeraldo Atouguia de
Sa Machado, 2.º conde do Carvalhal, feito
em 3 de agosto de 1852, e filho do 4.º conde
do mesmo titulo, João do Carvalhal, que ti-
nha obtido o titulo em 8 de setembro de
1835.
O sr. conde de Rézende, já tem descen-
cia.
Não se confunda o conde do
Carvalhal, com o conde de Car-,
valhaes, que é d'outra familia,
O 1.º (e ultimo) conde de
Carvalhaes, foi José Maria de
Almada Castro de Noronha Lo-
bo, 13.º senhor de Carvalhaes,
Ilhavo, e Verdemilho. (Vide
Verdemilho.)
Fallando n'este artigo, do titulo (hoje pu-
ramente honorifico) de almirante de Portwu-
1 Este cavalheiro porém, não póde ser por
hereditariedade, par do reino, porque esta di-
gnidade não se “transmite a collateraes, se-
em a lei interpretativa, de 41 de abril de
A)
REZ
gal, direi, em breve resumo, o que respeita
a este titulo.
Póde dizer-se que o 4.º almirante d'este
reino, foi o valorosissimo D. Fuas Roupi-
nho. (Vide 7.º vol., pag. 571, col. 2.º)
Em tempo do rei D. Diniz, foi almirante
Manuel Passanha, fidalgo genovez, ao qual
o rei deu o senhorio da villa de Pereira (no
concelho de Monte Mór-Velho) e o 5.º das
prezas que fizesse.
Parece que este cargo foi concedido here-
ditariamente, porque, a Manuel Passanha
succedeu seu filho Carlos Passanha, que
morreu sem successão, passando o titulo a
seu irmão, Bartholomeu Passanha. Ainda es-
te morreu sem filhos, e o titulo passou a ou-
tro irmão, chamado Lançarote Passanha. Foi
o titulo continuando n'esta familia, até que
passou para Lopo Vaz d'Azevedo, filho de
Gonçalo Gomes d'Azevedo e de uma bisneta
de Lançarote.
D'esta familia passou para D. Simão de
Castro, senhor de Rézende e Rériz, por ter
casado com D. Bernarda de Menezes, da fa-
milia Azevedo. :
D. João de Castro, filho d'estes, herdou o
almirantado.
Succedeu-lhe D. Francisco de Castro, e a
este, seu 2.º filho, D. Luiz Innocencio de
Castro, senhor de Rézende, Eiras, Ribadel-
las, Rériz, Gozende, Sul, Beneviver, metade
da villa de Penella e seus padroados ; e no
Brasil, a capitania dos Ilheus, as villas de
Camamu, Boupemba, Cayrú e Itaparica.
D. Luiz Innocencio de Castro, casou com
D. Joanna de Lencastre, e d'ella teve D. An-
tonio José de Castro, que, como fica dito,
foi o primeiro conde de Rézende, e almirante
de Portugal.
Ainda em Portugal ha outro titulo, tam-
bem honorifico, d'almirante das Indias. Foi
conferido a D. Vasco da Gama, e anda nos
seus descendentes, marquezes de Niza e con-
des da Vidigueira.
O ultimo que teve este titulo, foi D. Do-
mingos Francisco Xavier da Gama Athaide
Noronha Silveira e Sousa, que era marquez
de Niza, desde 20 de junho de 1842, e fal-
lecido ha poucos annos.
VoLuME va
RIA 165
Hoje pertence este titulo a seu filho, o gr.
conde da Vidigueira, quando o requerer ;
assim como o de almirante de Portugal ao
novo conde de Rézende.
No quadro actual da marinha portugueza,
não ha o posto de almirante, e só o de vice-
almirante, e quatro contra-almirantes, anti-
gos chefes de divisão. k
É tal a decadencia da nossa marinha de
guerra, que se torna escusada a nomeação
de um official general para almirante, que
vinha a ser tão inutil como um general de
terra, sem ter exercito para commandar.
A nossa insignificante esquadra (numeri-
camente fallando) nem ao menos chega para
as indispensaveis estações do Ultramar, e
serviço da costa.
RIA D'AVEIRO—Douro.—A ria d'Aveiro,
é um lago immenso separado do oceano por
uma longa trincheira d'areia na extensão de
35 kilometros. É na sua exploração que con-
siste a industria d'Aveiro: por toda ella es-
tão espalhadas as marinhas, cujo numero
passa de quatrocentas, divididas por innu-
meros canaes, a que se dá o nome de estei-
ros.
Entre ellas tambem se encontra não pe-
queno numero de ilhas, que produzem junco
e bonho. N'uma d'estas ilhas, Sama, houve
antigamente um lazareto para onde eram
mandadas as pessoas que soffriam molestias
contagiosas. Sobre esta mesma ilha houve |
tambem uma grande questão entre o duque
d'Aveiro e a camara, dizendo aquelle que a
ilha lhe pertencia: mas afinal o pleito foi de-
cidido a favor da camara, que provou que
desde tempos immemoriaes a ilha tinha
aquelle destino, e que por isso era proprie-
dade publica.
Não se sabe ao certo quando foram feitas
as primeiras marinhas em Aveiro, mas por
documentos authenticos prova-se que ellas
são anteriores à fundação da monarchia-
Julga-se que o fabrico do sal tivera princi-
pio entre nós, durante a dominação arabe,
No foral que D. Manuel deu a Aveiro, em &
d'agosto de 1515, se ordenava que o sal fos-
se medido, e julga-se que a primeira medi-
da adoptada fôra a que denominavam busto.
1
166 RIA
Por accordam da camara, de 16 de julho
de 18144, se ordenou que a medida do sal
fosse o moio de 20 rasas, e não o conto, como
até ahi.
O aspecto das marinhas com os seus mon-
tes de sal, é admiravel, e concorre immenso
para que Aveiro seja mais risonho. É exacta
e elegante a descripção que vamos apresen-
tar, devida á penna d'um ilustrado escri-
Ptor contemporaneo.
«Aveiro, visto de longe, diz elle, quasi à
perder-se no horisonte, offerece um aspecto
muisingular, que é difficil de esquecer, obser-
vado uma vez. As pyramides de sal que lhe
ornam as lagõas, semelhando alvos monu-
mentos mortuarios, destacam d'um terreno
baixo e escuro, e apenas avivado com as fi-
tas de prata de uma abundante ria que fer-
tilisa o paiz, dão-lhe um tal colorido de me-
lancholia e saudade que seus filhos consa-
gram e que já são proverbiaes.!»
A ria é abundantissima em peixe, que pre-
sentemente está por um preço bastante ele-
vado—tal é à exportação que tem logar com
destino a Hespanha.
Ha muitos annos que na ria se estão com-
mettendo abusos com relaçãofá pesca, que sé
torna necessario cohibir o mais breve pos-
sivel—o «da pesca feita com redes de malha
extremamente miuda, resulta que a maior
parte do peixe não chega a desenvolver-se,
e a outra parte, a que procura as aguas da
ria em certas estações, não encontrando sus-
tento no peixe miudo, emigra, escasseando
assim a pesca na ria.»
O ex governador civil d'este districto,
Guerra Quaresma, tentou remediar este mal,
elaborando um regulamento sobre a pesca.
Por edital do ex-secretario geral do governo
civil, servindo de governador, Augusto Cor-
reia Godinho Ferreira da Costa, de 26 de
maio de 1868, foi mandado pôr em pratica,
mas segundo nos consta nunca chegou a ter
execução.
Não é menos prejudicial a apanha do bri-
bigão, porque sendo esta pesca feita com
q ResEua de ferro, estes revolvem as areias,
! Sr. J. Horta, Revista contemporanea, pag.
438, vol. 4.º
RIA
que depois, levadas pelas correntes, vão for-
mar junto da barra grandes depositos deno-
minados restingas, que continuamente a vão
obstruindo.
Está tambem tendo grande importancia à
apanha do moliço, «planta aquatica que con-
tinuamente se reproduz no fundo da ria e
que se emprega no adubo das terras. Esta
exploração torna a ria menos piscosa do que
deveria ser, porque, de envolta com o mo-
liço, é colhido muito peixe em embrião.»
O rendimento annual da ria é calculado
em 365:0008000 réis.
Segundo se deprehende do Elucidario, de
Viterbo, no tempo dos romanos ainda não.
existia o aggregado d'aguas que hoje forma.
a ria d' Aveiro.
Diz o citado auctor, que com o andar dos
tempos a costa se entupio e alteou por causa
das areias, e Os rios estagnados, não só este-
rilisavam os campos, mas tambem fechavam
a passagem dos caminhos, como succedeu
com a Estrada Romana ou Via Militar, que
sahindo de Condeixa a Velha atravessava 0
Mondego entre Pereira e Coimbra, e pas-
sando o Eminium, rio Agadão, cortava o
Vouga, não distante de Talabriga, e d'aqui
por entre Lacobriga, que Vasconcellos, na
Discript. Regn. Luzatan., diz ser a Villa da
Feira, e o mar, se dirigia a Cale.
Em 1862, o governo encarregou o distin-
cto engenheiro hydrographo, Antonio Maria
dos Reis, de tirar a planta da bacia «hydro-
graphica, que constitue o extenso ancora-
douro do nosso porto e do immenso reser-
vatorio d'aguas, cujas correntes carecem de
ser reguladas convenientemente para não.
prejudicarem é antes favorecerem as condi-
ções da barra.»
Em 1868, achando se bastante dica os
os trabalhos hydrographicos, estando já em.
grande parte tirada a planta da ria, graças
ao incançavel zelo e actividade do habil en-
genheiro Reis, foram os ditos trabalhos in-
terrompidos, ficando assim por concluir uma
obra que podia vir a ser de grande utilida-
de, para o melhoramento da barra.
A ria está em communicação com a cida-
de, por um braço canalisado, com um bello:
caes em ambas as margens.
RIB
“ Em 41680, por provisão de D. Pedro II,
então regente, a camara foi auctorisada a
lançar 0 imposto, por espaço de tres annos,
de um real em cada quartilho de vinho taber-
nado, para poder occorrer às despezas da
reconstrucção do caes que n'esta época se
achava bastante arruinado.
D. Maria I mandou tambem reedificar o
caes, encarregaudo da inspecção da obra
que teve principio em 31 d'agosto de 1780)
o desembargador da Casa da Supplicação,
Antonio Gravito Simões da Veiga.
Foi de pouca solidez esta nova construc-
ção, porque era tal o seu estado de ruina
em 4858, que o governo o mandou refor-
mar completamente, principiando as obras
a 26 d'abril do mesmo anno, e concluindo-se
a 30 de setembro de 1872, elevando-se a
despesa a 50:2188085 réis.
Este curiosissimo artigo, foi publicado em
o n.º 183 do illustrado jornal Districto de
Aveiro, pelo infatigavel investigador, o sr..
João Augusto Marques Gomes, auctor das
Memorias d' Aveiro, do Districto d' Aveiro (li-
vro) e de outras publicações de muito me-
“recimento.
RIBA, RRIBA, e RIBADA (em latim, ripa)
—portuguez antigo—margem alcantilada ou
sobranceira a qualquer rio, estrada ou po-
voação.
Em 897, Gondezindo fez uma notavel doa-
ção ao mosteiro de S. Salvador de Labra
(hoje Lavra) que, desde os tempos antigos,
estava fundado IN RIPA MARIS.
RIBA-CAVÁDA — logar, Traz-os-Montes,*
concelho e junto à villa da Torre de Mon.
corvo. Nada tem de notavel, senão haver
aqui uma antiquissima ermida, dedicada a
Nossa Senhora da Esperança, cuja festa se
faz no dia da Assumpção da Sanlissima Vir-
gem. O povo dá a esta Senhora tambem o
titulo de Nossa Senhora de Riba-Caváda.
RIBA-COA —Beira Baixa, antiquissima co-
marca, ha muitos annos supprimida, da qual
a maior parte fórma a actual comarca do
Sabugal.
Esta circumscripção pertenceu em tem-
pos remotos ao bispado de Caliábria, pas-
sando depois de 716 para o de Ciudad Ro-
RIB 167
drigo, depois para o de Lamego; e desde
1774, pertenceu uma parte à diocese de Pi-
nhel.
Estende-se este territorio pela margem di-
reita do rio Côa, que o separa da Extrema-
dura Hespanhola. (Vide Caliabria,-Pinhel e
Sabugal.)
Não sei porque rasão, os antigos chama-
vam ao territorio de Riba-Côa, bispado novo.
Foi pelos annos de 1400. sendo rei D. Di-
niz, pontifice Bonifacio IX, e bispo de La-
mego, D. Gonçalo Gonçalves, que o districto
de Riba-Côa se desmembrou de Ciudad Ro-
drigo, e passou para Lamego.
Ha pelos seus montes muitos vestígios de
fortalezas e povoações, destruidas desde o
principio do seculo 8.º até ao 12.º Ignora-se
quem as fundou e o nome que tiveram.
Vide Sabugal, onde direi mais circum-
stanciadamente o que foi e o que é Riba-Côa.
RIBA DE ANCORA-— freguezia, Minho, con-
celho e 6 kilometros ao S. de Caminha, co-
marca, districto, e 12 kilometros ao N. de
Vianna do Lima, 50 ao O. de Braga, a cujo
arcebispado pertence, 410 ao N. de Lisboa,
200 fogos.
Em 1757, tinha 152 fogos.
Orago, Santa Maria (Nossa Senhora da As-
sumpção.)
A casa do infantado, donataria d'esta fre-
guezia, apresentava o reitor, que tinha 2305
réis de rendimento.
Este senhorio tinha sido dos Noronhas,
marquezes de Villa Real, e duques de Ca-
minha, que o perderam, como tudo o mais
que possuiam, e a vida,na praca do Rocio,
em Lisboa, em 29 de agosto de 1644, sendo
degolados, por traidores ao rei e à patria.
Os dizimos d'esta freguezia constituiam
um prestimonio da ordem de Christo.
Está a freguezia situada em terreno muito
accidentado, sobre a margem direita do rio
Ancora, ficando-lhe contiguas, a O., as fre-
guezias d'Ancora e Gontinhães, na costa do
Oceano. !
Ha n'esta freguezia a capella de Jesus Ma-
ria José, vulgarmente chamada capella dos
Pintos, fundada em 1776, por Antonio Ro-
drigues de Oliveira, mas à custa de seu ir-
168 RIB
mão, o padre Sebastião Rodrigues de Olivei-
ra, que depois foi reitor desta parochia. Tem
varios privilegios e indulgencias, concedidos
pelos summos pontifices e pelos arcebispos
de Braga.
Um dos privilegios é poderem as pessoas
da familia, baptizar-se, casar-se e enterrar-
se n'ella.
Antonio Martins d'Oliveira, d'esta fregue-
zia, deu à egreja matriz, alguns ricos para-
mentos e alfaias, e 6008000 réis em apoli-
ces do banco de Lisboa, para se fazer todos
og annos a solemnidade da Semana Santa.
É terra muito fertil em todos os generos
agricolas, cria muito gado bovino para ex-
portação, nos seus montes ha muita caça, 0
rio Ancora lhe fornece algum peixe e é
abundante do de agua salgada, pois que o mar
lhe fica apenas a 2 kilometros de distancia.
É povoação antiquissima e já povoada
desde o tempo das primeiras invasões dos
celtas, perto de dez seculos antes do nasci-
mento de Jesus Christo.
“Se não ha monumentos de tão remota an-
tiguidade (senão o dolmen de Gontinhães)
ainda existem alguns nomes de logares que
nos provam que aqui, em tempos pre histo-
ricos,sexistiram povos vindos da Asia: por
exemplo, ha a aldeia do Médo. e o logar do
Sub-Médo, a Veiga de Sapór (parte desta
já é na freguezia d'Ancora.)
Para evitarmos repetições, vidc Ancora,
rio; Ancora, freguezia; e Gontinhães.
Em 25 de novembro de 1876, houve por,
estes sitios tão grande temporal, que causou
enormes prejuizos aos proprietarios.
Eis a avaliação d'estes prejuizos, manda-
da fazer pela administração do concelho de
Caminha. (Official.)
Freguezias
1:180000
4003000
8:2008000
3:0008000
1698900
5:9408000
18:8892900
E] A DRA seio
Azevedo
Cristéllo
Gontinhães
RIB
18:8898900
2:8568800
4:7008000
2:37498400
1:4008000
3:0248300
1:147 8000
Orbacem .+
Riba d'Ancora
Mansa CS Eus
Estrada municipal
Ponte sobre o Coura 1:1008000
36:4148400
A isto deve juntar-se a destruição da pon-
te nova (feita em 1857) sobre o rio Ancora,
na estrada real de 1.º classe de Lisboa para
o norte, e que tinha custado ao estado réis
9:2008000—veio a sommar todo o prejuizo
causado por este temporal, e o de 1866 na
quantia de 45:6148400 réis.
—
Era natural d'esta freguezia, e aqui falle-
ceu a 16 de fevereiro de 1877, Gabriel An-
tonio Franco de Castro, tenente coronel de
artilheria, do exercito portuguez convencio-
nado em Evora-Monte.
Tinha feito parte da expedição do Brasil
e Montevideu, em 1817, tendo a condecora-
ção da campanha de Montevideu.
Foi deputado às côrtes, em-1849; vogal
e presidente da junta geral do districto de
Vianna e administrador do concelho de Ca-
minha. Era um cavalheiro rico, intelligente,
energico, e de grande probidade.
Era parente do general realista do mesmo
nome (por alcunha o Caréca) que foi gover-
nador das armas do Porto, em 1828, e era
tambem natural d'esta freguezia.
É tambem natural d'esta freguezia, o sr.
commendador José Bento Ramos Pereira, Fi-
co proprietario e capitalista, e um dos mais
nobres e philantropicos caracteres d'estas
terras. Tem aqui uma formosa casa, onde
reside no verão.
Fundou, quasi à sua custa, em 1867, uma
boa casa para escola de instrueção prima-
ria, casa para se leccionarem os alumnos, e
para viver o professor, e, no pavimento ter-
reo, uma sala, para as sessões da junta de
parochia.
RIB
O sr. Ramos Pereira era de familia pobre,
e adquiriu a sua bem empregada riqueza,
no imperio do Brasil.
RIBA D'ÁVE— freguezia, Minho, comarca
e concelho de Villa Nova de Famalicão, 18
kilometros ao O. de Braga, 350 ao N. de Lis-
boa. 240 fogos.
Em 1757, tinha 48 fogns.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Arcebispado e districto di initipaa de
Braga.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
2502000 réis.
Foi n'esta freguezia o mais nobre solar de
Portugal, fundado por D. Ruy Gonçalves Pe-
reira (o primeiro d'este appellido), filho de
D. Gonçalo Rodrigues de Palmira e de sua
primeira mulher, D. Troyla, filha Hp D. Af-
fonso, conde de Cella-Nova.
D. Ruy Gonçalves Pereira, um dos mais
intrepidos guerreiros do seu tempo, nasceu
em 1192, e foi um dos capitães mandados
por D. Affonso II com um exercito, em soc-
corro de D. Affonso VIII, de Castella, 1 con-
tra o poderoso Mahomet IV, que tentava con-
quistar as Hespanhas.
Taes actos de bravura praticou na famo-
sissima batalha e gloriosa victoria de Navas
de Tolosa, em 12142, que causou espanto a
todo o exercito christão, muito mais, por-
que D.Ruy não tinha então mais de vinte
annos.
É progenitor do famoso condestavel, D.
Nuno Alvares Pereira, do qual procede a
real familia de Bragança, o imperador do
Brasil, e todos os reis christãos da Europa.
(Vide Feira.)
RIBA D'AVE — Minho, comarca e conce-
lho de Santo Thyrso (foi da mesma comar-
ca, mas do extincto concelho de Negrélios).
Esta freguezia já fica descripta sob a pa-
lavra Estevam de Riba d'Ave (Santo), mas,
como d'ahi a um anno aconteceu aqui uma
grande catastrophe, passo a referil-a.
Na noite de sabbado de Aleluia (27 de
março de 1875) para domingo de Paschoa,
pela uma hora da madrugada, varios ran-
1 Não foi só Portugal, todos os principes
christãos da Peninsula se colligaram então
contra os mouros.
RIB 169
chos de rapazes, davam, com musica e des-
cantes, as boas festas, às portas dos seus
amigos, lançando varios foguetes. Um d'es=
tes, foi cahir sobre uma rima de lenha, que
estava encostada à casa de Francisco Ribei-
ro, o qual tinha na mesma casa um grande
deposito de polvora, em que negociava.
Ribeiro, presentindo o perigo, fugiu de ca-
sa com a sua familia, e poucos momentos
depois, uma estrondosa detonação aterrou
toda a gente das immediações. A casa voou
pelos ares, hindo a pedra e os materiaes da
armação, cahir a grandes distancias.
Ficaram partidos e carbonisados, uma
mulla e um porco. A casa visinha foi tam-
bem victima das chammas. As portas de mui-
tas casas abriram-se de par em par, e foram
despedaçados os vidros das janellas de quasi
toda a povoação. Apezar de não haverem
desgraças pessoaes, este incendio ainda é
recordado com horror em toda a freguezia.
RIBA-D'ELLAS — aldeia, Beira-Alta, na
freguezia de Lalim, concelho de Tarouca,
comarca, bispado e 6 a 8 kilometros de La-
mego.
Junto a esta aldeia está a antiquissima ca-
pella de Nossa Senhora da Gloria, que se
festeja a 2 de fevereiro, havendo então um
grande jubileu, concedido pelo papa Grego-
rio XIII, pelos annos de 1575.
RIBA DE MOURO — freguezia, Minho, co-
marca e concelho de Monção (foi da mesma
comarca, mas do extincto concelho de Val-
ladares), 60 kilometros ao N. de Braga, 420
ao N. de Lisboa, 100 fogos.
Em 4757, tinha 504 fogos. 1
Orago, S. Pedro, apostolo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
A casa do infantado, donataria da fregue-
zia, apresentava o reitor, que tinha 1808000
réis.
Era aqui o solar dos Quintellas (mas não
dos Quintellas, hoje condes do Farrobo). A
familia dos Quintellas d'esta freguezia, flo-
resceu no reinado de D. Diniz. Hoje está ex-
tincta.
1 Parece-me muito fogo. É provavel que
seja engano do Portugal Sacro e Profano.
170 RIB
“O senhorio d'esta freguezia era dos mar-
quezes de Villa Real, e foi um dos que pas-
sou a formar a casa do infantado. (Vide Queê-
luz.)
"Os dizimos eram um prestimonio da or-
dem de Christo. Foi couto.
Segundo a tradição, era senhor de uma
grande quinta n'esta ríbeira, um mouro cha-
mado Juzão. Perseguido pelos christãos, che-
gou ao sitio hoje chamado Ponte do Mouro,
e alli saltou o rio a cavallo, promettendo à
S. Thiago que, se o livrasse d'este perigo, se
faria christão; e como escapou, se baptisou
e fez christão.
Diz-se que é d'este facto que a freguezia
tomou o nome de Riba de Mouro.
RIBA D'UL — freguezia, Douro, comarca,
concelho e 3 kilometros ao N. de Oliveira
d'Azemeis, 36 kilometros ao S. do Porto,
285 ao N. de Lisboa, 300 fogos.
Em 1757, tinha 200 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Bispado do Porto, districto administrativo
d'Aveiro.
A esta freguezia dá-se geralmente o nome
de S. Thiago de Riba d'Ul, ou simplesmente
S. Thiago.
O reitor de Oliveira d'Azemeis, apresen-
tava o cura, que tinha 808000 réis de ren-
dimento e o pé d'altar.
É parochia muito antiga, e, segundo a tra-
dição, houve aqui um mosteiro de freiras
bentas, que foi destruido pelos mouros, em
718. Não ha vestigios delle. Diz-se que era |
na margem direita do rio UI, que atravessa
esta freguezia, e lhe dá o nome.!
As rendas d'este mosteiro, passaram de-
pois para o mosteiro de monges da mesma
ordem, na freguezia de Cucujães, immediata
a esta.
Tambem passa n'esta freguezia, e aqui se
junta ao U], o ribeiro de Cavalleiros, sobre
o qual ha uma boa ponte, de cantaria, con-
struida ha poucos annos, em substituição da
antiga.
1 O primeiro nome d'este rio, foi Ral, e
ainda aqui perto ha a ponte do Ral; depois
se chamou Feirral, e por fim Ul. Muda de
nome em Estarreja, chamando-se Autuan.
Vide esta palavra.
RIB
Foi junto a esta ponte (à primeira) que
alguns individuos da Arrifana mataram dois
officiaes francezes, em 1809, e cujo asaassi-
nato deu pretexto ao horroroso morticinio
que os jacobinos fizeram na Arrifana. Vide
Arrifana e Madeira (S. João da).
Ainda em 1870 appareceram n'este sitio
(do ribeiro dos Cavaleiros) alguns ossos,
que se suppõe serem dos taes officiaes.
No logar de Villa Cóva, d'esta freguezia,
ha vestigios de uma antiquissima torre, no
sitio chamado ainda, por isso, a Torre.
Esta torre fica a E., e a um kilometro de
distancia do Castro Trancal, na freguezia de
São Martinho da Gandara. (Vide esta pala-
vra, e Cucujdes.)
Consta que a tal aldeia de Villa-Cóva, te-
ve foro de villa, o que não é muito prova-
vel.
Segundo a tradição, esta freguezia prin-
cipiou a sua povoação por uma casa (que
ainda existe) na aldeia do Aido de Cima, é
a qual casa foi construida por um individuo
que para aqui veio degredado.
RIBA-FEITA—freguezia, Beira-Alta, con-
celho, comarca, districto administrativo, bis-
pado e 12 Kilometros de Viseu, 290 ao N. de
Lisboa, 400 fogos,
Em 1757, tinha 262 fogos.
Orago, Nossa Senhora das Neves.
O real padroado apresentava o abbade,
que tinha 3502000 réis de rendimento.
Vide Quelha de Gonta. q
É terra fertil. Gado e caça.
RIBAFRIA— aldeia, Extremadura, fregue-
zia e concelho de Cintra, 30 kilometros ao
N.0. de Lisboa. (Vide Cinira.)
Foi este logar que deu o appellido à no-
bre familia dos Ribafrias, que procede de
Gaspar Rodrigues de Ribafria, natural d'es-
ta aldeia. O rei D. Manuel o fez porteiro da
camara, pelos serviços que lhe havia feito.
D. João 1I o fez cavalleiro da ordem de
Christo, alcaide-mór de Cintra, lhe deu so-
lar em Ribafria, e carta de brazão d'armas,
a 16 de setembro de 1541, que são — Em
campo verde, torre de prata, lavrada de ne-
gro, aberta de azulejos de azul e ouro, sobre
um contrachefe de ondas de azul e prata, en-
tre duas estrellas de ouro, dé 8 pontas, acan-
RIB
tonadas: êlmo de aço, aberto; e por timbre,
um leopardo azul, armado d'ouro, com uma
das estrellas do escudo”na espádua.
São representantes d'esta familia, os con-
des de Penamacor.
O primeiro que obteve este titulo, foi An-
tonio de Saldanha Albuquerque de Castro
Ribafria Pereira, feito em 17 de dezembro
de 1844.
Seu filho, o sr. Antonio Correia de Salda-
nha Albuquerque de Castro Ribafria Perei-
ra,£é o segundo conde de Penamacor, feito
em 6 de juaoho de 1864.
Este sympathico cavalheiro, na flor da
edade, pois apenas conta 35 annos, aparen-
tado com as mais distinctas familias de Por-
tugal, jaz actualmente preso na cadeia do
Limoeiro, em Lisboa, sob a terrivel accusa-
ção de moedeiro falso.
Deus queira que se justifique plenamente,
provando a calumnia de tal accusação, para
honra dos seus nobilissimos appellidos, e
para satisfação de sua esposa, filhos e pa-
rentes.
Disse, por mal informado, a pag. 422, col.
2.º, de 6.º vol. que a Ribafria que deu o
appellido aos condes de Penamacor, era na
freguezia de Palha-Cana, concelho de Alem-
quer. Ha, é verdade, n'esta freguezia o lo-
gar de Ribafria, mas, como vimos no pre-
sente artigo, a Ribafria dos condes de Pena-
macor, é em Cintra.
RIBALDEIRA — freguezia, Extremadura,
comarca, concelho e 12 kilometros a E. de
Torres-Vedras (foi da mesma comarca, mas
do concelho de Ribaldeira, supprimido em
1855), 40 kilometros ao N.0. de Lisboa, 700
fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Patriarchado e districto administrativo de
Lisboa.
A esta freguezia está unida a de Dois Por-
tos, e é por isso que tambem se chama Ri-
baldeira e Dois Portos.
É sobre esta ultima denominação que vem
RIB 174
no Portugal Sacro e Profano. Vide Dois
Portos. 1
Proximo à aldeia chamada A dos Milhei-
ros, na parte da freguezia, que foi da de
Dois Portos, está a capella de Nossa Senho-
ra dos Milagres, ou da Fonte Santa.
Foi construida em 1578. É baixa, rece-
bendo a sua capella-mór a luz por uma cla-
raboia de ferro e vidro, e o corpo da egreja,
pela porta e por duas janellas que estão aos
lados d'ella. Não tem côro, por não ter al-
tura sufficiente. Tem sachristia, ao E, e pe-
gada a ella a casa do eremitão, e mais duas
moradas de casas, onde habitam duas fami-
lias.
Tem um magnifico alpendre, ao S., com
assentos de pedra, assim como os tem o mu-
ro do adro, do lado do E., que deita para
umas pobres terras que dão ao eremitão,
pelo trabalho de acecender a alampada (que
estã a maior parte do tempo apagada, ape-
zar de receber muitas esmolas e offertas de
azeitel...)
Ha na ermida uma alampada, uma cruz,
galhetas e prato, thuribulo e naveta, tudo
de prata lavrada.
A Senhora tem uma corôa de ouro, que
lhe deu, em 1873, o sr. Isidoro Francisco
da Cruz, natural da aldeia de Alfeiria, e re-
sidente no Brasil.
O altar-mór é sustentado por columnas de
marmore, feitas em espiral, e a imagem da
Senhora está dentro de uma bonita maqui-
neta envidraçada. O altar é uma urna de
marmore com baixos-relevos de mereci-
mento.
A parede da capella-mór, é revestida de
excellentes azulejos, de primoroso desenho,
representando varias scenas da vida da Se-
nhora. ;
Consta que esta imagem não é a primitti-
va, mas sim uma quê está na capella do sr.
1 Por escriptura publica, de 14 de novem-
bro de 41595, feita entre os moradores d'esta
freguezia, e os beneficiados de Torres Ve-
dras, se obrigaram aquelles a ter constante-
mente acceza à alampada do Santissimo Sa-
cramento d'esta freguezia.
172 RIB
capitão, do logar da Ribeira de Maria Af
fonso, d'esta freguezia.
Pela roda do anno se dizem aqui muitas
missas, em cumprimento de promessas, pois
a Senhora é objecto de muita devoção, dos
povos d'estes sitios.
A ermida tem bôas alfaias e ricos para-
mentos, dados pelos devotos da SS. Vir-
gem.
Os moradores dos logares da Maceira,
desta freguezia, e de Alfeiria, freguezia de
Carmões, festejam a Senhora no ultimo do-
mingo dagosto, havendo um grande arraial,
fogo preso e do ar, dois sermões, procissão,
etc.
No dia 8 de setembro, ha a festa chama-
da da casa paga pelo cofre da Senhora.
Não tem cofraria.
Antigamente vinham aqui cirios de Lis-
boa, havendo então grandes festas e cava-
lhadas.
Tambem havia uma grande feira, que hoje
está em muita decadencia, pois apenas cons-
ta de junco, tabuado, cebolas, cestos de vi-
me, e louça ordinaria.
A capella fica em uma elevação, a 1:500
metros ao N. da villa de Sobral do Monte
Agraço.
Ao fundo da costeira, do lado do E., ha
um bom chafariz de cantaria, que é a fonte
Santa, que a Senhora fez rebentar de um
rochedo.
* Do adro da capella se gosa um vasto e
formoso panorama, e em dias claros, vê-se
o Oceano, ao O.
“ Esta ermida é administrada por dois in-
dividuos (cunhados) do logar da Maceira,
que desfructam algumas terras pertencen-
tes à Senhora.
A maior parte d'estes esclarecimentos,
devo-os à generosidade do sr. padre Ve-
nancio da Costa e Oliveira, da aldeia da
Corujeira, freguezia de Carmões, ao qual
dou os mais sinceros agradecimentos.
A origem desta capella e da sua invoca-
ção, consta da lenda seguinte:
RIB
Que formosa ermida é esta
Que alveja na cumiada ?
N'ella a lua se reflecte,
N'ella o sol faz alvorada.
—É à VIRGEM DOS MILAGRES
Dos homens adevogada:
A Casta Pomba de Deus,
MARIA IMMAGULADA.
— Quem foi que fez n'este monte
Obra tão bem detalhada,
Que nos dá prazer à vista,
Que nos convida á orada?
—PFoi o amor d'este povo
Á viRGEM santa adorada,
Por lhe dar a fonte Santa,
A fonte santa chamada.
— Diz-me tu, oh pegureiro,
Como esta fonte foi nada:
Como se achou n'este monte
A fonte santa chamada ?
—Era uma sésta d'agosto.
Nºesta serra, que abrasava,
Um pastorinho innocente
Suas ovelhas guardava.
Morria o triste de sêde,
Com sêde o triste chorava.
Por ver que n'aquella serra
Nenhuma fonte encontrava.
Viu então formosa virgem
Que ao pastor se acercava,
E com maternal carinho
Estas palavras soltava
—Porque choras, meu menino *
Diz-me quem te maliratara?
—Tenho sêde, sem ter agua
Com que me desalterara.
—Vés aquella penedia
Tão ressequida e tisnada ?
Vae lá, verás uma funte
Com agua clara e nevada.—
RIB
Não cria o pastor, mas foi,
Porque a sêde o allucinava;
E logo, vendo uma fonte,
Nºella se desalterava.
Veio dar graças à Virgem
Que de tal séde o livrava;
Mas, chegando ao seu rebanho
Já ELLA alli não estava!
Logo o povo d'estas terras
Este milagre notava,
E á SANTA VIRGEM MARIA
Esta ermida fabricava.
O menino pediu agua
ELLA uma fonte lhe dava:
A Fonte Santa da VIRGEM
Que até os peccados lava.
CASTA POMBA DO SENHOR,
MARIA IMMACULADA,
N'esta vida e mais na outra
Sede nossa adevogada.
RIBA-LONGA —freguezia, Traz-os-Montes,
concelho de Carrazêda d'Anciães, comarca
de Moncôrvo, 120 kilometros ao N.E. de Bra-
" £a, 370 ao N. de Lisboa, 90 fogos.
Em 1757, tinha 51 fogos.
Orago, Santa Marinha, virgem e martyr.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Bragança.
O reitor de S. Miguel de Linhares, apre-
sentava O vigario, que tinha 408000 réis e
o pé d'altar.
É terra pouco fertil, em razão do seu cli-
ma excessivo. Cria muito gado e é abundan-
te de caça.
RIBA-LONGA —freguezia, Traz-os Montes,
comarca e concelho d'Alijó (foi da comarca
de Villa- Real, extincto concelho de Villar de
Maçada), 96 kilometros ao N.E. de Braga,
370 ao N. de Lisboa, 100 fogos.
Em 1757, tinha 49 fogos.
Orago, Santa Anna, mãe de Nossa Se-
nhora.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Villa-Real.
O reitor de São Miguel de Trez Minas,
RIB 173
apresentava o cura, que tinha 408000 réis
eo pé d'altar.
É terra fertil. Bom vinho, gado e caça.
RIBAMÁ — pequeno rio, Beira-Alta, que
morre no Vouga, perto de S. Pedro do Sul.
Provém o seu nome de correr por in-
gremes ribanceiras (ribas), entre Queiran e
- Ventosa. Rega os terrenos onde as suas mar+
gens são planas, e traz peixe miudo.
RIBAMAR (Santa Catharina) —aldeia, Ex-
trémadura, sobre a direita do Tejo, na fre-
guezia de Carnaxide, concelho d'Oeiras, 11
kilometros ao O. de Lisboa.
Esta bonita povoação é vulgarmente co-
nhecida sob'o nome de Dáfundo, ainda que,
verdadeiramente, Santa Catharina de Riba-
mar é o que foi mosteiro e cérca dos frades
arrabidos, hoje propriedade do sr. Fernando
Palha, e fica sobre o Dáfundo. (Vide vol. 2.º,
pag. 463, col. 1.º)
No sitio onde hoje sê vêem as ruinas da
egreja e pequeno mosteiro dos frades arra-
bidos, existia uma antiquissima ermida, de-
dicada à virgem e martyr Santa Catharina,
pertencente aos beneficiados da egreja de
Santa Cruz do Castello, em Lisboa.
Na Historia ecclesiastica de Lisboa, diz o
arcebispo d'esta cidade, D. Rodrigo da Cu-
nha, que, quanto à antiguidade d'esta ermi-
da, só se sabe que já existia em 1171, sendo
então egreja parochial, que tinha por fre-
guezes, não só os habitantes d'esta margem
do Tejo, mas tambem os das actuaes fregue-
zias de Bemfica, Campo-Grande (então Alva-
láde), Lumiar, e todas as aldeias interme-
diarias; sendo a 3.º freguezia christan crea-
da depois da tomada de Lisboa aos mouros,
em 4447. (A primeira foi a Sé, e a segunda
os Martyres.)
Com o andar dos tempos, e sendo o tem-
plo pequeno para matriz de uma vasta fre-
guezia, ficando de mais a mais na extremi-
dade della, foi a parochia mudada pará à
actual egreja de S. Romão de Carnaxide, fi-
cando a antiga matriz annexa, como ermi-
da, à collegiada de Santa Cruz do Castello»
ficando o prior de Santa Cruz com o direito
de apresentar o prior de Carnaxide.
A infanta D. Isabel, filha de D. Jayme, du-
174 RIB
que de Bragança, e viuva do infante D. Duar-
te, duque de Guimarães, filho do rei D. Ma-
nuel, emprehendeu fundar junto á ermida
de Santa Catharina, um mosteiro de frades
arrabidos, a ordem mais pobre e de maior
penitencia e austeridade de vida que então
havia em Portugal, e filial do famoso mos-
teiro da Arrabida, junto ao cabo do Espi-
chel, proximo e ao O. de Setubal. (Vol. 4.º,
pag. 238 KK, col. 2.2)
Mandou D. Isabel, pelo infante D. pita
pedir ao prior e beneficiados de Santa Cruz
do Castello, licença para a construcção do
mosteiro, ao que elles annuiram, mediante
a renda annual de 2:000 maravidis, do que
se lavrou escriptura publica, que auctorisa-
vam o arcebispo de Lisboa (D. Fernando de
Vasconcellos e Menezes, 2.º filho de D. Affon-
so de Vasconcellos, 4.º conde de Penella) e o
rei D. João II.
Sobre umas rochas, ao E. da Cruz Que-
brada, e sobranceiras ao logar do Dáfundo
(que então ainda não existia) fundou a pie-
dosa infanta o pequenino mosteiro, no anno
de 1551.
Foi a obra tão mal construida, que, pelos
annos de 1590, foi preciso reedificar o mos-
teiro; mas, com tão máus materiaes, que,
em 1625, se viram os religiosos obrigados a
abandonal-o, por ameaçar imminente ruina.!
Esteve assim deshabitado e desmantelado,
até que, em 1634, Diogo Lopes de Souza, 2.º
conde de Miranda, edificou aos religiosos
um novo mosteiro, proximo ao antigo; con-
struindo n'elle o mesmo conde o seu jazigo
e o de seus descendentes, que depois foram
marquezes d'Arronches e, por fim, duques
de Lafões.? Entre os membros d'esta fami-
lia que foram aqui sepultados, se acha o in-
fante D. Miguel, filho legitimado de D. Pe-
dro H, que foi casado (o infante) com D. Lui-
za Casimira de Souza, herdeira da casa dos
1 O convento de frades arrabidos da Boa-
Viagem, foi construido para dar abrigo aos
religiosos de Santa Catharina de Ribamar,
antes que o conde de Miranda construisse o
novo musteiro. Para se evitarem repetições,
vide Boa-Viagemi, vol. 1.º, pag. 403, col. 1.2,
no fim.
2 Vide no artigo Porto, anno de 1647, e
pag. 508, col. 1.º
RIB
'marquezes de Arronches, e 4.: duqueza de
Lafões.
Depois de 1834, o mosteiro, abandonado
| pelos religiosos, tornou-se um montão de
ruinas, que foram compradas por Estevam
Palha de Faria Gião, c é hoje de seu filho,
o sr. Fernando Palha, que o reuniu à sua
bella quinta do Dáfundo. O que foi cêrca
estã muito aformoseado, mas do mosteiro
não existem senão algumas paredes. (Vide
Dáfundo e Porto-Salvo.)
Ao O. de Santa Catharina de Ribamar, e
já proximo de Paço d'Arcos, está o forte de
S. Pedro, bem conservado e com guarnição,
estando actualmente estabelecido n'elle o de-
posito de torpédos.
Sobre a porta principal (e unica) do for-
te, se vê esta inscripção:
REINANDO EL-REI NOSSO SENHOR,
D. JOÃO IV, SE FEZ ESTA OBRA,
POR MANDADO DO CONDE DE
CANTANHEDE, DOS SEUS CONSELHOS
DE ESTADO E GUERRA, E VEDOR
DA FAZENDA — NO ANNO DE
1649.
Viscondes de Ribamar
O primeiro visconde de Ribamar, foi João
da Costa Carvalho, feito em 23 de agosto de
1864.
Nasceu em S. João da Foz do Douro, em
8 de março de 1790, e era filho de um po-
bre, mas hónrado negociante, que morreu
quando seu filho era ainda creança.
Foi para a cidade da Bahia, em 1804, e o
primeiro logar que ahi obteve foi o de pra-
ticante, a bórdo do brigue Paquête da Bahia.
Em 4840, era piloto da galéra Flor de Per-
nambuco, e em 1817, era capitão do brigue
Audaz, que tinha 20 peças de artilheria e
120 pessoas de tripulação.
Por serviços importantes que Costa Car-
valho prestou ao Brasil, como commandante
do brigue Audaz, foi por carta régia de 3
de abril de 1819, feito capitão-tenente, ca-
valleiro do habito de Christo, e condecora-
do com a estrella d'ouro, da campanha de
Montevideu.
Tornado o Brasil independente, veiu Gos-
|
RIB
ta Carvalho para Portugal, sahindo de Per-
nambuco em 2 de julho de 1823, e chegando
a Lisboa no fim d'agosto.
“O brigue Audaz deu baixa por desarma-
mento (era navio mercante, armado em guer-
ra) e em agosto de 1824, foi feito comman-
dante da charrua de guerra Princeza-Real,
que tambem deu baixa em abril de 1826.
“Finalmente, nas guerras civis de 1828,
1832 e 1834, seguiu o partido liberal, e che-
gou ao posto de contra-almirante, e ao titu-
lo de visconde.
Tinha uma quinta em Gibalta, ao O. da
Cruz -Quebrada, que é hoje dos seus herdei-
ros, e é d'ella que tomou o titulo, porque
ainda aqui se chamava antigamemte Riba-
mar. Esta quinta tem um bom palacio.
O primeiro visconde de Ribamar, foi um
rnilitar distincto e um perfeito cavalheiro.
Em 46 de maio de 1866, foi feita viscon-
dessa de Ribamar, sua filha, a sr.” D. Hen-
riqueta da Costa Carvalho Talone: e no mes-
mo dia obteve egual titulo, seu marido, o
sr. Frederico Carlos Agnello Talome, que é
o actual visconde de Ribamar.
RIBAMAR (S. José)— aldeia, Extremadu-
ra, na mesma freguezia de Carnaxide, eegual
distancia ao O. de Lisboa, ficando ao E. de
Santa Catharina de Ribamar, e do Dáfundo,
e a distancia apenas de 250 metros d'estas
duas povoações.
Foi o 4.º mosteiro da ordem da Areitas,
que se construiu em Portugal.
Foi fundado em 1559, por D. Francisco
de Gusmão, e sua mulher, D. Joanna de Blas-
velt—o 1.º, mordomo-mór da infantia D. Ma-
ria, filha do rei D. Manuel, e a 2.2, aia da
mesma princeza.
Tanto a egreja como o mosteiro eram pe-
quenos, e tão mal construidos, que: logo em
1595 foi preciso reedifical-os. Ainda depois
sofreram varias reconstrucções e bastantes
melhoramentos.
Apezar de pequeno e pobre, teve este con-
vento muitos privilegios e regalias..
O cardeal-rei, D. Henrique, mandou con-
struir, junto á capella-mór da egreja, um
edifício, com trez salas, e n'elle passava al-
RIB 175
gumas temporadas, em convivencia com os
monges.
A rainha D. Catharina, viuva de Carlos II
de Inglaterra, filha do nosso D. João IV, gos-
tava muito de frequentar este mosteiro, e
alli jantou varias vezes, pagando n'esse dia
toda a despeza do mosteiro. (Esta senhora
foi a fundadora do palacio da Bemposta, ou
das Rainhas, em Lisboa. (Vide 4.º vol., pag.
1314, col. 2.º)
D. João V, veio por muitas vezes aqui as-
sistir ás rezas do côro, pela manhan e á noi-
te, em 1712, quando assistia no palácio dos
duques de Cadaval, em Pedrouços, que é a
uns 300 metros ao E. de S. José de Riba-
mar.
Além d'isso, todos os annos, no dia da fes-
ta de S. Francisco, hia jantar com os mon-
ges no refeitorio, não consentindo que n'es-
sas occasiões fosse tratado senão como rd
quer simples religioso.
À egreja possuia ricas alfaias; um quadro
de S. José, que se dizia ser o verdadeiro re-
trato d'este santo, pintado por o evangelista
S. Lucas; e varias joias de muito valor, da-
divas da rainha D. Maria Francisca Isabel
de Saboya, e de outras princezas e fidalgas,
que se encommendavam a S. José, para te-
rem successão, e que davam ao mosteiro va-
rias esmolas, depois de obtido o milagre. .
Aqui foram sepultados os fundadores, e
além d'elles —e apezar de terem jazigo pro-
prio em outras egrejas — D. João de Portu-
gal, bispo de Lamego; D. Maria de Azevedo,
condessa do Vimioso; D. Miguel de Portu-
gal e sua mulher, tambem condes. do Vimio-
so; D. Maria de Lencastre, condessa de Cas-
tello-Melhor; D. Marianna de Vasconcellos,
marqueza do mesmo titulo; D. Diogo da Sil-
va, 6.º conde de Portalegre, e seu irmão,
D. João da Silva, capellão-mór de D. Philip-
pe IV, de Hespanha; Francisco de Távora,
conde d'Alvôr; D. Julianna de Noronha, con-
dessa d'Aveiras; e outras muitas pessoas no-
taveis.
O mosteiro e a sua cérca, bem arborisa-
dajforam vendidos, logo depois da suppres-
são das ordens religiosas, e é hoje uma bel-
lissima propriedade do sr. Eduardo Augus-
to da Silva Cabral, feito 2.º conde de Cabral,
176 RIB
no 4.º d'abril de 1869. É filho do fallecido
José Bernardo da Silva Cabral, que foi feito
4.º conde de Cabral, em 24 de outubro de
1867.
O actual possuidor do mosteiro, tem aqui
feito grandes melhoramentos, e construido
varias casas que arrenda na estação dos ba-
nhos, vindo elle tambem com a sua familia
aqui residir no verão. É uma habitação de-
liciosa, e com formosissimas vistas, como
todas as povoações d'esta margem do Tejo,
sobre tudo, desde a torre de Belem, até S.
Julião da Barra.
Os srs. condes de Lumiares tinham uma
propriedade junto e ao nascente da cêrca
do mosteiro. O sr. conde de Cabral a com-
prou, em fevereiro de 1875, e é hoje uma
bonita e grande casa, logo á entrada do por-
tão de ferro, da quinta. E” tambem para alu-
gar.
Ainda á entrada da quinta d'este lado (E.)
em um terreno exterior, se vê um cruzeiro
que foi do convento, e que o sr. conde de
Cabral para aqui mandou remover do logar
primittivo.
A pequena mas formosa egreja, está opti-
mamente conservada e com muito acceio,
isto devido aos sentimentos religiosos do sr.
conde: e quando aqui reside, ha sempre mis-
sa, nos domingos e dias sanctificados.
Em frente d'esta quinta, ao S., em um ter-
reno entre ella e a estrada real de Oeiras,
mandou a repartição das obras publicas,
construir um bonito jardim, que ainda mais
valor dá à quinta.
Tambem proximo e ao S.0. da mesma
quinta, existiu o forte de S. José de Riba-
mar, que foi arrasado depois de 1834, e já
nem delle ha vestígios.
Ainda em frente da quinta, a lado do
E., existiu o forte de Nossa Senhora da Con-
ceição, que foi vendido, depois de 1834, e
sobre as suas muralhas se construiu um
predio, hoje do sr. Gaspar Gomes dos An-
jos. (Vide Pedroiços e o 2.º Porto-Salvo.)
RIBAMAR (S. José) — Na villa da Póvoa
de Varzim, ha tambem um sítio chamado
S. Josê de Ribamar. Fica mesmo na praia
dos banhos. O povo da villa, com esmolas
suas, e com as sollicitadas aos banhistas,
RIB
principiou em 1876 a construir aqui uma
grande capella, dedicada à sagrada familia
Jesus MARIA JOSE.
Já n'ella se diz missa (1878) e já tem altar-
mór e dois lateraes. Ainda anda em obras.
RIBA-PAIVA — Douro e Beira-Alta— da-
va-se em geral o nome de Riba-Paiva, ao
territorio das duas margens do rio Paiva,
que divide a provincia do Douro da Beira-
Alta; mas em especial à freguezia de Santa
Maria de Sardoura, que hoje está dividida
em duas—Santa Maria, e S. Martinho—am-
bas no concelho do Castello de Paiva.
A freguezia de Sardoura, é uma das mais
antigas de Portugal, e que já existia em 989,
pois n'esse anno, fez Vimarêdo, abbade do
mosteiro duplex, de S. Miguel de Riba-Pai-
va, proximo a Sardoura, escambo (troca) de
uma propriedade por outra, a certo parti-
cular, con consensum fratribus et sororibus
nostris. Neste escambo assignaram, com o
titulo de Deo-Vódas (devotas) Ermilli Etua-
la, e Mara: e com o titulo de sorores, Aetina,
Martina, Egila, Tederona, Iquila, e Amedru-
dia. (Doc. do real mosteiro d'Arouca.)
Este mosteiro de S. Miguel era da ordem
benedictina.
Tambem no archivo do mesmo real mos-
teiro, se acha a doação da ermida de S. João
da Foz (que depois foi do mosteiro de Santo
Thyrso), feita por D. Affonso Henriques, em
1145, ao mosteiro de S. Miguel de Riba-Pai-
va. Vide Rem.
Já ha mais de 400 annos que não existe o
mosteiro de S. Miguel de Riba-Paiva, nem
d'elle resta o minimo vestigio, nem mesmo
tradição, nem se sabe o sitio exacto em que
estava fundado. Perguntei por isto a Varias
pessoas das mais velhas destes sitios, mas
nada me souberam dizer. Só consta da sua
existencia, pelos documentos do cartorio das
freiras d' Arouca.
Sabe-se apenas que era perto de Villas
Real (a actual freguezia de Real, do conce-
lho de Paiva) territorium Enegia, subtus
mons Serra-Sicca, discorrentem rivuio Sar-
doura.
As duas freguezias de Sardoura, sio com
efeito nas margens do rio do seu pome, é
“ RIB
sobre a margem esquerda do Douro, onde
desagúa — pouco acima de Linhares —o rio
Sardoura, que apenas merece o nome de ri-
beiro.
RIBA-PENHÃO — freguezia de Traz-os-
Montes, concelho de Sabrosa, comarca e dis-
tricto administrativo de Villa. Real, arcebis-
pado de Braga, d'onde dista 100 kilometros,
ao N. E., 365 ao norte de Lisboa, 230 fogos.
Em 1757 tinha 152.
Orago S. Lourenço, martyr.
A mesa archiepiscopal de Braga apresen-
tava O reitor, que tinha 1008000 réis de
renda.
Esta freguezia pertenceu ao extincto con-
celho de Villar de Maçada.
RIBAS —freguezia, Minho, comarca e con-
celho de Celorico de Basto, 50 kilometros ao
N.E. de Braga, 365 ao N. de Lisboa, 250 fo-
gos.
Em 1757, tinha 195 fogos.
Orago, o Salvador.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A mitra primacial apresentava o reitor,
que tinha 1608000 réis de rendimento.
É terra fertil: muito gado, caça, e peixe
do Tâmega e de alguns ribeiros.
Houve n'esta freguezia um mosteiro de
conegos regrantes de Santo Agostinho (eru-
zios), fundado por D. João Peculiar, arce-
bispo de Braga.
Principiaram as obras do mosteiro, em
1153, e, em 4160, tomou posse delle, o seu
primeiro prior, D. Mendo, e seus frades.
Este D. Mendo foi sepultado na claustra,
em uma arca de pedra, mettida na parede.
Tem uma inscripção latina, que traduzida,
diz — «Aqui jaz D. Mendo, o 1.º prior que
foi d'este mosteiro, o qual nunca deu um uni-
co passo que não fosse em serviço de Deus.
Falleceu a 2 de outubro da era de 1208.
(1170 de J. €,)
Em 1566 passou o mosteiro a poder de
commendatarios, e o cardeal D. Henrique
(depois rei). o uniu para sempre ás com-
mendas de Christo. -
A egreja do mosteiro é a matriz da fre-
guezia, e parte do mosteiro é a residencia
do parocho, o resto foi demolido.
RIB 177
RIBAS — aldeia, Douro, freguezia, con-
celho e proximo à villa de Ílhavo, comarca,
bispado, districto e 5 kilometros ao 8. O. de
Aveiro.
É um logar fertil e bonito, e tem uma ca-
pella dedicada a Nossa Senhora do Rosario,
à qual se faz annualmente uma grande fes-
ta, havendo arraial muito concorrido.
Ribas é tambem appellido nobre em Por-
tugal, cuja familia veiu de Hespanha, que o
tomou da villa de Ribas, junto à cidade de
Ledesma, no reino de Leão. É antigo, por-
que já na batalha das Navas de Tolosa
(1212) se achou com elle Salvador Gracia
de Ribas, a quem D. Affonso IX armou ca-
valleiro. Consta que passaram a Portugal
alguns individuos d'esta familia, que deram
o seu appellido a uma aldeia da comarca de
Guimarães.
Trazem por armas em campo de ouro,
cruz azul, floreada; orla azul, carregada de
sete flores de liz, de ouro. Elmo de aço,
aberto, e por timbre uma das flores de liz
das armas.
RIBA-TUA — freguezia, Traz-os-Montes.
Vide Mamede de Riba-Tua (S.)
RIBA-VISELLA — duas freguezias d'este
nome, na provincia do Minho.
Vide- Visella.
RIBEIRA—freguezia, Minho, concelho de
Terras de Bouro, comarca de Villa Verde.
Esta freguezia já está em Matheus da Ri-
beira (S.)
RIBEIRA. Vide Iria da Ribeira (Santa).
Esta freguezia é a da Ribeira de Santa-
rem. Vide esta palavra.
RIBEIRA (Nossa Senhora da). Sanctuario
junto ao logar de Torrozêllo, na freguezia
de Folhadosa, comarca e concelho de Cêa.
Está situado em um delicioso campo, pro-
ximo ao rio Alva, que lhe passa junto à
egreja.
“A imagem da padroeira appareceu a um
pastor, surdo-mudo de nascimento, que des-
de então adquiriu o uso dos dois sentidos
que lhe faltavam.
Este pastor era natural da Villa de Lou-
rosa, é para lá levou a santa imagem; mas
esta fugiu para o sitio onde tinha sido acha-
da, que era o ôco de um sobreiro. Construiu-
178 RIB
lhe então o povo uma pequena e tosca er-.
mida: porém, como fosse crescendo a dewo-
ção à Senhora, se lhe construiu uma vasta é
boa capella, tendo contiguas umas casas
para residencia de dois eremitães, e com uma
boa cêérca para logradouro dos mesmos.
Este sanctuario fica perto das villas de
Cêa e Bobadella.
' RIBEIRA — appellido nobre d'este reino,
cuja familia veiu de Hespanha, e tinha o seu
solar na Galliza. Passou a Portugal, no rei-
nado de D. Manuel, que o trouxe Ruy Dias
da Ribeira. Este fidalgo foi alcaide-mór da
villa da Amieira, na comarca da Certan, con-
celho de Oleiros, no Alemtejo.
Foi seu filho, Damião Dias da Ribeira,
escrivão da fazenda de D. João III, que lhe
deu brazão d'armas, na cidade de Evora, no
4.º de abril de 1526, composto do modo se-
guinte: — Em campo azul, um leopardo de
prata, passante, armado de ouro : chefe de
ouro, carregado de trez estrellas, de purpu-
ra, de cinco pontas. Timbre, o leopardo do
escudo, com uma das estrellas na espadua.
Os marquezes de Montemór-o-Velho, des-
cendiam destes Ribeiras.
RIBEIRA — freguezia, Minho, comarca e
concelho de Ponte do Lima, 30 kilometros
ao O. de Braga, 400 ao N. de Lisboa, 320
fogos.
Em 1757 tinha 250.
Orago S. João Baptista.
Arcebispado de Braga, districto de Vian-
na. ;
O morgado dos Pereiras, de Mazarefes,
apresentava o abbade, que tinha 9008000
réis de rendimento annual.
É terra muito fertil em todos os fructos
do paiz, e cria muito gado que exporta.
Houve aqui um mosteiro de monges ben-
tos, muito antigo, que passou a abbadia se-
cular, do couto de Paradella, pertencente à
casa dos Azevedos.
No logar de Fonte-Coberta, d'esta fregue-
zia, é que existiu o mosteiro. Ainda alli
existe a bonita e grande capella de Nossa
Senhora da Abbadia (assim chamada em
memoria do mosteiro), à qual se faz uma
-grande festa, no dia 15 de agosto de cada
anno, e sempre concorridissima.
'
RIB
Em 985, reinando em Leão, D. Bermu-
do II, doou a D. Tello e sua mulher, D. Mu-
nia, os coutos de Mazarefes, Paradella, Cras-
to, Casaes de Freiriz, e Gimieira. Como não
tiveram filhos, doaram os ditos coutos e 0
padroado d'esta egreja, e da de Mazarefes,
ao mosteiro de S. Paio-Ante Altares, em
Compostella, na Galliza.
Em 14574, o nosso rei D. Fernando, tirou
esta doação ao D. abbade, por ter tomado o
partido de D. Henrique II, de Castella, e em-
prazou tudo a Martim Mendes de Berrêdo,
casado com D. Maria Pereira, filha de Ruy
Pereira, senhor da Feira. D'este matrimonio
não houve filhos, e ficando viuva D. Maria
Pereira, e senhora dos coutos, os vendeu
com tudo quanto lhes pertencia, ao seu pa-
rente, Diogo Pereira, para fundar o mostei-
ro de Jesus, em Aveiro.
Nos coutos, tinham a quarta parte de tu-
do, incluindo lenha e tojo : ninguem podia
levantar casa de sobrado, sem licença dos
senhores do couto.
No monte de Santa Catharina, d'esta fre-
guezia, ha vestígios de povoação ou fortale-
za muito antigas.
RIBEIRA. —Vide as trez freguezias de 5.
João da Ribeira, que estão na 1.º col. da
pag. 417, do 3.º vol.
RIBEIRA-BRANCA—freguezia, Extrema-
dura, comarca e concelho de Torres Novas,
120 kilometros ao N. E. de Lisboa, 250 fo-
gos.
Em 14757, tinha 150 fogos.
Orago Nossa Senhora da Conceição.
Patriarchado de Lisboa.
Districto administrativo de Santarem.
O prior da freguezia de S. Pedro, de Tor-
res Novas, apresentava o cura, que tinha 60
alqueires de trigo e 25 almudes de vinho.
É terra fertil.
RIBEIRA D'AGODIM — freguezia. Extre-
madura, comarca, concelho e 6 kilometros
de Leiria, 155 ao N. E. de Lisboa.
Tinha em 1757, 313 fogos.
Orago Nossa Senhora dos Milagres.
É actual freguezia dos Milagres, que fica
descripta-a pag. 220, col. 2.2, do 5.º vol.
RIBEIRA DE ALHARIZ— Vide Alhariz.
RIBEIRA DE ALIJÓ — aldeia, Traz-os-
RIB
Montes, comarca, concelho e districto de
Villa Real, no arcebispado de Braga.
Pertence à freguezia de Alijó.
Em 21 de novembro de 1867 foi feito vis-
conde da Ribeira d'Alijó. o sr. Joaquim Pin-.
to de Magalhães. Em 30 de. abril de 1874
foi feito visconde do mesmo titulo, o sr. An-
tonio Julio de Castro Pinto de Magalhães,
que falleceu em 5 de dezembro de 1875.
Em 46 de novembro de 1876, foi feito vis-
conde do mesmo titulo, o sr. Roberto Au-
gusto Pinto de Magalhães.
RIBEIRA-DE-BOI—Vide Rapoila do Góa.
RIBEIRA-DE-COZELHAS — Sitio forme-
sissimo, proximo ao Mondego. Vide Coim-
bra e Mondego.
Ha aqui uma optima fabrica de sabão, da
qual são proprietarios os srs. José Duarte
Ariosa Junior, e Joaquim Maria de Almei-
da. Incendiou-se em maio de 1876, mas foi
logo reconstruida a parte que ardeu.
RIBEIRA-DE-FORNOS— aldeia, Beira-Bai-
xa, freguezia de Penajoia, comarca, conce-
lho e bispado de Lamego, districto adminis-
trativo de Vizeu.
É uma veiga muito fertil, e que produz
os fructos muito temporãos.
Ha aqui varias quintas, sendo a principal
do sr. D. Joaquim de Azevedo Mello e Faro,
da nobilissima casa do Soenga.
RIBEIRA-DE-FRADES — Vide Nazareth.
RIBEIRA-DE-FRÁGUAS —freguezia, Dou-
ro, concelho de Albergaria-Velha, comarca
de Agueda (foi do concelho do Pinheiro da
Bem-Posta, comarca de Estarreja), 60 kilo-
metros ao N. de Coimbra, 270 ao N. de Lis-
boa, 210 fogos. Tinha, em 1757, 180 fogos.
Orago S. Thiago, apostolo.
Bispado e districto an ininjetragivo de
Aveiro.
Esta freguezia está situada 1:500 metros
a E. da margem esquerda do Caima, e 9 a
N. E. de Albergaria-Velha.
São n'esta freguezia as famosas minas do
Palhal e de Telhadella.
As do Palhal foram descobertas por uns
inglezes, em 174%
Ha n'ellas vestigios de industria metallur-
gica, do tempo dos mouros, segundo a tra-
dição.
RIB 179
Em 1769, uma grande cheia do rio Cai-
ma, as inundou, pelo que foram abandona»
das.
Em 1776, foi construida a ponte de pedra
da aldeia chamada Ponte do Palhal, que fi-
ca junto às minas, e liga as duas margens
do Caima.
José Ferreira Pinto Basto, da Vista Ale;
gre, obteve os direitos de concessionario
d'estas minas, em 3 de maio de 1859, e as
passou à Lusitanian Mining Company (Com-
panhia Lusitana de Mineração).
Produzem cobre, galena de ch hlmbo, blen-
da, nickel e cobalto. Tambem produzem al-
guma prata, mas em diminuta quantidade.
O poço mestre, Taylor's shaft, é o mais
fundo de Portugal, e provavelmente de toda
a peninsula, pois tem 400 metros de pro-
fundidade. As galerias teem já uma exten-
são de quasi 43 kilometros.
Ha junto às minas, casas de habitação,
officinas para preparação e serragem de
madeiras, casas para deposito de machinas,
e outros edificios que transformaram um,
deserto em formosa povoação.
Consta que os exploradores do seculo
passado, sómente cuidavam em extrahir mi-
nerio de prata.
As minas de Telhadella, ou Talhadella,
| tambem chamadas das Voltas e Longas, fo-
ram concedidas em 2 de abril de 1861, a
Hermann Lourenço Fewerheerd.
Principiou a sua exploração em 1866,
pela Companhia de mineração de Talhadella,
à qual a vendeu o concessionario.
O capital social d'esta companhia é de 100
contos de réis.
Produzem cobre e alguma prata. Diz-se
que tambem produzem algum ouro.
Nos sitios da Matta de Santo Antonio e
do Carvalho Cerquinho, d'esta freguezia, ha
tambem minas de ferro, e talvez que em
tempos remotos, nas margens do Caima, ou
nas $uas proximidades, houvesse algum es-
tabelecimento de fundição de ferro, e que
d'ahi próvenha à freguezia o nome de Frá-
guas.
Em junho de 1877, foi concedida a mina
de ferro, do Valle de Sobreira de Cima e do
| Valle da Figueira, por tempo ilimitado, aos
180 RIB
grs. Francisco Ricardo Pereira Negrão e
João Fortunato José de Almeida.
No logar de Talhadella, ha uma bonita
ermida, dedicada a Santa Anna, à qual se
faz uma grande festa no 4.º domingo depois
do dia 25 de julho.
A seita protestante, tem feito alguns pro-
selytos n'esta freguezia, protegida por os
inglezes empregados nas minas, e apezar do
disposto nos estatutos das mesmas.
Por differentes vezes, e com o maior des-
aforo, aqui teem prégado as heresias pres-
byteriana ; um padre inglez, e o tristemente
celebre apostata, padre Guilherme Dias, de
Mezão-Frio.
Os estatutos, pelos quaes se rege o esta-
belecimento mineiro do Palhal, prohibem
expressamente, que os seus empregados in-
sultem a religião do estado, ou préguem
doutrinas contrarias à mesma religião; e
isto está em harmonia com o disposto nos
artigos 130.º e seguintes do Codigo Grim -
nal Portuguez.
O mesmo Codigo, no artigo 137.º, diz que,
se o prégador fôr estrangeiro, será expulso
do reino, e que—«Se algum portuguez, pro-
fessando a religião do reino, apostatar ou
renunciar publicamente, será condemnado à
perda dos direitos politicos: E SE FÔR CLE-
RIGO DE ORDENS SÁCRAS, SERA EXPULSO PARA
SEMPRE DO REINO.»
Custa a crer, como as auctoridades d'es-
tes sítios tenham consentido em semelhante
desprezo das leis vigentes.
RIBEIRA-DE-LITEM— Vide Litem.
RIBEIRA -DE-NIZA—freguezia, Alemtejo,
concelho, comarca, districto, bispado e 12
kilometros de Portalegre, 180 ao S. E. de
Lisboa, 250 fogos. Em 1757 tinha 167 fogos.
Orago Nossa Senhora da Esperança.
A mitra apresentava o cura, que tinha
480 alqueires de trigo de rendimento.
É terra fertil.
Existiu aqui o antiquissimo mosteiro da
Provença (Providencia) de Valle de Flores,
que foi de monges benedictinos, do qual
apenas resta a tradição no povo, e a memo-
ria nas chronicas da ordem. (Thebaida Por-
tugueza, por frei Manuel de S. Caetano Da-
mazio. tom. 2.º, pag. 309.)
RIB
Iria Gonçalves do Carvalhal, mãe do
grande condestavel, D. Nuno Alves Pereira,
deu a quinta chamada de frei Alvaro, e ou-
tras propriedades, a este mosteiro.
RIBEIRA-DO-OLIVAL —Vide o 2.º Olival,
de pag. 251, do 6.º vol.
RIBEIRA-DO-OLIVAL — aldeia, Extrema-
dura, na freguezia e 6 kilometros de Ou-
rem, concelho de Villa Nova de Ourem.
É uma bonita aldeia, e muito bem si-
tuada.
Tem uma sumptuosa capella, dedicada a
Nossa Senhora da Conceição, fundada por
Diogo da Praça.
É um templo espaçoso e de boa archite-
ctura, tendo as paredes interiores revesti-
das de bellos azulejos.
A capella-mór é apainelada, em quadros,
tendo em cada um, os passos da vida de
Nossa Senhora, pintados a oleo.
A imagem da padroeira, é de pedra, de
1 metro de alto, e tanto a Senhora, como o
Menino Jesus, são de uma esculptura per-
feitissima.
Disse-se a primeira missa em 4560.
Varios devotos deram à Senhora bastan.-
tes fóros e algumas fazendas, para com o
seu rendimento occorrerem. às despezas da
fábrica.
O mesmo Diogo da Praça, fundou junto à
capella, um hospital ou albergaria, para pe-
regrinos, doando-lhe para a sua sustenta-
ção, tudo quanto possuia; porém, com o de-
curso do tempo, se foram perdendo (ou rou-
bando) as propriedades, até se perderem
totalmente. '
A egreja e suas dependencias passaram
depois para o padroado da casa de Bragan-
ça, e até 1834 era o rei que apresentava O
eremitão.
RIBEIRA-DE-PALHEIROS — aldeia, Ex- |
tremadura, freguezia de S. Lourenço dos |
Francos, ou Myragaia, concelho da Louri-
nhan, comarca de Torres Vedras.
Ha n'este logar uma capella dedicada à |
Nossa Senhora da Piedade, de fundação |
muito antiga. '
Os moradores da Lourinhan, quando ha
falta de chuvas, levam a imagem da Senho-
ra, em procissão, para a egreja matriz da |
RIB
villa, e lhe fazem uma novena, para que a
Senhora os favoreça nas suas calamidades.
Tambem no domingo da Paschoella, hia
antigamente a irmandade da Misericordia,
da Lourinhan, buscar a Senhora à sua er-
mida e a levavam em procissão para a egre-
ja parochial, fazendo-lhe uma grande festa,
a que assistiam todas as auctoridades da
villa.
A festa principal se fez primeiramente a 5
de agosto (dia de Nossa Senhora das Neves),
mas depois se mudou para o dia 25 de ju-
lho. Era sempre concorridissima.
RIBEIRA-DE-PENA — villa, Traz-os-Mon-
tes, cabeça do concelho do seu nome, na co-
marca: de Villa-Pouca de Aguiar, 64 kilo-
meiros ao N. E. de Braga, 415 ao N. de Lis-
boa, 860 fogos, em duas freguezias (Santa
Marinha com 220 e o Salvador com 640).
Arcebispado de Braga.
Districto administrativo de Villa Real.
Em 4757, a freguezia de Santa Marinha
tinha 120 fogos, e o reitor da freguezia de
S. Thiago de Soutéllo de Aguiar, apresen-
tava o vigario, que tinha 108000 réis de
congrua e o pé d'altar.
A freguezia do Salvador, em 1757, tinha
336 fogos, e a mitra apresentava 0 reitor,
que tinha 288000 réis de rendimento.
O concelho é composto de 6 freguezias,
que são—Além-Tâmega, Alvadia, Cerva, Li-
mões, e as duas de Ribeira de Pena.
Nunca teve foral velho ou novo.
Foi aqui o solar da antiquissima e nobre
familia dos Ribeiras, de Riba-Tâmega, d'on-
de procedia a célebre e formosissima D. Ma-
ria Paes Ribeira (a Ribeirinha) amante de
D. Sancho I
Para este appellido, vide Amieira, villa do
Alemtejo, Cantanhede e Ribeira, appellido
nobre em Portugal.
Na freguezia do Salvador está a quinta
da Olaria, que foi vinculada, e era de Bal-
thazar Pereira da Silva; o morgado do Bu-
xeiro, que foi de Francisco Leitão de Al-
meida ; a quinta do Temporão, que foi de
Ambrozio Gonçalves Penha; a-quinta do Pi-
canhol, de Francisco Pacheco de Andrade ;
e a quinta de Freúmes, de João de Vallada-
res Vieira.
VOLUME VII
RIB 181
Nesta freguezia do Salvador se faz todos
os annos, a 15 de agosto, uma grande festa
a Nossa Senhora das Angustias, em despi-
que à de Nossa Senhora da Guia, que se faz
na freguezia de Santa Marinha, e que tam-
bem é sumptuosa.
Este despique tem por vezes sido causa
de grandes desordens.
- Em 19 de fevereiro de 1851, foi feito 4.º
barão de Ribeira-de-Pena, Francisco Xavier
de Andrade e Almeida, já fallecido ; e, em
27 de dezembro de 1867, foi feito barão do
mesmo titulo, seu filho, o sr. Francisco Xa-
vier de Andrade Valladares Aguiar.
Em 8 de julho de 1874, falleceu na sua
casa de Santa Marinha, D. Maria Angelica
Valladares, 4.º baroneza de Ribeira-de-Pena,
viuva do 4.º barão, e mãe do actual. Tinha
nascido em 1807, e era filha de Manuel Thi-
motheo de Valladares Sousa Martins, e de
D. Catharina Pacheco Valladares, da antiga
e nobilissima casa da Senra de Baixo, d'este
concelho.
RIBEIRA-DE-PERNES —freguezia, Extre-
madura, concelho, comarca e districto ad-
ministrativo de Santarem, no patriarchado
de Lisboa, d'onde dista 100 kilometros, ao
N. E.
Em 41757, tinha 68 fogos. O seu orago é
a Santa Cruz.
O vigario de Cazével apresentava o cura,
que tinha 60 alqueires de trigo e 158000
réis em dinheiro.
Esta freguezia está ha muitos annos an-
nexa à de Cazével. Vide esta palavra.
RIBEIRA - DOS - CARINHOS — freguezia,
Beira-Baixa, comarca, concelho, districto
administrativo e bispado da Guarda, 100
fogos.
Orago S. Sebastião, martyr.
Não pude obter mais informações com
respeito a esta freguezia.
RIBEIRA-DO-OURO—hoje OURO—povoa-
ção situada sobre a direita do rio Douro, na
freguezia de Lordêllo do Ouro, concelho,
comarca, districto administrativo, bispado e
3 Kilometros ao O. do Porto, na provincia
do Douro.
Foi antigamente do concelho denominado
Terra da Maia.
12
RIB
A Terra da Maia, compre-
hendia antigamente todo o ter-
ritorio que estanceava entre
os rios Douro e Lima, e de-
pois se circumscreveu ao que
ficava entre o Douro e o Ave.
É a esta região que os roma-
nos denominavam cidade de
Palancia, e depois os chris:
tãos, Terra de Santa Maria 1.
N'esta povoação está a capella de Nossa
Senhora da Ajuda, construida, segundo al-
guas escriptores, no principio da nossa mo-
narchia; mas o templo actual não revela tão
grande antiguidade, attenta a perfeição da
sua architectura, e provavelmente é recons-
trucção da primittiva. (Vidê adiante). Tem
capella-mór, com seu altar, e dois lateraes
no corpo da egreja. Tem um bom côro, e
um magestoso alpendre, ou átrio, sustenta-
do por columaas de pedra.
No altar do lado do Evangelho, se vé uma
perfeitissima imagem de Jesus Christo Cru-
cificado, objecto de grande devoção para os
povos destes sitios. Consta que esta ima-
gem foi trazida para Portugal pelos catho-
licos, fugidos à perseguição do hereje Hen-
rique VIII.
Segundo a lenda, a imagem da padroeira
appareceu em sonhos, a uma mulher casa-
da, por nome Catharina Fernandes, orde-
nando-lhe que fosse a uma fonte, que tica
junto da ermida, e que alli acharia a ima-
gem da Senhora.
Esta mulher sahiu de Myragaia, onde mo-
Tava, e dirigindo-se à indicada fonte, em
companhia de Pedro, seu marido, viram
uma pomba esvoaçando sobre um silvado, e
“À Todo o territorio das immediações da
cidade do Porto, tanto ao N. como ao S,,
qne os christãos resgataram do poder dos
mouros, nos seculos x e xr, foi chamado
Terra de Santa Maria. Depois, só se ficou
dando esta denominação às terras que fica-
vam ao S. do rio, e às quaes se chamou de-
ois Terra da Feira (107 freguezias). Ás do
- Se deu então o nome de Terra da Maia.
Esta circumscripção ainda em 1834 com-
rehendia 44 freguezias, que foram distri-
uidas pelas varas do Porto, e comarcas de
Villa do Conde e Santo Thyrso.
RIB
entre elle a imagem da Santissima Virgem,
que trouxeram para sua casa.
Trataram logo de construir um têmplo à
Senhora, proximo ao logar do seu appare-
cimento; e como não tivessem dinheiro, ven-
deram uma morada de casas que tinham no
Porto, para as despezas da obra, dando à
imagem o titulo de Nossa Senhora do Ó
por ser achada no dia da sua Espectação.
Continúa a lenda dizendo, que a santa
imagem fugiu varias vezes para o silvado
onde tinha sido descoberta, o que muito af-
fligia os devotos consortes.
N'ºesta conjunctura viram entrar pela bar-
ra, nove embarcações inglezas.
As oito primeiras passaram o sitio da
Ribeira do Ouro, sem obstaculo, porém a
nona, alli parou, sem que podesse passar
adiante.
Este navio trazia a imagem referida, de
Christo crucificado, e os inglezes a foram
collocar na ermida da Senhora, e assim con-
seguiram que o navio seguisse a sua via-
gem e que a imagem da Senhora não tor-
nasse a fugir para o silvado.
A imagem que os inglezes trouxeram, ti-
nha invocação de Nosso Senhor da Ajuda
e por isso os devotos mudaram tambem a
invocação da padroeira, em Nossa Senhora
da Ajuda; mas a sua festa principal foi ain-
da por muito tempo, no dia de Nossa Se-
nhora do Ó, a 18 de dezembro.
Além d'esta festa, os mórdomos que ser-
vem a Senhora lhe fazem outra festá na do-
minga infra oitava da sua Natividade, em
setembro. Teve (e não sei se ainda tem) um
ermitão que cuidava no aceio e limpeza do
templo.
Tem uma irmandade, á qual o Papa Ju-
lio III, por bulla de 1540, concedeu muitas
1 Aqui a lenda commette um anachronis-
mo dos seus 500 annos, ou então a capella
não tem tão grande antiguidade, e os seus
fundadores viveram no seculo XVII (que
foi quando Henrique VIII, de Inglaterra, se
declarou hereje e fóra da obediencia do
Papa) e não nos primeiros seculos da mo-
narchia.
certo, porém, que a imagem de Jesus
Christo crucificado, é mais moderna, na ca-
pella, do que a da Senhora.
RIB
graças e indulgencias, não só para os ir-
mãos, mas tambem a todos os fieis que vi-
sitarem a casa da Senhora, no dia das suas
festividades ; e esta bulla foi confirmada e
ampliada pelo bispo do Porto, D. Thomaz
de Almeida.
RIBEIRA DE SABROSA — logar, Traz-os-
Montes, na freguezia de Sabrosa, concelho,
comarca, districto administrativo, e 5 kilo-
metros de Villa-Real, arcebispado e 105 ki-
lometros ao N.E. de Braga, 370 ao N. de
Lisboa, proximo das margens do rio Corgo,
e d'uma quinta dos Pizarros. (Tem uma ca-
pella redonda, muito antiga.
Em 30 de outubro de 1541, deu o rei
D. João III esta quinta, com o titulo de se-
nhorio, a um ascendente dos Pizarros. Este
senhorio foi instituido em morgado, no an-
no de 1598.
Em 22 de setembro de 1835, foi feito 1.º (e
unico—até hoje) barão da Ribeira de Sabro-
sa), O distinctissimo e honradissimo militar,
Rodrigo Pinto Pizarro Pimentel de Almeida
Carvalhaes, 8.º morgado do mesmo titulo,
9.º senhor de Monte de Calvos e Soutellinho
do Mezio ; commendador da ordem da Con-
ceição, brigadeiro do exercito (general de
brigada, como hoje se diz), commandante
interino da 5.2 divisão militar, administra-
dor (o mesmo que governador civil) do dis-
tricto de Bragança, e deputado às côrtes,
em 1836 e 1837.
Nasceu na freguezia de Villar de Maçada,
em 30 de março de 1788, e falleceu a 8 de
março de 18414, sem deixar descendentes.
Era filho de Francisco Pinto de Almeida
Carvalhaes, 8.º senhor de Monte de Calvos
e Soutellinho do Mezio (no concelho de Vil-
la Pouca d'Aguiar), 7.º morgado da Ribei-
ra de Sabrosa; casado com D. Antonia Mau-
ricia da Nóbrega Pizarro, filha de Luiz Al-
vares da Nóbrega Cão e Aboim, morgado |
da Ribeira de Cabril, e de D. Luiza Ignacia
' Xavier Táveira de Magalhães Pizarro.
Tiveram os paes do 4.º barão da Ribeira
' de Sabrosa, 44 filhos, que são :
1.º, Antonio, que foi tenente coronel do
regimento de cavallaria n.º 42 (dragões de
Chaves), e que morreu em vida de seus
paes.
RIB 183
2.º, D. Maria do Loréto, que casou com
seu tio materno, Sebastião Maria da Nóbre-
ga Pizarro, morgado da Ribeira de Cabril,
fidalgo da casa real e commendador da or-
dem de Christo.
3.º, D. Anna Carlota. |
h.º, Rodrigo, o 4.º barão da Ribeira de
Sabrosa.
5.º, Gaspar Pizarro, que foi desembarga-
dor.
6º, D. Rita Julia.
7.º, Francisco Pizarro, cavalleiro da or-
dem de Christo, tenente do regimento de in-
fanteria n.º 45, que morreu em 1828.
8.º, Fernando Pizarro.
9.º, D. Luiza Carolina.
10.º José Maria, bacharel em leis.
114.º, D. Marianna Augusta.
A residencia d'esta familia é em Villar de
Maçada.
Vidê Sabrosa, Villar de Maçada, e no 7.º
vol., pag. 334, col. 2.2, o ultimo periodo.
O barão da Ribeira de Sabrosa, era um
dos homens mais honrados do seu tempo,
não só do partido liberal, a que pertencia,
mas tambem no partido realista não havia
quem o excedesse em honradez, probidade,
intrepidez e patriotismo.
RIBEIRA - DE - SANTAREM — formosa e
grande povoação, Extremadura, sobre a
margem direita de Tejo, na freguezia, con-
celho, comarca, districto administrativo e
1:500 metros ao S. E. de Santarem.
É aqui a 42.º estação dos caminhos de
ferro de norte e leste.
Foi antigamente freguczia, da invocação
de Nossa Senhora da Encarnação do Alfan-
ge. É tambem em frente d'esta povoação, e
no rio Tejo, o famoso Padrão de Santa Iria,
e perto d'elle está uma ermida, dedicada à
mesma santa.
Unida a esta ermida, está a capella de -
Nossa Senhora das Neves.
A ermida de Santa Iria, é muito antiga,
mas não se sabe a data da sua fundação.
Segundo a lenda, a imagem da santa, appa-
receu sobre um grande penedo que alli ha-
via, e n'esse mesmo sitio se lhe edificou a
ermida.
A capella de Nossa Senhora das Neves, é
484 RIB
'muito mais moderna, e foi construida no
“meiado do xv seculo.
Antigamente, era famosa em toda a Ex-
tremadura, e em parte do Alemtejo, a festa
que annualmente se fazia a Nossa Senhora
das Neves, pela sua grandeza € sumptuosi-
dade; havendo, além da festa da egreja e
procissão, de grande magnificencia, come-
dias, danças, cavalhadas, corridas de touros
e variadissimos fogos de artifício.
Esta devoção, porém, veiu de tal modo a
“esfriar, que por fim, nem uma missa se can-
tava à Senhora, no seu dia.
Passados annos, alguns barqueiros, dese-
jando festejar a Senhora, mas tendo para
isso pouco dinheiro, resolveram vender, pa-
ra ajuda das despezas da festa, uns atabales
que pertenciam á Senhora.
Levaram-os a Lisboa, e os venderam a
um fundidor de sinos, chamado João Rodri-
gues Palavra, natural de Santarem, a quem
declararam qual era a applicação que que-
riam dar ao producto desta venda.
O fundidor pagou, sem dizer mais nada
-aos barqueiros, e com o maior segredo en-
commendou o sermão e grande quantidade
de fogo, para o dia da Senhora.
Mandou fazer um riquissimo vestido e
“manto para Nossa Senhora; um frontal para
-o seu altar, e paramentos para os padres ;
tudo da maior magnificencia.
Comprou uma alampada de prata, dois
castiçaes do mesmo metal, e mais quatro de
“bronze; esteiras para o pavimento da capel-
la, e tudo o mais que julgou indispensavel
'para que a festa da Senhora fosse n'esse
anno da maior sumptuosidade, -
Uma sua filha tambem deu à Senhora, e
lhe poz ao peito, uma joia de muito valor.
Na vespera da festa, se apresentou João
Rodrigues, com toda a sua familia no bair-
“To do Alfange (hoje Ribeira), sem que nin-
guem o esperasse, é levando tudo quanto
havia comprado para offerecer à Senhora.
Teve esta grande solemnidade logar no
“dia 5 de agosto de 1660.
- João Rodrigues ficou servindo a Senhora,
“emquanto viveu, e à hora da morte, recom-
mendou a seu filho, Lucas Rodrigues Pala-
vra, que continuasse a servir a Senhora, e
RIB
fizesse a mesma recommendação aos seus
descendentes, o que elle cumpriu.
Este mesmo Lucas Rodrigues, mandou
ampliar a capella e dourar o seu altar.
A Senhora teve no principio bastantes
rendas proprias, porém já a este tempo se
tinham perdido, por desleixo, ou eriminali-
dade, de um prior da freguezia.
No pavimento da capella, está uma sepul-
tura com a inscripção seguinte :
AQUI JAZ O MUYTO HONRADO
VASCO PASSANHA D'ALMEIDA,
CAVALLEIRO FIDALGO, DA CASA
DELREY DOM AFFONSO Vº,
CONTADOR MÓR QUE FOY, DA
CASA DE CEUTA, E DE LOGARES DA-
LEM. ESTA CAPELLA MANDOU FA-
ZER. FALECEU EM MAYO DE 1511
ANNOS.
E na mesma sepultura estão gravadas as
armas dos Almeidas, compostas da maneira
seguinte—escudo esquartellado; no primei- |
ro e quarto, seis bezantes de prata, em
campo de púrpura, entre uma doble cruz
de ouro, e bordadura do mesmo—e no se-
gundo e terceiro, em campo de prata, as |
armas dos Braganças.
É representante principal desta nobilis-
sima familia, o sr. marquez da Fronteira,
D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto,
feito marquez de Alorna, em 22 de outubro |
de 1839. -
Alorna, é uma cidade e pra-.
ça da India Oriental, que 0.
marquez de Castello-Novo to-
mou ao rajah de Bonsoló. O 1
rei, por isso, lhe mudou O ti-
tulo do marquezado para Bon-.
soló. .
O 4.º marquez d'Alorna, foil
D. Pedro de Almeida Portu-!
gal, feito por D. João V, em 91
de novembro de 1748.
O marquez de Castello-No-|
vo, era tambem conde d'Assu.-|
mar.
“O 1.º conde d'Assumar, foi
D. Francisco de Mello, feito,
por D. Filippe IV, em 30 de)
março de 1636.
RIB
Tambem aqui havia a capella de S. Bar-
tholomeu, que, segundo a tradição, foi dos
cavalleiros da ordem de S. Miguel d'Ala,
instituida por D. Affonso Henriques, em me-
* mória de tomar Santarem em dia de S. Mi-
guel,
RIBEIRA DE SERNADELLA — pequeno
rio, Beira Baixa. —Nasce na serra de Santa
Quiteria, e recebendo alguns regatos, des-
agúa no rio Alva, depois de um curso de
5 kilometros.
RIBEIRA DE SOAZ — titulo legal de um
antigo concelho do Minho, ao pé da serra
do Gerez, e supprimido ha muitos annos.
Era da comarca da Povoa de Lanhoso.
O rei D. Manuel, lhe deu foral, em Lis-
boa, a 16 de julho de 1515. (Livro dos fo
raes novos do Minho, fl. 26 0., col. 1.º)
Este foral serve para as terras seguin-
tes:
Aventosa, ese Caniçada, Cóva, For-
néllos, Fradélios, Freande, Parada de Bou-
ro, Portella, Pousadella, Soengas e Ventosa.
É terra fertil em cereaes, vinho, azeite,
castanha, fructas, mel, cêra, gado, e grande
quantidade de perdizes e coelhos.
Fica perto da raia da Galliza.
Vide Caniçada e Soengas.
RIBEIRA DE VIDE — aldeia, Alemtejo,
freguezia, concelho e 6 kilometros ao N. da
villa de Souzél, comarca da Fronteira, arce-
bispado de Evora, districto de Portalegre.
Fica 5 kilometros a E. da villa de Aviz, e 6
a E. da villa do Carmo, 50 de Evora, e 120
ao S. E. de Lisboa.
É n'esta aldeia, a nascente de aguas mi-
neraes, chamada Fonte da Lagem, no prin-
cipio de um valle que fica na falda do mon-
te da Lagem, e junto a uns rochedos de
schisto, e à estrada que vae para o Ervedal.
Tem um poço, coberto de uma abobada
de pedra tosca (do tal schisto).
A sua agua é clara, em tempo secco, é
lactea quando chove. Não tem cheiro, e o
seu sabor é levemente ácido, parecido com
o de uma tenuissima dissolução de vitriolo
em agua commum.
Não deixa sedimento nos sitios por onde
passa, nem nas garrafas. Não tem porção
alguma de ferro.
RIB 185
Diz-se que é remedio eficaz contra as
lombrigas, em razão do gaz carbonico que,
contém, combinado com o carbonato.
RIBEIRADOURA ou RIBEIRA-D'-OURA—
valle, Traz-os-Montes, que dá o nome à fre-
guezia d'Oura (6.º vol., pag. 911, col. 2.2) e,
que o recebe do rio Oura, que aqui passa e
desagúa na esquerda do rio Tâmega. O rio
fica na extremidade d'este vasto e fertil val-.
le, onde tambem estão as famosissimas aguas
thermaes de Vidago.
Vidé esta palavra. :
O vinho (verde) da Ribeiradoura, é um
dos melhores do reino, na sua especie, e não
inferior aos mais afamados vinhos verd:s
do Alto e Baixo Douro.
RIBEIRÃO — freguezia, Minho, comarca e
concelho de Villa Nova de Famalicão, 24
kilometros ao O. de Braga, 390 ao N, de
Lisboa, 230 fogos.
Em 1757, tinha 118 fogos.
Orego S. Mamede.
Arcebispado e distrieto de Braga.
O papa, a mitra e os benedictinos de San-=
to Thyrso, apresentavam alternativamente o
reitor, que tinha 14204000 réis de rendi-
mento.
É terra fertil.
É n'esta freguezia a formosa ponte pensil
da estrada do Porto para o norte, sobre o
rio Ave, chamada Ponte da Barca da Trófa.
Na Trófa é a 4.º estação do caminho a
ferro do Minho.
RIBEIRADIO —freguezia, Beira-Alta, con-
celho de Oliveira de Frades, comarca de
Vouzella, 35 kilometros ao N. de Vizeu, 265
au N. de Lisboa, 325 fogos.
Em 1757, tinha 215 fogos.
Orago, S. Miguel, archanjo.
Bispado e districto administrativo de Vi-
zeu.
A mitra apresentava o reitor, que tinha
408000 réis de congrua e o pé d'altar.
Esta freguezia chamava-se antigamente
Ribeira de Diu, e era do concelho extincto
de Lafões.
É povoação muito antiga, e, segundo a
1 Tinha mais 78 fogos, que eram meiei-
ros com Santa Leocadia de Fradéllos : total
196.
186 RIB
tradição, já existia no tempo dos romanos,
com o mesmo nome.
É terra muito fertil em todos os generos
agricolas do nosso paiz, cria muito gado, de
toda a qualidade, que exporta; é abundante
em madeiras e lenhas. Nos seus montes ha
bastante caça.
O reitor d'esta freguezia, apresentava os
curas das freguezias do Couto d'Esteves e
Cedrim, ou Sedrim.
Proximo ao logar de Souto-Maior, d'esta
freguezia, está o antiquissimo templo de
Nossa Senhora Dolorosa, à qual o povo cha-
ma Nossa Senhora de Lourosa. Foi em tem-
pos antigos, matriz d'esta freguezia, e das
de Cedrim, e da villa de Couto d'Esteves.
Ainda conserva a pia baptismal, para me-
moria.
Está a egreja edificada no plató de um
monte de bastante elevação, ao qual (plató)
dão o nome de Adro da Senhora, e está cer-
cado de altos rochedos, que a distancia pa-
recem uma fortaleza. Ao E. e S., ha umas
altas serras, e ao O. corre o rio Vouga, aqui
bastante largo e profundo, e com uma bar-
ca de passagem: ao N. fica a serra do Ares-
tal, vulgarmente chamada do Restal.
D'este plató se véem as freguezias de
Roccas, Junqueira, Arões, Manhouse, S. João
da Serra, e Arcozéllo; além das serras já
ditas e outras.
A egreja é toda construida de pedra de
cantaria lavrada, e denota grande antigui-
dade, mas não se sabe quando nem por
quem foi edificada.
Como estivesse em mau estado, foi reedi-
ficada, principiando as obras em 4685, e
concluindo-se todos os reparos, em 1688.
Tem capella-mór, com seu altar, e dois
lateraes.
No altar-mór se vêem dois quadros a
oleo, attribuidos ao Grão Vasco. Um, repre-
senta Nossa Senhora ao pé da Cruz,e o ou-
tro, S. João, evangelista.
A imagem da padroeira, é de pedra de
Ançan, de 17,10 de alto, cavada pelas cos-
tas. Apezar de muito antiga, é de boa escul-
ptura, e, segundo a tradição, foi feita por
um dos estatuarios do templo de Santa Cruz,
de Coimbra.
RIB
A sua festa principal, é a 8 de setembro
(Natividade de Nossa Senhora) e sempre
concorridissima, não só por gente da fre-
guezia, mas pela das circumvisinhas. Ha
n'esse dia muitas missas, além da principal,
procissão, sermão, fogo preso e do ar, etc.
Antigamente vinha aqui, no dia da festa
da Senhora, uma procissão, da freguezia de
Cedrin, trazendo-lhe valiosas offertas.
Ainda nos meiados do seculo passado
aqui vinham n'este dia, povos de Aveiro,
Esgueira e outras terras da Beira-mar, €
até da cidade do Porto.
Um devoto, da villa de Tentugal (a 100
kilometros do templo) lhe offereceu uma
rica alampada de prata.
Em tempos antigos, e além da festa prin-
cipal, havia aqui muitas pelo decurso do
anne, e nos trez sabbados, antecedentes ao
dia 8 de setembro, se faziam alvoradas (ves-
peras) à noite, com muitas danças, musicas,
luminarias e outros festejos; mas, como
n'estas occasiões sempre se praticavam al-
gumas irreverencias, as prohibiu, em 1686,
o abbade, Luiz de Sampaio.
Por occasião da fome geral que houve
n'este reino, em 1681, em razão da praga
de lagartos e gafanhotos que destruiram as
plantas e arvoredos, o povo d'esta freguezia
levou da egreia matriz, em solemne procis-
são, a imagem de Jesus Christo crucificado,
à capella da Senhora Dolorosa, invocando q
seu patrocinio para que o flagello acabasse.
Foram ouvidos os seus rogos, e a praga
desappareceu.
Em memoria d'este beneficio, o povo pro-
metteu hir todos os annos, no primeiro do-
mingo de março, à capella da Senhora, le-
vando a imagem do Crucificado em procis-
são, ou elamor, como então se dizia.
O inverno de 1706, antecipando-se, com
chuvas e tempestades, apanhou os fructos
por colher, deitando-os por terra, e, em pou-
co tempo, apodreciam n'ella.
O povo recorreu de novo à Santissima
Virgem Dolorosa, hindo-a visitar com a mes-
ma imagem do Jesus Christo.
No dia seguinte, cessou o vento e a chu-
va, é os lavradores poderam fazer as suas -
vindimas e colheitas.
|
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|
RIB
Em memoria d'este milagre, o povo fez
voto de levar o mesmo Senhor Crucificado
em procissão à capella da Senhora, em to-
dos os domingos de outubro.
Hoje todas estas devoções teem decahido
muito do seu antigo esplendor; porém a de-
voção à Senhora de Lourosa não se extin-
guiu ainda totalmente no coração dos povos
d'estas terras.
RIBEIRA-VELHA — logar, Beira-Alta, no
extincto couto de S. Pedro das Aguias, que
era dos religiosos da ordem de S. Bernardo,
no bispado, e a 45 kilometros de Lamego,
e hoje pertence à freguezia de Casaes, co-
marca e concelho de S. João da Pesqueira,
no districto de Viseu.
Existe aqui a egreja de Nossa Semhora da
Annunciação, vulgarmente denominada Se-
nhora da Ribeira-Velha.
Foi em tempos antigos matriz das aldeias
de Vallença do Douro, Serzedinho, Casaes e
outras, e ainda conserva a pia baptismal.
É um templo de boas dimensões, com ca-
pella-mór e seu altar, além de dois lateraes,
no corpo da egreja.
A festa principal d'esta Senhora, é a 25
de março, e antigamente se fazia aqui n'es-
se dia uma grande feira, à qual concorriam
povos não só das visinhanças, mas até de
terras muito distantes.
Havia então, além de outros divertimen-
tos do tempo, lucta de gladiadores, nús da
cintura para cima, e untados de azeite, co-
mo os athletas romanos, e, como estes, ob-
tinham premio os vencedores.
Esta egreja, segundo a tradição, já exis-
tia no tempo dos godos, e os mouros deixa-
ram nella fazer todos os officios divinos,
mediante certo tributo.
Fica junto aos alcantilados montes de
Luena, e de S. Pedro das Aguias, e a pou-
ca distancia do rio Torto.
Vide Casaes, na col. 4.2, pag. 141, do 2.º
vol.
RIBEIRA-VELHA — Vide Lisboa.
RIBEIRINHA —freguezia, Traz-os- Montes,
comarea é concelho de Vinhaes. Foi suppri-
mida ha muitos annos, e está annexa à fre-
guezia de Valle de Janeiro, no mesmo con-
celho.
RIB 187
RIBEIRINHA —freguezia, Traz-os-Montes
concelho de Villa-Flor (foi do extincto con-
celho da Torre de Dona Chama), comarca
de Mirandella, arcebispado de Braga, distri-
eto de Bragança.
Foi supprimida ha muitos annos, e estã
annexa à freguezia de Villas-Boas, no mes-
mo concelho.
RIBEIRO — aldeia, Beira-Alta, na fregue-
zia de Penajoia, comarca, concelho e bispa-
do de Lamego, districto administrativo de
Viseu.
Viveu nesta aldeia, no primeiro quartel
deste seculo, Antonio Correia de Maga-
lhães, professor de latim, que, à força de
palmatoadas e puchadellas de orelhas, en-
sinou muitos discipulos, pelo que houve
n'esta freguezia, por esse tempo, um nume-
ro extraordinario de padres e frades.
RIBEIRO (quinta do)—Douro, na fregue-
zia de S. Lourenço do Douro, comarca 6
concelho de Marco de Canavezes, bispado e
districto do Porto, d'onde dista 40 kilome-
tros a E. N. E.
Está esta quinta situada sobre a margem
direita do rio Douro, e é o solar da antiga
e nobre familia dos Vieiras Cabraes, pele
casamento de D. Brites Vieira, com Pedré
Gonçalves Cabral, filho de D. Nicolau Mar-
tins Cabral, commendatario de Villa-Boa-
do-Bispo, e irmão de Julio Geraldes, vas-
sallo do rei D. Fernando I, ambos (os ir-
mãos) sepultados em nobres mausoleus, na
egreja de Villa-Boa-do-Bispo.
É hoje representante d'esta esclarecida
familia, o sr. Carlos Leme Guedes, da quin-
ta do Bairral, na extincta villa de Entre
Ambos os Rios, freguezia de Santa Clara do
Torrão, comarca e concelho de Penafiel, bis-
pado, districto e 36 kilometros ao E. N. E.
dó Porto, sobre a direita dos rios Tamega 6
Douro.
Leme, é um appellido nobre em Porta-
gal, e veiu de Flandres. Passou primeiro à
Hespanha um membro d'esta familia, que
fez seu assento na cidade de Burgos, na
Castella-Velha, e d'ahi passou a Portugal,
na pessoa de D. Martim Leme, no reinado
| de D. Affonso V, ao qual fez grandes servi-
ços nas guerras da Africa. Em premio d'el-
188 RIB
les, O rei mandou reformar as suas antigas
armas dos Lemes, que ficaram construidas
do modo seguinte—em campo d'ouro, cinco
merlétas negras, em aspa: êlmo d'aço aber-
to, e por timbre, uma aspa d'ouro, é no cen-
tro, uma das merlêtas do escudo.
Os descendentes de Manuel Leme, varia-
ram o seu escudo, do modo seguinte — em
campo de prata, tres merlêtas 1 negras, em
roquête : éêlmo d'aço aberto, e por timbre,
uma aspa de prata, com uma das merlêtas
das armas, no centro.
Ainda outros Lemes usam, em vez de
merlétas, cinco passaros pardos, sem pés
(mas com bicos) em aspa. Elmo é timbre,
como dos primeiros Lemes.
Ag armas dos Vieiras, são—cinco vieiras
(conchas) d'ouro, realçadas de negro em
campo de púrpura. (Vide Sabugosa, nos
seus marquezes).
Em S. Lourenço do Douro direi mais al-
guma coisa sobre a familia hoje represen-
tada pelo sr. Carlos Leme Guedes.
RIBEIRO DE FRADES— logar, Beira-Alta,
na freguezia de Lourosa, concelho, comar-
ca, districto administrativo, bispado, e 3 ki-
lJometros a E. de Viseu, e dentro do seu
ãro.
Além das capellas já mencionadas na ul-
tima Lourosa (vol. 4.º, pag. 466, col. 1.º, no
fim), ha mais a seguinte :
Nossa Senhora do Ribeiro de Frades, edi-
ficada em uma muito antiga e nobre pro-
priedade, chamada Quinta dos Frades, e
proximo do ribeiro-que deu o titulo à Se-
nhora.
A capella denota grande antiguidade, mas
não se sabe quando ou por quem foi con-
struida.
A imagem da padroeira é tambem muito
antiga, o que claramente demonstra a sua
tosca esculptura.
Segundo a tradição, houve n'esta quinta
um antiquissimo mosteiro de frades bene-
dictinos, dedicado a Santa Clara, e a ca-
pella actual pertenceu a esse mosteiro, por
1 Merlêta, é um movel da armaria, que
representa um pequeno melro, de perfil.
Em alguns brazões se vê sem pés nem bico.
RIB
isso ainéa muitos lhe chamam capella de
Santa Clara.
É certo que junto à ermida existem ves-
tigios de um grande edificio, distinguindo-
se ainda alicerces, pedaços de colummas é
varias pedras lavradas, além de outros ma-
teriaes que os donos da quinta teem enpre-
gado em obras della.
Junto à ermida existiu (e não sei se ain-
da existe) uma pedra de 2740 de compri-
do, cavada pela parte superior, em fórma
de sepultura.
Alguns sustentam que o mosteiro não foi
de frades benedictinos, mas de freiras fran-
ciscanas, das quaes foi matriarcha Santa
Clara, visto que foi esta santa a padroeira
do mosteiro; mas contra isto ha a ponderar,
que a tradição diz que o mosteiro foi des-
truido pelos mouros, no seculo vir, e ainda
então não existia a ordem franciscana; e, de
mais a mais, o nome de Quinta dos Frades,
que sempre teve a referida propriedade.
Já em 4716 se queixava frei Agostinho de
Santa Maria, do grande descuido que tinha
nos reparos da ermida, o seu padroeiro, que
era então, Antonio Coelho de Campos.
Antigamente hia todos os annos, na ulti-
ma oitava do Espirito Santo, uma procis-
são, da egreja matriz, visitar a ermida da
Senhora, levando todos os sacerdotes que
havia na parochia, e grande concurso de
povo.
Não tinha dia certo para a sua festa, era
marcado pelos devotos.
RIBEIRO DE POMBEIRO — pequeno rio,
Douro. Nasce na serra de Santa Quiteria,
junto ao logar do Salgueiral; passa junto à
Pombeiro, é desagúa no rio Alva, DO sitio
chamado Foz da Ribeira. Cria barbos, bó-
gas e algumas trutas.
Na mesma serra de Santa Quiteria, nasce
a ribeira de Sarnadella, a qual, depois de
receber no seu precurso alguns regatos,
morre tambem no Alva, com 5 kilometros
de curso. '
RIBEIROS—freguezia, Minho, comarca e
concelho de Fafe (foi do mesmo concelho,
mas da comarca de Guimarães), 30 Kilome-
tros ao N. E. de Braga, 375 ao N. de Lis-
boa, 140 fogos.
RIO
Em 1757, tinha 108 fogos.
Orogo, Santa Maria.
Arcebispado e districto de Braga.
As religiosas do mosteiro de Santa Clara
(franciscanas) de Guimarães, apresentavam
o vigario, collado, que tinha 308000 réis de
congrua e o pé d'altar.
É terra fertil.
RIBOLHOS-—freguezia, Beira-Alta, comar-
ca e concelho de Castro Daire, 24 kilome-
tros de Viseu, 300 ao N. de Lisboa, 45 fo-
gos.
Em 1757, tinha 27 fogos.
Orago, Santo André, apostolo.
Bispado e districto administrativo de Vi-
zeu.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
608000 réis e o pé d'altar.
Teve antigamente foro de villa e foi cou»
to, mas nunca teve foral, novo ou velho.
RICHOSO ou ROCHOSO —freguezia, Bei-
ra-Baixa, comarca, concelho, e 148 kilome-
tros da Guarda, 3140 ao E. de Lisboa, 160
fogos.
Em 1757, tinha 202 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
Bispado e districto administrativo da
Guarda.
O cabido da sé da Guarda apresentava o
vigario, que tinha 808000 réis e o pé d'al-
tar.
Segundo a tradição, o nome da aldeia de
Richoso proveiu de um senhor d'ella muito
demandista é turbulento, por isso cognomi-
nado o Rixoso. Conservou este nome (a po-
voação) até ao principio d'este seculo ; mas
desde então, o povo preferiu que a sua fre-
guezia se denominasse Rochoso, e é como
hoje se vê em documentos officiaes.
Junto à aldeia de Rochoso, mas já no dis-
tricto da freguezia de Cerdeira, existe uma
capella antiquissima, dedicada a Nossa Se-
nhora do Monte.
A imagem da padroeira é notavel, por ser
apenas um seixo rolado, de fórma oblonga,
sem obra a,guma d'arte, e cavado por um
lado (onde lhe fingiram as costas) mas tam-
bem obra da natureza.
A pedra é durissima, e n'ella adaptaram
uma cabeça, braços e mãos, que tudo vesti-
RIC 189
ram, e assim construiram uma imagem da
Santissima Virgem ! Tem 1",10 de alto. |
Apezar da imperfeição da sua esculptura,
é objecto de muita devoção para os povos
d'estes sitios, e lhe faziam antigamente, trez
grandes festividades, havendo tambem em
cada uma d'ellas uma boa feira, e todas
muito concorridas. A 1.2, era no dia de S.
Bento (21 de março)—a 2.º, a 15 de agosto,
dia da Assumpção da Senhora—e a 3.º, dia
da sua Natividade, a 8 de setembro.
Tudo isto acabou.
Tinha um eremitão, apresentado pelo pa-
rocho de Cerdeira, para cuidar da conser-
vação e asseio da ermida.
RICIÃO. —Vide Recião.
RICO-HOMEM—foi o titulo mais honori-
fico na nossa Peninsula, desde o tempo dos
reis das Asturias.
Nas leis Affonsinas (parte 4.2, tit. 29. leg.
x), se diz — Ricos omes, segundo costumbre
de Espanha, son lamados los que en las
otras tierras dizen Condes, o Barones.
Eram os ricos-homens, mestres de cam-
po, e generaes na guerra; e só elles podiam
levantar gente d'armas e sustental-a, sem
reconhecerem outra auctoridade senão a do
rei, do qual haviam recebido o titulo, e os
senhorios com que podessem sustental-o.
Eram do conselho do rei, e tinha grande
peso o seu voto, tanto em cousas de paz,
como nas da guerra.
Podiam ajudar, com seus vassallos, os
reis de outra nação, quando a sua podia
dispensar os seus serviços.
Só podiam hir à guerra, quando o mo-
narcha fosse em pessoa.
Os seus vassallos gosavam os mais exor-
bitantes privilegios.
As mulheres dos ricos-homens, se cha-
mavam ricas -donas, e logravam as pree-
minencias de condessas, e seus filhos eram
infanções.
O pendão e a caldeira, eram o distinctivo
dos ricos-homens, e por isso se denomina-
vam ricos-homens de pendão e caldeira. Si-
gnificava o pendão, que podiam levantar
gente de guerra, e a caldeira, que a podiam
sustentar e pagar-lhe.
Algumas vezes, quando o rei creava um
190 RIO
rico-homem, lhe dava logo o pendão e a
caldeira, como insignias da sua auctoridade
e preeminencia.
No seculo xv, se mudou o titulo de rico-
mem, no de conde, visconde, ou barão.
RIGO—port. ant.—rijo, forte, duro, etc.
RIMAR-— port. ant. —decente, honesto, etc.
-— Cá (porque) mais rimaria ao Fidalgo
comprar 10 gibanetes pera quando cumpris-
se, que despender quanto hãa em louçaynhas.
(Côrtes de Lisboa, de 1459.)
RIO-CABRÃO.— Vide Cendufe.
RIO-CALDO— freguezia, Minho, concelho
de Terras de Bouro, comarca de Villa Ver-
de (foi do concelho de Santa Martha de Bou-
ro, comarca da Povoa de Lanhoso), 24 ki-
lometros ao N. de Braga, 384 ao N. de Lis-
boa, 200 fogos. Em 1757, tinha 136 fogos.
Orago S. João Baptista.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
5608000 réis de rendimento annual.
Caldo, é portuguez antigo—significa ama-
rello.
- Junto à povoação de Rio-Caldo, existiu,
segundo alguns, a antiga cidade de Obobri-
ga. (Vide esta palavra).
Tambem alguns dão a esta cidade morta,
o nome de Abobriga ou Abobrica.
- É certo que esta cidade era na Galliza, e
pertenceu à Mancellaria de Braga. (Plinio,
livro 4.º, cap. 20) mas alguns pretendem
que fosse no logar da actual Villa do Con-
de (Baudrand, Lexicon geographico.)
O Agiologio Lusitano, diz que existiu en-
tre Lindoso e Manim, no sitio chamado Ca-
lhas de Santa Eufemia, junto à aldeia de
Rio-Caldo.
Isaac Vassio. nas Notas ao livro 3.º, cap.
1.º, de Pomponio Mella, diz que Abobrica
era na actual Corunha.
Segundo o latmorio de Mella, a que Vos-
sio se atem, era com effeito no paiz dos ar-
tabros, hoje Corunha.
- Eis a traducção :
«Nos Artabros está uma enseada, aperta-
da na bôca, que recebe o mar, em dilatado
ambito, e rodeia a cidade de Abobrica e as
fozes de quatro rios.»
RIO
Na inscripção da ponte de Chaves, que
copiei no logar competente, e que designa
os povos que ajudaram à construcção d'esta
obra, e que todos estanceavam a pouca dis-
tancia de Chaves, se designam os aobrigen-
ses, que eram os habitantes de Abobriga.
D. Jeronymo Contador de Argote (Mem.
do arceb. de Braga, tom. 1.º, pag. 376) pre-
tende que esta cidade existiu onde hoje se
vê Ribadavia, povoação da Galliza, não mui-
to distante de Chaves.
Talvez que houvesse duas cidades, umã
chamada Obobriga, e outra Abobriga, e que
isto seja a causa da divergencia de opiniões
dos escriptores.
Seja como fôr, o que é certo, é que nem
em Rio-Caldo, nem nas suas proximidades,
ha vestígios de semelhante cidade.
Entre esta freguezia e a da Ventosa, eso-
bre o rio Cávado, havia uma ponte, cuja
construcção primittiva se attribue aos roma-
nos, para seguimento da estrada da Geira.
Foi reconstruida no reinado de D. João V;
mas, estando em mau estado, foi reedifica-
da, desde os fundamentos, em 4874. Cha
ma-se mesmo a ponte de Rio-Caldo.
Vide Villar da Veiga.
RIO-COBRAL—rio, Beira-Baixa, tambem
chamado Levada. É uma derivação do rio
Alva, junto à ermida de Nossa Senhora do
Desterro, a par de S. Romão, no content
de Cêa.
Tem 27 kilometros de curso; passando
pelos concelhos de Cêa, Sandomil (extincto)
e Oliveira do Hospital.
Desagúa no rio Cêa, no ponto dos Pisões,
já no extincto concelho do Ervedal (hoje de
Oliveira do Hospital). Rega tambem as fre-
guezias de Travanca e Lagares.
RIO-GOVO — freguezia, Minho, comarca,
concelho e 6 kilometros de Barcellos, 18 ao
O. de Braga, 360 ao N. de Lisboa, 80 fogos.
Em 1757, tinha 53 fogos.
Orago, Santa Eugenia.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O reitor do mosteiro de conegos secula-
res, de S. João Evangelista (loyos) da cida-
de do Porto, apresentava o vigario, que ti-
nha 2508000 réis de rendimento.
RIO
“É terra fertil. Muito gado e caça.
Foi do antigo julgado de Vermoim.
Em junho de 1874, cahiu sobre esta fre-
guezia uma tromba d'agua, que causou pre-'
juizos superiores a 3 contos de réis.
O rio Cávado, que aqui passa, cresceu de
tal modo, que um moleiro morreu afogado,
apezar de ter subido para cima do telhado
do moinho !
Tambem morreu bastante gado afogado.
RIO-COVO—freguezia, Minho, comarca e
concelho de Barcellos, 15 kilometros ao O.
de Braga, 360 ao N. de Lisboa, 120 fogos.
“ Em 1757, tinha 280 fogos.
Orago, Santa Eulalia (antigamente dizia-
se Santa Olaia.)
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A mitra apresentava o reitor, que tinha
603000 réis e o pé d'altar.
Foi commenda dos templarios, e depois
passou para a ordem de Christo.
Foi do antigo julgado de Vermoim.
Ha n'esta freguezia a capella de Nossa
Senhora das Aguas Santas, titulo que lhe
deram em razão de uma nascente de agua
mineral que aqui ha, e que foi em tempo
muito concorrida de pessoas que nella se
vinham banhar, esperando achar remedio
para as suas enfermidades.
Em. tempos antigos, foram estas aguas
ainda muito mais frequentadas, pois que,
pelos annos de 4700, em uma excavação
que se fez no sítio da nascentes, se acharam
soterrados varios tanques, próprios para
n'elles se tomarem banhos.
Houve n'esta ermida uma confraria, toda
composta de sacerdotes, instituida em tem-
pos de que não ha memoria. Os seus esta-
tutos foram reformados em 4644, e appro:
vados pelo pontifice Urbano VIII.
Os irmãos lhe faziam a festa na 2.º oitava
da Paschoa, e era sempre muito concor-
rida.
- RIO DE GOUROS ou RIO DOS GOUROS—
freguezia, Extremadura, concelho de Villa
Nova d'Ourem, comarca de Thomar (foi da
mesma comarca, mas do supprimido conce-
lho d'Ourem), 30 kilometros de Leiria, 150
ao N. de Lisboa, 200 fogos.
RIO
Em 1757, tinha 180 fogos.
Bispado de Leiria. ;
Districto administrativo de Santarem.
Orago, Nossa Senhora da Natividade.
O cabido da collegiada d'Ourem apresen-
tava o cura, que tinha 203000 réis de ren-
dimento e o pé d'altar.
Deu-se a esta freguezia o nome de Rio de
Couros, porque antigamente havia aqui mui-
tos cortumes.
Foi annexa à freguezia de Freixianda ;
mas as offertas e oblações eram do extincto
cabido (collegiada) d'Ourem.
Consta que existiu aqui uma cidade, ou
grande povoação, cujo nome se ignora.
É certo que na egreja matriz se vêem al-
gumas lapides romanas, cujas inscripções
estão illegiveis, e com cujas pedras se con-
struiu à egreja, que, antes de ser parochial,
foi por muitos annos capella, dedicada a
Nossa Senhora de Rio de Couros (ou Rade-
couros, como antigamente se dizia) e que
por fim se mudou para Nossa Senhora da
Natividade, que é a actual padroeira.
Fez-se-lhe sempre a festa principal a 8 de
setembro, e havia então uma boa feira, que
ha muito tempo se não faz.
Em excavações que se teem feito nas vi-
sinhanças da egreja, se tem achado ossos de
homens de grande estatura; craneos em
proporção, ainda com dentes; cippos; ali-
cerces; pedaços de telhas, de 5 centimetros
de espessura ; e outros objectos, denotando
todos grande antiguidade.
Na egreja existe uma arca de pedra com
sua tampa. Segundo a lenda, era a prisão
de um captivo christão d'esta terra, que à
Senhora trouxe aqui na mesma arca, livran-
do-o do captiveiro.
Para evitarmos repetições,
e para se comprehender bem
este artigo, é preciso ver e ul-
timo periodo da col. 2.2, pag.
324, do 6.º volume.
RIODÁDES ou RIO D'ADENS—Outros di-
zem Rio d' Aves, mas não me-conformo,visto
que aos adens (patos) se chamava antiga-
mente ádes — freguezia, Beira-Alta, comar-
ca, concelho, e 22 kilometros de S. João da
Pesqueira (foi da comarca de Taboaço, con”
194
192 RIO
celho de Trevões), 40 kilometros de Lame-
go, 10 de Moimenta da Beira e 320 ao N. de
Lisboa, 215 fogos. Em 4757, tinha 130 fogos.
Orago, 8. Miguel, archanjo.
Bispado de Lamego, e districto adminis-
trativo de Viseu.
O reitor de Paredes da Beira, apresentava
o cura, que tinha 88000 réis de congrua e
o pé d'altar. À congrua era paga pela Uni-
versidade.
Dava-se na apresentação dos curas d'esta
freguezia uma singularidade digna de nota.
Havia annos em que eram apresentados dois
curas parochos, com eguaes honras, direi-
tos, interesses e responsabilidade.
É reitoria desde 23 de janeiro de 1870
sendo em 4.º reitor, collado, o sr. padre Ge-
miniano José Gomes, hoje abbade (tambem
o 1.º) de S. Pedro de Páus.
É povoação muito antiga, e era solar de
muitas familias illustres. Hoje, porém, só
aqui reside a dos Azevedos, representada
pelo sr. Alexandre de Azevedo Menezes Pi-
mentel Botelho Sarmento.
A egreja matriz torna-se notavel pela sua
pobreza e abandono. É talvez o templo pa-
rochial mais ordinario de Portugal! É mui-
to antiga, pois do lado esquerdo da porta
principal, na parte exterior, se vê a data de
11140, não se sabendo, se é a da sua funda-
ção, se de alguma reeonstrucção. Se fôr a
era de Cesar, como é provavel, é o anno de
1072 de J. C.
A povoação principal é compacta, e si-
tuáda em logar ameno e com bonitas vistas,
sendo o seu territorio muito fertil, por es-
tar na margem direita do rio Távora. Vêéem-
se aqui arvores de prodigiosa grandeza,
principalmente castanheiros, pereiras e mar-
melleiros.
Havia um freixo que media 5 metros de
diametro no tronco : um rapaz, por brinca-
deira, o incendiou ha uns 40 ou 12 annos ;
era a maior arvore d'estes sitios.
A quinta do referido sr. Azevedo é nota-
vel pela sua fertilidade : um só pé de trigo,
deu em um anno 86 espigas, e outro pé de
centeio 4221
Produz muito e bom vinho, azeite, linho,
cereaes, legumes, fructas, etc.
RIO
Tem uma boa ponte de pedra, de um só
arco, sobre o rio Távora, que liga esta fre-
guezia com a de Sendim: é a mais alta que
se vê sobre o Távora, nos 54 kilometros do
seu curso.
No alto de um monte bastante elevado»
está a capella de Nossa Senhora da Alegria,
de muita antiguidade, e com formosas e di-
latadas vistas.
Foi reparada, com as esmolas dos devotos,
pedidas pelo reverendo parocho, em 1876.
A sua festa principal, é no dia da Ascen-
ção de Nosso Senhor Jesus Christo, e é con-
corridissima, por ser a padroeira objecto de
grande devoção para os povos d'esta fre-
guezia e circumvisinhas.
Ha mercado em todos os 2.º domingos de
cada mez, muito concorrido.
Ainda pelos annos de 1700 existiam aqui
as seguintes familias de antiguidade e no-
breza conhecida :
Guedes—cuja casa ainda existe, e mestra
muita grandeza e antiguidade.
A ultima pessoa d'esta familia, foi a sr.2
D. Antonia, esposa do sr. Antonio Perfeito,
de Cambres.
Leitões-Loureiros—hoje representados pe-
lo sr. Antonio Velloso da Costa Aragão, do
Minhocal.
Rebellos—hoje representados pela sr.: D.
Maria Feliciana Rebello de Faria, esposa
(em 2.º nupcias) do sr. José de Lemos e Na-
poles.
A familia dos Pimenteis Botelhos, consti-
tue hoje trez casas distinctas e muito illus-
tres.
12, a sr.* D. Maria da Piedade Azevedo
Menezes, viuva de Ayres de Sá Botelho.
22,0 sr. Alexandre de Azevedo Menezes
Pimentel Botelho Sarmento (de quem já fal-
lei) casado com a sr.* D. Anna Amelia Pinto
de Mesquita e Vasconcellos.
3.2 o sr. desembargador, Salvador de
Souza Rebello.
Ainda aqui existe a familia de Antonio
Ferreira da Silva Santos, representada por
seu filho unico, o sr. José Joaquim Affonso
Ferreira da Silva Santos, casado com a sr.*
D. Maria da Estrella Pinto Saraiva de Mei-.
“ relles Falcão e Aragão.
RIO
No Távora ha varias azenhas de moer ce-
reaes, e nas suas levadas se cria bastante e
optimo peixe.
Antigamente tinha Riodádes foro de villa,
assim como Paredes da Beira, sua limitro-
phe, havendo em cada uma das freguezias
egual numero de auctoridades, com pode-
res em tudo eguaes, Pertencia então à co-
marca de Trancoso.
Os dizimos d'esta freguezia pertenciam à
universidade de Coimbra.
A parochia é formada unicamente pela
povoação de Riodádes, e é corrente ser mais
antiga do que a monarchia portugueza.
Foi resgatada do poder dos mouros, bem
como todas as mais povoações e territorios
immediatos, pelos tantas vezes citados n'es-
ta obra, D. Thedou e D. Rauzendo.
A egreja matriz está no centro da povoa-
ção; mas é tradição que a primittiva foi um
templo que existiu no sítio chamado hoje o
Santo, a uns 250 metros da povoação actual,
e no qual ha uma ermida, dedicada ao Sal-
Vador, que se diz ser a capella-mór da an-
tiga matriz; revela grande antiguidade.
Então a freguezia era formada por varias
quintas e casaes dispersos, do que ainda
existem vestigios nos sitios hoje denomina-
dos Ferrarias, Parada, CGarrolas, Maria
Diz, Maria Vaqueira, Pae Fernandes (tal-
vez corrupção de Payo Fernandes) e Maria
Martins.
Fica nos limites d'esta parochia, parte do
célebre Valle dos Mil (vide Paredes da Bei-
va) onde se feriu uma batalha, na qual os
mouros ficaram mortos aos milhares..
Tambem no districto d'esta freguezia é o
Valle de Mós, onde se encontram sepulturas
abertas na rocha, o que demonstra ter sido
um almocabar (cemiterio) mourisco; e tan-
to em Carapito, como em Roborêdo, que fi-
cam ao N.E. e proximo do Valle de Mós, se
vêem ruinas de antiquissimas fortalezas.
Ha n'esta freguezia uma nascente d'aguas
férreas, que já foram muito concorridas;
-dorém o dono da propriedade em que ella
RIO 193
brotam, as inutilisa, misturando-as com ou-
tas, para irrigação.
Tem a parochia um cemiterio decente,
com um bonito portão de ferro, feito em
Adorigo, por o sr. Manoel Carlos Valente,
artista de muito merecimento, e rico pro-
prietario. É irmão do sr. Francisco Cardoso
Valente, um dos mais acreditados nego-
ciantes da praça do Porto.
Proximo ao cemiterio parochial, ha um
môrro chamado da Atalaya, que, segundo à
tradição, foi uma almenára dos lusitanos.
Esta freguezia, pela fertilidade do seu ter-
reno, podia ser uma das mais ricas do con-
celho, mas é pobre por duas razões :
1.2, porque os maiores proprietarios dos
terrenos são de fóra da terra; .
2.2, pela falta absoluta de estradas. D'aqui
à villa da Régua são apenas 30 kilometros,
e o transporte de um carro de bois, custa
para lá, 48500 réis, por que tem de hir a
Moimenta da Beira e a Lamego, fazendo
uma derrota de 55 kilometros !
Muitas das familias que tiveram os seus
solares em Riodádes, e que aqui não men-
ciono, vão nas terras onde hoje residem.
RIO DE FÓRNOS — freguezia, Traz-os-
Montes, comarca e concelho de Vinhaes (foi
do concelho de Vinhaes, mas da comarca
de Bragança), 70 kilometros de Miranda,
470 ao N. de Lisboa, 30 fogos.
Em 1757, tinha 35 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Espectação.
Bispado e districto administrativo de
Bragança.
O reitor de Paçô apresentava o cura, que
tinha 62000 réis de congrua e o pé d'al-
tar.
Esta freguezia foi supprimida no princi-
pio d'este seculo e está unida à de Valle de
Janeiro, do mesmo concelho.
RIO DE GALINHAS — freguezia, Douro,
comarca e concelho de Marco de Canavezes
(foi da extincta comarca e concelho de Soa-
lhães), 35 kilometros ao N.E. do Porto, 335
ao N. de Lisboa, 75 fogos.
Em 1757, tinha 65 fogos.
* Orago, S. Miguel, archanjo.
194 RIO
Bispado e districto administrativo do Porto.
O reitor de Tuhias apresentava o cura,
que tinha 83000 réis de congrua e o pé
d'altar.
RIO DE LOBA— freguezia, Beira-Alta, con-
celho, comarca, districto administrativo e
bispado de Viseu, 45 kilometros de Lame-
go, 75 de Pinhel, 90 ao S.E. do Porto, 280
ao N. de Lisboa, 450 fogos.
Orago, S. Simão.
Não vem no Port, Sacro e Prof., nem pu-
de d'esta freguezia ter outra noticia, senão
que é terra fertil, e que cria muito gado.
RIO DE MEL —freguezia, Beira-Baixa, co-
marca e concelho de Trancoso, 48 Kilome-
tros de Viseu, 325 ao N. de Lisboa, 125 fo-
gos.
Em 1757, tinha 136 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Graça.
Bispado de Pinhel, districto administra-
tivo da Guarda. ;
O abbade da freguezia de Santa Maria, de
Trancoso, apresentava o cura, que tinha
64000 réis de congrua e o pé d'altar.
É terra pouco fertil e pobre.
RIO DE MOINHOS — freguezia, Alemtejo,
comarca e 42 kilometros de Extremoz, con-
celho de Borba, 40 kilometros de Evora,
445 a S.E. de Lisboa, 300 fogos.
Em 1757, tinha 194 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Arcebispado e districto administrativo de
Evora.
A mitra apresentava o cura, que tinha
230 alqueires de trigo, 50 de cevada e réis
303000 em dinheiro.
É terra muito fertil em cereaes.
Em 40 de abril de 1867, foi feito barão
de Rio de Moinhos (mas não sei de qual) o
sr. Manoel Augusto de Almeida Vallejo.
Na herdade do Seixo, d'esta freguezia, ha
uma mina de ferro, que promette ser abun-
dante.
A 3:500 metros da villa de Borba, nos li-
mites d'esta freguezia e da do Sobral, é a
planicie de Montes-Claros, onde em 47 de
junho de 1665 se deu a gloriosa batalha
por isso chamada de Montes-Claros.
Para evitarmos repetições, vide vol. 1.º,
pag.418, col. 2.º—e 5.º vol., pag. 034, col. 2.º
RIO
RIO DE MOINHOS— freguezia, Douro, co-
marca e concelho de Penafiel, 35 kilbmetros
ao N.E. do Porto, 335 ao N. de Listoa, 290
fogos.
Em 1757, tinha 266 fogos.
Orago S. Martinho, bispo.
Bispado e districto administrativo do
Porto.
O papa, a mitra é o mosteiro de monges
benedictinos de Paço de Souza, apresentavam
o reitor, que tinha 2408000 réis.
É terra muito fertil.
Os dizimos d'esta freguezia, eram para og
Leites Pereiras, de Campo-Bello, como ad-
ministradores da capella dos Reis, no con-
vento de S. Francisco do Porto, com obri-
gação de casarem certo numero de or-
phans.
RIO DE MOINHOS — freguezia, Extrema-
dura, comarca e concelho de Abrantes, 180
kilometros da Guarda, 144 ao E. de Lisboa,
330 fogos.
Em 1757, tinha 256 fogos.
Orago, Santa Eufemia.
Bispado de Castello Branco, districto ad-
ministrativo de Santarem. (Foi do bispado
da Guarda.)
O vigario da freguezia de S. Vicente, da
villa de Abrantes, apresentava o cura, que
tinha 1208000 réis.
É terra fertil.
RIO DE MOINHOS—freguezia, Minho, co-
marca e concelho dos Arcos de Valle de Vez,
24 kilometros ao O. de Braga, 384 ao N. de
Lisboa, 175 fogos.
Em 1757, tinha 160 fogos.
Orago, Santa Eulalia.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
Os viscondes de Villa Nova da Cerveira
(depois marquezes de Ponte do Lima) apre-
sentavam, in solidum, o abbade, que tinha
4008000 réis de rendimento.
Metade d'esta freguezia e da sua annexa,
S. Thomé d'Aguião, era um beneficio sim-
ples dos mesmos viscondes.
É n'esta freguezia a torre de Rio de Moi-
nhos, com um casal annexo, que foi de Gar-
cia Rodrigues de Caldas, do Paço de Vas-
cões, e de sua mulher, D. Leonor de Souza.
RIO
Doaram-o a sua filha, D. Isabel Rodrigues
de Caldas, casada na Galliza, na casa de
Lira.
Ficando viuva e sem filhos, casou com
João Rodrigues de Novaes e Ozores, fidalgo
gallego, senhor dos coutos de Pedra-Fura-
da, Souto-Nobre, Corcãos, Tinellas e Fiães,
em cuja descendencia se continuou até á
guerra dos 28 annos (1640 a 1668).
Então, Garcia Ozores Sotto-Maior e Le-
mos, conde de Amarante, e senhor d'aquel-
la casa, o vendeu a Gonçalo de Mello e Li-
ma, e é hoje de seus descendentes.
É terra muito fertil em todos os generos
agricolas do paiz, e cria muito gado de toda
a qualidade, que exporta. Nos seus montes
ha bastante caça.
Foi abbade d'esta freguezia, Antonio Da-
mazo de Castro e Souza, que falleceu no 1.º
de julho de 1876.
Nasceu em Lisboa, a 11 de dezembro de
1804, e era filho de Antonio Caetano de Cas-
tro, fidalgo da casa real, e de sua mulher,
D. Ursula Thereza Rosa de Souza.
Foi Antonio Damazo de Castro e Souza
(vulgo o Abbade Castro) academico honora-
rio da academia das Bellas-Artes ; socio do
conservatorio real, de Lisboa ; socio de me-
rito, da Real Associação dos Architectos Ci-
vis e Archeologos Portuguezes: commenda -
dor de numero, de Isabel a Catholica; gran-
de official da ordem do Nicham, de Iftihar
de Tunes; condecorado com os habitos de
diversas ordens, civis e militares ; adjunto
do provedor da Santa Casa da Misericordia,
de Lisboa, etc.
Compoz varias obras de grande valor lit-
terario, e tidas em grande apreço pelos en-
tendidos.
A todos estes dotes scientificos, reunia
outros, não menos apreciaveis: era de uma
extrema bondade de coração, amigo dedi-
cado, affavel, modesto e caritativo, pelo que
deixou perpétua saudade a quantos o co.
nheciam.
RIO DE MOINHOS—freguezia, Beira-Alta,
concelho de Satam, comarca, districto admi-
nistrativo, bispado e 48 kilometros de Vi-
seu, 295 ao N. de Lisboa, 350 fogos.
Em 1757, tinha 230 fogos.
RIO
Orago, o archanjo S. Miguel.
O real padroado apresentava o vigario,
que tinha 408000 réis de congrua e o pé
d'altar.
É povoação muito antiga, e foi villa e ca-
beça de concelho.
D. Sancho II lhe deu foral, na Guarda,
em 40 de julho de 1240. (Maço 12 dos Fo-
raes antigos.) *
O rei D. Manoel lhe deu novo foral, em
Lisboa, a 6 de. maio de 1514. (Livro de fo-
raes novos da Beira, fl. 68 v., col. 2.3)
D. Sancho II, que estava na cidade da
Guarda quando deu a esta povoação o foral
velho, arrendou aos concelhos de Zaatan
(hoje Satam) e de Rio de Moinhos, todas as
suas colheitas (aposentadorias) por 225 ma-
Tavidis novos.
É terra fertil em todos os generos agri-
colas do paiz, e cria muito gado. Nos seus
montes ha abundancia de caça.
Em 1876, descarregou uma furiosissima
trovoada, acompanhada de vento e chuva
torrencial, sobre as povoações de Luzinde,
esta de Rio de Moinhos e circumvisinhas,
que causou grandes estragos.
Pontões, açudes, moinhos, lagares de
azeite, Datataes, linhares e mais terras la-
vradias, ficaram destruidos e arrazados |
Ainda hoje é lembrado com horror este
terrivel temporal, que reduziu muitos la-
vradores à miseria.
RIO DE MOURO—freguezia, Extremadu-
ra, comarca e concelho de Cintra, 24 Kkilo-
metros ao N. de Lisboa, 325 fogos.
Orago, Nossa Senhora de Belem.
Patriarchado e districto administrativo de
Lisboa.
Não vem no Port. Sacro e Profano.
A egreja matriz é um formoso templo de
trez naves. Tanto o altar-mór, como os dois
lateraes, são de primorosa talha dourada.
Todas as santas imagens d'esta egreja,
são de magnifica esculptura e foram encar-
nadas ainda ha cinco su seis annos.
O retabulo do altar-mór, é uma pintura
de grande merecimento.
Tudo aqui respira aceio e alegria.
Possue jarras lindissimas ; castiçães ; al-
gumas banquetas douradas e outras pratea-
195
196 RIO
das, e formosas maquinetas para resguar-
darem as imagens da humidade.
Na egreja matriz ha uma custodia de
prata dourada, que em 1877 foi vendida,
por engano (!) ao sr. visconde de Monserra-
te; porém, à força de reclamações tornou à
vir da Inglaterra, para onde tinha hido.
Esta custodia é um primor da arte de ou-
rivesaria, e obra de grande merecimento,
Existiu aqui, por muitos annos, uma €s-
cola de instrucção primaria, protestante,
fundada e regida por um padre hespanhol
que para aqui veiu residir, O qual, para ca-
sar com uma mulher riça, desta freguezia,
apostatára da religião catholica.
Como não havia outra escola, era esta
concorrida por muitas creanças da localida-
de, ás quaes ensinavam doutrinas hereticas.
Uma associação de pessoas piedosas, pro-
jectou fundar aqui, uma escola catholica,
para o que promoveu uma subscripção, alu-
gou casa propria, nomeou professor e pro-
fessora, pessoas sinceramente religiosas e
de moral exemplar, para educarem as crean-
cas de ambos Os Sexos.
Esta escola foi inaugurada no dia 19 de
março de 1878, e, em pouco tempo, contou
grande numero de discipulos, que fugiram
da escola protestante.
O sr. Filippe José da Luz, rico proprieta-
rio e fabricante, d'esta freguezia, e fervoro-
so catholico, concorreu, mais do que outro
qualquer, para se levar a effeito a obra d'es-
ta benemerita empreza.
Deus lhe dará o premio dos seus louva-
veis esforços e sacrifícios.
Muitos catholicos sinceros, não reconhe-
cem o grande mal que a seita protestante
faz n'este reino, pelo facto do pequeno nu-
mero de pessoas que apostatam.
É um engano. É verdade que são poucos
(felizmente !) os renegados até hoje, e esses
pouca falta fazem ao christianismo, pelos
seus pessimos precedentes ; mas os propa-
gadores da heresia, se não conseguem ade-
ptos, semeiam nos corações da gente igna-
ra, à indiferença e a descrença; e todos
sabem que é melhor ter uma religião qual-
quer; do que não ter nenhuma.
Vidê Ribeira de Fráguas.
RIO
É nesta freguezia a formosissima aldeia
de Albarraque 1, povoação antiquissima, a 3
kilometros da de Rio de Mouro.
Ha em Albarraque uma nascente d'aguas
ferreas, à qual se attribuem muitas virtudes
therapeuticas.
Não só por esta cireumstancia, mas para
gozarem os ares puros e a amenidade d'es-
te sitio, vem para aqui passar a estação cal-
mosa muitas familias ricas de Lisboa.
N'esta aldeia está a formosissima capella
de Nosso Senhor dos Affictos, a cujo pa-
droeiro se faz todos os annos uma festa sum-
ptuosissima.
A sagrada imagem do Crucificado é de
primorosa esculptura e de um valor artis-
tico inexcedivel, e os povos destes Sitios
lhe consagram uma grande devoção.
RIO DE ONOR (ou de HONOR) — fregue-
zia, Traz-os-Montes, concelho, comarca, dis-
tricto administrativo e bispado de Bragan-
ca, 68 kilometros de Miranda, 500 ao N. de
Lisboa, 65 fogos.
Em 1757 tinha 26.
Orago, S. João Baptista.
O reitor de Rabal, apresentava o cura,
que tinha 64600 réis de congrua e 0 pé
d'altar.
É terra fria, pobre e pouco fertil. Fica
perto da raia.
RIO DOS ODRES antigamente RIO UTIL.
Serviu no tempo dos suevos de divisão das
dioceses de Braga e Lugo.
Trata d'este pequeno ribeiro a Divisão
dos condados.
RIO DE VIDE—freguezia, Douro, conce-
lho de Miranda do Corvo, comarca da Lou-
zan (foi da mesma comarca, mas do extin-
1 Albarraque é corrupção do substantivo
arabe albarrada, que significa vaso de flo-
res, nome que os mouros deram a este lo- 4
gar, pela sua belleza é amenidade.
Os arabes tambem escreviam warrada,
que se póde traduzir pelo substantivo por-
tuguez rosario, que, propriamente, significa
vaso onde se mettem rosas.
wardou, rosa.
Depois, estendeu-se o nome ao vaso que !
continha, não só rosas, mas outras quaes- |
quer flores.
Deriva-se de |
RIO
cto concelho de Semide), 15 kilometros a E.
de Coimbra, 200 ao N. de Lisboa, 360 fo-
gos.
Em 4757, tinha 78 fogos 1.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Bispado e districto administrativo de
Coimbra.
O vigario da Foz de Arouce, apresentava
o cura, que tinha 508000 réis e o pé d'al-
tar.
É terra fertil.
RIO DOURO—freguezia, Minho, concelho
de Cabeceiras de Basto, comarca de Celori-
co de Basto, 40 Kilometros ao N. de Braga,
380 ao N. de Lisboa, 430 fogos.
Em 41757, tinha 222 fogos.
Orago, Santo André, apostolo.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O D. abbade, benedictino, de S. Miguel de
Refojos, apresentava o vigario, collado, que
tinha 1004000 réis de rendimento.
É terra fertilissima. Muito gado e caça, e
algum peixe do Tâmega, e de outros ribei-
Tos.
Vidé Cabeceiras de Basto.
RIO FRIO — freguezia, Traz-os-Montes,
concelho, comarca, districto administrativo
e bispado de Bragança, 35 kilometros de
Miranda do Douro, 480 ao N. de Lisboa, 160
fogos.
Em 1757, tinha 99 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
O cabido da Sé de Bragança, apresentava
o cura, que tinha 68000 réis de congrua e
o pé d'altar.
Está annexa a esta freguezia, a de S. Vi-
cente do Paço, que já fica descripta no lo-
gar competente.
São terras pobres e pouco ferteis, proxi-
mas da raia hespanhola.
Esta freguezia pertenceu ao extincto con-
celho do Outeiro.
Deve o seu nome ao pequeno Rio Frio,
que a atravessa, e desagúa na margem es-
querda do Sabôr.
Vidê o 2.º Frio ou Rio-Frio.
RIO 197
RIO-FRIO—freguezia, Minho, comarca e
concelho dos Arcos de Valle de Vez, 33 ki-
lometros ao N. de Braga, 390 ao N. de Lis-
boa, 365 fogos. Em 1757, tinha 307 fogos.
Orago, S. João Baptista.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
O rei, pelo tribunal da mesa da conscien-
cia e ordens, apresentava o reitor, que tinha
1008000 réis de congrua e o pé d'altar.
O reitor, até 1834, era sempre um freire
da ordem de Christo.
Foi mosteiro e commenda dos templarios
até 4311, passando em 1319 para a ordem
de Christo.
Foi aqui commendador, Payo Rodrigues
d'Araujo, senhor das casas d'Araujo e Ló-
bios, na Galliza, e das de S. Fins e Penojas,
em Portugal.
Foi alcaide-mór de Lindoso, e guarda-
mór de D. João Ie de seu filho, o infante
D. Henrique (o de Sagres).
Foi tambem commendador de Rio-Frio,
seu filho, Rodrigo Alves d'Araujo, que foi
sepultado na matriz d'esta freguezia, e tem
numerosa descendencia, que são os Araujos
de diversas casas nobres do Minho.
É povoação muito antiga, e já existia an-
tes da monarchia portugueza.
Na aldeia do Eoxerto, d'esta freguezia,
houve uma torre, antigo solar de uma fa-
milia extincta.
Em 1679, era senhor desta torre, Baltha-
zar de Araujo, que vendeu a pedra de que
fôra construida, ao dr. Pedro Gomes Dan-
tas, o qual com ella mandou fazer as casas,
chamadas do Hospital, que passou à fami-
lia dos Caldas, de Vascões.
Ha aqui um penhasco a que chamam o
cástello. Segundo a tradição, houve n'este
sítio uma fortaleza mourisca.
Junto ao penedo ainda existe uma gruta,
a que chamam lapa da moura, por ter per-
tencido a uma árabe, senhora do tal cas-
tello.
RIO-LIVRE—concelho extincto, Traz-os-
' Montes, que depois se uniu ao tambem hoje
| extincto, de Monforte do Rio Livre.
? Acho muito pouca gente. É provavel- |
mente engano do Port. Sacro e Prof.
VOLUME Vil
É uma povoação antiquissima, pois já
existia no tempo dos romanos.
13
198 RIO
Teve foral velho, dado por D. Affonso III,
em Guimarães, a 17 de junho de 1253. (Li-
vro 2.º de Doações de D. Affonso III, fl. 16
in fine, e Livro de foraes antigos de leitura
nova, fl. 404 v., col. 4.2, no principio.)
Para evitarmos repetições, vidê Monforte
do Rio Livre.
RIO-MAIOR—viila, Extremadura, cabeça
de concelho, na comarca e districto admi-
nistrativo de Santarem, 85 kilometros ao
NE. de Lisboa, 830 fogos.
Em 1757, tinha 632 fogns.
Orago Nossa Senhora da Conceição.
Patriarchado de Lisboa.
O rei, pelo tribunal da mesa da conscien-
cia, apresentava o prior, que tinha 480 al-
queires de trigo, 120 de cevada e 208000
réis em dinheiro, tudo pago pela commen-
da.
Está situada junto do rio do mesmo no-
me, que, com 54 kilometros de curso, des-
agúa na margem direita do Tejo, quasi em
frente de Salvaterra de Magos.
O concelho de Rio-Maior, é composto de
sete freguezias, todas no patriarchado, e com
uma população de 2:900 fogos. São—Alco-
bertas, Arruda dos Pisões, Azambujeira,
Fráguas, Outeiro da Cortiçada, Ribeira, e
Rio-Maior.
É povoação muito antiga: mas não tem
foral, novo ou velho; pelo menos, Franklim
não o traz.
A noticia mais antiga que encontro d'esta
povoação, é uma venda feita por Pero Ba-
ragão e sua mulher, Sancha Soares, em
1177, aos templarios, da quinta parte que
tinham no poço e salinas de Rio- Maior, cujo
poço partia pelo E. com a Albergaria do
Rei, pelo O. com D. Pardo e com a ordem
do Hospital, pelo N. com marinhas da mes-
ma ordem (Espitalle, se escrevia então), e
pelo S. com marinhas do dito D. Pardo.
-Já então as salinas de Rio-Maior eram
exploradas, mas consta de memorias escri-
ptas, que antes do seculo xn o tinham sido
em muito maior escala.
Adiante fallarei sobre o estado áctual
destas marinhas.
Na aldeia da Azinheira, proxima à villa,
e da sua freguezia, ha uma bonita capella,
RIO
dedicada a Santo Antonio, e, perto d'ella,
grandes pedreiras de optimo silex (pedre-
neira) que se extrahe em grande quantida-
de; e ainda em muito maior se tirava antes
de haver armas de fulminantes.
Os povos da Azinheira, empregados na
factura de pedreneiras, foram até 1834 isen-
tos do recrutamento. Hoje, a maior extrac-
ção d'este producto, é para a Hespanha e
Ultramar.
Rio-Maior nunca teve foro de villa, mas,
sendo elevada a séde de concelho, por de-
creto de 6 de novembro de 1836, foi desde
então considerada como tal. .
A primiltiva egreja matriz estava a uns
4 metros do antigo leito do rio, e a uns 50
da povoação.
Consta que havia sido feita pelos ascen-
dentes do sr. marquez de Penalva, que eram
commendadores da commenda de Nossa Se-
nhora da Conceição, d'esta freguezia, com a
obrigação dos reparos da mesma egreja ;
mas esta nunca se chegou a concluir.
Em 4810 principiou a arruinar-se, e d'el-
la apenas hoje restam as paredes e a torre,
na qual ainda estão os sinos parochiaes.
Mudou-se a matriz para a pequena egre-
ja do Espirito Santo, que pertence à irman-
dade da Misericordia, e é insufficiente para
conter o povo desta grande povoação. É de
simples architectura e tem altar-mór e qua-
tro lateraes.
A requerimento do povo, foi, em 4875,
ordenado, pelo ministerio das obras publi-
cas, que se levantasse a planta para à nova
egreja matriz.
Foi orçada a obra em 5 contos de réis, e
os parochianos offereceram um conto.
Está marcado para local da nova egre-
ja, 0 sítio onde existiu o castello mourisco
de que já fallei; mas, sabe Deus quando ella
se fará.
Capellas d'esta freguezia
Santo Antonio — no antigo hospicio de
frades franciscanos.
Foi isto vendido depois de 1834, e a ca-
pella ficou profanada.
RIO
O seu altar era de primorosa talha dou-
rada, e os azulejos que revestiam as paredes
interiores, eram de notavel correcção de de-
senho.
S. Gregorio —ao E. da villa: della só
restam as ruinas.
S. Miguel, archango—no ponto mais ele-
vado d'este sítio, e d'onde se gosa um ma-
gnifico panorama. Pertence à irmandade das
almas.
8. Sebastião—em sitio alegre e espaçoso,
e cujo padroeiro é objecto de grande devo-
ção do povo.
Foi construida em 41569 e o alpendre fei-
to em 1688.
Todas estas capellas são em Rio-Maior.
Santo Antonio — na aldeia da Azinheira.
É publica, e festeja-se o padroeiro no seu
dia.
Santo André — junto ao logar da Ante-
posta. A festa do padroeiro é no 4.º de ja-
neiro de cada anno.
Tambem n'esta ermida se festeja Santo
Antonio, no domingo anterior ao dia 13 de
junho de cada anno.
S. Domingos e Santo Amaro — no logar
da Asseiceira, a à kilometros da villa; pu-
blica—e cuja festa é em um dos domingos
de outubro.
Desde este logar até à villa, ainda se vêem
varios lanços de muros de supporte e ou-
tros vestigios, da antiga estrada militar, de
Lisboa para Peniche, e que passava pela
villa.
S. João Baptista — no logar da Fonte da
Bica : é publica, e se festeja no seu dia.
Tambem n'esta capella se festejam todos
os annos as imagens de Nossa Senhora do
Monte do Carmo, Nossa Senhora da Ajuda,
Santo Antonio e S. Sebastião.
8. Payo—na quinta do mesmo nome, ho-
je propriedade do sr. Vicente Augusto de
Araujo Camizão.
Antigamente, quando alguem tinha se-
sões, recorria a este santo,e hiam à sua ca-
pella em romaria, e alli comiam sopas de
ovos
Este costume acabou; mas ainda se faz
uma festa annual ao padroeiro.
Nossa Senhora da Luz—em uma proptrie-
RIO 199
| dade da sr. Viuva Caldas, de Santarem. A
| padroeira é objecto de grande devoção dos
povos d'estes sítios, que lhe fazem uma es-
plendida festa, no dia designado pelos de-
votos.
Santa Anna — na serra das Bóccas. Está
em ruinas.
Nossa Senhora de Nazareth —- na antiga
quinta do Jogadouro.
Tanto a capella como as casas da quinta,
foram devoradas por um incendio, em 48
de janeiro de 1825.
Segundo a tradição, esta quinta já exis-
tia no tempo dos mouros, e o seu nome lhe
provém de um jogo que elles aqui jogavam,
com bolas e paus de ouro, ou dourados. É
certo que ha uns 30 annos, em uma exca-
vação que se fez n'esta propriedade, appa-
receram algumas peguenas barras de ouro,
em fórma de disco.
Esta quinta é banhada pelo rio, e é cir-
cumdada de grandes arvores, que denotam
muita antiguidade.
O hospicio de frades franciscanos (arra-
bidos) em que já fallei, foi fundado por uma,
D. Anna de tal, em 1763, segundo se lê em
uma inscripção que ainda alli se vê, e diz
— dEdificata est aedicula Sacra Familia,
17.68.
A fundadora doou o hospicio aos francis-
canos, com a obrigação de estabelecerem
alli uma fabrica de bureis, para empregar
as pessoas necessitadas d'esta povoação.
O edifício foi cedido à camara municipal,
por um officio do governo civil de Santarem,
em 1837, tomando a camara posse em 19 da
fevereiro de 1838.
Estão n'elle estabelecidas as repartições
publicas do concelho, camara, administra-
ção, repartição de fazenda, tribunal judicial,
escola do sexo masculino.
Junto à capella de S. Miguel, já mencio-
nada, existiu um pequeno castello, que se
diz construido pelos mouros. Foi completa-
mente demolido, e no chão que occupava se
construiu uma escola de instrucção prima-
ria, para ambos os sexos, com dois pavi-
“mentos, fundada pelo benemerito sr. João
José da Costa, da quinta das Bastidas, pro=
200 RIO
ximo desta villa, que a ofereceu à camara
municipal.
O rio que atravessa a povoação, e lhe dá
o nome, nasce na grande serra das Bóccas.
Ainda em 14870 brotava a agua por entre
serros; hoje sae por orifícios, abertos na mu-
ralha que cinge a estrada real que alli passa.
É um dos sitios mais aprasiveis d'esta fre-
guezia.
As nascentes são importantissimas, des-
lisando-se a alguma distancia por terreno
alcantilado, mas depois entra nas ferteis vei-
gas que circumdam as suas margens, até ao
Tejo.
Segundo a tradição, parte d'esta agua
era desviada, por meio de canalisação subter-
ranea, da qual ainda restam vestigios, para
uso de uma fabrica de fundição de metaes,
no tempo dos árabes. Esta canalisação prin -
cipiava (a julgar pelos vestigios) nas bar-
reiras chamadas do Tufo, no sitio da Bura-
ca da moura, e terminava no sitio das Covas
do Adro, onde estava o tal estabelecimento
metallurgico.
Em agosto de 1874, andando um lavrador
a alqueivar a terra, na quinta das Bastidas 1
1 Ha muitos sitios em Portugal com'o no-
me de Bastida (em algumas partes corrom-
pido em Vestida) e é provavel que nem to-
dos saibam a significação d'esta palavra.
Bastida, era uma torre de madeira, que
egualava ou excedia a altura das muralhas
da praça que se queria atacar, e para da tal
torre atirarem os bésteiros.
Dava-se tambem o nome de bastidas, às
trincheiras ou palissadas, com que se defen-
diam as posições militares, ou mesmo qual-
quer povoação; e egual nome tinham todas
e quaesquer obras de defeza.
Finalmente, tinham ainda o nome de bas-
tida, a balsa ou jangada, de muitos páus, pre-
sos e ligados entre si. (Vida de D. João I, por
note parte 1.3, cap. 64.— Damião de Góes,
Julgo que herdamos esta palavra dos nor-
mandos, que diziam bastille, com a mesma
significação.
Foi celebre a Bastille (bastilha) de Paris,
fortaleza construida por Carlos V, rei de
França, em 1369, para defender a cidade das
invasões dos inglezes, e que depois foi con-
vertida em prisão do estado. Os republica-
Ae francezes a arrazaram, a 14 de julho de
RIO
a um kiiometro da villa, sentiu que o dente
do arado se lhe prendéra em uma grande
pedra de marmore.
Deu parte d'isto ao dono da quinta, e, de-
pois de algumas horas de trabalho, se des-
cobriu um magnifico subterraneo, que d'es:
ta propriedade se dirigia para o rio, pas-
sando pela quinta do Jogo d'Ouro. Julga-se
que este subterraneo estã em communica-
ção com outros.
A tradição attribue esta obra aos mouros,
mas, pela sua magnificencia e solidez, pa-
rece mais obra romana.
Hospital
Existe n'esta villa um pequeno hospital,
fundado em 1619, que, segundo consta de
documentos antigos, era administrado pelo
hospital da Misericordia, de Santarem. Os
moradores de Rio-Maior, pediram a D. José I,
em 17 de janeiro de 1759, a creação de uma
irmandade da Misericordia, para curar do
edificio e do tratamento dos doentes pobres.
O rei lh'o concedeu, por alvará de 48 de
abril do mesmo anno, com obrigação de
prestar contas annuaes ao provedor da ca-
mara de Santarem.
A construcção primittiva d'este estabele-
cimento de caridade, era acanhada e em más
condições hygienicas; mas, em 1870, por do-
nativos de bemfeitores, foi reconstruido, é
actualmente é um edificio proprio para o fim
a que é destinado; podendo accommodar até
30 enfermos que d'elle necessitem, na sua
passagem para as Caldas da Rainha, que é
para o que elle desde o principio se cons-
truiu.
Para custear as despezas do hospital, dei-
xou a infanta D. Isabel Maria, filha de D.
João VI, quando regente, e por alvará do
anno de 1826, para a Misericordia, os ren-
dimentos das irmandades do Menino Jesus,
Nossa Senhora das Dores, e S. Sebastião.
Estradas
Passava por esta villa a estrada real, de
Lisboa ao Porto, mandada construir por D.
Maria I, e n'ella se encontram algumas obras
RIO
d'arte de muita importancia, como as pon-
tes da Asseiceira, e Fonte-Branca: havia
tambem a da Amieira, que foi demolida. As
outras ainda estão bem conservadas.
Ao sul da villa, foi construida, em 1870,
por conta do governo, uma optima ponte de
cantaria e alvenaria, sobre o rio. É munici-
pal.
Actualmente, é atravessada pela estrada
real em construcção, que hade ligar Santa-
rem com a praça de Peniche, e com a que
liga esta villa com a estação do caminho de
ferro da Ponte de Sant'Anna.
É n'esta estrada a ponte de Freiria, cujo
taboleiro foi lançado a 27 d'abril de 1876.
Esta ponte está entre Rio-Maior e o Cartaxo.
Offereceu grandes obstacnlos a construc-
ção dos fundamenios. para os encontros.
A. ponte é de ferro, e tem 40 metros de
vão, e a viga é em treilli, com 4 metros de
altura. A sua construcção foi dirigida pelo
distictissimo engenheiro, o sr. Domingos da
Apresentação Freire, que foi o auctor do
projecto.
Fui construida pela acreditada casa Fives
Lille.
Ao acto do lançamento do taboleiro assis-
tiram os administradores de Rio-Maior e
Cartaxo, as camaras municipaes destes dois
concelhos, o director das obras publicas do
districto, os engenheiros da mesma direcção,
mr. Labille (representante da empreza cons-
tructora Fives-Lille) e mais de 4:000 pessoas
das visinhanças.
Durante a operação, tocaram as philar-
monicas do Cartaxo. e Rio-Maior, e houve
differentes vivas.
A ponte é no sitio chamado Porto da Frei-
ria.
Andam em construeção, a estrada de Rio-
Maior a Alcobaça, e a da mesma villa a Tor-
res Novas.
Ha tambem uma boa estrada municipal,
nova, que vae d'aqui à aldeia das Alcober-
tas, na extensão de 3 kilometros.
Já se vê que este concelho não é dos mais
mal dotados, quanto a viação publica.
——
Esta villa tem tido muito desenvolvimen-
to; possue alguns bons predios, de cons-
RIO 201
trueção moderna ; tem bons estabelecimen-
tos commerciaes, cujo movimento é de bas-
tante importancia.
Ao E. e S., estendem-se por mais de 42
kilometros, magnificos pinheiraes, cúja ma-
deira, pela sua boa qualidade, tem prompta
e vantajosa exportação para differentes lo-
calidades do districto e para Lisboa.
Ao O., existem inexgotaves pedreiras de
cantaria e alvenaria, d'onde se extrahem e
exportam grande numero de carradas de pe-
dra, não só para differentes obras do conce-
lho, como para outras localidades, algumas
das quaes estão a mais de 30 kilometros de
distancia. ;
Minas
Nas visinhanças d'esta villa, e dentro dos
limites do seu concelho, ha minas de diffe-
rentes metaes e metaloides. Os afloramentos
mais visiveis, são:
Pyrites de ferro, ao S. da villa, no sitio
chamado Fonte-Rabaça. É de pouca impor-
tancia, apezar de conter alguma prata; mas,
em tão diminuta quantidade, que não prao-
mette bom resultado a sua lavra.
Antracites (carvão mineral) existem minas
em differentes partes do concelho, que se
não exploram, por desmazello, ou por falta
de capital.
Cobre, ao N. da villa, proximo ao logar da
Fonte da Bica. Não se explora.
Enxofre, na serra da Senta. Tambem não
se explora.
Chlorurêto de sodium, metaloide o
berto por Schéele, em 4774. É a mais im-
portante de todas, e inexgotavel. É esta mina
que dá origem às famosas marinhas de Ria-
Maior.
Em junho de 1875, manifestou o sr. a
nardino Arêde Soveral, na camara d'este
concelbo, uma mina de pedras lytographi-
cas, com algum minerio de prata.
Aguas mineraes
Abundam por estes sitios as nascentes de
optima agua-ferrea, mas, infelizmente, ne-
nhuma aproveitada, pela incuria dos povos
do municipio.
202 RIO
Ha tambem algumas nascentes de aguas
sulphorosas ; mas, nem estas, nem aquellas,
foram ainda competentemente analysadas.
Ha tambem abundancia de boa agua po-
tavel, e, em 1864, com um subsidio do go-
verno, construiu a camara mais dois chafa-
rizes.
Ha em Rio-Maior uma feira annual, nos
dias 1, 2 e 3 de setembro, na qual se fazem
importantes transações, principalmente em
gados, madeiras, generos alimenticios e ou-
tros. Antigamente, fazia-se esta feira nos dias:
15, 16 e 47 do mesmo mez: é concorridis-
sima.
Proximo à aldeia da Fonte da Bica, é o si-
tio chamado Valle das Laranjas, pelas mui-
tas e óptimas que produz, e que são das
melhores (senão as melhores) de todo o rei-
no; pelo que dão em toda a parte muito
mais dinheiro do que outras quaesquer. Em
Lisboa são muito apreciadas.
O clima d'este concelho é um dos mais
saudaveis da provincia.
“ Em 4876 construiu-se um theatro, a ex-
pensas da associação denominada—Progres-
so dramatico rio-maiorense.
Alem d'esta associação, ha mais as se-
guintes :
Gremio de instrucção e recreio rio-maio-
rense, estabelecida em um magnifico predio,
no melhor sitio da villa, e formado pelas
pessoas mais importantes do concelho, e de
alguns cavalheiros dos immediatos.
Monte-Pio, ou associação protectora rio-
maiorense, que fornece aos socios doentes,
facultativo e medicamentos.
Centro promotor rio-maiorense, tem por
fim, unir, para todo e qualquer objecto pro-
veitoso ao concelho, os seus habitantes.
Estas duas ultimas associa-
ções, devem-se à iniciativa do
sr. commendador, Vicente Au-
gusto d'Araujo Camizão, abas-
tado proprietario d'este conce-
lho. e ex-delegado do thesouro
em Santarem.
Ha nesta villa algumas fabricas de cortu-
mes.
Exporta madeiras, rezinas, sal, pedra de
cantaria, pedreneiras, azeite, vinho, fructa é
outros generos agricolas.
Quintas
Ha no concelho as seguintes :
'S. Payo, do sr. Camizão, e da qual já fal-
lei.
Quinta Nova e a dos Figueiredos, do sr.
commendador Francisco Luiz dos Santos.
Assenliz e Sanguinhal, da viuva do com-
mendador Freire. Ê
Sobreiros, do sr. João da Maia Rosa.
Carvalhal, do sr. Francisco Ferreira Cam-
pos, cirurgião-mór militar.
Seabra, dos srs. viscondes da Bahia.
Bastidas, do sr. João José da Costa, d'esta
villa, mas residente em Lisboa.
Alem de outras de menos importancia.
Ha no concelho 80 moinhos, para cereaes,
alguns com duas, tres é quatro mós; e 73
lagares de azeite—servindo a todos de mo-
tor, a agua do rio.
Condes de Rio-Maior
O primeiro conde de Rio-Maior, foi feito
pelo principe-regente, depois D. João VI, em
8 de janeiro de 1803. Era 16.º morgado do
vinculo de Oliveira, instituido em 1262.
2.º—Antonio de Saldanha d'Oliveira Ju-
zarte Figueira e Sousa, 17.º morgado de
Oliveira, gentil-homem da camara do rei D.
João VI, grão-cruz das ordens de S. Thiago e
Conceição, commendador da de Christo, em-
baixador extraordinario ao Brasil, em 4823,
commissario-real para acompanhar o sr. D.
Miguel I (quando ainda infante) em suas via-
gens, coronel do regimento de milicias: dos
voluntarios reaes de Lisboa (por elle crea-
do.) Nasceu a 16 de-novembro de 4776, e
falleceu, em Vienna d'Austria, a 3 de março
de 1825. Tinha casado, em 16 de novembro
RIO
de 1806, com sua prima, D. Maria Leonor
Ernestina de Carvalho Daun e Lorena, filha
dos terceiros marquezes de Pombal.
Foram seus filhos :
1.º—D. Maria Francisca, nascida a 21 de
março de 1809.
2.º—João, que foi o 3.º conde.
3.º—D. Maria Amelia, nascida a 11 de ja-
neiro de 1815, casou em 25 de fevereiro de
1835, com Luiz Carlos dº Abreu Bacellar Cas-
tello Branco, moço fidalgo, commendador
da ordem de Christo, deputado da extincta
junta do tabaco.
h.º— Nuno, nascido a 13 de maio de 1822.
3.º— Luiz, nascido a 30 de novembro de
1824 e fallecido a 12 de novembro de 1852.
- 3.º conde—João de Saldanha Oliveira Ju-
zarte Figueira e Sousa, 18.º morgado de Oli-
veira, par do reino em 1826, commendador
da ordem de Christo, alferes do regimento
de cavallaria de lanceiros, e ajudante de
campo do conde de Villa-Flor.
Succedeu a seu pae, a 3 de março de 1825.
Nasceu a 18 de setembro de 1811; casou a
22 de setembro de 1835, com D. Isabel de
Sousa, nascida a 12 de julho de 1813, eera
4.2 filha dos condes de Villa-Real.
Teve dois filhos :
1.º— Antonio. o conde actual.
2.º—D. Theresa, nascida a & de setembro
de 1837.
h.º conde— Antonio de Saldanha Qliveira
Juzarte Figueira e Sousa, 19.º morgado de
Oliveira, nascido em 8 de julho de 1836, e
feito conde em 13 de agosto de 1853.
Reside no seu palacio do largo da Annun-
ciada, em Lisboa.
A sr. condessa de Rio-Maior, é uma das
damas mais caritativas d'este remo. Sempre
coadjuvada por seu digno esposo, é o anjo
da caridade de todos os desvalidos; e se vé
à frente de todas as instituições que tenham
por fim o interesse dos pobres.
Tem fundado escolas catholicas, para as
dois sexos, em diferentes localidades.
Obteve do governo a concessão do mos-
teiro das carmelitas, da rua Formosa (Lis-
RIO 203
boa) e alli fundou um asylo para cégas, que
foi inaugurado em 16 de julho de 1878, com
oito cegas, mas póde conter muito maior nu-
mero.
Se a sr.: condessa não tivesse praticado
anteriormente tantas obras piedosas, que
exaltam o seu illustre nome, bastava esta
para revelar a immensa bondade do seu co-
ração, e para ser tão respeitada no mundo»
como hade ser premiada na Bemaventu-
rança.
A nobreza da sua alma bemfaseja, é muito
superior à que herdou dos seus esclareci-
dos ascendentes.
Marinha de sal
A dois kilometros ao N. da villa, em um
extenso valle, proximo ao logar da Fonte da
Bica, está esta importantissima e juntâmente
famosa marinha, unica no seu genero na Pe-
ninsula Hispanica ; pena é que não seja mais
bem explorada.
No meio do terreno occupado pela mari-
nha, estã uma nascente inexgotavel, da qual
nos mezes do estio se tira agua, por meio de
dois baldes (!) de noite e de dia, e é condu-
zida, por ordem, a cada um dos depositos,
ou compartimentos, feitos no sólo, com um
metro de profundidade, e a que chamam
talhos. Pertencem estes a diversos donos,
e valem (segundo a distancia a que se acham
da nascente) termo medio, cada talho 808000
réis.
O sal aqui produzido, é superior em qua-
lidade, e mais forte do que o sal marinho,
ou commum.
Já vimos que, em 1177, era explorada esta
marinha, e que já o havia sido'em maior es-
cala, em tempos muito anteriores.
Segundo a tradição, a marinha não era
no sitio actual, mas uns 60 a 70 metros mais
ao N., e a nascente tão pouco abundante que
apenas dava para 6 talhos, e que fazer a 3
ou & homens; não chegando o sal que ella
produzia, nem para 0 consumo das povoa-
ções circumvisinhas.
Uma pequena que andava na planicie
(hoje local da marinha) apascentando uns
jumentos, sabia que junto a uns juncos ha-
204 RIO
via uma nascente de agua, e como tivesse
séde foi alli beber, mas notou que era exces-
sivamente salgada.
Regressando a casa, deu parte d'esta cir-
cumstancia ao pae, que, junto com outros
visinhos, se foram ao juncal, e alli abriram
um poço, e quanto mais o profundavam,
maior quantidade de clorurêto de sodium
era expedida: mas a antiga nascente, secou.
Estes exploradores, trataram logo de fa-
zer talhos, e a colher optimo sal, em bôa
quantidade.
Foi-se desenvolvendo esta industria, e
hoje ha, nada menos de 400 talhos, valendo
cada um dos mais proximos da nascente
1448000 réis, e os mais remotos 144400
reis.
O poço actual (d'onde brota a agua) tem
14 metros de profundidade, e 8 de circum-
ferencia.
O sal, como o extrahido da agua do mar,
forma-se por evaporação, e, quando o calor
é mais intenso, está o sal prompto em qua-
tro dias.
Dá-se ao producto d'estas marinhas, o no-
me de sal espuma. É mui claro, secco, e bri-
lhante de tal maneira, que d'elle se formam
bellissimas pyramides e varias outras figu-
ras, como do assucar refinado de lasca, ou
de pedra.
Excede tanto em qualidade o sal commum
(marinho) que, para salgar carnes, basta
metade da porção do extrahido da agua do
mar.
É summamente saturado de muriato de
sóda, purissimo, e sem mistura de muriatos
calcareos e magnesianos, que se encontram
nos outros saes communs, e que os tornam
amargos e deliquescentes.
Saindo do logar desta marinha, está uma
vasta planicie, cuja parte mais consideravel
pertenceu aos monges bernardos de Alco-
baça, e o resto a particulares. Aqui, No si-
tio chamado Marinha Velha (onde primei-
ramente se colheu sal) ainda nos estios se
fórmam à periferia bellissimos crystaes de
muriato de sóda.
Neste sitio, sobremaneira infertil, appa-
rece com vigorosa vegetação, a Salsola-Kali,
de Linneu, e algumas das outras plantas pro-
RIO
prias das visinhanças do mar, e das cinzas
das quaes se faz a sóda ou barrilha.
“Gruta das Alcobertas
Esta maravilha da natureza, talvez sem ri-
val na Europa, fica proximo à aldeia das Al-
cobertas.
Não posso dar d'ella melhor descripção,
do que resumindo o que o sr. Bernardino
Arede Soveral publicou no n.º 127 do Dia-
rio Ilustrado de 4 de novembro de 1872.
Peço desculpa ao sr. Soveral por cortar
as bellezas da dicção com que adornou o seu
bello artigo, mas um diccionario, a não se
descrever tudo sem jflures de rhetorica, en-
fadaria os leitores, e augmentaria inconve-
nientemente o volume da obra.
Eis o resnmo da descripção do sr. Sove-
ral:
«A dois kilometros da povoação, começa
a levantar-se o dorso da serra: é ella toda
cintada com fiadas de pedras, similhantes à
extensissimos degrãos de uma escada de gi-
gantes, e de tal modo a. prumo, que, apesar
de galgarmos com ancia tão ingreme subida,
gastâmos n'esta tarefa quasi meia hora e
quasi tambem as forças.
Accenderam-se portanto, e distribuiram-
se os brandões de cera que levavamos. Bem
depressa a luz do dia desappareceu, e esta
especie de procissão caminhava à luz das
tochas. Eramos ao todo 9 pessoas.
Tinhamos caminhado uns 15 a 20 metros,
e a gruta já tinha uma capacidade de 3 me-
tros de alto e 2 de largo : nas paredes d'ella
começavam a apparecer camadas de diver-
sas crystalisações, que similhavam um fôrro
de musgo; mas tão branco e transparente,
como se uma camada de neve, em manhã
d'inverno, houvesse cahido por cima delle,
conservando-lhe a fórme ramosa. Era lindo
ver como as. nossas luzes faziam refulgir
uns reflexos cambiantes d'aquelles grumos
apparentes de um orvalho gelado.
Tenho visto algumas das grutas que ha
no paiz. Li na excellente obra de Adolphe
Joanne (Voyage illustrée dans les cing par-
acniaraá
RIO
ties du monde) as descripções de diversas
grutas, e não encontrei alli, como na gruta
que descrevo, tantas, tão variadas é tão im-
ponentes crystalisações, em uma distancia
de mais 300 passos, com abobadas de cinco
a nove metros de altura, recamadas ds es-
talagmites admiraveis pelo volume, pelas cô-
res, pela transparencia e pelo brilho. É real-
mente surprehendente o ver como das pare-
des da galeria brotam umas crystalisações
como se fosse vegetação de marmore e vidro,
aflorando aquellas superficies perpendicula-
res; outras vezes, pousando aquelles ornatos
sobre uns degraus que vão esconder-se nos
franjados que pendem dos extremos da-abo-
bada: faz parecer que uma cascata acabava
de se gelar n'aquelle momento.
A gruta das. Alcobertas tem de extensão
240 metros: a galeria d'ella tem algumas
curvas, e a não ser necessario subir e des-
cer em trez logares, a 2 e 3 metros de altu-
ra, podia caminhar-se até ao fim em um
plano quasi horisontal. Não é necessario des-
cer a perigosas profundidades, como na fa-
mosa gruta das fadas, na cordilheira da Se-
rane, onde Cimaroza, e Rossini, descendo ao
abysmo do monte Tharene, e escutando os
sons das. harpas eolicas, recebiam, das cor-
rentes do vento, lições de harmonia. Esque-
ceu-me levar uma bussola para conhecer a
direcção da galeria, mas pareceu-me que se-
guia o dorso da montanha, para o lado do
Sul.
A gruta contém quatro grandes salões, 0
ultimo dos quaes, é colossal: em toda a ga-
leria não ha o menor espaço de pedra nua ;
a abobada e lados d'ella, a não terem algu-
mas agglomerações de crystal de rocha, po-
dia dizer-se que eram completamente forra-
das de crystaes, de carbonato de cal, colori-
dos, brancos, opacos ou transparentes, e por
isso, despertando sempre a curiosidade, pela
variedade dos quadros que apresenta.
Em alguns dos intervallos dos quatro sa-
lões, ha umas curvas com uns porticos as-
similhando diversas entradas para outras
galerias. Apparecem alli, em um d'elles, uns
cortinados, pendentes de uma especie de ar-
chitrave, e assimilhando as pregas e apanha-
dos de tecidos, encorpados, dando reflexos
RIO 205
como se fossem bordados de lantejoulas. Em
outros, nota-se a similhança de bambinellas,
que ora se escondem para o centro de lar-
gas fendas cavadas nos flancos da rocha,
cheias de sombras que resistem à força das
nossas luzes; ora deixando apparecer na altu-
ra de 5 a 18-decimetros um agrupamento de
columnas alvissimas, de diametro entre um
e tres decimetros. Aquellas tapecerias con-
sistem de uma lindissima aggregação de
crystalisações calcareas, tão unidas e lizas,
que o lapis mais experiente, não assombra
com tanta suavidade, as voltas do encanu-
dado de um formoso pavilhão. Ninguem dirá
que teem a dureza da pedra, aquelles apa-
nhados de pregas, de dois e trez metros de
altura, coloridos diversamente por via das
infiltrações de almagre, que alli ha em abun-
dancia, e, mais ou menos saturados pela côr
vermelha delle, formando um contraste ad-
miravel sobre a brancura das columnas.
O primeiro salão que eu denominei—dos
orgãos—é um dos qne mais me encantou.
Tem quasi cinco metros de alto, e quatro de
largura : nos lados e frente levantam-se uns
porticos em ogiva, de aberturas e ornatos di-
versos.
Notam-se alli desde a cupula até à base,
ao lado esquerdo de quem vae, umas lami-
nas separadas parallelamente por interval-
los desde dois decimetros até dez centime-
tros, que se asaimilham a uns bastidores
colossaes, de uma superficie aparentemente
lapidada, e de uma espessura de 5 a 8 cen-
timetros: póde introduzir-se por entre ellas
um braço, e por isso collocámos algumas das
“nossas luzes na lombada, deixe-me assim di-
zer, d'aquelle enorme livro meio aberto ; &
que lindo effeito isto produzia! Alguns de
aquelles diaphragmas, apesar de bem espes-
sos, teem muita transparencia, e deixam coar,
entre as luzes, uns reflexos açafroados, lin-
dissimos.
Outros de maior espessura, e com aber-
turas eguaes, parecem os tubos perpendicu-
lares de um magestoso orgam, e com a nota-
vel circumstancia de que, batendo-lhe leve-
mente, davam uns sons prolongados, e muito
similhantes aos que são vibrados por um re-
logio em que a mola substituiu a campainha.
206 RIO
Entre este 1.º e 0 2.º salão que eu deno-
minei—das estatuas—é mister passar, su-
bindo e depois descendo, por cima de um ro-
chedo admiravel, e que mede apenas metro
e meio de elevação.
Surprehendeu-me a quantidade de fulgor
dos lampejos que se despediam da superficie
deste penhasco, quando se fazia oscillar
diante delle uma luz. Aquella pedra tem
uma superficie escura e aveludada; parece
forrada de feltro, e sendo este comprimido
pela mão, abate-se, e os lampejos desappare-
tem. Todavia creio que reapparecem; porque
aquella pedra tem sofírido muitos attrietos,
na passagem dos que visitam a gruta, e nós
encontramol-a radiante dos seus crystaes,
e tão brilhantés que pareciam milhões de
pyrilampos a esvoaçar pelo meio das som-
bras.
A poucos passos do indicado penedo, en-
contra-se o 2.º salão—o das estatuas: elle
tem um não sei que de triste. É um ambito
curvo, de extensão aproximada a 11 metros,
conservando uma largura de à metros, e 6
de altura. Ao approximar-nos deste recinto,
parece que do centro das sombras se leyan-
tam aqui e alem, umas estatuas, à altura de
4 metro e metro e meio.
Aquelles vultos são de uma apparencia tal,
que é necessario vel-os de perto para crêr
que o cinzel do estatuario não andou por
alli esboçando figuras humanas.
Aquellas estatuas, deixem-me assim cha-
mar-lhes, estão em semi-circulo, e no eixo
da curva, ha uns penhascos tambem cober-
tos de crystalisações; porém, com quanto
muito resplandecentes, assentam n'uma su-
perficie escura, e entre elles ha umas aber-
turas elipticas, que dão a apparencia de ar-
cadas, além das quaes tudo são sombras.
Pareceu-nos este logar a parte central das
abobadas subterraneas, proximas a Seringa-
patan, onde existem os mausoleos das dy-
nastias musulmanas de outras eras.
O 3.º salão designei-o—A cathedral;—por-
que se assimilha às ruinas de um templo
grandioso, conservando-se ainda de pé uns
restos surprehendentes que attestam a sua
primeira magnitude.
O espaço é oblongo ; tem 6 metros desde
RIO
a base até à abobada, e na sua maior lar-
gura 5 metros.
De um lado vê-se uma rocha elevada,
do volume e feição de um pulpito. As pa-
redes, recaiadas com innumeraveis erysta-
lisações de uma belleza que não póde des-
crever-se, estão fendidas a prumo, assimi-
lhando gradamentos meios destruidos.
A um dos lados vê-se uma saliencia na
rocha, com uns córtes tão em esquadria que
fazem parecer um altar, sobre o qual se
alonga uma especie de docel, do qual pen-
dem, à altura de 4 metros, umas curvas orla-
das de franjas, compostas de pequenos tubos
com a transparencia cambiante de madrepe-
rola, e terminadas por umas gotas d'agua,
que de espaço .a espaço descem a luzir até
ao solo, constituindo uma perspectiva im-
possivel de pintar.
Dos outros lados d'este salão, pendem,
junto à abobada, uns ornatos, como capiteis
corinthios, com as suas folhas de acantho, e
pousando sobre umas columnas, brancas
como jaspe, parte das quaes parecem que-
bradas pelo meio, e parte veem-se estendi-
das entre pequenos montes de crystal de ro-
cha.
Fazem lembrar aquellas esplendidas crys-
talisações, os delineamentos da architectura
phoceana, similhante à que os Egypeios em-
pregaram no templo de Karnac.
O 4.º e ultimo salão é enorme, e fechado
por uma grande cupula de 6 metros de dia-
metro, na altura de 9 metros!
Alli, o sr. Germano do Souto, nosso intre-
pido companheiro, subiu a um rochedo de
4 metros de altura, que está a um lado, e
levantou a luz do seu brandão. A oscillação
della com as de todas as nossas tochas, for-
mava um conjunto de reflexos tão bellos,
que a mente mais opulenta de ficções gran-
diosas, por muito prevenida que estivesse»
havia de extasiar-se alli, e conhecer que a
descripção mais cheia de pompa, não ia além
dos traços de uma miniatura imperfeita.
Lembrei-me n'aquelle enorme subterraneo
do infeliz Francisco I. Caldas, morto na Boli-
via pelas commoções politicas, porque me
veio à mente a descripção que elle faz da fa-
mosa caverna Guaya Suma, proximo ao gi-
RIO
gantesco Chimboraso, na cordilheira dos
Andes.
N'este 4.º salão, ha, na sua maior altura,
duas grandes aberturas ellipiticas, que in-
dicam o seguimento de outras galerias.
Não fomos lá; porque não só faltava es-
cada propria para hir áquella altura; mas
tambem porque ninguem se afoitára ainda
a hir além do ponto aonde nós fomos. Con-
ta-se que um explorador ousado, quiz ten-
tar a investigação do resto da gruta, mas fi-
cou transido de terror, pelos precipícios que
vira, e desistira do intento.
É possivel que seja isto verdade, e effe-
ctivamente quem intentar a exploração do
resto da gruta, deve munir-se de cordas e
bons companheiros, sondando com toda a
cautella a solidez do fundo das galerias, e
verificando de espaço a espaço se 0 ar é no-
civo à respiração.
RIO-MÁU — freguezia,. Minho, comarca e
concelho de Villa-Verde (foi do concelho de
Penella, comarca de Pico de Regalados,
extinctos) 25 kilometros ao N. de Braga, 385
ac N. de Lisboa 160 fogos.
Em 4757, tinha 102 fogos.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
Orago, S. Martinho, bispo.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
6803000 réis de rendimento annual.
É terra muito fertil. Cria muito gado; é
abundante de madeiras, e nos seus montes
ha muita caça.
Esta freguezia é dividida da de Goães e
Duas Egrejas pelo rio Neiva, que nasce na
freguezia de Gondinhaços, tendo a sua ori-
gem nas vertentes do monte Oural.
RIO-MAU ribeiro, Douro, nasce na fre-
guezia de Silva-Escura, concelho de Sevêr
do Vouga. Passa junto das grandes mi-
nas do Braçal, e entra na direita do Vou-
ga.
RIO-MAU-—ribeiro do Minho. —Nascia no
Monte-Negro, e regava uma villa (casa de
campo) tambem chamada Rio Máu, e pas-
sando junto à egreia do mosteiro de Santo
Estevam, desaguava no rio Sanguinhêdo.
“Este ribeiro mudou de to e ignora-se
qual tem hoje.
RIO 207
Vem mencionado no livro Fidei, do car-
torio do arcebispado de Braga.
Ha em Portugal varios ribeiros com o
nome de Rio-Máu, mas não merecem men-
ção n'esta obra, por serem de pouca impor-
tancia.
RIO-MAU—bonita aldeia, Douro, na fre-
guezia de Sebollido, concelho de Gondomar,
comarca, districto, bispado e 32 kilometros
a E. do Porto, sobre a direita do rio Douro.
Dá-lhe o nome um pequeno ribeiro que
lhe passa ao O., e alli mesmo desagua no
Douro.
Tinha uma pequena capella, dedicada à
Santo Antonio, muito antiga. O sr. Amorim,
natural d'esta aldeia, e que enriqueceu no
Brasil, a reconstruiu à sua custa, em 1860,
dando-lhe maiores proporções, e tornando-a
uma magnifica ermida.
Faz-se uma grande festa ao seu PR,
no dia 13 de junho.
Esta aldeia fica em frente da povoação e
freguezia de Pédorido, no concelho do Cas-
tello de Paiva (margem esquerda do Douro)
e é no areal (arinho) de Pédorido que os de
Rio-Mau vem fazer as suas grandes pesca-
tias de deliciosos saveis e saborosissimas
lampreias, no tempo proprio.
O rio Douro lhe produz ainda outras mui-
tas variedades de peixe, de optimo sabor,
principalmente trutas, que são das melhores
do reino. Em 1846, vi uma que tinha trez
palmos de comprimento ! (0m,66.)
RIO-MÁU — freguezia, Douro, comarca,
concelho e 7 kilometros a N.E. de Villa do
Conde (foi da mesma comarca, mas do con-
celho da Póvoa de Varzim) 20 kilometros
ao O. de Braga, 340 ao N. de Lisboa, 300
fogos.
Em 1757, tinha 152 fogos.
Orago, S. Christovam.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
tractivo do Porto.
O prior de conegos regrantes (cruzios) o
S. João da Junqueira, apresentava O viga-
rio, que tinha 604000 réis de congrua e o
pé d'altar.
É n'esta freguezia a quinta de Várzea,
que anda unida á de Gavalleiros, e das quaes
é actual proprietario o sr. D. Rodrigo José
208 RIO
de Menezes, feito conde de Cavaleiros, em
17 de novembro de 1865.
A quinta fica perto da aldeia do Casal-
Novo, na estrada de Braga à Póvoa de Var-
zim.
Esta freguezia fica perto da de Rates, e
foi, em tempos antigos, da comarca de Bar-
cellos.
Houve aqui um mosteiro de conegos re-
grantes de Santo Agostinho (cruzios) muito
antigo. Ignora-se a data da sua fundação,
mas sabe-se que ja existia em 4122, pois
n'esse anno lhe doou D. Ouzenda Soares, fi-
lha de Soeiro Mendes ! uma herdade que ti-
nha junto ao rio Ave.
(Vide Rio Tinto, o 1.º)
Em 4488, uniu o arcebispo de Braga, D.
Fernando da Guerra, este mosteiro ao da
Jungueira (que é a 3 kilometros de distan-
cia) por breve do papa Martinho V.
Poucos annos depois, passou a abbadia
secular, apresentada pelos cruzios de S. Si-
mão da Junqueira.
É terra muito fertil. Gado, caça e peixe
do rio Ave, que fica perto, e do mar." .
Está a freguezia situada na margem direita
do rio Éste (ou Déste) em um pequeno valle
ao O. da serra de Rates (onde ha minas de
ferro) a maior parte da qual, é dentro dos
limites d'esta freguezia. Do alto desta serra
se gosa um vasto e bello horisonte, vendo-se
tambem uma grande extensão do Oceano
Atlantico.
Parece que o nome d'esta freguezia pro-
cede do rio Éste, por ser n'estessitios muito
tortuoso ; mas segundo a tradição, deu-se-
lhe o nome de Rio-Máu, por que por baixo
delle ha profundas cavernas e galerias, de-
fendidas por dragões, serpentes e outros bi-
Xarocos medonhos, que guardam thesouros
encantados, de grande valia.
A egreja matriz está situada quasi na ex-
tremidade S.0. da freguezia, em logar hu-
1 Esta doação me confirma mais na opi-
nião de que o famoso Gonçalo Mendes da
Maia (o lidador) era natural da freguezia da
Retorta, que fica perto d'esta, e sobre o ANE.
(Vide Guilhabreu e Retorta. y
RIO
mido e acanhado : a sua architectura denota
grade antiguidade. É toda de cantaria, e a
abobada e pavimento da cápella-mór, são
de granito.
Ao lado do altar-mór, estã uma inscri-
pção que diz :
FOI FEITA ESTA EGREJA, EM 1135
mas esta inscripção é muito mais moderna
do que o templo: foi copiada de umas in-
seripções que se acharam por detraz da tri-
buna, das quaes já pouco se podia ler. A
mais bem conservada, ainda existe; mas não
a psoso dar como é, por ter letras dobradas»
e não haver hoje typos similhantes.
Depois de muito estudar esta inscripção
pude conseguir lêr o seguinte:
IN ERA
D CXXX V
PERUS DE...
«.. DECANUS
«- MOST.º P...l
O abbade do mosteiro da Junqueira, man-
dou reedificar esta egreja, no reinado de D-
Pedro 1 (14357 a 1362) e foi então que se
achou a lápide com a inscripção anteceden-
te, é que se gravou em uma pedra da ca-
pella-mór a data da fundação da egreja,
como atraz fica dito. ) ,
O povo acredita que esta egreja foi con-
struida pelos mouros, para sua mesquita; mas
ha uma circumstancia que destroe esta cren-
ça—qual é—os mouros não consentiam nos
seus templos, ou mesquitas, figuras de ho-
mens ou animaes, e nos capiteis das colum-
nas veem-se grupos de carrancas, bustos e
cariatides, o que faz suppor que mais facil-
mente se póde attribuir esta construcção aos
romanos do que aos mouros.
Accresce que, é facil de ver que o côro,
pulpito e sachristia são mais modernos do
que o resto do templo, e que no logar da
actual tribuna houve uma ára, toda de pe-
dra, que ainda existe na rectaguarda do al-
tar-mór. Esta circumstaneia e a solidez e
1 Purificavit ?—Já se vê que esta inscri-
pção diz 635, e não 14135. Vide a nota da co-
lumna seguinte.
RIO
sumptuosidade (para aquelles temp9s) do
templo nos levou a acreditar que é obra ro-
mana.
É verdade que nas paredes se veem algu-
mas cruzes, em relevo, e estatuas de bispos
catholicos, mas isto não prova que o templo
fosse originariamente romano. A minha opi-
nião (que não obrigo ninguem a seguir) é
que este templo foi originariamente romano.
Em 635—que é a verdadeira data da ins-
cripção, e não 1135, como entendeu quem
poz a inscripção, no seculo 14.º—e nos rei-
nados de Swintila e Sézinando! desappare-
ceram da Peninsula os ultimos romanos. É
pois muito provavel que este templo romano
fosse purificado, ? e convertido em egreja
christan, em 635, e se considerasse esta data»
como a da sua fundação. As cruzes e as es-
tatuas dos bispos, podiam muito bem alli
serem collocadas quando se reconstruiu a
egreja, no reinado de D. Pedro I.
Os religiosos da Junqueira—freguezia vi-
sinha—mesmo depois do mosteiro de Rio-
Mau ser reduzido a abbadia secular, sempre
ficaram padroeiros delle, e aqui vinham al-
gumas vezes cantar os ofíicios divinos, e to-
dos os annos receber os dizimos da fregue-
zia, que eram d'elles.
A egreja tem a sufficiente capacidade para
conter o povo da freguezia. A porta princi-
1 Swintila (Flavio Swintila) filho de Fla-
vio Ricaredo I, rei dos gôdos, foi acclamado
em 621. Era um intrepido guerreiro, e opti-
mo general. Foi elle que expulsou completa-
mente os romanos da Peninsula (note-se isto)
e foi um dos melhores reis do seu tempo ;
porem as suas victorias, e prosperidades, o
encheram de orgulho, e o transformaram
em um abominavel vicioso ; pelo que os gô-
dos o expulsaram do throno (com ajuda dz
Dagoberto, rei de França) em 636 (note-se
ainda esta data) e acclamaram Sizinando,
que convocou o 4.º concilio de Toledo, onde
se acharam 72 bispos catholicos. Succedeu-
lhe seu irmão, Chintila, que convocou o 3.º
e 6.º concilio de Toledo.
(Swintila (o rei deposto) se retirou para à
Galliza, onde ainda viveu 10 annos, comple-
tamente abandonado.
2 E é provavelmente o que significa a ul-
tima letra da inscripção, como já fica dito.
RIO 209
pal é para o lado do mar (0.) e está res-
guardada por um alpendre, ao lado do qual
está um pequeno e tosco campanario, com
um unico sino. :
Tanto a porta principal da egreja, como
as duas lateraes, são ornadas de columnas e
arcos concentricos, de bôa esculptura.
Desde a sua primíttiva construcção, tem
sofírido varias reformas: a parte superior
da fachada, foi reconstruida em 1742, se-
gundo se vê dê uma data alli gravada. Foi
então que se demoliu o antigo campanario
que alli havia, e se fez o actual.
Em 41854, quando se reformou a tribuna,
appareceu, em pedaços, uma imagem do pa-
droeiro, feita de pedra, e, provavelmente, a
primeira que teve esta egreja. Foi collocada
em um nicho, atraz da egreja.
Por esse mesmo tempo appareceu, enter-
rada no ádro, uma sepultura de pedra, de
1=,87 de comprido (oito e meio palmos) e
já antes d'isso se tinham achado outras. Al-
gumas foram destruidas, outras estão ser-
vindo de pias para lavar roupa, junto aos
póços dos quintaes de alguns particulares.
Junto à egreja está a residencia parochial,
e a tulha onde os frades da Junqueira reco-
lhiam os dizimos d'esta freguezia e da dos
Arcos, que é visinha.
A
A freguezia ê cortada por uma nova es-
trada a mac-adam, perfeitamente conserva-
da, que liga a povoação com Villa do Conde,
Povoa de Varzim, e Villa-Nova de Famali-
cão. É muito concorrida, sobre tudo na
época dos banhos do mar.
Desde agosto de 1875, tem caixa do cor-
reio, no logar da Estrada, para o transporte
das cartas d'esta freguezia e circumvisinhas.
Dou os mais sinceros agradecimentos ao
reverendo sr. padre Antonio Domingues Fer-
reira, d'esta freguezia, pelos curiosos apon-
tamentos que se dignou mandar-me, os quaes -
me habilitaram a fazer este artigo mais com-
pleto.
RIO-MEÃO—freguezia, Douro, comarca e
concelho da Feira, 23 kilometros ao S. do
Porto, 295 ao N. de Lisboa, 250 fogos.
210 RIO
Em 1757, tinha 109 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Bispado do Porto, districto administrativo
d'Aveiro.
-O commendador (da ordem de Malta) de
Rio-Meão, apresentava O reitor, que tinha
1158000 réis.
Situada em terreno pouco accidentado e
fertil, regado em parte pelo ribeiro do seu
nome. Ha n'esta freguezia muitos pinheiraes,
dos quaes se extrae muita madeira e lenha,
que vae para o Porto e outras localidades.
Ha aqui um monstruoso pinheiro manso
secular, que é uma maravilha do reino ve-
getal. O pinheiro de Rio-Meão é por isso fa-
moso muitas leguas em redor.
Os povos d'esta freguezia tinham os gran-
des privilegios e isenções de caseiros de
Malta, e entre as suas regalias avultavam as
de não darem soldados, senão quando o rei
em pessoa fosse à guerra; e de não poderem
ser citados fóra do seu domicilio.
RIO MOURINHO—Vide o artigo—Frades
paulistas—no 6.º vol., pag. 495, col. 1.º
RIO-REAL—pequeno rio (ribeiro) Extre-
madura.—Passa junto e a E. da villa d'Obi-
dos; na sua margem do N.,e a uns 400 me-
tros da ponte que o atravessa, ha uma nas-
cente d'agua thermal hydrogenio-sulphurada.
que rebenta em quantidade de duas ou trez
telhas.
Antigamente nascia esta agua na base de
um rochedo de marmore, que fica a E., en-
tre este sitio e a famosa egreja do Senhor da
Pedra; mas, seccando alli, foi rebentar um
pouco mais acima, no sitio actual.
Esta agua, em tudo similhante à das Cal-
dal da Rainha, é apenas menos pura. O seu
grau de temperatura—ao sahir da nascente
—é de 74º F., ou 181/, R.—Póde ser appli-
cada em banhos, ou internamente.
RIO-SÉGCGO—freguezia, Beira Baixa, con-
eelho d'Almeida, comarca de Pinhel (foi do
mesmo concelho, mas da comarca do Sabu-
gal) 96 kilometros de Lamego, 350 ao E. de
Lisboa, 130 fogos.
Em 4757, tinha 147 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Bispado de Pinhel (foi do bispado de La-
mego) districto administrativo da Guarda.
RIO
O papa e a mitra apresentavam alternati-
vamente o abbade, que tinha 2002000 réis de
rendimento.
O nome desta freguezia provem do pe-
queno rio que nella nasce.
(Vide Rio-Sêcco, rio.)
É povoação muito antiga. A primeira no-
ticia que encontrei d'esta terra, foi uma
carta de povoação da herdade do Rio-Sêsco,
passada no anno de 1222, por D. Affonso II.
N'esta carta se estipula que—ausentan-
do se algum dos povoadores, entregue o seu
casal ao visinho mais proximo, que pagará 0
devido foro; e que o colono volte—ad suum
casale ad tres annos. Et si aliquis reliquenit
suum casale, et non Saboraverit illud duos
annos, in tertio perdat suam facturam.
Esta freguezia está no termo da villa de
Castello-Rodrigo. Em tempos antigos, foi da
comarca de Pinhel; depois, passou para a de
Trancoso, depois, para a do Sabugal, e por
fim tornou para a de Pinhel.
Viscondes de Rio-Sécco
O seu 4.º titulo foi o de barão de Rio-
Sêcco, dado por D. João VI (no Brasil) em
12 de outubro de 1812.
- O titulo de visconde, foi lhe dado pelo
mesmo monarcha, ainda residente no Rio
de Janeiro, em 6 de fevereiro de 1818.
O primeiro imperador do Brasil, lhe deu
as honras de grandeza, em 9 de janeiro de
4827. -—
O 4.º barão e 1.º visconde do Rio-Sêcco,
foi Joaquim José d'Azevedo, senhor da villa
de Macahé (Brasil) alcaide-mór de Santos
(Brasil) commendador das ordens de Chris-
to, Conceição e Torre-Espada ; escrivão dos
filhamentos, ithesoureiro da casa real e da
real capella, almoxarife dos paços reaes,
comprador das guardas-roupas do paço, da
coroa e das cavallariças reaes, fiel do bolsi-
nho, tudo durante a estada de D. João Vino
Brasil; e depois—grande do imperio, pri-
meiro marquez de Jundiahy, porteiro-mór
do primeiro imperador do Brasil, e por este
feito commendador das ordens da Rosa e do
Cruzeiro.
RIO
Nasceu a 12 de setembro de 1761, e fal-
leceu no Rio de Janeiro, a 7 d'abril de 1835.
(Já se vé que não quiz regressar à patria
com o seu rei, e que se fez brasileiro.)
Casou a 4.º vez, em 17 de abril de 1787,
com D. Maria Carlota Millard, que havia nas-
cido em 1773, e morreu no Rio de Janeiro
em 45 de abril de 1831—e a 2.º vez, casou
com D. Marianna da Cunha Pereira, filha
dos primeiros marquezes de Inhambupe, no
Brasil. D'este segundo matrimonio não teve
filhos. Do primeiro teve cinco, que foram :
4.º— Ignacio Bento, que morreu no Rio de
Janeiro.
2.º—D. Maria Carlota, que casou duas
vezes e teve geração.
3.º—João Carlos, que foi o segundo vis-
conde.
hº—D. Maria Zeferina, viscondessa do
Geraz de Lima, nascida a 26 de agosto de
1801.
9.º—D. Maria Magdalena, condessa
Éga, que nasceu a 25 de maio de 1805.
da
2:º visconde—João Carlos d' Azevedo, tam-
bem 2.º barão do mesmo titulo, alcaide-mór
d'Evora, commendador da ordem de Chris-
to, nascido a 4 de novembro de 1790.
Casou a 20 de dezembro de 1818, com D.
Maria Gertrudes Rosa Pereira Caldas Ma-
chado, nascida a 23 de fevereiro de 1799.
Era filha de Antonio Francisco Machado,
fidalgo da easa-real, do conselho de sua ma-
gestade, commendador da ordem de Christo,
coronel de milicias—e de D. Anna Maria
Cleofa Pereira Caldas.
Tiveram quatro filhos:
1.º—D. Anna Carlota, nascida a 16 de ou-
tubro de 18149.
2.º—Joaquim, 3.º visconde.
3.º — Antonio Francisco d'Azevedo, que
nasceu a 17 de março de 1823.
hº—D. Maria Luiza, nascida a 25 de
agosto de 1825.
9.º—João Carlos d'Azevedo, nascido a 19
de fevereiro de 1828.
3.º visconde e 3.º barão de Rio-Sécco— |
com honras de grandeza—Joaquim José de '
RIO 211
Azevedo, nascido a 30 de setembro de 1822,
e feito visconde em 44 de maio de 1861.
Morreu repentinamente, estando no club
Lisbonense, em 3 de agosto de 1876, de uma
congestão cerebral.
Tinha casado, em 7 de junho de 1852, com
a sr.* D. Maria Gertrudes Machado, filha dos
primeiros viscondes de Benagazil, que ainda
vive. Deixou descendencia.
O visconde do Rio-Sécco (o 3.º) era um
cavalheiro de muita illustração, e um per-
feito homem de bem; digno descendente dos
seus esclarecidos antepassados, ainda era
mais nobre pelas suas acções. Deixou inde-
level saudade em quantos tiveram a honra
de o conhecer e tratar.
RIO-SÉCGCO —ribeiro, Beira Baixa. —Nas-
ce na freguezia antecedente, e lhe dá o no-
me. Até ao sitio das Juntas, limite da Ver-
miosa, conserva o nome de Rio Sécco e d'ahi
em diante toma o de Ribeira d' Aguiar, até
desaguar na margem esquerda do Douro,
no sitio chamado Calábre, com 35 kilome-
tros de curso.
Rega, móe e traz peixe miudo.
RIO-SÊCGCO—Vide Pontido.
RIO-TINTO —freguezia (teve foro de villa)
Douro, concelho de Gondomar, comarca,
districto administrativo, bispado e 6 kilo-
metros ao E.N.E. do Porto, 315 ao N. de
Lisboa, 1:200 fogos.
Em 1757, tinha 640 fogos.
Orago, S. Christovam.
(Em 1700 pertencia à comarca de Pinhel.)
Os monges benedictinos, do Porto, apre-
sentavam, in solidum, o vigario, que tinha
4008000 réis de rendimento annual.
Houve aqui um mosteiro de freiras agos-
tinhas (eremitas de Santo Agostinho, ou gra-
cianos) fundado em 1062, por D. Diogo Tru-
ctezendes, e seus filhos, Tructezendo Dias,
Gonçalo Dias, e Unisco Dias, que o dotaram
com grandes rendas, e com o padroado de
12 egrejas.
Sendo abbadessa D. Hermezinda Guterres
(1141) D. Affonso Henriques coutou o mos-
teiro e suas dependencias, pela quantia de
500 maravidis de ouro, que lhe deu a abba-
dessa.
Na freguezia de Moreira (da Maia) havia
212 RIO
um mosteiro de cruzios, que no seu princi-
pio era de frades e freiras; mas como esta
circumstancia trazia comsigo muitos incon-
venientes, foram as freiras mudadas para 0
mosteiro de Rio -Tinto, levando grande parte
das rendas do de Moreira. (Para evitarmos
repetições, vide Moreira, da Maia, no 5.º vol.,
pag. 544, col. 2.º)
Em 14535 foram as freiras de Rio-Tinto»
unidas às de S. Bento da Ave-Maria, do
Porto, levando todas as suas propriedades e
rendas, e mudando a regra agostiniana para
a benedictina. 1
O mosteiro de freiras bentas, do Porto, foi
fundado pelo rei D. Manuel, em 1518. Seu fi-
lho, D. João III, concluiu a obra, em 1528.
(Vide no 5.º vol, pag. 43, col. 4.2,a palavra
Malhos—e no 7.º vol., a col. 2.º de pag. 295.
O nome d'esta freguezia, provem-ihe de
um ribeiro que alli passa, denominado Rio-
Tinto. (Para evitarmos repetições, os que de-
sejarem saber a razão porque assim se chama
o tal ribeiro, vejam o que digo no 2.º perio-
do da col. 1.º de pag. 60, do 2.º vol.)
Vindo do real mosteiro d'Arouca, em ro-
maria a Nossa Senhora da Silva, a rainha
Santa Mafalda, filha de D. Sancho I, aqui fal-
leceu, no 4.º de maio de 1290.2 Foi depois
transferida para o seu mosteiro.
1 A pag. 154, col. 1.2 d'este volume, tra-
tando da freguezia da Retorta, disse eu que
se não sabia como esta freguezia veio a per-
tencer as freiras benedictinas, do Porto. No
texto deixo explicada a razão.
A freguezia da Retorta era em 1422, uma
quinta da freguezia de Azuréra, pertencente
a D. Ouzenda Soares, que a deu nesse anno
aos cruzios de Moreira, quando deu outra
herdade aos cruzios, da Junqueira. Ambas
estas propriedades eram na margem esquer-
da do Ave. (Vide o ultimo Rio Máu.)
A propriedade da Retorta foi uma das que
em 4535 passou para o mosteiro do Porto.
2 Alguns escriptores dizem que ella mor-
reu em 2 de maio de 4250, o que ê erro,
porque a Chronica de Cister (que merece
mais credito) designa positivamente a data
do texto. Todos sabem que a Santa Roinha,
foi para o seu mosteirojde Arouca, em 1290,
e vivendo alli 70 annos, já se vê que falleceu
em 1290.
RIO
(Vide o 1.º vol., pag. 238 F. F., col. 4.,no
ultimo periodo e seguintes.)
Ha n'esta freguezia uma grande romeria,
que se faz todos os annos a 8. Bento no dia
11 de julho, e dura trez dias. Denomina-se
S. Bento das Pêras.
Ha então comboios a preços reduzidos,
porque em Rio-Tinto é a primeira estição
dos caminhos de ferro do Minho e Douro.
É uma festividade esplendida e concorri-
dissima, vindo não só grande numero de ha-
bitantes do Porto, como de muitas leguas em
redor.
Vide vol. 3.º, pag. 220 col. 1.2 na palavra
Fosso.
RIO-TINTO —- freguezia, Minho, concelho
de Espózende, comarca de Barcellos, 27 ki-
lometros ao O. de Braga, 360 ao N. de Lis-
boa, 100 fogos.
Em 41757, tinha 65 fogos.
Orago, Santa Marinha.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
3908000 réis de rendimento.
Foi abbade d'esta freguezia, Joao Ignacio
Magalhães Malheiro, que falleceu em Bar-
cellinhos, no fim de setembro de 1876, com
103 annos de edade. Conservou o seu juizo
até ao ultimo momento. Ainda no dia 7 do
dito mez, tinha assignado, sem oculos (!) uma
escriptura; e, até novembro de 1875, desem-
penhou perfeitamente todas as obrigações
parochiaes do seu cargo.
É terra muito fertil em todos os generos
agricolas do nosso paiz, e cria muito gado
| de toda a qualidade. Ha uma grande abun-
dancia de sebolas, que exporta para diffe-
rentes localidades.
Tomou o seu nome de um ribeiro, afluen-
te do Cávado, que passa por esta freguezia,
e que tem o seu nome.
Para se evitarem repetições,
veja-se Fonte-Bôa
RIO-TORTO—freguezia, Beira Baixa, co-
marca e concelho de Gouveia, 90 kilometros
de Coimbra, 280 ao N.E. de Lisboa, 205 fo-
gos.
Em 1757, tinha 1014 fogos.
RIP
Orago, S. Domingos.
Bispado e districto administrativo da
Guárda.
O prior de S. Julião, de Gouveia, apre-
sentava o cura, que tinha 82000 réis de
congrua e o pé d'altar.
O seu primeiro orago foi Santa Maria.
É parochia muito antiga, mas o docu-
mento de data mais remota que encontro
della, é de 1269. Nºeste anno, o mosteiro de
S. Pedro das Aguias, deu foral à villa de
Vallença do Douro, dividindo a terra em 24
casaes. Os monges ficaram obrigados a dar-
lhes clerigos que lhes dissessem missa de 15
em 15 dias, em Santa Maria de Rio-Tôrto,
e n'esta mesma egreja lhes administrassem
Os sacramentos, trez vezes por anno.
É terra fertil.
RIO-TORTO—freguezia, Extremadura, co-
marca e concelho d'Abrantes.
Vide Miguel de Rio-Torto (S.)
RIO-TORTO — freguezia, Traz-os-Montes.
comarca e concelho de Valle de Paços (foi
do mesmo concelho, mas da comarca de
Chaves) 95 Kilometros ao N.E. de Braga,
365 ao N. de Lisboa, 150 fogos.
Em 4757, tinha 80 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Arcebispado de Braga, e districto admi-
nistrativo de Villa Real.
A mitra apresentava 0 reitor, que tinha
808000 réis e o pé d'altar.
É terra fertil.
Está situada a freguezia perto do rio do
seu nome, que morre na direita do Túa
perto de Seixes.
RIOS —freguezia, Minho, comarca de Mon-
são, 60 kilometros ao N. de Braga, 435 ao N
de Lisboa, 375 fogos.
Em 4757, tinha 390 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Arcebispado de Braga, e districto admi-
nistrativo de Vianna.
A casa da Barbeita apresentava o reitor,
que tinha 1504000 réis de rendimento.
Não encontro esta freguezia nos mappas
modernos,
RIPANÇA—ponto, no rio Douro, proximo
do logar de Porto-de-Rei. Vide Pontos no
Douro.
VoLuME vil
ROB
ROÃES —Vide Ruães.
ROALDE —grande fonte, Traz-os-Montes,
na freguezia de S. Martinho d'Anta. Dá ori-
gem ao rio Ceira, que entra pela margem
direita do Douro, proximo de Galafúra.
ROBALLO ou CELLA-NOVA ou NOSSA
SENHORA DA ROSA logar, Extremadura,
(masao S. do Tejo) na freguezia de Caparica,
comarca, concelho e 6 kilometros ao O. de
Almada.
Patriarchado e districto administrativo de
Lisboa.
Houve aqui um eremiterio, fundado por
um santo varão, chamado Mendo Gomes, no
reinado de D. João I, dando-lhe este rei 6
terreno para a edificação, em um sitio cha-
mado o Roballo, ao qual o fundador mudou
o nome para o de Cella-Nova. Foi isto em
1410.
Viveu Mendo Gomes, n'este hospício, com
mais alguns companheiros, por espaço de
muitos annos, até que o entregou aos con-
gregados da Serra d'Ossa (paulistas) para 0
virem habitar.
O fundador falleceu, com fama de santo,
no mosteiro da Serra d'Ossa, em 14841.
Era este mosteiro situado entre dois mon-
tes, onde as aguas que se juntavam no in-
verno, corriam para o mar, por um esteiro,
onde então chegava a maré.
Consta que no seculo 47.º deu á costa
213
nesta praia, e proximo à cérca do mosteiro,
uma náu genoveza, que se despedaçou. En-
treos seus despojos, queo mar arrojou à praia,
veio ter ao referido esteiro, um primoroso
quadro a oleo, com a imagem de Nossa Se-
nhora, sentada, tendo o Menino Jesus no bra-
ço esquerdo, e na mão direita uma rosa, que
lhe offerece, e, de cada lado um anjo com
um açafate de flores, que offerece à Senhora.
Sendo este quadro achado pelos frades, o
levaram para a egreja do mosteiro. e, como
não sabiam a invocação da Senhora, lhe cha-
maram da Rosa. D'esta maneira perdeu o
mosteiro o seu segundo nome, como tinha
perdido o primeiro, e se ficou chamando
convento da Rosa.
No sitio onde o quadro foi achado, havia
uma fonte, até então chamada do Esteiro, e
que desde então se ficou denominando Fonte
14
2144 ROG
Santa, e crê o povo que a sua agua sara
muitas enfermidades, principalmente cuta-
neas.
Faziam os frades a esta Senhora uma gran-
de festa, no dia da sua natividade (3 de se-
tembro.)
Fica o mosteiro perto da costa do Oceano.
(Vide 2.º vol., pag. 98, col, 1.º)
Roballo, é tambem um appellido nobre
em Portugal, que tinba o seu solar na villa
de Penamacôr, na Beira Baixa. —Trazem por
armas—em campo azul, um roballo de pra-
ta, em banda, entre duas estrellas d'ouro.
É brazão incompleto.
ROBURÊDA—Vide Reborêda.
ROBORÊDO—Vide Reborêdo.
RÓCA—Vide Cabo da Roca e Cintra.
ROCA-AMADOR ou ROQUE-AMADOR, ou
RECLAMADOR—A religião ou instituto de
Roca Amador, de irmãos hospitaleiros, foi
antigamente celebre e muito caritativa em
Portugal, em quanto as Misericordias se não
instituiram; e muitos hospitaes de Roca-
Amador, foram o principio ou origem das
Misericordias.
Os escriptores não são concordes na ety-
mologia d'esta palavra (e porisso se escrevia
e pronunciava de diversos modos) a mais
verdadeira parece ser a que lhe dá Viterbo
(tom. 2.º, pag., 193, col. 2.º da 2.º edição.)
Segundo este escriptor— Santo Amador, é
natural de Narbona (França) e passou os ul-
timos annvs da sua vida, em um altissimo
rochedo, separado o commercio dos ho-
mens: dando-se depois ao tal rochedo o nome
de Roca-Amador, A sua sepultura e despojos
mortaes, foram achados em 1166, junto à ro-
cha.
Erigiu-se logo alli uma egreja, com o ti-
tulo de Senta Maria de Roca Amador, e
junto d'ella um famoso hospital, para enfer-
mos pobres, o qual era servido por varões
cheios de abnegação e piedade.
Os povos das visinhanças deram muitas
offertas, esmolas e valiosas doações de pro:
priedades e rendas, a este estabelecimento ;
mas os abbades em cujo districto ficava, se
apropriaram de tudo, e o hospital nunca
passou do que foi na sua fundação.
ROG
Todavia, o caritativo Amador prestou um
grande serviço à humanidade, porque o ins-
tituto de Roca-Amador se estendeu em bre-
ve por toda a Peninsula, e por outros reinos
da Europa, sobre o titulo de eremitas de Nos-
sa Senhora de Roca de Amador.
Entrou este instituto em Portugal, no anno
de 1189, trazido pelos cruzados que ajuda-
ram D. Sancho I a resgatar a cidade de Sil-
ves do poder dos mouros. !
Em 1193, fez D. Sancho I doação a esta
ordem, da villa de Sósa, junto ao mar (a ve-
lha, e que já não existe, por estar coberta
com as areias do mar) proximo de Vagos,
hoje na comarca, districto administrativo e
bispado d'Aveiro.
Na Sósa (ou Sóza) estabeleceu a ordem à
sua capital, e d'alli se difundiram pelos hos-
pitaes de Lisboa, Porto, Coimbra, Santarem»
Leiria, Torres-Vedras, Guimarães, Braga,
Chaves, Lamego, e outras povoações.
Estes religiosos guardavam a regra de
Santo Agostinho, e foram muito respeitados
dos povos, emquanto não decahiram da an-
tiga observancia; porém, como tempo, cu-
rando mais dos seus interesses, do que da
fiel administração dos hospitaes a seu car-
go, D. Affonso V, por auctoridade do papa
Pio II, em 1459, fez a egreja de Sóza (que
então se chamava Santa Maria da Roca de
Amador), commenda da ordem de S. Thia-
go; é assim se extinguiu este, já então inutil
instituto.
Foi substituido pelos conegos seculares
de S. João Evangelista (loyos) que, até à
sua suppressão, em 1834, exerceram com O
maior desinteresse, e com verdadeira cari-
1 Mas tornou a perder-se, logo em 1194,
porque o Miramolim de Marrocos, invadiu
n'esse anno o reino de Portugal com um po-
deroso exercito, e achando-se o reino oppri-
mido por uma grande fome. e uma terrivel
peste, lhe foi fácil tornar a apoderar-se de
todas as povoações do Algarve que estavam
em nosso poder.
Foi só em 9 janeiro de 1242, no reinado de
D. Sancho II, que o famoso fronteiro-mór do
Algarve, D. Payo Peres Correia, reconquis-
tou Silves, que, desde então, não tornou à
gahir do dominio portuguez.
ROG
dade evangelica, o emprego de hospitalei-
ros 1,
Emquanto a ordem de Roca-Amador cum-
priu, com integridade, a sua regra, foi ge-
ralmente respeitada, e os nossos reis, parti-
cularmente D. Affonso II, em 1224; a rai-
nha Santa Isabel, em 1327, lhe doaram mui-
tas e valiosas rendas e propriedades; e o
mesmo faziam muitos particulares, de modo
que chegou a possuir grandes riquezas, que,
na sua suppressão, algumas passaram para
commendadores, e a maior parte para as
differentes Misericordias do reino.
Eis a razão porque vemos em tantas ter-
ras de Portugal, logares com o nome, mais
ou menos adulterado, de Roca-Amador.
ROCA DA PONTEIRA. —Vidê Ponteira.
ROCAMONDO — freguezia, Beira-Baixa,
concelho, comarca, districto administrativo,
bispado e 12 kilometros da Guarda, 300 ao
E. de Lisboa, 175 fogos.
Em 4757, tinha 125 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
O. prior d'Alvendre, apresentava o cura,
que tinha 48000 réis de congrua e o pé
d'altar. |
Clima excessivo ; terra pouco fertil e po-
bre. Bastante gado miudo, e nos seus mon-
tes abundancia de caça grossa e miuda.
Dá-se tambem a esta freguezia o nome de
Rocamundo ; e parece que isto procede dos
rochedos em que, abundam estes sitios, e
sobretudo, de um monstruoso penedo que |
existe em um monte da freguezia.
ROÇAS ou ROSSAS — freguezia, Douro,
comarca, concelho e 8 kilometros ao 0.8.0.
d'Arouça, bispado e 54 kilometros ao O. de
Lamego, distrito administrativo e 60 Kilo-
metros ao N.E. de Aveiro, 55 ao 8. do Por»
“to, 300 ao N. de Lisboa, 230 fogos.
Em 1757, tinha 220 fogos.
Orago Nossa Senhora da Conceição.
Os commendadores de Rôças, da ordem
| de Malta (Vilhenas), apresentavam o viga-
| Tio, que tinha 202000 réis e o pé d'altar.
1 O povo, por isto, lhes dava a alcunha:
de seringas ; 0 que 08 não deshonrava, an-
tes ennobrecia, pois significava a caridade
com que campriam a regra do seu instituto.
ROC 9215
É povoação muito antiga, pois a povoou
Odorio Espinel, ou Espinhel, na era 4100
(1062 de Jesus Christo.) Depois, fez doação (o
mesmo Odorio) das terras de Rôças, a Sal-
vador Peres. (Brito, 1. 7.º, e. 25.) A darmos
credito à data que se lê sobre a verga da
porta principal da pequena egreja matriz,
foi esta fundada na era de 41141, que é o
anno 1073 de Jesus Christo; o que é muito
verosimil, porque, em 1280, mandou a san-
ta rainha Mafalda, construir na serra da
Freita, freguezia de Róças, uma albergaria
para peregrinos que d'ella se quizessem
aproveitar. (Perto d'esta albergaria, estã
actualmente um marco geodesico, cu trigo-
nometrico; e na propria casa da albergaria,
existiu um telegrapho do systema antigo.)
Vidê 3.º vol, pag. 230, col. 1.º, pr.
É terra muito fertil, e próduz optimo vi-
nho verde.
Fica sobre a margem esquerda do rio
Arda; e é atravessada pela nova estrada, de
Arouca a Oliveira de Azemeis.
Ainda existe a casa vincular dos commen-
dadores de Rôças, da qual é hoje proprie-
tario, um descendente dos Vilhenas, que é
o sr. Virgolino de Quadros (se acaso ainda
vive, porque foi ha mais de 25 annos para
Moçambique, empregado, e não se tornou à
saber d'elle.)
Para as armas dos Quadros, vidê Couta
d Esteves.
ROÇAS ou ROSSAS — freguezia, Minho,
no concelho de Vieira, comarca da Povoa
de Lanhoso, 30 kilometros ao N.E. de Bra-
ga, 360 ao N. de Lisboa, 600 fogos,
Em 4757 tinha 418.
Orago, o Salvador.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A casa dos Abreus, de Regalados, e os
duques de Souto-Maior (Fespanha), apre-
sentavam alternativamente o abbade, que
tinha um conto de réis de rendimento. Era
um dos melhores beneficios do arcebis-
pado.
Foi couto. O rei D. Manoel lhe deu foral,
em Lisboa, a 23 de outubro de 1514. (Livro
| dos foraes novos do Minho, fl. 124, col. 2.2)
Este foral serve para Aldeia de Ladrões,
216 RO
Bairral, Bairro, Celleiro, Covéllo, e La-
méêdo.
É terra muito fertil. Grande abundancia
de gado de toda a qualidade, e nos seus
montes ha caça grossa e miuda.
Foi senhor d'esta freguezia, Fernão de
Souza Botelho, casado com D. Ignez de Sot-
to-Maior, que era viuva de Lopo Gomes de
Abreu, senhor de Regalados e Valladares,
filho do 1.º visconde de Villa Nova da Ger-
veira, D. Leonel de Lima.
Depois, passou este senhorio para a co-
rõa.
Houve aqui um antiquissimo mosteiro de
monges benedictinos, que, em 1195, foi doa-
do por frei João Paes, ao arcebispo de Bra-
ga, D. Martinho, e depois foi para os Abreus
de Regalados.
Ainda aqui existe a torre do Bairro, com
seu carcere, edificio muito antigo, e que foi
solar do dito Fernão de Souza Botelho.
No logar da Lama, d'esta freguezia, ha
outra torre, que foi de Antonio Machado
Coelho, e pertence hoje aos seus descenden-
tes.
ROGAS ou ROUÇGAS — freguezia, Minho,
comarca e concelho de Melgaço (foi do mes-
mo concelho, mas da comarca de Monsão),
80 kilometros ao N. de Braga, 450 ao N. de
Lisboa, 225 fogos.
Em 1757, tinha 88 fogos.
Orago, Santa Marinha (o Portugal Sacro
e Profano, diz que é Nossa Senhora dos An-
jos.)
Arcebispado de Braga, districto admi-
nistrativo e 75 kilometros ao N. E. de
Vianna.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
350,8000 réis de rendimento.
A padroeira d'esta freguezia, é uma das
move irmans bracharenses, filhas de Lucio
Caio Atilio.
Vidê Braga.
Esta parochia foi primeiramente padroa-
do da antiga e nobre familia dos senhores
do paço de Rôças, que era n'esta freguezia,
mas que ha alguns seculos pertence à de
8. Payo, contigua a esta.
Ainda se vêem as ruinas de uma anti-
quissima casa, chamada o Paço, solidamente
ROG
construida, e, em parte, ainda habitada. O
logar em que está, chama-se mesmo Paço,
nome tomado da dita casa.
O padroado passou depois para Manoel
Pereira (o Mil-Homens) da villa de Monsão,
e o solar para os Castros, de Mélgaço. Por
fim, passou o padroado para os arcebispos
de Braga.
O territorio d'esta freguezia, tem 7 kilo-
metros de comprido, por 5 de largo, esten-
dendo-se desde a encosta O. da serra de
Pernidêllo, até junto ás muralhas da villa
de Melgaço, pertencendo ainda à freguezia
de Rôças, as primeiras casas da villa.
Ainda que em terreno muito aceidentado,
os seus valles são fertilissimos, e o vinho que
produz é de optima qualidade, principal-
mente o dos sítios das Barreiras e Valle de
Cavalleiros, em nada inferior ao excellente
vinho de Monsão.
É n'esta freguezia a grande quinta que
foi do mosteiro de Fiães, d'este concelho, e
que, ficando sobranceira à villa, é uma bel-
lissima vivenda. É hoje propriedade parti-
cular do sr. dr. José Joaquim Gomes.
A egreja matriz é das maiores, não só da
comarca, mas do districto administrativo. O
zélo do reverendo abbade actual, e à devo-
ção e religiosidade dos parochianos, tem
convergido para que este templo esteja or-
nado com a maior magnificencia.
Estes melhoramentos principiaram em
1864.
Tem altar-mór e quatro lateraes, todos
ricamente adornados, e as santas imagens
que os decoram, são de excellente esculptu-
ra, sendo notavel a de Nossa Senhora da
Soledade, de tamanho quasi natural, e offe-
recida à freguezia pela benemerita familia
Salgado, aqui residente.
A sua torre dos sinos, é bastante alta, e
tem dois bons sinos. O coro é bom, e tem
um pequeno orgão.
Tem optimas alfaias e paramentos, para
o culto divino, tudo feito ha poucos amnos.
No tecto da egreja ha boas pinturas, repre-
sentando os apostolos e os evangelistas; e à
Fé, Esperança e Caridade.
Na parede exterior da capella-mór, está |
embutida uma lapide, com esta inscripção : |
ROC
BLAZIUS D' ANDRADA DA
GAMA, ABBAS, IN UTRO-
QUE JURE LAUREA-
TUS, A FUNDAMENTIS
EREXIT. MDCLXXXX.
Collige-se d'esta inscripção que o templo
foi fundado em 1690, à custa do benemerito
abbade da freguezia, Braz d'Andrada da
Gama.
Está construida em um formoso sitio, pela
“sua posição elevada, e com dilatados hori-
sontes.
A testa da padroeira, faz-se a 18 de julho
(que é o seu dia.) É uma romaria concor-
ridissima, vindo gente até da Galliza, em
grande numero, com offertas, para que San-
ta Marinha os cure, ou preserve de sesões.
O logar presta-se maravilhosamente para
a romaria, porque é um vasto terreiro, o
maior que se vê na provincia, em frente das
egrejas, depois do de Fiães.
Fica ao S. da egreja, e é assombrado por
gigantescos e vetustos castanheiros, con-
temporaneos do primittivo templo.
A residencia parochial foi reconstruida
em 1870, desde os alicerces.
É um edificio no gosto moderno, commo-
do e decente ; e feito à custa dos parochia-
nos, que da melhor vontade, e por amor ao
seu digno parocho, se prestaram a esta não
peguena despeza.
Ha nesta freguezia seis capellas, que são:
1º, Santa Rita, na aldeia de Villela, com
missa em todos os domingos e dias sanctifi-
cados. É publica.
2.º, Nossa Senhora da Conceição, no Cótto
do Preto. Tem uma bem esculpida pedra de
armas, da ordem da Conceição, sobre a por-
ta principal. É particular.
2.2, Santo Antonio, no logar da Córga. É
particular.
4.2, Nossa Senhora das Dores, no logar
de Cavalleiros, com missa em todos os do-
mingos e dias santos. É publica.
9.º,.8. João Baptista, no logar do Fêxo. É
particular.
6.2, Nossa Senhora da Graça, a poucos
metros de distancia da antecedente, e que é
a melhor de todas, tanto pela sua posição
eminente à villa, como pela magnifica pedra
ROC 247
de cantaria de que é construida. (Do monte
onde está a capela, é que sahe o finissimo
granito para as construcções de todos os
edificios destes arredores.)
O Sanctuario Marianno, vol. 4.º, pag. 254,
diz o seguinte :
«Em um eminente monte, sobranceiro à
praça de Melgaço, no districto da freguezia
de Santa Marinha, do logar de Rouças, si-
tio, ainda que alto, muito agradavel e deli-
cioso, não só pela variedade do horisonte
(porque d'elle se descobre muita parte do
reino de Galliza, pela corrente do rio Minho
acima, e todas as terras do termo de Mel-
gaço, Valladares, Monsão, e das mais que
correm em frente do mesmo caudaloso Mi-
nho) mas, pela frescura dos arvoredos e po-
mares que d'aquelle alto sitio se estão avis-
tando, se vê o Santuario de Nossa Senhora
da Graça.»
Foi este Santuario construido em 1594,
por o abbade d'esta freguezia, Tristão de
Castro, em cumprimento de um voto que
havia feito a Nossa Senhora, pelo motivo
seguinte :
Vindo o tal abbade, da villa de Melgaço,
sendo já alta noite, para sua casa, ao pas-
sar no sítio onde hoje está a capella da Se-
nhora, então coberto de mattos e arvoredos,
lhe appareceu um monstruoso phantasma,
que não só o assustou a elle, mas até ao
cavallo em que vinha montado, que saltou
desatinadamente por aquelles escuros e pro-
fundos barrancos.
Foi então que o abbade prometteu à Se-
nhora, se o livrasse de tão grande perigo,
construir-lhe alli mesmo uma ermida, o que
cumpriu, sem demora.
Tambem antigamente chamavam à pa-
droeira da ermida, Nossa Senhora da Car-
valheira, porque assim era denominado o
sitio onde está a capella.
Para custeamento do culto e conservação
do templo, deu o abbade à Senhora algu-
mas fazendas, e instituiu uma capella, para
que o capellão d'ella fosse obrigado a dizer
missa no altar-mór, em todos os dias das
diferentes festividades da Senhora.
Antigamente, em todos os domingos é
248 ROÇ
dias santos do anno, vinham visitar a Se-
nhora, numerosos romeiros de muitas le-
guas em redor, tanto portuguezes como gal-
legos, mas a sua festa principal é em um
domihgo de julho. É esplendida e concorri-
dissima.
A capella é particular.
À padroeira d'esta ermida se attribuem
muitos milagres; mencionarei apenas um
reputado como tal, por prender com a nôs-
sa historia.
hos annos de 1660, durante a guerra da
Restauração, hindo Gregorio Vaz, natural
desta freguezia, e soldado do exercito por-
tuguez, com mais dois camaradas, reconhe-
cer os movimentos do exercito castelhano,
que se achava acampado nos Arcos (Galli -
za), cahiram todos trez em poder do ini:
migo.
Gregorio Vaz, invocou o patrocinio de
Nossa Senhora da Graça, e prometteu-lhe,
se o livrasse da morte, de ser eremitão da
sua capella, é de a servir toda a vida.
Filippe IV, mandava enforcar todos os
prisioneiros que cahiam nas garras dos seus
soldados, é os nossos trez portuguezes tive-
ram a mesma sorte.
Gregorio foi o ultimo a ser enforcado,
mas a corda partiu se e o desgraçado cahiu
no chão, sem sentidos, é com a garganta
horrivelmente ferida.
Foi julgado morto, e, como os seus cama-
radas, foi abandonado aos pés da forca; mas,
quando no dia seguinte vieram os frades
franciscanos para lhes darem sepultura,
acharam Gregorio sentado, encostado a uma
mão, e tendo na outra umas contas.
Os frades tambem eram' castelhanos, e
portanto, tão inimigos dos portuguezes como
as tropas do neto do Diabo do Meio Dia, e,
em vez de terem caridade com tão grande
infeliz, o entregaram ao carrasco, que lhe
deu duas lançadas, que 0 Aa O
peito ás costas.
Os frades o levaram a E mas, pelo
caminho, viram que elle dava ainda signaes
de vida: Desta vez, emfim, attribuiram o
caso a milagre, e o curaram.
Fc depois remettido para Corunha (então
ROG
capital da Galliza), e mettido em um car-
cere.
Filippe IV teve noticia deste facto, e at-
tribuindo-o tambem a milagre, fez o mila-
gre (ainda maior) de o mandar soltar, e dei-
xar vir em paz para Portugal.
Gregorio cumpriu o voto e foi viver para
junto da ermida da Senhora, como seu ere-
mitão, mudando o nome para Gregorio da
Graça, e alli falleceu de avançada edade,
pois ainda vivia em 1712, quando frei Agos-
tinho de Santa Maria publicou o 4.º volume
do seu Santuario Mariano. Ainda então con-
servava as cicatrizes das feridas.
Isto consta de documentos que existem
na secretaria das Mercês, e de um alvará,
assignado por D. Pedro 1I, e pelo qualo rei
mandou dar a Gregorio da Graça um tos-
tão por dia, para seu sustento.
Nasceu n'esta freguezia, o padre Manoel
Alves Salgado, que, emquanto estudante, foi
o mais perito caçador do Minho.
Foi famulo do infante D. Gaspar, arcebis- |
po de Braga !, filho natural reconhecido de
D. João V, e depois secretario da camara
ecclesiastica do arcebispado, no tempo do
mesmo principe.
Era 'o padre Manoel Alves Salgado, um |
ecelesiastico exemplar, e muito inteligente,
Ea =
sabendo reunir ao rigoroso cumprimento |
dos deveres do seu então importantissimo |
cargo, a maior modestia é affabilidade.'
"Era summamente caridoso, pelo “que al
sua morte foi sinceramente chorada. pelos
desvalidos a quem a sua beneficência já- |
mais deixára de soccorrer.
Por sua morte, nomeou sua herdeira, sua |
sobrinha, a sra D. Thereza Alves Salgado, .
da cidade de Braga, hoje representada por |
suas duas filhas, as sr.” morgadas dio mid
valhal, da mesma Dito
“anima
Ao revertida gr, José Mandel Alves.
Salgado de Castro, que, por varias vezes, se
tem na mandar-i me valiosas q Ctriosiss)
ê
“1 Um dos trez meninos de Palha: vã. (Vide ;
6.º vol., pag. 424, col. 1.º, no fim, é seguin-]
tes.)
ROG
simos apontamentos, para varias povoações
do Minho; e que teve a bondade de me
mandar bastantes sobre esta freguezia, agra-
deço tanta generosidade.
Se todos os homens illustrados das pro-
vincias fizessem como 'o sr. padre Salgado,
sahiria esta obra mais completa e perfeita.
ROÇAS ou SANTA COMBA — freguezia,
Traz-os-Montes, concelho, comarca, districto
administrativo é bispado de Bragança, 54
kilometros ao N. de Miranda, 480 ão N. de
Lisboa, 60 fogos.
Em 1757, tinha 414 fogos.
Orago, Santa Comba.
O reitor de S. Nicolau, de Salsas, apre-
sentava O cura, que tinha 82000 réis de
congrua é o pé d'altar.
É terra pobre e pouco fertil.
RÓCAS ou RÓCGCAS — freguezia, Douro,
concelho e 5 kilometros ao N.E. de Sevêr
do Vouga, comarca d'Agueda, 55 kilome-
tros ao O. de Viseu, 270 ao N. de Lisboa,
320 fogos.
Em 1757, tinha 259 fogos.
Orago, S. João Baptista.
Bispado de Viseu, districto administrati-
vo de Aveiro.
O abbade de Santa Maria de Sevêr do
Vouga, apresentava o cura, que tinha 68000
réis de rendimento e o pé d'altar.
É povoação muito antiga, é, até 1834,
pertenceu ao extincto concelho de Couto de
Esteves (d'onde era natural o 18.º bispo do
Porto, como adiante direi )
Em terra de Sevêr, havia em dezembro
de 14801! uma herdade, chamada da Róca,
ou da Rocha, à qual D. Affonso Henriques
"deu n'esse anno, o nome de villa (casa de
campo?) em uma sentença sobre um pleito
que havia, entre a Sé de Viseu e o mosteiro
de Sevér; mandando que seis casaes da villa
da Rocha, ficassem para a cathedral de Vi-
seu, e outros seis para o dito mosteiro e
para outras pessoas.
A freguezia do Couto de Esteves, formou
antigamente com esta, uma só parochia, e,
como n'aquella não fallei no 48.º bispo do
Porto, o menciono n'éste logar.'
* É a era 1218 de Cesar, que vem a ser
1180 de Jesus Qhristo.
ROC 219
Na freguezia pois do Couto de Esteves
nasceu o famoso D. Pedro Rabaldes (4.º do
nome) 48.º bispo do Porto, successor e so-
brinho do não menos fámoso, D. João Pe-
culiar 1. D. Pedro já era arcediago da Sé do
Porto, feito por seu tio.
Em 12 de outubro de 1138, o infante D.
Affonso (D. Affonso Henriques) neto do im-
perador de Hespanha e filho do consul, D.
Henrique e da Raynha D. Tareja, princepe
da provincia de Portugal, confirmou o couto
de Grestuma, ao Bispo D. Pedro Rabaldis e
seus successores, que a Rainha D. Tareja
tinha dado ao Bispo D. Hugo. (Catalogo dos
bispos do Porto, parte 2.2, pag. 28.)
D. Affonso Henriques era particular ami-
go de D. Pedro Rabaldes, e no tempo d'este
prelado fez varias doações à Sé do Porto;
entre ellas—a herdade e casal de Loriz, que
depois coutou, sendo bispo do Porto, D. Mar-
tinho—o couto e mosteiro de S. João de Va-
lerio (hoje S. João de Vêr) na Terra da Fei-
ra, com todos os seus passaes, fóros e ren-
das — no mesmo anno (1141) — metade da
dizima de todas as barcas que viessem dus
partes de França, á cidade do Porto (mas o
bispo e cabido, deram ao rei, por esta doa-
ção, 100 maravidis de ouro.)
Em 1144, deu D. Pedro Rabaldes, licença
| a Hero Calvo, Soeyro Pelayo, Payo Pires e
seus successores, para viverem e morrerem
no couto da Régua, que à rainha D. Thereza
déra ao bispo D. Hugo ; com a condição de
que elles e herdeiros lhe pagariam o sexto
1 D. João Peculiar (o Ovelheiro), que foi
um dos primeiros conegos regrantes de San-
ta Cruz, de Coimbra. Era francez de nação
e veiu para Portugal, para mestre escola da
Sé de Coimbra. Elle e D. Tello, arcediago
da mesma Sé, e outros varões, ilustres por
nobreza de sangue, por sciencia e virtudes,
foram os fundadores do mosteiro de Santa
Cruz, de Coimbra, no sitio onde hoje está.
D. João Peculiar, foi depois para: o mos-
teiro de Grijó, da mesma ordem (cruzio) e
d'alli fui para bispo do Porto, e passados
dois annos e meio, foi feito arcebispo de
Braga, e successor do arcebispo D. Pelsgio,
ou Payo. À
Foi D. João 37 annos e meio arcebispo de
Braga, fallecendo no 4.º de dezembro de
1177 (era de 1215.)
220 ROC
do pão, o quinto do vinho, e outras miu-
ças.
D. Pedro Rabaldes, falleceu no Porto, em
29 de junho de 1145.
ROCHA — serra, Douro, no extincto con:
celho de Fajão, hoje concelho da Pampilho-
sa, comarca de Arganil, bispado e districto
administrativo de Coimbra.
Este concelho é o mais montanhoso do
districto administrativo, e póde dizer-se que
consta de uma serie não interrompida, de
altos montes e profundos valles.
Uma das principaes e alcantiladissimas
serras d'esta região, é a da RocHa. Princi-
pia no sitio denominado Aguas de Geira
(tambem chamado Serra da Cebola e Serra
Amarella.) ;
Segue, quasi sempre na direcção de S.0.,
pelos concelhos da Pampilhosa, Góes, Álva-
res (este ultimo supprimido) e outras ter-
ras, até Figueiró dos Vinhos, no compri-
mento de 60 kilometros.
O seu ponto culminante chama-se Picóto:
fica proximo a Figueiró.
Divide-se a serra da Rocha, em varios
ramos (que todos tornam nomes differentes)
para os lados da Covilhan, Fundão e outros;
dos quaes devo especialisar o Ladeira (vidê
esta palavra) ao E., que, correndo coroado
de broncas penedias, abate de repente no
sitio do Amieiral, para dar passagem ao rio
Zêzere, apparecendo na mesma altura, do
outro lado do rio.
É tambem muito notavel o monte chama-
do Penedos de Fajão—ramo da Rocha—ao
O., pelas grandes massas de rochedos, de
marmore, nús e escarpados, que vão preci-
pitar-se repentinamente sobre o rio Ceira.
(Vidê Penedos de Fajão e Sarzêdas.)
Rocha é tambem um appellido nobre em
Portugal. Vidê Guimarães.
ROCHA DO CONDE D'OBIDOS —Vidê 4.º
vol., pag. 136, col. 1.º
ROCHA DOS SOUDOS-—-sérro, Algarve, na
freguezia e a 1 kilometro ao N. da povoa-
ção d'Alte, comarca e concelho de Loulé.
Do alto d'este sêrro se gosa um vasto pa-
norama, vendo-se a cidade de Lagos, que
fica a 50 kilometros de distancia. Serve de |
ROC
ROCHOSO. —Vidê Richoso.
ROCINAL —portuguez antigo—a carga de
um rocim ou cavallo pegueno.
Nos foraes antigos se distinguem as car-
gas dos machos e cavallos, das dos rocins e
asnos, sendo a portagem dos primeiros, O
dobro da dos segundos.
A carga rocinal e asnar (de burro) paga-
va a mesma portagem.
ROCIO DE LISBOA —(Praça do Rocio, ho-
je denominada Praça de D. Pedro).
Além do que fica dito com respeito a esta
praça, no 4.º vol., pag. 125, 164, 172 e 379
acerescento aqui mais o seguinte.
Por baixo do Hospital Real de Todos os
Santos, que existiu n'esta praça, havia uma
ermida, dedicada a Nossa Senhora do Am-
paro (que deu o nome à rua do Amparo e
rua Nova do Amparo).
Era a padroeira objecto de grande devo-
ção do povo de Lisboa, e todas as noites, às
Ave-Marias, se lhe rezava o terço, ao qual
assistia o capellão, que dava no fim a bei-
jar ao povo, a corôa da Senhora.
A imagem era de roca, de 0", 77 (trez pal-
mos e meio) de altura.
Estava em um camarim, envidraçado, no
meio de um retabulo, construido de mar-
more azul 2 encarnado, de boa esculptura,
e collocada sobre um globo, tambem de
marmore, cercada de anjos e seraphins.
Esta capella era frequentemente visitada
pelas principaes damas da côrte, que, além
das ofíertas que davam à Senhora, tinham
por devoção, fazer as camas dos enfermos,
dar-lhes esmolas e doces.
O famoso cardeal da Cunha, hia visitar a
ermida em todos os sabbados do anno.
Tinha a Senhora um capelão, que dizia
missa na ermida, todos os dias.
Esta capella (das missas) instituiram,
Domingos de Basto Figueirôa, e sua mulher,
D. Barbara Antunes Brandôa, em 4625, que
(em cumprimento de suas disposições tes-
tamentarias) foram sepultados n'esta ermi-
da. Doaram à Senhora duas moradas de ca-
sas, que então rendiam 838448 réis, o que
prova serem boas propriedades.
D'esta renda se dariam ao capelão (gue
guia aos navegantes destes mares. Vidê Alte. havia de ser natural da villa de Amarante
ROG
632000 réis, e o resto para os entrevados
do hospital annexo.
Domingos de Basto Figueirôa falleceu em
2 de maio de 1653.
A origem d'esta ermida, foi uma alber-
garia, para acolheita dos peregrinos, aos
quaes se dava casa, cama, agua e luz. Tinha
40 leitos, 20 para cada sexo. separados uns
dos outros, Tinha dois hospitaleiros, um ho -
mem para os do seu sexo, e uma mulher:
para o feminino.
- D. João II, mandou construir o sumptuoso
Hospital Real de Todos os Santos, sobre 35
magestosos arcos de cantaria, e occupando
toda a frente E. do Rocio, e sob esta vasta
galeria havia umas 200 lojas de capellista,
onde se vendiam varias quinquilherias.
es
Um devoto, havia instituido por herdeira
de toda a sua fazenda, a Misericordia de Lis-
boa, e entre varias alfaias e peças preciosas
lhe deixou a imagem de Nossa Senhora do
Amparo, para a qual os irmãos da Miseri-
cordia mandaram construir a ermida, anne-
xando-lhe uma enfermaria para entrevados,
que primeiro estava no claustro do hospi-
tal, e ficava por baixo da egreja, onde de-
pois foi o celleiro e despensa, e d'aqui é que
foi mudado para sob os arcos do rocio.
Ainda antes do incendio que destruiu o hos-
pital, e ao lado da porta do referido cellei-
ro, se via uma lapide com esta inscripção :
ESTA ENFERMARIA DOS INCURAVEIS
CONSERTARÃO OS IRMÃOS A SUA CUSTA,
E NA MISERICORDIA OS PROVERÃO
DO NECESSARIO, EM ABRIL DE 1565
Segundo uma outra inscripção que estava
nos azulejos da ermida, os entrevados foram
mudados para a antiga albergaria (que en-
tão se extinguiu) em 1583.
ROCIO DO SUL DO TEJO ou ROCIO DE
ABRANTES — freguezia, Extremadura, co-
marca e concelho d' Abrantes, 170 kilometros
ao E. de Lisboa, 300 fogos.
“Orago, Nossa Senhora da Conceição.
- Bispado de Castello Branco, districto ad-.
ministrativo de Santarem.
Não vem no Portugal Sacro e Profano,
ROD 221
por que ainda não existia quando se publi-
cou esta obra.
Esta freguezia era na provincia da Beira
Baixa, mas, pela nova divisão, ficou perten-
cendo à Extremadura, apezar de ficar ao S.
do Tejo, e sobre a sua margem esquerda.
Fica em frente da villa de Abrantes.
No dia 6 de dezembro de 1876, subiu o
Tejo a tal altura, que causou espanto às
pessoas mais antigas do Rocio e da villa de
Abrantes. Do lado do sul, chegou ao Fójo, e
do norte, à ponta do rio Pombal, attingindo
mais 1,275 do que a grande cheia de 18 de
fevereiro de 1855. Não houve predio no Ro-
cio, por mais elevado que estivesse, que não
tivesse, pelo menos, sete palmos d'agua ; 0
que fez cahir muitas casas.
Muitas familias fugiram para Abrantes, e
outras para o Tramagal.
No quartel de S. Domingos (Abrantes)
foram recolhidas 60 e tantas pessoas, às
quaes os camaristas mandaram dar dois ran-
chos por dia.
O Tejo chegou quasi ao leito da ponte, e
abateu uma grande parte do seu aterro, do
lado do Norte. Algumas casas do Rocio, fi-
caram completamente debaixo d'agua.
Pelo rio abaixo, viam-se boiando, carros,
bois, madeiras, etc.
A estação do caminho de ferro e os vastos
campos do sul e norte foram totalmente
inundados.
Os prejuizos foram incalculavcis, ficando
muitas familias reduzidas á-mais lamentavel
miseria.
Esta povoação é muito moderna, o: seu
estado era prospero, e tinha-se desenvolvido
espantosamente.
RÓDA ou RHODA—substantivo persa, que
os árabes adoptaram e o transmittiram aos lu”
zitanos—significa jardim, e tambem paraizo.
Em Portugal ha varios logares com esta
denominação. Vide Redinha e Villa Velha
do Rodam.
RÓDA-—rio, Douro, no extincto concelho
-d'Álvares, hoje concelho de Góes, comarca
“Arganil.
Nasce nas Pedras do Lumiar, e desagúa
na ribeira de Unhães, 3 kilometros abaixs
da mesma villa de Unhães.
222 ROD
Dão-se tambem a este rio os nomes de
Ribeira da Velha e Rio Sinhel. '
Todo o territorio que formava o antigo
concelho d'Álvares, é montuoso, e porisso,
tanto a elle, como aos concelhos de Fajão
(extincto) e Pampilhosa, se dá vnlgarmente
o nome de concelhos da Serra. bn a 1.
Rocha.)
Alem do rio da Roda, são estes concelhos
atravessados por mais os seguintes :
Ribeira da Foz—Nasce na serra de Entre-
Capéllos! e desagúa na ribeira de Unhaes,
junto ao povo porisso chamado Foz.
Ribeira de Amioso Fundeiro—Nasce nas
faldas da serra de Trevim, e desagua tam-
bem na ribeira de Unhães, na foz do Amio-
so, 4 kilometros abaixo do logar onde des-
agúa o antecedente.
Ribeira do Méga (ou d'Oméga) — Nasce
nas faldas da mesma serra, e desagúa na
mesma ribeira, uns 5 kilometros no da
antecedente.
kios Unhaes, e Zêzere de que falarei no
logar competente.
Todas estas ribeiras criam barbos, bogas,
trutas, enguias, e outro peixe miudo ; e to-
dos estes peixes são muito saborosos, por se-
rem de corrente precipitada as aguas em
que se criam.
RÓDA-— quinta, Minho, na freguezia de La-
nhellas, concelho, comarca é & ip
ao N.E. de Caminha.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
Esta propriedade fica proxima à egreja
matriz, e pouco distante da margem esquer-
da do rio Minho. Foi do desembargador José
Manuel d'Amorim Guerreiro, filho do minis-
tro de estado José Antonio Guerreiro : hoje
é dos seus herdeiros. Vide a 4.º Róda.
RÓDA-casa antiga e nobre, Minho, na
freguezia e concelho da Ponte da Barca, co-
marca de Valle de Vez.
ini i dtati ss
1 A serra de o dtecipántos fica 20 E. da
villa d'Alvares. É bastante alta e de:-difieil
transito, está ao; N. de-outra serra, chamada
Pedras do Lumiar, de clima frigidissimo e
na qual tem morrido muita gente afogada
em neve.
ROG
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
D'esta casa foram modernamente senho-
res—Rodrigo Antonio da Costa Pereira de |
Gouveia, mestre de campo dos auxilares |
(milicias) governador da praça de Melgaço,
e fidalgo da casa real; e Gaspar José da
Costa Pereira de Gouveia, alcaide-mór de
Ervêdo, cavalleiro da ordem de Christo, é
fidalgo da casa real.
É actual representante d'esta esclarecida
familia, a sr.* D. Guiomar da Costa Pereira
de Vilhena Coutinho.
Vide a 1.2: Roda.
RODAGEM — grande e excellente quinta,
Douro, na freguezia de Pombeiro de Riba
Visella, concelho e comarca de Felgueiras.
Arsebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
Era a cêrca do mosteiro dos monges be-
nedictinos de Pombeiro. (Vide Pombeiro de
Riba Visella.)
Fica proximo à estrada da Rodagem, que
| vae da villa de Felgueiras para Guimarães.
Depois de 1834, foi vendida a Antonio Pe-
reira Leite Guimarães,
- É toda cercada de alto muro, e compõe-
se de muitos campos de terra lavradia, mat-
tos, e a tapada de Santa Cruz, casas de vi-
venda, grande parte do edificio do mosteiro
e outros para caseiros. Grande encanamento
d'aguas, das quaes é muito abundante, com
um grande e magnifico chafariz.
É uma das melhores propriedades d'estes
contornos.
RODAM— Vide Villa Velha do Rodam.
RODAS DO MARÃO — Vide Portella da
Gaiva.
'RODÊLLA ribeiro, Douro. Nasce na fre-
guezia da Cadima, comarca e concelho de
Cantanhéde, bispado e districto administra-
tivo de Epi d e morre e nã poi o Pi
da Fervança. -
“Ainda n'esta freguezia nascem os FHntitos |
da Lagõa-Sécca, Moita, Olho, é Aljuriça. )
ROGE—freguetia, Douro, concelho e 4:500
metros ão E. de Macieira de Cambra, comar-
“ca é 8 Kilometrós ao N.E. de Oliveira d'Áze- -
meis (era do mesmo concelho, mas até 1855,
da comarca d'Arouca) 70 kilometros ao N.
ROG
de Coimbra, 275 ao N. de Lisboa, 415 fogos.
Em 1757, tinha 119 fogos.
Orago, o Salvador.
Bispado e districto mi o de
Aveiro.
A casa do infantado apresentava o prior,
que tinha 6002000 réis de rendimento.
O terreno d'esta freguezia, como o da
maior parte do concelhó de Cambra, é fer-
tilissimo em todos os generos agricolas; cria
muito gado, de toda a qualidade, que exporta,
e nos montes visinhos ha Ru de
caça.
É regada por varios ribéiros, confluentes
do Cambra, e este do Caima, que desagúa
na esquerda do Vouga, pouco acima dé 'Se-
rem. Griam peixe miudo.
O Cambra atravessa 0 formoso 'é feracis-
simo vallê de Cambra, é muitos já aqui lhe
dão o nome de Caima. (Eu julgo que Gaima
é corrupção de Cambra, como Cambra 'é
corrupção de Coimbra. (Vide Cambra e jet
cieira de Cambra.)
A egreja parochial, ainda que antiquissi
má, 'é'um belló e magestoso templo, de ex-
cellente “e sólida construcção, e está luxuo-
samente decorado ; o que é devido à religio-
sidade d'este povo, e à sollicitude do seu
actual prior, o reverendo sr. Manuel Tava-
res d'Amórim, cavalheiro de muita illustra-
ção, zeloso no cumprimento dos seus deve-
res, 'e um dos melhores BRAMBESA psdb
destes sitios.'
Faz-se nºesta egreja, em todos os annos,
uma esplêndida festa à nossa bão popular
rainha Santa Isabel. + Kits jo
No alto d'um monte d'esta freguezia, al-
vejá à formosa capella ds Nossa Senhora do
Destino, à qual se' faz todos os anhos uma |
brilhante festa, e concorridissima: romaria,
O panorama que se gosa-do terreiro d'esta
br é vasto é pg mi
; Bogilue a air 907 Gueoidao
Esta freguezia é uma das mais 'ricas do
concelho, e tem prosperado muito em nos-
sos dias, como se póde ver. do augmento da
sua população, pois que, sendo em 1757
apenas de 119 fogos, está hoje pio quasi
ao tresdobro.
)
ROL 223
Não sei se Róge é corrupção de Rojas, o
que sei é que, em 1525, veio a Portugal,
como dama da rainha D. Catharina (filha de
D. Philippe I, de Hespanha, 'e mulher do
nosso D. João III) uma senhora castelhana,
“por 'nóme, D. Catharina de Rojas. Esta se-
nhora, Casou n'este reino, com Diogo Soares
d'Albergaria, do qual houve successão.
N'esta freguezia ainda existe a casa dos
Soares d'Albergaria (descendentes de Diogo
Soares d'Albergaria) da qual é actual re-
"presentante, o sr. dr. Alexandre Celestino
“Soares d' Albergaria (vide Buraco) —e na pro-
xima freguezia de Castellões, deste conce-
lho, a casa de Areias, da qual é hoje pro-
prietario, por herança de seus paes, O sr-
dr. Antonio Soares Leite Ferraz de Alber-
garia. (Vide Castellões—a 2.2 de pag. 198;
col. 2.2, do 2.º volume.)
Ajada n'este concelho ha outras familias
d'appellido Soares d'Albergaria, e muitas
mais do appellido Soares sem Albergaria
que é provavel descenderem (por linha le-
gitima ou bastarda) do referido Diogo Soa-
res de Albergaria.
ROIOS ou ARROIOS—freguezia, Traz-os-
Montes, concelho de Villa Flor, comarca de
Mirandella. Vide—2.º Arroios, do 4.º vol.,
pag. 238 verso, col. 4.2
D. Affonso III deu foral, com o titulo 'de
de villa, a esta povoação, em Guimarães, a
2 d'abril de 1258. (Livro de foraes antigos»
de leitura nova, fl. 126 verso, col. 4.º)
RÓL—grande quinta, Douro, na margem
da ribeira d'Ançan, e no centro da Varzea
d'Ançan: É dos srs. Ferreiras Pintos Bastos,
da Vista-Alegre.
Para evitarmos FERE PDOS vide Portu-
gi
'RÓL= Vide Ponte do Ról.
ROLIÇA—freguezia, Extremadura, conce-
lho 'd'Obidos; comarca e 148 Kilometros ao
“0.das Caldas da Rainha, 54 Kkilometros' ao
N.0. de Lisboa, 450 fogos.
Em 4757, tinha 338 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Purificação.
Patriarchado' de Lisboa, districto aum
nistrativo de Leiria.
Os beneficiados de S. Pedro, d'Obidos,
224 ROL
apresentavam o cura, que tinha 60 alquei-
res de trigo, 30 de ceveda, um tonel de vi-
nho, e 48000 réis de congrua.
É terra muite fertil, em todos os generos
agricolas do paiz.
É glorioso para esta freguezia, em parti-
cular, e para a nação em geral, o dia 17 de
agosto de 1808, no qual, o exercito luso-bri-
tanico obteve a primeira victoria contra as
hordas de salteadores jacobinos, do infame
Junot.
Os francezes eram inferiores em numero
aos alliados, mas as suas quasi inaccessiveis
posições suppriam-lhes muito a inferiorida-
de do numero.
Era cabecilha do inimigo, o malvado La-
borde,. e chefe dos alliados, o immortal sir
Arthur Willesley (depois lord Willington,
conde do Vimeiro, marquez de Torres-Ve-
dras, e duque de Wellington.)
Os jacobinos tiveram mais de 500 mortos
e feridos.
Note-se que.o exercito portuguez era com-
posto, na sua quasi totalidade, de soldados
bisonhos, feitos á pressa, e que entravam
em fogo pela primeira vez, e de milicias e
paisanos, mal armados, e que tambem nun-
ca tinham assistido a- qualquer combate.
Os soldados inglezes, tambem quasi todos,
era a primeira vez que tomavam parte em
uma batalha.
Apezar d'estas circumstancias desfavora-
veis, era um quadro arrebatador, ver a bra-
vura, sangue-frio e disciplina, com que os
intrépidos alliados, e estes destemidos galu-
chos atacaram à bayoneta. callada, e toma-
ram as alcantiladas posições do inimigo.
Esta batalha foi o preludio da do, Vimei-
ro, dada logo a 21 d'agosto, e que ambas
foram a causa da expulsão do rapinante Ju-
not e dos seus camaradas.
Esta gloriosa acção foi dada nos limites
da Roliça, da Columbeira, é da Azambujeira
dos Carros.
(Vide Óbidos, Tavarêde.e Vimeiro.).
O general Loison, que estava em Abran-
tes, marchou sobre Otta e Alcoentre, para
se unir a Laborde, e, perdendo a batalha da
Roliça, retirou para Torres-Vedras, para se
ROM
unir ás. tropas de Junot, que vinham de
Lisboa. oil
Em quanto Junot oceupava Torres-Ve-
dras, sir Arthur. Willesley marchava pelo
caminho da Lourinhan, com o fim de apro-
ximar-se da costa, para estar protegido pela
esquadra ingleza, que andava nas aguas de
Peniche e Ericeira, tendo a sua maior parte
fundeada em frente da Atalaya.
Nasceu na Roliça, a esposa do sr. Carlos
José Caldeira (irmão do sr. conde de Casal
Ribeiro) que falleceu, na sua casa de Chel-
las, freguezia do Beato, a 29 de abril de 1877.
Foi uma dama virtuosissima, e de exemplar
caridade.
Deixou 1008000 réis para os pobres da
freguezia do Beato, e 502000 para os da Ro-
liça: 4508000 réis ao asylo dos cegos, de
Castello de Vide; e alguns legados de 508000
réis a estabelecimentos de benficencia, tudo
na importancia de 2:0008000 réis, incluindo
os legados a parentes pobres.
Deixou dois filhos.
ROMANS—freguezia, Beira Alta, concelho
de Satam, comarca e 24 kilometros ao E. de
Viseu, 310 ao N. de Lisboa, 255 fogos.
Em 1757, tinha 410 fogos.
Orago, Nossa Senhora do Valle.
Bispado e districto administrativo de Vi-
seu.
O real padroado apresentava o reitor, que
tinha 808000 réis de congrua e o pé d'al-
tar.
O Portugal. Sacro e Profano (não sei com
que fundamento) dá a esta freguezia o nome
de ROMARIZ.
Pertence ao antigo concelho de Gulfar.
(Vide Pinheiro d' Aguiar.) Fica sobre a mar-
gem esquerda do rio Vouga, em frente de
Ferreira d'Aves.
Ha n'esta freguezia um alcantilado monte,
chamado o Barrocal. Entre uns altos e es-
cabrosos rochedos, está a capella de Nossa
| Senhora das Romans ou do Barrocal 1 tendo
1 À verdadeira invocação da padroeira, é
“Nossa Senhora da Purificação, ou das Can-
deias, mas o povo dá-lhe vulgarmente o ti-
tulo referido no texto.
ROM
ao lado do norte, um pequeno valle, regado
por uma fonte de crystalinas e frescas aguas.
Varios caminhos, todos pedregosos, vão
dar á capella, e um d'elles é o do povo do
Carvalhal, para a matriz; que passa mesmo
junto da ermida. Ao E. desta, se veem umas
casas terreas, residencia do eremitão, com
uma horta e pomar contiguo, murados, e
sobre um despenhadeiro.
O templosinho é bonito, e todo construido
de pedra de cantaria.
Ignora-se quando foi construido o primit-
tivo: o actual, é uma reconstruceção desde
os alicerces, feita por ordem do bispo de Vi-
seu, D. João de Mello.
Tem em volta uma sapata ou banquêta
para commodidade dos romeiros. Tambem
solicitou para esta capella um grande le-
gado que deixára Manuel de Figueiredo,
fallecido na povoação de Mariquita (Castel-
la) e natural do logar de Decermillo, ou
Sermillo, então concelho de Gulfar, fregue-
zia anneéxa a esta de Romans. Este homem
era muite rico, e não tinha herdeiros força-
dos; pelo que, por testamento, deixou a
maior parte dos seus haveres, para que com
elles se fundasse um mosteiro de monges
benedictinos.
As riquezas do testador estavam porem
nas garras dos castelhanos, e não era facil
arrancar dellas a herança. Apenas, depois
de muitas diligencias do bispo, e contesta-
ções dos castelhanos, se poude cobrar o suf-
ficiente para reconstruir a ermida, e com-
prar alguma fazenda, que rendia annual-
mente 808000 réis, com o que D. João de
Mello instituiu uma capella de missas, a pe-
quena congriiã do eremitão, a sufficiente
renda, para custeio dos reparos e conserva-
ção da ermida, e os paramentos necessarios
para o culto divino.
São administradores da ermida, os provi-
sores do bispo de Viseu. O eremitão era até
1834 apresentado pelo parocho da fregue-
zia, e confirmado pelo bispo.
As esmolas são para o eremitão.
A imagem da Senhora é de pedra d'An-
can e tem 07,77 de alto : é de boa esculptu-
ra, e a festa se lhe faz no seu dia proprio,
que é a 2 de fevereiro.
ROM 225
ROMÃO—portuguez antigo—romano (de
Roma.)
ROMÃO (S) — monte, Douro, nos limites
das freguezias de Eiriz, e S. Pedro Fins de
Ferreira, no concelho de Paços de Ferreira,
comarca de Lousada.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
Fica este monte 3 Kilometros ao S. dos
rios Áve é Visella. Tem bastante altura, e
deve o seu nome a uma ermida de S. Ro-
mão, que alli existiu, e da qual ainda ha
vestigios. Corre o monte de N.a S., e pela
sua posição elevada, se descobre delle um
vasto horisonte.
No seu cume ha um plató, onde existiu
uma antiquissima cidade, ou povoação, e a
cujo sítio dá o povo o nome de Cidade Ve-
lha. Era esta cercada de um bom muro,
com uns 1:500 metros de circumferencia, e
de 1,754 de espessura, e ainda no principio
d'este seculo conservava a altura de 0,266,
No seu ambito ha ruinas de pequenas ca-
sas, e vestígios de ruas, estreitas e ladrilha-
das. No centro ha uma elevação, cercada de
outro muro da mesma grossura do antece-
dente, e dentro do seu ambito, se veem rui-
nas de algumas casas maiores, e de um cas-
tello, ou fortaleza, de fórma circular, e de
boa cantaria. (É outra Citania.)
Fóra do cinto de muros exteriores, a uns
400 metros de distancia, ao N. e ao S., se
veem vistigios de trincheiras.
Em um valle proximo, se descobriu, no
principio do seculo passado, uma grande
cova, tapada com uma pedra redonda, com
um orifício quadrado. A cova é fechada de
abobada, de optima cantaria, e tem grande
profundidade.
Perto d'esta cova, está um penedo gigan-
tesco, tendo no centro um grande buraco,
redondo, tambem muito fundo.
A uns 1:200 metros ao E. da Cidade Ve-
lha, ha um penedo redondo, que tem gra-
vada a seguinte inscripção :
COS. NE. AE.
P. S.
Esta fica ao lado do E., e no lado op=
226 ROM ROM
Em 1757, tinha 380 fogos.
Orago, Nossa Senhora do Soccorro. 1
Bispado ds Coimbra, districto administra.
tivo da Guarda.
O real padroado apresentava o prior, que
que tinha 4608000 rêis de rendimento.
Foi villa e couto, ao qual o rei D. Manuel
deu. foral, em Lisboa, a 24 de janeiro de
4D1k. (Livro dos foraes novos da Beira, fl.
137, col. 2.º)
Está esta freguezia situada nas faldas da
serra da Estrella, e passa-lhe pelo meio, o
rio Alva, aqui atravessado por uma boa
ponte de pedra, chamada ponte do Peramal.
Mais abaixo ha outra ponte, tambem de pe-
dra, chamada Ponte d'Alem-d' Alva.
É terra fertil,
Grande abundancia de gado, principal-
| mente miudo, muita caça, grossa e miuda,
e peixe do. rio.
Ha aqui duas boas fabricas de tecidos de
lan, produzindo pannos de varias qualida-
des, e cujo propulsor é a agua do rio.
O primeiro nome d'esta freguezia, foi Ca-
beça de Romão. &
O rei D. Manuel, deu o senhorio d'esta
villa ao. 1.º conde de Portalegre, D. Diogo
da Silva; mas depois tornou para a coroa.
posto, ha outra, da qual apenas póde Jér-
se:
No centro das ruinas da tal cidade, se
achou tambem no principio do seculo pas-
sado, a estatua de uma mulher, com uma
roca na cinta. O povo a quebrou, por enten-
der que era um idolo pagão!
Pela solidez e perfeição dos muros, casas
e castello, suppõe-se ser isto tudo construe-
ção romana.
ROMÃO (S.)—aldeia, Minho, comarca e
concelho de Villa Nova de Famalicão. É a
3.º estação do caminho de ferro do Minho,
e fica entre as estações da Trófa, e Erme-
zinde.
ROMÃO (S.) — Vide Nogueira, do conce-
lho da Barca, e a 2.º Quintela.
ROMÃO (S.) aldeia, Douro, no concelho
de Vagos, comarca, districto administrativo,
bispado e 42 kilometros ao SO. d'Aveiro,
40.a0 N. de Coimbra, 230 ao N. de Lisboa.
É povoação muito antiga, e já existia no
tempo do conde D. Henrique, pae de D. Af-
fonso 1.
“Era uma parochia cujo. orago foi S. Ro-
mão, e os cruzios de Grijó apresentavam,
o cura, que tinha 603000 réis de rendi-)
mento.
Pertencia então (como todo o bispado de
Aveiro) à diocese de Coimbra.
D. Sancho I deu.o senhorio d'esta fregue-
zia, à D. João Fernandes;e D.Fernando João,
filho d'este, doou o senhorio ao santuario de
Nossa Senhora de Vagos, em 1202. Depois,
passou o santuario e o senhorio de S, Ro-
mão, para o mosteiro de conegos regrantes
de Santo Agostinho (cruzios) de Grijó.
A povoação de S. Romão, foi villa e cou-
to, ao qual o rei D. Sancho I deu foral, em
1190, quando a deu a D. João Fernandes.
ROMÃO (S.) (de Dadim)—Vide Nogueiró
e Dadim.
ROMÃO (S.) (de Céa) — freguezia, Beira
Baixa, comarca, concelho e à kilometros ao
A extincta villa de S. Romão de Céa, fica
entre as, tambem extinetas, villas de Mello
e Santa Marinha.
Ao N.E. da povoação, está a serra do
mesmo. nome .da freguezia, e n'ella, a uns
500 metros do logar, está um nicho aberto
na rocha, no, qual, segundo a lenda, apjpa-
receu uma imagem de Nossa Senhora, Miais
adiante, cerca de 15 metros, está outro ni-
cho, em outra penha, onde se diz appare-
céra uma imagem do Menino Jesus. Aimda
mais adiante uns 100 metros (no sitio omde
hoje está a capella) é fama ter appareciido
uma imagem de S. José.
Esta ermida fica a uns 20 metros da miar-
gem do Alva, e a 3 kilometros para N.E.. do
povo de S. Romão. Foi construida logo dde-
S,de Céa (foi do mesmo concelho, mas da co- | pois da apparição das santas imagens, e jpe-
marca de Gouveia) 70 kilometros ao E. de | log annos de 1650, e posto que seja dedicada
Coimbra, 265 20 E.N.E. de Lisboa, 430 fo» [| imail aib vas gil AP UE ar nte d
gos. | | 10 seu primeiro orago foi S. Romão.
|
|
|
|
À
|
ROM
à Sagrada Familia, se deu à padroeira o ti-
tulo de Nossa Senhora do Desterro, alludin-
do à sua fugida para o Egypto.
Em. poucos annos se tornou a capella de
Nossa Senhora do Desterro, um dos mais
famosos sanctuarios da Beira Baixa, e, com
as offertas, esmolas e doações dos fieis, não
só se aformoseou o templo, como tambem
se construiram casas e cêrca para residencia
do eremitão, e para abrigo e hospedagem
dos romeiros.
Está a egreja em logar solitario, mas ale-
gre e ameno no verão. O parocho da fregue-
zia, é que apresentava o eremitão.
Alem do templo da Senhora, se teem cons:
“ . . . a
truido varias capellinhas, um bom chafariz
e uma boa ponte de pedra, sobre o Alva.
A romaria de Nossa Senhora do Dester.
ro, é uma das mais concorridas da provin-
cia.
Vide Cêa, principalmente a
2.2 col. de pag. 222, do 2.º vo-
lume.
ROMÃO (S.) — freguezia, Alemtejo, co-
marca e concelho de Monte-Môr-Novo (foi
do mesmo concelho, mas da comarca de
Arraiolos), 35 kilometros de Evora, 90 ao
S.E. de Lisboa, 75 fogos.
Em 1757, tinha 66 fogos.
Orago, S. Romão.
Arcebispado e districto administrativo de
Evora.
A mitra apresentava o cura, que tinha
180 alqueires de trigo e 62 de cevada.
No districto d'esta freguezia, é a 11.º es-
tação do caminho de ferro do sul e sueste,
officialmente denominada de Monte-Mór-
Novo.
É terra muito fertil em cereaes.
ROMÃO (S.) —freguezia, Alemtejo, comar-
ca de Extremoz, concelho de Villa Viçosa,
94 kilometros de Evora, 155 ao S.E. de Lis-
boa, 150 fogos.
Em 4757, tinha 79.
- Orago, S. Romão.
Arcebispado e districto administrativo de
Evora.
“A mitra apresentava o cura, que tinha
180 alqueires de trigo e 90 de cevada.
É terra muito fertil em cereaes.
ROM 227
ROMÃO (S.) — freguezia, Beira-Alta, co-
marca e concelho de Rézende—foi do mes-
mo concelho, mas da comarca de Lamego,
d'onde dista 12 kilometros ao 0.N.0., 360
ao N. de Lisboa, 180 fogos.
Em 1757, tinha 85 fogos.
Orago, S. Romão.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Viseu.
O reitor de Anriade, apresentava o cura,
que tinha 408000 réis de congrua e o pé
d'altar.
ROMÃO (S.) —freguezia, Minho, comarca e
concelho de Barcellos, 24 kilometros ao O.
de Braga, 375 ao N. de Lisboa.
Em 1757, tinha 16 fogos.
Orago, S. Lourenço.
Arcebispado e district administrativo de
Braga.
O real padroado apresentava o cura, que
tinha 308000 réis e o pé d'altar.
Esta freguezia foi supprimida, por pe-
quena, no principio d'este seculo, e unida à
confinante.
ROMÃO DE NEIVA (S.)—Vidê Neiva.
ROMÃO. — Vidé Poço Romão.
ROMÃO (S.)—pequeno rio, Extremadura,
que dá origem ao Sádo. Vidê esta palavra.
ROMÃO (S.)—Vide Sádam (S. Romão do.)
ROMÃO (S.)—Vide Coronado (S. Romão
de.)
ROMÃO (S.)—pequeno rio, Douro, na fre-
guezia de S. Romão de Coronado (a antece-
dente) da qual toma o nome, e morre no
Ave, depois de um pequeno curso.
ROMÃO (S.)—logar, Alemtejo, na fregue-
zia e concelho de Alvito, comarca de Cuba.
Vidê o 3.º Alvito. »
Fica junto e ao S. de Alvito, 4 kilometros
de Villa Nova da Baronia, 5 de Vianna de
Alemtejo, 4 de Villa-Ruiva, e 5 de Villalva.
Foi n'este logar o primittivo assento da
actual villa de Alvito, da qual o 4.º nome
foi Villa Nova de Alvito, e é como vem de-
signado nos foraes.
Ainda existe a antiga egreja matriz, de-
dicada a S. Romão (cujo padroeiro deu o
primeiro nome à freguezia) e está hoje re-
iduzida a capella, da invocação de Nossa Se-
nhora da Graça.
298 ROM
O parocho da freguezia de S. Romão, e
depois o de Alvito, foi, até 1834, um frade
do mosteiro da Santissima Trindade, de
Santarem, apresentado pelo ministro do
mesmu mosteiro, que era commendador
d'esta egreja.
O parocho tinha 3004000 réis de rendi-
mento annual.
A villa, quando era em S. Romão, pro-
longava-se até à horta das Adegas, onde
existiu o palacio de Estevam Annes, e no
quintal d'elle havia uma tão grande parrei-
ra, que chegava à egreja matriz (S. Ro-
mão).
A abobada d'este palacio abateu em 1872,
e o resto do edificio foi demolido.
A primeira fonte da villa de S. Romão,
foi na horta das Adegas.
Com o correr dos tempos, foi-se a povoa-
ção estendendo para 0 lado de Santo Anto-
nio, ao norte.
Ainda aqui não parou a povoação, e se
foi povoando o terreno, sempre ua direcção
do norte, até ao sitio da villa actual.
Ainda ao sul da capella de Santo Anto-
nio, se vem muitos alicerces de casas, no
sitio onde hoje são os ferragiaes.
Tem, por varias vezes, n'estes contornos
apparecido esqueletos humanos, completos
e bem conservados; e quando se abriram as
covas, para plantar amoreiras, no rocio de
S. Sebastião (onde está a capella d'este san-
to) acharam alli grande quantidade de os-
sos, que se julga serem dos habitantes da
villa (então florescente cidade romana, cujo
nome se ignora) assassinados pelos barba-
ros do norte, no princípio do seculo v, e que
arrazaram a povoação.
De quasi todos os pontos de Alvito, se
vêem as ruinas do castello de Villa-Ruiva.
O outeiro de S. Miguel, junto á villa, é de
de bastante elevação, e do seu topo se vê
Beja, Cuba, Farinho, Villa Ruiva, Villalva,
Portel, Agua de Peixes, Ferreira, Alfundão,
Beringel, Villa Nova da Baronia e Odivel-
las.
Houve n'este monte a ermida de S. Mi-
guel, archanjo (que lhe deu o mome) a qual
ROM
foi vendida e profanada. É hoje um moinho
de vento!
Principia n'este monte, a serra de Muxa-
gata, e n'ella e no monte, ha varios moinhos
de vento.
A parte da serra de Muxagata, que per-
tencia à freguezia de Alvito, foi aforada, em
courellas, aos seus moradores, em 1863, e
acha-se hoje cultivada, produzindo trigo,
batatas, cevada, vinho, azeite e outros iru-
ctos. '
A outra parte da serra, pertencente á fre-
guezia de Villa da Baronia, tambem foi afo-
rada, em 1874.
Tanto o logar de S. Romão, como a villa
de Alvito, são muito saudaveis; e tanto que,
havendo nas freguezias circumferentes uma
epidemia de variola (bexigas) que durou
muito tempo, e fez bastantes victimas, aqui,
rarissimas pessoas foram atacadas, e nenhu-
ma falleceu.
A planicie em que está fundada a villa, é
em sitio elevado, e é essa a causa da sua
salubridade.
Está cercada de olivaes, principalmente
ao N., onde o olival chega até Vianna.
O rio Odivellas, que rega esta freguezia,
nasce nas immediações de Portel, sendo até
Oriolla um pequeno ribeiro. Principia aqui
a engrossar, e passa por Villalva, Villa-Rui-
va, Alvito o Odivellas, e desagúa no Sado.
As suas aguas fazem mover as rodas de
muitos moinhos e lagares de azeite. Traz
peixe.
Em 4875, fechou-se a opulenta fonte da
praça de Alvito, conduzindo-se a sua agua,
por um aqueducto subterraneo, para as no-
vas fontes e tanques publicos; hindo os seus
remanescentes desaguar no rio Odivellas,
depois de servirem de motores a nove aze-
nhas e regarem varias hortas.
Além d'este aqueducto, mandou a cama-
ra construir um amplo canal, para dar va-
zão à agua no inverno, porque então, é em
tão grande quantidade, que, antes d'esta
obra, eram frequentes as inundações na vil-
la. Este cano conduz a agua ao ribeiro das
Graves, que morre no Odivellas. É todo de
robusta cantaria.
ROM
O largo da Trindade, foi todo plantado de
amoreiras, em 1863.
A estação do caminho de ferro, fica a 1
kilometro da villa, e ha para ella uma boa
estrada moderna, à mac-adam. É um bonito
passeio.
O cemiterio foi feito à custa da camara,
em 1855, e dentro d'elle está a capella do
Senhor das Almas, que é a antiga ermida de
Nossa Senhora dos Martyres. É fechado por
um portão de ferro.
Junto à egreja da Misericordia, está a ca-
pella de Nossa Senhora da Purificação (ou
das Candeias.)
No largo de Santo Antonio, está a egreja
do mesmo santo, que foi de um! mosteiro
de frades capuchos antoninhos, supprimido
muitos annos antes de 1834.
Junto à egreja existe um ferragial, que
ainda conserva o nome de Cerca de Santo
Antonio, e era a do mosteiro. Proximo está
um lagar de azeite.
O edificio do mosteiro, estando em ruinas,
foi demolido pelos annos de 1790.
Ha na villa dez lagares de azeite.
No centro da villa, é o largo do Relogio,
onde está a casa da camara, com todas as
accommodações para as sessões municipaes,
administração do concelho, repartição. de
fazenda e cadeia.
Neste mesmo edificio está a bibliotheca
publica municipal, que já conta uma boa
porção de livros, e a camara emprega em
cada anno uma verba de 4004000 réis, para
hir augmentando a livraria.
No andar terreo, se vende a carne eo peixe.
Nesta casa da camara existe, bem con-
servado, o brazão de armas da villa, que é
um touro louro em campo de púrpura, com
uma aranha no focinho. Segundo a tradição
popular, o touro que deu causa a estas ar-
mas, fugiu para um vasto silvado, e de lá
sahiu, com uma grande aranha no focinho.
Quando se deu este caso, ainda a villa era
em S. Romão.
Note-se porém que as armas oficiaes da
villa, se véem em todos os livros desenha-
das de outra maneira.
Vidé no vol. 4.5, pag. 482, col, 2.2, a ulti-
ma linha.
VOLUME vuI
ROM 229
Para se evitarem repetições,
é preciso ver o 2.º Alvito, na
2 col. de pag. 180, do 1.º vo=
lume.
ROMÃO (S.) (de Briteiros) — monte, do
Minho, nas freguezias de Santo Estevam e
Nossa Senhora dá Piedade, de Briteiros, co=
marca e concelho de Guimarães.
Já nas duas mencionadas freguezias, e na
palavra Gitania (vol. 2.º, pag. 308, col. 2.2)
fallei da hoje famosa: cidade a que se dá o
nome (quanto a mim generico) de Citania 5
mas depois da publicação do 2.º volume, q
sr. dr. Francisco Martins Sarmento, de Gui-
marães (dono da quinta de Briteiros, a 3
kilometros das Taipas, e da maior parte do
monte de S. Romão), levado pelo simples
amor da seiencia, tem, á sua custa, feito
grandes excavações e descobertas no refe-
rido monte, com o que tem prestado um
relevantissimo serviço à archeologia 1.
É por isso que eu aqui torno a fallar na
cidade morta do monte de S. Romão.
Em primeiro logar, vejamos, em resumo,
o que diz D. Jeronymo Contador d'Argote,
nas suas Memorias para a historia ecclesias-
tica de Braga, tomo 2.º, pag. 457:
(Este livro foi publicado em 4734.)
A legua e meia (9 kilometros) ao O. de
Guimarães, e a mesma distaneia ao N.E. de
Braga, no alto de um monte, junto. ao rio
Ave, 3 kilometros a E. da estrada que con-
duz de uma a outra destas cidades, estão
umas ruinas a que o povo dá o nome de
Citania.
Segundo alguns historiadores, são os res=
tos da cidade romana de Cinania 2.
O monte de S. Romão, é bastante alto e
muito despenhado do lado do E.,S. e O.
Pelo N., communica com outros de inferior
altura.
tl O mesmo esclarecido cavalheiro, tem
feito, tambem à sua custa, grandes excava-
ções e valiosissimas descobertas no monte
de Sabroso, que fica proximo ao de S. Rox
mão. Vidê Sabroso de Briteiros. !
2 Ptolomeu diz que o Avus (Ave) corre à
vista da cidade de Cinania. Ou houve uma
cidade chamada Citania e outra Ginania,
ou Ptolomeu lhe adulterou o nome.
16
230 ROM
Do E. (do lado do Ave) se subia por uma
calçada, muito larga e ainda hoje pouco
damnificada, e coberta de matto, que hia
até ao alto do monte, e ahi o rodeava.
Pelo norte se veem vestígios de dois ba-
luartes de fórma circular. Junto d'um d'elles,
se vêem vestígios de outra calçada, que su-
bia da parte do O., e dá indício de ter sido
estrada coberta.
A povoação era no alto do monte, onde ha
vestigios de casas, pela maior parte, redon-
das, e construidas de pedras miudas.
As ruas eram estreitas, não cabendo mais
de duas pessoas a par (!): só uma, que corre
de E. a 6., e atravessa toda a povoação, tem
largura para quatro pessoas em linha.
Ao S., está uma casa, que é a maior, e se
acha ainda com paredes de dois ou tres pal-
mos. Parece ter sido templo, e affirmou um
individuo, que, pelos annos de 1700, se lhe
viam arcos subterraneos, os quaes, um chan-
tre de Braga, desfez, para levar as pedras
melhores para uma sua quinta; entre as
quaes foi uma de marmore, da qual adiante
se trata.
As ruinas da povoação estão cingidas por
uma muralha de 2,20 de largo, e n'ella um
portal da mesma largura. D'esta muralha,
até outra que fica mais abaixo, ha a distan-
cia de 30 metros. Ainda a 111 metros de
distancia ha outra muralha, todas da espes-
sura da primeira.
Segundo as informações de um archeolo-
go que visitou estas ruinas, do lado do S. e
O.. por ser o monte despenhado, só tinha
uma muralha; mas do N., por onde se-com-
munica com outros montes mais baixos, ti-
nha, na parte mais fraca, cinco, e no resto
quatro, com bastidas, entre uma e outra mu-
ralha.
Eram obra muito bem acabada, e até, em
partes, romperam os rochedos a picão, com
incrivel trabalho.
" Entre diversas pedras aqui encontradas,
se achou uma, no sitio onde existiu um tem-
plo pagão, ou ermida catholica com esta in-
scripção :
XHVCVO
Foi por essa occasião que se achou a ce-
lebrada Pedra formosa. O chantre da Sé de
ROM
Braga, Ignacio de Carvalho, abbade de San-
to Estevam de Briteiros, a mandou remover
para o sitio chamado o Poço da Olla, ends
esteve até ao anno de 1718, sendo então le-
vada por 11 juntas de bois, para o adro da
dita egreja de Santo Estevam.
Tem esta pedra 2,”64 de largura, 2,m42 de
alto, e 0,44 de espessura. Do lado da frente
tem diversos desenhos, de fórmas extrava-
gantes. (Vide Briteiros, Santo Estevam.)
Esta pedra está outra vez no seu primit-
tivo logar, por diligencias do sr. dr. Sar-
mento.
Achou-se outra pedra, quadrada, com o
lavor de um laço muito usado entre os TO-
manos. Outra, tambem quadrada, tendo gra-
vadas varias figuras, entre ellas, a de um sa-
tyro, nú, com uma tocha na mão, e por traz
d'elle outro, tambem nú, com os braços es-
tendidos.
O doutor Barros, nas suas Antiguidades
de Entre Douro e Minho, diz que houve em
Citania, um moimento muito velho, que
constava ser a sepultura do rei Wamba. 1
Conclue Argote que houve aqui povoação
romana, que ainda existia no tempo dos sue-
vos, dos godos e dos mouros.
Ainda no livro 5.º (2.2 edição) de Anti-
quitatibus conventus bracarangustani, a pag.
166, diz o padre Argote, em summa, o que
segue :
Quasi todos os nossos geographos e histo-
riadores asseveram que, em um monte que
fica entre Braga e Guimarães, existiu a anti-
quissima cidade de Cinania, que ja era illus=
tre pela intrepidez de seus habitantes, antes
da expedição do consul Decio Junio Bruto,
1 Não foi sepultura do rei Wamba, mas
de um santo abbade, do mesmo nome, que
talvez fosse parocho de uma freguezia do
arcebispado de Braga, chamada Gitania ou
Gitania, da qual falla o concilio lucense,
convocado por Theodomiro, rei dos suevos,
em 568, e portanto 114 annos depois que 0
rei Wamba abdicou a coroa, em Ervigo,
(682) que havia adoptado.
Este abbade Wamba era o de um antigo
matriz de Santa Leocadia de Briteiros. (Vi-
de 1.º vol. pag. 491, col. 2.2, no principio.)
mosteiro benedictino, cuja egreja é a actual |
ROM
contra os lusitanos, no anno 133 antes de
Jesus Christo. (Vide 4.º vol. pag. 93, col. 2.2)
Pondo Bruto um apertado cérco à cidade
de Cinania, e vendo que a não podia tomar,
maúdou dizer aos cercados, que por certa
quantia, levantava o sitio e os deixava em
liberdade. Os lusitanos responderam, que os
seus antepassados lhes não deixaram ouro
para comprar a liberdade, mas ferro para a
defender.
Até aqui Argote. Vejamos agora o que 0
benemerito sr. dr Francisco Martins Sar-
mento tem descoberto até à actualidade
(1879.)
Até dezembro de 1876, se tinham desco-
berto muitas casas circulares, talvez obra
dos antigos lusitanos. Teem uma só porta,
alta, por onde se trepava por degraus mo-
veis.
Foram achadas algumas esculpturas, com
inscripções que fazem recordar o typo das
antigas esculpturas celticas-irlandezas.
Fragmentos de alampadas; amphoras de
barro saburtino; uma grande pedra, de 3
metros de comprido por trez de largo, co-
berta de lavores similhantes aos da edade de
ferro, as ultimas dos tempos pre-historicos.
Tem-se descoberto muralhas de 3 e4 me-
tros de espessura.
As casas que teem apparecido, são umas
circulares, e outras quadrangulares, já en-
costadas a outras, já separadas por um in-
tervallo de 0,745, Estão: todas em um certo
alinhamento, e separadas por estreitas ruas,
calçadas com lages de granito.
No alto da povoação houve uma pequena
praça.
Todas as figuras e ornatos que teem ap-
parecido, são pre-romanas, segundo demons-
tra O estylo e a execução, e tudo indica que
a arte da esculptura ainda estava na infan-
cia, e o carcomido das pedras mostra evi-
dentemente a sua muita antiguidade.
Appareceram tambem muitas pedras com
cruzes, gravadas de varias fórmas, mas, só
uma dellas:se parece com. o symbolo do.
christianismo: esta porem, parece ser de
época mais moderna do que as outras.
ROM 231
Apparecem duas ordens de inscripções.
Sobre alguns fragmentos de barro, e, no
que parece ser padieira de uma porta, vé-se
o nome Camal, que parece celta, mas es-
cripto em caracteres romanos. 1
Tem apparecido varias inscripções, com
caracteres desconhecidos (por emquanto)
mas os alphabetos n'ellas empregados, é pro-
vavel que sejam manifestamente os greco-
italiotas.
Acharam-se fragmentos de diversos va-
sos que parecem romanos, e até em muitos
se lê o nome do oleiro que os fabricou; mas
outros são tão toscos, que parecem mais an-
tigos. Uns são fabricados do celebre barro
saguntino, outros de uma argilla grossa e
mal preparada.
Tem-se tambem encontrado as costuma-
das fuzaiolas, cujo destino é por ora tão
disputado, mas que parece haverem sido de
uso muito geral em todas as épocas antigas
poisnão ha excavação em que não a ppareçam
Pela diminuta quantidade de telhas (fra-
gmentos) que se tem encontrado, suppõe-se
que as casas eram cobertas de côlmo, e só os
beiraes de telha. 2
1 É provavel que, se esta palavra não é
de origem lusitana, a herdassemos dos cel-
tas. O que é certo é que, no portuguez an-
tigo, camal, camalho, e bacinête, era o mor-
rião ou chapeu de ferro, de aço, ou de co-
bre, com que os. antigos guerreiros defen-
diam a cabeça, dos golpes do inimigo. Ain-
da no principio do 45.º seculo se dava O
nome de camal (camaal) a esta parte da ar-
madura.
Propriamente queria dizer babeira. D.
João I, mandou dizer aos povos de Frexo
de Espada à Cinta, em 1410, que escolhes-
sem-—ou ter as Gotas, ow peças com bacine-
tes de Camaaes, ou de babeira, e com avam-
braços, (bésta de garrucha) ou ter as sólhas
(especie de cólas. guarnecidas de laminas de
aço, do feitio de sôlhas, peixe) e gorgelim
(depois disse-se gorjal ou gorgueira—era à
peça da armadura que defendia o. pescôço)
qual antes quizessem, tal tenhão. (Doc. da
Camara de Freixo de Espada à Cinta, de
1440.) +
2 Talvez fossem, na maxima parte, feitas
de abobada, em vista da grande quantidade
de pedra faceada que apparece; e eis a ra-
zão de se acharem tão poucos fragmentos de
telha. - j
232 ROM
Acham-se muitas mós e andadeiras, o que
prova que este povo fazia uso diario do pão.
Os objectos de metal encontrados, são em
pequena quantidade, e tão oxidados, que
não é facil determinar-lhes as fórmas. Pela
mesma razão se não póde verificar eviden-
temente, à materia de que foram construi-
dos, mas parecem de cobre e ferro.
As moedas apparecidas, tambem são pou-
cas e todas celtibericas; duas, porem, teem
a palavra Augusto.
Em agosto ou setembro de 1876, desco-
briram-se 17 sepulturas, formadas de pedras
pequenas, e contendo vestígios d'ossos, mis-
turados com terra, cacos e carvão, e fra-
gmentos de diversos metaes. Todas foram
achadas no sitio da primittiva capella de S.
Romão, da qual ainda ha vestigios. Duas es-
tão mesmo dentro do ambito da capella, o
que faz suppor que são de uma epoca mais
moderna, e jazigo de christãos: talvez do
tempo dos suevos. Trez ou quatro sepultu-
ras, são de grandes dimensões: as outras
são pequenas, sendo as maiores de um me-
tro de comprido.
Em vista da robustez e espessura das mu-
ralhas do N., é de suppor que esta cidade ti-
vesse muitos seculos de duração; porque não
se faziam tão solidas construcções para uma
residencia ephemera. O mesmo attesta a boa
construcção das casas, e o calcetamento das
praças e ruas.
“ Tem-se achado fragmentos de vidro, e es-
corias de forja, e alguns, poucos, objectos
de prata; cobre e prata, com esmalte ; e
ouro, com liga de cobre.
Tgnora-se quem foram os fundadores, e
«quem os destruidores d'esta povoação; o que
se conhece é que não foi o correr dos secu-
los, mas a mão do homem, quê a destruiu.
É provavel porem que os seus fundadores
fossem os gallos-celtas (ou gallici) que deram
o nome à Galliza.
Esta Citania estava no districto da tribu
tamacana (vide (lanavezes) uma das que
ajudou a construir a ponte de Chaves.
Segundo alguns archeologos, o nome pro-
prio d'esta cidade (circumscripção) era Bri-
deiros e dizia-se a citania de Briteiros. ou
ROM
citania dos Briteiros, dando-se aos poros
d'estes sitios o nome de briteiros, nomeque
ainda conservam as freguezias de Santo Es-
tevam, Santa Leocadia, e S. Salvador, todas
n'esta localidade e contiguas umas às outras.
Será assim, mas briteiros parece-me pala-
vra muito moderna.
Já em 1873 disse, a pag. 309, col. 2.2, do
2.º volume, que, em vista do numero de ci-
dades da Peninsula chamadas Citania, me
parecia que este nome não era proprio mas
generico. Tive a satisfação de ver que, em
1877, o fallecido academico, marquez de
Souza Holstein, e o sr. Simão Rodrigues Fer -
reira 1 foram da minha opinião.
Desde o Estreito de Gibraltar, até à nossa
actual Extremadura, houve no litoral varias
cidades com o nome de Carteia, o que me
faz suppor que esta palavra era termo ge-
nerico, e significava cidade maritima. (Vide
Carteia, Peniche—a pag. 619, col. 1.º do 6.º
volume—e Meridiano.
No interior do reino, houve tambem va-
rias Citanias—lembram-me as seguintes—
1.2, esta de que estamos tratando—2.2, a de
Róriz—3.:, a do monte da Saia—t.º, a de
Bayão.
Estou pois convencido, que, assim como
carteia significa cidade maritima. citama
queria dizer cidada de interior.
Tambem ha duvidas quanto à etymologia
da palavra citania.
Do que fica dito se collige que esta povoa-
ção foi fundada nos tempos pre-historicos,
que continuou per toda a época dos antigos
Insitanos e gallos-celtas, e que floresceu no
tempo dos romanos, depois de pacificos se-
nhores da Lusitania. Mas quem a destruiu?
—Talvez os suevos, vandalos e wisigodos,
no seculo quinto.
Entre os gallos-celtas, citan, significava.
cidade ou povoação, como tan era synonimo
de paiz, ou região. Nas ilhas britanicas, cy-
1 Recommendo aos meus leitores o folheto
publicado por este esclarecido cavalheiro,
em junho de 1877, na typographia do Gom-
mercio do Porto. É um estudo muito interes-
sante é curiosissimo.
ROM
tian tinha a mesma significação (e talvez
fossem os bretões inglezes que introduziram
O termo nas Gallias, quando, atravessando 6
cannal da Mancha, se foram estabelecer na
Armorica, cujo nome mudaram em Breta-
nha. (Vide Druidas.)
Da palavra tan, se fez tania e é destes
dois termos provavelmente que se deriva—
Indostan, Turkestan, ete., e, Lusitania, Pen-
silvania, Marcomania, Sarmania, etc.
Porei aqui termo a este artigo, apezar de
haver sobre o que fica dito materia para um
8rosso volume ; mas se as pessoas dadas aos
estudos archeologicos se deleitavam com
elles, as mais —e são a maior parte —
acham-os sobremaneira enfadonhos é sopo-
rificos.
ROMÃO (S.) DE ARMAMAR —freguezia,
Beira Alta, comarca e concelho d'Armamar
(foi do mesmo concelho, mas da comarca de
Lamego—42 kilometros de Lamego, 335 ao
N. de Lisboa, 120 fogos.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Viseu.
Em 1757, tinha 80 fogos.
Orago, S. Romão.1
O povo apresentava o cura, que tinha
248000 réis de congrua e 0 pé d'altar.
Está esta freguezia situada entre as de 8.
Thiago, que lhe fica a E., e a de Tões, que
fica a O.
É composta de quatro aldeias :
Travasso, em uma eminencia, e onde
está a capella do Espirito Santo, e no dia da
sua festividade, vem alli 0% parochos de al-
gumas freguezias, em clamor, com as cru-
zes levantadas, e se reune então um grande
arraial.
Alcouce, 2 e aqui está a capella de S. Gon-
galo.
1 O padroeiro é advogado contra a hydro-
Phobia, e a sua festa é à 9 d'agosto.
O povo tambem recorrê á sua intercessão,
Para a cura das sesões, e para afastar as tro-:
voadas: e quando as ha, collocam o santo
entre duas vellas, à porta da egreja, crendo
que, assim, a trovoada desapparece.
* O verdadeiro nome d'esta aldeia, é Al-
couço, que no portuguez antigo significa sul,
ou que está do lado do sul.
ROM 233
Passos, existe aqui a capella de Nossa Se-
nhora da Boa-Morte, na qual ha—entre ou-
iras —'tres admiraveis imagens — a da pa-
droeira—a do Senhor da Agonia—e a de S.
João Baptista.
S. Romão, onde está a capella de Nossa
Senhora do Direito, vulgarmente denomina-
da Senhora da Costa, por estar em um serro.
Junto desta capella, e em sitio arejado e
salubre, é que foi construido o cemiterio
parochial, bastante espaçoso, e com exten-
sas vistas para 0 E., O. e N.
Ha nºesta freguezia, uma pia usança, simi-
lhante à da Lourinhan (4.º vol., pag. 463) e é
—quando se precisa de sol, é o padroeiro
da freguezia conduzido em procissão à ca-
pella da Costa, e alli fica até cessar à chu-
va; e quando esta é continuada, tornam a
levar o santo para a capela até vir tempa
de sol.
É opinião de muitos dos meus leitores,
que sou um segundo frei Bernardo de Brito,
semeando milagres n'esta obra, com a maior
prodigalidade. É engano. Creio firmemente
que a Deus nada é impossivel; mas, nem os
milagres que refiro, os dou como taes, nem
obrigo pessoa alguma a crer n'elles; mesma
porque não são pontos de fé. Relato esses
factos, e nada mais.
Aqui vão pois dois factos acontecidos n'ese
ta capella de Nossa Senhora da Costa.
A sêcca esterilisadora do anno do 187%,
aterrou a maior parte do povo portuguez,
principalmente os lavradores.
Os parochianos de S. Romão de Armamar,
recorreram—na fórma do costume—á. sua
antiga devoção. No dia 1.º de setembro d'esse
anno, levaram o seu padroeiro, em procis-
são, à capella da Senhora da Costa, e loga
no dia 3 choveu abundantemente. No dia &,
continuou a estiagem.
Na terça feira, 15 de agosto de 1876 (a
ultimo anno de sêcca geral n'este reino, no
periodo de tres annos) tambem o povo da
freguezia levou o padroeiro à capella da Se-
Alcouce, é corrupção de Alcouço. Ma
Portanto o nome da povoação não é sy=
nonimo de prostibulo, mas, de cousa que
estã do lado do meio-dia. (Documentos dos
seculos XIV e XV.)
234 ROM
nhora, no meio de um calor intensissimo, e
sem haver o menor indício de chuva.
No dia seguinte, appareceram algumas
nuvens, e no dia 17 choveu torrencialmente
por estes sitios, e o calor diminuiu.
A egreja matriz está na aldeia de S. Ro-
mão.
Estava muito arruinada, mas o reverendo
parocho actual, o sr. Manuel Alves dos Reis,
presidente da junta de parochia, e os mem-
bros, os srs. doutor João Maria Mergulhão
Neves Cabral, e padre Antonio Augusto Pinto
de Carvalho, com o maior zello e sollicitu-
de, mandaram reparar o templo convenien-
temente, e está hoje no maximo aceio. Os
mesmos cavalheiros lhe compraram ricos
paramentos e alfaias.
A sachristia é magnifica, tanto pela sua
amplidão e altura, como pela abundancia de
luz ; e, sobretudo, pelas primorosas moldu-
ras e relevos das madeiras qne a revestem
nas paredes interiores do lado do norte,
onde ha um nicho em que está collocado um
Crucifixo, de excellente esculptura.
Andando em visita, o bispo de Lamego,
D. João Antonio Binet Pinto, affirmou que
em todo o bispado, não achara em nenhuma
freguezia rural uma sachristia que egualasse
esta.
As pinturas do tecto da egreja, são tam-
bem primorosas, e as sybillas que adornam
a capella-mór, são geralmente admiradas,
não só pela sua perfeição, como pela anti-
guidade que revelam.
Com effeito—esta freguezia é muito antiga.
De uma renhida demanda que houve no se-
culo 47.2, sobre a quinta do Ribeiro do So-
brado, hoje propriedade da sr.* D. Mathilde
Aurora de Souza, d'esta freguezia, se occu-
pa Pegas Forense, no tomo 2.º, pag. 759. Vi-
veu então n'esta quinta, um famoso licen-
ceado, por nome Duarte Rodrigues.
A freguezia, está situada na encosta E. e
N. de uma doce elevação, donde se desco-
bre um vasto horisonte, que abrange parte
“da Beira-Alta, até ao rio Douro, é Traz-os-
Montes, até muito além de Villa-Real.
O seu territorio é fertilem milho, centeio.
ROM
cevada, batatas, feijões, vinho, hortaliças,
muita e saborosissima fructa, e alguma cas
tanha.
Tem seis fontes publicas—são—fonte do
Santo, Enxertado, Fontainha, da Catharina,
dos Pas-os, e do Travasso. Cinco reservato-
rios publicos, cujas aguas são distribuidas
no verão, para rega de muitos predios rus-
ticos, por um repartidor nomeado para cada
um dos reservatorios, pela respectiva ca-
mara. !
Estes reservatorios se denominam — Ea-
xertado, Tapar, Extremadouro, Ameal de
Cima, e Ameal de Baixo.
Houve tambem um bom manancial d'aguas
ferreas, excellentes para os padecimentos do
estomago, porem o dono do terreno onde el-
las brotavam, fazendo n'elle algumas obras,
as deixou subterradas.
Ha nos Imites d'esta freguezia algumas
minas de metal, e uma de phosphoreto, que
foi lavrada pelo subdito hespanhol, Diogo
Peres Paulino, mas acha-se abandonada des-
de 1875.
É tambem aqui a fertil eimportante quinta
do Malheiro ou Pontinha, da qual foi pro-
prietaric, o sr. padre Manuel Caetano Soeiro,
um dos mais instruidos ecclesiasticos d'es-
tes sitios, e hoje a possue seu sobrinho, o
sr. padre Manuel Antonio Soeiro d'Albu-
querque.
Nasceu n'esta freguezia o padre Domingos
das Neves (tio de Luiz das Neves Pinto Go-
mes, de quem adiante fallo) celebre pela sua
vasta intelligencia, e pelas suas numerosas
poesias. Foi um dos melhores poetas repen-
tistas do seu tempo.
Encetou brilhantemente a carreira univer-
sitaria, em Coimbra, chegando a matricular-
se no 3.º anno de direito; mas, abusando do
seu muito saber, cahiu na tentação de fazer
exames preparatorios em nome e por conta
de outros estudantes. Descoberta a fraude,
teve de fugir de Coimbra, sem concluir a sua
formatura, e foi residir para Lisboa, onde
frequentava a sociedade mais escolhida, na
qual era apreciado pelo sem ameno trato,
variada instrucção e estro poetico.
Na capital o cognominaram o poeta-gallê-
ROM
go, por ser do norte do reinô. Regressando
a esta freguezia, aqui falleceu, no 4.º de mar-
ço de 1785. A vasta collecção das suas poe-
sias desencaminhou-se.
Conta-se que, dando-se-lhe, em uma so-
ciedade aristocratica da capital, o mote —
Amais formosa que Deus (de proposito para
o atrapalhar), elle o glosou de repente do
modo seguinte:
De uma certa romaria,
Entre duas damas vim;
Uma feia me par'cia
E a outra um seraphim.
Vendo-as eu taes assim,
Sós, e sem amantes seus,
Lhes perguntei:— Anjos meus,
Quem vys pôz em tal estado?
Disse a feia, que o peccado;
A mais formosa, que Deus.
Em 6 de fevereiro de 1803, falleceu n'esta
freguezia, o mórgado, José de Carvalho, na
edade de 447 annos, conservando até ao ul-
timo momento todas as suas faculdades in-
tellectuaes.
José Pinto d'Azevedo, era um mórgado
d'esta freguezia, e pessoa de muita nobreza.
O parocho d'então, era homem de genio iras-
civel, e tendo certas desavenças com o mór-
gado, receando a sua vindicta, abandonou a
freguezia e fugiu para a sua terra.
O povo estimava o parocho, e reunindo-
se, no dia 21 de abril de 1793, marchou para
aterra do parocho, na intenção de o tra-
zer para a freguezia; mas, no caminho, lhe
sahiu o mórgado, ao encontro, armado de
uma espingarda, e perguntando onde hia to-
da aquella gente, um da turba lhe fallou in-
convenientemente, e o morgado o matou com
um tiro. O povo então, exasperado, matou
O assassino, à paulada.
Ambos os mortos foram enterrados nó dia
seguinte; ficando 18 pessoas culpadas. Ain-
da hoje é aqui este facto recordado com hor-
Tor.
-——
Esta freguezia em 1811 foi saqueada pe-
las hostes francezas, soffrendo graves dam-
ROM 235
nos. Foi até isso consignado nos livros da
Irmandade das Almas, como consta das duas
actas seguintes:
«Anno do Nascimento de Nosso Senhor
Jesus-Christo de 1812, aos nove dias do mez
de fevereiro, n'esta'egreja parochial de São
Romão, aonde se achavam juntos a meza é
irmãos da Irmandade das Almas d'esta fre-
guezia, e por elles e com parecer de todos
assentaram uniformemente, que visto terem
os francezes no saque, que deram a esta
egreja, rasgado e destruido os moveis e al-
faias pertencentes à mesma Irmandade, e
achando-se esta sem fundo algum, com que
possa reparar esta perda e comprar outros
etc. .... o que visto por todos, e como não
resta meio algum de poder subsistir por máis
tempo esta Irmandade, se desse por extin-
tincta, fazendo-se: para isso requerimento ao
dr. provedor d'esta Comarca, e entregando
os livros pertencentes à mesma Irmandade
a quem por elle for mandado, e de quem es-
peravam assim o haver por bem, etc......
e fiz este termo que todos assignaram.»
«Anno do Nascimento de Nosso Senhor
Jesus-Christo de 1817, aos 13 dias do mez
de junho, n'esta egreja parochial de S. Ro-
mão, aonde haviam sido convocados, e se
acham juntos o juiz, mordomos, e mais offi-
ciaes da Irmandade das Almas desta fregue-
zia, afim de darem cumprimento ao que de-
termina o dr. provedor d'esta comarca, e
examinando os moveis, alfaias e ornamen-
tos que possuia esta Irmandade, se achou,
que todos háviam sido roubados, rasgados
e estragados pelos soldados francezes, quan-
do invadiram e saquearam a egreja e toda
a freguezia, e que por isso e desde então fi-
cou privada dos moveis, alfaias e ornamen-
tos que possuia, sem que haja cousa alguma
que possa descrever-se.»
A Irmandade acima alludida, achando-se
já erecta na egreja matriz d'esta freguezia,
foi approvada pelo Santo Padre Paulo V, por
breve de 1616, no qual concedeu grandes
privilegios e vantagens à mesma, taes como
indulgencia plenaria aos irmãos no dia da
sua entrada, confessando-se e commungan-
do; e outro tanto no dia de S. Romão, bem
como outras graças e indulgencias nos dia
236 ROM
de S. Pedro e S. Paulo, de Santo Antonio,
de S. Francisco, e de Nossa Senhora dos Pra-
zeres.
Apesar das deliberações supra, a Irman-
dade subsiste ainda hoje em estado, se não
florescente, muito soffrivel.
O periodo decorrido de 1834 a 1838, foi
de devastação e de terror para a Beira Al-
ta: quadrilhas arregimentadas assaltavam à
viva força, de noite, as casas, ao principio
dos miguelistas, e mais tarde de quaesquer
cidadãos opulentos, fosse qual fosse a sua
politica; tendo quasi sempre passado os dias
em orgias e bachanaes, ora aqui, ora alli,
com a maior publicidade; e felizes os que
não eram assassinados, como O foram bar-
baramente o dezembargador Rodrigo Sar-
mento de Vasconcellos e Castro, o ex-ma-
gistrado Antonio Vaz Borges de Medeiros,
a bondade personalisada, e o misero frei Pe-
dro, a quem no convento de Salzedas criva-
ram de facadas, até que expirou, pedindo-
lhe de cada uma d'ellas o seu dinheiro, que
elle não tinha!
Foi então que n'esta freguezia se deu
uma sanguinolenta scena, no dia 8 de maio
de 1838, que hoje faz ainda estremecer de
horror os poucos vivos d'essa geração que
a presencearam. Fixou aqui a sua residen-
cia um dos chefes da quadrilha, ave de ar-
ribação vinda da provincia de Traz-os-Mon-
tes, e vivia em Santo Adrião outro chefe, co-
nhecido pelo nome de José Teixeira, o Ca-
vallaria, de execranda memoria, que a ou-
tros crimes incriveis, juntára o de matar e
enterrar elle proprio, apenas nascidos, os
filhos havidos de coito incestuoso com sua
propria irman, e que mais tarde pagou com
a vida, assassinado com um tiro por um sol-
dado da guarda nacional, quando, na quali-
dade de capitão, lhe passava revista. 1
1 O bandido não merreu logo, apezar da
bala lhe entrar por um hombro e chegar
quasi ao outro. Como não houvesse maca,
o levaram em um esquife, para o hospital de
Lamego. No meio do caminho, escorregando
os conduetores, cahiu o malvado por uns bar-
rancos a baixo; mas ainda assim, não mor-
reu! Chegou ao hospital, e, quando se julga-
va quasi curado, falleceu de repente. Suspei-
ROM
Entre os dois chefes occorreram diver-
gencias na partilha de um rico e avultado
roubo, e o Cavallaria protestou vingar-se.
Mandou pois vir de noite a sitio despovoa-
do e medonho, entre S. Cosmado e Contim,
o sem collega; a pretexto de effectuar-se o
roubo de um grande proprietario ainda ho-
je existente, e quando este ia chegando com
a sua gente, foi recebido por uma descarga
de fuzilaria, que lhe matou trez homens, e elle
mesmo ficou mal ferido; e fugindo atravez de
uma serra, foi parar a S. Romão, tendo re-
cebido no caminho seis novos tiros. Pediu
confissão, e quando proximo a receber o Sa-
grado Viatico, foi assaltado por o tal Caval-
laria e outras pessoas, que lhe vinham no
encalço, e lhe dispararam (horresco referens)
varios tiros, alguns já depois de morto, com
uma crueldade injustificavel.
Este acontecimento foi o principio da dis-
solução da quadrilha d'aquelles canibaes,
porque as auctoridades, adquirindo alguma
força moral, prenderam uns e processaram
outros, e os povos fizeram em muitos justi-
ça por suas mãos. O certo é que algum tam-
po depois a quadrilha pertencia à historia,
e encher-se-hiam volumes das suas atroci-
dades, se alguem se desse ao trabalho de
escrevel-os.
Para o monte de Misarella, d'esta fregue-
zia, vide vol. 5.º, pag. 338, col. 4.2 (a 2.2 Mi-
sarella).
Na aldeia de S. Romão, d'esta freguezia,
nasceu, em 28 de fevereiro de 4815, o sr.
doutor, João Maria Mergulhão Neves Cabral.
Foram seus paes, Luiz das Neves Pinto Go-
mes, cavalheiro geralmente estimado, e de
grande talento e instrucção; exercendo «com
honra e probidade varios empregos puibli-
cos, judiciaes e administrativos, e D. Anna
Amalia Pinto Cabral Mergulhão, da familia
dos Mergulhões, de Moimenta da Beira.
Casou em 18 de outubro de 1838, com a
sr.* D. Maria Maximina das Neves Pereira
tou-se que foi envenenado, com o receiio —
aliás bem fundado—de que, se aquella féra
se apanhasse outra vez em liberdade, asisas-
sinasse varias pessoas.
ROM
da Gama, nascida em 1800, e fallecida em
1867. Era filha de Alexandre das Neves Car-
valho, e neta de Antonio Pereira Pinto de
Souza Velloso, fidalgo cavalleiro da casa real,
cujo fôro foi renovado por D. Maria I, em
seu filho, Luiz Pereira Pinto de Souza Aze-
vedo e Gama. (Torre do Tombo, L.º 26 das
mercês, a folhas 309 v.)
Matriculou-se na faculdade de direito, da
universidade de Coimbra, em outubro de
de 1839, e formou-se em 1844.
Foi laureado em todos os annos, com pre-
mio pecuniario e obteve informações distin-
cias.
O sr. dr. Mergulhão, é um dos advogados
mais distinctos da Beira, mas só advoga no
seu escriptorio, tendo numerosissima clien-
tella.
É tambem um escriptor distinctissimo, e
primoroso poeta. Tem escripto muito, sobre
varios pontos de direito, na Revista de Le-
gislação, na Gazeta dos Tribunaes, no Jor-
nal de Jurisprudencia, e em outros periodi-
cos de direito publico; e semanarios de Jit-
teratura e recreio.
Para não enfadar o leitor, só “aqui tran-
sereverei 'trez das suas composições poeti-
cas, curiosissimas, pela difficuldade da sua
metrificação, pois se lêem em portuguez e
em latim, dando sempre o mesmo sentido
em ambas as linguas.
A Portugal
SONETO
Preclarissima és tu, patria formosa,
Conservando valores eminentes,
Submissas contemplando externas gentes,
Venerando-te, Lysia tam famosa.
Tu fulges tam, quam stiva rosa!
Recordando heróes dignos, valentes,
Erige, constitue áras decentes,
Sacros cultus tu praesta gloriosa.
Ingentes glorias lusas tu diffunde,
Assidua sparge, narra, fama clara,
Triumphos memorando tam constantes.
Hostes suas terrificas confunde,
Demonstrando, quem és, victoria rara
Contra lusos belligeros, ovantes!
ROM
Á Santissima Virgem
231
OITAVA
Humanas TUAS gentes protegendo,
Purissima te exaltas, oh MARIA;
Satanicas insidias removendo,
Demonstras, quam TU és benigna, e pia.
Nós, miseros, presiste defendendo
Ab! de luciferina turba impia;
Supplices, oh MARIA, te rogamus,
Ante áras sacrosantas te adoramus
mea,
A D. Vasco da Gama
OITAVA
Tu, africanas terras circumdando,
Asiaticas plagas manifestas;
Neptuninos furores superando,
Domas hostes indomitas, infestas.
Catholicas doctrinas propagando,
Depuras gentes rudes, inhonestas.
Ah! inclitos heróes excedes, Gama;
Tam eminentes glorias canta, oh Fama.
O sr. dr. Mergulhão, vive na sua formo-
sissima casa, da aldeia de S. Romão, com
sua filha solteira, a sr. D. Maria dos Pra-
zeres Mergulhão Cabral Macedo e Gama;' e
com suas irmans, tambem solteiras, as sr.2º
D. Maria, D. Fortunata e D. Quiteria: qua-
tro senhoras das mais virtuosas da provia-
cia, e que passam o seu tempo em obras de
caridade e devoção.
Do sr. dr. Mergulhão e de sua fallecida
esposa foi filho:
O dr., Acacio Mergulhão Cabral Macedo é
Gama, que nasceu em 7 de maio de 1843.
Formou-se em direito, pela universidade
de Coimbra, em 4871. )
Foi tambem premiado em todos os annos
do seu curso, e obteve tambem informações
distinctas.
Como seu pae, publicou varios artigos de
incontestavel merecimento, nos diversos pe-
riodicos de direito publico, e em varios se-
manarios de instrueção e recreio.
Aos seus vastos conhecimentos em varios
238 ROM
ramos de litteratura, alliava o comporta-
mento mais exemplar, não parecendo ho-
mem d'esta época.
Na florescente edade de 33 annos (4 de
junho de 1876) foi arrebatado pela morte
este esperançoso mancebo, meu verdadeiro
amigo, ao qual e a seu esclarecido pae mui-
to deve esta obra, pelos muitos e preciosos
esclarecimentos com que a teem dotado.
Todos quantos conheceram este, tão illus-
trado como sympathico mancebo, o. ama-
vam, e sentirão por elle uma perpetua sau-
dade.
Tanto o pae como. o filho, pertenceram
sempre ao partido legitimista, que sobremo-
do se honrava de contar no seu grémio, dois
varões de tão raras e tão apreciaveis quali-
dades.
Não podendo dar ao sr. dr. João Maria
Mergulhão Neves Cabral, outro testemunho
da minha indelevel gratidão, transcrevo aqui
o que, sobre o fallecimento do seu sempre
chorado filho, disseram dois jornaes aucto-
risados.
Varios outros jornaes das differentes frae-
ções politicas em que hoje está dividida a fa-
milia portugueza, noticiaram o fallecimento
do dr. Acacio Mergulhão, mostrando todos o
Maior pezar por esta morte prematura, e fa-
zendo a devida justiça ao ilustre fallecido.
Eis a cópia do que com respeito a este
lamentavel acontecimento dizem os dois jor-
naes à que acima me refiro.
Correio da Tarde
N.º 1202, de 42 de junho de 1876.
« Associamo-nos ao nosso amigo Ayres de
Mendonça B. Faro e Lencastre, nos senti-
mentos que manifesta pela morte do seu pa-
rente, e nosso commum amigo, 0 ex.mo gr.
Acacio Mergulhão Cabral Macedo e Gama, e
nos pesames que dá ao pae do finado, o ex.mo
sr. João Maria Mergulhão.
«Deus, Senhor Nosso, piamente o cremos,
terá dado logar entre os escolhidos à alma
do amigo, cuja falta sentimos; esta crença
deve ser grande consolação para parentes e
amigos.
ROM
«Eis o que sobre este triste successo es-
creve 0 nosso amigo Ayres de Mendonça:
Á memoria de ex.me Acacio Mergulhão Ca-
bral Macedo e Gama.
O dia 4 de junho, foi de profunda dôr e
consternação para meu primo João Maria
Mergulhão, e para toda a sua ex.ma familia,
parentes e amigos.
N'este dia, pela uma hora da madrugada,
preparado com os Sacramentos, deixava este
mundo para receber o premio dos justos,
seu filho o ex.=o Acacio Mergulhão Cabral
Macedo e Gama,
Dotado de bellissimas qualidades moraes,
era exemplo vivo de solida religião, pieda-
de, doçura, e pureza inalteravel de costu-
mes: fructos estes, provenientes da frequen-
cia dos Sacramentos, com que se fortalecia
aquella candida alma, ardendo sempre-em
vivissimas chammas de divino amor.
Quem se chega à Fonte da vida encontrá-
rá' a verdadeira vida; e que o illustre fina-
do a encontrou, piamente o cremos pelas
suas obras.
Aqui o apresentamos como modelo do
bom ehristão, do bom filho, e bom irmão:
«como servo fiel de Jesus-Christo que não
desperdiçou os talentos que de seu Creador
recebêra.
Era bacharel formado em Direito, pela
Universidade de Coimbra, cursando aquel-
la faculdade com grande distincção, na qual
foi considerado: com os primeiros premios.
Escreveu sobre jurisprudencia na Revis-
ta de Legislação de Coimbra, mostrando ca-
balmente que aquella sciencia lhe era fami-
liar.
Publicou varios artigos nos jornaes 6 Bem
Publico e o Direito, manifestando tanto o seu
grande talento, como a sua applicação eamor
das lettras.
No seu trato familiar era agradavel, sua-
ve, e cheio de modestia.
Contava apenas 33 annos de edade. Mas
a sua hora tinha chegado, porque o Eterno
queria premiar suas virtudes, podendo ap-
plicar-se-lhe «me expectant justi donec ét
ibuas mihio.
ROM
À seu ex.»º pae e familia damos os nos-
sos sentidos pezames, tomando parte nas
suas penas como christão, parente e amigo.
Pedimos um P. N. e uma A. M. por sua
alma.
S. C., 6 de junho de 1876.
A. de Mendonça B. Faro e Lencastre.
e, s
A Palavra
N.º 1157, de 13 de junho de 1876.
O ex. gr. dr. Accacio Mergulhão
«Uma grande perda acaba de sofirer a co-
marca de Armamar e a nação portugueza.
No dia 4 do corrente finou se na sua casa
de S. Romão d'Armamar o sr. Accacio Mer-
gulhão Cabral, bacharel formado em direi-
to, distinctissimo advogado e socio da Asso-
ciação Catholica estabelecida n'esta cidade.
Era o illustre finado, filho do ex.mº sr. dr.
João Maria Mergulhão Neves Cabral, nosso
amigo, um dos maiores ornamentos do fôro
portuguez.
Havia poucos annos que o mallogrado
mancebo concluira a sua formatura na Uni-
versidade de Coimbra, com uma distincção
pouco vulgar, juntando à excepcional illus-
tração as qualidades moraes mais aprecia-
veis e a modestia mais exemplar. Bem qui-
zera a faculdade de direito e o corpo docen-
te, que o talentoso bacharel tomasse a reso-
lução de acceitar os louros do doutoramen-
to, mas o seu amor de familia, a dedicação
filial, e o desejo do retiro, o afastaram das
gloriosas. lides academicas, para ir entre-
gar-se, no remanso do gabinete, ao árduo
mister de aconselhar e dirigir os litigantes,
nos enredados desvios dos tribunaes.
Dedicando-se a esta nobilissima e difficil
profissão, a que tantos se consagram, mas em
que poucos, pouquissimos, alcançam me-
recida reputação, o sr. Accacio Mergulhão
eontemplava um perfeito modelo no respei-
tavel jurisconsulto, que elle tivera a fortu-
na de ter por pae. Modelo é elle de virtude,
probidade, sciencia e lealdade; não é facil
imital-o, mas impossivel excedel-o.
O grande nome, que o sr. dr. Mergulhão
ROM 239
tem no paiz inteiro, é a justa recompensa
do grande saber, alliado ás mais alevanta-
das virtudes, como homem e patrono. Quem
tem a fortuna de conhecel-o sabe que n'es-
se homem respeitavel só ha honradez e in-
concussa lealdade. O advogado é um con-
fessor, a quem o cliente confia com toda à
segurança os seus segredos, a sua honra, à
sua vida e a sua fortuna.
Tudo quanto é caro ao homem póde de-
positar-se confiadamente ao venerando ju-
risconsulto, que se chama João Maria Mer-
gulhão, typo modelado no antigo, gloria do
fôro e do paiz.
Seu filho, dirigido desde os seus primei-
ros annos por tão habil mestre, foi para a
Universidade, sabendo mais do que costu-
mam saber os seus alumnos mais distinctos,
quando terminam seus estudos, e aos seus
vastos e precoces conhecimentos, additava a
joia inestimavel de solida educação religiosa
e moral.
Voltando à casa paterna, depois de conti-
nuos triumphos academicos, o novel juris-
consulto auxiliou seu pae na tarefa forense
e, como era de esperar, imitou em tudo o
nobre modelo, que sempre tivera presente,
egualou-o, e, quem sabe... talvez o exce-
desse ou excederia na amplidão do talento,
no grandioso dos conhecimentos, no vigor
da dialectica, na harmonia da dicção. — Os
dois jurisconsultos eram procurados por
clientes de todos os logares de Portugal, é
mal podiam satisfazer às consultas, que lhes
enderessavam e às questões, que tratavam.
Obtiveram victorias assignaladas em lu-
ctas, onde os contendores oppostos, tinham
por patronos as primeiras notabilidades ju-
ridicas, e a protecção de notabilidades po-
liticas. Contra os esforços da sciencia e das
influencias, pelejava ovante a argumentação
cerrada e vigorosa dos dois Mergulhões, pae
e filho, a cujo saber e consciencia vergava
a fronte a imparcialidade da justiça.
Estes dois sabios, na sua modestissima al-
deia, situada na collina, que, partindo da
serra de S. Domingos, circumda com a de
Nossa Senhora da Piedade, a bacia do rio
Temilobos, não aspiravam a cousa alguma
que não fosse o estudo consciencioso da
ROM
sciencia juridica e a servir com lisura chris-
tan áquelles que recorriam ao seu valioso
auxilio. Primeiro como mestre e depois co-
mo collega, o pae discutia com o filho, os
pontos e questões mais delicadas e apura-
vam o que havia de favoravel e adverso, nas
diferentes hypotheses, que lhes eram sub-
mettidas.
Nem um nem o outro pleiteavam cargos
da magistratura judicial ou administrativa,
não solicitavam o mandato popular legisla-
tivo ou a investidura real do pariato, não
pretendiam commendas, cartas de conselho,
ou titulos.
E comtudo, quanto eram merecedores de
todas as honras e distineções, com que os
cidadãos e o soberano costumam ou deviam
costumar recompensar as virtudes civicas e
a sciencia verdadeira!
O sr. dr. Mergulhão, pae, não quiz nunca
ser mais do que advogado, na plenitude de
independencia, que lhe assegura o saber, à
consciencia e a fortuna. O sr. dr. Mergulhão,
filho, nunca teve outro modelo senão o pae,
e não queria mais do que continuar as suas
honrosas tradições. E bastava. Ainda na flor
dos annos, aprouve à Divina Providencia
chamar à mansão dos justos, à alma do sr.
Accacio Mergulhão. Adoremos os seus de-
cretos, mas não nos impeça a resignação
christan, que choremos a perda, que sofire
O pae desconsolado, a familia extremosa, os
seus amigos e admiradores, a sciencia e o
fôro portuguez.
O extincto jurisconsulto, desdenhando a
Jactancia balofa da falsa sciencia, saturado
ao contrario da verdadeira, foi sempre visi-
tado das sanctas inspirações da religião ca-
tholica, que confessou sempre em todas as
épocas da sua vida, já nos estudos prepara-
torios, nas aulas de Lamego, já nos bancos
da Universidade, já no officio de advogado,
já nos seus actos publicos e particulares, se-
guindo escrupulosamente os preceitos d'es-
ta religião divina.
A Associação Catholica d'esta cidade ti-
nha a honra de contal-o no numero dos seus
associados, como sé gloria de contar muitos
dos melhores e mais illustrados filhos desta
terra, abençoada pela Virgem Mãe de Deus.
ROM
É mais uma perda, que a Associação sof-
fre n'este anno de 1876, em que do seu seio
teem desapparecido tantos membros illus-
tres, a quem esperamos que a Misericordia
Divina haverá destinado o unico galardão
inestimavel, que o homem póde desejar co-
mo termo do seu afanoso lidar.
Rogamos aos nossos leitores que não dei-
xem de suffragar a alma do finado, e d'aqui
mandamos sentidos pezames ao desditoso
pae, nosso velho amigo, que tivemos a for-
tuna de conhecer pela primeira vez, quando
elle, quintanista laureado, dava a protecção
ao novato inexperiente que se acercava do
liminar do templo das sciencias, e que hoje
se assigna
Conde de Samodães.
Parochos d'esta freguezia
* Esta fregueziá ha tido desde 1784, a que
abrangem os livros parochiaes, os seguin-
tes parochos :
1.º — Padre Domingos das Neves Pinto, o
celebre poeta e litterato, de que já se fallou
n'este artigo, era parocho n'esta freguezia
no S. João de 1784, e falleceu na mesma em
o 4.º de março de 1785.
2.º — Padre Luiz Amado Feio de Aguiar,
suecedeu áquelle no dito anno de 1784, e
funccionou até ao fim do anno ectlesiastico
(24 de junho seguinte).
3.º—Padre Christovam José da Cunha, ser-
viu de parocho desde 1785 a 1787.
h.º— Padre Joaquim Pereira, de 1787 a
1788.
9.º — Padre Manuel Teixeira de Queiroz,
de 1788 a 1790.
6.º— Padre Manuel Caetano Pinto Cardo-
so, de 1790 a 41794.
7.º — Padre Joaquim Pereira da Silva,
natural da freguezia de Mondim, de 179 a
1793.
8.º— Padre Nuno Pinto da Silva, natural
desta freguezia de S. Romão, de 1793 a
1794.
“9.º— Padre José Homem de Sousa Mello,
natural da freguezia de S. PRO do Sul, de
1794 a 1796.
40.º— Padre Antonio Pinto Cardoso da
ROM
Fonseca, naturai da freguezia de Tões, de
1796 até 24 de fevereiro de 1807, em que
falleceu n'esta freguezia de S. Romão.
44,º — Padre Nuno Pinto da Silva (pela
segunda vez), desde fevereiro de 1807 até
ao S. João de 1810. Era bastante instruido,
orador sagrado, e homem muito valente, fal -
lecendo mais tarde na mesma freguezia de
S. Romão.
12.º — Padre Manuel Gomes de Carvalho,
natural da freguezia de Poiares, de Traz-os-
Montes, desde 1840 até 1813. Mais tarde col-
lou-se com o titulo de abbade, na freguezia
da Queimada, onde falleceu.
13.º— Padre João Hyppolito do Amaral,
de 1813 até 1814.
14.º—Padre Antonio Rodrigues Pinto, na-
tural da freguezia de Sande, concelho de La-
mego, de 4814 a 4817. Foi depois abbade
collado na freguezia das Chãs de Tavares,
em que se finou: era um-sacerdote de vasta
instrucção, e a sua conversação sempre ame-
na e eloquente.
15.º — Padre Manuel Cardoso dos Santos,
natural da freguezia de Queimadella é ahi
fallecido, desde 1817 até 1820.
16.º — Padre Luiz Antonio de Carvalho,
natural d'esta freguezia de S. Romão, desde
1820 até 1823. Morreu na freguezia da Quei-
mada, onde era encommendado: tinha per-
feito conhecimento da lingua latina, que pro-
fessou com grandes creditos.
17.º — Padre José Antonio de Figueiredo,
natural da freguezia da Coriscada, desde
1823 até 1827, e fallecido em Armamar.
18.º — Padre Antonio Rodrigues Pereira,
natural da freguezia da Figueira, concelho
de Lamego, e ahi depois fallecido, desde
1827 até 1828.
19.º— Padre Antonio Ferreira de Gouveia,
natural da freguezia da Queimada, desde
1828 até 1833, e falleceu em Armamar.
20.º — Padre José d' Oliveira Pinto, natu-
ral d'Armamar, e hoje alli residenie, desde
1833 até 1856.
24.º — Padre Paulino Mendes, desde 1856
até 19 de outubro de 1857, em que morreu
n'esta mesma freguezia. Foi exposto na ro-
da da villa de Armamar, e começou. por
aprendiz de sapateiro, mas não tendo voca-
ROM 241
ção para ofíicios mechanicos, largou a tri-
peça, e obtendo ser sacristão da egreja da
mesma villa, passava o tempo a orar, ajus«
dar ás missas, velar pela limpeza da egreja,
e em todas as obras de piedade para que se
“lhe offerecia ensejo. Conhecidas as suas vir-
tudes, o padre José Dias de Carvalho Couti-
nho, excellente professor particular de latim,
fallecido ha poucos annos, encarregou-se de
ensinal-o gratuitamente, e quando habilita
do para fazer o exame, varios cavalheiros do
concelho de Armamar, se quotisaram para
o sustentar em Lamego durante a frequen-
cia dos estudos maiores, e para lhe fazerem
patrimonio ecclesiastico. Ordenando-se, não
enganou a espectativa publica, tornando-se
um presbytero de bastante instrucção, exem-
plarissimo, verdadeiro apóstolo, que nunca
a mais ligeira nodoa manchou. Morreu alfim
a morte do justo, passando por santo, e até
se lhe attribuem milagres, sendo um muito
evidente, e cujas testemunhas estão vivas,
a cura repentina de uma hydropisia que se
desenvolveu e progredia rápidamente em
uma senhora, a despeito dos esforços da me-
dicina.
- 22.º—Padre Antonio Augusto, natural d'es-
ta freguezia de S. Romão, e hoje residente
em Armamar, succedeu áquelle e serviu até
1860.
23.º—Padre José Antonio da Veiga Seixas
Cabral, natural de Armamar e alli fallecido,
serviu desde 1860 a 1861.
2h4.º — Padre Antonio da Costa Telles de
Macedo, natural de Santo Aleixo, freguezia
de Varzea de Abrunhaes, e hoje alli resi-
dente, serviu desde 1861 até 1864.
25.º — Padre Joaquim Leite Laranjo, da
freguezia da Ucanha, hoje arcipreste d'aquel-
le districto e residente na sua quinta de Ab-
badia Velha, serviu desde 1864 a 1865.
26.º — Succedeu-lhe o actual parocho, o
rev.me sr. Manuel Alves dos Reis, de que aci-
ma se fallou, que principiou a funccionar
em 1865.
ROMARIGÃES—freguezia, Minho, comar= .
ca e concelho de Coura (foi do mesmo cons
celho, mas da comarca de Vallença), 40 ki-
lometros ao N.0. de Braga, 395 ao N. de Lis-
boa, 130 fogos.
242 ROM
Em 1757, tinha 409 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
O abbade de S. Payo d'Agua-Longa, apre-
sentava 0 vigario, que tinha 100000 réis de
rendimento.
O nome d'esta freguezia significa — terra
dos Romariguez, appellido de familia.
(Vide Agua-Longa, vol. 1.º, pag. 31, col.
1.2, no principio.)
É povoação antiquissima, provavelmente
do tempo dos romanos, e, com toda a certe-
za, do tempo dos gôdos, e foi uma cidade,
com o nome de Labruja.
No archivo da Sé de Braga, existe um có-
dice, contendo a divisão que D. Fernando, o
Magno, rei de Leão e Castella, fez dos con-
dados de Entre o Douro e Minho, em 1026, !
e tratando do primeiro condado, diz:—(tra-
dueção)
«O primeiro condado principia no logar
de Cabeça do Minho, onde o rio d'este nome
entra no mar? e o rio Froilano* entra no
rio Minho. D'alli, pela costa do mar, vae cor-
rendo até à foz e Cabeça do Rio Lima, e
d'alli, pelo rio acima até Brítinia, onde an-
tes foi Britonia. > Depois, até Pena Maior,
sobre a antiga cidade de Labruja, que agora
se chama Romariganes. Desde alli, pelo ter-
mo do rio Froilano, atê ao Castello Pequeno
1 Aqui ha anachronismo por força. Desde
o anno 1000 até 1027, foi rei de Leão e Cas:
tella, D. Affonso IV, filho de D. Bermudo II
(o Gotoso) e succedeu-lhe seu filho, D. Ber-
mudo HI. —Fazendo-lhe guerra, seu cunha-
do, D. Fernando vb Magno, aquelle morreu
da batalha de Lantade, e, não deixando fi-
lhos, herdou a corôa de Leão o rei de Cas-
tella, D. Affonso Magno (1037) unindo então
os reinos de Castella e Leão.
2? Hoje a villa de Caminha,
* O actual rio Coura. (Vide 2.º vol., pag.
413, col. 4.2, no principio.) j
“4 Hoje a cidade de Vianna.
5 Vide Bertiande, vol. 4.º, pag. 394, col.
12º-— Bertiandos, pag. 392, col. 4.º — Brito-
mia, pag. 493, col 2.º— e Britonia do Lima,
Dna mesma pagina e columna. Esta ultima
Britonia já existia no anno 55 de J.-C., im-
perando Néro. Vide ainda no 1.º vol., pag.
495, col. 2.2
ROM
de Tuy, que se chama Vallença;1 e desde alli,
pela corrente do Minho, onde começamos. O
qual termo pertencia antigamente à cidade
de Britonia,? que jaz destruida, e agora per-
tence, parte à cabeça do Moinho, parte ao
Castello de Cerveira, 3 e parte ao logar de
Limia, é excepto o grande couto que os reis
deram antigamente ao mosteiro Maximo, si-
tuado no monte altissimo, chamado Arga,
etc.
emas,
Ha n'esta freguezia um monte, ainda hoje
chamado da Cidade, ou Penedo do Curral
das Eguas, que mostra vestigios de uma
grande fortaleza com trez linhas de mura-
lhas e outros tantos fossos; estradas cober-
tas, e no centro um castello. Segundo a tra-
dição, foram os mouros que destruiram esta
cidade ou fortaleza, em 716.
Seria aqui a tal cidade de Labruja?
Na Portella da Labruja, tambem ha ves-
tigios de uma grande praça ou fortaleza, a
que o povo dá o nome de Cidade Murada.
Posto que de clima excessivo, esta fregue-
zia, como a de Agua -Longa, sua visinha, é
muito saudavel, havendo aqui bastantes pes-
soas de edade muito avançada, e de perfeita
saude e grande robustez.
É terra muito fertil, como todas as d'estes
sitios; cria muito gado, de toda a qualidade,
e nos seus vastos montes, ha abundancia de
caça, grossa e miuda.
Para a etymologia, vide a freguezia se-
guinte.
ROMARIZ — freguezia, Douro, comarca,
concelho e 41 kilometros ao N.E. da Feira
(foi até 24 de outubro de 1855 do concelho
e 3 kilometros ao O. de Fermedo, comarca
d'Arouca), 25 kilometros ao S. do Porto, 12
ao 8.0. do rio Douro, 10 ao N.0. de Oliveira
d' Azemeis, 42 ao N. de Aveiro, 285 ao N. de
Lisboa, 400 fogos (incluindo a sua annexa).
1 A nossa actual praça de Vallença do
Minho.
2 Britonia do Lima.
3 Hoje Villa Nova da Cerveira.
4 Ponte do Lima. |
é Vide o ultimo periodo da col. 1.3, a pag.
238 M, do 4.º vol.
ROM
Em 1757, tinha 200 fogos, e Duas Egre-
jas, 32.
Orago, Santo Isidoro.
Bispado do Porto, districto administrativo
d'Aveiro.
O papa, a mitra, e o collegio da Graça de
Coimbra, apresentavam alternativamente 'o
abbade, que tinha 8003000 réis de rendi-
mento annual.
Os dizimos d'esta freguezia, eram do mos-
teiro de frades gracianos (eremitas calça-
dos, de Santo Agostinho) da cidade do Porto.
Em 41835, foi annexada a esta freguezia,
a de S. Silvestre de Duas-Egrejas, curato
apresentado pelo abbade de S. Jorge de Cal-
dellos, tendo o cura 208000 réis e o pé de
altar. (Vide vol. 2.º, pag. 487, col. 1.2)
É povoação muito antiga, e com toda a
certeza ja era povoada nos tempos pre-his-
toricos. (Vide Gasiro ou Crastro, monte,
Douro, no 2.º vol., pag. 200, col. 2.2)
Segundo uns, o nome d'esta freguezia é
romano 1 e, segundo outros, é corrupcão de
carn; pois que o primeiro nome d'esta fre-
guezia foi Crasto. ? Na minha opinião, Ro-
mariz é nome muito mais moderno, proce-
dente de álgum nobre gôdo, que foi senhor
d'esta freguezia.
Vemos nas nossas chronicas antigas, al-
guns appellidos de Romariz e Romariques,
talvez patronimico de Romão. Em 1037, vê-
se que o conde D. Rodrigo Romariz, ajudado
pelos antigos dinamarquezes (nórmandos)
venceu no castello da Pena, os vascões, da
Galliza. (Vide Laudomanes.)
- Quando tratei do monte do Castro, ou
Grasto, disse que existem alli varios caras,
uma mâmoa, e outros muitos vestigios de
uma não pequena povoação; o que prova
plenamente que este territorio é habitado ha
mais de 3000 annos.
Ao fundo do monte do Castro, junto ao
1 É cerio que o nome Castro, dado ao
monte d'esta freguezia, que fica sobranceiro
e ao N.0: da egreja, se não vem.de carn (vi-
de esta palavra) é romano. Accresce que a
freguezia. que lhe fica contigua, ao S8., se
chama Cesár.
. 2 Ainda conserva o nome de Crasto a al-
deia onde está a egreja parochial.
ROM 243
logar do mesmo nome, foi construido o ce-
miterio parochial, ha dois ou trez annos.
Ao S.E. da egreja matriz, está o monte do
Pinheiro, já na freguezia de Cesár, onde
tambem ha vestigios de construeções celtas
ou pre-celtas.
AoS.0. da freguezia, e contigua a ella, está
a de Milheiroz de Poyares, do mesmo conce-
lho, e ao logar desta freguezia mais proxi-
mo de Romariz, está uma aldeia chamada
Mámoa, por alli ter existido uma, da qual
ainda ha vestígios. b
Proximo ao logar do Castro, d'esta fre-
guezia de Romariz, está a aldeia de Fafião,
e, como todos sabem, Fafião é nome proprio
de homem, gôdo.
Ha tambem n'esta parochia, à aldeia de
Goim, corrupção do baixo-latim gruguum
substantivo onomatopaico, quesignifica trom-
ba ou focinho de porco. Mesmo que seja
corrupção de Guinde, substantivo que si-
gnificava, vaso de bocca larga, feito de
couro, páu ou metal, em todo o caso é nome
muito antigo.
Pela extremidade O. desta freguezia, passa
uma zona ou veia, de dois ou trez metros
de largo, de bôas pedras de amolar.
A sua direeção é de N. a S.—Vem da fre-
guezia de Nogueira, concelho d'Oliveira de
Azemeis, e vae (segundo me informam) ter-
minar ao Cabedêllo, na foz do rio Douro.
Esta freguezia, é separada da sua annexa,
que lhe fica ao N.'e N.E., pela pequena serra
denominada Monte de Mó, da qual se extra-
hem bôas mós de moinhos, de granito pro-
phoroide. Só servem para môer milho.
Esta freguezia é, na sua maior parte, si-
tuada em um valle fertilissimo, regado por
varios ribeiros anonymos, e cercado por to-
dos os lados, de montes, que a abrigam da
maior furia dos ventos.
Cria muito gado bovino, do qual exporta
para Inglaterra uma grande parte.
A egreja matriz é de uma architectura sim-
ples e desengraçada, mas denota muita an-
tiguidade. Interiormente, está bem adorna-
da, graças ao zello e sollicitude do seu actual
e digno abbade, o sr. João Soares d'Azevedo,
2h ROM
que é tambem vigario da vara do 4.º distri- |
cito da comarca ecclesiastica da Feira.
Em volta da egreja, ha um espaçoso adro, |
que é cercado por uma grande alameda, po-
voada de corpolentos carvalhos e castanhei- |
ros.
N'esta egreja se faz, no 4.º domingo de
junho, uma grande festa a Nossa Senhora
dos Remedios, concorrida por grande nu-
mero de romeiros, de algumas leguas em re-
dor.
Capellas d'esta freguezia
1:—S. Thiago, na aldeia de Villa-Nova.
A festa do padroeiro faz-se-lhe no seu dia
(25 de julho.)
2.2-Santo Antonio, na aldeia de Fafião.
3.*—Nossa Senhora da Portella, no logar
da Portella.
k2— Santo Antonio, no logar de Goim.
d.*-— Nossa Senhora dos Remedios, no lo-
gar de Romariz.
Todas são publicas; e, à excepção da se-
gunda, que foi construida pelos annos de
4855,1 todas as outras são muito antigas.
A de Nossa Senhora dos Remedios, é gran-
de e de bôa architectura.
Segundo a tradição, foi a matriz primit-
tiva da freguezia.
6.:—Santo Antonio, no pune do Carva-
lhal, construida em 18397.
É particular.
É natural desta freguezia, João d' Almeida
Romariz, fallecido em Villa Nova de Gaia,
no anno de 1835.
Póde, e deve, considerar-se este caridoso
bemfeitor, como fundador do Asylo da men-
dicidade portuense, pois, no seu testamento,
ordenava que o remanescente da sua he-
ranca (que foram 6:5008000 réis) fosse ap-
plicado à creação de um asylo- para mendi-
gos.
Por decreto de 18 de maio de 1838, foi
1 Foi seu fundador o fallecido abbade,
Domingos José de Pinho e Sousa do Ama-
ral, da Murtosa, da Arrifana, irmão do sr.
Francisco Maria de Sousa Brandão, coronel
do estado -maior de engenharia.
ROM
| creado este asylo, e lhe foi dado o seu regu-
| lamento, em 31 de julho de 1846.
Foi grandioso o pensamento do testador,
e, sendo então presidente da camara muni-
cipal do Porto, o famoso tribuno popular,
José da Silva Passos, empregou este bene-
merito cidadão, a maior sollicitude paras
levar a effeito o cumprimento da ultima von
tade de João d'Almeida Romariz.
O 4.º provedor, foi o barão de Nova Cin-
tra, e o 2.º, 0 visconde de Lascasas, ambos
grandes bemfeitores do estabelecimento.
Vide 7.º vol., pag. 399.
ROMARIZ—Vide Romans,
ROMARIZ—Formoso palacete, e grande
quinta, Douro, na freguezia de Meinédo,
concelho de Lousada. (5.º vol., pag. 460,
col. 4.2)
Antonio de Mendonça, senhor da quinta
da Capella, em Agilde, e de outras muitas
quintas e propriedades, morreu sem des-
cendencia, deixando tudo quanto possuia, a
seu irmão, frei José de Mendonça, monge da
ordem de S. Bernardo. Este, por sua morte,
e não tendo senão parentes remotos, deixou
todos os seus haveres ao dr. Antonio Pinto
Coelho Soares de Moura, da casa da Lousa,
na freguezia de Santa Marinha de Lodares,
e irmão do bravo general realista, Bernar-
dino Coelho Soares de Moura.
O dr. Soares de Moura, ficou com uma
casa que lhe rendia annualmente 300 care
ros de pão (12:000 alqueires !)
Tendo uma filha então já casada, na casa
de Cabanellas, deu a sua casa de Segude, a
seu filho mais novo, o sr. dr. Francisco Pinto
Coelho Soares de Moura; e a de Lama, ao
filho mais velho, o sr. dr. Antonio Manuel
Pinto Coelho Soares de Moura.
É pois actual proprietario, por herança
paterna, da quinta de Romariz, o referido
sr. dr. Francisco Pinto.
É uma propriedade das melhores e mais
rendosas d'estes sitios, e seu dono a tem
augmentado com valiosissimas obras, sendo
a principal, a abertura de uma mina que
produz grande abundancia d'agua, a qual
fez conduzir para a quinta, por cannos de
granito, na extensão de 1:200 metros.
Passa junto à quinta, um ribeiro, no qual
ROM
tem o proprietario d'ella, alguns moinhos.
Este ribeiro, atravessa as propriedades an-
nexas à quinta, e toda à sua agua, de verão
e de inverno, pertence exclusivamente à
mesma quinta de Romariz.
ROMEIRA-— freguezia, Extremadura, con-
celho, comarca, districto administrativo e 6
kilometros ao N. de Santarem, 90 ao N.E.
de Lisboa, 150 fogos. .
Em 14757, tinha 70 fogos.
Orago S. Braz.
Patriarchado de Lisboa.
O povo apresentava o cura, que tinha
60000 réis é o pé d'altar.
É terra fertil.
-—
Ha nºesta freguezia, um vinculo, que D.
Affonso V deu, em 12 de maio de 1442, a
Fernão Rodrigues Mendo, descendente de
D. Payo Mogudo de Sandim, casado com D.
Barba, filha de Ruy Garcia de Villa-Maior,
descendente de D. Ordonho—o Cego—filho
de D. Ramiro II, rei de Leão, e da rainha
D. Thereza.
São estes os progenitores dos Barbas Cor-
reias Alardos, familias nobilissimas d'este
reino. -
Ruy Barba Correia Alardo, filho de Pedro
Barba Alardo e de D. Ignez de Mesquita, ca-
sou em Santarem, com D. Mecia Dias Girão,
e foi seu filho (entre outros) Ruy Barba
Correia, um dos poucos fidalgos portugue-
zes que tomou 0 partido de D. Antônio, prior
do Crato, em 1580, pelo que D. Philippe II
lhe tirou todas as honras, privilegios e mer-
cês da corôa : mas não lhe pôde tirar à honra
de ser um verdadeiro portuguez, é corajoso
patriota.
ROMEIRA— quinta e maguifica fábrica de
lanificios, na freguezia, comarca, concelho e
proximo da villa a'Alemqueêr.
Foi esta fabrica construida no local onde
havia uma antiga azenha, já chamada da
Romeira. >
Esta azenha foi mandada fazer por Lou.
renço Martins, instiluidor do mórgado de
Santa Catharina, por licença especial do rei
D. Diniz, passada em 1303.
Pertenceu ao antigo vinculo, até 1758,
sendo então desannexada delle.
VOLUME VIH
ROM 245
Era em 1868 do sr. Josê da Costa, que
então a vendeu ao sr. Francisco José Lopes,
fundador da fabrica.
Principiaram as obras no fim do anno de
1870, e foi inaugurada a fabrica, em 29 de
setembro de 1872, havendo grande regosijo
na villa, festa na proxima egreja de Santa
Catharina, e um lauto jantar, de 135 talhe-
res, no edifício da fabrica.
O plano da casa foi traçado pelo enge-
nheiro francez, Philippe Linder.
O edificio custou uns 60 contos de réis.
O motor da fabrica é à agua do rio.
Não se confunda esta fabrica, com a ou-
tra d'esta freguezia, mencionada a pag. 108,
col. 2.º, do 1.º volume.
ROMEIRA DE BAIXO aldeia, Extrema-
dura, no caminho que vae de Villa-Longa
(hoje Via-Longa) para Bucellas, ambas es-
tas freguezias no concelho dos Olivaes, pro»
ximo a Lisboa.
Ha aqui uma grande quinta, que foi dos
marquezes de Arronches, e depois duques
de Lafões.
Tem uma antiga capella, dedicada a Nossa.
Senhora da Encarnação. Vide Vallada.
Esta quinta é na freguezia de Via-Longa,
ROMEIRA DE CIMA — aldeia, Extremadu-
-Ta, na mesma freguezia de Via-Longa, con-
celho dos Olivacs.
Próximo a aldeia da Verdélha, e a 6 ki-
lometros de Bucellas, está a grande quinta
da Romeira de Gima, que é dos herdeiros do
fallecido marquez de Castello.Melhor.
Dentro d'esta quinta, está a bonita capella
de Nossa Senhora das Virtudes, que é bas-
tante antiga.
Era senhorio directo d'esta quinta, o mos-
teiro de S. Vicente de Fóra, de Lisboa, que
a trazia dividida em casaes.
Em 4505, emprazou esta propriedade à
Antonio Carneiro e sua mulher, D. Brites.
d'Alcáçova.
Fui 2.2 vida n'este prazo, António Car-
neiro. Em 1561, sua filha, D. Elvira d'Alcá-
çova, casou com D. Bernardim de Távora, é
por sua morte, ficou este prazo a sua neta,
D. Maria de Távora, filha d'Alvaro Pires de
Távora e de D. Isabel de Mello.
, Antonio Carneiro, a quem
16
ROM
foi emprazada esta quinta, era
pae de D. Pedro d'Alcáçova
Carneiro, conde de Idanha, €
fundador do mosteiro de Casa-
- Nova, e da quinta da Verdê;
lha, em 1546.
ROMEU — freguezia, Traz-os-Montes, CO-
marca e concélho de Macedo de Cavaleiros
(foi até 1833 da comarca de Chacim, conce-
lho e proximo dos Cortiços — extinctos) 60
kilometros de Miranda do Douro, 40 da Tor-
re de Moncorvo, 10 de Mirandela, 420 ao N.
de Lisboa, 110 fogos.
Em 1757, tinha 44 fogos.
Orago Nôssa Senhora da Annunciação. 1
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
O reitor de Mascarenhas, apresentava O
cura, confirmado, “que tinha 605000 réis e o
pé d'altar.
Romeu foi até ao meiado do seculo 18.º
uma aldeia da freguezia de Mascarenhas,
sendo então desmembrada, para formar um
curato independente. Tanto a freguezia de
Mascarenhas como esta, eram dos cavallei-
ros de.S. João de Jerusalem (Malta) pelo que
tinham grandes privilegios e isenções.
No alto de um monte, que é parte d'esta
freguezia e parte da de Mirandela, está a
capella de Nossa Senhora de Jerusalem (à
qual o povo tambem chama Nossa Senhora
de S. Marcos) fundada pelos cavalleiros de
Malta, pelos annos de 1500.
A capella-mór, da primittiva ermida, fi-
cava em terreno do termo de Mirandella, e
o corpo da egreja, no termo de Mascarenhas
(na parte que hoje é de Romeu) pelo que os
dois parochos—de Mirandella e Mascarenhas
—ambos queriam as offertas e esmolas que
os fieis davam á Senhora.
Os de Mascarenhas, para evitarem uma re-
phida demanda entre os dois parochos, de-
10 Portugal Sacro e Profano, diz que o
orago é Nus«a Senhora da Assumpção, 0 que
é erro. Nossa Senhora da Assumpção é O
orago da freguezia de Mascarenhas, e quan-
do Romeu se desmembrou d'aquella fregue- |
zia, tomou para sua padroeira, Nossa Se-
hora da Aunune iação. Ambos os parochos
d'estas freguezias, eram AM garanto freires |
de Malta.
ROQ
moliram a capella em construeção, e a edi-
ficaram toda em terreno da sua freguezia,
que era, da jurisdieção do isento da ordem de
Malta, quando o resto do monte, era dentro
dos limites do arcebispado de Braga.
A imagem da padroeira, é de;roca, e tem
1,32 d alto,
A sua festa, | é a 8 de setembro, dia da om
tividade de Nossa Senhora.
Na encosta N. d'este monte, e a-200, me-
tros abaixo da capella, está uma cérca, que
pertencia ao eremitão, que n'ella tinha a-sua
| horta e pomar, e no centro ha uma fonte
perenne, de optima agua potavel.
RONGÃO-—ribeiro, Traz-os-Montes, nasce
em Favaios, e entra na direita do Douro, na
Foz do Roncção. O vinho do Baixo Roncão, é
classificado como dos melhores do Paiz do
Vinho, do Alto Douro.
RONFE—freguezia (villa extincta) Minho,
comarca. e: concelho de Guimarães, d'onde
dista 10 kilometros a O. =egual distancia a
E. de Braga, 360 ao N. de Lisboa, 230 fo-
gos.
Em 1757, tinha 194 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A mitra apresentava O reitor, que tinha
1003000 réis e o pé d'altar.
É terra fertil.
ROQUE-AMADOR, ROCA. AMADOR, e RE-
CLAMADOR — Já na palavra ,Roca- Amador
tratei do instituto que tinha esta denomina-
ção; aqui direi mais.
A capella de Nossa Senhora da Silva, na
rua dos Caldeireiros (antiga rua da Ferra-
ria de Cima) do Porto, foi a de uma alber-
garia de Roque-Amador, fundada pela rai-
nha D. Mafalda, mulher de D. Affonso Hen-
riques, e avó da rainha Santa Mafalda. Vide
7.º vol, pag. 405, col 1.2, no fim e seguin-
tes.
Ainda no meu tempo de rapaz, os velhos
davam a esta albergaria de Nossa Senhora
da Silva, o nome de hospital de Roque-Ama-
dor.
Vide Torres Vedras.
ROQUE ANNES — quinta, Extremadura,
| na freguezia da Alhandra.
ROR
Os cardeaes-patriarchas de Lisboa, eram
senhores donatarios da villa da Alhandra.
-D. Thomaz “L' Almeida, primeiro patriar-
cha de Lisboa, filho do conde d' Avintes, e ir.
mão do primeiro marquez do Lavradio (vide
4.º vol., pag. 276, col, 4.2) vendo que o-hos-
pital da Missricordia da Alhandra, estava no
maior estado de pobreza e abandono! com-
Prou, pelos annos de 1720, a quinta de Ro-
que Annes, e a deu aos pobres da Alhan-
dra. Esta quinta rende annualmente 80,000
Téis, e é o unico rendimento que tem o hos-
Pital, que teria acabado de todo, se a nobre
e caridoza senhora marqueza da Bemposta
Sub-Serra, não tivesse dado muitas esmolas
a este hospital, abonando-lhe, além d'isso,
uma prestação mensal de 68000 reis.
A mesma senhora pediu ao sr. Antonio
da Costa Paiva, (feito barão do Castello de
Paiva, em 5 d'abril de 1854) uma esmola
Para este estabelecimento, e elle lhe legou
para depois da sua morte—uma inscripção
de 5003000 réis.
Mais nenhuma alma caridosa se lembrou
ainda de dotar o estabelecimento com qual
quer legado.
Antigamente promoveram-se grandes tou-
radas, brilhantes bazares, é varios especta-
culos theatraes, em beneficio do hospital, hoje
apenas, lá de longe a longe, se dá alguma re-
cita nO theatro, cujo producto liquido é ap-
Plicado à conservação d'este estabelecimen-
to, que, apezar de tudo, se acha nas mais
deploraveis condições.
ROQUEL —cidade romana, que se diz ter
existido na Extremadura portugueza.
Vide Ourem e Villa Nova de Ourem.
RÓRIZ —freguezia, Douro, comarca e con.
celho de Santo Thyrso (foi da mesma co-
marca, mas do extincto concelho de Negrel-
los) 24 kilometros ao N. do Porto, a mesma
1 Maria Annes, uma santa mulher da
Alhandra, fundára, em tempos antigos, um
hospital para pobres. Com o andar do tempo,
foram-se desencaminhando (roubando) as
rendas d'este piedoso estabel-cimento, que
em 1591, estava reduzido a uma simples al-
bergaria. Pelos annos de 1720, é que D. Tho-
maz d'Almeida restaurou exte hospital, como
se diz no texto. Vide Alhandra.
.
ROR 247
distancia-ao S. de Braga, 340 ao N. dê Lis-
boa, 265 fogos. !
Em 4757, tinha 2144 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo..:
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
O real padroado apresentava o vigario,
que tinha 1003000 réis e o pé d'altar.
É, povoação muito antiga, e foi villa e ca-
beça de concelho, supprimido. ha muitos
annos. Nunca porém teve foral régio, antigo
nem moderno.
Foi o solar dos Rebellos,
Rebello, é um appellido nobre em Portu-
gal, cuja familia tinha o seu solar no couto
de Rebello, concelho de Roriz, então comar-
ca do Porto 1.
O primeiro que usou este appellido foi
Mem Rodrigues Rebello (e não Martim Ro-
drigues de Rebello, como querem alguns)
tomado d'este logar, de Rebello, e senhor do
couto d'este nome, o qual couto herdou de
seu pae, Ruy Vasques, no reinado de D.:Af-
fonso III.
Nuno de Rebello, foi alcaide-mór de San-
tarem.
As armas dos Rebellos, são — em campo
azul, trez cotias de ouro, em faxa, cada uma
carregada de sua flor de liz, de púrpura, fi-
cando todas trez em banda. Elmo de prata,
aberto, e por timbre, um leopardo, de ouro,
armado d'azul, com uma das flores de liz do
escudo na testa.
Mosteiro de Róriz
Houve n'esta freguezia um mosteiro de
monges benedictinos, antiquissimo. Não se
sabe quando nem por quem foi fundado, mas
sabe-se que já existia em 887, reinando em
Leão, Portugal e Galliza, D. Affonso, o Ma-
gno, que n'esse anno o deu à condessa Muma
Dona. (Vide Guimarães.)
Parece que este mosteiro passcu a come
1 Frei Manuel de Santo Antonio diz que
o solar dos Rebellos é na freguezia de S.
Martinho do bispado de Viseu, o que é erro.
Elle confunde Rériz (S. Martinho de) na
Beira Alta, com este Róriz, antiga provin-
cia do Minho, hoje do Douro.
248 ROR
mendatarios, e por fim, tornou à córôa, por
que D. Affonso Henriques, em 20 -d'abril de
4173, o deu aos conegos regrantes de Santo
Agostinho (cruzios.)
Em 1492, D. João II, por auctoridade do
pontifice Innocencio VIII, e do arcebispo de
Braga, fez d'este mosteiro uma commenda,
Em 1560, falleceu, sem successão, o ultimo
commendatario, tornando o mosteiro à co
rôa; e, n'esse mesmo anno, o cardeal D. Hen-
rique (depois rei) pediu à rainha D. Catha-
rina, viuva de D. Juão III, e regente do reino,
na menoridade de seu neto, o rei D. Sebas-
tião, que este mosteiro e suas dependencias
e rendas, fossem dados aos jesuitas, do col-
legio de S. Paulo, de Braga; ao que à rai-
gha annuiu.
Pela suppressão da Companhia de Jesus
(1759) passou o mosteiro de Róriz para a
universidade de Coimbra, que o vendeu. É
seu actual proprietario, o sr. Manuel Mari-
nho Falcão de Castro, filho do fallecido pri-
meiro visconde de Róriz.
A egreja, porém, continuou a ser a matriz
da freguezia, que nunca teve outra, que
conste.
Entre as varias propriedades deste mos-
teiro, havia uma em Canavezes, de Riba-Tà-
mega, que o prior, cruzio, emprazou em
1244.
Em um cabeço d'esta freguezia, chamado
Monte do Facho, ou Eira Moura, ha umas
vastas ruinas, que, segundo a tradição po-
pular, são os restos da antiga cidade de Sa-
noana. Pretendem uns, que esta palavra é
corrupção de Citania, e outros que é de Sa-
mnhoane. Parece mais provavel esta ultima
versão. Vide Sunhoane.
Estas ruinas são muito semelhantes ás da
Citania de Briteiros, e demonstram ser da
mesma época.
As casas eram aqui circulares, ovaes, se-
mi-circulares e quadrangulares, como em
Citania: trez ou quatro muralhas de cir-
cumvalação, completas, circuitavam, com
diversos intervallos, a povoação. As calça-
das, principaes pelo lado do sul, davam in-
resso para esta povoação.
ROR
Em diversos penedos existem pias qua-
drangulares, zbertas por mão de homem, é
em algumas, buracos como que destinados aq
eixo de mós, e por este polidos; ha um penedo
levantado e a prumo que os visinhos chamam
da Pata do cavallo, junto do qual se tem
feito grandes excavações em busca de the-
souros que o povo alli crê existentes; pro-
xima fica a eira dos Mouros, largo espaço,
cujo pavimento era todo forrado de pedra
de esquadria, em grande porção já levada
d'alli para diversas obras pelos moradores
das freguezias em volta.
No cimo e pento mais elevado da povoa-
ção, existem grandes penedos, e uma como
anta informe, cujo appoio de um lado já está
tombado. Ao lado norte d'esses penedos, em
plano um pouco inferior, ha outros penedos,
em que se vêem abertas pequenas pias cir-
culares, e por cima d'ellas se acha a pedra
rasgada em dois sitios, como que à feição
do corpo de ovelha ou carneiro, e de novi-
lho, ou rezes de egual corpolencia; as pe-
dras empregadas na construcção, são pe-
quenas, e em geral quadrangulares ou tri-
angulares, em fiadas alternadas de umas a
outras; descoberta uma das casas circula-
res, mediu de diametro no vasio 4,795, d'al-
tura de parede, desde o lastro soalhado, ex-
teriormente, de pedra (talvez rua) até à su-
perficie do solo 0,"85, e de espessura da
mesma parede 0,733: as maiores pedras em-
pregadas n'essa casa não hiam a mais de
0,30 por 0,25; appareceram nas excavações
daquella casa e em outras na chamada Ei-
ra dos Mouros, muitos fragmentos de tijolo
e objetos de barro, sendo o tijolo todo cosi-
do ao sol, e de diversas qualidades de bar-
ro, Mais ou menos grosseiro, € formando
como em bicas ou calles, mas chatas, e um
d'elles tinha uma roseta, corno que marca
d'olaria; tambem appareceu uma pedra de
amolar, fragmentos e escorias de ferro, pe-
| quenos pedaços de lousa. Na parte inferior
da chamada Eira dos Mouros, informam os
visinhos do monte, que havia, outr'ora, uma
pia de pedra, áonde vinham ter umas calles
tambem de pedra, o que faz suppor, visto
apparecerem no sitio fragmentos de carvão
e como que pregos de ferro, ter sido ahi al-
ROR
guma olaria, sendo aquella eira destinada à
secca e cosimento, ao sol, dos seus produ-
ctos.
Appareceram, ha annos, na base do monte,
duas pequenas hachas de bronze, de que é
actual possuidor o sr. Domingos José dos
Santos Ferreira, negociante em Barcellos.
É terra abundante de boas aguas e muito
fertil em cereaes, legumes, fructas e vinho
(verde, mas de boa qualidade.)
Tem fama a laranja de Róriz, principal-
mente a dos pomares do mosteiro e do Mon-
te-Sô.
Os pomares d'esta ultima casa, continham
ainda em 1853, umas 500 laranjeiras, plan-
tadas em 4755. Teem seccado, em grande.
parte, mas o seu possuidor tem tido o cui-
dado de fazer novas plantações.
Ha tambem no districto d'esta freguezia
grande variedade de plantas medicinaes.
No outono, apparecem nos montes é ou-
tros logares incultos, grande quantidade de
açafrão (crosus autumnalis, de Linn, e Bro-
tero) que quasi ninguem aproveita.
Tinha esta freguezia trez irmandades—
Santissimo Sacramento, Nossa Senhora do
Rosario, e S. Pedro—mas, ha poucos annos,
foram as duas ultimas incorporadas na pri-
meira.
Teve ainda a irmandade das Almas, que
acabou, pouco depois de 1820.
A caritativa sr.: D. Michelina Julia de Je-
sus Gouveia de Azevedo, rege gratuitamente
uma escola particular do sexo feminino.
Passa por esta freguezia um ribeiro que
tem varios nomes, segundo os sitios por
onde passa. Chamam-lhe ribeiro de Fójo, de
S. Miguel, da Audiencia e dos Asnos: Réga,
mós, e traz algumas enguias e trutas.
Nasce no logar do Bustéllo (de S. Fins de
Ferreira) e morre na margem esquerda do
Visella, abaixo da aldeia do Monte, na fre-
guezia de S. Martinho do Campo.
Passa por aqui a nova estrada, a mac-
adam, que liga o concelho de Santo Thyrso
com o de Paços de Ferreira.
ROR
A egreja matriz, de architectura gothica,
é um bom templo, de uma só nave e bas-
tante espaçoso, e muito alto.
Era o do mosteiro dos cruzios. A porta
principal é ampla e magestosa ; as hombrei-
ras são formadas por cinco columnas, das
quaes, a primeira, terceira e quinta, são
mais grossas, e a segunda e quarta mais
delgadas, A primeira, terceira e quinta, são
ornadas de flóres e conchas, em relevo, e com
ornatos nos capiteis, e terminam todas com
uma cabeça de touro. —A segunda e quarta,
são lizas.
Sobre estas dez columnas se apoia 0 arco,
em ogiva, com ornatos em relevo. Tudo isto
foi ha poucos annos bezuntado com uma
grossa mão de cal ! Esta porta e a claraboia
são soberbas. A cimalha lateral, é assente
em varias figuras de phantasia.
O arco cruzeiro, é de architectura mo-
derna, e assenta sobre dois bellos pilares de
cantaria, muito bem lavrados. Está ladeado
por dois bustos muito antigos, representan-
do um mouro e uma moura.
A capella-mór é de abobada de pedra,
muito bem conservada.
Fóra da egreja, e debaixo de um portico,
está um antigo tamulo, com o brazão d'ar-
mas dos Mascarenhas e dos Silveiras Lo-
bos; mas não se sabe quem alli estã sepul-
tado.
Na parede exterior da egreja estão duas
inscripções, ambas illegiveis, uma por que a
lapide foi partida, e o que resta não faz sen-
tido; outra, por estar quasi toda apagada
pelo tempo. A primeira é em antigo nor-
mando—a segunda em latim.
Na capella-mór, e junto aos degraus do
altar, estava a sepultura de João Fernandes
Farto, commendador dos mosteiros de Vil-
larinho e do d'esta freguezia. Era de pedra
preta, e tinha uma cercadura de latão, de
um decimetro de largo, e com uma inscri-
pção. O actual reitor, o sr. Antonio Julio
Gonçalves, de Murça, mandou demolir este
monumento, vendeu o latão da cercadura, e
fez collocar a lousa debaixo da pia da agua
benta! No logar da antiga sepultura, man-
dou pôr uma lagem tosca, na qual fez gra-
249
ROR
var o seu nome (!) em caracteres ainda mais
toscos, ad aeternam memoriam.
“Capelas
PA Maria de Negrélios, que for
egreja matriz da freguézia assim denominada
e que'se anneXou à esta, no tempo dos jésui-
tas. (Vidé 6.º vol., pag. 30, col 1º) É pu-
blica.'
2; 346 640 Todi do Calvario.
5 Na casa da Singevêrga; particular.
6a--Na casado Cabreira; particular.
7.º: e 8»-—Nas casas de S. Miguel, e de S:
João (no logar d'este nome) ha as capellas
d'estes santos, ambas em tuinas.
“Na “aldeia de Virães, d'esta freguezia
houve antigamente" uma egreja parochial,
que era à matriz de uma freguezia ha mui-
tos annos extineta, denominada S.'Payo de
Virães. Compunha-se só 'de duas aldeias,
Soutéllo, que passou para a'freguezia de'S.
Thomé dé Negrellos; eVirães, que irao
para esta de Róriz.
De ihide lreveriotrolas 1853, tó feito di
meiro visconde de Róriz, Antonio Marinhó
Falcão 'de Castro Moraes, ja fallecido.
Era filho de Manuel Marinho Fálcção' de
Castro Moraes, fidalgo cavalleiro 'da' casa
real; commendador da Conceição, conselheiro
de estado, e do rei. Tinha sido juiz de-fóra
em' Guimarães, desembargador da relação
do Porto, e ministro da justiça, em 1823.
Veio casar na casa do Musteiro, e aqui
falleceu, em '7 de fevereiro de 1834:
“Está sepultado na'capella-mór da egreja
matriz, e na mesma estão 'sepultados seus
filhos—Se bastião Marinho'Falcão de Castro
Moraes, desembargador da relação do'Porto;
eo o (e Vo nene id aid
pd de og
une eeláraição à do outi! de Rótio Gê ertdia
«tente anitigammênte'aos padres'cruzios, de-
«pois sos da Compánhia, e hoje-se acha in-
«corporado na'corõa: Consta do'Tombo; feito
«em 1543, pelo D: Prior do mesmo mosteiro.
«Item—Tem' este mosteiro, couto e juris-
ROS
«dição, no civil sóménte-=e o prior do mos-
ateiro, com homens bons, do couto, põem
«cada um anno, juiz, porteiro, jurados, e
«outros officios, como se contem no prívile-
«gio e doação do mosteiro.
«O qual couto está por marcos e divisões,
«e começa uma divisão; sob a Portella, so-
«bre a egreja de S. Mamede, (de Negréllos)
«por um'padrão que está direito, qual é a
«pedra em cima cavada, com a figura 'de
«certan—e d'ahi'corre direito ao rio Visella,
«sob o logar a que chamam Agr êllo, no qual
«dogar está um padrão alçado, que tem signal
«de cruz, em cima—e para a parte do couto,
«signal de chave-"e d'ahi, corre pelo monte
«de Virâes, é d'ahi à Portella de Covêllo,
«onde estã uma pedra, a quál tem signal de
iletrá—e d'ahi corre ao Fójo onde está ou-
«ro padrão alevantado, que tem em cima
«outro signal de chave—e d'ahi ao monte de
«Penouços, e d'alli direito à ermida 8: Ci
«brão, assim como verte a agua contra 0 rio
«Visella, é d'alli a s. Mamede, onde começa
a Wi visão!
«E o juiz do couto, ouve todos os feitos
«civeis, e delle appellam para o prior, e do
«prior para el'rei. E os aggravos d'ante o
«juiz, ao corregedor da comarca, BA fa
RÓRIZ- freguezia, Traz-os-Montes, na co-
| marea e concelho de Chaves (era da mesma
| comarca, mas do extincto concelho de Mon-
forte do Rio Livre.) Vide Castanheira é Ró-
| riz, à pag. 165, col. 1.º do 2.º volume.
RÓRIZ—freguezia, Minho, comarca e con-
célho e '7 kilômetros dé Barcellos) 192 kflo-
metros ao O. de o dh 360 ao N. de Lisboa,
180- fogos,
Em 4757, tinha 134 fogos. .
“Orago, 0 archanjo' S: Miguel. ,
Po A e ido uininist ativo de
Braga." Há WIBihS + Et] fi
“ O reitor do convento: oa! Viliár de Frades
“(os bons homens''dê ' Villar) apresentava o
cura, 'que tinha'308000 réis 'e o pé d'altar.
vi Ar esta fregueziá está annexa a de Quei-
roz (Vide' nºeste vol. pag. 17, col: 2.4, 0 1.º
Queiroz) e por isso se lhe dá o nome de Ró-
riz e! Queiroz, ou de Queiróz'e Róriê: E
É'torrá fertil. há
ROSA—Vidé Robalo.
ROS
ROSA (mostéiro da) —Extremadura, Lis-
boa.— Alem do que dissé a pag. 299, ol.
1.2, do bo vol, acerescento. aqui mais (o)
seguinte. '
' Luiz dé Brito, fundador do mosteiro, era
casado em segundas nupcias, com D. Todndh
de Athaide, filha do senhor dé Pena- Cova,
e esta senhora tambem concorreu muito
para esta fundação, pois, como não tinha fi-
lhos, deu toda a sua fazenda, que era muita
e de grande valor.
É proximo'e ao 0. do castelo de ho Jorge,
em" “itio muito elevado, d'onde se goza a
vista da: maior parte de Lisboa e do Tejo,
Princif piou à fundação, 'em 29 de novem-
bro dé 1519, com auctoridade do rei D. Ma-
nuel— que tambem” contribuiu muito para
esta “obra—sendo juiz apostolico, 0 doutor
Braz Neto, que depois foi bispo de, Cabo-
Verde, é que assistiu ao lançamento da pri-
meira pedra, por ordem do papa Leão FR
Priricipiou o) convento com treze religio-
sas, é era da invocação de Nossa Senhora
da Conceição.
Foi'incendiado em 1670, o quê causou
grandes prejuizos, pois só 0 da sachristia foi
avaliado em 40:000 crusados (16 contos de
réis.) Foi logo reedificado.
ROSARIO (Nossa Senhora do) —freguezia,
Atémtejo. Comarca e concelho d' Almodóvar
(foi do mesmo “concelho, mas da comarca de
Mértola) 105 Kilometros ao O, d” Evora, 135
ao S. de Lisboa, 170 fogos.
Em 1757, tinha 96 fogos.
Orago, Nossa Senhora do Rosario.
Bispado é districto administrativo dé Beja.
O tribunal da mesa da, consciencia, e or-
dens, nAnrStepiada, 0 capelião, curado, que
tinha! 120 alqueires de trigo, 30 de cevada
ê 108000 réis em dinheiro.
É terra fertil.
ROSARIO (Nossa Senhora do)—treguezia,
Aletejo, comarca do Redondo, concelho do
Alandroal (foi! do mesmo concelho, mas da
comarca d'Estremoz) 30 kilometros d” Elvas,
150 ao E. de Lisboa, 120 fogos. |
- Orago, Nos ssa Senhora. do Rosario.
Bispado dElvas, districto administrativo
d'Evora.
ROS 251
o tribunil da mesa da consciencia e or-
dens, apresentava” 0 capelão, curado,” jus
tinha 180 alqueires de trigo, 6 120 de Ge-
vada!
dl terra muito fertil em cereaes, é nos
mais generos agricolas.
ROSARIO (Nossa Senhora do)— freguézia,
Alemtéjo, de d' Arronches, comarca de
Portalegre, d'onde dista 9 kilofhetros, 180
ão S.E. de Lisboa, 60 fogos.
Em 4757 tinha 31 fogos.
Orago, Nossa Senhora do Rosario.
Bispado e distr teto adm inistratis vo dé Por-
talégre.
A mitra apresentava 0, cura, que tinha 150
alqueires de trigo. .
É terra fertil em cereaes. dd
ROSAS —antigo nome da aetual freguezia
de Rôças, na comarca e concelho d'Arôuca.
Douro.
Foi Commenda “da, ordem de Malta.
Esta povoação foi fundida em 140, por
Odorio' Espinel, “ou Espinhel, que a doou
depois, a Salvador Peres. Vidé Róças de
Arouca. . ,
ROSMANINHAL- fregueria, Beira Baixa,
comarca é concelho de Idanha Nova (foi da
mesma comarca, mas do concelho de Salva-
terra do Extremo) 9 0 Kilometros ao E. de
Lisboa, e 35 da Guarda, Co fogos.
Em-1757, tinha! 91h fogos.
Orago, Nossa Senhora da Conceição.
Bispado e dis tricto administrativo de Cas-
tello-Branto.
O real padroado apres: entáva o vigario,
que tinha! 108000 réis é 0 pé d'altar.
Foi villa, cabeça de concelho, ao qual” 0
rei D. Manuél “deu foral, em Santarem, no
1.º Us junho de 1510. “(Livro dos for des no-
vos da Beira, fl. 26 verso, col. 1.2) |
- Tem minas douro, que se não exploram.
Era commenda da ordem de Christo, é
eram. seus commeéndadores e alcaides: mó-
TOS, os marquezes da Fronteira, condes da
AA
Torre, e de Assumar, é marquezes d'Alorna,
cuja casa está actualmente representa da pelo
sr. D. José Transimundo Mascarenhas Bar-
rêto, marquez da Fronteira, "mas que se as-
signa marquez de Alorna, titulo que lhe foi
dado, em 22 de outtbro de 1899.
252 ROS
Este cavalheiro, é 7.º marquez da Fron-
teira, 5.º marquez d'Alorna, 8.º conde da
Torre, e 7.º conde d'Assumar. (Alorna é uma
cidade da India Oriental, que foi do rajah
de Bonsoló, e ao qual a tomou D. Pedro de
Almeida Portugal, marquez de Castello Novo
e conde d'Assumar ; pelo que, D. João V lhe
deu o titulo de marquez d'Alorna, em 9 de
novembro de 1748,)
Alem da commenda do Rosmaninhal, ti-
nham os senhores d'esta casa, mais cinco
commendas, todas da ordem de Christo :
O 4.º conde d'Assumar, foi D. Francisco
de Mello, feito por D. Philippe IV, em 30 de
março de 1636..
O 4.º marquez da Fronteira, foi D. João
Mascarenhas, 2.º conde da Torre. (Para evi-
tarmos repetições, vidé 3.º vol. pag. 240,
col. 2.2)
À esta familia, uma das mais
nobres de Portugal, perten-
tiam tambem os marquezes de
Gouveia (depois duques de
Aveiro) os condes d'Alva, os
condes de Coculim (villa in-
diana, na comarca de Salsete)
os condes de Sandomil, e os
de Portalegre ; além de outras
esclarecidas familias, do ap-
pellido Mascarenhas. Tambem
eram d'esta familia os mar-
quezes de Castello-Novo.
D. João Mascarenhas, 4.º marquez e se-
nhor da Fronteira, e 2.º conde da Torre, foi
mestre de campo-general do exercito portu-
guez da provincia do Minho, durante a guer-
ra da Restauração, mestre de campo-gene-
Tal da cavallaria, da provincia do Alemtejo;
mestre de campo-general, junto à pessoa do
Fei, na corte e provincia da Extremadura ;
governador das armas de Cascaes e Setubal;
gentil-homem da camara de D. Pedro II
(quando principe regente) do seu conselho
de estado e guerra, védor da fazenda, e grão-
prior do Crato. Foi dos mais bravos e leaes
militares do seu tempo e grande valido do
rei. Falleceu em 16 de setembro de 1681,
na florescente edade de 48 annos, pois ha-
via nascido em 48 de julho de 1633.
Foi este fidalgo o fundador da sumptuo-
ROS
sissima, quinta e magestoso palacio dos srs.
marquezes d'Abrantes, em Bemfica. (Vol. 4.º,
pag. 378, col. 4.º)
Este palacio e o seu jardim e quinta, são
uma das mais bellas vivendas de Portugal,
e fica a 6 kilometros de Lisboa, na encosta
da serra de Monsanto, do lado de Bemfica.
Chamava-se a este sitio, Morgado-novo, e
eram terras dos Mascarenhas.
A casa está guarnecida de azulejos, onde
estão pintadas todas as batalhas em que to-
maram parte os membros d'esta familia, no-
tando-se a batalha do Ameixial, onde se vê
o fundador do palacio e quinta, batendo-se
corpo a corpo com D. João d'Austria.
Entre os retratos dos antepassados do
actual marquez de Fronteira, existentesn'este
palacio, se veem os da marqueza de Távora,
D. Leonor de Távora, degolada e queimada
no caes de Belem, em 13 de janeiro de 1759;
o de D. Magdalena de Vilhena; o de D.
Francisco d'Almeida, primeiro vice-rei da
India; e dois do marquez d'Alorna, um ti-
rado antes de entrar para os carceres da
Junqueira, e outro tirado quando saiu de
lá, no fim de 18 annos (em 4777, pelo falle-
cimento de D. José 1.)
Este palacio foi construido pelos annos
1680, porem a sua capella é muito antiga,
e foi reedificada em 1580.
Na sala chamada das batalhas, e que agora
serve de sala de jantar, se veem os bustos
de varios fidalgos d'esta familia, entre elles:
D. Fernão Martins Mascarenhas, chefe da
casa dos Mascarenhas, senhor da casa de
Lavre, commendador de Mértola e de Almo-
dóvar, alcaide-mór de Monte-Mór Novo e de
Alcacer do Sal, e capitão de ginetes de D.
João II, e de D. Manuel. |.
D. Manuel Mascarenhas (o Espada Corta-
dora) um dos principaes que tomaram Aza -
môr, em 1515, e que morreu governador de
Arzilla (Africa.)
D. Fernando Mascarenhas, morto na ba-
talha d'Alcacer-Kibir, em 4 de agosto de
1578.
D. Manuel Mascarenhas, gravemente fe-
rido e captivo, na mesma batalha.
D. Fernando Mascarenhas, 4.º conde da
Torre, governador de Ceuta e Tanger.
ROU
RUA 253
D. Franrisco Mascarenhas. 1.º conde de | ROUBADO (Senhor) —Vidé Carriche.
Coculim (villa na comarca de Salsete, na In-
dia) feito por D. Pedro II. em 3 de junho de
1676.
Tambem aqui estão os bustos do 2.º, 3.º,
h.º e 5.º marquezes de Fronteira.
Em um dos lados d'esta sala, vé-se em
alto relevo, e do tamanho natural, o 4.º mar-|
quez da Fronteira, a cavallo, e com o uni-
forme de marechal.
Tem por baixo uma extensa inscripção,
designando todos os postos e dignidades do
marquez. .
Em um dos maiores tanques do jardim,
estã uma varanda, e n'ella, em bonitos ni-
chos, estão os bustos—em marmore de Car-
rára—de todos os reis de Portugal, desde
D. Affonso Henriques, até D. João VI.
Rosmaninhal, foi praça d'armas, com seu
castello e muralhas com seus competentes
revelins, e barbacans.
Já disse que eram alcaides-móres d'este
castello os marquezes da Fronteira.
Está situada sobre a margem do Tejo, na
confluente do rio Elga, com aquelle, porisso
chamada Foz do Elga.
Das suas antigas fortificações apenas res-
tam alguns muros desmantelados.
ROSSAS — Vidé Róças.
ROTELLA -- portuguez antigo — rompi-
mento, força, rotura, violencia, ete.— No fo-
ral da villa de Linhares (Beira Baixa) dado
por D. Affonso 1, em 1169, se lê—De rotêla
de sua casa cum lanzas (lanças) et scutos,
(escudos) da sua porta a dentro, pectet (peite,
ou pague de peita) ccc (300) soldos,
ROTORÍA ou ROTURA-— portuguez antigo
—rompimento de terra (arroteia) que trans-
forma em campos os terrenos bravios. Em
Arouca, ainda à arroteia se dá o nome de
rómpida.
RÓTULO —portuguez antigo—rôlo de per-
gaminho, ou de outra qualquer materia, em
que se escreviam os livros, e o qual se en-
rolava em um, cylindro, para se não enge-
lhar. A este modo de escrever, se chamava
escrever em bandeira.
ROUBA ou ROUBADIA —portuguez antigo
—roubo ou furto. (Doc. de Vairão, de 1304.)
ROUÇAS—Vidé Róças.
ROUSADA, ROUXADA e ROUZADA —por-
tuguez antigo--mulher violada. Vide Rau-
sador. Andando D. Pedro I à caça em Bem-
fica (termo de Lisboa) onde tinha um pala-
cio e quinta, ouviu chamar uma mulher à
outra, Maria Rouçada. Perguntando a razão
de tal alcunha, soube que a mulher havia
sido violada por o homem que depois foi
seu marido. (Para evitarmos repetições, vide
n'este volume, pag. 58, col. 2.2)
ROUSADOR, ROUSAR, ROUSO, ROUXA-
DA. ROUXO, ROUZADA e ROXO-—portugnez *
antigo—era 0 mesmo que—rausar, rauso,
rausso, rauxada, etc.
ROVINA—Vidé Ruvina.
ROZEM — freguezia, Douro, comarca e
concelho do Marco Canavezes (foi da co-
marca e concelho de Soalhães) 48 kilome-
tros ao N.E. do Porto, 335 ao N. de Lisboa,
70 fogos.
Em 4757, tinha 47 fogos.
Orago, Nossa Senhora das Neves.
Bispado e districto administrativo do
Porto.
O papa e a mitra, apresentavam alterna-
tivâmente o abbade, que tinha 4005000 réis
de rendimento.
É terra fertil em todos os generos agri-
colas.
Gado, e peixe do Tâmega, e de alguns ri-
beiros anonymos.
RUA (pedras da)—Vidé Pedras da Rua e
Pontos do Douro.
RUA — villa, Beira Alta, concelho de Ser-
nancélhe, comarca e 6 kilometros de Moi-
menta da Beira, 30 kilometros de Lamego,
345 ao N. de Lisboa, 210 fogos.
Em 41757, tinha 140 fogos.
Orago, S. Pelagio.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Viseu.
O padroado real, apresentava o reitor,
que tinha 408000 rêis e o pé d'altar.
Esta villa, como a de Caria (vol. 2.º, pag.
108, col. 1.º e seguintes), é povoação anti-
quissima, e foi a capital do concelho de Ca-
ria e Rua, supprimido em 1854, e encorpo-
rado no de Sernancélhe.
25h RUA
Está siluada em uma fertil e vasta Dacia,
cercada de varios duteiros de pouca “eleva-
ção, uns plantados de vinha e outros povoa.
dos de differentes arvores, formando um Ti-
sonho e aprázivel quadro durante à prima-
vera e estio. Ao longe se avistam altas ser-
ranias, que à neve cobre no inverno.
É este valle feracissimo em todos os fru- dy
etos, especialmente em vinho, milho e trigo.
A villa é cortada pela estrada que de Tran-
cosó conduz a Lamego. |
Ha aqui uma optima fábrica, de fiação de
séda; pertencente aos industriaes, | os srs,
Francisco Cabral Paes e Filhos.
Os productos d'esta fabrica se teem: expor-
tado para diversos paizes, onde são muito
apreciados, e Os seus proprietarios teem ob-
tido varios premios, nas exposições a que
teem concorrido. Adiante fallo mais detida-
mente desta fábrica.
Segundo a tradição, a 509 metros da vil-
la, no sitio chamado São João, houve uma
grande povoação, ou cidâde, cnamada Arro-
chella ou Rocheila,! da qual ainda existem
vestigios (alicerces de muros, tijolos gróssis-
simos, e Outros objectos), todos denotando
grande antiguidade.
Em 4872, um proprietario destes terre-
nos, achou em uma vinha, grande quantida-
de de moedas de cobre, pesando todas uns
6 kilogrammas. Muitas d'estas medalhas, são
do tempo dos romanos, outras ainda ante-
riores ao seu domínio na Peninsula Umas
que se encontraram entre seis gróssos tijo-
los, foram offerecidas à camara municipal do
Porto, que as teve em grande apreço, e as
mandou collocar no seu museu. “Algumas
estavam tão oxidadas, que eram completa:
mente ilegiveis. Os seis tijolos onde haviam ||
sido guardadas, estavam dispostos em fórma
de caixa (fundo, tampa, é os quatro lados).
Uma boa parte d'ellas (medalhas) ainda es-
tavam bem conservadas.
No mesmo sitio teem Monkdteida varias
sepulturas de pedra, muito bem trabalhadas. |
No fim de janeiro de 1877, um jornaleiro
1 Rochella, siguifica pequena rocha.
HA
que andava plantando videiras, achou a um
metro de profunaidade, um vaso de barro,
coberto com uma pedra, e dentrô delle, “al-
guns bocados de prata, em bruto, e do pêso
de 2 16 kilogrammas, e entre a prata, “algu.
mas moedas romanas, do mesmo metal.
É ma E
“Entre'o grande numero de medalhas que
aqui se teem encontrado, apparecem em
maior número as romanas é árabes; “mas
tabém'se encontram duas que jugo Sabah
do seculo XI (entre 1037 e 1067): e de Ed Ed
fonso o Magno. '
0) senhor Francisco Cabral Paes, teve a 'ge-
nerosidade de me mandar 36 destas meda-
lhas, sendo uma d'ellas de prata, que eu of-
fereci àó museu archeologico do Carmo, em
Lisboa, onde agora existem.
Eximinei estas medalhas, e eis 0 que pu-
de averiguar— as de cobre:
Golhicas ?— duas — em uma, de um lado,
um homem com uma especie de turbante na
cabeça, é virada para elle, uma mulher, am-
bos de pé, e entre elles um M. a outra tem
de um-lado uma mulher, com um ramo ou
palma, na mão, e da legenda só se té VICTO;
é no reverso, o busto de um guerreiro, e só
se póde lêr GRATIA.
Leonezas? — duas, tendo “de um ládo dois
guerreiros, de pé, virados um para'o “duro,
e entre elles uma estante, ou pyra. Em uma, |
a Tegenda' desappareceu, na outra apenas | se
póde lér oNs TERTIUS. Será D. Affonso tú (O
Grande?)
Romanas — de varios imperadores, 18.
Arabes — 13.
E uma arabe, de prata.
“A antiga villa de Caria, hoje alada, andou .
até 188% tinida a esta CEL Rua, para octts 0s |
effeitos judiciaes, administrativos é muniei- |
paes. Caria! fica 2 Kilometros ao S.0. “dad al
5'ao'S. de Moimenta da Beira e dao N. do |
famoso Sanctuario de Nossa Senhora (da La- |
pa (vide Quintella da Lapa.)
Em todos os documentos antigos, quando É
se trata d'estas terras, se diz elite t= 04 ia.
eRua—e ambas contam egual antiguidade, |
e o que se diz de uma, póde appiicar se á |
RUA
outra: é por isso que eu trato aqui de factos
respeitantes a ambas.
Em 18 de maio de 1878, em um Monte,
entre Rija é Caria, andándo uús operariós a
demolir os restos de am ântigo muro, acha!
ram nos aliterces uma 'grânde quantidade
de moedas de prata (umas 400) de 20 divera
sos 'typos, mas todas romanas, é do valor
(com referencia ao seu pêso) de 150 a 250
réis cada uma.
As mais notaveis destas moedas, são —
uma, que tem de um lado, o busto de uma
mulhér, coroáda por um diadéma, e por bai-
xo xxxviir. No reverso, tem um cavaleiro,
correndo à toda a brida, e por baixo a le-
genda L. piStrRuGI. D'este typo, acharam-se
quatro moedas, mas tendo cada uma divérsa
inicial, e só uma tem 'a era de xxxtx.
Uma, tambem'éom busto de mulher, ten-
do na frente uma espiga de trigo, ea legén-
da D. METELL, é por baixo um arado. No re-
verso, tem um gn, e por jo re L. F.
G. F. 6.
Grande numero, tendo de um Emo um
elephante e por baixo a legenda capsAR; é
no outro, uma espada, um nei e um ma-
chado.
Outras teem um busto de homem, e no re-
verso, um homem, de corpo inteiro, com ca-
1 Note-se que havia trez Carias — Caria-
Velha, da qual adiante trato — Caria-Suzan
(Caria de Cima) que é a actual Caria, onde
primeiramente esteve a casa da camara, e
era à capital do concelho = e Caria Júzan
(Caria de Baixo) que é a actual villa da Rua;
para onde depois se transferiu a capital do
concelho, até 1854, assim como a casa da ca-
ma, pelonribho, justiças, etc.
'Um kilometro ào 'N. de Caría, existem as
ruinas da Garia-Velha, vendo-se no centro
della .os restos do seu vetusto, castello, ao
qua hoje 0 povo da o nome de Casa do Pas-
tor. Fica isto na órla de'um bosque, na en-
costa do: monte que pertence ao sr. José de
Lemos de Napoles. e faz parte da sua-quia:
ta, chamada Boa-Vista; porque os antepas-
sados d'este cavalheiro, “compraram aquelas
ruinas e parte do bosque, aos Jesuitas.
Dentro do:recinto d'estassruiras, 'se des-
cobriram, em 1867 ou 1868, varias sepultu:
Tas, abertas, a picão, na rocha granitica, é
dentro dº ellas, ossadas humanas, menos mal
conservadas.
RUA 255
pacéte de plumas, e empunhando uma espa”
da. Está sentado sobre um globo, e tem por
baixo ROMAN. FABI.
Para não fatigar o leitor, não menciono
expressamente mais destas medalhas.
Em 1868, no monte dos Cabaços, um ''ca-
cador, ao tirar musgo de um rochedo, achou
uma moeda de ouro, que vendeu a pêso, ao
sr. visconde de Moimenta da Beira.
Tem de um lado, uma cruz, suspensa por
um collar, e por baixo a legenda, bastante
apagada, que parece Ser Coifo, Goifo, ou Coi-
ko, VII. Do outro lado, tem um homem
com a cabeça cingida por uma fita, com bor-
las nas extremidades. Suppõe-se que seja
uma moeda do baixo-imperio, das manda-
das cunhar por Constantino Magno, o 1.º im-
perador christão de Roma. Outros preten-
dem que seja gothica.
Ha na villa dá Rua, um mosteiro que foi
dé frades franciscanos, fundado em 1443.—
Só uma'pequena parte do edifício se acha
em bom estado de conservação, o resto está
desmantelado. A egreja, porém, estã muito
bem conservada, devido ao zêlo dos irmãos
da ordem 3.º de S. Francisco, que se estabe-
leceu n'este templo.
Havia outro, de frades bernardos, que nas
suas proprias casas, no logar de Tabosa, fun-
dou D. Maria Pereira, viuva de Páulo Ho-
mem Telles, tenente-general e governador
da Beira.
Fabrica de fiação de séda
DOS SRS. FRANCISCO CABRAL PAES E FILHOS
Portugal foi por muitos annos quasi com-
pletamente desconhecido no estrangeiro, em
relação à materia prima da industria da sê-
da. A magnifica raça de casullo amarello
portuguez, em maior ou menor quantidade,
era: empregada (ou melhor diria, perdida)
toda no fabrico de retroz. Nenhuns, ou mui-
to poucos tecidos se fabricavam, pela falta
de fiações nacionaes, que se assemelhassem
às estrangeiras, em perfeição nos productos
256 RUA
e, ainda hoje, não teriamos dado um passo,
se um acaso não viesse a isso impelir-nos:
foi o seguinte: — Desde 1863 até 1872, deu
Do sirgo estrangeiro uma doença que o ma-
tava quasi todo, causando immensos estra-
gos na sericultura.
Então os estrangeiros, sem terem semen-
tes isentas da molestia, tiveram de hir pro-
cural-as a outros paizes, onde ella não
existia. Hespanhoes, italianos e francezes,
vieram em grande numero comprar-nos a
semente do sirgo, em vista dos optimos re-
sultados colhidos della. O casullo triplicou
então de valor e as sementes eram vendidas
por alto preço.
Em vista d'esta vantagem, tomou grande
desenvolvimento na Beira-Alta, a criação do
bixo da séda. Só os srs. Cabral Paes e Fi-
lhos, exportavam annualmente 250 a 300 ki-
logrammas de semente.
As prosperidades duraram apenas nove
annos, porque, em 4872, tambem o sirgo
portuguez foi atacado da molestia, o que
afugentou a concorrencia estrangeira.
Os illustrados industriaes de quem estou
tratando, entenderam que os seus casullos
deviam ser empregados mais proficuamente
do que outr'ora; e, relacionados com muitos
sericultores estrangeiros que visitaram a sua
fabrica durante a epidemia do sirgo, princi.
piaram a exportar em grande escala os pro-
ductos da sua fabrica de fiação de séda, que,
não só foram elogiados e muito apreciados
lá fóra, mas obtiveram menção honrosa nas
exposições de Londres e Paris, e foram re-
compensados com a medalha d"honra, e com
a 1.º medalha de prata, nas ultimas exposi-
ções agricolas e nacionaes de Lisboa; e nas
duas de sericultura do Porto, em concurso
ao 1.º premio pecuniario.
Em 4869, os srs. Cabral Paes e Filhos,
augmentaram o seu estabelecimento, e a sua
fabrica de fiação de sêda, tendo de instruir
n'esta industria, os vinte e tantos operarios
que empregaram n'ella.
O motor é a braço, e o systema de fiação,
O italiano. Produz 600 kilogrammas de sêda
em rama, annualmente.
As pessoas que desejarem mais amplas
RUA
noticias desta povoação, vejam Caria, a pag.
108, col. 1.º do 2.º volume.
RUA, é um áppellido nobre d'este reino,
e cuja familia é oriunda das Asturias. Um
membro d'esta familia casou com uma se-
nhora da casa de Athouguia. Depois, D. Ignez
Martins da Rua, filha d'Alvaro Annes da Rua
(escudeiro do infante D. Fernando, pae do
rei D. Manoel), casou com Luiz d'Athouguia,
seu parente. As primeiras armas d'esta fa-
milia, eram, em campo azul, trez flores, de
ouro, com tulipas raiadas de púrpura: élmo
de aço aberto, e por timbre, um leão d'ouro.
À Francisco Martins Rua, da cidade do Porto,
sendo feitor de Portugal em Flandres, lhe
deu o imperador Carlos V, novo brazão
d'armas, o que foi confirmado pelo nosso
D. João II. —São agora—em campo d'ouro,
6 rosas de púrpura, em duas pallas, folha-
gem verde, e no meio do chefe, uma flor de
liz azul. Elmo e timbre como os antigos.
Martins Ruas, da villa de Caminha, tal-
vez descendente d'estes Ruas, foi auctor de
um livro que elle denominou A Pedreida, e
disse ser um poema epico. (!) É uma das
obras mais celebres do seculo XIX, e rival
do famoso Diccionario da lingua portugueza,
do padre Bernardo de Lima Bacellar, e pu-
blicado em 1783.
RUA —Vide 3.º vol., pag. 212, col. 4.2, pe-
riodo 2.º
RUÃES — aldeia, Minho, na freguezia de
S. Payo de Merelim, no antigo couto de Ti-
bães, supprimido (Vide Tibães), concelho,
comarca, districto administrativo, bispado e
6 kilometros de Braga, 360 ao N. de Lisboa.
Em 25 de setembro de 1872, foi feito vis-
conde de Rnães, o negociante da praça do
Porto (hoje fallido) Bento Luiz Ferreira Car-
mo, casado, em 16 de fevereiro de 1876, com
a srº D. Anna Carolina Jacome de Souza
Pereira de Vasconcellos, na nobre casa dos
Avellares, em Braga.
Passa aqui o rio Cávado, e aquelle nego-
ciante fundou n'este logar, e em uma quinta
sua, proximo da Ponte do Prado, em 4870,
uma grande fabrica de papel. Depois, pas-
sou esta fabrica a ser propriedade de uma
RUÃ
companhia, sendo o fundador e seu sobri-
nho, Eduardo Luiz Ferreira Carmo, os prin-
cipaes accionistas,
O propulsor mechanico é o vapor, e a agua
do rio.
A fabrica foi muito augmentada e melho-
rada, sob a direcção do distincto engenheiro
Thomaz Smith. Fizeram-se os ensaios em 30
de janeiro de 1876.
Foi inaugurada, em 25 d'abril de 1877,
depois da benção religiosa do ritual, feita
pelo rev.=º abbade de Tibães (Merelim).
A machina a vapor, é da força de 100 ca-
vallos, e a turbina, movida pela agua do Cá-
vado, é da força de 50.
Os seus productos são dos melhores do
paiz, na sua especie, e rivalisam com o me-
lhor papel que vem do estrangeiro.
A fábrica está excellentemente montada,
e as machinas foram construidas no acredi-
tado estabelecimento dos srs. Easton & An-
dreson, de Londres.
O mestre da fabrica, é o sr. Benjamim
Peakie, inglez.
O pessoal da fabrica, na sua inauguração,
era de 40 homens e 60 mulheres.
—a
O sítio é alegre, bonito e sádio, ficando-
lhe perto povoações que lhe podem consu-
mir grande quantidade de papél, principal-
mente Porto e Braga. Tem excellentes estra-
das para diversos centros, para onde póde
fazer exportação em grande escala, ficando,
de mais a mais, a pequena distancia do ca-
minho de ferro do Minho.
——
Pois com todas estas condições de prospe-
ridade, teve a sorte de quasi todas as nossas
grandes emprezas industriaes, falliul — De-
via ao sr. José Pereira Loureiro (visconde de
Fragozella, desde 25 de maio de 1870), 70
contos de réis, que lhe não poude pagar.
O sr. visconde demandou a companhia, e
fez-lhe penhora na fabrica, e todas as suas
dependencias, sendo tudo avaliado em réis
60:6558080 (1).
Foi posta em praça, no dia 27 de outubro
“de 4878, e arrematada pela quantia de cin-
ecenta contos é trezentos mil réis, pelo sr.
RUA 257
Alberto de Oliveira, como representante de
uma sociedade de parceria.
Consta que esta sociedade é constituida
por cavalheiros emprehendedores e grandes
capitalistas. Deus queira que este patriotico
estabelecimento caia em poder de indus-
triaes mais felizes do que os antecedentes,
e attinja o grau de prosperidade de que é
merecedor.
RUÃO—portuguez antigo—o que vive na
cidade ou villa, onde as casas estão orrua-
das. Vinha a ser o meio termo, entre os fi.
dalgos e os peões. Hoje diz-se burquez.
RUBIÃES — freguezia, Minho, comarca e
concelho de Coura (foi do mesmo concelho,
mas da comarca de Valença), 40 kilometros
ao N. de Braga, 400 ao N. de Lisboa, 225
fogos.
Em 41757, tinha 150 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
Os viscondes de Villa Nova da Cerveira
(depois marquezes de Ponte de Lima) apre-
sentavam o abbade, collado, que tinha tre-
zentos mil réis.
É n'esta freguezia a nobre e antiga casa
vinculada, das Antas, da qual é actual pro-
prietario, o sr. Francisco José Dantas Mon-
tenegro. (Vide vol. 3.º pag. 212, col. 1.2, pe-
riodo 2.º)
A aldeia das Antas, foi villa, e solar dos
Antas, descendentes de Francisco Soares de
Novaes.
Antas ou Dantas, é um appellido nobre
em Portugal, que já existia no principio do
seculo XHI.
Pelos annos de 1230, os creados da rainha
Santa Mafalda, filha de D. Sancho I (a de
Arouca), causavam grandes damnos na al-
bergaria do Monte Fuste, ou Monforte, que
então era de Estevam Vasques d'Antas, ven-
do se este obrigado a reunir os seus creados
e familiares, a correr aquelles.
Queixou-se Estevam Vasques, a D. San-
cho II (o Capêllo) e foram feitas as pazes
com a rainha, Santa Mafalda, os Antas, e 08
creados-de ambas as partes, assistindo D. Ro-
drigo Gil, prior da ordem de Malta, no dia
29 de junho de 1243.
258 RUI
"Segundo antigos documentos que existem
na casa das Antas, tinham os senhores do
vinculo, um paço acastellado, com suas tor-
Tes, o que tudo foi arrazado pelos leonezes,
em 1129.1 ;
Lopo Dantas (o romano) construiu a ca-
pella de S. Bartholomeu, em 1592, gastan-
do muita da sua fazenda com esta funda-
ção, e com a creação de trez capellanias,
para cada capellão dizer uma missa em to-
dos os dias do anno. Tambem daya muitas
esmolas aos peregrinos que hiam em ro-
maria a S. Thiago de Compostella.
No alpendre em frente da porta-principal
da capella, estão servindo de columnas, seis
marcos milliares romanos, com inscripções,
mas tão apagadas, que se não podem lêr. São
todas monolithicas, e vieram de Cossourado,
por onde passava uma das cinco vias mili.
tares romanas, mandadas construir pelo im-
perador Vespasiano, e que de Braga hiam a
Astorga.
No mesmo alpendre estão trez sepultu-
ras—são do dito Lopo Dantas, de seu paeJe
de seus irmãos.
Frei Belchior Dantas, dominicano, era
d'esta familia, e morreu na ilha de Solôr
(Oceania) com fama de Santo.
RUIDADES —Vide Rio d' Ádes.
RUÍLHE —freguezia, Minho, concelho, co-
marca, districto administrativo, bispado e 6
kilometros de Braga (foi da comarca e con-
celho de Barcellos), 360 kilometros ao N. de
Lisboa, 110 fogos.
Em 1757, tinha 75 fogos.
Orago, S. Payo.
Os condes de Redondo (depois marquezes
de Bórba) apresentavam o abbade, que tinha
3008000 réis.
Esta freguezia e a de Cunha, eram obri-
1 Alguns fidalgos gallegos, haviam offere-
cido a D. Affonso Henriques, o reino de Gal-
liza, offerta que o principe portuguez accei-
tou, o que deu causa á guerra com D. Af.
fonso VII, rei de Leão, e primo de D. Af-
fonso Henriques. Os leonezes foram derro-
tados nas batalhas de Cerneja, e dos Arcos
de Valle de Vez. O arcebi:po de Braga, in-
terveiu na contenda, e conseguiu que os dois
Primos fiz-ssem as pazes, terminando a guer-
ra, pelo tratado de Tuy, em 1129.
RUI
gadas a varrerem as praças e talhos de Gui-
marães, nove vezes em cada anno. (Vide Bar -
cellos, a 1.º Cunha, e Guimarães.)
E terra, fertil.
RUIVÃES — freguezia, Minho, comarea e
concelho de Villa.Nova de Famalicão, 48 ki-
lometros ao O. de Braga, 350. ao N, de Lis-
boa, 225 fogos.
Em 4757, tinha 108 fogos.
Orago, o Salvador.
Arcebispado, e districto administrativo de .
Braga,
Os condes de Villa Nova apresentavam o
abbade, in solídum, que tinha 4308000 réis
de rendimento.
A esta freguezia está annexa a de Novaes,
e por isso se diz Ruivães e Novaes.
É terra fertil. Muito gado e caça.
Ha nesta freguezia trez casas que foram
vinculadas, e todas procedem da familia que
foi senhora do paço, torre e honra de No-
vaes. Ha ainda outra casa antiga e nobre,
com uma torre, que foi de Matheus Mendes
de Carvalho; e na aldeia de Rebordéllo, estã
a casa de Manoel Correia de Lacérda, se-
nhor de Frolães.
RUIVÃES — villa, Minho, no concelho de
Vieira, comarca da Póvoa de Lanhoso (foi
villa e cabeça de concelho, da comarca de
Montalegre, em Traz-os-Montes), 60 kilome-
tros ao N. de Braga, 405 ao N. de Lisboa,
320 fogos.
Em 41757, tinha 305 fogos.
Orago, S. Martinho, bispo.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O reitor de Santa Maria de Veade, apre-
sentava 0 reitor, que tinha 2008000 réis.
Esta freguezia compõe se das nove povoa-
ções seguintes:— Ruivães (séde da parochia),
Espindo, Frades, Zebral, Quintan, Valle,
Santa Leocadia, Botica, e Soutêllo. As cinco
ultimas aldeias, formavam uma das sete hon-
ras de Barroso.
Era da casa de Bragança, cujo ouvidor en-
trava nella em correição, assim como 0 pro-
vedor da comarca de Guimarães.
Até 1834, foi concelho, pertencente a Traz-
os-Montes, o qual se compunha d'esta fre-
guezia e da de Campos, e das aldeias de Fa-
RUI
fão,Pincães (que no espiritual pertenciam
à freguezia de Cabril), Caniçô e Linharêlhos
(que, no espiritual, pertenciam à freguezia
de Salto).
» Linha um capitão- mór, com poa compa:
nhias de ordenanças, cada uma com seu ca»
pitão, dois alferes, dois sargentos, e quatro
cabos.
«Este concelho dava recrutas para os re-
gimantos —12 de infanteria, 6 e 9 deicaval-
laria, e milicias, de Chaves.
- Em 4836, era da comarca de Chaves.
- Em 1812, compunha-se o concelho de Rui-
vães. (que era tambem julgado) das dez fre-
guezias seguintes: — Ruivães, Cabril, Govêllo
do Gerez, Reigoso, Pondras, Villa da Ponte,
Venda Nova, Salto, Campos, e Ferral, todas
com 1:103 fogos.
Foi este concelho supprimido em 1853, e
as freguezias que o constituiam passaram a
formar parte do concelho de Montalegre, me-
nos as de Ruivães, e Gampos, que se uniram
ao concelho e julgado de Vieira, da comarca
da Póvoa de Lanhoso, no Minho.
A freguezia de Ruivães, é situada em ter:
reno muito accidentado, e limitada ao N.
pelos rios Cávado, e Regavão; ao S., pela ser
ra da Cabreira; e ao O. pelo rio Saltadouro.
Ao O., e proximo a esta villa, ha uma boa
ponte de cantaria, de um só arco, lançada
sobre o Saltadouro, e por ella passa a anti-
ga estrada de Braga para Chaves. D'esta
ponte à villa, ha uma extensa e ingreme
calçada.
Pelo centro da freguezia, passava uma das
cinco vias militares romanas. Esta hia de
Braga a Chaves e Astorga.
Junto à aldeia da Botica, de Ruivães, fo-
ram achados no seculo passado, dois marcos
milliares romanos, pertencentes à referida
estrada. Em um, a inscripção estava com-
pletamente ilegivel, e no outro, apenas se
podia ler :
vcs evo.
“ecc c nc voo se...
Ruivães era a ultima villa da provincia
de Traz-os-Montes, para o lado do O., e dis-
RUI 259
tante 60 kilometros de Chaves, e 36 de Mon-
te-Alegre— tudo para o O.
O rio, Regavão, divide, por este Jado, a
provincia de, Traz. os-Montes, da do Minho.
Fica, proxima a, famosa. ponta da Misa-
rella, da, qual tratei no logar competente.
Vide Regavão.
Em 9 de setembro de 1836, a guarda na-
cional, de Lisboa, revolta se, e deita por
terrara carta, substituindo-a pela constitui-
ção de 1822.
A 4 de novembro, ha uma reacção para
restabelecer a carta, porem os revoltosos
triumpham logo no dia seguinte, e o minis-
tro da sr,2 D. Maria II, (Agostinho José
Freire) é assassinado pelos populares, na
Pampulha.
Em julho de 1837, os marechaes Terceira
e Saldanha, do partido da côrte, à frente-de
alguns corpos de linha, emprehendem res-
tabelecer a carta, mas, em 27 de agosto, o
conde do Bomfim,. general dos populares,
bate os dois marechaes no Chão da Feira,
junto à villa da Batalha, na Extremadura,
obrigando os cartistas a retirarem para as
provincias do norte.
O barão de Leiria, cartisto, consegue re-
voltar o batalhão de caçadores n.º 4, na
Ponte da Barca. A estes se reuniram alguns
voluntarios da rainha, que estavam em Braga
e uma pequena parte de infanteria n.º 9;
mas, o barão d'Almargem os persegue até
os encurralar na praça de Vallença, do Mi-
nho.
Emquanto estas desordens oecorriam em
Portugal, na Hespanha o general carlista Za-
riategui, obriga a abandonar precipitada-
mente as posições do Ebro, a divisão auxi-
“liar portugueza, commandada pelo então
visconde das Antas, que teve ds fugir até
Portugal, entrando por Traz-os-Montes.
Parte das tropas (uns 1:000 homens) do
Antas, toma o partido da côrte, e se reunem
às forças do barão de Leiria, e o resto—uns
2:000 homens, ficam ao serviço dos setem-
bristas, com o general que os trouxe da Hes- .
panha.
Em 48 de setembro (ainda de 1837) dá-se
260 RUI
a batalha de Ruivães (n'esta freguezia) e os
cartistas são derrotados,
No dia seguinte, termina a guerra civil,
pela convenção de Chaves, feita entre os ge-
neraes, Antas, Terceira e Saldanha. Os dois
ultimos, e outros cartistas mais compromet-
tidos, fogem para o estrangeiro.
RUIVÓS ou RUIVOZ — freguezia, Beira
Baixa, na comarca e concelho do Sabugal
(foi da mesma comarca, mas do extineto
concelho de Villar-Maior) 120 kilometros ao
S.E. de Lamego, 305 ao E. de Lisboa, 75 fo-
gos.
Em 4757, tinha 50 fogos.
Orago, Nossa Senhora das Neves, e S. João
Baptista.
Bispado de Pinhe (foi do bispado de La:
mego) e districto administrativo da Guarda.
O reitor da Nave do Sabugal, apresentava
o cura, que tinha 248000 réis e o pé d'al-
tar.
É no Riba-Côa, e foi das povoações do
bispado da Ciudad Rodrigo, que a rainha
Santa Isabel trouxe para Portugal em dote,
no anno de 1282.
É povoação antiquissima, já povoada pe-
los povos pré-celtas, o que evidentemente
provam cinco dolmens que existiam nas pro-
ximidades da capella de S. Paulo, d'esta fre
guezia, e que ainda em 1756 estavam em
sofírivel estado de conservação. (Vidé Sabu-
gal.)
A esta freguezia esteve annexa a de Valle
d'Eguas, no mesmo concelho.
Barão de Ruivoz
Em 28 de setembro de 1835, foi feito pri-
meiro (e até hoje unico) barão de Ruivoz,
Francisco Saraiva da Costa Refoyos, do con-
selho de sua magestade; commendador das
ordens de S. Bento; d'Aviz, e de Nossa Se-
nhora da Conceição, de Villa-Viçosa; caval-
leiro da da Torre Espada; marechal de cam-
po. Fui governador militar de Santarem, e
das armas do partido do Porto: general
commandante do exercito liberal, em 1828;
perfeito da provincia dos Açores (archipe-
jago dos Açores) e encarregado da auctori-
adgdeeral militar da mesma provincia; per-
RUI
feito da provincia do Minho, e deputado às
côrtes de 1834 e 1835.
Nasceu a 4 de outubro de 1779.
Era o sexto e ultimo filho de Pedro Saraiva
da Costa Pereira Refoyos, 10.º senhor do
do padroado da egreja de S. Thiago Maior,
de Villa Garcia (no concelho da Guarda) se-
nhor do morgado annexo de varios outros,
em Ruivoz, Sabugal, Cima-Cóa; dos de Vella,
e dos Pinheiros, em Castello-Branco.
E de sua mulher, D. Maria Antonia d'Al-
meida Amado e Menezes, filha de Isidoro de
Almeida Amado Sá e Menezes, senhor do
morgado do Terrenho, e do couto da Quinta
de Matta-Má, capitão-mór de Moreira, na
comarca de Trancoso; e de sua mulher, D.
Rosa Umbelina de Loureiro e Vasconcellos.
Irmãos do barão de Ruivoz
1.º—Mendo, do qual trato adiante.
2.—Joaquim, que foi desembargador da
casa da supplicação. Nasceu a 23 de outu-
bro de 4770, e morreu a 6 de agosto de
1833.
3.º—José, tenente do regimento de caval-
laria d'Almeida, que fallêceu em 1804.
h.º—D. Rita, moça do côro, du real mos-
teiro da Encarnação (de Lisboa) da ordem
de S. Bento d'Aviz. (As commendadeiras da
Encarnação.) Morreu a 49 de fevereiro de
1837.
5.º—Pedro, cavalleiro da ordem de Christo,
desembargador da casa da supplicação; é
que nasceu à 23 de agosto de 1777, e casou,
em 8 de setembro de 1832, com D. Gertru-
des Magna Garcez Freire, viuva, filha de Ma-
nuel Figueira Freire, e de D. Escolastica
Rosa Garcez, sobrinha e herdeira dé Manuel
Ferreira Garcez.
Esta senhora, ficando viuva d'este segundo
marido (que morreu em 28 de novembro de
1846) tornou a casar, em terceiras nupcias,
e falleceu a 29 de abril de 1855.
6.º— Francisco, o barão de Ruivoz.
Mendo, irmão primogenito do barão, foi
11.º senhor do padrordo do Villa Garcia, e
dos morgados annexos, e outros que pos-
suira seu pae. Era fidalgo da gasa real; ca-
RUI
valleiro da ordem de Christo; superinten-
dente das caudelarias da comarca da Guarda.
Nasceu em 4769, e morreu a 29 de agosto
de 1820. Casou com D. Luiza Alexandrina
de Mello Mascarenhas, açafata de D. Maria I.
Era filha de Antonio Mascarenhas de Mello
Figueiredo, senhor de um morgado em San-
tarem; fidalgo da casa real; estribeiro-me-
nor do infante D. Manuel; e tenente coronel
do regimento da primeira Armada-—e de
sua segunda mulher e sobrinha, D. Geno-
veva Francisca Maria Mascarenhas e Mello,
dona da camara da rainha D. Marianna Vi-
ctoria, mulher de D. José I.
Deixou seis filhos:
1.º—João, 42.º senhor do padroado da
egreja de Villa Garcia, etc. — cavalleiro da
ordem de Christo, coronel do regimento de
milicias da Guarda. Casou com D. Josepha
Ludovina Saraiva de Souza Coutinho, pri-
meira filha e herdeira de Bento de Souza
Coutinho, senhor do morgado de Ortigal,
no termo da Covilhan, fidalgo da casa reál,
cavalleiro da ordem de Christo—e de sua
mulher, D. Caetana Benedicta Saraiva Sam-
paio. D'este casamento houve só uma filha,
D. Maria Antonia, nascida a 8 de abril de
1811.
2.—Antonio, bacharel em leis, nascido a
24 de agosto de 1795.
3.º—Pedro, bacharel em leis, nascido a
23 de maio de 1798.
4.º—D. Maria Augusta, nascida a & de
julho de 1804. Casou a 5 ds maio de 1824,
com Antonio Camello Fortes de Pina, senhor
do morgado de S. Domingos, da villa de Al-
godres, fidalgo da casa real; do conselho de
sua magestade; commendador da ordem de
Christo ; lente cathedratico, jubilado, da uni-
versidade de Coimbra; membro do supremo
tribunal de justiça. Nasceu a 14 de março
de 1770. Era filho de Antonio Camello For-
tes, capitão-mór da villa d'Algodres, e ds D.
Josepha Maria de Pina Osorio.
5.º—D. Marianna do Carmo, nascida a 2
de janeiro de 1803.
6.º—D. Genoveva, nascida a 25 de julho
de 1805.
RUIVÓS ou RUIVOZ — freguezia, Minho,
no concelho da Ponte da Barca, comarca dos
VOLUME VII
RUN 261
Arcos de Valle de Vez, 24 kilometros ao O.
de Braga, 380 ao N. de Lisboa, 90 fogos. .
Em 41757, tinha 73 fogos.
Orago, Santa Eulalia.
Arcebispado de Braga, e districto admi-
nistrativo de Vianna.
A mitra apresentava 0 abbade, que tinha
2408000 réis.
É povoação muito antiga, pois já na era
de 1086 (1048 de Jesus Christo) o bispo de
Braga, D. Pedro, tinha aqui uma fazenda,
que nesse anno emprazou a Anagildo Fro-
marigues.
Chamava-se então Ruviólos ou Ruivólos 1
É n'esta freguezia, a antiga e nobre casa
de Real, onde viveram Gil de Cerqueira e
sua mulher, Margarida Martins Velho, pro-
genitores de Leonel d'Abreu Figueira, que
deixaram muitos descendentes, ligados com
familias muito nobres do Minho.
É terra fertil. Muito gado e caça.
RUNA-—freguezia, comarca, concelho e 7
kilometros ao S.E. de Torres- Vedras, 42 ki-
lometros ao N.E. de Lisboa, 200 fogos.
Eu 1757, tinha 116 fogos.
Orago, S. João Baptista.
Patriarchado e districto administrativo de
Lisboa.
O prior de S. Pedro, de Torres Vedras,
apresentava o cura, que tinha 1503000 réis.
Feira a 29 de setembro.
No 1.º de novembro de 1810, houve aqui
um pequeno combate, entre os alliados e o
exercito francez, commandado por Massena,
e logo a 14, este retira para Santarem, não
se atrevendo a atacar as famosas linhas de
Lisboa.
Em 4877, no alto do monte que está entre
a povoação de Runa e a villa da Alhandra,
se collocou, sob a direcção do distincto ge-
neral de brigada, o sr. Joaquim da Costa
Cascaes (o que fez tambem o monumento do
Bussaco, que um raio destruiu) um elegante
padrão, memorando a retirada dos france-
zes.
1 Julgo que já então tinha o actual nome,
que, na baixa latinidade, se escrevia Ruivó-
los.
17
262
RUN
Houve na Lusitania uma antiquissima ci-
dade chamada Runa.
Segundo uns, era nºesta freguezia, outros
porém, pretendem que era no sitio da actual
villa da Aljubarrôta. Vide Ourem.
Asylo e hospital dos invalidos
militares, de Runa
A princeza D. Maria Francisca Benedicta,
filha de D. José I, e irman de D. Maria 1,
casou com seu sobrinho, o principe do Bra-
sil, D. José, filho d'aquella rainha, fallecido
na flor da edade, em 1788, deixando uma
saudade indelevel, não só a sua esposa, e à
seus paes, mas até a toda a nação portugue
za, que fundava grandes esperanças no jo-
ven principe.
Sua esposa dedicou-se a obras de carida-
de, em favor dos pobres e desvalidos.
Vendo que em Portugal não havia um
unico estabelecimento para abrigo dos mili-
tares, que mutilados nas batalhas, ou enve-
lhecidos no serviço da patria, podessem ter-
minar seus dias, sem esmolarem ou morre-
rem na miseria, resolveu fundar um hospi-
tal e asylo para os invalidos do exercito.
A rainha sua irman, lhe ofiereceu para 0
novo estabelecimento, a quinta real da Luz,
onde actualmente está o collegio militar;
porem a princeza julgou o sitio acanhado,
e sabendo que junto a Runa tinham os fra-
des bernardos, de Alcobaça, uma proprie-
dade denominada quinta d' Alcobaça, 1 que
era muito vasta, obteve que elles lh'a ven-
dessem, em 44 de agosto de 1790, compran-
do tambem, pouco depois, varias proprieda-
des proximas, e a quinta de S. Miguel, na
freguezia de Enxára do Bispo, comarca é
concelho de Mafra, o que tudo custou uns
b0 contos de réis.
Principiaram as obras do asylo, no dia 18
de junho de 1792,2 com mais de 300 ope-
rarios, entre pedreiros e serventes.
1 Por esta razão, ainda o povo destes si-
tios dá ao asylo o nome de Alcobaça.
2 A nobilissima resolução da caridosa prin-
, foi confirmada por decreto de 25 de ju-
Do de 4802, e alvará de 27 do mesmo mez
€ anno.
RUN
Quando a familia real fugiu para o Bra-
sil (29 de novembro de 1807) já estava cons-
truida a maior parte do edificio, e, mesmo
do Brasil, mandou a santa fundadora, por
muitas vezes, grandes quantias para conti-
nuação das obras, além dos rendimentos
da sua casa, que todos eram nellas empre-
gados.
Quando a familia real regressou a este
reino, em 1824, estavam as obras quasi con-
cluidas, e tanta sollicitude empregou a prin-
ceza, que no dia do seu anniversario natali-
cio, 25 de julho de 18271 se inaugurou o
asylo, com 16 militares invalidos—um pri-
meiro tenente de artilheria, trez sargentos
e 12 cabos, anspeçadas, e soldados.
A fundadora presidiu à todas as ceremo-
nias da inauguração, com o maior prazer, €
com grande benevolencia e caridade, serviu
ella mesma os primeiros pratos aos asyla-
dos. O resto foi servido pelo seu mordomo-
mór, o marquez do Lavradio e pelos crea-
dos da casa real.
Gastou na construceção do edificio e ma-
gestosa capella, seus ornamentos e alfaias,
mais de 600 contos de réis.
Reservou parte do edificio para a sua ha-
bitação e o resto, para os invalidos, e para
os necessarios empregados, e quartel para
tropa.
Os rendimentos applicados pela fundado-
ra para o costeamento das despezas com os
invalidos e indispensaveis empregados, é
com os reparos do magestoso edificio, po-
diam dar asylo a mais de 120 militares ve-
lhos ou estropiados; porem o decreto que
extinguiu as commendas, certeou notavel-
mente as rendas do asylo, que consistiam
no seguinte :
A commenda de S. Thiago de Beduido,
(Estarreja) que a obteve em troca de 8 con-
tos de réis de tença, que a fundadora rece-
bia, pela folha da alfandega grande, de Lis-
boa, contrato confirmado pelo alvará de 19
de janeiro de 1826.
Uma apólice, com o vepcimento de 5 pox
cento, do capital de 26 contos de réis.
1 A fundadora havia nascido em 25 de
julho de 4746, e fazia nºesse Ru 81 annos
de edade.
RUN
Um titulo de divida publica, do capital de
11:9998960 réis.
Duas acções da companhia geral de agri-
cultura dos vinhos do Alto-Douro, no valor
de 8008000 réis.
As quintas de Alcobaça (Runa) Amora
(no concelho do Seixal) Enxára do Bispo,
e propriedades annexas, que então produ-
ziam um rendimento annual de 9008000
réis.
E varias dividas activas; das quaes, uma
grande parte se perdeu.
Actualmente o seu rendimento, anda por
9:0008000 réis, e a despeza por 8:000 8000
réis, porque apenas dá abrigo, sustento e
vestuario, a uns 50 asylados.
A fundadora, falleceu em 18 de agosto de
1829, com 83 annos de edade, declarando
seu universal herdeiro, o asylo de Runa.
O testamento foi confirmado pelo sr. D.
Miguel I, que fez passar a administração das
rendas, para um conselho administrativo, o
qual, e todo o estabelecimento, é superen-
tendido pelo ministerio da guerra, em cum-
primento da ultima vontade da doadora.
Dá entrada ao edificio, uma comprida rua,
no topo da qual se vê um largo aiardinado,
onde se levanta, com um kilometro de fren-
te, sobre 61 de fundo, a magestosa fabrica,
* que tem, ao todo, 400 casas recebendo luz
por 365 janellas.
A egreja, é de architectura romana, em
fórma de cruz, com o throno ao centro do
cruzeiro, e é construida de bello marmore
de varias côres, avultando o preto, extrahi-
do das pedreiras de Pêro Nêgro, que ficam
proximas à Sapataria, no concelho da Ar-
ruda, comarca de Villa Franca de Xira.
As quatro estatuas que defrontam com os
quatro angulos do throno, são de bellissimo
marmore de Carrára, assim como as do ves-
tibulo, aos lados da porta principal. A sua
execução artistica é de grande primor; e
bem assim o grupo da Gloria, tambem de
marmore, que corôa a cimalha da capella,
ao fundo.
Encerra ainda esta egreja outros objectos
artisticos de grande merecimento, como o
RUN 263
busto do pontifice Leão XII, de marmore de
Carrára; um quadro, a oleo, de S. Jerony-
mo ; ricas alfaias e magnificos paramentos.
A custodia, de prata dourada, cravejada de
uma infinidade de pedras preciosas, e de
mais de um metro de altura, é um objecto
de grande valor e gôsto artistico,
Todos os annos se celebra n'este asylo,
com grande esplendor, o anniversario da
sua inauguração, ao qual chamam festa da
princeza; assim como o anniversario do fal-
lecimento da santa fundadora.
A festa da inauguração principiou em
vida da princeza, e então, pelo meio dia, og
religiosos da communidade de S. Pedro de
Alcantara, de Lisboa, e os musicos da ca-
pella-real, celebraram uma missa solemne,
na capella do asylo, à qual assistiu a funda-
dora, a sua côrte, os asylados, e centenares
de fieis, da freguezia e arredores.
Na ultima solemnidade a que assistiu a
piedosa princeza, dirigindo-se aos asylados,
proferiu ella as celestiaes palavras, cujo
écco parece escutar-se ainda nas vastas abo=
badas do grandioso edificio :
Estimo ter podido concluir o asylo que
mandei construir para descançardes dos vos=
sos honrosos trabalhos : em recompensa, só
vos peço, a paz e o temor de Deus.
—
Ainda hoje é lembrada, e o será sempre,
esta virtuosissima princeza, que fallava com
a maior franqueza e benevolencia aos seus
asylados, tratando-os sempre por filhos.
Quando passeiava pelos arredores do asy-
lo, toda a gente ajoelhava com respeito e
affecto, serena e humilde, como diante de
uma santa missionaria do Omnipotente. Ellz
levantava-os sorrindo carinhosamente, bei-
java as creanças, e dirigia a todos meigas
palavras, que os enchiam de consolação.
No dia 24 de julho de 1877, inaugurou-se
em Buna um bonito theatro.
O sr. João Gualberto de Barros e Cunha,
actual deputado e que já foi ministro das
2064 SÁ
obras publicas, tem aqui uma bella casa é
bonita quinta.
Runa tambem soffreu muito com as inun-
dações de 1876-1877. No dia 6 de janeiro
d'este ultimo anno, o rio Sizandro, sahindo
do seu leito, alagou os campos das suas
margens, e a "cheia. tornou-se assustadora
n'esta freguezia, assim como nos logares do
Furadouro (ou Aforadouro) Ribaldeira, Ma-
xial, e outros.
RUPÍA ou ROPÍA — moeda do Grão-Mo-
gól, que tem curso forçado na India portu-
gueza. Antigamente, valia 400 réis, hoje
vale mil réis.
SA
RUVÍNA cu ROVÍNA — freguezia, Beira
Baixa, comarca e concelho do Sabugal, 120
kilometros ao S.E. de Lamego, 300 ao E. de
Lisboa, 50 fogos.
Em 1757, tinha 41 fogos.
Orago, Nossa Senhora do Rosario (foi pri-
meiramente o Espirito Santo.)
Bispado e districto administrativo da
Guarda.
O reitor de Nossa Senhora da Conceição
do Sabugal, apresentava o cura, que tinha
908000 réis e o pé d'altar.
É terra pouco fertil e pobre. Clima exces-
sivo. Cria bastante gado.
o
S. — Antigamente valia — 1.º, 7, e depois
70—com um til, valia 70:000.
SA-—portuguez antigo—sua—tambem se
escrevia ssa, € saa.
SA-—rio, Douro, na Terra da Feira. Nasce
de varios arroyos, no concelho da Feira, e
depois de atravessar diversas freguezias, to-
mando os nomes das povoações por onde
passa, desagúa na esquerda do Douro, em
Crestuma, depois de um curso de 20 Kkilo-
metros.
SA-—freguezia, Minho, comarca e conce-
lho dos Arcos de Valle de Vez, 35 kilome-
tros ao O. de Braga, 390 ao N. de Lisboa,
80 fogos.
Em 4757, tinha 65 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
O abbade de Santa Maria d'Alvóra, apre-
sentava 0 vigario, que tinha 608000 réis, e
o pé d'altar.
SÁ — freguezia, Minho, comarca e conce-
lho deMonção (foi da mesma comarca mas
do extincto concelho de Valladares) 65 kilo-
metros ao N.0. de Braga, 420 ao N. de Lis-
boa, 100 fogos.
Em 1757, tinha 94 fogos.
Orago, S. João Baptista.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
O arcipreste da collegiada de Vianna,
apresentava o vigario, que tinha 172000 réis
“de congrua é o pé d'altar.
Foi n'esta freguezia o solar dos Cãos, a
cuja familia pertencia Diogo Cão da Nóbre-
ga descobridor de Angola e Congo, em 1485,
e um dos creados do conde D. Henríque (o
de Sagres.) Diogo Cão, levantou um padrão
na foz do rio Zaire e outro no Cabo do Pa-
drão, alem do reino do Congo.
Foi seu filho, Pedro Cão da Nóbrega, que
foi alferes (porta-bandeira) de D. Francisco
d'Almeida, primeiro vice-rei da India, em
1505.
Suppõe-se que esta familia se uniu à dos
Noronhas, marquezes de Villa-Real.
(Vide no artigo Sabrosa, a biographia do
13.º homem notavel, Affonso Botelho de Sam-
paio e Souza.)
As propriedades que a familia Cão teve
n'esta freguezia, foram divididas por diver-
sos lavradores.
SA-aldeia, Minho, termo de Guimarães;
SÁ
e appellido nobre em Portugal, cuja familia
procede de Payo Rodrigues de Sá, que vi-
via pelos annos de 1300 (reinando D. Diniz)
no concelho de Lafões, hoje comarca de Vi-
sella, na Beira Alta.
Foi seu filho, D. João Affonso de Sá, vas-
sallo de D. Affonso IV e de D. Pedro I.
O verdadeiro solar dos Sás, era n'esta al-
deia, à qual deram o nome, ou della toma-
ram o appellído.
Muitas familias nobres, da provincia do
Minho, e da cidade de Coimbra, que teem o
appelhdo Sá, descendem de D. João Affonso
de Sá.
Os Sás, trazem por armas— escudo xadre-
zado de azul e prata, de 6 peças em faxa é
7 em palla; escudo de prata, aberto, e por
timbre, um búfalo negro, xadreado de prata
e azul, armado do mesmo, com uma argola
de ouro nas ventas.
SA-freguezia, Minho, comarca e conce-
lho de Ponte de Lima, 30 kilometros ao O.
de Braga, 380 ao N. de Lisboa, 95 fogos.
Em 41757, tinha 126 fogos.
Orago, Santa Maria (Nossa Senhora da
Annunciação.)
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
2508000 réis—isto é—tinha metade dos di-
zimos da freguezia, e a outra metade con-
stituia um benefício simples, dado tambem
pela mitra.
Esta egreja, com metade da de Afife, foi
dada por D. Affonso III, à Sé de Tuy, pelos
annos de 1260, em troca da da Ariosa, junto
a Vianna.
É terra fertil,
Gado, caça, e peixe do rio Lima e do
mar.
SA-—aldeia, Minho, freguezia de Covide,
que foi da extincta comarca de Pico de Re-
galados. É hoje no concelho de Terras de
Bouro, comarca de Villa-Verde. (Vide 3.º
vol., pag. 431, col 4.º)
Quando tratei da freguezia de Covide,
disse que no logar da Egreja estava um cru-
seiro, assente sobre um padrão romano, cuja
inscripção não podia lêr-se, por estar en-
terrada.
SÁ 265
D. Jeronymo Contador d'Argote (Memo-
rias do arcebispado de Braga) diz que este pa-
drão (marco milliar) se achou enterrado em
uma horta, d'esta aldeia de Sá, e que a sua
inscripção é a seguinte :
IMP. CAE...
C. MES. QUINTO
TRAIANO DECIO
INVICTO PIO FEL. AVG.
PONT. MAX. T. P.
PROCOS INI
CÓS. IL. P. P.
A BRAC. MIL.
P. XXV.
(Ao imperador, Cesar Cayo Messio, quinto
Trajano, Decio, Invicto, Pio, Feliz, Augusto,
Pontifice Maximo, Tribuno do povo. Pro-
consul a 4.2 vez, Consul 2.º, Pae da Patria.
D'aqui a Braga 25 mil passos.)
No tempo dos romanos, existiu aqui uma
grande povoação, que alguns pretendem ser
a cidade de Calcedonia (vidé Covide) e da
qual tem apparecido muitos vestígios.
Passava por estes sitios a famosa via mi-
litar dos romanos, chamada da Geira (vide
esta palavra) e por varias vezes se teem
aqui achado marcos milliares romanos.
Em uma pequena volta que faz a via mi»
litar romana, no sitio onde se dividem os
termos do logar de Covide e do Campo, ha-
via um outro marco milliar, hoje tambem
transformado em pedestal de um cruseiro.
Tinha esta inscripção :
IMP. CAES.
C. MISSO. TRA.
DACO, NUTO.
PIO. FEL. AVG.
PONT. MAX. TR. P.
PC. III. C 1.
P. P. À BRAC.
M. P.
XXVII
(Esta columna foi dedicada ao imperador
Cesar Cayo Messio Trajano Decio, Invicto,
Pio, Feliz, Augusto, Pontifice Maximo, Tri-
buno do Povo, Proconsul a 4.2 vez, consul a
2.º, Pae da Patria. D'aqui a Braga, são
27:000 passos.)
Do sitio onde havia grande numero de
marcos milliares, ao qual, porisso, se ficou
SA
chamando Leira dos Padrões, foram arran-
cados dois, que foram para a egreja de 8.
João, e na reedificação d'ella, os quadraram,
tirando-lhe a sua forma primittiva (redon-
da) desapparecendo as inseripções.
Em 1736, andando uns trabalhadores ro-
cando matto, junto á referida via militar da
Geira, acharam o resto de um marco mil-
ar, com o final da respectiva inscripção.
A BRACARA AVG.
XXVIII.
Proximo a esta pedra, se achou tambem
então, outro marco miliiar de 37,25 de com-
prido, e 2,265 de circumferencia com esta
inscripção :
D. N.
eco. Cr.. 1.0.0. ARI
BIM..... AT.
SEMPER AVG.
MAXIMO
MAGNENTI. .
TERRA. MAR.
VICTORI. P. RO. V.
DEDICAVIT
Q. MORI.
(Quinto Mario (?) dedicou esta memoria,
a nosso senhor... sempre Augusto Maximo
Magnencio, vencedor por mar e terra, do
povo romano.)
Ha ainda por estes sitios outras muitas
columnas que foram marcos milliares, com
as inscripções mais ou menos legiveis. Não
as menciono, para não enfadar o leitor, e
tambem porque bastantes já ficaram men-
cionadas nas freguezias onde existem, ou fo-
ram achadas.
SA-—aldeia, Douro, freguezia de Esgueira,
concelho, comarca, districto administrativo,
bispado e proximo (ao N.) d'Aveiro.
Fica esta povoação entre a villa d'Es-
gueira, que lhe fica ao N., e a cidade de
Aveiro, que lhe fica ao S.
Ha aqui o convento de Sá, de freiras ran- |
ciscanas, fundado em 1644. (Vidé Aveiro.)
Suppõe-se que o primeiro nome desta
povoação, foi Sala, e que houve aqui um
antiquissimo mosteiro duplex, da ordem de
S. Bento; porque, em um inventario que exis-
SA
tiu no mosteiro de Pedroso (de Villa Nova
de Gaia) feito em 1050, se diz (traducção) —
Bens que adquiriu D. Gonçalo e sua mulher,
D. Flamula.—O mosteiro Sála, eo de S. Ju-
lião (junto à foz do Mondego) e metade do
Gedarim (Cedrim) e metade da egreja de
Recardães, etc.
Ha tambem no logar de Sá, a antiquissima
capella de Nossa Senhora da Alegria, cuja
data da fundação e o nome do fundador se
ignora. É um templo bonito, e amplo, com
altar-mór e dois lateraes. Tem na frente,
um bom alpendre.
A sua festa, é a 15 de agosto, e muito con-
corrida.
Tambem se faz, nesta capella, todos os
annos, “uma boa festa, ao martyr S. Sebas-
tião, à qual concorrem muitas familias de
Aveiro e de outras localidades. Julga-se que
esta ermida, é o templo mais antigo, não só
da cidade, como de outras terras em redor.
No largo, em frente da capella, está um
cruseiro, construido pelos irmãos da confra-
ria da Senhora, em 1556.
À cruz sustenta-se sobre quatro columnas
de marmore, e é coberta por uma cúpula,
de fórma pyramidal.
Como o sitio onde está fundada a capella
é alguma cousa elevado, d'alli se vê o Oceano,
e os navios que sulcam estes mares.
Os pescadores d'estes sitios, teem muita
devoção com Nossa Senhora da Alegria, e
no seculo 16.º se obrigaram por voto, a se-
rem seus feudatarios perpetuos, dando-lhe a
quarta parte das suas pescarias, que era ap-
plicada para a festa, e para obras e alfaias
da capella.
Os pescadores d'Aveiro e Esgueira, sus-
tentavam, alem das despezas da ermida, um
hospital para os seus doentes, na rua de Vil-
la-Nova; mas este já não existe.
Segundo o Santuario Marianno (4.º vol.,
pag. 424) esta povoação constituia ainda em
17142, uma freguezia independente, tendo por
padroeira Santa Maria de Sá, e esta egreja,
com o seu padroado, deram os seus proprie-
tarios, ao rei D. Diniz. Era egreja muito an-
tiga.
SÁ
SA (Santa Maria de)—antiga freguezia,
Beira Baixa, no então julgado—hoje comarca
e concelho de Céa. Esta freguezia ainda
existia em 1700, e não sei quando foi sup-
primida.
Sá, foi villa e couto. D. Affonso III lhe
deu foral, em Lamego, a 6 de agosto de
1254. (L.º 1.º de Doações de D. Affonso III,
fl. 5, col. 2.º)
Não teve foral novo.
D. Soeiro Raymundo, rico-homem, e alfe-
res-mór de D. Affonso II, foi o fundador da
actual villa de Mello, nas faldas da Serra da
Estrella (Beira Baixa) em 4204 (vidé 4.0
vol., pag. 173, col. 1.2) e foi tambem o fun-
dador da ermida de Nossa Senhora do Couto,
que, em 1339, D. Mem Soares d'Alvim, seu
descendente, demoliu, fazendo em seu logar
a egreja do mosteiro de freiras agostinhas,
junto à villa de Mello.
De D. Soeiro Raymundo, foi neto, D. Mem
Soares de Mello (o primeiro que tomou o
appellido de Mello) e que casou com D. The-
reza Affonso Gata, filha do rico-homem, D.
Affonso Pires Gato.
D. Gonçalo de Sá, senhor e primeiro po-
voador da villa do seu appellido, fallecendo
solteiro e sem filhos, deixou a casa e solar
de Sá, a sua sobrinha, a referida D. Thereza
Affonso Gata.
Foi neto da Gata e de D. Mem Soares de
Mello, D. Martim Affonso de Mello, rico-ho-
mem de Portugal, e senhor de Céa, Gouveia,
Linhares, e Celorico, tudo na Beira Baixa, e
nas proximidades da Serra da Estrella.
Foi este fidalgo tambem senhor da villa
de Mello, que seu avô havia fundado, junto
à mesma serra da Estrella, e foi no seu tempo
que Mello se elevou a cathegoria de villa, e
teve brazão d'armas, tudo por ordem de D.
Affonso III.
De D. Mem Soares e da Gata, procediam
os condes de Olivença, de Assumar, e de 8.
Lourenço (estes ultimos, depois, marquezes
de Sabugosa) e procedem os condes de Ten-
tugal e marquezes de Ferreira, que são hoje
os duques do Cadaval (vidé Tentugal) e ou-
tras muitas familias nobilissimas d'este rei-
no; porém, o ramo primogenito é hoje re-
SÁ 267
presentado pelos condes de Mello, senhores
desta villa, desde 12 d'abril de 13731.
O 4.º conde de Mello foi Luiz Francisco
Soares de Mello da Silva Breyner Souza Ta-
vares de Moura, par do reino, em 1835, of-
ficial da ordem da Torre e Espada, caval-
leiro das de Christo e Conceição, e general
de brigada. Foi feito conde, em 24 de ja-
neiro de 1835. Falleceu em 12 de novembro
de 1865. Tinha nascido a 23 de setembro de
1801.
Em 20 d'abril de 1866, foi feita condessa
de Mello (segunda) a sr.: D. Thereza Fran-
cisca de Mello da Silva Breyner de Souza
Tavares de Moura, neta do primeiro conde.
O primeiro conde de Mello, succedeu na
casa a sua mãe, em 20 de março de 1821.
Casou, em 18 de favereiro de 1835, com D.
Frederica Xavier Botelho (nascida a 28 de
julho de 1812) filha de Sebastião Xavier Bo-
telho e de D. Thereza Maria Antonia Alva-
res Fernandes de Carvalho.
Foi filho unico d'este matrimonio, Pedro
Francisco Soares de Mello, etce., nascido a
25 de agosto de 1836, e que morreu em vida
de seu, pae. É sua filha, a actual condessa.
O primeiro conde de Mello, pertenceu
sempre ao partido liberal, e distinguiu-se
na defeza das linhas do Porto, em 1832 e
1833.
Durante a guerra de 1846 e 1847, tomou
o partido da causa popular, à qual fez bas-
tantes serviços.
Era filho de D. Anna Rufina Soares de
Mello Souza Tavares e Moura, 18.º senhora
de Mello, filha unica de Estevam Soares de
Mello, e de D. Thomazia Rita de Souza Le-
mos Alvim e Menezes, e que casou /(D. Anna
Rufina) em 4 de outubro de 1793, com Pe-
1 O senhorio de Mello, data de 1204 (anno
da fundação e povoação da villa) porem o
alvará mais antigo que se encontra na Torre
do Tombo, com respeito a este senhorio, foi
passado por D. Fernando I, em 42 de abril
de 1373,a tavor de D. Mem Soares de Mello,
que, como os seus ascendentes, desde 1204,
se intitulavam senhores de Mello.
O palacio que os condes de Mello teem em
Lisboa, é à Cova da Moura.
268 SÁ
dro de Mello Breyner, senhor da Trófa, con-.
selheiro de estado, commendador da ordem
de Christo, enviado extraordinario e minis-
tro plenipotenciario a Roma e Pariz.
Quando Junot se lembrou de crear em Lis-
boa umaregencia em nome de Buonaparte (1.º
de fevereiro de 1808) escolheu para ella quatro
portuguezes (!!!)—conDE DA EGA—D. FRAN-
cisco RAPHAEL DE CASTRO—CONDE LE SAM-
Paro—e PeprO DE MELLO BREYNER. (Ponho
os nomes d'estes homens em versaletes, ad
perpetuam rei memoriam.) Junot fez-se pre-
sidente d'esta regencia, que logo no mesmo
dia, 1.º de fevereiro, gostosamente tomaram
posse dos seus logares, e o seu primeiro
acto, foi um decreto, ainda no tal dia 1.º de
fevereiro, impondo a Portugal a contribui-
ção de CEM MILHÕES DE FRANCOS, (!) que vem
«a ser 46 milhões de crusados, calculando o
franco a 180 réis. (Um franco, são 20 sous,
ou 160 réis, mas, por causa do cambio, pa-
ga-ss cá por 180.)
«Dizei-lhe que tambem dos portuguezes,
enc roca cera rn o sa rosas. coco o co vs.)
Foi ministro d'estado dos negocios eccle-
siasticos e de justiça, em 1827 (durante a
Tegencia da sr.º infanta D. Isabel Maria.)
Morreu na torre de S. Julião da Barra, de
Lisboa, a 29 de dezembro de 1830. Foi 6.º
filho de Francisco de Mello e de D. Isabel
de Menezes Breyner, condessa de Ficalho.
Para as armas dos Mellos, vidé Guimarães,
no logar competente.?
SÁ aldeia, Douro, na freguezia de Santa
Eulalia, comarca, concelho e 3 Kilometros
ao O. d'Arouca, bispado de Lamego, distri-
cto administrativo d'Aveiro.
É povoação antiquissima e foi villa : o seu
primeiro nome foi Sala. Em 6 de abril de
! Não sei que caminho levou semelhante
villa de Sá! O sr. doutor, Pedro Augusto
Ferreira, illustrado abbade de Miragaia, no
Porto, ao qual tanto deve esta obra, esere-
veu para Céa, para Gouveia e para Coimbra
(cartorio episcopal) a amigos seus, e ne-
nhum lhe soube dar noticias da villa de Sá,
no termo de Gêa. Ou deixou de existir, ou
mudou de nome; entretanto, custa a crer,
como, apenas no espaço de 178 annos, se
SAB
1129, fez D. Affonso Henriques doação a D.
Monio, das villas de Sála (esta) e Saéla (hoje
a aldeia de Cella, proxima e ao O. d'esta, e
da freguezia de Varzea, do mesmo concelho)
no valle de Arouca.
Ha mais em Portugal varias povoações
com o nome de Sá, mas—que me conste—
nada teem de notavel, que mereça mencio-
nar-se.
SAÁ — portuguez antigo — som, VOZ, €s-
trondo, etc.—Chamados a capitulo per saã
de campaã tanjuda. (Doc. da Torre do Tom-
bo, de 1350.)
SAAR—portuguez antigo—curar, sarar.
SABACHEIRA — freguezia, Extremadura
comarca e concelho de Thomar (foi da mesma
comarca, mas do concelho, extincto, d'Ou-
rem) 12 kilometros de Thomar, 135 ao N.
de Lisboa, 250 fogos.
Em 1757, tinha 220 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Conceição.
É na prelazia de Thomar, actualmente an-
nexa ao patriarchado de Lisboa, districto
administrativo de Santarem.
A meza da consciencia e ordens, apresen-
tava O vigario, que tinha 1008000 réis e o
pé d'altar.
Foi commenda de Christo.
É terra fertil, e produz trigo, centeio, mi-
lho e feijões, duas vezes no anno.
SABADÊLHE ou SEBADÊLHA-— freguezia,
Beira Baixa, comarca e concelho de Villa
Nova de Foz-Côa (foi da comarca de S. João
da Pesqueira, e do extincto concelho de
Freixo de Numão) 60 kilometros de Lame-
go, 360 ao N. de Lisboa, 140 fogos.
Em 1757, tinha 105 fogos.
Orago, S. Lourenço.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo da Guarda.
perdesse a memoria da existencia d'esta po-
voação, ou da sua chrisma,
Estou convencido que é a actual fregue-
zia de Santa Marinha, povoação antiquissi-
ma, a 4 kilometros de Céa (e que tambem
foi villa) e já fica descripta no 5.º vol., e é a
2.º Santa Marinha, da col. 1.º da pag. 74. —
Podia muito bem ser que por erro de cópia,
mudassem Marinha em Maria. Mas, Santa
Marinha de Sá, é que já se não chama.
|
SAB
O povo apresentava o vigario, collado,
que tinha 802000 réis.
Dá-se a esta freguezia a denominação de
Sabadélha do Freixo de Numão,
É situada em planicie, muito fertil e ale-
gre.
Ha aqui uma boa feira, no dia do pa-
droeiro da freguezia (10 de agosto.)
O Portugal Sacro e Profano, que tem o
costume de diminuir muito os rendimentos
dos parochos, diz que o vigario tinha 808000
réis; porem a verdade é — que a Universi-
dade de Coimbra lhe pagava 808000 réis de
congrua, e que os outros rendimentos pa-
rochiaes, andavam annualmente por 1704000
réis—total, 2502000 réis.
Estando a torre dos sinos muito arruina-
da, cahiu com o terremoto de 1755, sobre a
frontaria da egreja, demolindo grande parte
d'ella, tendo de ser levado o Santissimo Sa-
cramento para a capella de Santo Antonio,
em quanto duraram os concertos da egreja.
Era então parocho, Miguel Jeronymo, ir-
mão do desembargador Josê Antonio Donas
Boto Pinto, e ambos muito zelozos pela con-
servação e aceio do templo, e como elle não
estava em boas condições de segurança, sol-
licitaram da universidade (que recebia à
terça dos dizimos da freguezia) a reconstruc-
ção de toda a egreja; mas, como a universi-
dade só era obrigada á conservação da ca-
pella-mór e sachristia, só pagou a despeza
da reedificação destas duas obras. O corpo
da egreja ainda até hoje se não reconstruiu;
pelo que teve de se fechar o arco cruzeiro,
e benzida a capella-mór, serve de egreja pa-
rochial.
É tradição que esta egreja foi construida
em substituição da de S. Pedro, extra-muros
de Numão, e que os dizimos dos novaes, e
só, como pensão, se deviam à universidade,
dos fructos das terras já antes rôtas e fabri-
cadas—os dizimos—isto é—a terça da fre-
guezia, na qual as outras terças eram do ca-
bido e chantre de Lamego.
Ha n'esta freguezia as capellas de— Nossa
Senhora da Piedade, com seu alpendre—s. Se-
bastião—e Santo Antonio. Esta ultima per-
SAB 269
tence aos herdeiros do referido parocho, Mi-
guel Jeronymo, e do desembargador seu ir-
mão.
Ha n'esta freguezia grande abundancia de
azeite, vinho, pão, melões excellentes, muita
fructa, gado e caça.
SABADÊLHE ou SEBADÊLHE —treguezia,
Beira Baixa, comarca e concelho de Tran-
coso, 54 kilometros de Lamego, 380 ao N.
Lisboa, 110 fogos.
Em 4757, tinha 65 fogos.
Orago, Santa Margarida. (o Portugal Sa-
cro e Profano, diz que é Santa Maria Ma-
gdalena, e, com effeito, era o antigo orago.)
Bispado de Lamego, districto adminis-
trativo da Guarda.
Para distinguir esta freguezia da antece-
dente, se lhe dá vulgarmente o nome de Se-
badêlhe da Serra.
O commendador de Cernacelhe, apresen-
tava o cura, que tinha 403000 réis, eo pé
d'altar.
Era commenda de Malta, e tinha gran-
des privilegios, como: todas as terras que
pertenciam a esta ordem. .
É povoação muito antiga, e D. Affonso II
lhe deu foral, no Guardão (concelho de Ton-
della) em fevereiro de 1220.
Não tem foral novo.
É terra fertil em cereaes e castanhas.
Ha n'esta freguezia as capellas publicas
de S. Sebastião e Santo Antonio, e uma par-
ticular, no logar da Cunha.
SABADIM—freguezia, Minho, concelho e
comarca dos Arcos de Valle de Vez, 35 ki-
lometros ao O.N.0. de Braga, 390 ao N. de
Lisboa, 225 fogos.
Em 41757, tinha 215 fogos.
Orago, o Salvador.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
Os viscondes de Villa Nova da Cerveira
(marquezes de Ponte do Lima) apresenta-
vam, in solidum, o abbade, que tinha 6008
réis de rendimento.
É povoação muito antiga, da qual se ignora
O primeiro nome.
O que tem, lhe foi posto pelos árabes, no
seculo 8.º, e se conserva com pequena cor-
rupção.
270 SAB
Sabe-Eddim é nome proprio de homem
(árabe) que significa—leão da fé, ou da re-
ligião. É composto de sábe (o leão) do ar-.
tigo al, e de din, religião.
Houve aqui um mosteiro de templarios,
que depois passou para os benedictinos. No
seculo 45.º passou a commendatarios, que
foram os Limas, viscondes de Villa Nova da
Cerveira.
Hoje não ha vestígios deste mosteiro, e
apenas consta por tradição que a egreja ma-
triz é a que foi do convento, e que a resi-
dencia parochial é parte delle.
O arcebispo de Braga, pretendeu o pa-
droado da egreja, e houve demanda, que os
viscondes venceram.
Os abbades de Sabadim, apresentavam os
curas da Portella e de Padroso; depois, o
direito da apresentação da Portella passou
para a mitra, e o de Padroso para os ditos
viscondes.
Foi antigamente senhor desta freguezia,
D. Nuno Sella, natural de Villa-Nova da
Muhia, que era tambem padroeiro de outras
egrejas. Era ainda senhor da casa solar
de Giella, que havia fundado um D. abbade
benedictino d'este mosteiro, o qual fandou
tambem a capella de Nossa Senhora da Con-
ceição, na villa dos Arcos de Valle de Vez,
a qual depois passou para os Caldas, e por
fim, para os Pereiras Lobatos.
SABARIZ — freguezia, Minho, comarca e
concelho de Villa-Verde (extincta comarca
e concelho de Pico de Regalados) 42 kilo-
metros ao N. de Braga, 372 ao N. de Lisboa,
80 fogos.
Em 4757, tinha 39 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga. ,
A mitra apresentava o abbade, collado, que
tinha 703000 réis e o pé d'altar.
Foi villa e couto extinctos, cujo senhorio
teve Pedro Fernandes de Cambra, e lhe veio
por sua mulher, D. Maria Ourigues da Nó-
brega, filha de D. Ourigo (ou Eurico) da Nó-
brega, o Velho.
Seus descendentes trocaram o senhorio
d'este couto, por uma quinta e casaes junto
a Braga, com os frades de Rendufe.
SAB
Os abbades de Rendufe, senhores deste
couto, eram os seus ouvidores, e a elle vi-
nham em correição com um escrivão da co-
marca de Pico de Regalados.
Os dizimos d'esta freguezia, eram — me-
tade para os arcebispos e a outra metade
para os abbades de S. Vicente do Bico.
Houve n'esta freguezia um antiquissimo
castello, com sua torre, do qual foi senhor,
Martim Guimarães, e passou o senhorio a
sua filha D. Ignez Guimarães, mulher de Pero
d' Araujo ; e d'elles procedem os Pereiras, os
Lagos, e os Araujos, de Braga.
É povoação antiquissima, e aqui teve uma
herdade, Froila Cresconis, e a doou ao bispo
D. Pedro, e à Sé de Braga, em 1078. Em
1099, a mesma Sé, deu, por emprazamento,
a villa de Sabariz, a Payo Cresconis (filho
de Froila) e a sua mulher D. Flamula.
Ha em Portugal varias aldeias com o
nome de Sabariz, mas nenhuma tem cousa
notavel.
SABOIA —freguezia, Alemtejo, comarca é
concelho d'Odemira (foi do mesmo concelho,
mas da comarca d'Ourique) 130 kilometros
da cidade d'Evora, 180 ao S.E. de Lisboa,
450 fogos.
Em 1757, tinha 256 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
Bispado e distrieto administrativo de Beja.
A mitra apresentava o cura, que tinha 240
alqueires de trigo.
É terra muito fertil.
SABOR -—rio, Traz-os-Montes. —Nasce na
Galliza, passa perto de Bragança, e desagua
na direita do Douro, na foz do Sabôr, 8 ki-
lometros ao S.0. de Moncorvo, depois de um
curso de 130 kilometros.
Ao fundo do Valle de Villariça, do lado
do N., se ergue a serra de Bornes, antiga-
mente chamada Monte-Mel, que está 1:202
metros acima do nivel do mar. (Esta alti-
tude é tomada do ponto onde existe uma
pyramide geodesica.)
Em uma das gargantas d'este monte, junto |
á aldeia da Burga, nasce a ribeira da Villa- |
riça, que atravessa, serpenteando, todo o
SAB
formoso e feracissimo Valle de Villariça, en-
trando no rio Sabôr, proximo da sua foz.
Vidé Villariça.
SABROSA—Vidé Trápa (Santa Cruz da).
SABROSA —villa, Traz-os-Montes, cabeça
do concelho do seu nome, comarca de Villa- |
Real (foi do mesmo concelho, mas da co-
marca d'Alijó) 90 kilometros ao E.N.E. de
Braga, 360 ao N. de Lisboa, 320 fogos.
Em 1757, tinha 176 fogos.
Orago, o Salvador.
Arcebispado de Braga, distrieto adminis-
trativo de Villa-Real.
O reitor de Santa Maria de Paços (fregue -
zia distante 2 kilometros) apresentava o |
vigario, que tinha 808000 réis e o pé de al-
tar e permicias.
Este concelho foi creado por decreto de
6 de novembro de 1836.
Em 314 de dezembro de 1853, foi suppri-
mido o antigo concelho de Provezende (6 ki-
lometros ao S. de Sabrosa) e annexado a
este. (O concelho de Provezende abrangia
tambem as freguezias que constituiram an-
tigamente o supprimido concelho de Gouvães
do Douro.)
Por decreto de 24 de outubro de 1855,
foram mais encorporadas no concelho de Sa-
brosa, as freguezias de S. Lourenço de Riba-
Penhão, e a de Parada de Riba-Penhão, que
até então haviam pertencido ao extincto
concelho de Villar de Maçada, na comarca
d'Alijó. (Mas, em 4861, perdeu a pequena,
mas importantissima povoação do Penhão,
que, por estar na outra margem do rio d'este
nome (a margem esquerda) foi annexada ao
concelho d'Alijó, que fica d'aquelle lado.
Actualmente, a aldeia de Pe-
nhão é o punto commercial
mais importante de Traz-os-
Montes, depois da Régua (ape-
zar de ter, por ora, menos de
h0 fogos) por ser a estação da
via ferrea do Douro mais cen-
tral da outr'ora riquisstma re-
gião vinhateira do Alto-Douro.
Em 1876, foi supprimido o julgado de Sa-
brosa, mas ficou o concelho.
Actualmente, é este concelho composto de
15 freguezias, todas no arcebispado de Braga
|
SAB 2714
— são — Anta, Celleiroz, Covas do Douro,
Gouvães do Douro, Gouvinhas, Parada de
Penhão, Paradella de Guiães, Paços, Prove-
zende, Riba-Penhão (S. Lourenço) Sabrosa,
S. Christovam, Souto Maior, Torre do Pe-
nhão, e Villarinho de S. Romão—todas com
| 3:500 fogos.
Sabrosa está situada em um degráu que
alli fórma a serra da Azinheira, e a meia al-
tura d'esta montanha, junto ás ábas de um
| outeiro escalvado e esteril, de rocha grani-
tica; porém, o terreno em que assenta a
villa é de formação schistosa, pertencente ao
periodo siluriano.
O seu clima é temperado, e as aguas são
aqui excellentes.
Esta freguezia, é abundante em saborosas
frutas, do que alguns sonhadores de etymo-
logias pretendem derivar o nome da povoa-
ção; e isto deu causa ás engraçadas armas
que modernamente lhe foram concedidas.
Nunca teve foral, antigo nem moderno.
A egreja parochial, é um bom templo,
de uma só nave, e tem as irmandades do
Coração de Jesus, com estatutos desde 20 de
agosto de 1773, ea de Nossa Senhora do Ro-
sario, com estatutos approvados em 17 de
julho de 1795. Esta tem um bom rendi-
mento.
A egreja matriz primittiva, era pequena e
muito antiga: foi demolida no seculo pas-
sado e construidá a actual. Havia n'aquella
um altar (capella) que pertencia ao vinculo
do famnso navegádor, Fernando de Maga-
lhães. Tinha um legado pio, destinado para
soccorrer os pobres mais necessitados da
freguezia. Ainda existe este legado, no novo
altar do Coração de Jesus, que foi do refe-
rido vinculo..
Ainda que, segundo a tradição, esta villa
seja muito antiga, nenhum monumento aqui
existe que nos prove uma remota antigui-
dade. Os edificios mais antigos, remontam,
quando muito, aos principios do 16.º seculo.
Consta que os primeiros habitadores de
Sabrosa, vieram da pequena aldeia da San- ,
cha, situada no fundo da montanha, e perto
do rio Penhão; mas não se sabe em que
212 SAB
época teve logar esta transferencia, se acaso
existiu.
É certo que no fundo da precipitada la-
deira da serra, em cuja encosta está a villa,
existe a pequena aldeia da Sancha, e so-
branceiro a ella, estava o antiquissimo cas-
tello da Sancha, totalmente fóra da vista da
villa actual, e na aresta oriental da serra do
Criveiro, nome pomposo que se dá a um ou-
teiro granitico, esteril e alcantilado, ao lon-
go de cuja base se estende a deliciosa veiga
de Sabrosa, quasi toda occupada por esta
povoação.
O castello era pegueno, e foi construido
sobre uma saliencia do môrro do Criveiro.
Pelos dois lados mais accessiveis, tinha uma
muralha de granito, grosseiramente traba-
lhado, sem cimento algum, e por fóra d'ella,
O respectivo fosso.
Pela parte de baixo, tinha duas ordens de
muralhas, sem fossos.
Ainda no principio d'este seculo, tinham
as paredes do castello, 2, 3, e algumas 4 me-
tros de altura, e no centro, os restos de uma
pequena torre circular, tendo ainda em par-
te 2,720 d'altura, Tinha 5 metros de diame-
tro. Parece mais uma atalaya dos antigos lu-
sitanos, ou dos romanos, do que obra dos
mouros.
Dizem alguns velhos desta terra, que, so-
bre a pequena e completamente destruida
parte do castello, havia uma inscripção em
caracteres para elles desconhecidos; e em
letras romanas, a palavra PARALIO, segui-
da de outras ilegiveis. Com efleito, os lati-
nos davam o nome de paralios, aos povos que
habitavam nas margens dos rios, e é prova-
vel que a ultima letra (o S) estivesse apa-
gada, e que a palavra fosse paralios.
Paralio, que se declina pa-
ralii, pareliorum no singular,
significa certa especie de pa-
poula, flôr.
A camara de Sabrosa, quando pediu à
sr D. Maria II, que concedesse brazão d'ar-
mas ao concelho, foi buscar a origem do
seu nome, adjectivo saborosus (que aliás não
é latino) e, com effeito, obteve para a terra
“ umas armas allusivas a esta exquisita deri-
vação.
SAB
Parece mais verosimil que Sabrosa venha
do adjectivo latino sabulosus, que significa-
va areiento ou saibroso—a que os latinos
davam o nome de sabulum, ou terra sabu-
losa (a mudança de L em R, é muito vulgar
nas nossas provincias do norte) e, na ver-
dade, este territorio é saibrento, e de areias
grossas. |
Tornemos ao castello.
Esta pequena fortaleza, é de fórma quasi
triangular, tendo em um dos angulos, no seu
ponto mais elevado, e era no vértice d'este
angulo a porta, cuja entrada se acha obstrui-
da; e a acanhada embocadura de uma cis-=
terna, que descia, por degraus, o môrro da
fortaleza.
Esta cisterna, poço, ou galeria, é entre a
muralha e o fosso, de maneira que em tempo
de guerra, era vedada esta serventia, aos
defensores do castello. Quando a entrada
d'este poço estava menos entupida, alguns
homens corajosos desceram até bastante pro-
fundidade, mas não conseguiram chegar ao
fim, porque a accumulação dos gazes, lhes
abafava a respiração, e apagava as luzes.
É tradição que no fundo do poço ha uma
galeria, que communicava esta furtaleza com
o fronteiro casteilo de Cheires, o que não é
facil acreditar, porque, de uma a outra for-
taleza, medeiam dois kilometros, e o solo é
todo constituido de rocha granitica, tendo
de descer a uma profundidade de 600 me-
tros, para ahi passarem por um tunnell ou
galeria, por baixo do rio, e de novo subir
outro tanto, para chegarem ao casteilo de
Cheires.
Tudo leva a crer que a primittiva Sabrosa
(formada de pobres cabanas) era situada ao
N. e E. do tal castello da Sancha, sob as
suas muralhas, e no ponto quasi opposto ao
logar onde está a actual Sabrosa.
Nas pedras faceadas de que o castello foi
construido, veem-se umas garatujas, aber-
tas a cinzel, que mais parecem signaes dos
pedreiros que as lavraram, do que letras.
Estes signaes, acham-se em muitas cons-
trucções romanas e árabes.
Em volta do castello viam-se restos da
antiga povoação, isto é, paredes toscamente
construidas, formando pequenos casebres.
|
|
|
SAB
Em uma escavação feita perto d'este lo-
gar, foi achada uma antiga forja de ferreiro,
ainda com alguns instrumentos d'este offi-
cio, bem conservados, e um tubo de barro,
que parece ter servido para conduzir agua
para a officina.
Um pouco mais distante, se acharam ves-
tigios de sepulturas antiquissimas.
Os restos do castello e dos casebres, des-
appareceram ha cinco ou seis annos, por-
que os seus materiacs foram applicados para
calçar as ruas da villa. Ha dois ou trez se-
culos, que a maior parte das casas de Sa-
brosa, teem sido feitas com os restos vene-
randos de construcções antigas.
Durante o dominio dos romanos, perten-
ceu Sabrqsa à circumseripção da famosa ci-
dade de Panoyas, dentro de cujo áro se
achava, e que muito mais tarde devia formar
parte da primittiva freguezia de Santa Ma-
rinha de Provezende, visto que a antiquis-
sima freguezia de S. Lourenço de Riba-Pe-
nhão, era cabeça de todos os povos que de-
moravam ao N. de Sabrosa, os quaes, até
1834, pagavam um vintem de reconhecimento,
por cada fogo, ao parocho da sua antiga ma-
triz—Santa Marinha.
Ao fundo da montanha do lado da San-
cha, está a antiga quinta da Ribeira Je Sa-
brosa, que produz optimo vinho, e é da il-
lustre familia dos Pintos Pimenteis, de Vil-
lar de Maçada, e que deu o titulo ao barão
Ribeira de Sabrosa. (Vidé esta palavra.)
Brasão d'armas de Sabrosa,
concedidas em 12 de maio de 1837
São—escudo partido em faxa—na 1.2, em
campo de prata, um chafariz, lançando agua
—na 2., uma arvore com seus fructos pen-
dentes, tudo allusivo ás boas aguas e sabo-
rosas fructas. Timbre, um braço, empu-
nhando uma espada, alludindo aos serviços
de muitos militares seus naturaes, (?) em pró
da independencia nasional —diz isto o decreto
que concedeu as armas.
Se ter bôas aguas e boa fru-
cta, e ser patria de alguns mi-
litares valentes, é motivo para
SAB 273
ter brazão d'armas, centenares
de povoações portuguezas que
as não teem, as deviam ter, com
direitos eguaes, e até maiores,
do que Sabrosa.
A moderna poveação de Sabrosa, tem tido
varias familias illustres, como são a dos
Teixeiras Lobos, hoje (pelos lados paterno e
materno) ramo da casa do morgado de Ri-
beira de Sabrosa.
A dos Azeredos, quasi extincta, e que ja
aqui não reside.
A dos Barros Lobos, hoje barões de Pro-
vezende.
A dos Pereiras de Magalhães, represen-
tantes do vinculo instituido na casa da Pe-
reira, pelo famoso navegador, Fernando de
Magalhães, descobridor do estreito do seu
appellido, na extremidade da America do
Sul.
A dos Canavarros, e outras.
Homens notaveis de Sabrosa
n'estes ultimos seculos
CASA DA PEREIRA
1.º— O licenceado, André da Silva Coelho
(6.º sobrinho do famoso descobridor do es-
treito de Magalhães) freire conventual da or-
dem de S. Thiago, de Palmella, que foi alu-
mno do real collegio dos militares de Coim-
bra; superior do convento de Palmella, com
as vezes de prior-mór; conego e monsenhor
da Patriarchal, de Lisboa; do conselho de
sua magestade.
2.º—Luiz Pereira da Silva, sobrinho do
antecedente, prelado mitrado da Patriarchal
de Lisboa e freire conventual do mosteiro
de Palmella.
3.º—0O doutor, Manuel José Pereira da
Silva (9.º sobrinho do grande Fernando de
Magalhães) juiz de fóra da villa da Barca, e
desembargador no Rio de Janeiro.
h.º— Antonio Luiz Alvares Pereira Coelho
da Silva Castello-Branco Magalhães, (irmão
do antecedente) morgado da Pereira, caval-
leiro da ordem de S. Thiago, encarregado
de uma missão secreta pelo governo de Cas-
27% SAB
tella, junto do de Portugal, para as pazes
entre as duas nações. 1
Reclamou do governo hespanhol, o cam-
primento do tratado feito com seu 9.º tio,
Fernando de Magalhães, como herdeiro do
vinculo d'este, e seu unico e legitimo re-
presentante; porém morrendo da queda de
um cavallo, nada obteve.
5.º— Antonio Pinto Alvares Pereira, bri-
gadeiro (hoje diz-se general de brigada.)
Fez a campanha peninsular, e foi governa-
dor militar da praça de Marvão, pelos libe-
raes. Foi deputado, em 1834, e morreu no
anno seguinte. Teve a medalha de ouro, de
toda a campanha peninsular, e outras con-
decorações.
6º—João Pinto Alvares Pereira, fez toda
a campanha peninsular, no posto de capitão
de cavallaria. Ficando prisioneiro dos fran-
cezes, teve a habilidade de poder fugir lhe,
com toda a sua companhia, sem perder um
unico soldado, vindo reunir-se ao exercito
alliado.
Em 4823, acompanhou o sr. D. Miguel a
Villa-Franca de Xira, fazendo então a pe-
quena campanha, denominada guerra da
poeira. Falleceu em 1828, no posto de coro-
nel de cavallaria de Chaves.
CASA DOS AZEREDOS
7.º—José d' Azeredo Pinto, coronel, e um
dos commandantes da expedição realista que
foi contra a ilha terceira, em 1829.2
1 Já se vê que este individo se tinha pas-
sado para O serviço dos castelhanos. |.
2 A expedição era commandada pelo en-
tao coronel, José Antonio d'Azevedo Lemos,
Sahiu de Lisboa a 16 de junho de 1829. Era
composta de caçadores n.º 4 e 14, e de in-
fanteria n.º 7 e 16; artilheria, sapadores,
etc.—Na ilha de S. Miguel, recebeu mais, os
segundos batalhões dos regimentos n.º 4, 43 |
e 20 de infanteria, e alguma artilheria. O
commandante, era o chefe de esquadra, Rosa.
Os realistas, tentaram o desembarque a 11
de agosto, na Villa da Praia, mas foram re-
pellidos. com grandes perdas, fallecendo os
bravissimos, D. Gl Eannes da Costa (irmão
do conde da Madeira) então major, e José
d'Azeredo Pinto, de quem se trata no texto.
Os realistas tiveram de retirar para Lisboa.
D'esta expedição havia muito que dizer mas
não é este o logar proprio.
SAB
Morreu à frente dos seus soldados, no dia
11 de agosto de 1829, junto á Villa da Praia,
depois de ter combatido intrepidamente.
8.º—Luiz d' Azeredo Pinto (irmão do ane
tecedente) serviu sempre a causa legiti-
mista, e sendo brigadeiro, sob as ordens
de D. Alvaro da Costa, conde da Madeira,
defendeu esta ilha, até 1834, emigrando en-
tão para Roma.
CASA DA CAPELLA
9.º—Francisco Teixeira Lobo, brigadeiro
de cavallaria. Fez a campanha peninsular,
até à tomada da praça de S. Sebastião, da
Biscaya.
10.º—Francisco Teixeira Lobo (irmão bas-
tardo do antecedente.) Fez tambem a cam-
panha peninsular, e morreu no posto de
brigadeiro.
CASA DOS BARROS LOBOS
11.º— Antonio Teixeira de Barros de Bar-
bosa, brigadeiro de infanteria. Fez toda a
campanha peninsular, sendo-lhe conferida a
medalha d'ouro. Foi cavalleiro professo nas
ordens de Christo, e S. Bento d'Aviz, e com-
mendador da de Torre e Espada,
Era pae do 4.º barão de Provezende, José
Antonio de Barros Teixeira Lobo de Bar-
bosa. (Vide 7.º vol., pag. 693, col. 1.3, no
fim.)
O 1.º barão de Provezende, falleceu a 2
de janeiro de 1879.
CASA DOS CANAVARROS
12.º— Philippe de Sousa Ganavarro, fez a
campanha peninsular, levantando à sua custa
uma companhia de cavallaria. Foi tenente
general e governador das armas do Porto.
413.e— Affonso Botelho de Sampaio e Souza,
fidalgo cavalleiro da casa real; 7.º senhor
do morgado e casa de Paços, junto a Sabrosa
8.º administrador do vinculo instituido em
Provezende, por Diogo Cão da Nóbrega (o
morgado de S.: Thiago); 6.º administrador
do morgado de Nossa Senhora da Piedade,
com capella na egreja matriz de Provezende,
|
|
SAB
instituido por Matheus Frois; 5.º senhor do
legado e capella de Nossa Senhora da Branca,
d'esta mesma villa. Era 9.º neto do grande
navegador e descobridor, o dito Diogo Cão
da Nóbrega, e 13.º neto de Afiunso Botelho,
o Velho. 4.º alcaide-mór de Villa-Real de
Traz os-Montes, feito pelo rei D. Diniz.
Nasceu em Sabrosa, no anno de 1792. Fez
toda a campanha da Peninsula, portando-se
sempre como bravo militar.
Serviu sempre na arma de caçadores, e
sendo tenente coronel graduado, do batalhão
de caçadores 7, do exercito realista, foi
demittido, por decreto de 7 de julho de
1831,
Foi depois inspector das estradas do Dou-
ro, conseguindo, com os proventos d'este
emprego, resgatar a sua casa, que estava
empenhadissima.
Foi duas vezes deputado às côrtes, e n'el-
las se mostrou decidido campeão das me-
didas restritivas, e dos privilegios do Alto-
Douro.
Tambem trabalhou para que aos seus anti-
gos camaradas, os officiaes do exercito por-
tuguez convencionado em Evora-Monte, em
27 de maio de 1834, se garantissem os pos-
tos, segundo o estipulado na mesma con-
venção; mas nada obteve.
Pelo decreto de maio de 1851, promul-
gado durante a dictadura Saldanha, recebeu
o soldo correspondente ao posto que tinha
ao tempo da morte de D. João VI—que era
o de capitão—como os outros officiaes Jegi-
timistas nas mesmas circumstoncias;e, como
todos os mais que tinham já em 1826 di-
reito-a reforma com o soldo do posto imme-
diatamenie superior, por diuturnidade de
serviço, foi considerado depois major, com
o soldo respectivo, pela tabella de 1844.
Mas nunca mudou de opinião politica,
sendo sempre um realista puro, confessan-
do-o francamente; e mandando por muitas
vezes, presentes dos seus vinhos mais finos
ao sr, D. Miguel I, para a Allemanha, e 0 rei
lh'os acceitava reconhicido, por serem pro-
ductos da patria que tanto amára (e que tão
mal soubera governar!) PRO
Affonso Botelho foi, antes de tudo, um ver-
dadeiro homem de bem:
SAB 275
Falleceu no Porto, em 1867, e foi sepul-
tado no cemiterio do Prado do Repouso.
Alem dos 43 cavalheiros que ficam men-
cionados, outros muitos individuos de Sa-
brosa se tornaram notaveis pelas suas virtu=
des, e nas armas e nas lettras, cuja enume-
ração seria longa e enfadonha.
Fernando de Magalhães
No 7.º vol., pag. 296, col. 1.º disse eu, que
—segundo alguns escriptores, tinha nascido
na cidade do Porto, estê navegador famoso,
e n'aquelle logar dei uma rapida biographia
d'este esclarecido portuguez.
A um meu respeitavel amigo, e incansa-
vel investigador, ao qual muito deve esta
obra, devo amplas noticias sobre a natura-
lidade de Magalhães, e as vou aqui dar em
resumo, como o pede um diccionario. A mo-
destia d'este cavalheiro, priva-me do prazer
de publicar o seu nome, o que muito me
custa.
Se não ha certeza, ha toda a probabilidade
para crermos que Fernando de Magalhães
nasceu na sua casa solar da Pereira, de Sa-
brosa, ainda que uns o fazem natural do
Porto, outros de Figueiró dos Vinhos, e, fi-
nalmente, ainda outros, de diversas locali-
dades. 1
A causa desta confusão, é porque, no
principio do seculo 16.º houve varios indivi-
duos d'este mesmo nome, e, pelo menos al-
guns, da mesma familia de Fernando de Ma-
galhães, como se póde ver em differentes no-
biliarios.
Investigações feitas modernamente em
1 Frei Francisco de Santa Maria, conego
secular, chronista, e geral da Congregação
de S. João Evangelista (loyos) lente jubila-
do, de theologia, qualificador do Santo Offi-
cio, examinador das trez ordens militares, e
provedor do hospital real das Caldas da Rai-
nha; é um dos nossos mais acautelados, e
por isso dos mais veridicos escriptores. No
seu Anno. Historico (tomo 1.º, pag. 522) tra-
tando longamente de Fernando de Magalhães,
e não sabendo com certeza d'onde elle era
natural, não diz nada a este respeito.
276 SAB
face de documentos authenticos, põe fóra de
toda a duvida, que, se elle não foi de Sa-
brosa, pelo menos alli tinha, com toda a cer-
teza, a sua casa, e a sua unica familia, que
foi herdeira e representante do seu nome e
administradora do vinculo por elle iustitui-
do, na casa da Pereira, desta villa.
O grande nobiliario do Casal do Paço, ma-
nuscripto da bibliotheca publica do Porto
(tom. 7.º, pag. 189) diz—que—Lopo Rodri-
gues, foi para a villa de Figueiró dos Vi-
nhos, ser tutor dos filhos do senhor de Fi-
gueiró, e de Pedrogam-Grande, os quaes
eram sobrinhos de D. Isabel de Souza, mu-
lher de seu tio, João de Magalhães, senhor
da Barca. ?
Lopo Rodrigues, teve de sua mulher, oito
filhos (quatro de cada sexo) tendo o mais
velho, por nome, Fernando de Magalhães,
como seu avô paterno. Note-se porem, que,
nenhuma das irmans deste Fernando, se
chamava Thereza.
Gajo, no seu extenso nobiliario, existente
noarchivo da Misericordia de Barcellos (tomo
23.º, letra M, $ 27) conforma-se com o ma-
nuscripto do Casal do Paço, mas aponta mais
trez individuos da familia Magalhães, todos
chamados Fernando de Magalhães, cada um
dos quaes tem passado por descobridor do
estreito do mesmo nome.
O arcebispo de Braga (primeiramente,
bispo do Porto) Dom Rodrigo da Cunha, au-
ctor do Cathalogo dos bispos do Porto, e que
attentamente estudou a questão, fundando-
se em que, do inventario de Fernando de
Magalhães, diz que constava que elle vive-
ra na ilha da Madeira, e é de parecer, que é
filho de Lopo Rodrigues, o tal tutor de Fi-
gueiró dos Vinhos.
Ainda o mesmo Gajo nota, que um dos
trez mencionados Fernandos de Magalhães,
era senhor do vinculo de Merilheias, o qual
perdeu, por se passar para o serviço de Cas-
tela.
O sábio Muiiós, diz que elle fizera um ou-
1 D. Isabel de Souza, era filha de Ruy Vaz
Ribeiro de Vasconcellos, senhor de Figueiró
dos Vinhos, e Pedrogam-Grande. Vidé Ponte
da Barca,
e tambem Paço Vedro de Maga-
lhães.
SAB
tro testamento, em 24 d'agosto de 1519, e
que n'elle se declarava Vicino de Oporio, de
onde collige que elle devia ser natural d'es-
ta cidade, e accrescenta que, por este tasta-
mento, instituiu por herdeiro, seu irmão Dio-
go de Souza (ou de Magalhães, segunde Ga-
jo) no caso que fallecesse o filho que havia
tido de sua mulher, D. Beatriz Barbosa, rea-
lisando-se esta ultima hypothese.
Finalmente, de antigos documentos cons-
ta haver nada menos de seis Fernandos de
Magalhães, em differentes terras do reino,
alguns d'elles militares, e fazendo parte das
nossas expedições à Africa e à India; mas,
o que é certo, é que de nenhum d'elles ha
noticias tão authenticas e positivas como do
da casa da Pereira, de Sabrosa.
O sr. dr. Alexandre Manoel Alvares Pe-
reira de Aragão, fidalgo da casa real, caval-
leiro da ordem de Nossa Senhora da Con-
ceição, de Villa Viçosa, natural de Parada
do Pennhão, d'este concelho de Sabrosa, e
hoje residente em Villa Flor (onde casou
com uma senhora, sobrinha do fallecido ge-
neral, Antonio Pinto de Seixas Pereira de
Lemos, feito 4.º (e unico) visconde de Le-
mos, em 29 de março de 1854) é actualmen-
te o unico representante legitimo da casa e
familia de Fernando de Magalhães.
Possue o sr. dr. Alexandre Manoel, dois
documentos, que derramam a luz mais cla-
ra, sobre esta questão. .
O 4.º d'elles é o testamento do proprio
Fernando de Magalhães, feito em Belem, nas
notas do tabellião, Domingos Martins, a 147
de dezembro de 1504, trez mezes antes da
sua partida para a India, com o 4.º vice-rei
d'ella, D. Francisco d'Almeida. 1
N'aquelle testamento institue por seus
unicos herdeiros, sua irman D. Thereza de
Magalhães, seu marido, João da Silva Telles,
e ao filho d'estes, Luiz Telles da Silva; sem
mencionar n'este documento, qualquer ou-
tro seu irmão ou irman.
De todos os seus bens, que elle mesmo
declara serem poucos, instituiu pelo testa-
1 D. Francisco d'Almeida sahiu de Lisboa
para a India, a 25 de março de 1505.
SAB
mento, um vinculo, em favor da referida sua
irmã, marido e filho, na casa da Pereira, de
Sabrosa, e na sua pequena quinta da Souta,
junto a esta villa, e sobranceira ao Valle da
Porca, com o encargo de 12 missas annuaes,
unindo tudo ao seu altar do Senhor Jesus,
da egreja matriz (a antiga) de Sabrosa.
Ora, se elle chama para lhe succeder no
vinculo, uma irmã, é de crer que não tinha
irmãos, porque, se os tivesse, não legaria o
morgado a fêmea, contra o uso geral d'a-
quelles tempos.
O outro documento que possue o sr. dr.
Aragão, é um testamento, feito por Francis-
co da Silva Telles, filho do já referido Luiz
da Silva Telles. i
Este documento não deixa a mais peque-
na duvida de que o Fernando de Magalhães
que descobriu o estreito do seu nome, é es-
te de Sabrosa e não outro.
O testador, dominado pelo mêdo que ainda
tinha ás iras do rei D. Manuel, legadas aos
“seus successores, contra a sua familia, ex-
prime-se da maneira mais interessante, e
deixa transparecer o terror de que estava
possuido, querendo fazer acreditar ás justi-
ças de el-rei, que elle desapprova tambem o
procedimento de seu tio, Fernando de Ma-
galhães.
Dá muita luz à questão, o Seguinte perio-
do do tal testamento.
«.. mandando a tcdos os meus descen-
«dentes e herdeiros que na minha casa da
«Pereira, em Sabrosa, não ponham armas,
«nem outro brazão, porque quero que, em
«todo o tempo se conservem picadas e ra-
asas, da mesma maneira que as mandou pôr
«o nosso senhor e rei, pelo delicto de Fernan-
«do de Magalhães, de se passar a Castella,
«em desserviço d'este reino, a descobrir no-
«vas terras, onde morreu em desagrado do
«nosso rei; 1 e, como elle era irmão de mi-
«nha avó, D. Thereza de Magalhães, se man-
adaram picar as armas, por cujo motivo de
1 Nenhum rei portuguez teve melhores
ministros e mais bravos generaes, do que D.
anuel, e nenhum dos nossos monarchas foi
tão ingrato, castigando muitos que devia
premiar.
Se elle fosse tão sollícito em dar'o premio
VOLUME VIII
SAB 217
«vergonha, me passei a viver no Maranhão,
«onde agora me acho, ao tempo do outhor-
«gamento d'este meu testamento. E faço es-
«ta declaração, para que aos meus vindou-
«ros, fique por exemplo, não só os castigos
«do senhor rei, mas os do Ceu, que fez que
«meu dito tio, Fernando de Magalhães, ir-
«mão de minha avó, morresse tão desastra-
«damente, como dizem que morreu, em uma
«ilha chamada Maltan, às mãos de herejes1,
«ou, melhor, de seus peccados, atravessa-
«do por uma lança. E cuidem todos osmeus
«descendentes e herdeiros, em servir os seus
«principes, se querem a minha benção, que
«lhes negaria, se soubesse que haviam de
«ter tão baixos sentimentos, 9 tão ruinosos
«para as familias, como tem sido para mim
«e meu pãe, que deixâmos a nossa patria,
«por vergonha, e mêdo que se levantassem
«os visinhos contra nós, pois, com justiça,
«não podiam sofirer quem hia contra Por-
«tugal, que é sua patria, servir castelhanos,
«nossos inimigos naturaes, etc.»
Este testamento, foi feito no Maranhão,
nas notas do tabellião Damião Carneiro, a' 3
d'abril de 1580.
O brazão d'armas da casa da Pereira, ain-
da está picadô e arrazado, tal “como o
mandou o rei D. Manuel..
O sr. dr. Aragão, ainda possue outros do-
cumentos, pelos quaes se prova a identida-
de d'este Fernando de Magalhães, e que elle
era da nobilissima familia do appellido Ma-
galhães, appellido que elle proprio, em seu
testamento, diz —com referencia ás suas ar=
mas--ser dos mais distinctos, antigos e no-
bres d'este reino, pedindo que juntem ás
suas armas, a dos Magalhães.
Fol ainda o mêdo que obrigou esta fami-
lia a deixar o illustre appellido de Maga-
lhães.
Na Nouvelle biographie general, editada
por Mr.M. Fermin Didot Freres, sob a direc-
ção do doutor Hoefer, vem uma extensa bio-
| âquelles que tanto lh'o mereceram, como em
castigar Fernando, de Magalhães, que uma
ingratidão do rei lançára no serviço de Cas-
tella, mais bem mereceria da patria e da
posteridade.
1 O testador queria dizer idolatras.
18
287 SAB
graphia de Fernando de Magalhães, e se
menciona o seu testamento.
Segundo a tradição, quando constou que
Fernando de Magalhães se passou para 0
serviço de Castella, o povo de Sabrosa fez
toda a qualidade de insultos a seus sobri-
nhos, chegando até a correl-os à pedra; e
por isso, viram-se elles obrigados a fugir
para o Maranhão, ainda n'esse tempo quasi
todo despovoado; e não quizeram pedir ao
monarcha hespanhol o cumprimento do que
tinha promettido a seu tio.
A sua casa de Sabrosa, abandonada por
elles, cahiu, como é facil de suppor, no maior
esta lo de ruina, e quando regressaram à pa-
tria, nem se animaram a voltar para a sua
terra natal, hindo, ao que parece, residir
“para Fáfe. k
Só nos fins do seculo 18.º, é que seus des-
cendentes se animaram a usar do appellido
de Magalhães.
Em 4795, Antonio Luiz Alvares Pereira
Coelho da Silva Castello-Branco Magalhães,
avô do sr. dr. Aragão, requereu, na quali-
dade de unico herdeiro de Fernando de Ma-
galhães, ao governo castelhano, o titulo de
adelantado, e uma indemnisação, pela vin-
tena, das terras e rendimentos promettidos
ao fundador da sua casa; mas nada conse-
guiu.
O antigo vinculo instituido por Fernando
de Magalhães, está hoje em poder de pes-
soas estranhas a esta familia, porque a mãe
do sr. dr. Aragão, o vendeu e deixou partir.
As armas da casa de Pereira, picadas por
ordem do rei D. Manuel, foram apeadas na
reconstrucção da casa, e servem hoje de cu-
nhal em um dos angulos della.
Successores latteraes de Fernando
de Magalhães
4.º D. Thereza de Magalhães, irman de Fer-
nando de Magalhães, sua unica herdeira, e
4.º morgada do vinculo instituído, na casa
“da Pereira, em Sabrosa.
Casou com João Telles da Silva, fidalgo da
casa real—tiveram.
SAB
2.º Luiz Telles da Silva, fidalgo da casa
real, o que fugiu para o Maranhão.
Casou com D. Rosa de. Castro e aa
cellos-—e tiveram:
3.º. Francisco Telles da Silva, fiadés da
casa real, casado com D. Maria Moreira.
Tiveram:
4.º Antonio da Silva (de Magalhães?) Fa-
ria, fidalgo da casa real.
Casou com D. Francisca Pereira da Silva.
Tiveram:
5.º Gonçalo Alvares Moreira , Telles, que
casou com D. Maria Marinha.
6.º D. Maria. Moreira, que casou com
Francisco da Silva Pinheiro de Faria, de
Royos (ou Arroyos) junto.a Villa Real, de
Traz-os-Montes.
Tiveram:
7.º Manuel Alvares Coelho de Faria, que
casou com D. Anna Maria Pereira, de Do-
néllo.
Tiveram:
8.º D. Caetana Rosaura Pereira Goelho
da Silva, que casou com Luiz Ribeiro Va-
lente Castello Branco.
9.º—D. Quiteria Joaquina Pereira Goelho
da Silva, que casou com o doutor Amaro
Pereira d'Aguiar, juiz de fóra de Villa Pou-
ca d'Aguiar.
Tiveram:
10.º Antonio Luiz Alvares Pereira Goelho
da Silva Gastello-Branco Magalhães, do-qual
ja fallei, no capitulo Homens notaveis de Sa-
brosa.
Casou a 4.º vez, com a herdeira unica da
casa e vinculos dos Cunhas Amaraes, de
Provezende e Villa Real, e senhora de mais
cinco differentes vinculos. Teve della duas
filhas que falleceram de tenra idade.
Casou segunda vez, com D. Petronilla Lo-
pes de Aboim e Cufia de Sande Soares Car-
reto, filha de D. Eugenio José Lopes de Aboim
e Cuia, e sobrinha do tristemente celebre
Godoi, ao qual o rei de Castella deu o titulo
de principe da Paz.
Tiveram:
14.º D. Petronilha Laura Alvares Pereira
de Magalhães, ultima senhora da casa da Pe-
reira.
Casou com o marechal de campo, Manuel
SAB
Antonio Ferreira d'Aragão, de Villar-Chão,
proximo de Alfandega da Fé, morgado e se-
nhor da casa de seus paes.
Tiveram:
12.º—0 dr. Alexandre Manuel Alvares Pe-
reira de Aragão, fidalgo cavalleiro da ca-
sa real, cavalleiro da ordem de Nossa Se-
nhora da Conceição, de Villa Viçosa, actual
representante da casa de Fernando de Ma-
galhães.
Casou em Villa Flôr, com a sr.? D. Feli-
cidade Amelia Pinto Lemos, sobrinha do fal-
lecido general visconde de Lemos, do qual
já falei.
Ha d'este matrimonio, até hoje, dois filhos
e duas filhas, todos menores.
É irmã de Francisco Teixeira Lobo— o
morgado da Capella—a ex,ma sr.2 D. Maria
das Dores Teixeira da Gama Lobo, casada
com o sr. José Cypriano da Costa Godol-
phin, que nasceu em Marvilla, a 3 de no-
vembro de 1843.
Costa Godolphin tem sido redactor e col-
laborador de muitos jornaes e muitos dos
seus escriptos teem sido transcriptos e tra-
duzidos, principalmente nos jorpaes hespa-
nhoes e da America.
D. Luiz Vidard, escrevendo-lhe a biogra-
phia na Illustracion de Madrid, compara al-
gumas das suas poesias com as odes do ce-
lebre poeta Manzoni.
Tem prestado muitos serviços à instruc-
ção popular e ás associações, sendo por is-
so socio honorario de grande numero d'ellas.
É socio effectivo da Sociedade de Geogra-
phia e da dos Archeologos Portuguezes, e
vice-presidente do Albergue dos Invalidos
do Trabalho.
O governo de Hespanha agraciou-o com
a commenda de Izabel a Catholica.
Tem publicado varias obras; entre ellas
citaremos:
Versos, dois volumes.
* Lendas arabes;
Sepulchro em Perrho, poemeto traduzido
do verso sueco;”
Visita a Madrid;
Paginas soltas;
SAB 279
A Associação, historia e desenvolvimento
das associações portuguezas;
Lendas escandinavas, e varios opusculos,
como O Celibato clerical, A Religião dos pa-
dres, A insirucção, Monumento a Camões,
Portugal e Hespanha, etc.
Em Portugal, como diz na Evolução o sr.
Consiglieri Pedroso, lente do curso superior
de letras, sabemos apenas de tres dos nossos
homens de letras, que tenham conhecimento
de algumas das linguas escandinavas, ou que
se entreguem ao estudo das suas respectivas
lilteraturas. O primeiro é o sr. Latino Coe-
lho, o segundo o sr. Costa Godolphin e otercei-
ro o sr. Gonçalves Vianna.
As tres bibliothecas populares, do Centro
Promotor, Gremio e Civilisação Popular, fo-
ram organisadas por Gosta Godolphin.
É filho de José Cabral da Cunha Godol-
phin, official convencionado em Evora Mon-
te, do exercito do Sr. D. Miguel T, fidalgo da
casa real por succeesão de seus maiores, e
de D. Maria Izabel da Costa Freire, filha de
Manuel Cypriano da Costa, poeta distincto,
commendador da Ordem de Christo, caval-
leiro da Ordem da Conceição, official maior do
antigo senado de Lisboa, secretario da casa
de Bragança. Foi homem muito importante
na sua épocha pelo seu elevado talento: era
filho do distincto poeta da Arcadia, Jerony-
mo Martins da Costa, o Cassidro.
Costa Godolphin descende de Lord Godol-
phin, que foi thesoureiro-mór de loglaterra,
e ministro no tempo da rainha Anna.
O escriptor inglez Anisworth escreveu o
seguinte a seu respeito: á
«O porte de Godolphin, sem ser altivo era
frio. Odiava de tal modo a lisonja, que che-
gava a não gostar da simples polidez, prefe-
rindo muitas vezes os modos rudes, que to-
mava por sinceridade.
«O rosto bastante trigueiro e as sobran-
celhas fartas augmentavam-lhe a dureza da
physionomia. A estatura era menor que me-
diana, e ainda que contava mais de sessen-
ta annos, parecia tão forte no moral como
no physico.
«Godolphin foi um dos melhores, senão o
maior ministro que dirigira os negocios po=
liticos da Inglaterra.
280 SAB
«Quando o posto eminente que occupava
lhe foi oferecido, recusou-o, cheio de mo-
destia; Marlborough; porém, obrigou-o a ac-
ceital-o, declarando que, se os subsidios não
fossem regulados por Goodolphin, renuncia-
ria o commando do exercito.
«Sob a administração d'este financeiro os
rendimentos do estado augmentaram tanto,
apesar das dividas contrahidas pela nação,
que os fundos publicos davam cinco por
cento.
«Este homem fazia-se notavel tambem por
uma probidade incorruptivel na administra-
ção do thesouro, que lhe fôra confiado, e
ninguem se atreveu a accusal-o de venali-
dade na nomeação dos logares.
«Foi visconde de Rialton e conde de Go-
dolphin; morreu em 17140. Seu filho mais
velho foi casado com a filha do principe e
duque de Marlborough.»
Ha no concelho de Sabrosa varias minas
de differentes metaes, porém estão por ex-
plorar.
Em janeiro de 1873, o sr. Ladislau Zar-
zichi, obteve concessão definitiva de trez
minas de chumbo, nos sitios da Machucha,
Agua-Alta e Valle de Maceira, todas n'este
concelho.
Como no 7.º vol., a pag. 296, col. 4.2, dei
apenas em rapido esbôço a biographia de
Fernando de Magalhães, copiarei aqui o que
diz frei Francisco de Santa Maria, no seu
Anno Historico, tomo 4.º, pag. 522. —É o
seguinte :
«Fernando de Magalhães, portuguez por
nascimento e castelhano por eleição, foi ca-
valleiro do habito de S. Thiago, e nobre em
sangue e em valor: serviu, com grande re-
putação, em Africa, depois na India. Acom-
panhou o famoso Albuquerque, na conquista
de Maláca, e em outras grandes emprezas
d'aquelle tempo. Fez-se singularmente pra-
tico na arte de navegar, e no conhecimento
das alturas e demarcações dos portos e ter-
ras orientaes.
Voltando a Portugal, pretendeu de el rei
D. Manuel que lhe quizesse acerescentar a
moradia, mercê proporcionada à sua quali-
SAB
dade, e inferior aos seus merecimentos; mas
negou-lha el-rei, ou porque o pretendente
lhe não cahiu em graça, ou sugerido de mi-
nistros que dormindo no ócio da côrte, não
sabem estimar os disvelos e perigos da cam-
panha, e, como querem tudo para si, não
soffrem as vantagens dos outros.
Pouco importava a negativa, quanto à
utilidade, muito porém, quanto à graduação
da nobreza com que vinha a topar a preten-
ção, mais em honra que em interesse: e como
o Magalhães era summamente elevado e
brioso, resentiu-se summamente e dispôz
vingar-se de modo que reconhecessem, el.
rei e os ministros, quanto era em prejuizo
do bem commum, desattender ás pretenções
dos vassallos benemeritos.
Passou-se a Castella e lá se desnaturali-
sou de Portugal, com publicas e solemnes
demonstrações, e, tomada esta salva, para
se furtar ao labéu de traidor, se offereceu ao
imperador Carlos V, promettendo-lhe des-
cubrir um novo caminho para as Molucas,
que facilitaria aos hespanhoes aquella nave-
gação e conquista, que, de muitos tempos,
deviam tocar-lhe.
Acceitou o imperador a offerta e lhe man-
dou dar cinco navios, com 250 homens, e
com elles partiu de Carthagena, no anno de |
1519.
Começou ao mesmo tempo em Portugal
a ouvir se o nome de Magalhães, carregado
de infinitos oprobrios e injurias, por esta |
acção, e depois o calumniaram gravemente |
gravissimos escriptores. Seria com muito
zello, mas não sabemos se com egual jus- |
tiça.
Justo é que os vassallos soffram os des- |
cuidos dos principes, mas tambem é injusto |
que os principes desattendam totalmente aos |
merecimentos e serviços dos vassallos. Ser- |
vem estes pelo premio, e o principe que ne-
ga o premio a quem o merece, nega'o de |
que é devedor. Se querem amor e fidelidade |
nos subditos, fujam de lhe apurarem a pa- |
ciencia, e muito mais, de lhe ofienderem a
reputação.
Muito longe de ouvir as invectivas que |
corriam contra a sua pessoa, em Portugal, |
proseguia o Magalhães a sua viagem, e pas- |
SAB
* sado o Rio de Janeiro, na Nova Lusitania,
começaram a recrescer os trabalhos, de modo,
ou tão sem elle, que já se faziam insoffríveis
aos companheiros.
Eram rigorosos por extremo os frios de
aquelles novos climas: sentia-se já falta de
mantimentos, picavam as enfermidades; com
o que tudo se encaminhava a uma total des-
confiança de algum bom successo, produ-
zindo estas experiencias e considerações,
uma tão grave comoção nos animos, que pas-
sou a declarado tumulto, intentando alguns
tirar-lhe a vida; mas elle os previniu com
prompta e destemida resclução, e, presos os
cabeças, os mandou enforcar e fazer em
quartos, com o que os mais se acommoda-
ram obedientes.
Invernaram em um cabo, promontorio não
conhecido até então, onde descobriram ho-.
mens de estatura agigantada, que excedia
de doze palmos; de-côr alva e bem pareci-
dos; mas de lingua que se não entendeu.
Passaram depois a outro cabo, a que cha-
maram das Virgens, por ser visto no dia das
Onze-mil; e adiante, descobriram o estreito
que buscavam, com uma legua de largo cor-
rendo de uma e outra parte, elevadas mon-
tanhas, já de aspera penedia, já de frondo-
sos arvoredos ; e no cume d'ellas appareciam
outras de neve, que alli se conserva todo o
anno.
Navegaram 50 leguas por esta estreiteza,
até que foram dar em outra maior, que os fez
entrar em considerações sobre o proseguir a
viagem : prevaleceu, contra o parecer de to-
dos, o voto do capitão, e prosseguindo, de-
sembocaram nos mares do poente, deixando
o. Magalhães o seu nome apropriado áquelle
estreito, com que um e outro serão conhe-
cidos e nomeados, em quanto a memoria
dos homens permanecer sobre a terra.
Acharam n'aquelle mar, varias ilhas ha-
bitadas de gentios, cada uma com seu rei,
todos pobres e de condição branda e flexi-
vel.
Na ilha chamada Subo, converteu o Maga-
lhães, ao rei, e a mais de 800 pessoas, v os
baptizou. ,
Andava o mesmo rei de guerra com ou-
tro seu visinho, contra o qual se valeu dos
SAB 281
nossos, que o ajudaram e venceram duas
victorias; mas, em terceiro encontro, ajus-
tados já, occultamente, os dois reis, em of-
fensa dos estrangeiros, mataram a maior
parte, e entre elles, a Fernando de Maga-
lhães, n'este dia (27 d'abril) anno de 1524.
Os que estavam nos navios (já estes não
eram mais que trez, por se haver perdido
ume fugido outro) queimaram outro, obriga-
dos da falta de gente que o podesse marear,
navegaram, vencendo grandes trabalhos e
perigos, até às Molucas, a que chegaram fi-
nalmente, e alli ficou outro navio destros
çado.
Restou o navio, ou náu Victoria, à qual,
com mysterio, se déra este nome, porque
venceu a mais dilatada, a mais nova e a mais
perigosa navegação, de quantas referem é
encarecem as historias. D'ella e só d'ella, se
disse que—Totum circundedit orbem—por-
que deu uma volta inteira a todo o globo
da terra, e depois de navegar QUATORZE MIL
LEGUAS aportou felizmente em Hespanha.»
SABRÓSA— Vide Sobrósa.
SABRÓSO—logar, Beira Alta, na fregue-
zia de Barcos, comarca d'Armamar, conces
lho de Taboaço.
Fica quasi em frente de Sabrosa (a ante-
cedente) mas na outra margem do Douro
(esquerda, ou do sul.) Está aqui a antiquis-
sima ermida de Nossa Senhora de Sabroso,
e que foi a primittiva egreja matriz da fre-
guezia de Barcos. |
(Vidé o vol. 4.º, a pag. 334, col. 2.º)
Fica esta ermida sobranceira ao rio Tédo,
na sua margem direita, e 1 Kilometro ao
N.E. da villa de Barcos, a cuja freguezia
pertence,
É toda construida: de granito, e ainda
n'ella se celebram os officios divinos. A ca=
pella-mór, parece mais antiga do que q
corpo da egreja. As paredes são lizas, com
frestas estreitissimas, tendo uma cornija ou
cimalha, com cachórros salientes, e figuras
em alto relêvo, representando cabeças de
animaes, e de homens, e outros objectos ;
porém, as paredes do corpo da egreja, são
lizas. Diz-se que a capella-mór foi construi-
da no seculo 142.º
Ainda conserva a pia baptismal.
282 SAB
Vinham a esta egreja, em dias determi-
dos, e desde tempos remotissimos, varias
romarias, clamores e ladainhas, de muitas
freguezias em redor, e de algumas bem dis-
tantes, até mesmo da margem direita do
Douro (Traz-os-Montes.)
Tambem aqui foram sepultadas, em eras
remotas, pessoas illustres, de povoações
muito distantes—de Donêllo, Provezende, e
outras de Traz-os-Montes.
Ainda em 1869, se viam em redor da er-
mida, muitas sepulturas, com tampas de pe-
dra, e n'ellas gravados diversos emblemas
da primeira nobresa, como pendões, caldei-
ras, lanças, cruzes (de diversos estylos) e
outros objectos.
Hoje, de tão venerandos monumentos, ape-
nas restam alguns bocados, servindo de al-
venaria, em uma tosca parede do adro:
tudo o mais foi roubado, e se empregou em
paredes e vallados, das aldeias proximas.
Desde tempos de que não ha memoria, se
faz aqui uma feira, nos principios de junho.
A distancia de uns 60 metros d'esta er-
mida está um môrro de granito, do qual se
descobre um vasto horisonte, e um pano-
rama surprehendente.
Veem-se n'esta penedia, vestígios de an-
tiquissimas fortificações, e ha aqui uma fenda
ou caverna, hoje quasi toda obstruida, que,
segundo a lenda, era uma estrada coberta,
dos mouros.
Perto d'este môrro, ha uma capellinha,
dedicada ao apostolo S. Pedro, tambem muito
antiga. Foi reedificáda em 1866, achando-se
então—nas escavações que se fizeram no
seu pequeno adro—algumas amphoras e
moedas romanas.
Ao sopé da encosta do morro, na margem
direita do rio Tédo, e junto à ponte de Santo
Adrião (vide Adrião) se encontrou, ha annos,
outra galeria, ou tunnell, cuja construcção
o povo attribue aos mouros.
Por estes sítios, se encontram com fre-
quencia sepulturas abertas a picão, nas ro-
chas, e vestigios de construeções antiquissi-
mas, taes como o castello da freguezia de
Pinheiros, que é limitrophe, o monte do
Crasto, em Goujoim, etc.
A villa de Barcos é muito antiga, e tem
SAB
familias nobres, entre as quaes se dintingue
a familia Magalhães. Extinguiram-se outras
familias antigas, entre ellas a dos Heredias.
Barcos já foi cabeça de concelho e de co-
marca, passando a séde d'esta para Taboa-
ço, e d'aqui para Armamar.
Não tinha foral velho ou novo.
Barões de Sabroso
João Infante de Lacerda (pae do primeiro
e do segundo barão de Sabroso) foi fidalgo
da casa real e coronel de milícias. Nasceu a
13 de julho de 1770. Casou a 8 de dezem-
bro de 1790, com D. Felicia Joanna de Frias
de Macedo de Souza Tavares, filha e herdei-
ra de Thomaz de Souza da Costa de Aguiar,
e de D. Anna Julianna Joaquina de Sequei-
ra da Gama.
Foram seus filhos:
1.º—D. Maria Carlota, açafata da rainha
D. Carlota Joaquina, mulher de D. João VI,
com exercicio no quarto de Sua Magestade,
quando princeza da Beira. Nasçeu em 4 de
novembro de 1791, e casou, a 12 de feverei-
ro de 1822, com Alexandre de Magalhães
Coutinho, fidalgo da casa real, commenda-
dor da ordem de Christo e major do exer-
cito.
2.º—Simão, do qual adiante trato.
3.º—Carlos, idem.
h.º—D. Maria Amalia, açafata da mesma
rainha D. Carlota Joaquina.
50—Francisro Infante de Lacerda, capi-
tão de cavallaria, nascido a 3 de dezembro
de 1800. Casou, a 9 de novembro de 1834,
com D. Maria Emilia Teixeira Gravito, filha
de Francisco Manuel Gravito da Veiga Li-
ma, cavaleiro da ordem de Christo, desem-
bargador da casa da supplicação (Vide 7.º
vol., pag. 328. col. 2.2) e de D. Marianna
Teixeira Pinto d'Azevedo Cabral.
6.º—D. Maria da Conceição, nascida a 18
de novembro de 1810.
1.º Barão
Carlos Infante de Lacerda de Sousa Tava-
res, 3.º filho de João Infante de Lacerda, nas-
ceu a 18 de dezembro de 1796, e morreu em
Paris a 22 de setembro de 1830.
a
SAB
“Foi commendador da ordem de Christo,
cavaleiro das da Torre e Espada, e da Le-
gião d'Honra em França.
Era coronel de cavallaria, governador da
Torre do Outão.
Foi um militar distincto na guerra penig-
sular e na do Rio da Prata (America).
Foi ajudante de ordens do general Sebas-
tião Pinto, e em 1828 emigrou com o gene-
ral Saldanha para França, por não poderem
entrar na Ilha Terceira, por os estorvar 0
cruzeiro inglez (Vide na 2.º Saldanha, a bio-
graphia do general d'este appellido).
Foi feito barão em 26 de outubro de
1828.
2.º Barão
Simão Infante de Lacerda de Sousa Tava
res, do conselho de Sua Magestade, commen-
dador da ordem de Christo, cavalleiro das
de S. Bento de Aviz, e Torre Espada; gover-
nador da India, e brigadeiro do exercito.
Succedeu a seu irmão no titulo a 10 de fe-
vereiro de 1835.
“Nascera a 4 de novembro ne 1793, e ca-
sou duas vezes—a primeira a 10 de feverei-
ro de 1823, com D. Maria Antonia de Maga-
lhães Pizarro (açafata da rainha D. Carlota
Joaquina). Havia nascido a 11 de novembro
de 1797, e falleceu a 24 de julho de 1835.
Casou segunda vez a 7 de agosto de 1837,
com D. Maria Thereza de Mello, viuva de
D. Manuel da Camara (Ponta Delgada)
Nascera a 8 de novembro de 1795, e era
filha dos segundos marquezes de Sabugosa.
Só teve-filhos do matrimonio, e foram:
4.º—João, do qual adiante trato.
2.º—João Maria Infante de Lacerda, nas-
cido a 40 de junho de 1824.
3.º— Antonio Infante de Lacerda, nasceu a
26 de outubro de 1825.
3.º Barão
João Infante de Lacerda Sousa Tavares
Pizarro, nascido a 16 de- março de 1823.
Foi feito barão em 30 de abril de 1858.
SABRÓSO — aldeia, Traz-os-Montes, na
freguezia de Vereia de Bornes, concelho e 9
kilometros ao N.E. de Villa. Pouca-d' Aguiar.
SAB 283
Esta pequena povoação tornou-se notavel,
pelo facto seguinte :
Peço desculpa por ser al-
guma cousa difuzo, mas, anda
tão deturpada a nossa histo-
ria contemporanea, que me
vejo obrigado a tratar este
ponto mais circumstanciada-
mente.
- Serei, n'esta narração, im-
parcialissimo, e nada direi que
não seja da mais exacta ver-
dade.
Em maio de 1846, varias freguezias da
provincia do Minho, revoltam-se contra o
governo do ministro Antonio Bernardo da
Costa Cabrai, que havia sido feito conde de
Thomar, em 8 de setembro de 1845. |
Em breve, ou, para melhor dizer, com a
rapidez do raio, a revolução se estendeu por
ambas as provincias do norte, e pelo resto
de Portugal.
O povo, principalmente do Minho e Traz-
os-Montes, proclamava, nasua maxima parte,
o sr. D. Miguel IL —Tambem não faltava quem
proclamasse a republica, mas era geral o
grito de viva o povo! Morram os Gabraes !1
Os partidos realista e septembrista trata-
ram cada um de guiar para o seu lado os
insurreccionados; porém muitos realistas,
julgando a fructa ainda muito verde, toma-
ram o partido da junta do Porto.
Antonio Ribeiro Saraiva, animava de Lon-
dres os realistas, e o proprio Sr. D. Miguel
se tinha transferido para aquella cidade, com
o fim de estar mais proximo dos revoltosos
1 Já tenho dito e repetido—fóra do dic-
cionario, sou legitimista, mas nesta obra,
sou apenas catholico e portuguez — nada
menos e nada mais: quem julgar o con-
trario, engana-se. Se algumas vezes errar,
quando tratar de cousas politicas contem-
poraneas, não é por vontade, mas por más
informações. N'este artigo porem, não me
engano, porque acompanhava o Macdonell,
na qualidade de capitão de atiradores do
regimento de infanteria de Braga (vulgo
— regimento do Populo) e que depois da liga
com os da junta do Porto, se denominou,
primeiro, terceiro regimento de fusileiros da
liberdade, e depois—infanteria n.º 9.
Já se vê que conto o que presenciei.
284 SAB
| e poder reunir-se mais facilmente a'elles, se
as tousas corressem favoraveis aos realistas.
Em Portugal tinham-se organisado clan-
destinamente commissões, em muitas locali-
dades, a favor do Sr. D. Miguel, e os esque-
letos dos batalhões estavam formados em
agosto de 1846.
Ribeiro Saraiva convidára o general es-
cocez, Reynaldo Macdonnell (Mac-Donald)
para se pôr á testa do movimento realista,
ao que elle logo annuiu,
Mas os realistas principiaram desde logo
a ser atraiçoados, e tanto os principaes par-
tidarios da Sr.2 D. Maria II, como os mem-
bros da junta do Porto, sabiam tanto (ou tal-
vez mais) do que se hia passando entre os
realistas, do que estes mesmos.
Os cabralistas mandaram para Londres as
suas instrucções ao general Saldanha, que
tinha fugido para lá, e estou inteiramente
convencido que elle se colligou com Macdo-
nell, para que a revolução tivesse o fim que
teve em 1847.
O que é certissimo é que Saldanha e Mac-
donnell sahiram de Londres no mesmo va-
por inglez, com direcção a Portugal..
Saldanha receiou desembarcar em qual-
quer ponto do litoral portuguez, e foi des-
embarcar em Gibraltar, vindo por terra pa-
ra Lisboa (disfarçado não sei em quê) para
fazer a emboscada de 6 de outubro:
Macdonnell já tinha desembarcado no Por-
to, com passaporte passado em outro nome,
o ou 6 de agosto de 1846, e foi para casa
do consul inglez, onde esteve alguns dias.
Os realistas souberam logo da chegada
do seu futuro general; mas, antes d'elles, já
0 sabiam os chefes do partido cabralista.
Macdonnell deixou-se estar no Porto, mui-
to descançado, sem cuidar de cousa nenhu-
ma que respeitasse ao fim para que vinha, e
só a poder de muitas instancias sahiu do
Porto para a quinta de Linhares (sobre a
margem esquerda do Douro, na freguezia de
Sardoura, concelho de Castello de Paiva, a.
39 Kilometros do Porto) a 6 de setembro..
Em Linhares tratava só de ler o The Ta-
blet e outros jornaes britannicos; de comer
bem, e beber melhor (como bom inglez) e
de dormir.
SAB
Todo o mundo sabia onde elle estava, e
nada era mais facil à junta do Porto, do que
mandal-o prender; mas não o fez, porque
suppunha, do interesse do seu partido, que
os realistas se posessem em campo, para:
que, sahindo-lhes as cousas adversas, se rê-
unissem aos republicanos, como se reali-
sou.
Por mais que fosse instado para procla-
mar o Sr. D. Miguel, se recusava sempre a
isso, allegando que só elle sabia quando era
occasião propria. (Na minha opinião, espe-
rava pela emboscada de 6 de outubro.)
Só a 44 de novembro é que deu ordem
para se fazer a acclamação na villa de So-
brado, capital do; concelho de Castello de
Paiva.
Rodrigo de Sousa Tondella (o fidálgo do
Atalho) tinha a sua gente prompta em Ague»
da e suas immediações—o major Vasconcel-
los, em Aveiro—João d' Albuquerque (o fidal-
go da Insua) nas proximidades de Viseu—
os Bandeiras, em Estarreja — Antonio de Cas-
tro Corte-Real (tio de José Luciano de Cas-
tro), na Feira—Sebastião de Castro e seu ir-
mão, Antonio Carlos de Castro (os fidalgos
do Côvo) em Oliveira de' Azemeis. — Estes
eramos que estavam mais proximo de Li-
nhares; e do mesmo modo havia forças
clandestinamente angariadas e que estavam
promptas à primeira voz, ao S. e ao N. do
Douro; porém Macdonell, não deu parte do
dia da revolta, senão ao commandante do
batalhão denominado voluntarios realistas
de Paiva, que foi o unico que fez a accla-
mação. Este batalhão, sahiu á rua, com a
força de 470 homens, só das primeiras &
companhias (duas de Paiva 1.2 e 2º—-a 3.2
de Melres—e a 4" de Fermêdo) porque a 5.º
e 6.º, que deviam ser de Canêdo e Grijó, não
se formaram, porque se não apresentaram
senão trez individuos, que deviam ser offi-
ciaes, para ambas as companhias, e um sol-
dado de cada uma! * Depois é que se organi-
saram com gente que se foi apresentando.
* Bernardo José da Silva Tavares (filho do
brigadeiro Tavares, de quem tenho de fallar)
estava nomeado capitão da 5.2, e não poude
reunir mais do que um alferes e um solda-
do.—Um funileiro, de appellido Freitas, de
SAB
Este punhado de gente sahiu de Paiva à
16, e a 48 estavamos em Buáças, quando pas-
sou pelo rio abaixo o general Sá da Bandei-
ra, com à sua gente em 13 barcos, na reti-
rada da derrota de Valle de Paços. Houve
então ao longo do rio, um tiroteio entre rea-
listas e septembristas, do qual apenas resul -
taram—um guerrilha realista morto; e um
capitão e trez guerrilhas prisioneiros.! Nos
patuleias houve alguns feridos, mas nenhum
morto. Como Sá da Bandeira tinha man-
dado por terra—pela margem esquerda do
rio—o batalhão nacional da Vista Alegre,
commandado por Alberto Ferreira. Pinto
Basto, cahiu todo—que era muito pequeno
—em poder de uma guerrilha miguelista
que, mesmo sem ordem de ninguem, se ti-
nha levantado em Nespereira, e era com-
mandada pelo capitão-mór, Luiz do Amaral
Semblano. Os da Vista Alegre foram todos
desarmados e mandados para suas casas.
Tambem antes do tiroteio, tinham sido em
Buaças aprisionadas 36 praças da guarda
municipal do Porto, que hiam reunir-se aq
Sá da Bandeira, commandadas por um co-
ronel de artilheria. Foram desarmados (me-
nos o coronel) e deixados hir em paz. Como
alli lhe dissemos que as tropas da junta ti-
nham sido derrotadas em Valle de Paços,
por causa da traição de alguus corpos, vol-
taram: para o Porto.
Tambem então os realistas tomaram aos
da junta 2:500 pares de sapatos, que vinham
de Villa Real, por terra, pela margem direi-
ta do Douro.
Foi uma providencia para
os realistas, porque os seus
guerrilhas, hiam uns de sa-
patos, outros de chinellos, e a
maior parte, de tamancos.,
Grijó. nomeado capitão da 6.º, e que tinha
certificado que à sua parte levaria mais de
300 homens, apresentou-se só com um, que,
logo em Mareo de Canavezes, foi expulso por |
ladrão!
1/0 aprisionamento destes quatro guerri-
lhas teve sua graça. Elles estavam n'uma
enseada, gritando para os dos barcos—«<Á
terra! Á terral»—Um barco de patuleias obe-
deceu; mas, chegando a terra, e vendo só
quatro paizanos, agarraram-os e os levaram
no mesmo barco para o Porto.
SAB 285
Apesar dos realistas sahirem de Paiva só
com 470 homens, chegaram, no mesmo dia
18, ao Marco de Canavezes, com perto de
2:500, porque logo na margem direita do
Douro, se lhes reuniu a gente de Bayão,
Bem-Viver, e outras localidades.
D'aqui marchámos para Braga, por Gui-
marães, mas tudo na maior desordem, e
apesar d'isso, a força hia sempre crescendo,
e, se tivessemos armas, polvora, e que lhes
dar a comer, quando chegámos a Braga, le-
variamos 10 ou 42 mil homens.
A derrota que soffreram os realistas em
Braga, pelas tropas do Casal, a 20 de dezem-
bro de 1846; e a sua inqualificavel retirada
para Guimarães, edelá para Amarante, onde
estiveram 23 dias, sem nada fazerem, é de
todos bem conhecida, nem eu quero enfadar
os leitores com a narração circumstanciada
d'esta marcha!
1 Sempre aqui contarei uma anecdota,
que é de muito poucos conhecida.
Nós retirâmos (melhor diria— fugimos
desordenadamente) de Braga para o Carva-
lho d"Este, e de lã para a Senhora do Porto
d'Ave. D'aqui é que marchámos no dia 22
para Guimarães,
Chegados a esta cidade, alli nos deixá-
mos ficar, tão descuidados e descançados,
como se todo o reino estivesse em profunda
paz: Não tinhamos um posto avançado para
o lado de Braga (0.) nem sequer um pique-
te na frente: apenas tinhamos alguma gente
em trez pontos, à entrada da cidade.
Eu estava vendo quando uma bella ma-
nhã eramos suprehendidos inopinadamente
pelas tropas do Casal, e feitos todos em pos-
tas.
Uma noite em que eu estava de oficial
superior, chamei um sargento e cinco solda-
dos da minha companhia, nos quaes tinha
plena confiança, e com cujo silencio conta-
va, é gujados por um realista de Guimarães
sahimos da cidade, pelas 11 horas de uma
noite escurissima, e fomos dar trez descar-
gas, uma a cada um dos taes nossos pique-
tes. Feito isto, recolhemos pelo mesmo ca-
minho, e fui dar ordem ao supporte (que es-
tava na casa da camara) para se pôr em
armas, mandando a corneta tocar a reunir,
por todos os cantos da cidade.
Fui dar parte do occorrido ao Macdonell,
que estava aquartellado em casa do conde
da Azenha, dizendo-lhe que já trez dos nos-
sos piquetes tinham sido atacados pelos ca-
braes. Só assim, e ainda à força de instan -
286 SAB
Talvez publique, em livro, toda a historia
d'essa revolta miguelista, que tão desfigu-
rada tem andado até hoje.
Finalmente, a 20 de janeiro de 1847, deu
Macdonnell ordem para marcharmos sobre
Villa Real.
Sahimos de Amarante muito tarde, pelo
que tivemos de passar o Marão de noite e
com neve de 07,60 de alto, chegando à Cam-
pean pelas duas horas da noite |
No dia seguinte marchâmos para Villa
Real, na força de 4:200 homens.
Mas já então estavam em armas na pro-
vincia do Minho, mais de nove ou dez mil
homens, que alli tinham ficado.
O celebre padre Casimiro, tinha uma for-
ça de quatro a cinco mil homens (grande
parte d'elles cobertos de palhoças, e todos
mal armados e peor disciplinados). —O ab-
bade de Priscos, commandava outra guerri-
lha—O Padre Manoel das Agras tinha le-
vantado outra—O brigadeiro Luiz Leite ti-
nha reunido uma força superior a mil ho-
mens—O coronel Francisco d' Abreu estava
nas proximidades de Vianna, à frente de
uns 300 ou 400 homens—E finalmente o
marechal Bernardino Coelho Soares de Mou-
ra (que depois a junta fez barão de Freia-
munde) estava em Penafiel com uns 600 ou
700 homens, sendo 60 de bons soldados de
cavallaria, perfeitamente armados, e optima-
mente montados. .
Este nunca quiz obedecer ao Macdonell; e
teve juizo.
Porém o Macdonell não quiz levar para
Traz os Montes mais do que os taes 1:200
homens—elle lá se entendia.
Emquanto estivemos em Villa Real, anda-
va o Vinhaes, com uns 500 homens, pelos
arredores da Villa, sem se atrever a atacar-
nos. 1
cias, é que o homem se resolveu a retirar
à meia noite, e na maior desordem, na fór-
ma do costume.
O que é certo é que na madrugada do dia
seguinte, entraram as tropas do Casal em
Guimarães.
Vejam do que nós escapâmos!...
! As forças de Vinhaes eram compostas
de contingentes de caçadores 3, infanteria 3
e 45, um pequeno batalhão de empregados
SAB
Os povos destes sitios queriam que Mae-
- donell lhes desse pelo menos 200 homens do
meu regimento, compromettendo-se a derro-
' tarem completamente as forças do Vinhaes;
mas elle recusou-se obstinadamente a esta
exigencia
Por fim, contentavam se em lhes darem
algumas centenas de maços de cartuxos;
mas elle nem a isto annuiu. Deram-se-lhes
apenás 50 ou 60 maços sem que o general
soubesse.
Em 30 de janeiro, resolveu o Macdonell
marchar sobre Chaves, com o fim — dizia
elle—de tomarmos posse da praça, que só'
tinha de guarnição alguns veteranos, e apo-
derarmos-nos de grande numero de armas,
mochilas, cantis e outros petrechos de guer-
ra, que o 13 de infanteria havia deixado no
castello. 1
Pelas 11 horas da escurissima noite de 30
para 31 de janeiro, sahimos de Villa Real,
debaixo de um temporal desfeito, de chuva e
vento, não tendo os infelizes soldados, capo-
tes nem patronas, nem guardas-fechos, nem
ao menos bornaes.
Alagados em agua, foram ficando pelas al-
deias que estanciavam pelo caminho, de ma-
neira que quando Macdonell chegou no dia
31 a Villa Pouca de Aguiar, não levava 400
homens.
O resto foi-se-lhe reunindo aos grupos,
cada um por sua vez. Todos alli chegaram
sobremodo cançados, molhados e mortos de
fome. ,
Vinhaes, sabendo logo da retirada dos
realistas, marchou em seu seguimento, mas
entretendo-se os seus soldados, durante a
marcha, à praticarem as atrocidades do cos-
tume.
Em Villa-Sêcca, assassinaram o desgraça -
fiscaes, e uns 40 cavallos (quasi todos es-
tropiados) de cavallaria n.º 7.
I Era a unica cousa em que o escocer
não mentia. Com effeito, em abril, a briga-
da de Soares de Moura (da qual eu com-
mandava então a guarda avançada) alli foi
encontrar, dentro de uma cisterna enxuta,
grande quantidade de utensilios mititares, é
até a espada que tinha sido do general Mac-
donelt, que Soares de Moura me deu.
SAB
do e velho Pacheco, que tinha sido official
convencionado em Evora-Monte. Em Zimão,
na Gralheira e em Villa Pouca de Aguiar»
tambem acutilaram algumas pessoas; é até
algumas mulheres e treançasl
Os realistas haviam passado a noite de 31
em Villa Pouca: mas na manhan do dia se-
guinte, ouve-se o grito aterrador de— Os Ca-
braes!—Foge tudo, na maior desordem, na
direcção de Chaves, mas a uns 9 ou 10 ki-
lometros da villa, mudou de rumo, torcendo
para Ribeira de Pena.
Macdonell, chegando a um cabeço, cha-
mado Tapada do Ervedeiro, na descida da
serra do Mação, proximo à aldeia de S.
Payo, freguezia de Villa Pouca de Aguiar,
apeia-se e põe-se com o oculo a observar
os movimentos do inimigo, que se descobria
perfeitamente em uma planicie à nossa re-
ctaguarda.
Ao lado do Macdonell estava o seu estado
maor, que se compunha dos seguintes in-
dividuos:—Vietorino José da Silva Tavares,
brigadeiro, servindo de quartel-mestre-ge-
neral; Sebastião de Castro Lernos Magalhães
e Menezes, commandânte do pequeno bata-
lhão de voluntarios realistas de Estarreja—
seu irmão, Antonio Carlos de Castro (os fi-
dalgos do Côvo)—José Maria d'Abreu, ir-
mão do coronel Francisco de Abreu (de
quem já fallei) ajudante d'ordens do gene-
“ral—Manoel Negrão (filho do desembarga-
dor Negrão) ajudante d'ordens—e Ferreira
Rangel (o escrivão fidalgo) idlem—todos mon-
tados.
As forças realistas já hiam longe, e toda
esta gente—que, como se vê, era a princi-
pal—estava separada da sua tropa.
Debalde expunham ao escocez o perigo
em que estavam, elle teimava em conser-
var-se no mesmo sitio, e respondia—«Eu
sei o que faço.» —
Talvez não soubesse muito bem, por-
que nunca sahia do seu quarto de cama,
sem ter bebido uma boa porção de aguar-
dente.
Os cabralistas avançavam sempre, e quan-
do o sequito do Macdonnell viu que elles es-
tavam apenas a alguns passos de distancia,
fugiram a toda a brida.
SAB 287
Antonio Carlos ide Castro, que ainda se
demorou alguns momentos, a ver se conven-
cia o general a retirar, deveu á velocidade
doseu cavallo, escapar a uma morte tão hor-
rivel como ingloria.
Só o infeliz Ferreira Rangel, levado de
uma mal entendida quanto mal empregada
abnegação, dissera aos que lhe pediam que
fugisse— «Hei de morrer onde morrer o meu
general.» —
Um sargento e trez soldados de cavallaria,
cabralistas, são os primeiros que chegam ao
pé do Macdonell, e este offereçe a sua espa-
da ao sargento, que lhe responde com uma
cutilada. O general diz-lhe:— «Ob, eu sou o
general Macdonell.»— Outra cutilada. — «Eu
quero fallar ao general Vinhaes.»—Uma es-
tocada, que o mata.
O desgraçado Rangel ainda se defendeu
por alguns momentos, mas o que podia fa-
zer um velho, contra quatro cavallarias e
elle apeado? Teve a sorte do Macdonell.
O sargento, occupou-se logo em saquear
o general, roubando-lhe 33 peças, em ouro,
que tinha recebido em Amarante, e o mais
que já trazia; o collete, que era bordado à
ouro,'e as esporas, que eram de prata. (São
os prós dos carrascos.) Os trez soldados lhe
roubaram o resto, assim como ao Rangel,
deixando-os a ambos apenas em camisa e
seroilas.
O povo os enterrou (diz-se que por ordem
de Vinhaes) na ermida de Santo Amaro, da
aldeia de Sabroso, a 9 kilometros de Villa
Pouca, e da freguezia da Varêia de Bórnes,
concelho de Villa Pouca. (Em Sabroso ain-
da ha outra capella, da invocação de Nossa
Senhora do Lorêto, particular.)
Assim terminou a existencia, um homem
que, se não fosse traidor nem bebado, tal-
vez n'aquella conjunctura tivesse feito algu-
ma cousa a favor do partido legitimista, pe-
1 Macdonell tinha quasi 80 annos e Ran-
gel, 60. Estes dois assassinatos foram pois
estupidamente cobardes e infames. Só cabra-
listas seriam capazes de praticar um acto
tão deshonroso para um militar portuguez!
Quanto mais, era evidentissimo que o esco-
cez se queria entregar, visto estarem conse-
guidos os fins a que veio—a intervenção es-
trangeira.
288 SAB
lo menos, obter uma capitulação vantajosa
para os realistas. 1
O sequito do general, foi reunir-se à for-
ça, que esperava na Ribeira de Pena, e q Vi-
nhaes não se atreveu a atacar ali os realis-
tas, apezar de estarem bem proximos, e ain-
da no concelho de Villa Pouca d'Aguiar.
Da Ribeira de Pena, marchou a força pa-
ra Cavêz (concelho de Cabeceiras de Basto)
e d'alli se foi reunir ao general Soares de
Moura, que estava em Guimarães, e já tinha
feito a juncção com as tropas republica-
nas.
Assim acabou a revolta miguelista de 1846,
tão mal principiada, como pessimamente di-
rigida; porém o fim do Saldanha e dos ca-
bralistas estava conseguido—era a interven-
ção da Hespanha, França e Inglaterra, alle-
gando para o conseguirem, que os revolto-
sos tentavam collocar no throno o monarcha
exilado. ;
SABROSO—monte, Minho, proximo e em
frente de Citania de Briteiros.
(Vide Briteiros, Citania, e Romão de Bri-
teiros (São)—Fica a 3 kilometros das Tay-
pas.
O sr. doutor Francisco Martins Sarmen-
to, de Guimarães, do qual já mais de uma
vez tenho fallado com louvor, n'esta obra,
não satisfeito com os incommodos pessoaes,
e com os sacrifícios pecuniarios a que o tem
levado o seu amor pela archeologia, mandou
tambem, em setembro de 1877, principiar
as escavações n'este monte de Sabroso, onde
ha muitos e claros vestigios de uma povoa-
ção destruída, e que existiu em eras remo-
tissimas.
O sr. Sarmento, tem aqui achado monu-
mentos que parecem ainda mais antigos do
que os achados no monte de S. Romão de
Briteiros (a Citania de que tanto se tem fal-
lado.)
Eis o final de uma carta que este incan-
savel investigador escreveu, em 1878, ao sr.
Manuel Maria Rodrigues:
1 Foi a primeira vez que se viu morrer
ferido, o general deuma força qualquer, sem
ser ferido ou prisioneiro um só dos seus
soldados.
SAB
«O typo das construcções de Sabroso é em
geral o da Citania, mas ha aqui-suas diffe-
renças.
«As casas circulares, por exemplo, algu-
mas são cercadas até certa altura por outra
parede circular, só com a face para fóra e
que não sei para que serviam, porque não
reforçam de certo as paredes principaes da
casa.
«Mesmo no planalto, algumas casas estão
soterradas 2 e meio a 3 metros. Em uma es-
cavou-se até à profundidade de quasi 3 me-
tros, encontrando-se sempra carvão, fra-
gmentos de ossos e de louça, sem chegar ao
fim.
«Para o anno escavarei mais fundo.
«O carvão e ossos são abundantissimos,
mas os fragmentos dos ossos, infelizmente,
são miudissimos.
«Faz reflectir o seguinte: em Sabroso não
encontrei ainda, nem fragmentos de telha,
nem de amphoras, nem de louça vermelha,
nem de vidro, e, cousa não menos digna de
notar, quasi toda a ornamentação da louça
é differente da da Citania.
«Objectos de bronzesencontrei, no pouco
tempo que escavei, um terço dos que tenho
reunido na Citania.
«Entre elles figura um braceléte de estylo
celtico, se não nos enganam os especialistas,
um broche tambem curioso e uma agulha
do tamanho e fórma das nossas agulhas al-
bardeiras. Do mais, fibulas, alfinetes e ou-
tros fragmentos inclassificaveis.
«A muralha não é destacada como as da
Citania; é como um muro de supporte ao
planalto, onde ficava o forte da povoação.
Julguei que seria de pouca altura e mandei
descobrir um lanço: d'ella. Appareceu-me
uma muralha, que na parte conservada tem
37,34 de altura; mas se a completarmos até
onde ella ia primitivamente, como o mostra
a fieira de pedras que fórma a aresta da
planura, temos 57,10 e de largura 4",501
«Ao pé da muralha, a escavação deu mui-
to caco, muito carvão, objectos de bronze e
de ferro, que parecem aceusar ainda um fei-
tio de armas, e um pequeno machado de pe-
dra polida, esverdeada.
«Este machado, da fórma muito conheci:
SAB
da dos Machados de silex, parece pelas suas
pequenas dimensões não ser uma arma, mas
um amuleto, ou um objecto pertencente ao
culto.
«Lembrareique na Citania, tenho uma ca-
beça de boi, de pedra, e um focinho do mes-
mo animal. A cabeça, na parte posterior,
mostra evidentemente que encaixava em um
corpo, que ha muito anno, de certo, foi feito
pedaços.
«Fui ver uma pedra que pertenceu a Sa-
broso e hoje estã em casa de um lavrador.
Tem 2,06 de largo e 0,92 de alto. Ao centro
vê-se um sulco, com o rebaixe de 07,02; e dos,
lados, em direcção ao mesmo sulco, outros
dois com o rebaixe, começando (de dentro
- para fóra) n'uma pollegada e acabando em
zero.
«Esta pedra estava, dizem, sustentada por
duas outras cylindricas, uma das quaes vi.
Tem de alto 0,95, e de diametro 0,16. Ape-
zar das difíerenças que existem nella, não
me sahe da ideia que esta pedra tinha uma
applicação identica à da Pedra Formosa.
«Existe ainda um pedreiro que a viu no
sitio em que se achava. Hei-de chamal-o e
tractar de saber ao certo 0 local que ella oc-
cupou, para o explorar cuidadosamente.
É possivel que em Sabroso esteja a chave
de muitos enigmas da Citania. Para o anno
vou atacal-o com coragem. A illustre cama-
Ta vimaranense já me deu ampla licença pa-
ra escavar o morro e marcar alguns pene-
dos, onde, como na Citania, estão gravados
circulos concentricos e outros signaes, sal-
vando-os dos montantes e dos lavradores vi-
sinhos, que já não levaram pouco ladrilho e
“pedraria.
«Ora aqui tem o meu amigo o que me
deu este anno a archeologia. Pouco é, mas
se só bastasse dar duas cavadellas para en-
contrar thesouros, quem não entraria n'esta
faina? Seu, etc. —P. Martins Sarmento.
SABUDO —portuguez antigo, sabido.
SABUGA — famosa fonte, Extremadura,
junto à villa de Cintra.
A sua architectura nada tem de notavel,
mas é afamada pela salubridade e frescura
da sua agua, que é sempre fria de neve,
SAB 289
mesmo ao meio dia, nos dias mais calmo-
sos de verão.
caes
Vem aqui a talho de fouce, respunder a
um anonymo, que ha poucos dias me escre-
veu uma carta muito delicada, fazendo gran-
des elogios a esta obra, mas accusando-me
de mencionar cousas de pouca valia, dei-
xando no esquecimento outras mais impor-
tantes.
Como o anonymo é sobremodo cortez na
sua queixa, respondo-lhe:— Tem razão; mas
eu não sou Deus, nem o diabo. Escrevô de
tudo quanto vejo que póde dar algum inte-
resse à obra; mas só d'aquillo de que posso
obter informações, ou que vou examinar
com os meus proprios olhos. Não adivinho:
se tivesse esse condão, muito mais perfeita
seria esta obra, porque todo o meu desejo é
que ella satisfaça os meus loitores, e que eu
cumpra o que lhes prometti nos prospe-
ctos.
Tenho feito todas as diligencias para isso,
e, se o não tenho conseguido, a culpa, em
grande parte, cabe a muitas pessoas a quem
me tenho dirigido, a pedir informações, e
que me não dão resposta.
N'este numero (com magua o digo), en-
tram muitos reverendos parochos, que se
teem recusado tacitamente, a satisfazer aos
pedidos que com toda a humildade lhes te-
nho feito, e que mostram bem pouco amor
às cousas da sua freguezia, pois nem se di-
gnam responder |. às minhas cartas. Dei-
xal-os.
SABUGAL villa, Beira Baixa, cabeça da
comarca e do concelho do seu nome, 120 ki-
lometros ao S.E. de Lamego, 30 da Guarda,
300 ao E. de Lisboa.
Tem 350 fogos.
Em 1757, tinha 248.
Orago, S. João Baptista.
Bispado de Pinhel, districto administrati-
vo da Guarda.
Esta villa é composta de duas e ig
hoje unidas:
São João Baptista, que é a actual Mas
triz.
Em 1757, tinha 123 fogos.
290 SAB
A mitra apresentava o abbade, que tinha
2008000 reis.
Nossa Senhora do Castello, que em 1757,
tinha 125 fogos.
Tambem era abbadia da mitra, e o abba-
de tinha 1508000 réis.
O concelho do Sabugal, é composto de 44
freguezias, sendo 29 no bispado de Pinhel,
que são:
Aldeia da Ponte, Aldeia do Bispo, Aldeia
da Ribeira, Aldeia Velha, Alfaiates, Bismul-
la, Badamallos (ou Badamalhos), Bemdada,
Cerdeira, Foyos, Forcalhos, Lageosa, Malha-
da Sôrda, Miusella, Nave, Nave d'Aver, Pa-
rada, Porto d'Ovelha, Quadrazaes, Rendo,
Rebolosa, Ruivoz, Sabugal, Souto, Valle de
Espinho, Villa Bôa, Villar Maior, Valle de
Eguas e Valle Longo.
No bispado da Guarda 15, que são:
Aguas Bellas, Castelleiro, Lomba, Malcata,
Moita, Pena Lobo, Pousa Folles, Quintas, Ra-
poula do Côa, Ruvina, Santo Estevão, Seixo
do Côa, Sortêlha, Urgeira, e Villa do Touro.
Todas com 7:800 fogos.
Este concelho tinha ainda mais 13 fre-
guezias, todas do bispado de Pinhel, que
pertencem agora ao concelho d Almeida.
São:
Ade, Aldeia Nova, Amoreira. Azenhal, Ca-
breira, Castello Mendo, Freixo, Leomil, Mon-
te Perobolso, Mesquitella, Mido, Pêva, e Se-
nouras.
(É preciso ver Castello Mendo, por causa
das freguezias que foram para o concelho
d'Almeida.)
A comarca do Sabugal é composta só do
seu julgado.
Está a villa edificada em uma planicie,
proximo ao Rio Côa, que a rega pelo sul.
É a principal povoação do districto deno-
minado Riba Côa, ficando a distancia de 6
kilometros da villa de Sortélha, 60 ao S.E.
de Castello Branco, e 18 ao N.E. da raia de
Hespanha.
Era uma das povoações que em 1282 pas-
saram para a corôa de Portugal, como dote
da rainha Santa Isabel, filha de D. Pedro III,
rei de Aragão, e mulher do nosso rei D. Di-
niz.
Fazia até então parte da Estremadura hes-
SAB
panhola, e pertencia ao bispado da Ciudad
de Rodrigo.
Segundo a maior parte dos escriptores,
foi fundada por Affonso X de Leão, em 1220,
dando-lhe o nome de Sabugal, pelos muitos
sabugueiros que aqui havia.
É porisso que as suas armas são: .
Em campo azul, um sabugueiro da sua
côr, tendo á esquerda uma chave d'ouro,
alludindo ao seu castello.
Estas armas lhe foram dadas pelo rei D.
Diniz.
Esta villa é celebre pelos muitos factos
historicos n'ella occorridos—mencionarei os
principaes.
Em 1224, aqui assentaram pazes, estan-
do prezentes, D. Sancho II, de Portugal, e
D. Fernando III, de Castella.
Em 1287, tambem tiveram uma entrevis-
tano Sabugal, o nosso rei D. Diniz, e D. San-
cho, o Bravo, rei de Castella.
Em 1328, ajustado o casamento da nossa
infanta D. Maria, filha primogenita de D. Af-
fonso IV, e da rainha D. Brites (filha de D.
Sancho IV, de Castella) com o rei D. Afion-
so XI, de Castella, sahiu a noiva de Coim-
bra, acompanhada por seus paes, e pela rai-
nha Santa Isabel, sua avó.
Chegou a real comittiva ao Sabugal, e ahi
se demorou alguns dias, para receber a in-
fanta D. Leonor, irmã do rei casteihano, que
veiu com um brilhante séquito, para visitar
a Rainha Santa, que era tambem sua avó, e
os reis portuguezes, seus proximos paren-
tes. ;
Houve por esta occasião muitas e luzidas
festas, em obsequio dos reaes hospedes, que
d'aqui partiram para a villa d'Alfaiates, pro-
ximo da fronteira da Extremadura, que en-
tão pertencia aos reis de Leão, e a essa vil-
la chegou D. Affonso XI, e se celebrou na
egreja matriz o ajustado casamento.
Estas festas e alegrias, du-
raram bem pouco tempo; por-
que ainda no mesmo anno de
1328, houve guerra entre Por-
tugal e Castella, havendo gran-
des perdas de parte a parte.
Terminou esta campanha pelo
casamento do infante D. Pe-
SAB
dro, filho de D. Affonso IV,
com a infante D. Constança,
filha do infante D. João Ma-
noel, ainda em 1328.
D. Constança morreu em
1345.
O rei D. Diniz, logo que recebeu as po-
voações leonezas que sua mulher lhe trou-
xe em dote, tratou de fortificar todas as que
julgou serem pontos mais importantes, em
caso de guerra com leonezes ou mouros.
Pelos annos de 1296, mandou construir o
forte castello de Sabugal, e no centro d'elle
a torre de menagem, de grande altura, e de
fórma pentágona, e no fecho da sua mais alta
abobada, mandou collocar as armas de Por-
tugal, e por baixo d'ellas, esta inscripção:
ESTA FEZ EL-REI D. DINIZ,
QUE ACABOU TUDO O QUE QUIZ;
E QUEM DINHEIRO TIVER,
FARA” TUDO O QUE QUIZER.
É tambem alludindo á fórma estramboti-
ca d'esta torre, que em quasi todo o reino se
canta esta quadra:
Castello de cinco quinas
Não o ha em Portugal,
Senão junto ao rio Gõa,
Na villa do Sabugal.
Tambem foi o rei D. Diniz que deu foral
a esta villa, estando elle em Trancoso, a 10
de novembro de 1296.
(Livro 2.º das Doaçõss do rei D. Diniz, fl.
128, col. 1.2)
O “rei D. Manuel lhe deu foral novo, em
Lisboa, no 4.º de junho de 1545.
(Livro dos foraes novos da Beira, fi. 127,
col. 2.2)
Este forál é tambem o de Forcalhos,e
Souto da Silva.
Como quasi todas as nossas povoações da
raia, Sabugal foi couto do reino.
(Vide o 4.º Couto, no vol. 2.º, pag. 445,
col. 4.º)
Grande feira a 25 de julho.
Misericordia e hospital.
SAB 294
Ainda que de clima excessivo, é terra sau-
davel, e muito fertil em todos os generos
agricolas do paiz.
Muito gado, de todas as qualidades, cêra
e mel; caça grossa e miuda, e peixe do
Côa.
O primeiro senhor d'esta villa, foi o infan-
te D. Pedro, filho do rei D. Affonso, o Sabio,
de Leão.
Depois, foi senhor do Sabugal, o infan-
te D. Fernando, filho do nosso rei D. Ma-
nuel.
O 4.º conde do Sabugal, foi D. Duarte de
Castello Branco, feito por D. Philippe II, em
20 de fevereiro de 1582.
(Vide adiante, onde trato dos condes de
Obidos, Palma e Sabugal.)
Em 41708, era senhor do Sabugal, D. Fer-
nando Martins Mascarenhas, que procede de
Estevam Rodrigues Mascarenhas, primeiro
povoador, e senhor de Mascarenhas, em Traz-
os-Montes, no reinado de D. Sancho I.
É progenitor dos condes d'Obidos e Sa-
bugal.
Os romanos davam ao rio Côa, o nome
dei Cuda, e porisso aos povos que estancea-
vam na sua margem esquerda, denomina-
vam cudanos, e aos da direita, transcuda-
nos.
Frei Bernardo de Brito (Geographia Lu-
sitana) diz que as aguas do Côa, são excel-
lentes para tingir lans e caldear o ferro; mas
que são pezadas para beber, e de má diges-
tão; que causam tristeza e dores de cabeça
e do ventre; que fazem obtuzo o intendimen-
to; e que offendem o rosto aos que se lava-
rem com ellas.
Apezar d'estes inconvenientes (dado se-
rem verdadeiros) o Côa rega e fertiliza os
campos das suas margens, fazendo-os pro»
duzir, com abundancia, cereaes, fructos (es-
pecialmente castanhas) linho e optimas pas
tagens, onde se cria e engorda muito gado
de toda a qualidade.
(Vide Góa, vol. 2.º, pag. 314, col. 4.º)
Na serra da Marvana, por cima de Valle
292 SAB
Bolido, e em frente de Quadrazaes, nasce o
rio Baságueda.
(Vide esta palavra).
O general francez Massena, tendo recebi=
do um reforço de 30:000 homens, nem as-
sim tenta forçar as linhas de Lisboa, e retira
a 5 de março de 1811.
O marechal inglez Beresford, com uma di-
visão de portuguezes e inglezes, segue 0 ini-
migo, e o ataca no Pombal, Redinha e Foz
dArouce.
Massena marcha sempre em retirada, mas
os portuguezes o continuam a seguir, € a 3
d'abril o atacam nas planicies do Sabugal,
obrigando-o a fugir para a Extremadura
hespanhola, no dia seguinte.
No tempo de D. Pedro I, era senhor d'um
grande olival, no termo d'esta villa, um tal
D. Alvaro, que tomou o appellido, da terra
do seu senhorio.
É pois este D. Alvaro do Olival, o proge-
nitor das familias que teem o seu appel-
lido.
As armas dos Olivaes, são:
Em campo de prata, duas oliveiras da sua
côr, em faxa, com azeitonas d'ouro: élmo de
aço, aberto; e por timbre, uma das oliveiras
do escudo.
Para não fazer este artigo ainda mais ex-
tenso, vide Sacaparte.
Ha n'este concelho, minas de mercurio,
cobre, ferro e outros metaes.
Nos limites do logar de Ruivoz, termo d'es-
ta villa, e junto a uma anta, foram, em 1756,
achados, pelo padre José Gaspar Simões, va-
rios machados de pedra (amphibole cinzen=
ta e verde) e facas de silex (pederneira) que
estão no museu archeologico d'Evora.
- Isto prova que estes sitios são habitados
desde os tempos da edade de pedra, ou pre-
historicos.
A villa do Sabugal, é considerada como
cabeça do territorio-denominado Riba-Cóa
ou Cima-Góa, que pertencendo até 1400 ao
SAB
bispado da Cidade de Rodrigo (Extremadu-
ra hespanhola, e antigo reino de Leão) se
lhe deu, quando vieram para Portugal va-
rias das suas povoações, o titulo de Bispado
novo. !
(Vide adiante, onde trato de Riba-Góa.)
Este territorio, quando ficou sendo portu-
guez em toda a sua extensão, foi unido ao
bispado de Lamego; mas depois, foi dividido
pelos trez bispados, de Lamego, Guarda, e
Pinhel.
Como praça de guerra fronteira, foi im-
portantissima até ao seculo 47.º, tendo sem-
pre um governador militar (além do alcai-
de-mór) e uma boa guarnição de tropa.
O Sabugal, exultou com a mudança de
nacionalidade, e tanto que, ainda no reina-
do de D. Diniz, se formou aqui uma compa-
nhia de cavalleiros, como ordem militar, na
qual entravam todos os moradores da villa
e seultermo, que podiam ter cavallo, e se
obrigava cada um a pagar uma libra áquel-
le a quem morresse o cavallo; é o que cres-
cia, se guardava no deposito da companhia
para os seus gastos commuas; isto sob pena
de 50 libras, ao que faltasse, e com poder
executivo para o seu mórdomo cobrar o im-
posto, passados 15 dias.
Condes do Sabugal,* de Obidos
e da Palma, com honras de parentes
(Foram tambem condes d' Azinhoso)
Ja no artigo Obidos, e a pag. 486, col. 2.º, |
do 6.º volume, tratei dos condes d'Obidos da |
Palma e do Sabugal, que hoje são represen- |
tados pelo sr. conde do Sabugal.
Aqui direi mais apenas o seguinte:
A este ramo da familia Mascarenhas (que |
era tambem a dos duques de Aveiro emar- |
1 Deu-se-lhe o nome'de Bispado Novo, de-
pois que a maior parte das freguezias de |
Riba-Côa, passaram a formar o bispado de
Pinhel, creado em 1774.
2 Aos condes do Sabugal dá-se vulgar-
mente. a denominação de condes-meiri- |
nhos-móres. Veja se no 5.º vol., pag. 162, |
col. 4.2, onde se dá a razão porque à estes
condes se dá o nome de condes-meirinhoss |
m Óres. É
/
SAB
quezes de Gouveia)foi dada, por D. João II,
em 27 d'abril de 1523, a alcaidaria-mór de
Óbidos; e pelo mesmo monarcha, logo no dia
seguinte, a alcaidaria-mór de Selir. O titulo
de meirinho-mór, pelo mesmo D. João IH,
em 43 de junho de 1536. O titulo de conde
do Sabugal foi dado por D. Philippe H, a
920 de fevereiro de 1582. O titulo de conde
de Palma, foi dado por D. Philippe IV, a 30
de março de 1624-—Dom Vasco Mascare-
nhas, foi feito conde d'Obidos, por D. Phip-
pe IV, em 22 de dezembro de 1636.
D. Brites Mascarenhas, filha e herdeira de
D. João Mascarenhas, 2.º conde de Palma, e
3.º conde do Sabugal, casou com D. Fernão
Martins Mascarenhas, conde d'Obidos, e as-
sim se uniram, até hoje, os trez condados.
O 1.º conde d'Obidos era tambem alcaide-
mór da villa d'este nome.
Em 8 de fevereiro de 1839, foi feita con-
desa do Sabugal, Obidos, e Palma, a sr. D.
Eugenia d'Assis Mascarenhas.
Em 44 d'agosto de 1839, foi feito conde
dos mesmos trez condados, o sr. D. Pedro
de Souza Coutinho.
Em 27 de setembro de 1859, teve os mes-
mos titulos, de juro e herdade, o sr. D. Ma-
nuel d'Assis Mascarenhas de Souza Couti-
nho.
Em 28 de fevereiro de 1867, foi feito conde
dos trez condados, de juro e herdade, o sr.
D. Luiz d'Assis Mascarenhas.
Para as armas d'esta fami-
lia, e para o mais que della
se quizer saber, vide Obidos.
Vide tambem Meirinho-mór.
José Alexandre de Campos e Almeida
Nasceu n'esta villa, em 17 de novembro
de 1794. Fez os seus primeiros estudos, em
casa de seu avô, que era capitão-mór do Sa-
bugal.
Matriculou-se em direito, na universidade
de Coimbra, em outubro de 1812.
Foi um dos estudantes mais distinctos do
seu tempo, sendo-lhe conferido em todos os
annos, menos no 4.º, o premio pecuniario.
O desejo de instruir-se e a sua inclinação
para as sciencias naturaeés, o levou tambem
VOLUME VIII
SAB 293
a matricular-se no 4.º anno philosophico,
que combinou com o juridico, e obteve
egualmente o premio pecuniario em todos
os annos, o qual com a maior caridade ce-
deu para o resgate dos portuguezes capti-
vos em Argel. Obtido o grau de doutor (de
capéllo) foi pouco depois habilitado opposi-
tor às cadeiras da faculdade de direito.
Seguiu sempre a politica liberal, e em 12
de maio de 1834 foi nomeado vice-reitor da
universidade.
Foi deputado às côrtes, desde 1834, até
1842, fazendo-se notar pela sua vasta eru-
dicção e louvavel independencia.
Redigiu um plano para reforma dos es-
tudos, que foi plenamente approvado pelos
decretos de 15 e 17 de novembro e 5 de de-
zembro de 1836, e que seria de grande van-
tagem para a instrueção geral, se não fosse
depois, em grande parte, mutilado.
Foi presidente da camara dos deputados,
desde 3 de junho até 10 de agosto de 1837,
sendo n'este dia nomeado ministro e secre-
tario de estado dos negocios ecclesiasticos e
da justiça, logar que exerceu com grande
inteligencia e honradez.
Exonerado em 1842, foi para a universi-
dade, reger a cadeira de economia politica,
disciplina que havia ereado, e que era in-
teiramente nova entre nós, desempenhan-
do-se d'esta disciplina, com geral applauso.
Em 1823, havia sido preso por causa das
suas opiniões politicas, e remettido para 0
Limoeiro, sendo poucos dias depois, posto
em liberdade.
Tomando parte na revolta de 16 de maio
de 1828, esteve preso na cadeia d'Almeida,
até 1894.
Em 1845, tornou a ser preso, por ordem
do governo cabralista, sendo barbaramente
tratado, a bórdo da fragata Diana, e soffre-
ria os horrores do brigue Audaz, se um aca-
so providencial não houvesse demorado a
sua viagem, da Figueira para Lisboa.
Esteve preso até julho de 1847, sendo en-
tão solto, em consequencia da convenção de
Gramido.
Vendo a mã direcção que levavam os ne-
gocios politicos, retirou-se à sua casa de
Villar Torpim, d'onde não tornou a sahir,
19
294 SAB
fallecendo a 21 de novembro de 1850, de-
pois de longos e dolorosos padecimentos, ex-
acerbados pelo muito que soffreu quando
foi preso em 1847, pois, estando doente de
cama, foi d'ella barbaramente arrancado, no
rigor do inverno, e conduzido pela serra da
Estrella (então coberta de neve) e d'alli pa:
ra Viseu, Oliveira de Azemeis, Coimbra,
Figueira, e por mar para Lisboa; de modo
que a sua morte foi causada pelas cruelda-
des que sobre elle haviam exercido os que
desde 1820 até 1842 haviam seguido a sua
politica.
Felizmente para elle, morreu como bom
christão e fervoroso catholico, pois pediu e
recebeu os sacramentos da egreja, com a
maior contrição, no dia 418, trez dias antes
do seu fallecirento.
Pouco antes da sua morte, deu as ordens
que julgou convenientes, com respeito ao seu
funeral, que, em vista das suas ultimas dis-
posições, foi destituido de toda a, pompa.
Sepultou-se a 23, no cemiterio publico da
freguezia de Nossa Senhora dos Prazeres, de
Villar Torpim.
Foi do conselho de Sua Magestade; minis-
tro e secretario de estado honorario; com-
mendador da Ordem de Nossa Senhora da
Conceição de Villa Viçosa; lente cathedrati-
co da faculdade de direito da Universidade
de Coimbra, membro honorario da socieda-
de pharmaceutica e da academia de bellas
artes. Tinha casado em 8 de julho de 1843,
com D. Josefa Marianna de Campos e Al-
meida, sua prima, senhora de rara coragem,
grandes virtudes e dedicação sublime, que
o acompanhou sempre e lhe serviu de anjo
tutelar durante a injusta e brutal persegui-
ção que soffreu desde fevereiro até julho de
1847.
A maior prova da honradez e probidade
de José Alexandre de Campos, é que, tendo
exercido tão altos e importantes cargos, não
deixou à sua viuva é a suas quatro filhas (a
mais velha das quaes não tinha ainda com.
pletado seis annos à morte de seu pae) se-
não o patrimonio que herdára, e esse mes-
mo bem mal reparado. Deixou-lhes, porém,
uma herança de mais valia, que foi um no-
me sem mancha.
SAB
Era seu irmão o dr. Pedro Balthazar de
Campos, que fallecendo em Pinhel, em 4870,
e não tendo herdeiros forçados, legou tudo
quanto possuia a sua sobrinha, a Sr.* D. Ma-
rianna, filha segunda de José Alexandre de
Campos, a qual casou com o sr. dr. Joaquim
Simões Ferreira, de Coimbra, cavalheiro de
muita illustração, que fixou em Pinhel a sua
residencia, para melhor poder dirigir os ne-
gocios da grande casa de sua esposa. (Vide
Pinhel.)
José Alexandre de Campos deixou impres-
sos os seguinte livros:
Os acontecimentos de março, na capital,
considerados nas suas causas e efreitos.
Memoria dedicada aos amigos da revolu-
ção de septembro. Esta publicação não tem
nome de auctor, mais foi-lhe sempre attri-
buida, e como obra sua a trazem Figaniere
na Bibliotheca historica, e Innocencio Fran-
cisco da Silva no seu Diccionario biblio-
graphico.
Dos numerosos discursos que pronunciou
na camara electiva, apenas se imprimiram
em separado :
Discursos de S. Ex.» o Sr. José Alexandre
de Campos, deputado pela Guarda, recitados
nas sessões de 27 e 80 de agosto de 1841, con-
tra a decima dos fundos publicos. Lisboa,
na typographia de José Baptista Morando,
18414. É em 8.º e consta apenas de 24 pagi-
nas.
(Dr. Pedro Augusto Ferreira, abbade
de Miragaia, no Porto.)
Riba Côa
As freguezias que estanceiam dentro da
circumscripção denominada Riba Côa ou Gi-
ma-Cõôa, e às quaes se deu antigamente o
nome de Bispado novo, foram até 1400 do
bispado de Cidade de Rodrigo, na Extrema-
dura hespanhola, e no reino de Leão.
É uma lingua de terra entre o Côa 60
Agueda! na sua embocadura no Douro, ten-
1 Não é o rio Águeda da provincia do
Douro, que nasce em Campia, e desagua no
Vouga, junto à ponte de Almear; mas sim
outro Agueda, da Beira Baixa, que divide
Portugal de Castella, e morre na esquerda
carrear
nd ese dana cena
SAB
do 90 Kilometros de comprido do N. ao S.,
e 24 de E. à O. na sua maior largura.
É limitado ao O. pelo Côa, e a E., é divi-
dido pela Extremadura hespanhola, subindo
pelo Agueda até ao rio Tourões, perto de
Villar-Maior.
Ao E. confina com o bispado de Cidade
de Rodrigo; ao N., pelo Douro, com o arce-
bispado de Braga; ao O., com o bispado de
Lamego; e ao 8. e O. com os de Viseu, Guar -
da e Castello Branco.
Os povos que habitavam esta região eram
denominados transcudanos, no tempo dos
romanos, € a sua capital era a famosa cida-
de de Caliábria, da qual ainda ha vestígios
no termo de Almendra. (Vide Calabria e
Urrôs.)
Segundo a tradição e memorias escriptas,
Caliabria era séde do bispado do seu nome,
cujos bispos, fugidos dos mouros, foram pa-
ra a provincia de Traz os Montes, onde fun-
dáram o bispado de Miranda, hoje de Bra-
gança; porém o districto de Riba-Côa, ficou
pertencendo desde o seculo XI ao bispado
de Cidade de Rodrigo, e só no reinado do
nosso D. João I, se conseguiu desannexal-o
de lá, por breve do pontifice Bonifacio IX.
Desde então ficou pertencendo ao bispa-
do de Lamego, até ao reinado de D. José 1.
Estando interrompida a communicação com
a corte do Roma, desde 25 de março de
17601 se abriram as communicações em
1770, sendo então creados, por breve do pa-
pa Clemente XIV, os bispados de Pinhel e
Miranda, o ephemero de Penafiel, e restau-
rado o de Beja.
No anno seguinte, e por breve do mesmo
papa, foi creado obispado de Castello Branco.
Foi pois em 14770, que do bispado de La-
mego sahiram a maior parte das parochias
do districto de Riba-Côa.
O territorio de Riba-Côa, comprehende 60
freguezias, que são:
do Douro, no logar de S. Martinho, fregue-
zia de Escalhão.
1 Em vista d'esta interrupção, o conde de |
Oeiras (depois, 1.º marquez do Pombal) man- |,
dou sahir de Lisboa o nuncio apostolico, em
15 de junho de 1760.
SAB 295
1.2 Aldeia do Bispo (do bispado de Pi-
nhel) ! situada em uma planicie, cercada de
montes, a 3 kilometros da nascente do rio
Lageosa. :
Esta freguezia, pouco mais produz do que
centeio.
Tem a capella de Santo Antão, abbade.
2.2-Aldeia da Ponte, tambem em plani-
cie, e do mesmo bispado de Pinhel.
A egreja matriz é de trez naves.
Tem as ermidas de Santa Barbara, S. Braz,
S. Sebastião, Santa Catharina, e a de Jesus
Christo Crucificado.
O rio Lezirom a réga e fertilisa.
É terra saudavel.
3.:—Aldeia da Ribeira, do mesmo bispa-
do, situada em um alto, d'onde se descobre
a cidade da Guarda, e Villar Maior.
É fertil em cereaes, e são excellentes os
seus queijos de ovelha e de cabra, das quaes
aqui ha grandes rebanhos.
kº-—Aldeia Velha, do mesmo bispado, e
foi commenda de Malta.
Egreja matriz de trez naves.
Ha no logar a ermida de Nossa Senhora
da Estrella, e fóra d'elle a de Jesus Christo
Crucificado.
É terra fertil e cria muito gado.
O rio Côa e um ribeiro anonymo regam
esta freguezia.
5.2-—Alfaiates, villa acastellada e murada
(tudo em mau estado) e foi praça d'ar-
mas.
É do mesmo bispado.
Foi dos condes de S. Vicente, mas voltou
à corôa.
Nasceram n'esta freguezia:
Ruy Tavares de Brito, cavalleiro de Ghris-
to, capitão de cavallos.
Foi um valoroso militar na Africa, e na
guerra da actlamação.
Seu filho, Gaspar Tavares de Brito, foi
mestre de campo, no reinado de D. João IV,
e militar muito distincto.
Gaspar de Távora e Brito, filho de João
Martins de Távora, e governador de Ben-
guella, ambos intrepidos guerreiros.
1 Os bispados de Pinhel e de Aveiro fo-
"ram creados em 4774, por breve do mesmo
- | pontifice, Clemente XIV,
296 SAB
Antonio de Távora, sargento-mór de bata-
lha, em Flandres.
Bernardino (ou Berrardim) de Távora, ca-
pitão de infanteria, e sargento-mór de Se-
tubal.
Outro Bernardino Je Távora, inquisidor
apostolico em Lisboa. ,
6.2 Algodres, do mesmo bispado.
Terra muito fertil.
Tem uma atalaya no meio da povoação e
um reducto junto à egreja.
Ha n'esta freguezia varias ermidas, sen-
do as principaes, Santa Cruz e Santa Bar-
bara.
72-—Almeida, praça d'armas, que foi ca-
beça de toda a provincia da Beira, no mili-
tar.
É do mesmo bispado.
Foi da casa do infantado. Fica a 2 kilo-
metros do rio Côa.
8.:—Almendra, do mesmo bispado. |
Situada em um extenso valle, a 12 kilo-
metros de Castello Rodrigo, e 12 de Villa No-
va de Foz-Côa.
Era dos condes (depois marquezes) de
Castello Melhor, por ser commenda de Chris-
to, que era d'elles.
Tem as capellas de Nossa Senhora do
Campo, Nossa Senhora do Soccorro, de São
Pedro, e de S. Sebastião.
Terra fertil, e cria muito gado.
Tem uma antiga fortaleza, e d'entro della,
a praça, o pelourinho, a casa da camara e
cadeia, e a torre do relogio.
Pretendem alguns que foi aqui a cidade
de Ravêna, na qual foi martyrisado Santo
Apolinario, bispo; não o de Ravena, na Ita-
lia, cuja festa é a 23 de julho, mas o que
foi bispo de Caliabria, cuja festa é a 13 de
agosto, e do qual os restos mortaes estão
na freguezia de Urrôs.
9.2 Almofala, do mesmo bispado, situa-
da em um valle, a 3 kilometros do rio Águe-
da.
Terra fertil.
Tem as capelias de Santa Martha, dentro
da povoação, e fóra della as do Senhor Cru-
cificado, S. Sebastião e Santa Barbara. San-
ta Maria Magdalena, na quinta do Colmeal;
e a de Santo André.
SAB
É terra fertil em cereaes.
O rio Agueda divide aqui Portugal de Cas-
tella.
Produz este rio alguns saveis e lampreias,
e peixo miudo.
102—Badamalhos ou Badamallos, do mes-
mo bispado.
Situada em alto, a 3 kilometros do Côa, e
fertil.
No meio do povo tem os restos de um re-
ducto.
112—Bendada, do mesmo bispado. É no
termo da Reigada.
12.2—Bismulla ou Pisnulla, do mesmo
bispado.
Tem as ermidas de Santo Andrê e Santa
Barbara.
Tem os restos de um reducto, que cerca-
va a egreja matriz, e os de uma atalaya.
Terra fertil; muitas ovelhas, cabras e
porcos.
É regada pelo rio Souto.
13.2 Castello Bom, villa do mesmo bis-
pado. Fica.a 12 kilometros de Almeida, em
um alto, d'onde se avista esta praça.
É cercada de muralhas, que foram muito
fortes, mas que estão desmanteladas.
No centro estão os restos do castello, do
qual foram alcaides-móres os viscondes de
Villa Nova da Cerveira, marquezes de Pon-
te de Lima.
Fóra da circumvallação ha as ermidas de
Santa Martinha, Santa Maria Magdalena, e
S. Sebastião.
Ainda existe a torre de menagem, que de-
pois serviu de cadeia.
É terra bastante fertil.
O Côa divide o termo d'esta villa do de
Castello Mendo.
, Ah.2—Gastello-Melhor, villa, do mesmo
bispado.
O seu terreno parte com o de Villa Nova
de Foz-Côa.
A villa está situada em um baixo, porém
o castello, que lhe dá o nome, está no alto
de um monte, com dilatadas vistas.
(Do alto da serra de Castello-Melhor se
descobrem territorios de sete bispados.)
Ha n'esta freguezia as capellas de Nossa
Senhora das Eiras, Santa Barbara, e S. Ga-
SAB
briel Archanjo. (Vide 2.º vol. pag. 180, col.
2.2)
Marquezes de Castello-Melhor
O primeiro conde de Gastello-Melhor foi
Ruy Mendes de Vasconcellos, feito por D.
Philippe III, em 21 de março de 16114, se-
gundo D. Antonio Caetano de Sousa— Memo -
morias hastoricas e genealogicas dos grandes
de Portugal, pag. 345. 1
Ruy Mendes de Vasconcellos tinha herda-
do de seus maiores o emprego de repostei-
ro-mór dado por D. João T, em 27 de abril
de 1421— o senhorio da villa da Calhéta (na
ilha da Madeira) dado por D. Affonso V em
25 de novembro de 1451-—e o senhorio de
Castello-Melhor, por mercê do mesmo D.
Affonso V, a 16 de agosto de 1478.
Foi tambem mórdomo-mór da rainha D.
Margarida d'Austria, filha de Carlos de Aus-
tria, irmão do imperador Fernando II, e mu-
lher de D. Philippe III. (Isto mais confirma
a verdade de que foi este usurpador que lhe
deu o titulo de conde.)
O 2.º conde foi D. João Rodrigues de Vas-
concellos e Sousa, por ter casado com D.
Marianna de Lencastre e Vasconcellos, her-
deira de seu irmão, o conde da Calhêta, e fi-
lha de Simão Gonçalves da Camara, 3.º con-
de da Calhêta, e 7.º capitão donatario da ilha
da Madeira, casado com a condessa D. Ma-
ria de Menezes, filha e herdeira do 1.º conde
de Castello-Melhor.
O 3.º conde foi Luiz de Vasconcellos e
Sousa.
O 4.º conde foi José de Vasconcellos e Sou-
sa Gaminha Camara Faro e Veiga, repostei-
ro-mór, senhor donatario da capitania do
Funchal (Madeira) e da de Santa Maria; se-
nhor das villas de Ponta do Sol, Camara de
1 Na Resenha das familias titulares do
reino de Portugal, pag. 69, diz-se que o pri-
meiro conde de Castello- Melhor, foi feito em
20 de agosto de 1576. Portanto, não foi feito
por D. Philippe LI, mas por el-rei D. Sebas-
tião. E engano: e até D. Antonio Caetano de
Sousa diz que a carta de mercê foi passada
em Madrid. Quanto mais, Ruy Mendes de
Vasconcellos foi mórdomo-mór da mulher
de Philippe III, e valido d'este.
SAB 297
Lobos e Calhéta—tudo na mesma ilha—e das
Ilhas Desertas, em frente da Madeira e da
ilha de Porto Santo, n'este archipelago. Em
Portugal era senhor donatario das villas de
Almendra, Castello Melhor, Valhêlhas, Gon-
calo e Famalicão (da Beira Baixa), senhor
dos morgados da Mouta Santa, Tajujes e Ro-
nafe; senhor donatario das Saboarias de
Coimbra, Thomar e Esgueira; e das comar-
cas de Lamego, Viseu, Guarda e Pinhel; e
das conquistas do Ultramar; alcaide-mór das
villas de Pombal, Penamacor, e Salvaterra do
Extremo; commendador do Pombal, Redi-
nha, Fachal, e Salvaterra do Extremo, todas
da ordem de Christo.
5.º conde, Luiz de Vasconcellos e Sousa, ir-
mão do antecedente. (Vide 2.º vol., pag. 180,
col. 2.2-—4.º vol. pag. 136, col. 2.:—e 7.º vol-
pag. 140, col. 4.º) |
O condado de Castello-Melhor foi elevado
ao titulo de marquezado, por D. José I, em
4 de septembro de 1765.
O ultimo marquez de Castello-Melhor foi
João de Vasconcellos e Sousa Camara Cami-
nha Fáro e Veiga, feito em 6 de abril: de
1859 (de juro e herdade).
Morreu em Lisboa, em 1878, no estado
de solteiro.
“45.:—Castello Rodrigo—do mesmo bispa-
do. (Vide vol. 2.º, pag. 186, col. 2.2)
16.2— Cinco-Villas—villa, no territorio do
mesmo bispado, mas isenta, por pertencer à
prelazia de Thomar, annexa ao patriarchado
de Lisboa. (Vide 2.º vol.. pag. 300, col. 2.º)
Egreja matriz de trez naves. Ha n'esta fre-
guezia as capellas de Nossa Senhora do Pran-
to, S. Sebastião, e S. Julião do Pereiro, onde,
segundo a Monurchia Lusitana de Fr. Anto-
nio Brandão (tom. 3.º, L.º X.º, cap. 37) se
fundou a ordem militar de S. Julião do Pe-
reiro, quando o Riba-Côa era ainda do rei-
no de Leão, e estava fronteira a terra de
mouros.
Esta ordem foi fundada em 1455, por D.
Soeiro, natural de Salamanca (a 60 kilome-
tros de Cinco-Villas) e outros cavalleiros, os
quaes vieram procurar o eremita Amando à
esta capella de S. Julião do Pereiro, com o
qual se congregaram, formando a nova or-
298 SAB
dêem que tinha por fim a guerra contra os
mouros.
“ Amando, transformado de eremita em ca-
pitão, tomou a seu cargo à defeza do castel-
lo das Cinco-Villas, no qual obrou proezas
de'grande valor.
O bispo de Salamanca, D. Ordonho, appro-
vou esta milícia, e, em 1183, o papa Lucio HI
a confirmon. O superior era denominado
mestre, como nas outras ordens militares.
O rei D. Affonso IX, dê Leão, tomou aos
mouros a praça de Alcantara, e a deu à or:
dem de Calatráva; que à cedeu à de S. dy
hão do Pereiro.
Quando o Riba-Côa PARA para a corôa
portugueza, em 1282, a ordem militar de 5.
Julião do Pereiro se mudou para Alcântara,
unindo-se à de Calatrava, cujo grão mestra-
do se encorporou na corôa de Gastella. Ain-
da existem vestígios do mosieiro que foi
berço é cabeça da ordem de S.Julião do Pe-
reiro, junto à capella do mesmo santo.
Este mosteiro e sua capella tinham sido
fundados pelos templarios.
17*—Colmeal, do bispado de Pinhel.
É a terra das cebolas e dos pimentos.
48.2 Escalhão, do mesmo bispado. Situa-
da em planicie.
D. João IV a fez villa e lhe ga foral no-
vissimo.
Foi villa acastellada, e ainda existem as
ruinas da sua fortaleza.
19.2—Escarigo, do inesmo bispado.
202-Figueira de Hs talhas “Rodrigo, do mes-
mo bispado.
Fica junto da villa de e cé
na Figueira qué se fazem as feiras e merca-
dos da villa, por ser melhor sitio.
É terra fertil. Ha optimos queijos e abun-
dantia de caça.
21.:—Fojos do Côa, do mesmo bispado.
22.2Forcalhos, no termo d'Alfaiates, do
mesmo bispado.
23.2—Freinêda, no termo de Castello- Bom,
do mesmo: bispado.
Castello-Rodrigo, do mesmo bispado.
25.2-—Junça, termo de Almeida, do mesmo
bispado. Perto da povoação está a grande
-capella de Nossa Senhora-do Mosteiro, junto
SAB
da qual ha vestígios de um antigo mosteiro
duplex, da ordem de S. Bento.
262—Lageosa, no termo do Sabugal, do
mesmo bispado.
27.2º—Luzellos, termo de Castello-Rodrigo,
do mesmo bispado.
28.2 Malhada Sórda, termo de Villar-
Maior, do mesmo bispado. Mosteiro de ere-
mitas descalços de Santo Agostinho (grilos).
29:-Malpartida, termo de Castello-Ro-
drigo, do mesmo bispado.
30.2:-—Maita de Lobos, termo de Castello -
Rodrigo, do mesmo bispado.
Foi até 1834 commenda da ordem de Chris -
to; que recebia os dizimos. |
Aqui nasceu o dr. João Bernardo Falcão
de Mendonça, desembargador do paço, fidal-
go da casa real, e filho de José Freire Falcão
de Mendonça, cavalleiro da ordem de Chris-
to, e desembargador da mesa da consciencia
e ordens,
31.º-—Nave de Aver, do mesmo bispado.
32.2—Nave Redonda, termo de Castello-
Rodrigo, do mesmo bispado.
33.º-— Nave do Sabugal, no termo d'esta vil-
la, do mesmo bispado.
342 Naves, termo de Castelo Bom, do
mesmo bispado.
352—Pena d' Aguia ou Penha d' pn ter-
mo-de-Castello-Rodrigo, do mesmo bispado.
36.º-—Póço Velho, termo de Gastello-Bom,
do mesmo bispado.
37: Quadrazaes, termo do: Sabugal, do
mesmo bispado.
38::— Quintan de Pero Martins, termo de
Castello-Rodrigo, do mesmo bispado.
39:—Ráza, no termo do Sabugal, do mes-
mo bispado, 1420 kilometros de Lamego, 300
ao E.-de Lisboa.
Tinha duas capellas. Falla d'esta fisiiaaia
o padre Carvalho na sua Ghorographia, po-
rém já não existe ha mais de 400 annos.
Tinha em 1750 80 fogos. 1 :s
40.:—Rebolosa, termo! d' Alfaiates, do mes-
mo, bispado.
242-—Freixêda do: Torrão, no termo de |.
42.º—Reigada, ou Arraigada.villaido mes-
mo: arma
aah Supponho. que esta freguezia é a que se
“chama Rendo.
U
SAB
h2.2-—Rendo,no termo do Sabugal, do mes-
mo bispado.
43.2-—Rio Sêcco,
mesmo bispado.
termo do Sabugal,
SAB 299
O povo d'esta aldeia, emprega se quasi
| exclusivamente na agricultura, e é traba-
do |
|
lhador e de bons costumes.
E uma povoação bonita e muito saudavel
442 Rovina, Ruvina ou Ruivinha, termo | e a sua agua é talvez a melhor de todo o
do Sabugal, do mesmo bispado.
h5.2-—Ruivoz, do mesmo termo e bis-
pado.
- h62-—Sabugal (Santa Maria do Castello).
h72-—Sabugal (S. João Baptista).
h8.º— Souto, no mesmo termo e bispado.
“492 Valle de Goelha, villa.
- 50º—Valle de Affonsinho, termo de Cas-
tello-Rodrigo.
51.2—Valle de Espinho, termo do Sabu-
gal.
52.º—Valle das Eguas, idem.
93.2 Vallongo ou Valle-Longo. idem.
54:—Valle de la Mulla, termo de Al-
meida.
55.2— Vermiosa, termo de Castello-Ro-
drigo.
56.2—Villa-Bôa, termo do Sabugal.
57.2— Villar d' Amargo, termo de Castel-
Jo-Rodrigo.
58.:—Villar Formoso, termo de Castello-
Bom.
59.2-—Villar-Maior, villa.
60.º:—VillarTorpim, termo de Castello-
Rodrigo. y
SABUGO —aldeia, Extremadura, na fre-
guezia de Almargem do Bispo, concelho de
Cintra, 22 kilometros ao NO. de Lisboa, e 7
de Bellas, 108 fogos, em duas aldeias (Sa-
bugo de Cima e Sabugo de Baixo).
Passa lhe pelo meio a estrada real de Lis-
boa a Mafra.
A um kilometro de distancia está a boni-
ta ermida de Nossa Senhora da Piedade, on-
de ha missa todos os domingos e dias san-
tificados, e grande festa annual à Padroeira
e a S. Sebastião, com um concorrido arraial,
tudo à custa dos habiiantes do Sabugo.
Segundo a tradição, esta ermida foi fun-
dada em cumprimento do voto que fez um
maritimo, que, vendo-se em perigo, no alto
mar, prometteu fazer uma capeila dedicada
à Senhora da Piedade, no primeiro monte
que visse em terras de Portugal.
concelho de Cintra.
Tem uma boa pharmacia, mas o cirur-
gião mais proximo móra na villa de Cintra,
pelo que o boticario faz as suas vezes.
Pouca gente d'aqui sabe ler, porque a
escola de instrucção primaria é na povoa-
ção de Almargem, a uns 5 kilometros de
distancia.
Tem umtalho e carne devacca, nas terças
e sabbados.
Vem para aqui passar os mezes da esta-
ção calmosa algumas familias de Lisboa, é
entre ellas o actor querido das nossas pla-
téas, Raymundo de. Queiroz Sarmento e os
seus.
SABUGOSA—villa, Beira Alta, na comar-
ca e concelho de Tonâãella (foi da mesma
comarca, mas do extincto concelho de S. Mi-
guel do Outeiro) 15 kilometros ao S. de. Vi-
seu, 285 ao N. de Lisboa, 200 fogos.
Em 1757, tinha 130 fogos.
Orago Nossa Senhora do Pranto.
Bispado e districto administrativo de Vi-
seu.
Os freguezes apresentavam o, cura, que
tinha 308000 réis e o pé d'altar.
É povoação muito antiga. Em 1433 D.
Affonso Henriques coutou para o mosteiro
de Lorvão, o de-Sperandei, com a villa, do
mesmo nome Sabugosa, Treixêdo e Mi-
dões.
O rei D. Manuel lhe deu foral, em Lisboa, a
28 de junho de 1514. (Livro de foraes novos
da Beira, fl. 145 vs. col. 1.2) Este foral serve
tambem para Minhólos e Póvoa do Garre-
gueiro.
Quando se coutou e deu esta treguezia
aos frades de Lorvão, em 11433, era padroei-
ro della S. Mamede, e a matriz na aldeia
que ainda conserva o nome do seu primitti-
vo padroeiro. Ainda existe este templo, que
não passa de uma ermida, onde apenas ca-
bem 40 pessoas.
Ainda em um dos cunhaes d'esta ermida
se conserva desde a data do foral a medida
300 SAB
do guorazel! que o que matava porco tinha
de dar ao mosteiro de Lorvão.
Segundo a tal medida, esta peça de carne
devia ter-—«cinco palmos largos, da parte
de cima—quatro palmos e tres dedos largos
da parte de baixo—um'palmo largo, de alto.
- Os cinco palmos são da parte da barriga;
ficando a parte mais curta da suan.»
Deve, porém, confessar-se que, com o
tempo, os frades se limitaram a exigir ape-
nas aquillo a que hoje se dá o nome de co-
rasil—o rabo e um palmo do espinhaço, de
4 dedos de largo.
O foral diz assim:
«Pagam mais quaesquer moradores nos
«Logares das Sabugosas, se matarem por-
«co macho, um guorazel, a saber: Cortado
»ho porco pollo meyo, e fendido, toma se
«d'ametade d'aquelle porco, huum peda-
«ço, contra o rabo, d'onde tomam uma
«medida de couto: (é a tal que está no cu-
«nhal da capella) e d'alli correm contra as
«costas, até chegarem na segunda costa, con-
«tando a mendinha (primeira costella pos-
«terior) e cortam por aquelle direito da
«medida grande e pequena, a cordel, direito;
«e d'aquillo chamam Guorazel. A qual mar-
«ca fica demarcada na parede da Igreja do
«seu Lugar, a que chamam S. Mamede. E
«por ella mandamos que todallas da Comar-
«ca se julguem. De porca femea não se paga
«Gorazyl, que aqui chamam Gorázel, nem
«outro fôro, salvo se a porca fôr capada na
«cama; porque, se depois a caparem, não se
«pagará Guazel (cada vez escreve esta pala-
«vra de diverso modo) déla: e da capada na
«cama pagarão como de porco.»
É muito provavel que os povos d'aqui não
cahissem em matar porcos nem porcas ca-
pacas na cama, preferindo matar porcas ca-
padas no tarde, para se eximirem de dar
quasi metade aos frades.
1 Guorázel, portuguez antigo—hoje diz-se
corasel ou corasil. É o rabo do porco e a
extremidade posterior da espinha dorsal,
com o seu competente toucinho; mas para
os frades de Lorvão, o guorazel, abrangia
as grande parte do porco, como se vê do
exto. F
SAB
Acabâmos de ver que, segundo o foral, a
egreja da freguezia, em 1514 era a de S.
Mamede, no logar d'este nome. Vejamos
agora o que diz o Sanctuario Mariano vol.
o.º pag. 414,
«A villa de Sabugosa, que dista da cida-
«de de Viseu quasi tres leguas para a par-
«te do meio dia, é antiga, mas, em seus prin-
«cipios, devia ser muito limitada, e devia ter
«muito poucos visinhos; e assim, tinham a
«sua parochia em um logar distante am
«quarto de legua, a que ainda hoje cha-
«mam Canas de Sabugosa,! que lhe fica
«tambem quasi ao sul, e cuja matriz se
«intitula Santa Maria de Canas. 2
«Na villa. tinham uma ermida, dedicada
«a Nossa Senhora do Pranto,3 com a qual
«todo aquelle districto havia mui grande de-
«voção.
«Cresceu a villa em moradores, e, levan-
«do estes agramente o trabalho de hir a Ca-
«nas, principalmente no inverno,. a satisfa-
«zer o preceito da missa, em que lhes era
«forçoso passar um rio, que no inverno é
«caudalosissimo, fizeram seus requerimen -
«tos ao bispo diocesano, e conseguiram que
«a casa da Senhora do Pranto se erigisse
«em parochia, ficando os moradores obri-
«gados a satisfazer ao seu novo parocho o
«trabalho e a assistencia. Dizem que foi is-
«to pelos annos de 1580, pouco mais ou
«menos.
«Quanto aos principios da primeira casa
«de Nossa Senhora do Pranto, não ha (por
1 Canas de Sabugosa ainda existe e é uma
freguezia do mesmo concelho de Tondella.
(2.º vol. pag. 77, col. 2.2)
2 A sua primeira padroeira foi Nossa Se-
nhora da Assumpção: (Santa Maria de Ca-
nas) hoje, é Nossa Senhora da Purificação
ou das Candeias.
3 Hoje diz-se Nossa Senhora da Piedade.
D'esta obra, não se falla na egreja de S. Ma-
mede!—O foral e tódos os livros antigos dão
a esta freguezia o nome de Sabugosas. Seria
uma Sabugosa onde hoje é a actual villa, e
fosse sua Padroeira Nossa Senhora do Pran-
to; e outra na aldeia de S. Mamede, tendo
este Santo por padroeiro? É o que parece
mais provavel.
SAB
«ser antiquissima) quem possa dizer della
«alguma cousa.
«Conseguindo os moradores da villa de
«Sabugosa a licença de levantarem nova pa-
«rochia, edificaram de novo, a fundamentis,
«um templo capaz para O seu povo, e fize-
«ram-lhe a porta para a parte oceidental;
«mas, como pelas costas lhe ficava a estra-
«da real, que vae para à cidade de Coim-
«bra, a mudaram logo para a parte do
«oriente.
«Este novo templo dedicaram à mesma
«Senhora do Pranto, querendo que ella fos-
«se, como havia sido até alli, a sua prote-
«ctora e padroeira, que não era justo dei-
«xarem de a acceitar por tal.»
A imagem da primittiva padroeira é de
barro, e de uns 70 centimetros de alto, com
seu filho morto nos braços, e, apesar de an-
tiquissima, é de optima esculptura.
Pelos annos de 4660, mandaram fazer
nma nova imagem da padroeira, e a collo-
caram no altar-mór, pondo a antiga na sa-
christia, onde se acha.
Construida a nova egreja, instituiram n'ºel-
la uma irmandade, cujos estatutos foram
confirmados depois, pelo doutor provisor do
bispado, in sede vacante, a 22 de fevereiro
de 4651.
Diz Frei Agostinho de a Maria, que
já antes da confirmação, pelo provisor, o
papa Urbano VIII, por bulla de 5 de maio
de 1649, havia concedido grandes indulgen-
cias aos membros d'esta irmandade.
Frei Agostinho, quasi sempre'tão bem in-
formado e verdadeiro, errou aqui (ou o fize-
ram errar) porque Urbano VIII, foi eleito
- papa, em 1623, é falleceu em 1644.
Em 1649, já era papa o seu successor, In-
nocencio X.
—
Condes (hoje marquezes) de Sabugosa
4.º conde — Vasco Fernandes Cesar de
Menezes. Sendo vice rei do Estado do Bra-
sil, em 1729, o secretario de estado, Diogo
de Mendonça Corte-Real, lhe participou que
D. João V lhe havia dado o titulo de conde
de Sabugosa (a elle Vasco) e que logo po-
dia assignar-se conde, sem embargo de não
SAB 304
ter ainda a carta, que se lhe passou a 19 de
septembro d'esse mesmo anno de 1729. 1
Por herança de seus maiores, era Vasco
Fernandes Cesar de Menezes, alcaide-mór
de Alemquer e outros castelos, desde 114 de
maio de 1499—-alferes-mór, desde 23 de ju-
lho de 1664. A varonia d'esta casa, é Cesar.
Procede de Pedro Pires Gesar, cidadão de
Leiria, e que já anda nomeado no foral que
D. Sancho I deu a esta cidade, em 13 de
abril de 1495.
Sabe-se que ainda vivia em 1219.
Foi seu 3.º neto, João Cesar, nobre fidal-
go, natural da mesma cidade de Leiria, e
n'ella vereador da camara, do qual D. João I
fazia grande conceito, e n'elle tinha plena
confiança, pois o occupou nas Inquirições
reaes sobre honras, e em outras que man-
dou fazer em Alem-Douro, em 1304.
D'este procede Vasco Fernandes Cesar
que serviu em Africa, no reinado de D. Ma-
nuel, e foi capitão de ÇGafim, e que depois,
sendo capitão de uma galé, ou fusta, com
ella desbaratou seis chavecos de mouros.
Quando regressou a Portugal, já tinha
| morrido o rei D. Manuel, e-seu filho, D. João
HI, lhe accrescentou o seu brazão de ar.
mas com seis galés, em memoria da sua
façanha na Africa.
O mesmo soberano o nomeou provedor
dos Armazens, em 1531, eno mesmo anno o
fez commendador de Lomar, da ordem de
Christo.
Foi seu filho, Luiz Cesar de Menezes, com=
mendador de S. Pedro de Lomar, e guarda-
mór das naus da India, e depois provedor
dos Armazens, e alcaide-mór de Alemquer.
Foi seu filho :
Vasco Fernandes Cesar, do conselho d'el-
rei, provedor dos Armazens e armadas d'este
reino, general da artilheria, alcaide-mór de
Alemquer, commendador de S. Pedro de
Lomar, e de S. João do Rio Frio, tambem
da ordem de Christo.
I Na Resenha das familias titulares, do
reino de Portugal, diz-se (pag. 196) que o li-
tulo de conde, data de 26 de junho de 1640.
Se assim é, este titulo não fui confirmado
por D. João IV, depois da restauração do
4.º de dezembro d'esse anno.
302 SAB
Falleceu em 24 de dezembro de 1640.
| SAB
Tinha casado com D. Vicencia Henriques»
Tinha casado com D. Anna de Menezes | filha de Manuel de Mello, monteiro-mór 'do
(filha de D. Manuel Pereira, filho e herdei-
ro de D. Diogo Pereira, 4.º conde da Feira)
reino, e de D. Guiomar Henriques, filha de
| Pedro da Cunha, senhor de Gestaçô e Pa-
a qual tinha fallecido em 46 de dezembro | noias.
de 1638.
Filhos d'este matrimonio:
1.º—Luiz Cesar de Menezes, que lhe suc-
cedeu, e do qual adiante trato;
2.º—Manmel Pereira Cesar, que nasceu
em 1631, e, passando a servir na India, lá
falleceu.
3.º-—Pedro Cesar de Menezes, commenda-
dor de 8. Salvador do Minho, da ordem de
Christo, governador e capitão-general de An-
gola, do conselho de guerra. Falleceu em
1666.
Tinha casado com sua sobrinha, D. Guio-
mar Henriques, filha de seu irmão, Luiz Ce-
sar, e tiveram D. Vicencia Luiza Henriques,
qué casou com seu primo, D. Fernando For-
jaz Pereira Pimentel, conde da Feira, e não
tiveram filhos.
4.º—Sebastião. Cesar de Menezes, que foi
deputado do Santo Officio, em Coimbra, e
na mesma cidade inquisidor geral, arcedia-
go da Sé de Lisboa, desembargador do pa-
ço, deputado da junta dos Tres Estados,
bispo eleito do Porto e de Coimbra, arce-
bispo eleito de Lisboa, embaixador a Fran-
ça, imquisidor geral, e do conselho de es-
tado.
Morreu no Porto, em 29 de janeiro de
1670.
5.º— Diogo Cesar, religioso franciscano, da
provincia de Xabregas, da qual foi provin-
cial.
6.º—D. Cecilia de Menezes, mulher de D
Pedro de Castello-Branco, 1.º conde de Pom-
beiro.
7º-—D. Joanna da Silva, mulher de D.
Alvaro Coutinho, commendador e alcaide
de Almourol.
—
D. Luiz de Menezes, filho primogenito de
Vasco Fernandes Cesar, foi alcaide-mór de
Alemquer, commendador de Lomar e de
Rio-Frio, provedor dos Armazens é arma:
das, officio que largou pelo de alferes-môr |
do reino. Morreu a 12 de agosto de 1666.
Foram seus filhos:
—Vasco Fernandes Cesar de Menezes,
do qual adiante trato.
2.º—Francisco Gesar, conego e arcediago
da Sé de Lisboa.
3.º— Pedro Cesar de Menezes, que na guer-
ra da acclamação foi general de cavalaria,
das provincias do Minho e Traz-os-Montes,
e mestre de campo general. Serviu com
grande reputação de valente, durante esta
guerra; e sendo mandado pelo regente (de-
pois D. Pedro II) por governador e capi-
tão general do reino de Angola, morreu no
naufragio que padeceu o seu navio em
1674.
Vasco Fernandes Cesar de Menezes, não
succedeu na casa, por morrer em vida de
seu pae (em 1058).
Casara com D. Maria Magdalena de Len-
castre, filha de D. João Mascarenhas, 3.º
conde de Santa Cruz, e tiveram um unico
filho, que foi
Luiz Gesar de Menezes, que succedêu a
seu avô na casa.
Foi alcaide-mór de Alemquer, commen-
dador de S. João de Rio Frio, e de S. Pedro
de Lomar, alferes-mór do reino, governa: |
dor do Rio de Janeiro, capitão-general de
Angola, e depois da Bahia, d'onde voltou
em 1710, e falleceu a 20 de fevereiro de
1720.
Tinha casado com D. Marianna de Len-
castre, filha de Rodrigo de Lencastre, com-
mendador de Coruche.
Foram seus filhos:
"0 1.º conde de Sabugosa
1.º—Vasco Fernandes Gesar de Menezes,
do qual adiante se tracta. :
2.º-Rodrigo Gesar de Menezes, Nrigadois
ro de infanteria, e depois, governador da ca-
' pitania de S. Paulo (Brazil) e, noseu distri-
cto, descobriu as minas de-Cuyabá.
SAB
Voltando ao reino, foi nomeado governa-
dor e capitão general d'Angola.
Foi depois (1735) feito general de bata-
lha.
Falleceu em 1738.
3.º — D. Ignez de Lencastre, mulher de
Diogo Correia de Sê. 3.º visconde da As-
seca.
b.º—José Cesar di Menezes, prior da col-
legiada de Gedofeita (Porto) e principal da
Sé de Lisboa.
5º — D. Maria d'Alemcastre, mulher de
João Pedro Soares da Veiga Avellar, Távei-
ra e; Noronha, provedor da anranHega de
Lisboa.
Esta senhora, casou a 31 de janeiro de
1698, e no mesmo dia adoeceu de bexigas,
morrendo logo a 13 de fevereiro!
6.º— D. Joanna Bernarda de Noronha, mu-
lher de João de Saldanha da Gama, senhor
da villa de: Assequins, commendador da or-
dem de Christo, gentil homem da camara do
infante D. Antonio,
7.º—João Cesar, monge de Cister (bernar-
do) e mestre de theologia na sua ordem.
Vasco Fernandes Cesar de Menezes, 1.º
conde de Sabugosa, nasceu a 16 de outubro
de 1678.
Foi alferes-mór do reino, alcaide-mór de
Alemquer, commendador de S. João de Rio-
Frio, e de S. Pedro de Lomar.
Foi mestre de campo do terço da arma-
da, e, depois, general de batalha, e vice-rei
da India, e por fim, vice-rei do Brasil.
Morreu em 24 de outubro de 4741.
Tinha casado em 41696, com D. Julianna
de Lencastre, filha de D. João Mascarenhas,
conde de Santa Cruz, mórdomo-mór de D.
Pedro II.
Foram seus filhos:
1.º-—Luiz Cesar de Menezes, do qual adian-
te se trata.
2º—D. Thereza Tohadia dê Mosého, dama
do paço, mulher de D. Henrique da on
4.º conde de Soure.
“3º-—João Carlos Gesar de Moscoso, deão
da Sé de Lisboa e depois principal da mês-
ma..
4.º—D. Marianna Rosa de ad mu-
SAB 303
lher de Rodrigo de Mello da Silva, conde de
S. Lourenço.
5.º— Pedro Cesar de Menezes, que morreu
solteiro, na edade de 35 annos.
6.º—Joaquim Cesar de Menezes, que mor -
reu na edade de 3 annos.
7º—D. Ignez Brazia de Gusmão.
8.º —1). Francisca Policena, freira do con-
vento da Annunciada, em Lisboa.
Luiz Cesar de Menezes, 2.º conde de Sa-
bugosa, nascido a 27 de agosto de 1698, her-
deiro da casa de seu pae.
Foi veador da casa da rainha, D. Marian-
na, d' Austria (filha do imperador Leopoldo I,
mulher. de D. João V); capitão de cavallos;
academico, e censor da academia real, de-
putado da junta dos Tres Estados, e gentil-
homem: da camara de D. José I (quando ain-
da principe do Brasil) feito em 43 de agos-
to de 1730.
Casou, em 46 de outubro de 1728, com
D..Anna Mascarenhas, dama do paço, filha
de D. Fernão Martins Mascarenhas, 2.º con-
de dObidos, meirinho-mór do reino, e de
sua. mulher, D. Brites Mascarenhas da Cos-
ta, condessa do Sabugal.
| Foram seus filhos:
1.º—D. Maria Thereza d'Assis Mascare-
nhas, nascida a 31 d'agosto de 1729, e falle-
cida a 25 de outubro de 1742.
- 2.º—Vasco José Cesar de Menezes, que nas-
ceu a 27 de fevereiro de 1731, e falleceu a
26 de janeiro de 1749.
3.º— Fernando José Cesar de Menezes, que
nasceu a 7 de setembro de 1733, e morreu
de tenra edade.
Não: deixando herdeiros Luiz Cesar de
Menezes, 2.º conde de Sabugosa, passou à
casa a sua irman :
D. Marianna Rosa de Lencastre, 3.º con-
dessa de Sabugosa, 6.2 condessa de S. Lou-
renço, por casar com Rodrigo de Mello e
Silva; 6.º conde de S. Lourenço.
Nasceu (a condessa) em 18 de dezembro
de 1700, e falleceu a 10 de novembro de
1748.
Nasceu d'este matrimonio:
SAB
Marquezes de Sabugosa
304
Antonio Maria de Mello da Silva Cesar e
Menezes, 4.º conde e 1.º marquez de Sabu-
gosa, 7.º conde de S. Lourenço, 9.º alcaide-
mór d'Elvas, 7.º alferes-mór do reino, gen-
til-homem da camara de D. Maria I, grão-
cruz da ordem de S. Bento d' Aviz, commen-
dador da de Christo, e conselheiro de guer-
ra.
Nasceu a 31 de janeiro de 1743, e mor-
reu a 4 de junho de 1805.
Casou a primeira vez, em 1760, com D.
Joaquina José Bento Maria de Menezes, 2.º
filha des 4.º marquezes de Marialva — e à
2.2, com D. Anna Francisca de Souza (da-
ma da rainha D. Maria 1) filha dos 5.º con-
des de Villa-Flor, Antonio Francisco de Pau-
la Manuel de Souza e Menezes, e de D. Joan-
na Maria Josefa Manuel de Mendonça, sua
tia (do marido) e dama da rainha D. Ma-
rianna d'Austria.
D. Anna Francisca de Souza, tambem era
viuva de D. João de Mello Homem.
Filhos do 1.º matrimonio:
4.º—D. Anna Rosa, que casou com o con-'
de de Barbacêna.
2.º—D. Maria Jose, nascida a 25 de julho
de 1762, e morreu a 48 de abril de 1794.
Foi casada com D. João Manuel da Costa,
da casa dos condes de Carvalhaes:
3.º — José Antonio, do É rig adiante se
trata.
4.º—Manuel José, que foi conego da pa-
triarchal.
5.º—D. Joaquina Maria, condessa de Sam-
paio.
6.º—D. Helena Gertrudes, viscondessa da
Asseca.
7.º — João José, cavalleiro de S. João de
Jerusalem, official de cavallaria.
8.º — Pedro José, que morreu de pouca
edade.
9.º — D. Marianna Delfina, condessa de
Soure.
10.º—D. Isabel Furo, condessa de São
Vicente.
Ficando viuva, casou 2.º vez, em 41 de
novembro de 4816, com D. José Fernando
de Menezes Cabral Brito d'Alarcão Freire
SAB
d'Andrade, senhor de um aaa em Co-
ruche, do Alemtejo.
11.º — D. Margarida Domingos, condessa
de Carvalhaes.
12.º—D. Maria das Dores, condessa de
Barbacêna.
Filhos do 2.º matrimonio:
13.º—D. Maria José, condessa de Villa-
Flor (depois, duqueza da Terceira).
14.º— Antonio, official de cavalaria.
2.º marquez de Sabugosa, José Antonio de
Mello da Silva Cesar e Menezes, 8.º conde
de S. Lourenço, 10.º alcaide-mór d'Elvas,
8.º alferes-mór, par do reino em 1826, gen-
til-homem da camara de D. Maria 1, grão-
cruz da ordem de Christo, commendador da
de Torre Espada, tenente-general, conse-
lheiro de guerra, presidente do conselho ul-
tramarino, deputado da junta dos Trez Es-
tados, governador e capitão general dos Aço-
res.
Succedeu a seu pae em 4 de junho de
1805.
Tinha nascido a 19 de novembro de 1763,
e casado, a 142 de fevereiro de 1793, com
D. Leonor Maria José de Sampaio, fallecida
em 28 de fevereiro de 1816, e 1.º filha dos
1.º condes de Sampaio.
Foram seus filhos:
1.º— Antonio José de Mello Silva Cesar de
Menezes, de quem adiante se trata.
92º—D. Maria Thereza, casada com D.
Manuel Maria da Camara, coronel de caval-
laria, e vice-rei da India, do qual teve 5 fi-
lhos e seis filhas. 1
Casou 2.º vez, com 0 barão de Sabroso.
(Vidê Sabroso).
3.º— José, gentil-homem da camara de D.
1 D. Manuel Maria da Camara, era 3.º fi-
lho de D. Luiz Antonio José Maria da Ca-
mara, 6.º conde da Ribeira Grande, que foi
casado tres vezes, e D. Manuel Maria, era fi-
lho do 3.º matrimonio, e sua mãe, era, D.
Francisca Tellés da Silva, 7.2 filha dos 2.º
marquezes de Penalva.
A 4.º filha (do 2.º matrimonio, pois do 4.º
não houve filhos) do 6.º conde da Ribeira-
Grande, foi a 1.º marqueza de Ponta Delga-
da, D. "Leonor da Camara, fallecida em 27
de março de 1850.
SAB
João VI, commendador da ordem de Chris-
to, e official de cavallaria, nascido a 23 de
abril de 1800, e já fallecido.
Antonio José de Mello Silva Cesar de Me-
nezes, herdou a casa e os titulos de seu pae,
e foi 3.º marquez de Sabugosa, e 9.º conde
de S. Lourenço.
Nasceu em 17 de novembro de 1794.
Foi tenente general do exercito realista
que depois convencionou em Evora-Monte,
mas tinha sido demittido pela ordem do ex-
ercito (do sr. D. Miguel I) n.º 130, de 24 de
dezembro de 1833, por se ter apresentado
aos liberaes, antes da convenção.
É actual marquez de Sabugosa (desde 30
de abril de 1852) o sr. Antonio Maria José
de Mello Silva Cesar de Menezes, que herdou
a casa e titulos de seu pae.
As armas dos marquezes de Sabugosa,
são:
Escudo esquartelado — no 4.º quartel, 6
fustas, em agua, em duas pallas, com ramos
d'ouro, e cada um com dois pendões de púr-
pura, um na prôa, outro na pôpa — no 2.º,
cinco vieiras de ouro, realçadas de negro,
em campo de púrpura—no 3.º, as armas dos
Mascarenhas (trez faxas douro, em campo
de púrpura)—e no 4.º, a dos Alencastres (as
de Portugal, com a quebra de bastardia) —
Por timbre, uma das fustas do escudo.
(Já fica dito porque razão se augmentou
o escudo dos Cesares, com as seis fustas).
O sr. Antonio Vasco de Mello, filho pri-
mogenito do actual sr. marquez de Sabugo-
sa, é bacharel em direito, pela universidade
de Coimbra, e casado com a sr.2 D. Marianna
das Dôres de Mello, feita condessa de Mur-
ça, no 1.º de março de 1871.
Já tem filhos.
Em outubro de 1875,0 governo effectuou
a compra dos raros e riquissimos manu-
scriptos que possuira a casa dos condes de
S. Lourenço, da qual é hoje representante, a
sr.* condessa de S. Lourenço, é O gr. mar-
quez de Sabugosa seu filho.
SAB 305
São 897 documentos, e todos elles de gran-
de valor como subsidio para a historia po-
litica.
Fazem parte da collecção 64 cartas de D.
João de Castro e authographos das se-
guintes notabilidades — conde da Casta-
nheira, D. Jeronymo Ozoório, o chronis-
ta João de Barros, Andrê de Rezende, D.
João de Mascarenhas, Martim Affonso de
Souza, D. Alvaro de Castro, D. Aleixo de Me-
nezes, Antonio Moniz Barreto, Antonio Pi-
nheiro, D. Estevão da Gama, Henrique de
Souza Chichorro, D. Jeronymo de Menezes,
Lourenço Pires de Tavora, Luiz Falcão,
etc.
Tambem se encontram n'esta preciosa
colleeção os documentos relativos às côrtes
de Torres Novas, reunidas em 1438, para
prover ao governo do reino por morte de
D. Duarte: documentos anthenticos que ti-
ram as duvidas que existiam ácerca d'aquel-
las côrtes, como succede com as de La-
mego.
Embora a colleção estivesse avaliada no
inventario em 4:5002000 réis, o sr. marquez
de Sabugosa preferiu cedel-a ao governo
portuguez, mais barata ainda, a vendel-a no
estrangeiro por quantia superior, que de
certo alcançaria.
É digno de louvor e honroso o seu pro-
cedimento.
Sabugosa 17 de setembro de 1855.
Chegaram hontem à noite a esta villa, on-
de se demoram alguns dias, os honrados ca-
valheiros Antonio Correia da Silva, José
Correia d'Oliveira, Antonio Correia de Oli-
veira e a mais familia.
Os srs. Correias foram e tem sido sem-
pre muito bem recebidos n'esta terra, onde
são admirados, e com razão, pela sua rara
philantropia e piedade, e eu faltaria a um
dever, tornando-me digno de censura, se em
nome de toda esta freguezia, não viesse d'es-
te tribunal agradecer -lhes, conforme m'o
permitte o meu acanhado talento, tantos e
tão grandes beneficios que suas senhorias
tem feito a esta freguezia.
Aborreço a lisonja, e não intento tecer
elogios, porque conheço a minha insufficien-
306 SAB
cia, e com grande sacrificio me arrojo a ma-
nifestar a minha ignorancia do idioma pa
trio, mas a isto me obriga não tanto a gra-
tidão, como o desejo de expôr aos olhos de
todos, acções que podem servir de norma e
incitamento à pratica da virtude, e que não
devem ficar no esquecimento.
Os srs Correias, são naturaes de Sabugo-
sa; porem, amigos do trabalho e dotados de
um genio emprehendedor, resolveram via-
jar, invocando o auxilio da Senhora do Pran-
to; e o sr. Antonio Correia da Silva, foi pa-
ra Lisboa, e seus sobrinhos, os srs. José Gor-
reia de Oliveira e Antonio Correia de Oli-
veira, emigraram, cêrca do anno 1850, para
o Pará, d'onde regressaram em 1873 para
Lisboa, onde actualmente todos residem.
Em acção de graças a Nossa Senhora do
Pranto, por terem chegado ao reino a salva:
mento, é por terem sido felizes nos seus ne-
gocios, aquelles rarissimos e generosos, ho-
mens protestam, não obstante terem filhos,
ceder de grande parte da sua fortuna a fa-
vor dos pobres e obras pias.
Eis, além d'outros que omitto, alguns ex-
emplos.
O sr. Antonio Correia da Silva, mandou
dar nova fórma e encarnar a imagem da di-
ta Senhora do Pranto, presenteando-a com
um riquissimo andor, brilhantemente doura-
do, e suas respectivasandas ou muletas, e ago-
ra n'esta visita, trouxe para a egreja da mes-
ma Senhora, uma pia baptismal de marmo-
re, tão bem exarada que até não está em
proporção com a egreja.
Não posso dizer o valor dos objectos, por-
que os doadores'não o dizem e aborrecem
quem lh'o pergunta ou os elogia.
O sr. Antonio Correia de Oliveira, cons-
tando-lhe que esta egreja estava quasi
em ruinas, supplicou e poude mover a jun-
ta de parochia à reedifical-a, offerecendo à
quantia dé 1508000 réis, para aproveitar a
qual esmola é que a obra se fez; edeu mais
um vestido de seda para o Menino Jesus.
O gr. José Correia de Oliveira presenteou
a mesma Senhora com uma capa que se sa-
be custou 485000 réis e com uma riquissi-
ma corôa de prata; deu mais para uso d'es-
ta egreja uma umbella, que é avaliada
SAG
em 508000 réis; e trouxe finalmente agora
uma capa para a Senhora do Rozario, que
ainda não vi, mas que deve ser tambem
rica.
É tambem digna de mensão uma estron-
dosa festividade, que a expensas suas man-
dou fazer este senhor, no dia 9 de agosto
de 1874, à mesma Senhora do Pranto, man-
dando-me distribuir pelos pobres desta vil-
la a quantia de 78000 réis, além d'outras
avultadas esmolas que elle mesmo deu a al-
guns necessitados, etc.
Ahi ficam descarnadamente e sem com-
mentarios, porque d'elles não carecem, de-
scriptas algumas acções que enobrecem os
illustrissimos senhores Correias.
Bem hajam, pois, suas senhorias, mil ve-
zes bem hajam, e Deus seja servido conser-
var largos annos taes homens, para exem-
plo sobre a terra, porque o Ceu de certo lhes
pertence.
Padre João Luiz Parreira.
(Extrahido da Atalaia, de Viseu.)
SABUGUEIRO— freguezia, Beira Baixa, co-
marca e concelho de Cêa (foi do mesmo
concelho, mas da comarca de Gouveia) 80
kilometros à E.N.E. de Coimbra, 310 ao E.
de Lisboa, 80 fogos.
Em 1757 tinha 40 fogos.
Orago, 8. João Baptista.
Bispado de Coimbra, districto adminis-
trativo da Guarda.
O reitor de Céa apresentava o cura, que
tinha 258000 réis e o pé d'altar.
Clima excessivo, mas saudavel. Fertil em
cereaes. Muito gado miudo, e grande abun-
dancia de caça grossa e miuda.
SACA-—portuguez antigo (é arabe)—da-
va-se este nome ao direito que se pagava
das fazendas ou generos que hiam por mar
para o estrangeiro.
Dava-se o mesmo nome á licença para
transportar cousas para fóra do reino. Era-
mos requeridos dos nossos naturaes, e de ou-
tros estrangeiros. que lhe hovessemos de dar
saca de pam e de gaados, pera fóra dos nos-
sos Regnos. (Cod. AIf., 2.º 5.º, tit. 48, S 3.º)
D'aqui vinha sacar, que significava—le-
var qualquer cousa de uma para outra parte.
SAG
Noestylo figurado, significava proferir muitas
mentiras. Hoje o povo diz despejar o sacco
das mentiras, com a mesma significação.
Com o andar do tempo veio à dar-se o
nome de sacada, à contribuição, finta, fôro,
renda, ou tributo; e ainda se chama sacador
ao que se occupa na cobrança destas cou-
sas.
Teverom per ben de alcançarem fintas e
sacada, pelo termho da Villa de Viseu, no
anno de 1536, em que cason com D. Cons-
tança, o infante D. Pedro. (Dos. de Maceira
dão.)
As sacadas não eram porém eguaes em
toda a parte: regulava o antigo costume da
terra.
Eram isentos de sacadas todos os logares,
aldeias, casaes e herdades, das egrejas, ou
dos mosteiros, e todos os reguengos que pa-
gavam fôro à corôa.
Os povos da freguezia de Agro-Chão (Traz
os Montes), concelho de Vinhaes, eram, por
antigo privilegio, e por consentimento da ci-
dade de Bragança (a cuja comarca então
pertenciam) isentos do pagamento de sacadas,
em remuneração de grandes serviços que em
tempo de suas aperturas (da cidade) lhe h-
zeram.
Como a maior parte dos tributos e con-
tribuições se pagavam no fim de junho, tam-
bem em muitas partes se dava aos sacado-
“res O nome de sanhoaneiros, e depois san-
* joaneiros, e às rendas que então se pagavam
—samjoaneiras.
SAGAPARTE (Nossa Senhora de)—-Gran-
de e antiquissimo templo do Riba-Côa, (Bei-
- ra Baixa) na freguezia e a 3 Kilometros da
villa de Alfaiates, comarea e concelho do
Sabugal, antigo bispado de Cidade de Ro-
drigo, depois de Lamego, e desde 1774, do
de Pinhel.
Fica perto da villa do Sabugal e da fre-
' guezia de Aldeia da Ponte (tambem do con-
| celho do Sabugal).
' Está entre a villa de Alfaiates e a raia
hespanhola, d'onde dista tambem 3 Kkilome-
tros. Está' a egreja situada em uma vasta
planicie, onde não ha outros edificios ou ha-
hitações além do templo, residencia do ere-
mitão e casas para abrigo dos romeiros.
SAC 307
Segundo o padre Vasconcellos, na Des-
cripção do reino de Portugal (pag. 339, n.º
16) e a Monarchia Lusitana (5.º parte L.º 16,
cap. 51), esta egreja toi construida no tem-
po dos gôdos, e n'ella se celebraram os offi-
cios divinos em todo o tempo do dominio
mourisco, mediante certo tributo.
Não se sabe qual foi a primeira invoca-
ção d'esta Senhora, e para explicarmos a
actual, temos que hir consultar a Historia.
Havia nos primeiros annos do seculo XIV,
na Castella Velha, um fidalgo poderosissi-
mo, chamado D. Alvaro Nunes de Lára, se-
nhor da cidade de Lára, na Castella Velha.
Era rei de Castella, D. Sancho, o Bravo,
(filho de D. Affonso, o Sabio) que não po-
dia tolerar a soberba d'este fidalgo arrogan-
te. Principiou com elle as hostilidades, si-
tiando-lhe o pae (D. João Nunes de Lara) na
cidade de Albarrazim. 1
D. Luiz, ajudado com tropas do rei de
Navarra e de algumas do de França, rom-
peu a guerra contra D. Sancho; e, como Por-
tugal era o valhacouto de todos os descon-
tentes leonezes, castelhanos e mais hespa-
nhoes, localisou-se esta guerra no territorio
do Riba-Côa, onde os castelhanos pratica-
ram grandes roubos e destruições, sem que
o nosso rei D. Diniz podesse então atalhar
tantas desgraças.
Gom os Láras vinha tambem o infante por-
tuguez D. Affonso, filho segundo do nosso
rei D. Affonso II, trazendo em sua compa-
nhia, Fernão Soares e Sentil Soares, nobres
fidalgos, filhos de Soeiro Gonçalves de Bar-
rundo, e irmãos de Payo Soares, mórdomo
mór do mesmo infante. 2
1 A cidade de Albarrazim, era uma das
do senhorio da nobilissima familia dos La-
ras. D. Sancho, o Bravo, ajudado por D. Pe-
dro, rei de Aragão, tinha tomado esta cida-
de aos seus senhores, dous annos antes, dan-
do-a a seu filho, o infante D. Fernando; mas
os Láras a reconquistaram pouco depois.
2 D. Affonso III, casado com a condessa,
de Bolonha, annullou, auctoritate qua fun-
gor, este casamento, e casou com D. Brites,
filha de D. Affonso X, rei de Leão. A con-
dessa de Bolonha não teve filhos, e o primo-
genito de D. Brites, foi D. Diniz, que nasceu,
ainda em vida da condessa de Bolonha. D.
| Affonso, e seu segundo filho, hasceu depois da
308 SAG
Os dous partidos vieram ás mãos, dando-
se uma furiosa batalha junto á villa de Al-
faiates, na qual o partido dos Laras foi ven-
cido, ficando muitos mortos no campo, sen-
do d'este numero Fernão Soares e seu irmão
Sentil Soares. 1
Até aqui a historia.
Segundo a lenda—vendo-se os povos da
villa (então praça de guerra) de Alfaiates em
risco de serem tomados por um ou outro dos
partidos contendores, recorreram ao patro-'
cinio de Nossa Senhora Sáca-os à parte,
como quem diz—tira-os para longe de nós;
e os castelhanos não atacaram a villa.
D'aqui se originou dar-se à Senhora 0 ti-
tulo de Sacaparte.
(É uma etymologia, como qualquer outra.)
No reinado de D. Diniz, era esta capella
pequena é estava, por velha, muito arruina-
da; e como o rei vinha aqui frequentes ve-
zes fazer grandes caçadas, pois havia por
estas charnecas, grande abundancia de vea-
morte de Mathilde, e fundava os seus direi-
tos à corôa de Portugal, dizendo que era fi-
lho legitimo e D. Diniz adulterino. Isto deu
em resultado grandes desordens e guerras,
que muito prejudicaram o reino e que só
a prudencia da rainha santa Izabel contri-
buiu a terminarem.
1 D. Alvaro Nunes de Lara pôde escapar
da batalha, e pôr-se ao serviço do nosso rei
D. Diniz, que o recebeu com grandes dis-
tincções, e lhe fez muitas honras.
Veio D. Alvaro a ser o tronco dos Laras
portuguezes, cujas armas são:
Em campo de púrpura, duas caldeiras em
palla (distineção dos rico-homens) xadreza-
das de ouro e negro, com oito cabeças de
serpe, verdes, salpicadas de ouro, quatro
em cada pegado das azas da caldeira, duas
para dentro e duas para fóra.
Outros do mesmo appellido trazem por
armas—em campo de prata, duas caldeiras
negras, em pala, com boraes de ouro e azas
levantadas. Tanto um como outro escudo,
teem élmo de prata, aberto e por timbre,
meio galgo, de prata, malhado de negro,
com colleira de púrpura, guarnecida de
ouro.
Foi D. Affonso II (o Gordo), de Castella,
que deu estas armas ao conde D: Alvaro Nu-
nes de Lara, pela sua bravura na batalha
das Navas de Tulosa, a 16 de junho de 12142.
(Vide Navas.)
SAG
dos, corças, ursos, javalis, e outra caça,
passava muitas vezes, por junto da capella,
e, vendo-a n'aquelle estado, a mandou re-
edificar, desde os fundamentos, dando-lhe
muito maior amplitude; por isso alguns es-
criptores o dão como fundador d'este san-
ctuario. As suas armas se véem ainda no al-
to do retabulo do altar-mór. 1
Emquanto a villa de Alfaiates foi cabeça
de concelho, era a sua camara que adminis-
trava esta egreja, e nomeava eremitão e
mórdomo.
O sitio onde está o templo, ainda que de-
serto, é agradavel e abundante de optima
agua potavel, que brota de uma boa fonte, é
com um tanque para beber o gado. (Alem do
poço que está dentro do templo, e a cuja
agua o povo attribue virtudes milagrosas.)
Junto à egreja ha uma grande albergaria
para os romeiros, a qual antigamente tinha
muitas camas no primeiro andar, e nos bai-
xos cavallariças para bêstas e gado.
Em 1726, se juntaram n'esta egreja al-
guns devotos, sacerdotes é seculares, quinze
ao todo, e fundaram um mosteiro de frades
agonisantes, da invocação de Nossa Senhora
de Sacaparté; tendo por missão confessarem,
prégarem, e resarem em côro.
No reinado de D. João V, se aggregaram
à ordem de S. Camillo de Lellis, de clerigos
regulares, para Soccorro temporal 'e espiri-
tual dos enfermos.
Desde D. Diniz foram os reis de Portu-
gal, padrueiros desta egreja.
Na camara de Alfaiates, existia uma sen-
tença dada por Philippe III a favor dos ve-
readores, contra o bispo de Lamego (a cujo
bispado então este territorio pertencia) da
qual transcrevo o seguinte:
«Dom Philippe, por graça de Deus, ete. — |
«A vós, Bispo da cidade e bispado de La-
«mego, ete.. .. . Nossa Senhora de Sacapar- |
«te, que foy instituida por El Rey Dom Di-
«niz, que está no Ceo, cuja immediata pro- |
1 O povo de Alfaiates diz que esta reedi- ]
ficação foi feita pelo rei, em cumprimento
da promessa que fez à Senhora, quando, em |
uma caçada se viu só, é accommettido por |
um grande urso (outros dizem javali) e em
perigo de vida. 4
SAC
«tecção era sua, e dos Reys passados, e mi-
«nha; sempre servida e administrada por
«pessoas leygas... e como se mostra estar
«em posse immemorial de alevantar hum
«Altar portatil na Igrja de Nossa Senhora
«de Sacparte, onde pjem uma Imagem do
«Menino Jesus; e as cífertas que no dito al-
«tar se offerecem, serem para a fábrica da
«dita Igreja, para O que tem mordomos el-
«leytos em Camara, etc. Porto, 14 de Junho
«de 1603.=0 doutor, Gonçalo de Faria e
« Andrada.»
A egreja tem capella-mór, com o seu al
tar, e dous lateraes no corpo da egreja, to.
dos de bôa talha dourada. Em 4710, estan-
tando o forro da capella-mór em mau esta-
do, se lhe construiu um novo, com grande
magnificencia, e que custou 3008000 réis.
Tem a egreja uma porta principal e duas
lateraes, e um bom alpendre em volta, co-
- mo o de Nossa Senhora da Nazareth, da Pe-
derneira.
“É a Senhora de Sacaparte objecto da ve-
neração de todos os póvos da Beira Baixa e
da Extremadura hespanhola (vindo antiga-
mente às suas romarias gente da Serra da
Gata, de Cidade de Rodrigo, Cória, e cam-
pos de Aragão) e do Riba-Côa, vinham os
povos do Sabugal, Villar-Maior, Castello-
Mendo, Aldeia da Ponte, Castello-Bom, Cas-
tello-Branco, e outras muitas povoações,
quasi todos acompanhados dos seus respe
etivos parochos.
Tinha a Senhora varias fazendas, que al-
guns fieis lhe haviam doado, para com os
seus rendimentos se occorrer ás despezas
do culto; porém a sua reeeita principal con-
siste em esmolas e offertas dos romeiros que
aqui concorriam em tão grande cópia, que,
segundo a opinião de alguns, se podia con-
struir uma egreja de prata.
“ Quando a villa de Castello-Mendo era ca-
pital do concelho do seu nome, fazia todos
os annos uma visita à Senhora, que consta-
va dos membros da camara, encorporados,
todos montados, e muitos cavalleiros e peões,
de ambos os sexos, todos vestidos de gala—
isto na primeira segunda-feira, oitava da
Paschoa da Resurreição.
VOLUME VIII
SAC 309
Concorria nesse dia muita gente dos ar-
redores, e ainda de povoações muito dis-
tantes, formando um immenso e vistoso ar-
raial.
Havia n'esse dia missa cantada, sermão,
musica, fogo deartificio, e antigamente, jogos
de cannas, cavalhadas e outros divertimen-
tos.
No sequito dos de Castello-Mendo, vinham
18 homens, nús, da cintura para cima, tra-
zendo cada um d'elles um grande cirio, cor-
respondente às principaes 18 povoações do
concelho. Cada um dos cirios pesava 140
arrateis (!) e eram offerecidos à Senhora.
A esta festividade presidia o parocho de
Castello-Mendo.
Tambem em todos os sabbados da qua-
resma era aqui grande o concurso de povo,
havendo sempre sermão, missa e ladainha.
Segundo a lenda, a festa dos 18 cirios
teve a origem seguinte:
Em tempos de que não ha memoria, ap-
parecia por estas terras um terrivel urso,
que não só devastava os campos e destruia
os fructos, como matava todas as pessoas
que encontrava.
N'estes apertos, recorreram à Senhora,
que os livrou do monstro. e em acção de
graças lhe fizeram esta grande festa.
Tambem no vasto terreiro que fica em
volta do templo, houve antigamente trez
grandes feiras, que coincidiam com as trez
festas principaes, que eram: Annunciação,
Assumpção e Natividade, e todas grande-
mente concorridas.
Desejando dar aos meus leitores noticias
exactas sobre o estado actual d'este famoso
sanciuario do Riba Côa, escrevi uma carta
muito humilde ao sr. presidente da camgra
do Sabugal, pedindo-lhe, como um grande
obsequio, me dissesse em que estado se acha-
va o templo, e sé ainda a elle concorriam,
como em outro tempo, as romarias da Bei-
ra Baixa e de Castella.
SUA EXCELLENCIA, julgando que respender
a um obscuro e humilde escriptor publico,
seria descer da posição olympica a que 0
20
310 SAC
guindaram os cabos de policia da sua terra,
não se dignou responder-me! Muito obri-
gado, sr. presid-nte da camara do Sabugal:
fez VOS*A EXCELLENCIA Muito bem!
Tenho encontrado tantos d'estes!...
SACARÍA — portuguez antigo — vem de
saca—dava-se o nome de sacaria ao impos-
to que o povo pagava para a corôa.
D. João I disse que era seu desejo fazer
a cidade de Lisboa franea e livre de saca-
rias de alguns direitos de pequena condição,
que os Rrys em ella avião, de guiza que
todos vevessem sem refezes sogeiçõens, usan-
do livremente do que houvessem. . ..currera
ecc. Entonces, lhes quitou estes custu-
mes e direitos que haviam emusança pagar
e erum—Relêgo, Jugidas Je pam e de vinho,
Mórdomado, Anadurias, Açougagem, Selario,
Mealharia, Londos e Alcavala. E que todo-
los vezinhos da Cidade e seu termo, não pa-
gassem nenhum direito, de todalas mercado-
rias que levassem ou trouxessem, assi pera
seus mantimentos, como pera vender. E des-
te lhe mandoú fazer escrituras, as mais for-
tes,etc (Lopes, Chronica de El-Rey D. João I,
parte 1.º, cap. 154.)
SACAVEM-—freguezia, Extremadura, con-
celho dos Olivses, comarca, districto admi-
nistrativo e patriarchado de Lisboa, d'onde
dista 15 kilom-tros ao E., 33U fogos.
Em 4757 tirha 350 fogos.
Orago Nossa Senhora da Purificação.
A casa de Bragança apresentava O prior,
que tinha 2408000 réis. :
Estã a povoação porticamente situada
mas margens do rio Friellas, e proximo à
sua confluencia com a margem direita do
Tejo.
Sacavem é incontestavelmente uma po-
voação antiquissima, e que já existia no
tempo dos romanos.
Por aqui passava uma das trez vias mili-
tares romanas (a que hia mais pelo N.) que
de Lisboa se dirigia a Mérida, então capital
da Lusitania, e hoje da Extremadura hes-
panhola.
Esta estrada sahia da parte oriental de
Lisboa, passando per Chellas (parece que por
junto do mosteiro das freiras) e era ahi o
primeiro marco milliar
SAC
Dirigia-se a Sacavem, atravessando ahi o
Friellas, por uma pente, da qual ainda em
1670 se viam algumas ruinas.
D'agui hia a Alvérca, onde tambem exis-
tia um marco milliar.
Torcia alguma cousa para o N. do Tejo,
e passava por Alemquer, onde ainda exis-
tem claros vestigios d'esta estrada, e havia
um marco milliar, dedicado ao imperador
Trajano.
A primeira estação d'esta via, era em Sca-
labicastrum (Santarem), e ha todas as razões
para crer que ahi atravessava 0 Tejo por
uma ponte, da qual ha muitos annos não
restam os menores vestígios.
D'alli se dirigia a Almeirim e Alpiarça,
tomando o rumv de S. E., e hia passar a Al-
ter do Chão, etc.
Como nas terras por onde
passava esta estrada, fiz d'isso
menção, € para Se evitarem
repetições, para lá remetto q
leitor.
No livro intitulado Fundação, antiguida-
des e grandezas de Lisboa, escripto pelo ca-
pitão Luiz Marinho d'Azevedo, natural da
mesma cidade, e a pag. 234, se lê o se-
guinte: j
«Logo que os mouros, senhores dos loga-
«res visinhos de Lisboa, entend-ram que es-
«tava cercada, temendo que, se a cidade se
«perdesse, havia el-rei D. Affonso de des-
«truil os; intentaram soccorrêl-a, para o
«que juntaram 5:000 de cavallo, das villas
«de Thomar, Torres-Novas, Al-mquer, e
«Obulos (Obidos), parecendo lhe, que à li-
«geira, se poderiam metter dentro da cida-
«de.
«Teve el-rei aviso do designio dos mou-
«ros, a tempo, e mandou 1:500 dos nossos,
«que lhe fissem impedir o passo, na passa-
«gem da ponte de Sacavem, de que ainda
«permanecem os primeiros arcos e alicerces
«de outros.
«Chegaram os nossos ao alto do logar de
«Sacavem, em que havia um castello que es-
«tava pelos mouros, e à vista d'.Iles com-
emetteram os que acabaram de passar a
aponte animosamente; € como eram os con-
SAG
«trarios mais em numero, esteve algum es-
«paço duvidosa a victoria, porque os mouros
«pelejavam valentemente, com mortes e fe-
«rimentos de alguns dos nossos, os quaes,
«animindo-se mais, com um espirito sobre-
«natural que lhes sobreveio, fizeram perder
«aos infieisos brios, e vultando estes as costas,
«como não podiam caber pela ponte, uns se
«afogaram no rio, e outros foram mortos a
«ferro, chegando uns e outros a 3:000.
«Chegou a soccorrer os mouros Bezci
«Zaide, alcaide do castello (de Sacavein)
«que vendo os seus desbaratados, se Frco-
alheu a elle, e sendo cercado pelos nossos,
«lh'o entregou logo, não podendo defen-
«der-se.
«Affirmaram os que se acharam na bata-
«lha, ver, no maior trance della, muitos
«homens estrangeiros não conhecidos, que
«os ajudaram, ao tempo que inploravam o
«favor da VircEM MariA, Senhora nossa, à
«qual el-rei D. Affonso attribuiu tão mila-
«groso suce"sso, mandando logo edificar em
«seu luuvor uma ermida, de que o mouro
«Zaide foi o primeiro eremiião, convertido
«por uma vi-ão maravilhosa que teve antes
«que a batalha se começasse. '
«Havia tradição confusa d'este successo,
«em tempo d'el-rei D. Sebastião, o qual, de-
«sejando ter delle mais inteira noticia, man-
«dou por um desembargador, tirar infor-
«mação, no anno de 1577, e achou um livro
«antigo na egreja do logar, em que se con-
«tinha toda esta relação, a qual, com a er-
«mida antiga, fundada pur el-rei D. Affon
«so, que ainda permanecia, é a fama que
«corria entre os moradyres do logar, con-
«firmou a memoria do livro.
«Esta quiz perpetuar Miguel de Moura,
«secretario e valido de el rei D Sehasiião,
«pedindo-lhe o logur da ermida, para fundar
«p'elle um mosteiro de religiosas; e sendo
«lhe por elle concedido, o edifivou, no lo-
«gar da batalha ! com o titulo de Nossa Se-
«nhora dos Martyres, em memoria dos que
en'clla morreram, pelejando; para o que
«foram religiosas do convento da Madre de
1 Não é preciso dizer aos leitores, que
esta batalha teve logar em 11447.
SAC 341
«Dus d'esta cidade, que o fundaram, de-
«baixo da regra de Santa Clara (francisca-
«nas) imitando bem, com tal filiação. as gran-
«des virtudes, clausura, e religião do sem
«instituto, que é dos mais notaveis que tem
«a christandade, e de cuja recollevção trata-
«remos na terceira parts d'esta obra.»
Ainda aqui existem os restos de uma an-
tiga torre.
No reinado de D. Sancho T (1191) foram
as pr-bendas da egreja parchial, incluidas
na divisão feita para atalhar as contendas
eutre o prelado de Lisboa e 0 su cabido.
Tinha então esta fregu-zia 900 fogos.
A primittiva egreja parochial estava no
actual largo da Saude, mas fui totalmente
destruida pelo terramoto d» primeiro de nos
vembro de 1755, e não tornou a reedificar se.
Era coilrgiada.
Desde énião fisou servindo de matriz à
capella de Nossa Senhora da Victoria, até
que, em 114 de abril de 1833, a requerimen-
to da junta de parochia, passou, por con-
cessão do fallecido patriarcha, D. Manuel
Bento Rodrigues, para a egreja do mosteiro
de Nossa Seuhora da Conceição dos Marty-
peso
A actual freguezia de S. Jão da Talha,
era uma aldeia d'esta parochia, e d'ella foi
desmembrada em 1388,e ficou formando
fregu-zia independe. te.
Camarate era tambem uma povoação d'es-
ta parochia, da qual se s-parou. para con-
stituir freguezia independeute, a 9 d3 junho
de 1541.
Ha em Sacavem uma praça de touros,
principiada em 41875 e inaugurada em 46
d- maiv d'esse mesmo anno, pur vccasião
da fira do Espirito Santo
É propriedade dos srs. Francisro da Sil-
va Almrida Pentes, e Juão Laureano Duarte.
Está construida na marg-m dir-ita do
rio, junto à estrada que conduz à estação
do caminho de firro, e proximo à mesma
estação (que é a 3.º do camiiho de ferro do
norte e leste, e que tem aqui uma bonita
ponte de ferro de trez arcos).
12 SAG
Quando aqui ha touradas, e tambem nas
festas de Nossa Senhora da Saude, ha sem-
pre bilhetes de caminho de ferro a preços
reduzidos.
Ha em Sacavem, grandes armazens para
deposito de vinhos.
Tem trez feiras annuaes, à primeira no
domingo do Espirito Santo; a segunda, a 44
de agosto; e a terceira, a 14 de septembro.
Duram trez dias cada uma.
Estando, no anno de 1415,0 rei D. João I
e sua virtuosissima esposa, a rainha D. Phi-
lippa, e a sua familia em Sacavem, lhe che-
gou a noticia de que uma terrivel peste se
tinha desenvolvido em Lisboa e seus arre-
dores.
O rei sahiu immediatamente com a fami-
lia real para Odivellas; mas, apenas lá che-
gou, foi a rainha atacada, logo a 8 de julho,
fallecendo a 148, com 56 annos de edade,
pois tinha nascido em 1359.
Foi casada 28 annos.
Foi natural de Sacavem o padre Baltha-
zar Barreira, da Companhia de Jesus.
Foi um sollicito evangelisador no reino
de Angola, e muito contribuiu para a con-
servação d'aquelle estado, pelos sabios con-
selhos que deu ao governador Paulo Dias
de Novaes, e pelo animo e coragem que in-
spirou aos portuguezes.
Depois de aqui passar quatorze annos, em-
pregados na conversão de grande numero
de gentios, passou com o mesmo fim, a Ca-
bo-Verde, Guiné e Serra-Leôa, convertendo
e baptisando, em todas estas terras, muitos
reis, chefes e gentios, e edificando grande
numero de egrejas.
Tinha nascido em 1538; foi 56 annos pa-
dre da companhia, e falleceu em Cabo- Ver-
de, a 4 de junho de 1612, com 74 annos de
edade.
Foi sepultado com as maiores honras, e
com geral sentimento e perda para O reino
de Angola.
SAG
Capellas d'esta freguezia
1.º—Nossa Senhora da Saude, e que pri-
meiro foi da invocação de Santo André.
Pertence à junta de parochia.
Em 4599 houve n'este reino uma grarde
peste, que causou muitas victimas.
Em Sacavem eram tantos os mortos, que
já na egreja não havia logar onde se entar-
rassem.
Junto à egreja havia uma capella dedica-
da ao apostolo Santo André, e que havia
sido, em tempos, a ermida de uma alberga-
ria para passageiros pobres, e depois o foi
de uma gafaria.
Resolveu o parocho que os defunctos fos-
sem enterrados n'esta ermida, e logo ao
abrir a primeira cova, se achou uma ima-
gem da Santissima Virgem, de bôa escal-
ptura, em marmore, o que muito alegrou o
povo da freguezia, o qual tratou logo de
collocar a santa imagem em um andor, e
leval-a em procissão em volta da freguezia.
Consta que logo cessou a peste, pelo que
deram à Senhora o titulo da Saude, collo-
cando-a no altar da ermida, que desde en-
tão se ficou denominando Nossa Senhora.
|! da Saude.
Pelos annos de 1700, estando o templo
em mau estado, por ser muito antigo, 0 po-
vo à sua custa v demoliu, consiruindo uma
outra capella, com a mesma invocação. Em
quanto duraram as obras, estiveram as san-
tas imagens na capella da quinta dos vis-
condes de Barbacêna.
Foi restaurada a ultima vez em 1872, com
as esmolas que a junta de parochia solli-
citou e obteve.
Faz-se-lhe em todos os annos uma pom-
posa festa, no primeiro domingo de setem-
bro, que é sempre concorridissima, porque
os povos da freguezia ecircumvisinhas teem
grande devoção com esta Senhora.
2.2-—Nossa Senhora da Conceição na quin-
ta das Prétas. É particular, e pertence aos
herdeiros de Geraldo José Braancamp.
3.º—Santo Antonio, na quinta de Santo
Antonio da Sena, pertencente ao sr. dr. Igna-
cio Francisco Silveira da Motta.
SAG
h2-—Nossa Senhora da Piedade, na quinta
do Patrimonio. Pertence ao sr. José Romão
Zuniga.
d*—Nossa Senhora du Purificação, na
quinta da Victoria. É do sr. José Augusto
Braancamp.
6.:— Nossa Senhora dos Anjos, na quinta
dos Anjos (vulgarmente chamada quinta do
Romão José). Pertence à sr." D. Maria Joan-
na Pereira Guião.
7.:—Nossa Senhora dos Milagres, na quin-
ta de S. José. É do sr. Francisco dos Santos
Silveira.
82—S. Francisco, edificada no largo da
Saude, em 41766. Estando em ruinas, foi
demolida em 1876. Durou exactamente um
seculo. Era publica.
9.º—S. Roque, na quinta do Rio. Era par-
ticular, e estã em ruinas. Pertence aos her-
deiros do ultimo conde de Barbacêna.
410.2º— Nossa Senhora da Victoria, na es-
trada de Sacavem. É publica, e serviu de
matriz, desde 1755 até 1863. Fica à entrada
da povoação, do lado do O.
É templo antiquissimo, e ha toda a pro-
babilidade para crer que já existia no tem-
po dos godos.
Parece que os mouros deixaram n'elle
praticar os officios divinos, mediante um
certo tributo, como fizeram em outras par-
tes; pois quando D. Affonso Henriques cer-
cava Lisboa, em 1147, estava a capella aber-
ta ao culto, e se dava à sua padroeira o ti-
tulo de Nossa Senhora dos Prazeres, que o
rei lhe mudou para o de Senhora da Victo-
ria, desde que os portuguezes ganharam
junto ao rio de Sacavem, aquella que fica
referida.
Estando muito arruinada, foi demolida,
pelos annos de 1690, e reconstruida de no-
vo a capella-mór, à custa de esmolas do
povo, e com uma avultada offerta dada pelo
desembargador, José Galvão de Lacerda; e O
corpo da egreja, à custa de D. Pedro II.
É uma bonita capella, muito clara, é Te-
vestida interiormente de azulejos.
No altar-mór está tambem a imagem de
S. Francisco, que a irmandade dos tercei-
ros alli mandou collocar, e do outro lado a
de S. Caetano.
SAC 313
À sua festa é na primeira oitava do Espi-
rito Santo, com grande arraial e feira, muito
concorridos.
11.2: Espirito Santo.
12.2— Madre de Deus, na quinta da Fran-
célha.
13.º—S. Sebastião, na quinta do Viscon-
de, particular.
14 2—S. José, tambem particular.
Quintas d'esta freguezia
1.:—de S. João (vulgo, do Marchante) —
do sr. visconde da Vargem da Ordem.
2.:-—da Condessa—do sr. conde de Pena-
macor.
3.:—do Francêlho de Cima—do sr. J. Cam-
pello Trigueiro Martell.
h2-—do Francelho de Baixo—do sr. José
de Sá Nogueira.
5.:—da Vargem —do sr. João Nunes Manso.
6.:—das Prêtas—do sr. Anselmo José Bra-
amcamp.
7.:—da Serra de Gima—do mesmo.
8:—da Victoria—do sr. José Augusto
Braamcamp.
Geraldo José Braamcamp, fallecendo em
1876 (em janeiro ou fevereiro) instituiu sem
irmão, o sr. José Augusto Braamcamp, seu
herdeiro e testamenteiro, de todos os seus
bens, com obrigação de nunca alienar esta
quinta para fóra da familia; pedindo-lhe
que a deixe, por sua morte, a seu sobrinho,
o sr. Anselmo, irmão do sr. barão de Almei-
rim.
Legou à congregação da Caridade, da fre-
guezia de S. Mamede, de Lisboa, cinco con-
tos de réis, em inscripções; e egual quantia
a uma senhora que estava em sua casa; 0U-
tra egual quantia ao sr. Soares.
Deixou ao caseiro da quinta de Sacavem
um conto de réis em dinheiro; e ao seu cria-
do de quarto e ao cosinheiro (do testador)
14308000 réis a cada um.
Geraldo José Braamcamp era viuvo de
D. Juliana Maria de Sousa Holstein, irmam
da sr. condessa de Rézende, e tia da sr.
314 SAC
condessa da Ribeira. Não houve.filhos d'es-
te casamento.
9.2—do Carmo—do mesmo.
10.2— de Sinto Antonio da Serra—do sr.
Ignacio Francisco Silveira da Motta.
11.2—da Serra de Báixo—do sr. Antonio
Dias de Sousa.
12.2 - do Meirinho — do sr. José Romão
Zuniga.
413.:— do Patrimonio—do mesmo.
14.º-—dos Assequins—do mesmo.
15.2— da Nora-Alta—do mesmo.
16.2—do Nuno do mesmo. ;
47.2—do Roldão—do mesmo.
18.:—da Chouriça— do mesmo.
192 dos Almosteis —do mesmo.
20 *— do Mercador—do sr. Pedro Dias de
Sousa.
24.:—do Gasquilho—da sr. D. Maria José
Pinto Basto.
22.º-do Ferro—do sr. visconde dos Oli-
vaes.
23.:—do Cangalheiro—do mesmo.
24º-Quinta Velha—dos herdeiros do vis-
conde de Benagazil.
23.º—do Pinheiro —dos mesmos.
26.:— do Prior Velho—do sr. Manuel Joa-
quim da Silva.
27.2-—do Goelho—do sr. visconde. de Pe-
reira.
28.:-—das, Areins— dos herdeiros do vis-
conde do Rio-Sécco.
29.:— do Azeiteiro— dos mesmos.
30,2-— Quinta; Nova—da sr* D. Marianna
Herculano de Oliveira.
31:-—da Gêrca—da sr. D. Maria Angelica
Villar Miranda Osorio. iu
J22—de S. José—do sr. Francisco dos
Santos Silveira,
S3.2—da, Fonte—da sr.* D. Marianna Emi-
lia Nogueira.
34.:—da Horta do Meio— do sr. José Au
gusto Braamcamp. (Este senhor paga do seu |
bolso a educação de 42. Md nas esco-
las particulares.)
35 :—da Manteiga--do; sr, Francisco Soa-
res da Molta, RA f
36 :—dos Anjos—da sp, , D Maria aa
Pereira E uido.
SAG
37.2—do Côvo--do sr. Francisco Luiz Coe=
lho.
38.º—da Calçada--do sr. Manoel Joaquim
da Silva.
39.º-—da Fonte Pêrra-—da sr.* D. Julia
Maximiana Duarte.
h40.2—do Fonseca—do sr. Silvestre dos
Santos Ferreira.
h12—do Rio—dos herdeiros do conde de
Barhacêna.
-« 42º-da Torre Vedra-—do sr. Diogo de
Sousa Mello.
43º-—da Queimada — do sr. visconde de
Moléllos.
h4.2-—das Pinheiras-—do sr. Augusto Fre-
derico Ethur.
45 º--do Aranha--do sr. visconde de Qu-
guella.
46.:--do Casalinho—do sr. Augusto Fre-
derico Ethur.
Casaes
“ 4.º—do Mócho—do sr. Antonio Maia de,
Campos.
2.º-da Figueira—do sr. João Francisco
Vilão.
3.º—Casalinho do Areeiro—do sr. Manuel
Joaquim da Silva.
Montes
1.º—de Cintra—onde se está construindo
uma fortificação. O seu reducto fica em boa
posição, tendo por fosso o rio, Friellas, ba-
tendo a linha ferrea e o valle, e cruzando o
fogo com o reducto que deve construir-se
oo alto da Malvazia. Tem dirigido estes tra- -
balhos o sr. capitão Eugenio de Azevedo.
2.º-do Convento.
2.º—do Casal do Mócho.
Lezirias .
1.:— da Quinta Velha.==2.:—do Pinheiro:
| ==8, «—do Lourenço.=4.:—do Homem.==5.*
—das Penicheiras. = 6.º—da Queimada.
7º-—-do Aranha. =8. *—da Quivtinha.==9.º
—da Bôcca do Rio. =140.:—do Visconde; do
Rio, Sécgo. = 14,2 — do Moinho.= 12º— do
Vermelho.
|
|
|
SAG
Fábricas
L.º—de Chitas, na quinta das Penicheiras,
do sr. Augusto Frederico Ethur.
2.2-de louça ingleza, na quinta do Ara-
nha, do sr. João Houssos.:
É a unica fabrica de faiança fina que, por
emquanto, existe em Portugal, rivalisando
os seus productos com os melhores do mes-
mo genero que nos vem de fóra.
Os differentes objectos aqui fabricados
teem obtido premiose menções honrosas,
nas exposições portuguezas e estrangeiras.
3.º:—de limpeza d'ossos e derretimento de
gorduras, proxima à estação, do sr. Eduar-
do da Costa Casinha.
h2—de fundição de ferro, do sr. Theoto-
nio José Xavier.
5.º—de chitas, do sr. Daniel Dias de Sousa.
Ha em Sacavem—9 ruas—k travessas—
7 bêccos—6 calçadas—18 largos —22 azinha-
gas—hA arcos—uma ponte de ferro—uma de
madeira (construida em 1844, em substitui-
ção da antiga ponte de barcas) tem recebe-
dor e ajudante, para cobrarem os direitos de
portagem—ha só uma fonte publica.
Mosteiro de freiras franciscanas,
de Nossa Senhora da Conceição, de
Sacavem
O convento de Nossa Senhora da Concei-
cão dos Martyres, em Sacavem, começou a
a edificar-se em 1577, annó em que el-rei
D. Sebastião fez mercê da érmida que esta-
va no logar em que agora | existe a egreja do
convento.
A'doação é datada de Salvaterra, aos 7 de
dezembro do dito anno.
Foi Gregorio XIII, quem por breve de 44
de junho do mesmo anno concedeu a Miguel
de Moura e sua mulher D. Brites ! da Cos-
1 No testamento da fundadora, vê-se Brea-
tiz, e O mesmo se vê, na inscripção da sua
sepultura nu côro. Lá estão ambos os funda-
dores.
Em todos os mais documentos, está Bri-
tes.
(Brites, Breatiz,e Beatriz, era tudo o mes:
mo nome, escripto de módo diverso.)
SAG dlo
ta, a fundação à sua custa, do convento,
concedendo lhe o padruado, e auctorisação
para trazer do da Madre de Deus, as religio-
sas que lhes parecessem, é para com os pa-
dres fr. Damião da Torre e fr. Alvaro d'Oli-
veira, fazerem os estatutos, para o convento
gosar todos os privilegios dos da 1.º regra
de Santa Clara.
O cardeal-rei, por carta de 27 de janeiro
de 1580, datada de Almeirim, mandou dar
execução ao breve.
Vieram as religiosas (8) em 43 de outu-
bro de 1581, sendo a 1.º abbadeça (que já
o era na Madre de Deus, de Xabregas) soror
Vicencia de Jesus, e 2.º, soror Leonor, mãe
da fundadora, que exerceu o cargo 7 aanos,
até ao seu fallecimento.
Miguel de Moura, em 24 de julho de 1584,
doou, em Sacavem, o padroado e casas de
residencia, ao convento, servindo estas, por
seu fallecimento, para residencia do physi-
co e sangrador.
Fez à escriptura o tabellião Antonio Ser-
rão.
Esta doação foi approvada e confirmada
por Philippe II, em carta regia de 16 de no-
vembro do mesmo anno.
Só este convento, d'entre os da 1.º regra
d'este reino, era vigariaria, e n'elle havia
mais religiosas do que em todos os da pro-
vincia do Algarve.
A pedra fundamental do convento foi lan-
cada em 13 de dezembro de 1577.
A 4.º pedra para a egreja, foi em À de se-
tembro de 1596 (domingo).
Officiou o patriarcha dé Jerusalem, vice-
legado de Sua Santidade, acompanhado de
seus ministros, padre S. Francisco, e os do
convento pegado, cujo vigario era confessor.
Houve grand3 pompa n'esta festividade.
Miguel de Moura era acompanhado do con-
de de Penaguião, camareiro-mór do rei, do
conde de Tarouca é outras pessoas nota-
veis.
Janto ao convento (a pouco mais de À me-
tro de distancia) havia um outro de frades,
sendo £o vigario, e os restantes para missas
no convento e serviço das religiosas (assim
diz a instituição).
316 SAC
Por fim chamou-se a este convento «hos»
pedaria», e hoje serve para aquartelamen-
to da força d'engenheiros que trabalha nas
novas fortificações.
D. Sebastião, em 26 de junho de 14578, con-
cedeu a este convento tantas esmolas quan-
tas ao de Xabregas.
D. Philippe II, em 3 de março de 1582,
concedeu-lhe:
Pela fazenda real:
5008000 réis annuaes.
Pela obra pia:
10 arrobas de assucar.
O mesmo D. Sebastião (confirmado por
D. Philippe II).
Pela alfandega de Lisboa:
3 arrobas de céra, 4 pipa de vinho, 4 pi-
pa de vinagre, 1 pipa de azeite, 4 quintaes
d'arroz, 2 quintaes de amendoas, 6 peças de
figos, 6 arrobas de passas d'uvas, 50 varas de
Ruão, 24 moios de trigo, 10 moios de ceva-
da, 150 pannos de palha, 8 moios de milho,
h0O alqueires de grão, e mais 5 arrobas de
céra.
Em 1834, o rendimento d'este mosteiro,
era de 2:8753700 réis.
Em 27 de julho de 1598 concedeu-se a
soror Maria do Espirito Santo, emquanto vi-
veu, 508000 réis annuaes.
Em 4 de novembro de 1593, Filippe II to-
mou o mosteiro para sempre em sua real pro-
tecção, favor e amparo e de todos os reis seus
successores.
D. João IV, em 5 de setembro de 1650,
concedeu pelo almoxarifado do reguengo de
Sacavem, moio e meio de sal.
D. Philippe II, concedeu ao mosteiro «com-
prar toda a carne, pescado, gallinhas, fran-
gãos, ovos e tudo quanto precisar, pagando
pelo preço da terra, e mandou os almotacés
e mais justiças fizessem logo dar estas cou-
sas primeiro que a outras pessoas, levando
assignado da abbadessa, assim em Lisboa
como em Sacavem, e o que não cumprisse
esta determinação, pagaria de pena 28000
réis para os captivos.»
É tradição que a pia baptismal, existen-
te na egreja, era a cúpula de um mirante,
SAC
pertencente ao mouro, governador do cas-
tello que ali existiu, onde houve a referida
acção.
O que é certo é ser uma obra de gran-
de merecimento artistico.
Por decreto de 24 de maio de 1877, foi o
edifício entregue, em 28, ao ministro da
guerra, com exclusão da egreja, côro e al-
gumas casas contiguas, precizas à junta de
parochia e irmandade do Santissimo.
Sobre a fundação do mosteiro de Saca-
vem, lê-se na chronica de D. Henrique, so-
bre a vida de Miguel de Moura, por elle es-
cripta, o seguinte:
(Miguel .de Moura, no 2.º S d'estas suas
breves e singelas memorias diz que fôra ba-
ptisado na egreja dos Martyres, ião antiga
como a d'este mosteiro e da mesma invo-
cação, e fundada pela mesma causa, «onde
espero em Deus ser enterrado.)
«El-rei D. Sebastião partiu de Lisboa aos
«44 de dezembro de 4576, a visitar em ro-
«maria o famoso sanctuario de Nossa Se-
«nhora de Guadalupe, em Hespanha, donde
«recolheu á capital destes reiaos em 13 de
«janeiro segu.nte: n'esta jornada entrou em
«sua comitiva Miguel de Moura.»
Este Miguel de Moura teve
a singular vantagem de ser-
vir sob as ordens de cinco so-
beranos, successivamente rei-
nantes, em graves crises poli-
ticas, pelo que attento o sem
caracter, teve de todos muita
consideração. Feito por D. João
III, moço fidalgo e escrivão de
sua fazenda, serviu como es-
crivão da Puridade em tempo
de D. Sebastião, que tambem
confiava n'elle, e que não pon
cos segredos lhe depositava.
“Dois dias depois da partida d'El-rei, ateou-
se subita e imprevistamente um horroroso
incendio nos armazens de deposito, sitos à
Pampulha, especie de alfandega onde entra-
vam generos e mercadorias estrangeiras.
Teve a sua origem em pegar o fogo nuns
146 barris de polvora, de 3 quintaes cada
|
,
,
|
SAC
um; a explosão foi terrivel, o estampido me-
donho, e as consequencias inevitaveis de-
vastaram boa parte da cidade. Nas casas do
provedor, Luiz Cesar, em logar eminente é
sobranceiro ao Tejo, residia então Brites da
Costa, mulher de Miguel de Moura, que aos
primeiros echos da calamidade, prostrou se
de joelhos, com sua familia, ante a imagem de
Nossa Senhora da Conceição: mas o edifício
de sua morada foi um dos que mais padece-
ram, ficando convertido n'um montão de rui-
nas, nas quaes Brites ficou soterrada, e d'on-
de foi a custo tirada, gravemente ferida.
Á noticia d'este acontecimento quiz Mou-
ra retroceder, mas não lh'o concedeu El-
rei. Recolhido à patria, o que não tardou,
fez voto de erigir um templo e mosteiro de
religiosas da invocação da Mãe de Deus,
para commemoração do milagroso livra-
mento de sua mulher, e em testemunho de
gratidão aos beneficios divinos.
Tal foi o motivo da fundação do convento
das religiosas franciscanas de Sacavem.
No sitio em que este existe, havia uma er-
mida intitulada de Nossa Senhora dos Mar-
“por D. Affonso Henriques, quando estava
SAC 317
ta junto da ermida, por ser esta do padroa-
do regio, a pediu à D. Sebastião, para alli
fundar o mosteiro e cumprir o seu voto.
Mandou El-rei averiguar da veracidade
da origem da ermida um ministro desem-
bargador, o qual não só a confirmou com a
tradição local; mas, o que é mais importan-
te, com um documento que achou no regis+
to da antiquissima parochia de Sacavem, e
que passou para o alvará da concessão fei-
ta a Miguel de Moura, dado em Salvaterra
aos 8 de dezembro de 1577, o mesmo anno
de que data a fundação do convento.
Morto Miguel de Moura, sua mulher se re-
colheu ao convento, cujas fundadoras foram
do da Madre de Deus, ficando o de Sacavem
com a denominação de Nossa Senhora dos
Martyres e Conceição, commemorando a um
tempo a antiga ermida e a imagem da Vir-
gem, com que-Brites se abraçou no grande
perigo, que deixamos relatado.»
Em 4863 só existia uma freira n'este mos-
teiro.
Sendo intimada para sahir para outro
dia menos dia, a punham à força na rua,
sobre Lisboa, em memoria de uma peleja | tratou de vender quadros, alfaias, e tudo O
em que alli ficára vencedor dos infieis; por-
quanto, tendo os mouros de Thomar, Tor-
res Novas, Alemquer, Obidos e outras po-
voações da Extremadura, noticias de que os
seus compatriotas de Lisboa se achavam
muito apertados com o sitio posto pelos
christãos, acudiram em seu auxilio com
3:000 combatentes, pela maior parte de ca-
vallo.
D. Affonso, querendo cortar o soccorro,
mandou contra elle a diminuta força de
4:500 de cavallo e alguns peões; mas basta-
ram estes para de todo desbaratar aquella
gente, que já tinha passado o braço do Tejo,
em Sacavem.
O alcaide mouro do castello da eminen-
cia fronteira, Bezai ou Baflay Zaide, vendo
o destroço dos seus, não só se entregou,
mas converteu-se à fé de Christo, e foi o pri-
meiro eremita do oratorio de Nossa Senho-
ra dos Martyres que El-rei fez erigir.
Como Miguel de Moura possuia uma quin-
tyres, mandada construir a mosteiro, recusou; mas vendo que, mais
mais que lhe podia dar dinheiro.
Em fevereiro de 1877, procedeu-se a in-
ventario dos objectos deste mosteiro, por-
que a freira de que tratei foi transferida, a
seu pedido, para o convento de Sant' Anna,
de Lisboa.
Consta que tem havido cinco pontes no
rio de Sacavem:—a 4.º construida pelos ro-
manos, da qual ainda existiam vestígios no
tempo em que Miguel Leitão de Andrade es-
creveu a sua Misrellanea, em 1629.
A 2.2, de barcas, foi inventada pelo infe-
liz mathematico Bento de Moura, e já existia
quando João Baptista de Castro publicou o
seu Mappa de Portugal, em 1745, e portan-
“to é mais antiga do que a ponte de barcas
sobre o Douro, em frente do Porto.
3.2 toda de madeira, que foi queimada
pelos realistas, em 12 de outubro de 1833,
': Quando retiraram de Lisboa para Santa-
rem.
318 SAC
k.º, à bella ponte de cantária e erro, feita
em 1842 (que ainda existe) sobre quatro
pégões, com um rodizio no centro, para pas-
sagem dos barcos.
O arco é de ferro, fundido nas oficinas do
Arsenal Real do Exercito, e tem 18 metros
de comprimento, e uma curvatura de dois
metros no centro. Pesa 1:425 kilogrammas.
A 5.º, do caminho de ferro. Veio já feita
de Inglaterra, e foi assente pelo engenheiro
Black.
As feiras fazem-se em uma vasta planicie
junto ao rio.
O rio de Sacavem é navegavel até Santo
Antão do Tojal, mas só com as marés.
Tem-se por muitas vezes, particularmente
nos reitiados de D. João IV, e de seu fiiho,
D. Affonso VI, aventado a idéa de communi-
car o rio Friellas com o Oeeano Atlantico,
hindo o rio desembocar ao Baleal, proximo
à praça:de Peniche, e formar assim uma boa
linha de defeza da capifal, e promovendo ao
mesmo tempo um grande melhoramento pa-
ra os povos das duas margens do rio, e das
suas immediações; mas tudo tem ficado em
projectos, como a maior parte das bôas lem-
banças d'esta terra.
Em 45 de septembro de 1875, principia-
ram a ser collovados na estrada de Savavem,
os candieiros para à iluminação pública.
Em 46 de dezembro de 1744 falleceu em
Sacavem, Anna da Silva, da freguezia dos
Olivaes, na edade de 115 anvos, pois tinha
nascido em janeiro de 1626.
Fui casada duas vezes, tendo muitos filhos
de ambos os casamentos, e deixando nume-
rosa descendencia. Nunca foi sangrada nem
purgada.
Dois annos antes de morrer, foi, a pé, vi-
sitar o Senhor da Pedra, e regressou a sua
casa tambem a pê.
Conservou tão boa memoria até ao fim da
sua vida, que referia minuciosamente tudo
quanto succedeu no dia da acclamação de
SAC
D. João IV, em Lisboa, onde ella então re-
sidia.
Serviu, por devoção, 25 annos, os pobres
do hospital de Sacavem, com grande zélo e
caridade.
Foi sepultada na egreja matriz d'esta fre+
guezia.
Depois que cahiu a ponte romana até se
fazer a primeira ponte de barcas, passava-se
o rio em uma barca, cuja portagem era dos
duques de Bragança, que a traziam arren-
dada por 3008000 réis annuaes.
Primeiramente rendia 125000
réis por anno, e pagava cada ca-
valleiro, ou bêsta de carga, 3 réis.
Depois os duques elevaram'as
portagens, pagando cada peão
(que até ahi nada pagava) 5 réis,
cada cavalleiro ou bêsta de car-
ga 20 réis, e cada carro 40 réis.
Foi aqui estaleiro em tempos antigos, e
n'elle se construiram, ou querenaram varios
navios, e até naus de gueira.
Em 30 de julho de 1874, foi: feito viscon-
de de Sacavem, o sr. José Joaquim Pinto da
Silva, casado coma sr.“ D. Amelia Augusta
da Silva Lima, viuva do 4.º visconde de Val-
mór, José Isidoro Guedes, que tinha obtido
o titulo, em 144 de março de 1867.
O sr. visconde de Sacavem, é natural do
Porto, e filho de outro José Joaquim Pinto
da Silva, negociante de sola na mesma eis
dade do Porto, e que falliu com: 360 contos
de réis.
A sr.2 viscondessa é natural de Lamego,
filha de Bento José da Silva Lima, que foi
n'esta cidade negociante de pannos, e, fallin=
do, foi depois escrivão do juizo de direito
da mesma cidade. |”
É irman do sr. doutor Bento José da Silva
Lima, actual juiz de direito da comarca do
Redondo.
Ao sr. Francisco Augusto Cordeiro da Ca-
mara Leme, e ao sr. Heorique d'Azevedo
Queiroga, devo o obsequio de muitos escla-
recimentos com respeito a Sacavem, e à ou-
tras povoações do concelho dos Clivaes.
SAG
A estes dois cavalheiros dou os meus mais
cordiaes agradecimentos.
SACCO DE TERRA —portuguez antigo, ain-
da usado na Estremadura e Beira—é o ter-
reno que póde levar seis alqueires de se-
meadura. No Ribatejo dá-se o nome de môio
de terra à porção de campo, ou leziria, que
se semeia com moio e meio (90 alqueires)
ou 13 saccos de 6 alqueires.
SACCOMARDO — portuguez antigo — sa-
queador, ladrão.
SACCOM DE CASAS — portuguez antigo—
fileira de varias casas, grandes e pequenas,
altas e baixas em qualquer rua.
Tambem certo numero, de pardieiros,
mais ou menos alinhados..
É d'aqui que vem janellas, ou portas, de
saccada.
SACGOIAS—freguezia, Traz os Montes, bis-
pado, districto administrativo, comarca, con-
celho e 6 kilometros ao E. do Bragança, 60
kilometros de Miranda, 485 ao N. de Lisboa.
Em 1757 tinha 53 fogos, mas depois che-
gou apenas a do.
Orago Nossa Senhora da Assumpção.
O abbade de Meixédo apresentava o cura,
que tinha 75000 réis de congrua e o pé de
altar.
Esta freguezia foi supprimida, por peque-
ba, e annexa à de Meixêdo, que lhe fica 6
kilometros a O., e d'onde havia sido antiga-
mente desmembrada.
Segundo a lenda, no 4.º de dezembro de
1640 (dia da 4.º acelamação de D. João IV)
tocaram (repiciram) os sinos da egreja, sem
que pessoa alguma os tangesse. Este mila-
gre foi authenticado pelo cabido da sé de
Miranda, in sede vacante; e constando isto à
rainha, D. Luiza de Gusmão, mulher de D.
João IV, mandou à padroeira da freguezia
uns riquissimos vestidos de tela branca.
No dia 15 de agosto, que é a festa princi-
pal da Senhora, havia aqui antigamente um
concorridissimo arraial.
A egreja matriz fica fóra; do logar, “pelo
SAG 319
Esta freguezia, como a de Meixêdo e cir-
cumferentes, são da casa de Bragança.
SACOTO e ASINHAL —appellido nobre em
Portugal, como se vê dos manuscriptos de
frei Manuel de Santo Antonio.
O seu primeiro brazão d'armas foi—em
campo de ouro, trez estrellas, de púrpura»
de oito pontas, postas em cruz: êlmo de aço
aberto; e por timbre meia onça da sua côr»
com uma das estrellas do escudo na espá-
dua.
No reinado de D. João ll, se fez muito co-
nhecido Gonçalo Mendes Sarôto, adsil-mór
d'este Teino,! 0 qual militou nas guerras da
Africa, e alli, sendo capitão de Gafim, des-
baratou cinco alcaides mouros.
+ Em premió d'este feito lhe deu o rei D.
Manuel (além ds outras mercês) novo bra-
1ã9-de armas, que foi—em campo de púr-
pura, cinco pendões azues, em aspa, com em-
puuhadura de ouro, tendo cada um, um cres-
cente de prata. Timbre e élmo os antigos.
Ao mesmo Gunçalo Mendes Sacôto, pelos
grandes serviços que fez em Tanger e Aza-
môr (Africa) alcançando grandes victorias
contra 08 mouros, deu o rei D. João HI um
acerescentamento às suas armas, à saber—
ao escudo primeiro accrescentou um chefe
de ouro, carregado de quatro cabeças de
mouros, toucadas, de azul e prata, e corta-
das em sangue. Timbre um braço armado
de ouro, com uma das cabeças do escudo
pendurada da mão pelo turbante.
Ássim 0 refere Montarroyo, que copiou a
carta de mercê, passada a 19 de julho de
1538.
Outros Sacôtos trazem por armas—em
campo azul, cinco estrellas de ouro, de oito
pontas; e o mesmo timbre e escudo.
Depois que os Sacôtos se enlaçaram com
os Azinhaes, composeram as suas armas da
seguinte fórma—escudo esquartelado; no 1.º
e 4.º, as armas dos Atinhaes, que são—em
1 Adail é corrupção da palavra arabe
que o Santissimo está em uma capella den- | addalil. O seu dever-era ensinar o caminho,
guiar, dirigir as tropas. Na Africa tinha tam-
bem as attribuições de governar us almoca-
dens, almogavures, e mais gente que fazia
correrias no campo inimigo (Asia Portugue-
za, tom. 3.º pag. 191.)
tro delle. ;
A egreja é antiquissima, e segundo a tra-
dição, foi construida no tempo dos gôdos,
sendo depois mesquita mourisca.
320 SAD
campo de prata, uma azinheira da sua côr;
e no 2.º e 3.º, às primeiras dos Sacôtos: o
mesmo éimo, e por timbre a azinheira.
SAÇOM — portuguez antigo — oecasião,
tempo proprio e opportuno, estação, etc.
Hoje diz-se sasão.
SACRAMENTAES-—portuguezantigo—di-
zia-se vulgarmente, conjuradores sacramen-
taes — eram 142 homens que nos juizos feu-
daes, juravam com o litigante, ser verdade o
que elle dizia.
SACRAMOR — portuguez antigo — nome
proprio de homem.
SADÃO —vide Mamede do Sadão (São.)
SADÃO—vide Margarida do Sadão (San-
ta.)
Esta freguezia fica descripta a pag. 70,
col. 1.º do 5.º vol.
Aqui accrescento:—Fica 18 kilometros ao
S.0. d'Alcacer do Sal, ao S. do logar do Tor-
rão, e entre os rios Sádo e Xarrâma.
Existiram na egreja d'esta freguezia, seis
inscripções, uma d'ellas christan, do anno
682, pela qual se vê que esta egreja foi ori-
ginariamente dedicada aos martyres, São
Justo, e São Pastor, que foram muito reve-
renciados em toda a Peninsula.
Dizia:
HYNC. DENIQVE. EDIFI-
CIUM SANCTORVM NO=
NINE CEPTVM IVSTI ET
PASTORIS MARTIRVM
QVORVM CONSTAT ESSE
SACRATYVM CONSY-
MATVM EST OC OPYS
ERA DCCXX.
(Anno 682 de Jesus Christo.)
As outras eram romanas:
4.2
JOVI. O. M.
FLAVIA. L. F. RVFINA
EMERITENSIS. FLA-
MINICA. PROVINC.
LVSITANIAB. ITEM. COL.
EMERITENSIS. PERPET.
ET MYNICIPI. SALACIEN.
SAD
As
FORTVNAE. OBSEQUIEN -
TI. SACRVM
FLAVIA. MODESTINA
PERP. EIVS. ANTISTES
EX VOLVNIATE. TEREN-
LI AEMILITANI. VIRI
SVI. IN. PRAEDIO
A PATRE. FL. MODESTO
SALACIENSI. SIBI
RELICTO. A. L. F.
3.
SERGIVS TERENTIVS
SERG. F. AEMILIANYS.
CENTVR. EMER. VIX. N. LXX.
ORDIN. DVX. SYB.
L. POSTVMIO. MODES-
TINA. MARITO.
MERENTISSIMO.
P. H.S. E. S. To T. L.
ha
L. RVBRIVS.
PRISCINVS.
ANN. XXVI.
H. 3. E.
o.
É uma lapide sepulchral, cuja inscripção
o tempo apagou.
Conferindo o contheudo n'estas inscrip-
ções com outras que foram achadas em Al-
cacer do Sal, e que D. frei Manuel do Cena-
culo levou para Beja, ficamos crendo que a
antiga cidade de Salácia, foi originariamen-
te fundada proximo da egreja matriz d'esta
freguezia de Santa Margarida do Sadão.
O que é incontestavel, é que por esta fre-
guezia passava uma via militar romana que
de Lisboa hia a Ossonoba (Fáro); pois teem
por estes sitios apparecido, em varias épo-
cas, marcos milliares romanos:
SADÃO ou SÃO ROMÃO DO SADÃO —fre-
guezia, Extremadura (mas ao S. do Tejo),
comarca, concelho e proximo a Alcacer do
Sal, arcebispado e 54 kilometros a O. d'Evo-
ra, districto administrativo e 90 kilometros
ao S.E. de Lisboa
SAD
Tem 280 fogos.
Em 1757, tinha 290 fogos.
Orago, S. Romão.
O rei, pelo tribunal da mesa da conssien-
cia e ordens (por ser commenda da ordem
de S. Thiago) apresentava o capellão, que
tinha 480 alqueires de trigo, 90 de cevada,
e 103000 réis em dinheiro.
É terra muito fertil, mas doentia.
SADO, SADÃO ou SADAM-—rio do Algar-
ve, Alemtejo e Extremadura.
Nasce na serra de Monchique (Algarve)
da juncção de trez rios—Damine, Xarrama
e Sádo—que se reunem no logar de Porto
d' El-Rei (Extremadura).
Suas aguas conteem grande porção de hy-
dro-chlorato de sodivm (sal commum.)
Corre ao N., até perto de Alcacer do Sal,
e voltando depois ao O., vai formar a gran-
de e salifera Ria de Setubal, tendo em fren-
te d'esta cidade, 5 kilometros de largura.
Suas margens são cobertas de salinas abun-
dantissimas, desde Alcacer do Sal, até pro-
ximo de Setubal (93 kilometros).
Recebe mais 12 rios menores, por ambas
as suas margens, e em todo o seu precurso,
que é de 155 kilometros—sendo navegavel,
75. (Vide Alcacer do Sal e Setubal.)
O Sado, tem tido varios nomes.
No tempo dos romanos, se chamava Ca-
lipus, ou Galípolis, ou Kallipus, e depois Sa-
lacia.
Os arabes lhe chamaram primeiramente
Xatêr, Xatuêr ou Xantêr, como quem diz
—rio do piloto—Qutros dizem que elles lhe
davam o nome de Chetawir, que vinha a ser
—pio do prudente, perito ou sabio.
Por fim lhe deram o nome que ainda con-
serva—Sádo--que significa feliz, rico, abun-
dante.
(Vide no artigo Algarve, o 4.º periodo de
pag. 125, col. 1.º do 4.º vol.)
Vê-se pois que é érro, inveterado, escre-
ver Sadão ou Sádam.
Em maio de 1878, foi feito visconde do rio
Sádo, o sr. doutor, Augusto Correia Godi-
nho Ferreira da Costa, irmão do sr. José Cor-
reia Godinhs da Costa, feito visconde de Gor-
reia Godinho, em 11 d'agosto de 1864.
SAD 321
Foram enormes os prejuizos causados nas
marinhas de sal, d'este rio, pelos furiosos
temporaes de dezembro de 1876, e janeiro
de 1877.
Houve proprietarios que perderam quas
todo o sal, e que se viram obrigados a im-
portantes despendios pela damnificação das
marinhas, algumas, ainda mesmo reparadas,
não produziram sal em abundancia nos an-
nos seguintes, pelo deslocamento do solo e
por terem os alagamentos cheios de agua
doce. :
Os prejuizos foram calculados em mais de
90:0008000 réis, pois só a perda de sal se
elevou a 60:000 moios.
Os alludidos proprietarios, cujos lucros
tinham sido insignificantes nos ultimos an-
nos, pela carestia dos jornaes, que elevaram
a muito o custo do fabrico do sal, e ainda
pelo preço por que este era vendido, des-
cendo a 700 e 600 réis o moio, pagando te-
davia a contribuição respectiva ao duplo d'a«
quelle valor, viram-se dobradamente aggra-
vados.
Alguns deixaram perder as marinhas, por
falta de meios para occorrerem ao dispen-
dio necessario para as reconstruir, pois fi-
caram arrazadas.
O damno a que nos referimos constituiu
uma verdadeira calamidade para Setubal,
cujo commercio quasi exclusivamente é o
do sal.
A casa de Bragança, tem na margem di-
reita do Sádo, e a 20 kilometros d'Alcacer
do Sal, a valiosissima propriedade, denomi-
nada—Herdade do Pinheiro, com uma su-
perficie de 5:266 hectares, e que vale mais
de quarenta contos de réis.
Na margem do rio, tem cinco portos, um
dos quaes, dá accesso a vapores de peque-
nas dimensões.
N'esta propriedade ha já hoje 28 colonias,
e este numero póde facilmente elevar-se a
100.
O arvoredo occupa uma extensão de 486
hectares, contendo 127:395 arvores, das
quaes 94:950 pinheiros mansos, 12:600 pi-
322 SAF
nheiros bravos, 18:224 sobreiros e o resto de
diversas arvores.
O resto da propriedade, divide-se do se-
guinte modo:
3;781 h-ctares de charnecas incultas, 516
parceis, 340 cultura de cereaes, 55 arroz,
37 paúes, 2 vinhedo, 3 terras que foram ma-
ninhas.
SAÉLLA — aldeia, Douro, do valle de
Arouca.
Vide no 2.º vol., pag. 231, col. 1.2, a 3.º
Cella.
Julgo mais etymologico que o nome d'es-
ta aldeia se escrevesse Sella.
SAFARA—freguezia, Alemtejo, na comar-
ca e concelho de Moura, 70 kilometros ao
S.0. d'Evora, 175 ao S.E. de Lisboa, 330 fo-
gos.
Em 1757, tinha 192 fogos.
Orago, Nossa Senhora d'Assumpção.
Bispado e districto administrativo de Beja
A mesa da consciencia apresentava 0 ca-
pelião, curado, que tinha 420 alqu ires de
milho, 120 de cevada, e 204000 réis em di-
nheiro.
Fica proximo da raia hespanhola, e é ter-
ra fertil em cereaes, e abundante de gado de
toda a qualidade e caça.
É mesmo a palavra arabe, sem corrupção
—safára—que significa campina.
Fui para esta freguezia mudada a alfande-
ga de Serpa.
(Para evitarmos repetições, vide Serpa,
onde se trata d'e-ta mudança.)
Por carta de lei de 24 de maio de 1878,
foi a séde do juizo ordinario da freguezia d-
Santo Al-ixo, mudada para Sufára.
SAFÍRA ou SAPHIRA--freguezia, Alem-
tejo, va vomarca é concelho de Monte-Mór
Novo (foi do msmo concelho, mas da co-
marca d'Arraiólos) 40 kilometros d'Evora,
65 ao S.E. de Lisboa.
Tem 1410 fogos.
Em 4757. tinha 420 fogos.
Orago, Nossa Senhura da Natividade.
Arcebispado e districto administrativo de
Evoia.
A mitra apresentava o cura, que tinha 330
alqueires de trigo.
- E terra fertil em cereaes.
SAG
Muito gado, e alguma caça.
O seu nome. vem do hebraico—saphir—
especie de pedra preciosa.
SAFURDÃO -— freguezia, Beira Baixa, co-
marca e concelho de Pinhel (foi do mesmo
concelho, mas da comarca de Trancoso) 75
kilometros de Viseu, e 365 ao E.N.E. de Lis-
boa.
Em 1757, tinha 55 fogos.
Orago, Santo Antão.
Bispado de Viseu, districto administrati-
vo da Guarda.
O abbade do Lamegal (de cuja freguezia
havia sido desmembrado) apresentava 0
cura, que tinha 68000 réis de congrua e o
pé d'altar.
É terra pobre e pouco fertil.
Está outra vez, e ha muitos annos, unida
à do Lamegal, d'onde havia sabido.
SAGAÇARÍA -portuguez antigo—sagaci-
dade, ardil, finura, etc.
Nenhum avisamento antigo podia ser egual
ás sagaçarias d'este novo guerreiro. (Lopes,
Vida de D. João I, parte 2.2, cap. 192.)
Vem do latino sagire, que significa ter
bom faro.
D'aqui se disse—sagaz, no am esa-
gaçaria no substantivo.
SAGEIRA e SAGÉZA —portuguez antigo—
sabedoria.
Do francez sagesse—que significa o mes-
mo.
SAGES —portuguez antigo—sabio, hones-
to, prudente, virtuoso.
Como fosse demanda antre o honrado Ba-
ron, e Sages, D. Gonçalo Steves, Dayão de La-
mego, de huma parte, eo Vigario e outros
haçoeiros d' Almacave da outra, etc. (Doc. da
Sé de Lamego, de 1337.)
Vem do adjectivo francez—Sage—que tem
a mrsma significação.
Esta palavra foi, provavelmente, introda-
zida em Portugal pelos nórmandos, ou gas-
cões, no seculo X, ou plo: francezes que
vieram ajudar D. Affonso Hevriques, na to-
mada de Lisboa, em 1147, e por cá fica-
ram.
SAGO — freguezia, Minho, na comarca e
concelho de Monsão, 54 Kilometros ao N.O.
do Braga, 415 ao N. de Lisboa.
|
SAG
Tem 100 fogos.
Em 1757, tinha 81 fogos.
Orago, S. Miguel, archanjo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
O real padroado, e depois os jesuitas, apre-
sentavam o vigario, que tinha 402000 réis
e o pé d'altar.
É terra pobre e pouco fertil.
Cria porém bastante gado, e nos seus mon-
tes ha muita caça.
SAGRES— villa, Algarve, na comarca de
Lagos, concelho da Villa do Bispo, 75 kilo-
metros de Faro, 225 ao S. de Lisboa.
Tem 440 fogos.
Em 4757, tinha 49 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Graça.
Bispado do Algarve, districto administra.
tivo de Faro.
A mesa da consciencia, apresentava o
prior, que tinha 1004000 réis e o pé d'al-
tar. ;
O seu primeiro titulo, era o de capellão
da guarnição.
O seu nome é corrupção do arabe—sa-
cron — certa qualidade de peça de artilhe-
ria.
É praça maritima, em fórma de peninsu-
la, murada para o lado de terra, com seus
revelins, em cujo recinto apenas encerra as
casas dv governador, as que foram residen-
cia do infante D. Henrique, os quarteis da
guarnição e a egreja matriz da frguezia,
que foi construida em 1519, quando esta pa-
rochia se dasmembrou da da Villa do Bispo.
Esta fregue»zia é quasi toda espalhada por
casaes, fóra da praça, e esta fica 6 kilome-
tros a E. do Cabo de S. Vicente, sobre uma
ponta de grandes rochedos, com a altura de
410 metrus acima do nivel do mar. (!)
Tem duas bahias, uma a E. e outra 20.
da ponta que entra muito p:lo mar dentro;
e ambas dão seguro abrigo às embarcações
que não podem montar o Cabo.
Fui fundada (com mais probabilidade ree-
dificada) em 1449, p-lo famoso infante D
Henrique, duque de Viseu (5.º filho de D.
João Ie da rainha D Philippa), que lhe deu
o nome d» Terça Naval (vida Tercêna) ou
Filla do Infunte, ou Villa Nova'do Infante,
SAG 323
pois por todos estes nomes era conhecida. 1
Por alvará de 2 de junho de 1461, se deu
aos seus moradores o privilegio de não pa-
garem meia siza do que comprassem ou
vendessem. .
Este alvará foi confirmado por D. Affons
so V, em 14 de março de 1461,e depois, por
D. João II, em 13 de agosto de 1486.
N'esta villa assentou o infante a sua re-
sidencia, para dirigir as descobertas que
no seu tempo se fizeram no Ultramar.
Foi este infante, que em Sagres fundou q
1.º observatorio astronomico que viu Por-
tugal—e talvez a Europa—e no seu mesmo
palaci», estabelec=u escolas de mithematica,
nautica, geographia, astrononsia, cosmo-
graphia, e commercio, para as quaes convi-
dou, com bons parndos, varios sabios, por-
tuguezes e estrangeiros: tudo à custa do in-
faute, assim como tercenas, casas, fortes,
etc.
N'estas escolas se formaram os nossos me-
lhores vavegadores d'aquelle tempo. e até
muitos estrangeiros, que vieram aqui estu-
dar, pela fama dos mestres que as diri-
giam.
Do porto de Sagres fez o infante sahir os
argonautas ousad:s, que transpindo os li-
mites do Cabo Não, na costa occidental da
Africa, Da latitude de 28º, 38-—e na lon-
gitude occid. de 2º, e 49”.
Deu-se-lhe o uome de Cabo Não, porque,
segundo o que aié então se dizia, d'elle ávan-
te não se passava.
1 D. J:ão I, teve sete filhos legitimos:
1.º, D. Branca, que morreu de tenra eda-
8.
2º, D. Affonso, que tambem: morreu
creança.
3º, D. Duarte, que lhe succedeu na co-
Foa.
4º, D. Pedro (o d'Alfarrobeira) duque de
Coimbra.
9º. D Henrique.
6.º, D Isabel, dnqueza de Borgonha, mu-
lher de Philipp-= HI o Bom.
7.º, D. Fernando, mestre d' Aviz, que mor-
reu capiivo em Africa.
Tev- tambem dois filhos bastardos:
D. Affonso, conde de Barcellos, tronco da
casa d Bragança.
“ D. Brites, que casou com o conde d'Aron-
del,
324 SAG
O infante morreu em Sagres, a 13 deno-
vembro de 1460, com 66 annos de edade, e
foi sepultado na matriz de Lágos.
Em 1461, seu irmão, o infante D. Fer-
nando, o fez transferir para o real jazigo da
Batalha, onde jaz.
Foi muito povoada esta villa, mas hoje
nada existe da sua antiga grandeza, senão
as casas, aliás ordinarias, onde consta que
morava o infante.
Em novembro de 1839, se collocaram n'es-
ta casa, duas lapides de marmore, embuti-
das na parede.
Cada uma destas lapides tem 1,=25 d'alto
e 1,15 de largo.
Em uma estão gravadas as armas do in-
fante (que são as de Portugal) tendo por
timbre a cabeça de uma serpente alada, com
a legenda—TALENT DE BIEN FAIRE—de que
o infante usava.
Do lado esquerdo, vê-se um globo terres-
tre, e do direito um navio à vela.
Foi esculpida por Manuel Simões.
A lapide da direita, tem uma inscripção
laudatoria, narrando os relevantes serviços
que á patria, ás sciencias mathematicas e à
navegação, fez o esclarecido infante.
Não a copio aqui por ser muito extensa.
Já estã quasi ilegivel, pela má qualidade
da pedra.
Em 25 de maio de 1587, uma esquadra
ingleza, commandada pelo feroz vice-almi-
rante, Francisco Drake, deitou aqui gente em
terra, que incendiou a vilia depois de a ter
saqueado.
Depois, foram fazer o mesmo ao convento
do Cabo, d'onde fugiram os religiosos para
Lagos, e alli estiveram 12 annos, até que em
1606 Philippe HI o mandou reedificar e tor-
naram para elle os frades.
Drake, commandava trinta navios de guer-
ra.
As disputas eram entre os inglezes e cas-
telhanos, mas nós é que pagavamos as diffe-
renças. a
O valentão britannico virou a sua sanha
contra povos innocentes e indefezos, e que
nenhuma culpa tinham nas desavenças da
Hespanha contra a Inglaterra.
SAG
Alem de tudo quanto os ti ez
Philippes e os seus sequazes
nos roubaram, e de todas as
crueldades que praticaram du-
rante aquelles terriveis e omi-
nosos 60 annos, ainda por ci-
ma tivemos de aguentar com
o rancor e injustas Vinganças
das nações com que os Philip-
pes estavam em guerral
O terramoto do 4.º de novembro de 1735,
tambem n'esta povoação, como em todo o
Algarve; causou grandes estragos, arrázan-
do a maior parte das muralhas, que eram
de cantaria, com mais de uma braça de
grosso, cahindo toda a entrada da porta da
praça, apezar de ser obra fortissima.
A egreja matriz, que estava à E., e era
de abobada de pedra, ficou fendida; foram a
terra as casas do governador e os quarteis
da guarnição, bem como à residencia do pa-
rocho.
Cahiu ao mar toda a bateria do E., euma
peça, de bronze, de calibre 48, que alli es-
tava.
Muitas casas que havia proximo da praça,
foram arrazadas.
A fortaleza da Baleeira, ficou raza, e na
do Beliche, que fica 1:500 metros ao O., ra
chou a ermida e os quarteis, mas as mura-
lhas pouco soffreram.
O Osceano recuou 3 kilometros, deixan-
do em secco enceadas onde podiam ancorar
naus; depois avançou para terra, com tal
violencia, que, pelo lado do N., montou ro-
chedos da altura de 130 metros, deitando
dentro da praça grande quantidade de pei-
xe.
Entrou pela praia do Murtinhal, frontei-
ra, à E. mais de 3 kilometros pela terra
dentro, arrancando vinhas e deixando, ao
recuar, a terra alastrada de peixe de varias
qualidades e grandes penedos (um de mais
de 300 arrobas!) com muitos mariscos pega-
dos a elles.
Por trez vezes repetiu o mesmo fluxo e re-
fluxo, sendo maior o primeiro.
No sitio de Vallongo, a 3 kilometros da
villa, ha uma fonte, que ficou sêcca.
SAG
No mosteiro do Cabo de São Vicente, abriu
toda à abobada da egreja, e cahiram duas
abobadas das cellas dos frades, e as dos cor-
redores ficaram muito arruinadas.
Os muros da fortaleza, que cercam o mos-
teiro, nada soffreram!
O mar, tambem aqui recuou 3 kilome-
tros, deixando completamente em sécco um
sitio que tem 80 palmos de fundo.
Depois, cresceu com tanta furia, que che-
gou ao nivel da rocha e muralhas da forta-
leza do Beliche, que tem 300 palmos de al-
tural
Trez foram tambem os fluxos e refluxos
do mar, como em toda a costa algarvia.
Seis kilometros ao N. da praça, rebentou
uma fonte d'agua salgada.
Com todos estes horrores, houve, ao me-
Dos, a fortuna de não morrer ninguem, 0
que parece milagre.
O termo d'esta villa, que tem 9 kilome-
tros de comprido, e 3 de largo, comprehen-
de algumas terras ferteis, e nos areaes, jun-
to à praça, ha vinhas que dão bom vinho
palhête.
O espaço até ao Cabo de S. Vicente, é pe-
dregoso, árido, e açoitado do vento em to-
das as estações; mas ha por aqui muita ca-
ça miuda.
O peixe que se pesca nas suas rochas, é
saborosissimo, assim como os mariscos, es-
pecialmente os percêves e as lagostas.
Na ponta da terra que entra no mar, tam-
bem se cria alguma caça, de sabor deli-
cado.
Tem varias furnas, por onde o mar en-
tra. )
Quando está bom tempo, vão a estas fur-
nas os pescadores de polvos e outros ma-
riscos; porém quando o mar está bravo, o
estrondo que faz por ellas dentro, é medo-
nho.
O embarque e desembarque, faz-se na praia
da bahia do E., ou, quando o mar está bom,
saltando (com risco) das lanchas para uns
penedos, no sitio das Póças, onde ha muito
fundo. -
Todo o terreno destes arredores, é cheio
de rochas calcareas, e no sitio da Baleeira,
VOLUME VIII
SAG 325
ha uma camada abundantissima de argilla,
esverdeada, contendo bastante micca, que
se funde com facilidade, e serve para fazer
garrafas, botijas e outros objectos grossei-
ros, em fornos proprios.
Ha aqui abundancia de lenha.
O Promontorio de Sagres, fórma uma pe-
ninsula — chamada a Ponta—de 4:500 pal-
mos de comprido (1:000 metros), por 2:000
de largo (445 metros).
É todo composto de um descarnado ro-
chedo, em quasi toda a parte minado pelo
mar.
No termo da villa, ha finissima plombagi-
na (graphites)—ardozias escuras, amarellas,
e ondeadas, muito duras, e susceptiveis de
polimento--e muito e optimo gêsso (sulpha-
to de cal.)
Dá-se tambem por estas terras, muito as-
safrão ordinario (ao qual chamam aqui aça-
flor) sóda, baga de zimbro, gran de carras-
co (kermes) e urzella; tudo sem cultura, isto
é — espontaneamente.
Ságres fica em 37º de latitude, e 11º 45
de longitude.
,
É à iniciativa do infante D. Henrique que
se deve a descoberta das ilhas da Madeira,
Porto-Santo e Desertas; a das nove ilhas dos
Açôres; e a costa occidental da Africa, na
extensão de 370 leguas, desde o Cabo Boja-
dor, até à Serra Leóa.
A cidade do Porto, tem a gloria de ser pa-
tria do infante D. Henrique, pois que nas-
ceu nos paços reaes d'esta cidade, na Rug
Nova de S. Nicolau (hoje Rua dos Inglezes)
e onde está a Alfandega velha, 1 a 4 de mar-
ço de 1394.
Os principaes navegadores, do tempo do
infante, furam João Gonçalves Zarco, Tris-
tão Vaz Teixeira, Bartholomeu Perestrêllo,
e Gil Eanes.
1 Pretendem alguns que elle nasceu no
paço episcopal, mas parece mais provavel
que nascesse nos paços da Rua Nova.
21
“326 SAG
A 4.º descoberta, foi a da ilha de Porto
Santo, em 1418; e a Madeira, em 1419.
Era D. Henrique, duque de Viseu; mestre
da ordem de Christo; cavalleiro da ordem
da Jarreteira (em Inglaterra) general das
armas nas costas da Africa; fronteiro-mór
de Leiria, e senhor da Covilhan, Lagos e Sá-
gres.
Todas as suas rendas —que eram enormes
— as empregava não só em edificios neces-
- garios em Sagres, como em compra de na-
vios; soldo aos marinheiros e officiaes de
bórdo; premios aos benemeritos; e esmolas
- aos infelizes.
Tambem foi D. Henrique o fundador da
capella de Nossa Senhora do Rastêllo, d'on-
de, em 1497, partiu para a descoberta
do caminho da India, pelo Cabo da Boa Es-
perança, o famoso D. Vasco da Gama. (Vide
“ Niza é Vidigueira.)
Quando o rei D. Manuel mandou cons-
truir o sumptuoso e venerando templo dos
Jeronymos, de Belem, no local da capella da
Senhora do Rastéllo, mandou collocar, para
memoria, o busto do infante sobre a colum-
na que divide a porta latteral do templo.
Muitos, escriptores dizem que D. Henrique
foi o fundador de Ságres. Não é exacto.
Esta villa é povoação antiquissima, tal-
“vez mesmo anterior ao dominio dos roma-
“nos.
Os árabes lhe mudaram o nome para Chak-
Rack (que, segundo alguns, quer dizer-—Ilha
“dos Rochedos) mudando-lh'o ainda depois pa-
“ra Sacron ! que se corrompeu em Ságres.
1 Sigo o que dizem escriptores de muito
- credito; mas, com sua licença, não me con-
formo com semelhante etymologia.
É verdade que frei João de Souza, nos
seus Vestígios da ungua arabica, em Portu- |
gal, diz, a pag. 142) que sacron significa
- uma especie de peça 'de artilheria: mas, €o-
mo podiam os mouros dar semelhante no-
me a Sagres, se só passados 135 annos de-
pois da sua completa expulsão do Algarve,
é que cá appareceram, pela 1.º vez, peças
de artilheria?
Entendo que Sagres é corrupção de Chak:-
Rach e não de Sacron; mesmo porque era
mais facil a corrupção.
SAG
O infante, pois, só a reedificou.
em
Tudo é pouco, quanto se diga em louvor
do benemerito infante D. Henrique, a quem
tanto deve Portugal, porisso, aqui transcre-
vo um artigo, publicado em o n.º 1974, do
Jornal da Noite, de 14 de julho de 1877.
É o seguinte:
A escola de Sagres e as tradições do
infante D. Henrique, pelo sr. mar-
quez de Sousa Holstein.
Conferencia feita na Academia Real das
Sciencias de Lisboa, em a noite de 14 de
- junho(de 1877.)
«Coubera ao sr. marquez de Souza o hon-
roso encargo de encetar a serie de confe-
rencias instituídas pela Academia Real das
Sciencias ácerca dos descobrimentos e co-
lonisações dos portuguezes na Africa.
Da segunda destas conferencias já n'este
logar nos occupámos largamente e com de-
vido louvor.
O volver d'olhos retrospectivo que hoje
relanceamos sobre a primeira conferencia é
um pouco tardio.
A demora porém que puzemos na men-
ção do trabalho do primeiro conferente, de
modo nenhum importa a mais leve sombra
de desconsideração, nem para o prelector,
nem para a sua obra.
Diversas circumstancias, que fôra longo
enumerar aqui, determinaram a preferen-
cia dada à preleeção do sr. Pinheiro Cha-
gas. |
Tal preferencia, quaesquer que fossem as
razões que a motivassem, nunca poderia of-
fender o sr. marquez de Souza, a quem nos
ligam laços de boa amizade.
Dadas estas explicações, aliás desnecessa-
rias, entramos em materia.
O objecto da prelecção foi com muito
acerto escolhido,
N'uma serie de conferencias ácerca da
influencia tão proveitosa e potente, outr'ora
exercida na Africa pela exuberancia da nos-
sa actividade nacional, fôra imperdoavel fal-
ta esquecer o grande infante.
SAG
A natureza dos serviços prestados à pa-
tria pelo immortal Regedor e Governador da
Ordem de Christus, com os quaes se avan-
tajou a não poucos dos melhores, e presidiu
gloriosamente a todos, dava-lhe indiscutivel
direito a occupar na serie, o primeiro logar,
a ser o objecto da primeira conferencia.
Assim o entendeu o sr. marquez de Sou-
za € comnosco o sentirão de certo todos.
Tinha porém o assumpto não vulgares dif-
ficuldades. Era já de si origem de não pou-
cas a sua propria grandeza.
Ácerea delle escreveu o gr. Major um li-
vro volumoso, sem lograr no seu proprio
sentir, exhaurir o assumpto.
Na Torre do Tombo suppõe o escriptor in-
glez acharem-se vastos e importantes sub-
sidios para o conhecimento da vida e feitos
do illustre Duque de Viseu e 0 accesso a tão
precioso thesouro achava-se-lhe naturalmen-
te defezo. a
A escassez das noficias que nas nossas
chronicas e documentos impressos encon-
tra o historiador do Infante centuplica es-
"sas difficuldades.
Temos na conferencia a imagem inteira e
banhada de luz do glorioso infante? A defi-
ciencia relativa da sua obra reconheceu-a o
prelector com louvavel franqueza.
Na escassez das informações encontra em
parte e fundamenta a sua justificação. O in-
fante D. Henrique, observa o illustrado pre-
lector, não tem mesmo uma lenda.
A estranheza d'este facto affigura-se-lhe,
e justamente, enorme.
«Tem-n'a seus irmãos D. Pedro e D. Fer-
nando; tem-n'a o grande condestavel; teve-a
depois D. Sebastião; tiveram-n'a muitas ou-
tras figuras, cértamente menos poeticas do
que a do illustre solitario de Sagres; só elle
ficou esquecido.»
Mais longe escreve o esclarecido prelector
com o mesmo acerto:
«Não foi mais feliz com a historia severa
e conscienciosa, o nosso grande infante. Ain-
da não mereceu em Portugal as honras de
uma monographia completa.»
É deveras para lamentar que ainda de-
pois da prelecção que actualmente nos oc-
SAG 3217
cupa e apezar dos seus meritos, a última
phrase continue igualmente verdadeira.
Para este resultado contribuiram larga-
mente as difficuldades a que acima alludi-
mos.
Sobrevieram outras porém que enleiavam
cada vez mais, e ainda mal, as intenções e
esforços do esclarecido conferente.
De duas origens diversas derivam ellas. O
sentimento vivo no esclarecido prelector; e as
condições do publico, ao qual principalmen-
te se destinava a conferencia, afastou-o tal-
vez das investigações longas e minuciosas
nos velhos documentos, sepultados nas som-
bras e no silencio sagrado do nosso grande
archivo nacional, ao qual só com a nossa
ausencia pertinaz significamos o profundo
respeito que nos merece.
As datas rectificadas, os factos averigua-
dos cuidadosamente, as circumstancias d'el-
les ou restabelecidas, ou substituídas, ou ri-
gorosamente e por seguro exame eliminadas,
as lacunas preenchidas com zelo e criterio,
aconselhavam o illustre prelector a escrever
a monographia que falta, a pagar. ao infan-
te a divida sagrada que a inexplicavel in-
differença de Portugal, conserva injustamen-
te e ha tanto tempo em aberto.
Para sermos justos, precisamos accrescen-
tar que a estreiteza do tempo com que, se-
gundo a sua propria declaração, teve que
luctar o auctor da conferencia, desviou-o de
mais longas e eruditas investigações.
Felizmente porém para a sua conferencia
e para nós, o sr. marquez de Souza, não se
sentiu tomado do sagrado terror que incute
a Torre do Tombo como se fosse as rupes
rabidae delubra Sibyllae.
Na obra do esclarecido conferente, encon=
tramos os vestígios de-rapidas mas não es-
tereis indagações.
Na propria modestia, encontrou o- prele-
etor uma segunda origem de difficuldades.
Julgou-se falho em parte de recursos para
arcar com a empreza.
Receiou de si. Imitando uma phrase de
Littrê, poderiamos dizer-lhe que nos impor-
ta não ter em nós excessiva confiança, mas
trabalhar como se tal confiança nos ani-
masse.
328 SAG
Apezar de tudo, a obra sahiu ao prelector
crêdora dos nossos elogios.
Lição abundante e selecta das fontes im-
pressas, tanto nacionaes como estrangeiras,
correcta disposição dos elementos apurados
na estructura da obra, fórma elegante e ele-
vada muitas vezes, tersa, e attrahente sem-
pre, comprehensão exacta da importancia
da materia, e aquelle amor estremecido, sem
o qual as obras mais estudadas não interes-
sam o leitor, são qualidades que não fal-
tam à prelecção quejnos occupa e lhe gran-
gearam applausos.
Ás indagações do sr. marquez de Souza
sômos devedores de um documento pre-
cioso.
O testamento do illustre infante, nunca
“d'antes, ao que parece, havia sido publi-
cado.
Teve o prelector a boa inspiração de nol-o
dar na integra n'uma nota.
Da intelligencia penetrante do grande ho-
mem, do seu saber dilatado e profundo,
quanto o soffriam os preconceitos scientifi-
cos, os methodos deficientes, os systemas de-
feituosos do tempo, da sua energia indomi-
ta e fecunda, da sua perseverança inflexi-
vel, que havia de produzir no futuro, resul-
tados superiores aos que antevia o seu ge-
nio, presentimos, se nos não é dado ainda
medir, o alcance.
Os seus feitos, os seus habitos, a sua in-
fluencia nos successos e nos homens do seu
tempo denunciam-nol'o descommunalmen-
te grande; o seu testamento, escripto sobre
o tumulo que tinha de fechar-se sobre tan-
tas grandezas feitas por um só homem, e
lhe havia de dar o ultimo e o primeiro des-
canço, revela-nolo excepcionalmente bom.
É o espelho sincero e fiel onde vem refle-
clir-se suavemente as suas virtudes domes-
ticas.
Amamol-o depois de havel-o admirado.
Grande homem e grande crente, falla a
linguagem sublime da verdade, ante as mys-
teriosas e incommensuraveis grandezas da
morte.
Modestianobre e varonil que tão delicio-
samente contrasta com os explendores do
seu engenho e do seu caracter, é a primei-
SAG
ra virtude que transluz no documento, onde
se lê a sna derradeira vontade.
Quer que o «seu corpo seja châmente le-
vado ao moimento que lhe está destinado no
mosteiro de Santa Maria da Victoria, onde
jaz el-rei seu senhor e padre e n'elle seja so-
terrado châmente e sem dó que manda por
elle não façam.»
Nas dividas que os seus vastos emprehen-
dimentos poderam originar, pensa a casta
exacção da seu caracter e determina que de
suas rendas sejam pagas escrupulosamente, |
se poder ser que em sua vida as não haja |
satisfeito.
Aquellas de que o constituiu crédor a vas-
tidão do seu engenho, dos seus commetti- |
mentos, desvanecem-se ante as suggestões de |
uma gratidão excessiva.
As copiosas rendas que usufruia, não eram |
aos seus olhos, retribuição justissima de ser-
viços enormes: eram simples mercê.
Ao grande homem que tanto havia feito,
parecia-lhe haver feito pouco.
Assim é que pede a el-rei, por mercê, que.
elle queira ser seu testamenteiro, pois d'el- |
rei é todo o de que faz testamento.
Os seus serviços affiguram-se-lhe já bem |
pagos.
Julga-se mesmo obrigado à restituição, |
quem tanto do seu e de si havia dado ao |
rei, à patria, à humanidade. -
Ao infante D. Fernando, resalva o seu ca- |
rinho de pae estremecido uma parte de seus:
bens; a el-rei deixa por herdeiro de tudo.
que lhe pertencia á hora da sua morte, as-
sim de raiz como de movel.
Antevê logo depois a delicadeza do seu
animo, em seu senhor e rei, a possivel reso-
lução «de recompensar no filho, os serviços!
do pae e agradece-lh'o, mas só rapido e de)
fugida, como receiando com o agradecimen-.
to, suggerir a idéa do galardão.
Mas o grande infante não é só pae.
O homem de estado, prudente, assiste, mos
derando-as, ás manifestações do afiecto pas
ternal.
O seu zelo patriotico, previne el-rei con=
tra as possibilidades duma generosidade exe
cessiva, vedando-lhe que dê ao infante D
Fernando, Lagos, a Ilha da Madeira e as ous]
SAI
SAL 329
tras cousas, que elle deseja fiquem para a [ sainhos, que depois se chamaram albornozes,
* gua corôa e a de seus successores.
Os seus servidores leaes e dedicados não |
podiam ficar e não ficaram esquecidos.
A el-rei, e ao infante seu filho pede que os
recebam em seu serviço.
A recommendação que d'elles faz é bem
digna do seu caracter e do seu coração.
«E a Deus louvores, taes são que haverão
por bem empregada a mercê que lhes fize-
rem.»
Doce e commovedor elogio!
Para os companheiros dos seus trabalhos,
para os desvelados servidores do infante,
deviam ser, e foram de certo, estas palavras
escriptas em tão solemne documento a mais
invejada e grata recompensa.
Em conclusão, preferiamos em vez de um
elogio uma monographia do infante.
A conferencia do sr. marquez de Souza,
tal qual é não deixa de ser um bom servi-
ço, e um trabalho que lhe faz honra.
Os que pretenderem mais amplas noticias
do infante D. Henrique, vejam os Retratos de
Varões e Donas, a pag. 61.
SAGUÃO ou XAGUÃO—é voz corrupta do
substantivo árabe shanon. Significa pateo
destelhado, no interior das casas, epara 0 on-
de correm as aguas da chuva.
SAIBO—portuguez antigo — sábio, douto.
SAIBADE—portuguez antigo — cura (de
qualquer doença).
SAINHAS ou SAINHAS— praia, Extrema-
dura, junto e ao O. da torre de S. Julião da
Barra (Lisboa).
Ha aqui um jasigo de pedras Fito grip
cas, descoberto pelo sr. Jorge Freire da Sil-
va, em maio de 1877.
SAIO —portuguez antigo—(tambem se es-
crevia sayo e saya). Vem do latino sagum.
Era vestidura militar, curta, quadrada, de
panno grosseiro, e com abas ou quartos.
O saynho era um gibão redondo e sem
abas.
O sagyo de malha era a peça do vestido dos
guerreiros, que descia da cintura até aos
joelhos, e feita de escamas, ou rede de fer-
ro, para defender o ventre.
As mulheres tambem usavam de sayos ou
roupões, saltimbarcas e bájús. 1
A este vestido se veio por fim a chamar
mantéu, trajo ainda usado pelas nossas ar-
raianas do Traz os Montes, e pelas gallegas
do campo. É um panno que se enrola em
volta da cinta, preso por uma fita grosseira,
ou por botões ou colchetes, e serve de saia,
palavra derivada do antigo sayo.
SAIONIZIO—estipendio ou gajes que se
davam antigamente aos alcaides, beleguins,
esbirros, ou carrascos; e que depois se de-
nominou salario de mão posta, que era a pa-
ga de amarrarem os criminosos. (Doc. de
Paço de Sousa, de 1103.)
SAL — portuguez antigo — sahir (d'este
mundo), morrer. Vem de salir, fallecer.
E se se Paay (Payo) Martinz ante sal ca
eu (morrer primeiro do que eu). Doc. de Al-
pendurada de 1292.
SAL-FINTO—portuguez antigo—sal coa-
lhado, segundo Viterbo—mas, sal por junto,
segundo J. P. Ribeiro; e esta opinião pare-
ce-me mais verosimil.
SALA—portuguez antigo—salva, de qual-
quer metal.
SALA vu SÁLLA— cidade antiquissima da
Lusitania, na provincia do Minho, da qual
ainda ha vestigios, no sitio hoje chamado
Sá, na freguezia do Couto, concelho de San-
to Thyrso.
Já no vol. 2.º, pag. 416, col. 1.2, no ultimo
Couto, e no vol. 5.º, pag. 4714, col. 1.2 na pa-
lavra Monte Córdova, tratei d'esta cidade:
aqui darei mais as seguintes noticias, que
são interessantes.
A D. Ramiro II succedêra seu filho, D. Or-
donho HI, que foi um sabio e intrepido guer-
reiro.
No anno 933, Abd-el- Rahman, 2 Kalifa de
Córdova 3 invade o reino de Castella com
um grande exercito; porém, D. Ordonho é
o poderoso conde, D. Fernando Gonçalves,
1 Báju é corrupção do francez abat-jour.
2 Ab-el-Rahman é nome proprio árabe—
significa—Servo do Misericordioso.
3 Kalifa, Chalifa, ou Khalifah, é a aucto-
ridade suprema de uma nação árabe. Signi-
fica successor ou herdeiro (de Mafôma).
390: SAL
senhor da Catalunha, o vencem e derrotam
na batalha de: Osma.
O kalifa vae à Africa buscar novos refor-
ços, e juntando-os aos arabes castelhanos,
fórma um grande exercito, com que, no
mesmo anno, torna à invadir a Castella, e
de novo é derrotado na famosa batalha de
Clavijo.
D. Ordonho não descançou sobre os lou-:
ros da victoria, mas atravessou a Lusitania
(que já então se principiava a chamar Por-
tugal) chegando até Lisboa, que tomou e sa-
queou.
Voltando para a sua côrte de Leão, pou-
cos annos sobreviveu a tantas e tão assigna-
ladas victorias.
Foi este rei que doou a aldeia de Moreira
(da Maia) ao mosteiro de Vimarães—a actual
cidade de Guimarães.
A D. Ordonbo III succedeu seu irmão, D.
Sancho I, que, por ser hydropico, foi cogno-
minado o Górdo; mas este rei não convinha
aos senhores de Leão, que capitaneados pelo
conde D. Fernando Gonçalves, o expulsaram
do throno, e obrigaram a fugir para a Na-
varra, cujo rei era seu parente, que o acon-
selhou para que fosse a Córdova, consultar
os medicos arabes, que gosavam de grande
fama.
Foi, e Abd-el-Rabman o tratou com a
maior distincção, convocando os medicos
mais celebres de Córdova, que curaram com-
pletamente o rei christão.
Não se limitou a isto a generosidade de
Abd-el-Rahman, porque até lhe deu um
exercito árabe, com o qual D. Sancho recu-
perou os reinos de Leão e Galliza.
D. Ordonho. IV, filho de D. Affonso IV, o
Monge, que reinava havia apenas um anno,
foi morto em uma; batalha, em 960.
No ultimo anno do reinado de D. Sancho,
se rebellou contra elle a Galliza, (que então
chegava ainda até à margem direita do Dou-
ro), porém o rei reprimiu esta revolta.
Os condes da provincia de Entre Douro e
Minho, passaram com as suas tropas para o
sul do Douro, e se uniram ao conde D. Gón-
galo, e júntos intentaram à guérra contra
D. Sancho. Chegando, porém, à margem es-
uerda do Douro, se reconciliaram com o
SAL
rei, € assentaram pazes, que foram juradas
por este e pelos condes.
O perfido conde D. Gonçalo, convidando
o monarcha para um jantar, lhe ofereceu
um bello fructo, mas envenenado. O rei,
apenas o comeu, sentiu grandes ancias, é
voltou para Leão; mas, chegando á margem
esquerda do rio Minho, morreu do veneno,
no anno 967.
Os condes do Minho não foram conniven-
tes no crime, e declararam D. Gonçalo ca-
valleiro aleivoso e desleal.
O conde D. Froila de Vermoim, em nome
de todos, se offereceu para sustentar no cam-
po esta declaração, e desafiou a D. Gonçalo,
que acceitou, e se apresentou na VILLA DE
SALAS, junto à cidade do Porto, e ahi foi ven-
cido por D. Froila.
SALA ou SALAS — (Para evitarmos repe-
tições, vidê vol. 5.º, pag. 471, col. 1.2)
Na cidade de Sála ou Sálas era o solar
do conde D. Guterres Arias e de sua mulher
a condessa D, Aldara, senhora virtuosissi-
ma. Já fica dito, no artigo Monte Córdova, o
que ha a respeito do nascimento de seu fi-
lho primogenito, S. Rosendo ou Rodesendo,
que veio a ser bispo de Dume (proximo a
Braga) no seculo X.
Foi depois bispo de S. Thiago de Compos-
tella (Galliza). Perseguido pelos gallegos, que
o odiavam por não ser do seu paiz, fugiu
para Portugal, onde veio fundar o mosteiro
de Cella Nova, com as rendas que herdára
de seus paes.
N'este. mosteiro professou o santo, sob a
regra de S. Bento, e foi o seu primeiro ab
bade.
Foi um varão virtuosissimo, e a providen-
cia dos desgraçados ou afílictos d'aquelles
sitios.
Morreu de uma edade muito avançada, no |
principio do seculo XI.
SALA—Vide Sá.
SALÁCIA ou SALÁRIA—consta que, foi
uma cidade romana, nas margens do Sádo,
no; sitio. onde hoje existe a villa de Alca-
cer do Sal. Vidê esta palavra...
Pelos annos: 305 de Jesus Christo, sendo ,
imperador o cruel Diocleciano, e pretor na |
Lusitania o sanguinario Daciano, houve um
SAL
concilio em Hespanha (parece que na cida-
de de Granada) no qual se achou o bispo.
de Salácia (ou Salária) S. Januario.
Disse a pag. 97, col. 4.º do 1.º volume, que
este sancto prelado e seus trez companhei-
ros—os padres, Felix, Septimo e Fortunato
—foram aqui martyrisados pelos romanos, a
7 de janeiro d'aquelle anno. -
Outros escriptores, porém, affirmam, que
não querendo S. Januario adorar os idolos
dos romanos, nem entregar os livros sagra-
dos, foi mariyrisado com as ditos seus com-
panheiros, na cidade de Heraciéa.
O que é certo é que estes quatro marty-
res morreram pela fé de Jesus Christo.
Vê-se, pois, que muitos seculos antes de
Portugal se tornar famoso pelas suas home-
ricas façanhas e pelas suas portentosas des-
cobertas e navegações, já era celebre, por
ter no Ceu grande numero de martyres e
confessores, primicias da sua firme e inaba:
lavel crença na Santa Religião Catholica
Apostolica Romana.
Depois de impresso e publicado o primei-
ro volume d'esta obra, deu-se aqui um fa-
cto, de cujo conhecimento não quero pri-
var os meus leitores, por ser interessante:
e o menciono n'este logar.
Ainda em Portugal se não tinha achado a
necropole* de uma grande povoação ou ci-
dade: apenas tinham apparecido em muitos
logares sepulturas romanas, em maior ou
menor numero.
Em maio de 1873, porém, na proprieda-
de;do sr. Antonio de Faria Gentil, querendo
este cavalheiro nivelar o terreno de um an-
tigo olival, em sitio apropriado para uma
eira, descobriu, apenas na profundidade de
palmo e meio (07,33) freios de ferro e folhas
de espadas, algumas com punhos de bronze
cinzelado; fibulas de bronze; vasos lacrima-
1 Necropole ou mecropolis é uma palavra
grega, composta de necros (mortos) e polis
(cidade). Vem pois a significar cidade dos
mortos, isto é, cemiterio.
Os romanos adoptaram dos gregos esta e
outras muitas palavras, como adoptaram as
suas mythologicas divindades.
SAL 334º
torios; alampadas mortuarias, de barro; moece
das romanas e outros objectos; entre elles
um retrato, em argilla, coberto de estuque
colorido, de rara perfeição.
Tambem se acharam quatro urnas de di-
versos tamanhos, no estylo etrusco, contem
do cinzas.
Junto d'estas urnas, foi achada uma moe-
da romana do imperador Claudio, e isto in-
dica que taes objectos são da sua época.
Os trabalhadores quebraram duas d'estas -
urnas ao tempo da cava.
A maior que escapou, e que está muito
bem conservada, demonstra que foi feita em
allusão às ceremonias funebres usadas pe-
los povos da Etruria.
Na face principal está representada uma
mulher, segurando um braseiro, ou perfu-
mador, tendo de cada lado um mancebo,
empunhando um grande espeto, em acção
de assar carne, allusivo á refeição que tinha
logar nas suas ceremonias funebres. Por de-
traz d'elles, vê-se um velho, com a mão es-
querda sobre o coração, indicando com a
mão direita uma arvore, da qual um homem
arranca uma folha. à
Do outro lado da urna se descobre o con-
torno de trez figuras, todas trez nuas, duas
com capacetes na cabeça, e outra com ella
descoberta, mas apresentando uma cauda de
cavallo na extremidade da espinha dorsal.
Entre ellas, ha uma mulher, sustentando na
mão esquerda um escudo oval, em acção de
querer separar os combatentes.
O achado d'estas antigualhas é curiosissi-
mo, e dá assumpto para um sério estudo dos
archeologos.
(Vide Alcacer do Sal, Necropolis e Sa-
dão.)
SALÁCIA—Vide Salamonde.
SALAMONDE —freguezia, Minho, comarca
da Póvoa de Lanhoso, concelho de Vieira, ;
30 kilometros ao N. de Braga, 385 ao N. de
Lisboa, 135 fogos. Em 1757 tinha 70 fogos.
Orago, S. Gens.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O papa e a mitra apresentavam alternati-
vamente o abbade, que tinha 4403000 réis
de rendimento annual. ;
392 SAL
É uma freguezia grande, rica e abundante
de todos os generos agricolas, assim como
de gado, caça e peixe (do Cávado, pois está
situada perto da margem esquerda d'este
rio).
É povoação antiquissima, e foi uma cida-
de com o nome de SALÁCIA, e ficava sobre
a via militar romana, que de Braga sahia
para Aquas Flavias (Chaves).
Não ha outras noticias dºesta cidade, se-
não por vir mencionada no Itinerario de
Antonino Pio.
Foi abbade d'esta freguezia o celebre An-
tonio José de Mesquita Pimentel. Tomou
posso em 8 de junho de 1781.
Depois de alguns annos de parocho, re-
nunciou o beneficio em seu sobrinho, Anto-
nio Joaquim de Mesquita Pimentel; mas ain-
da continuou a curar a parochia emquanto
viveu; fallecendo, de avançada edade, em 21
de septembro de 1821, com 80 annos e
h0 de parocho.
Era bacharel formado em canones pela
universidade de Coimbra, e desembargador
da relação ecclesiastica de Braga.
Nascêra na freguezia de Sambade (Traz os
Montes)pelos annos de 1741.
Tornou-se célebre por ser o auctor da
Cartilha da doutrina christan, o livro mais
popular de quantos existem, e do qual se
teem feito innumeraveis edições.
Depois da Cartilha do Padre Ignacio (Igna-
cio Martins, jesuita) a Cartilha do abbade
de Salamonde é a obra mais classica, no
seu genero. Não ha menino de escola que a
não tenha.
Este interessante livrinho está hoje mui-
to acerescentado; e todos os annos se faz
uma on duas edições d'elle, em vista da sua
grande extracção.
Gontém em resumo toda a doutrina chris-
tan, com as suas explicações, por um metho -
do clarissimo, com muitas devoções.
O abbade Pimentel é tambem auctor de
outro livro, publicado em 1793, intitulado
Soccorro de moribundos.
Esta freguezia é notavel, por ser sobre-
Maneira montanhosa e cheia de precipicios,
SAL
e pelo grande numero dos seus pequenos
valles,
Em 15 de março de 1809, houve aqui um
pequeno combate, entre as tropas portugue-
zas e as do general francez Soult, que vinha
da Galliza.
Os portuguezes, que eram muito poucos,
tiveram de retirar, e Soult marchou para a
frente, entrando em Braga logo a 20, e no
Porto a 29.
Wellesley, com o exercito alliado, expul-
sa Soult do Porto; em 12 de maio do mes-
mo anno, e vindo em perseguição dos fran-
cezes, ainda aqui lhes offereceu batalha, no
dia 17, que elles não acceitaram, e depois
de trocados alguns tiros, entre o nosso Te-
gimento de infanteria 10 e o inimigo, este
fugiu para a Galliza, onde entrou no mesmo
dia 17.
SALANIANA — antiga. cidade da Lusita-
nia, que hoje não existe.
Ficava a pouco mais de 5 leguas ao N. E.
de Braga, sobre uma das 5 vias militares
romanas, que d'esta cidade hia a Astorga.
É provavel que fosse situada onde hoje está
a aldeia das Travessas, ou na de Moimenta
(freguezia) vide a 1.2 Moimenta.
Segundo o Itinerario d' Antonino, d'esta ci-
dade a Braga, eram 21:000 passos e estava
na 3.º via militar. (Geira).
Não ha vestigios de similhante cidade, e
nenhum escriptor antigo ou moderno falla
d'ella, senão o Itinerario d'Antonino Pio.
SALÇAS— vide Salsas.
SALCELLAS— vide Salsedas.
SALDANHA — freguezia, Traz-os-Montes,
comarca e concelho do Mogadouro (foi da
mesma comarca, mas do concelho do Vi-
mioso) 24 kilometros ao N. de Miranda, 480
ao N. de Lisboa. Tem 100 fogos.
Em 1757, tinha 50.
Orago, S. Nicolau.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
O abbade de Travanca, apresentava o cu-
ra, que tinha 64000 réis de congrua e o pé
d'altar.
É terra pouco fertil e pobre.
Cria bastante gado, e nos seus montes ha
muita caça.
SAL
SALDANHA — freguezia de Traz-os-Mon-
tes, concelho de Alfandega da Fé, comarca
de Moncorvo (foi da comarca e concelho de
Chacim, supprimida em 1855) 440 kilome-
tros ao N. E. de Braga, 405 ao N, de Lisboa.
Tem 1405 fogos.
Em 1757, tinha 42.
Orago, S. Martinho, bispo. Arcebispado de
Braga, districto administrativo de Bragança.
O abbade de Castro-Vicente, apresentava
o cura, que tinha 82000 réis de congrua e
o pé de altar.
Saldanha—é um appellido nobre em Por-
tugal. Para evitarmos repetições, vide no
5.º vol., pag, 48, col. 4.2
No logar sitado vem altera-
dos os nomes dos srs. douto-
res Saldantas ; deve lér-se —
Manuel Baptista Camossa Nu-
nes de Saldanha, e João Ca-
mossa Nunes de Saldanha.
Marechal Saldanha
João Carlos Saldanha Oliveira e Daun,
par do reino em 14835. ministro e secretario
de estado honorario, grão-cruz das ordens
de Christo, Torre e Espada, e da de S Fer-
nando em Hespanha. Commendador da or-
dem de Nossa Senhora da Conceição de Vil-
la Viçosa, cavalleiro da de S. João de Jeru-
salem; condecorado com varias cruzes e me-
dalhas da campanha da guerra peninsular,
tanto por D. João VI, como pelos reis de Hes-
panha e Inglaterra ; condecorado com à Es-
trella d'ouro, pela republica argentina.
Foi deputado ás cortes, em 1834, conse-
lheiro de estado, ministro e secretario de
estado dos negocios da guerra e presidente
do conselho de ministros, em 1835, em 48514
e em 1870. (Vide adiante.)
Sentou praça de cadete, no regimento de
infanteria n.º 4, em 4805, e logo n'esse mes-
mo anno foi feito alferes, tenente e capitão.
Fez com distincção as campanhas da Pe-
ninsula. Passando ao Brasil, foi comman-
dante de um regimento da divisão de volun-
tarios reaes d'el-rei, na campanha do Rio da
Prata, em 1817. Pouco depois, foi feito capi-
tão-general do Rio Grande do Sul, onde se
SAL 333
conservou fiel à patria, quando o Brrasil se
tornou independente,
Tornando a Portugal, em 1822, foi um
grande amigo de senhor infante D. Míguel
(depois rei) como adiante se verá; mas, em
1826, mudando de opinião politica, fez-se li.
| beral.
Sendo general das armas no'Porto, fez
com que fosse proclamada a Carta Constitu-
cional, e o sr. D. Pedro, em 414 de julho de
1826.
Na guerra civil de 1826 e 1829, entre os
liberaes e os realistas, pouco se distinguiu
Saldanha : apenas marchou para o Algarve,
para suffocar a revolta miguelista! mas, 0 re-
gimento de infanteria 14, (que estava em
Tavira) o batalhão de caçadores n.º 4 (que
estava em Castro-Marim) e algumas praças
de infanteria n.º 2, artilheria n.º 2, e caval-
taria n.º 2, (que estavam no Algarve) e que
tinham tomado parte na revolta, sabendo
que Saldanha vinha contra elles, com uma
divisão de 8:000 homens, atravessaram o
“Guadiana, no dia 20 de outubro de 1826, e
passaram-se para a fronteira cidade de Aya-
monte, na Andaluzia.
Saldanha, nada mais teve de fazer, senãu
reintegrar as auctoridades liberaes.
A senhora infanta, D. Isabel Maria, regen-
te do reino, tinha-o feito seu ministro da
guerra; mas como elle queria mandar mais
do que a infanta, esta o demittiu, a 20 de
julho de 1827.
Ôs seus amigos, pedem tumultuosamente
a sua reintegração, e ha grandes desordens
em Lisboa, mas o general conde de Villa
Flôr, em quatro dias (24 a 27 de julho) à
força d'armas, faz restabelecer a ordem.
Á chegada do senhor D. Miguel a Lisboa
(22 de fevereiro de 1828) Saldanha teve de
emigrar para 0 estrangeiro, em março do
mesmo anno.
Em 46 de maio, teve logar a revolução li-
beral do Porto. Saldanha, que estava na In-
glaterra, vem logo para o Porto, com os ge-
neraes, conde ds Villa-Flôr, Stubbs, e com
1 Tinham os realistas feito a revolução, a
favor do senhor D. Miguel, em 8 de outu-
bro do mesmo anno de 1826.
334 SAL
o marquez de Palmella, e cutros, a bordo do
vapor inglez Belfast. :
O general realista, Alvaro Xavier da Fon-
seca Coutinho e Póvoas, derrota os liberaes,
levando-os de vencida, desde a Cruz dos Me-
rouços até ao Porto.
Então, Saldanha, Villa-Flor, Palmella e
todos os chefes principaes da revolução, Os
membros da junta, é as pessoas que tinham
tomado parte mais activa na revolta, fogem,
na noite de 2 para 3 de julho, para bordo
do mesmo navio Belfást, e vão para a Ingla-
terra, abandonando as tropas que n'elles ti-
nham confiado, e que tanto se tinham com-
promettido.
Em 1829, hindo para a Ilha Terceira, com
um reforço para os liberaes, foi-lhe prohi-
bido o desembarque pelo cruzeiro inglez, e
retirou para França.
O senhor D.Pedro, nunca perdoára a
Saldanha, a sua fidelidade á patria, em 1822,
e 0 não querer annuir à revolta para a in-.
dependencia do Brasil; por isso, não consen:
tiu que. elle o acompanhasse a Portugal, em
julho de 1832; mas, vendo-se em grandes apu- |
ros, no cérco do Porto, o mandou chamar, e
0 general entrou n'esta cidade, no dia 25 de
janeiro de 1833, e o sr. D. Pedro o fez, pouco
depois, major general, e seu chefe de esta-
do-maior.
Sustentou com bravura 0 ataque dos rea-
listas ao castello da Foz do Douro, em 4 de
março de 1833; e no dia 25 de julho do mes-
mo anno, o ataque que o conde de Bour-
mont deu à cidade.
Tendo o sr. D. Pedro embarcado para .Lis-
boa, em um vapor inglez, a 26 de julho, che-
ga à capital no dia 28.
Saldanha fica governando o. Porto, e, a 18
d'agosto, faz levantar .o sitio, pelo lado do
norte. |
O conde de Almer, general francez, realis-
ta, abandona tambem o sitio do sul, em 20 de
agosto.
Saldanha, vendo a cidade descercada, em-
barca para Lisboa, onde se une aos liberaes,
e commandou por bastante tempo o exerci-
to de observações.
No dia 11 de novembro (1833) com uma
força de 4:000 homens, vem sobre Pernes,
SAL
que estava pouco defendida; põe em fuga os
realistas, destroe os moinhos, e inutilisa to-
das as farinhas destinadas ao exercito rea-
lista.
Da carnificina de Leiria, e das batalhas de
Almoster e Pernes, fallo adiante.
SALDANHA, foi feito conde de Saldanha ?
em 44 de janeiro de 1833—marquez do mes-
mo titulo, em 27 de maio de 1834— duque,
de juro e herdade, em 8 de maio de 1855; e
teve as honras de duque-parente, em outu-
bro de 1862.
Em 9 e 40 de setembro de 1836, a guar=
da nacional de Lisboa, revolta-se, e annulla
a carta constitucional, substituindo-a pela
constituição de 1822, que a sr.: D. Maria II
é obrigada a jurar, na casa da camara.
A 4 de novembro tentam os'do partido da
córte, restabelecer a carta.
A rainha tinha-se retirado para o palacio
de Belem, e hindo conferenciar com ella, o
seu ministro, Agostinho José Freire, foi as-
sassinado à Pampulha, no mesmo dia 4.
Os inglezes, chegaram a desembarcar tro-
pas, em Belem, para auxiliar os cartistas;
mas, à vista do grande numero de revolto-
sos, tornaram a embarcar.
Muitos soldados da marinha e de outros
corpos, que em Belem se tinham conserva-
do fieis à sr.º D. Maria, foram mortos, e no
“dia seguinte (5) a revolução triumphava em
em toda a parte, e obrigava a rainha a rati-
ficar, na casa da camara, O juramento que
havía feito em setembro.
Em. julho de 1837, os marechaes, Salda-
nha e Villa-Flor, à frente de alguns corpos
do exercito, proclamam a carta; mas o ge-
neral, José Lucio Travassos Valdez (já feito
barão do Bomfim, desde 47 de setembro de
1835, e que foi feito conde do mesmo titulo,
em 4 de abril de 1838) bate os dois marechaes,
no Chão da Feira, proximo à villa da Bata-
lha, na Extremadura, em 27 de agosto do
1 Mas do seu appellido, e não de qualquer
“das duas freguezias do seu titulo, onde nun-
ca teve cousa alguma.
SAL
mesmo anno, obrigando-os a fugir para as
provincias do norte.
O barão de Leiria, 1 consegue revoltar o
batalhão de caçadores n.º 4 (que estava na
villa da Ponte da Barca) a favor da carta, e
se lhe juntam alguns voluntarios da rainha,
que estavam em Braga, e uns poucos de
soldados de infanteria n.º 9.
O general Marianno José Barroso (que ti-
nha sido feito barão d'Almargem, em 23 de
setembro de 1835) persegue o barão de Lei-
ria, e o obriga a encurralar-se na praça de
Vallença.
As forças cartistas, conseguem reunir-se,
mas 0 general, visconde das Antas? os der-
rota em Ruivães (Traz-os-Montes) em 48 de
setembro de 1837, 0 que obriga os cartistas
a capitularem, logo a 49 (convenção de Cha-
ves.) Saldanha, Villa-Flor e outros, fogem
para o estrangeiro.
Em 4846, Saldanha, á frente das tropas
cartistas, derrota as tropas setembristas da
divisão commandada pelo conde de Bom-
fim, a 23:de dezembro, em Torres Vedras, fi-
cando prisioneiras quasi todas as tropas.
Apezar de todos os elogios
que a Saldanha teem feito os
liberaes, e das centenas de
contos com que o gratifica-
ram; apezar mesmo da sua
incontestavel bravura, é cer-
tissimo que, em toda a sua vi-
da, só alcançou duas victorias
decisivas—a de Pernes, contra
os realistas, a 30 de janeiro de
1834 (vide Pernes) e esta de
Torres Vedras, contra os se-
tembristas.
Dão-lhe o cognome de he-
roe dAlmoster, mas o que é
I José de Vasconcellos Bandeira de Le-
mos, foi feito barão de Leiria, no 1.º de ou-
tubro de 1835, e visconde do mesmo titulo,
em 20 de outubro de 1862.
? Francisco, Xavier da Silva Pereira, foi
feito barão das Antas (logar dos arrabaldes
do Porto) em 17 de setembro de 1835—vis-
conde do mesmo titulo, em 10 de outubro
de 1836-—e conde, a 4 d'abril, de 1838.
Morreu em 20 de maio de 1852.
SAL 339:
verdade, é que a 18 de feve-
reiro de 1834, na batalha das
pontes de Santa Maria, do
Celleiro e da Asséca (chamada
batalha de Almoster) Salda-
nha nada mais fez do que con-
servar as suas posições, e re-
pellir os realistas, mas sem ga-
nhar sequer um palmo de ter-
reno,
Os realistas soffreram gran-
des perdas, é verdade ! e dois
brigadeiros (Santa Clara e
Brassaget) ficaram mortos no
campo; mas as dos liberaes
não foram menores, tendo gran-'
de numero de officiaes mortos,
e entre elles, o intrépido coro
nel Miranda.
A famosa victoria de Leiria,
não foi mais do que uma igno-
bil carnificina, em que os li-
beraes já mais deviam fallar,
porque foi um acto mais pro-
prio de canibaes, do que de
militares portuguezes, quasi
sempre tão bravos no comba-
te, como bizarros e generosos.
na victoria. 2
1 Só o meu regimento (caçadares da Bei-
ra Baixa, ou n.º 8) perdeu, entre mortos, fe-
ridos e prisioneiros (d'estes muito poucos)
mais de 200 homens, incluindo o nosso com-
mandante, o bravissimo tenente coronel Fei-
rão. Só de officiaes inferiores, tivemos 16.
fóra do combate!
* O coronel Pitta Osorio (realista) tinha
em Leiria apenas uns 4:800 homens, quasi
todos milicianos e voluntarios realistas, e;
um esquadrão de cavallaria n.º 1— Saldanha,
trazia 4:500 infantes, trez regimentos de ca-
vallaria é seis peças de artilheria. Os realis-
tas, em vista da sua inferioridade numerica,
abandonaram a: cidade, retirando pela es-,
trada dos Machados. A cavallaria liberal,
corre sobre elles, e não dá quartel. O philan-
tropico Saldanha, na parte que deu ao minis-
tro da guerra diz:— Eu e todo o meu estado-
maior, temos as espadas, até aos copos, tin-
gidas;no sangue dos rebeldes (!)—Devia di-
zer—no sangue de portuguezes, que sem reu
sistencia, procuravam na fuga a sua salva-
ção.
SAL
Tambem os liberaes, não di-
zem que Saldanha foi um gran-
de realista, e que, em 27 de
maio de 1823, se foi apresen-
tar (na companhia de D. Tho-
maz d'Assis Mascarenhas) ao
Sr. D. Miguel [, (então infante)
no campo do Quadro (Santa-
rem) eque estes dous fidalgos
ajudaram a deitar abaixo a
constituição de 1820 ; tornan-
do-se, d'ahi a trez annos, ini-
migos encarniçados dos rea-
listas.
: Saldanha, depois de ter tão poderosamen-
te cooperado para que os irmãos Cabraes,
tornassem ao poder, teve o devido premio,
pois em fevereiro de 1850, foi demittido de
mordomo-mór da casa real.
Escandalisado por tão grande ingratidão
da côrte, a favor da qual tanto tinha lidado,
e varias vezes arriscado a vida, pede a de-
missão de todos os seus cargos de commis-
são, e se declara inimigo do conde de Tho-
mar.
D'ahi a pouco mais de um anno, revolta-
se contra o governo dos Cabraes, sahindo de
Lisboa a 7 d'abril de 1851, foi a Mafra, na
intenção de revoltar o regimento de infan-
teria n.º 7; mas apenas alguns soldados to-
maram o seu partido. Tambem se lhe uni-
ram, os batalhões, de caçadores n.º 1, que
estava em Setubal, e n.º à, que estava em
Leiria.
Perseguido pelas tropas do governo, foge
para a Beira, e vendo a sua causa perdida,
abandona os dous batalhões que n'elle ti-
nham confiado, e foge para Lóbios (Galliza)
deixando a sua gente exposta ás iras dos
Cabraes.
Felizmente para o Saldanha, José da Silva
Passos, José Victorino Damasio e outros,
conseguem, no Porto, revoltar o batalhão de
caçadores n.º 9, é o regimento de infanteria
n.º 2.1
1 O coronel Cardoso, commandante d'este
regimento, não queria deixar levar as ban-
deiras, e, agarrado a ellas, foi assassinado
pelos suldados.
Morreu cumprindo o seu dever, como mi-
litar brioso que era.
SAL
O conde do Casal, 1! general e governador
militar do Porto, foge da cidade, com atro-
pa que o quiz acompanhar, em 24 de abril.
O general, barão de Mesquita 2 que estava
em Coimbra, com o sr. D. Fernando Cobur-
go (commandante em chefe do exercito) aban-
dona-o, desertando para o Porto com a sua
brigada, composta dos regimentos de lan-
ceiros da rainha, granadeiros da rainha, in-
fanteria n.º 4, e uma companhia de infante-
ria 16. (O sr. D. Fernando, teve de retirar
para Lisboa )
Os dous batalhões de caçadores, 1 e 5,
marcham para o Porto, a unir-se aos re-
voltosos.
Saldanha, tendo noticia do triumpho da
revolução no Porto, sae da Galliza, e vem-
se reunir aos revoltosos, até então seus ini-
migos.
O conde de Thomar, havia
tornado para ministro, em 1849,
por influencia do Saldanha, o
qual tiuha declarado em cor-
tes, que, antes queria todos os
Cabraes na camara dos depu-
tados, do que um só da junta
do Porto (Tempora mutantus,
et nos mutamur in illil...)
Sandanha foi para Lisboa como triumpha-
dor, fazendo a sua entrada solemne na capi-
tal (desembarcando na Praça do Commer-
cio) a 13 de maio, e foi com as suas tropas,
passar em continencia, em frente do palacio
real, mais como afironta à rainha, do que
como acto de submissão. N'essa mesma noi-
te, a sr* D. Maria Ile o sr. D. Fernando,
soffreram insultos no theatro de S. Carlos.
O conde de Thomar, foge, pela segunda
vez, para o estrangeiro, e Saldanha, toman-
do conta do governo, como dictador, pro-
mulga grande numero de leis. *
1 José de Barros e Abreu, foi feito barão
do Casal, no 4.º de dezembro de. 4836 —e
conde do mesmo titulo, em 20 de janeiro de
1847.
2 Miguel Correia de Mesquita Pimentel,
foi feito barão de Mesquita (do seu appelli-
do) em 47 de janairo de 1848.
3 Uma d'estas leis (a de 23 de outubro de
1851) determina que aos officiaes conven-
: cionados em Evora Monte, se désse o soldo
SAL
Já do Porto elle principiou
a dar leis para Lisboa, e foi por
sua ordem, que alguns navios
de guerra, e transportes, o fo-
ram buscar ao Porto e ás suas
tropas.
Finalmente, depois de varios acontecimen-
tos que seria enfadonho mencionar, termi-
Da a primeira dictadura de Saldanha, e as-
sim vae passando o tempo, até à sua
Segunda dictadura
Na madrugada de 19 de maio de 1870, o
velho marechal Saldanha, à frente do bata-
lhão de caçadores n.º 5, e do regimento de
infanteria n.º 7, proclama a queda do mi-
histerio Loulé. Só a guarda municipal, al-
guma artilheria e um esquadrão de lancei-
ros, deixou de unir-se logo aos revoltosos.
Saldanha, dirige-se com à força que an-
gariára, ao palacio da Ajuda, cnde uma ba-
teria do 3 de artilheria, lhe faz fogo, que é
correspondido pelos caçadores revoltados;
mas a resistencia durou poucos minutos, é
os artilheiros rendem-se, ficando apenas
mortos uns 5, e igual numero de feridos.
Varias balas dos caçadores, esmigalharam
as vidraças do paço e lhe furaram os estu-
ques, passando uma balla (segundo se disse)
a poucas pollegadas da cabeça do sr. D. Luiz,
que, tendo recolhido depois da meia noite,
do theatro, se levantára assustadissimo, pou-
cos momentos depois (2 da manhã) porque
acordára ao estrondo dos tiros.
O ministerio quer conservar-se a todo o
transe, não lhe importando que para isso
corra a jorros o sangue de portuguezes—e
todos liberaes!
O ministro da guerra (Lobo d'Avila) dá
ordens e contra ordens, de minuto a minu-
to.
correspondente aos postos que tinham ao
tempo da morte de D. João VI.
Foi meia Justiça, porque os officiaes que
tinham os seus postos dados pelo sr. D. Mi-
guel I, e que lhes tinham sido garantidos na
convenção, ficaram injustissimamente exclui-
dos do beneficio d'esta lei.
SAL 351
O rei estava aterrado. Não quer guerra,
não quer sangue, e está por tudo o que qui-
zer Saldanha. Manda chamar o duque de
Loulé, para se lavrar o decreto da demissão
dos ministros, mas o duque se recusa termi-
nantemente a referendar tal decreto, dizen-
do ao sr. D. Luiz, que o governo tem força
suficiente para debelar os revoltosos, que vão
serimmediatamente aniquilados; mas, vendo
que o rei se obstina em não querer guerra,
diz-lhe que se avenha como poder, e vae reu-
hir-se aos seus collegas, para envidarem to-
dos os meios de suffocar a revolta. 1
O visconde de S. Thiago, general da 4.
divisão, que se tinha conservado no seu pos-
to, marcha com a força que estava fiel ao
governo, em direcção da Ajuda, mas, che-
gando à Tapada, encontra uma ordenança,
com ordem do sr. D. Luiz, para retrogra-
dar.
* Finalmente, o rei assigna o decreto da
demissão do ministerio, e o Saldanha fica
senhor da situação, e dictador. Elle, a quem
a edade provecta deveria ter feito mais cau-
to, prudente e reflectido, principia a sua di-
ctadura, não só promulgando uma aluvião
de decretos, na fórma do seu louvavel cos-
| tume;? exercendo vingança; e dando pre-
mios, segundo a sua vontade, soberana. As
exonerações, demissões, substituições, no-
meações e reintegrações eram às dezenas
em cada dial
1 Ainda na vespera da revolta, os minis-
tros tinham feito a mesma declaração e as
mesmas ameaças, nas duas casas do parla-
mento.
2 Decretos de que pouco depois ninguem
fez caso, apezar de estarem sanccionados
pelo rei. Nem se quer houve por elles a con-
sideração de os annullar por um decreto pos-
terior.
Um destes decretos, (o de 13 de agosto)
determinava que aos officiaes do exercito
realista, não contemplados no decreto de
1851, fosse pago o soldo que se lhes havia
garantido por um tratado solemne, celebra-
do entre as quatro nações da alliança; mas,
apezar de então só existirem 114 officiaes
(dos 4:000 e tantos que convencionaram!) a
quem este decreto podesse aproveitar, teve
elle a mesma sorte dos outros.
338 SAL
Tambem choveram titulos e commendas,
a quem lhe pareceu. !
Saldanha, convida o illustrado e patriota
bispo de Vizeu (o sr. Antonio Alves Martins).
para fazer parte do ministerio. O digno pre-
lado responde, que só acceita se lhe der para
collegas, homens que estejam à altura da sua
missão, em circunstancias tdo criticas; mas,
como o marechal quer sómente impôr os
seus amigos, o eselarecido prelado recusa.
A 25 de maio, constitue-se o novo minis-
-“terio, do qual Saldanha se faz presidente,
e ministro da guerra e estrangeiros—fazen-
do, José Dias Ferreira — reino; Antonio Ro-
“drigues Sampaio (que era seu inimigo en-
“carniçado, ha mais de 30 annos!...) —obras
- publicas; o novo marquez d' Angeja *—mari-
“nha, D. Antonio da Gosta (sobrinho do Sal-
-danha).
Deve confessar-se que este ministerio, hy-
brido e heterogenio, desagradou quasi ge-
-ralmente; e não poucas pessoas o alcunha-
ram de iberico, o que não passava de calum-
nia.
As cortes são adiadas, até 20 de junho ;
mas, no principio d'este mez, é prorogado
o adiamento, até 31 de outubro.
José Dias Ferreira, que veiu a ter nada
menos de trez pastas, cede uma a Antonio
Vieira de Magalhães Junior (filho do viscon-
de da Alpendurada) que era barão de Ma-
galhães desde 13 de maio de 1854, e tinha
sido feito conde do mesmo titulo, pelo Sal-
danha, tambem a 24% de maio d'este anno de
1870.
Não convindo a Saldanha, nem à maior
- parte dos seus collegas, a camaradagem com
o marquez d'Angeja, para se descartarem
1 Logo a 24 de maio, o sr. D. Gaetano de
“Almeida e Noronha Portugal Camões de
Albuquerque Moniz e Sousa, que era conde
de Peniche, foi feito marquez de Angeja, em
duas vidas: e no dia seguinte foi feito vis-
conde Castilho, o grande poeta, Antonio Fe-
liciano de Castilho.
2 Este cavalheiro, um dos mais nobres fi-
“dalgos do reino, havia tomado parte na Te-
volta, e metteu-se no Castello de S. Jorge,
com uma força de populares (a que o povo
principiou a dar o nome de penicheiros) e
alli esperou o resultado da marcha do Sal-
danha, ao palacio da Ajuda.
SAL
d'elle, o fazem nosso embaixador em Bru-
xellas.
Saldanha, tem uma parentella numerosis-
sima, e, ainda por cima, de cada canto lhe
surgem parentes improvisados, que o ma-
rechal emprega, invadindo com elles, todas
as repartições publicas.
O descredito do governo, pelos seus actos
irreflectidos, se vae propagando por todo o
reino, e, quanto ao credito financeiro, nem
o tem em Portugal, nem lá fóra. As inseri-
pções, que achou cotádas ao par, chegaram
a 27! Todos temiam uma imminente e de-
sastrosa bancarrota.
O marquez de Sá da Bandeira, e outros
cavalheiros prudentes, tanto instaram com o
rei, expondo-lhe o risco em que estava a
patria, que elle resolve-se a demittir seme-
lhante ministerio, a 29 de agosto, e se ficou
denominando o periodo antecedente 0 go-
verno dos 100 dias, que tantos esteve d'esta
vez 0 Saldanha no poder.
Ha toda a probabilidade para acreditar
que o novo ministerio já estava combinado
antecipadamente, porque, apenas nomeado,
entraram logo os ministros nos seus loga-
res.
Ficou assim constituido —presidente, guer-
ra, e interinamente da marinha, Sá da Ban-
deira (octogenario, surdo, trôpego e mané-
ta!)—reino e instruecão publica, bispo de
Viseu—fazenda, estrangeiros e justiça, mar-
quez d'Avila (hoje duque do mesmo titulo)
— obras publicas, Carlos Bento da Silva.
Bastou a nomeação d'este ministerio, para
as inscripções subirem logo a 92.
O governo, para se descartar de Salda-
nha, o conspirador sempiterno, o faz nosso
embaixador em Londres, onde fallece, com
mais de 80 annos de edade, pois havia nas-.
cido a 17 de novembro de 1790. 1
1 Era tão temido dos nossos governos, que
quando lhes pedia dinheiro—alem de tudo
quanto recebia pelos seus numerosos empre-
gos—e elles lho não davam, ameaçava-os de
vir para Portugal.
Não era preciso mais nada, para que logo
lhe mandassem quanto elle queria. Salda-
nha, que sabia o meio de obter dinheiro de
prompto, não se descuidava em o empregar.
"3.2 filha dos 4
jquezes do Pombal, Sebastião José de Carva-
SAL
—
Foi casado duas vezes (da segunda vez,
em Londres, com uma senhora Ingleza, quan-
do já era octogenario) e d'esta não teve fi-
Da sua 4.º mulher, teve trez filhos —
Augusto Carlos de Saldanha d'Oliveira Daun,
conde d'Almoster, que nasceu a 26 de de-
— João Carlos, nascido a 20
de novembro de 1825 e D. Eugenia, nascida
lhos.
zembro de 1822
a 25 de majo de 18314. (Vide Tavaréde.)
O duque de Sáldanha, era 9.º filho de João
“de Saldanha Oliveira e Sousa, 1.º conde de
Rio Maior; 1 16.º senhor do morgado de Oli-
veira, gentil-homem da camara da rainha,
D. Maria I, grão-cruz da ordem de!Christo,
conselheiro de estado, presidente do Terrei-
ro Publico; e que nasceu a 22 de maio de
1746, e morreu a 26 de janeiro de 1804,
Casou em 4774, com D. Maria Amalia de
Carvalho e Daun (nascida a 15 d'agosto de
1756, e fallecida a 16 de setembro de 1812)
-º* condes de Oeiras, e 1.º“mar-
ho e Mello, e D. Lishor Ernestina de Daun,
camarista da rainha D. Marianna d” Austria,
mulher de D. José I, e nascida em Vienna
d'Austria.
Filhos d'este matrimonio
4.º— D. Maria Constança, condessa da
Ponte.
2.º— Antonio, 2.º conde de Rio Maior.
3.º José Sebastião, senhor de Pancas, por
casar com sua prima, D. Maria Leonor Ca-
rolina Manuel de Vilhena da Costa Freire
Martins da Fonseca, senhora de Pancas, cujo
morgado herdou de D. Francisco Xavier da
Costa Noronha. Era filha de D. Christovão
Manuel Vilhena, e de D. Maria Francisca
Xavier Eva Anselma de Daun, irmã da 1.
condessa de Rio Maior.
kº—D. Marianna, mulher de seu primo,
D. Luiz Machado de Mendonça Eça Castro e
Vasconcellos, senhor da .quinta da Torre
(solar dos Vasconcellos) em S. Martinho de
Ferreiros. (Vide Ferreiros, no vol. 3.º, pag.
1 Vide n'este vol. pag. 202, col. 2.a
SAL 399
176, col. 22—e Requeão, n'este vol. » pag.
14%, col. 1.2) 40.º senhor d'Entre Hóitém
e Cávado, é do morgado de Mendonça Ave
Maria, e alcaide-mór de Mourão.
5.º—D. Maria Ignacia, condessa de Mes-
quitella.
6.º—D. Anna Isabel, viscondessa da Ba-
hia.
7.º — D. Francisca de Paula, mulher de
D. Fernando"Antonio d' Almeida e Silva San-
ches de Baena Jaques Farinha de Sousa e
Vasconcellos, trinchante-mór da casa real,
senhor dos morgados de Oliveira dos Arcos
e de Linhares.
8.º — D. Leonor Ernestina, marqueza do
Pombal.
9.º—João Carlos, (o duque de Saldanha).
10.º—D. Maria Joanna, mulher de Miguel
Paes do Amaral de Almeida Quifel Barberi-
ho, 3.º senhor da Abronhosa e Villa-Mendo,
e 14.º senhor da casa de Mangualde.
11.º—Francisco, commendador da ordem
de Christo, cavalleiro de S. João de Jerusa-
lem—diplomatico.
12.— Domingos, do conselho de sua ma-
gestade, commendador da ordem de Christo,
cavalleiro da de Torre e Espada, e governa-
dor d'Angola, onde morreu, a 3 de setem-
bro de 1800.
SALÉSIAS— (freiras) mosteiro, Extrema-
dura. na freguezia e concelho de Belem, co-
marca, patriarchado. districto administrati-
vo, e 6 kilometros ao O. de Lisboa.
* Está fundado na rua das Salesias, que vae
do Altinho, onde termina a rua da Junquei-
Ta, é começa a rua Nova da Junqueira, e
vae ter à rua dos Quarteis, à Boa Hora, na
Ajuda.
Está o mosteiro cercado de renques de
frondosas oliveiras, e n'elle vivem as sem-
pre exemplarissimas religiosas, da ordem de
S. Francisco de Salles, e da invocação da
Visitação de Nossa Senhora.
N'este mosteiro são educadas, com o maior
esmero e sollicitude, meninas de todo o rei-
no, e ainda do estrangeiro, aqui attrahidas
pela optima fama de que gosa esta excel-
lente casa de educação, e d'aqui sahem per-
feitissimas donas de casa, tão instruidas nas
cousas da terra, como nas do Ceu.
340 SAL
O edificio é vasto e distribuido segundo
todas as regras da hygiene. As suas cêrcas
estão povoadas de frondosos arvoredos, per-
feitamente tratados.
O templo foi concluido pelo zelo do escla-
recido orador sagrado, o padre A. R. dos
Anjos Beirão. É vasto e bello, em fórma de
cruz, com um elevado zimborio, que dá uma
luz clarissima à egreja.
Vêem-se alli bons quadros, e na sachris-
tia é objecto de justa admiração, um gran-
de e primorosissimo, representando o Se-
nhor Morto, junto a Nossa Senhora da Sole-
dade, e entre S. João Evangelista e Santa
Maria Magdalena.
São de muito gôsto e grande preço, todos
os utencilios do culto divino, principalmen-
te os ricos paramentos, todos primorosa-
mente bordados no mosteiro.
São directores espirituaes do convento, 08
benemeritos e bemquistos padres, Joaquim
Moreira S. da Cunha, e Luiz B. da L. Pa-
checo, proprietario da Livraria Catholica
(á praça do Rocio) director e principal re-
dactor das Leituras Populares.
O mosteiro foi fundado pelo virtuoso e es-
clarecido, padre Theodoro d'Almeida, famo-
so auctor das Recreações Philosophicas, do
Feliz Independente, e de outros livros de
grande merecimento.
O padre Theodoro tambem ajudou 0 pa-
dre Carvalho, na fundação do seminario dos
orphãos.
O mosteiro das Salésias, foi destinado pelo
seu fundador, para educação de meninas, e
para aqui vieram, do mosteiro de Annecy,
da Saboya (onde se conservam as reliquias
de S. Francisco de Salles) as primeiras re-
ligiosas da ordem do mesmo santo, em 1714,
sendo recebidas com grande solemnidade.
SALÉMA—corrupção da palavra arabe sa-
lama. — É a saudação, ou comprimento de
uso entre os árabes. —Os mais lhe vieram
fazer a sua Sálema, que é como entre nós bei-
jar as mãos aos reis, em reconhecimento de
senhorio. (Barros, Década 4.º, fl. 445.) Tam-
bem diziam salamalek.
Salemu, é tambem um appellido nobre em
Portugal, e mais antigo do que a nossa mo-
narchia.
SAL
Em 1193, era vassallo de D. Sancho 1,
Pêro Saléma, O solar d'esta familia, é na
herdade denomidada Saléma, no Alemtejo.
O seu brazão d'armas, é—em campo ver-
de, um castello d'ouro, coberto do mesmo,
lavrado, com portes e frestas de negro: orla
azul, carregada de sete salémas (peixes bem
conhecidos) de prata. Elmo de aço aberto,
| e por timbre, o castello do escudo.
Outros Salémas, trazem por armas — em
campo de púrpuras 5 achas d'armas, de
ouro, em àspa; é o mesmo êlmo e timbre.
(É desta ultima maneira que se acha na li-
vraria da casa Palmella.)
Vide no 4.º vol. o ultimo Bairros da col.
1.2 col., pag. 309.
SALGADÊLLA-—sitio da Beira Baixa (Ri-
ba-Côa.) No 2.º vol. pag. 187, col. 2.2, no
fim, mencionei a batalha que teve logar jun-
to à villa de Castello- Rodrigo, e no sitio que,
desde então, se ficou chamando Salgadélla ;
aqui darei mais desenvolvidos pormenores
sobre esta batalka, tão gloriosa para os por-
tuguezes.
Esta batalha, foi dada a 7 de julho de
1664, e não de 1544, como, por êrro typo-
graphico, se disse no logar citado.
O duque de Ossuna, capitão-general da
Castella-Vella, para se vingar das repetidas
derrotas que tinham soffrido as tropas do
seu commando, marchou a 3 de julho do re-
ferido anno de 1664, sobre a nossa praça de
Castello-Rodrigo, com 4:000 infantes, 600 a
700 cavallos, e nove peças de artilheria gros-
sa e quatro petardos (e não 91, como, por
erro typographico, se disse no 2.º vol.) e
muitos carros, com o trem e munições cor-
respondentes.
Vinha tão certo da victoria, que já trazia
frades, para occuparem o visinho mosteiro
de Santa Maria d'Aguiar ; e justiças, para
deixar na villa.
A guarnição da praça, constava apenas de
150 homens, mas eram commandados pelo
intrepido mestre de campo, Antonio Ferrei-
ra Ferrão, governador do castello.
Achava-se então no Alemtejo, o conde de
S. João, governador das armas de Traz-os- |
Montes, e Affonso Furtado do Rio Castro e |
Mendonça, governador das armas do partido |
SAL
de Penamacôr; que, unidos às tropas do
grande marquez de Marialva, tinham toma-
do a praça hespanhola, de Valença de Al-
cantara, no mez antecedente.
Apenas souberam que o duque de Ossu-
na se dirigia a Castello Rodrigo, voaram
em soccorro da praça ameaçada; mas foram
antecipados pelo valoroso Pedro Jacques de
Magalhães, governador das armas do parti-
do dºAlmeida, que se achava mais proximo
de Castello-Rodrigo.
Em 2 dias, pôde Magalhães reunir 2:500
infantes e 500 cavallos, e como sabia que os
castelhanos que tinham hido em soccorro de
Valença d'Alcantara, haviam chegado a Ciu-
dad Rodrigo, para se unirem ás de Ossuna,
e que Castello-Rodrigo se não podia susten-
tar por muitos dias, contra tão grandes for-
ças, pela vetustez e ruina das suas obras de
defeza, e pelo pequeno numero de seus de-
fensores, que, de mais a mais, apenas ti-
nham duas pequenas peças de campanha ;
não esperou por mais reforços, e fiado na
sua intrepidez, e na bravura dos portugue-
zes que commandava, sahiu de Almeida, a 6.
pelas 4 horas da tarde, e na madrugada do
dia seguinte, chegou, sem ser presentido pe-
los castelhanos, à serra da Marófa, proxima
da nossa praça, na occasião que Ossuna lhe
dava um furioso assalto, chegando a tomar
uma barbacan, mas sendo bizarramente re-
peilido pela guarnição, que lhe matou e fe-
riu muita gente.
(Nºeste assalto e nos anteriores, perderam
03 castelhanos, 200 homens.)
Ao romper do sol, viu Ossuna as tropas
de Magalhães a pouca distancia das suas, é
se poz em defeza, no campo que havia en-
trincheirado à pressa, com molhos de trigo,
e mandou disparar toda a sua artilheria,
contra os nossos.
Mandou logo Magalhães, o tenente gene-
ral, D. Antonio Maldonado, commandante da
cavallaria, contra os castelhanos, e tão ga-
lhardamente os carregou, que antes de che-
gar Magalhães, já D. Antonio levava o ini-
migo de vencida, e lhe tinha tomado uma
peça e varias carretas. Os castelhanus, pas-
saram um pequeno ribeiro que alli ha, e
formaram em batalha, no lado opposto.
VOLUME VIII
SAL 341
Receberam os portuguezes com uma des-
carga geral, à queima-roupa; mas os nossos,
apanhando os inimigos com as armas des-
carregadas, cahiram sobre elles com tal fu-
ria, que immediatamente os pozeram em ver-
gonhosa debandada, acutilando-os sem pie-
dade, e perseguindo-os até ao rio Agueda,
(da Beira Baixa).
Foram degolados, 1:200 infantes, e ficas
ram prisioneiros 1:800, cahindo, como em
uma rêde, toda a infanteria.
Da cavallaria, ficaram mortos, ou prisio-
neiros, 330, recolhendo-se logo no campo da
batalha, 200 cavallos, e apanhando-se-lhes
dispersos, nos dias seguintes, mais 130.
Ficaram mortos na acção, quatro mestres
de campo; D. João Giron, filho do duque de
Ossuna, e capitão da sua guarda ; e alguns
outros capitães, sargentos-móres, e varios
fidalgos de Salamanca e d'outras terras.
Toda a artilheria ficou em poder dos por-
tuguezes. (Eram 9 peças e 4 petardos, como
já disse.)
Perderam toda a bagagem, incluindo a re-
camara e secretaria do duque, que fugiu
com uma carapuça na cabeça (e depois, ves-
tido de frade) deixando a um ajudante, o
bastão e o chapeu, adornado de grandes plu-
mas; largando tambem o cavallo, para mais
facilmente poder escapar, e fugindo por uma
ladeira, até ao rio Agueda, corrido à pedra,
pelos lavradores d'aquelles sitios.
Assim, a pé, correu até ao castello de
S. Felices, d'onde seguiu, deitado em uma
carroça, até Ciudad Rodrigo, onde chegou
morto de fome, moido, e coberto de poeira.
Foi esta a 7.2 derrota que sofireu, até
áquella data, durante a guerra da restaura-
ção. 1
Distinguiram-se n'este glorioso feito d'ar=
mas, além de Pedro Jaques de Magalhães, e
D. Antonio Maldonado, mais os seguintes
guerreiros:
Manuel Ferreira Rebello, mestre de cam-
po—Antonio Velloso de Figueiredo, mestre
de campo—os capitães de cavallaria, Paulo
1A 42, foiem Niza—a 2.º, em Elvas—a 3.º
em S. Miguel, sobre Badajoz—a 4.º, nas li-
nhas de Elvas—a 5.º, em Escalhão—e a 6.3,
em Almeida.
22
342 SAL
Homem Telles, Antonio Ferrão de Castello-
Branco, João Soares d'Almeida, Christovão
Correia Freire, e Martim Affonso de Mello
—o sargento-mór, José de Figueiredo da
Silveira—o governador da comarca de Pi-
nhel, Alvaro Saraiva da Gama — o alcaide-
mór de Castello-Mendo, Francisco Coelho
Osorio—e o sargento-môr, Antonio de Fi-
gueiredo.
Na defeza da praça, cobriram-se de glo-
ria, o governador, Antonio Ferreira Ferrão
—p sargento-mór, João da Fonseca—e o ca-
pitão, João Gomes.
Os principaes prisioneiros castelhanos, fo-
ram:
D. Antonio Isaque, tenente general de ca-
vallaria, cavalleiro da Ordem de S. Thiago
—D. João de Chaves Maldonado, capitão de
cavallaria—D. Antonio Colmenaso, sargento
mór, e governador de Abbadengo—D. Chris-
tovão Honorato, sargento-mór—18 capitães,
3 tenentes, 24 alferes de infanteria, e 4 de
cavallaria, 15 sargentos, e 1:800 soldados.
Ficaram em nosso poder:
Canhões pedreiros de calibre 36
Meios canhões pedreiros de calibre 24..
Quartos canhões de calibre 12
Meias columbrinas de calibre 8
Meios sagres de calibre 5
Petardos
Era toda a artilheria dos castelhanos.
Mais lhe tomâámos:
9 Cucharras, com soquêtes—um sacatra-
po—10 reparos — 8 armões — um carro de
matto—1 cabrilha—4 calabres grandes—2
calábres pequenos—800 balas de artilheria
-—( cunhetes com balas miudas—20 arro-
bas “de cordas! (para que quereriam elles
tanta córda?)—250 marretas—9 arrobas de
polvora (a outra ardeu por desastre) — 4
arrobas de pregadura grussa—100 carrêtas
grandes, com munições e petrechos de guer-
ra—400 carrêtas com bagagens e mantimen-
tos—1:000 bois—150 cavalgaduras de car-
ga—6 carroças de fidalgos, entre ellas, a
do duque—muita prata do serviço d'este—
SAL
toda a sua recamara, com muito bons ves-
tidos, que os soldados repartiram entre si
—a secretaria do duque, com muitas cartas
de Philippe, 4.º. de seu filho, D. João d'Aus-
tria, de varios ministros, e outros individuos.
D. Affonso V1 estava na quinta d'Alcanta-
ra, quando chegou a Lisboa, Henrique Ja-
ques de Magalhães, filho de Pedro Jaques de
Magalhães, no dia 13 do dito mez de julho,
com a parte official d'esta derrota monu-
mental dos castelhanos; o que deu causa a
grandes festas publicas, na capital e em to-
do o reino, que duraram muitos dias.
Na parte que ao rei deu d'esta batalha,
o grande Magalhães, lhe recommendava os
cabos de guerra que mais se distinguiram,
e para elle, apenas pedia duas das peças de
artilheria, tomadas ao inimigo, como me-
moria de tão glorioso feito d'armas.
(Vide o Mercurio Portuguez, de julho de
1664, no Portugal Restaurado. O Mercurio,
era a gazeta official do tempo da guerra da
independencia.)
Não assistiu a esta batalha, D. João d'Aus-
tria, como, por mal informado, disse em
Castello-Rodrigo. D. João d' Austria, estava
então em Badajoz ou immediações.
A Cruz de Pedro Jaques, padrão commes
morativo d'esta victoria, fica a 5 kilometros
da villa de Castello-Rodrigo; 8 ao O. do rio
Agueda; 2 ao S. da povoação e freguezia de
Matta de Lobos, e dentro dos limites d'esta
parochia; e 3 ao E. do mosteiro de Santa
Maria d'Aguiar.
No pedestal da Cruz de Pedro Jaques, se
gravou uma inscripção, commemorando esta
batalha. Por extensa, e por ser o resumo do
que fica dito, não à copio.
Esta derrota, a das linhas d'Elvas, em A&
de janeiro de 1659, e ado Ameixial, a 8 de
junho de 1663, foram as maiores que os cas-
telhanos soffreram durante os quasi 28 an-
nos que durou a guerra da restauração.
O Dr.—Pedro Augusto Ferreira.
abbade de Miragaia.
SALGUEIRAES—freguezia, Beira Baixa,
comarca e concelho de Celorico da Beira (foi
da mesma comarca, mas do concelho de Li-
SAL
nhares) 1405 Kilometros ao E. de Coimbra,,
300 ao E. de Lisboa.
Tem 110 fogos.
Em 1757, tinha 76.
- Orago, Nossa Senhora das Neves.
Bispado e districto administrativo da Guar-
da.
O prior da villa de Linhares, apresentava
o cura, que tinha 88000 réis de congrua &
o pé d'altar.
Clima excessivo e pouco fertil. Muito ga-
do e caça. Fabricam-se aqui optimos quei-
jos.
SALGUEIRO —freguezia, Beira Baixa, con=
celho e comarca, districto administrativo &
bispado, e 6 kilometros de Castello-Branco..
35 kilometros da Guarda, 260 ao E. de
Lisboa.
Tem 310 fogos.
Em 4757, tinha 470.
Orago, S. Pedro, apostolo.
O rei, pelo tribunal da mesa da conscien-
cia e ordens, apresentava 0 vigario, que ti-
nha 1703000 réis.
É terra fertil. Gado e caça.
SALGUEIRO —freguezia, Beira Baixa, co--
marca e concelho do Fundão, 75 kilometros;
da Guarda, 220 ao E. de Lisboa.
Tem 230 fogos.
Em 41757, tinha 97.
Orago, S. Bartholomeu, apostolo.
Bispado da Guarda, districto administra-
tivo de Castello Branco.
O vigario da freguezia de S. Bartholomewm
da Covilhan, apresentava o cura, que tinha,
2508000 réis, e o pê de altar.
É terra fertil. Grande abundancia de gado
€ caça.
A esta freguezia está annexa a das Quin-
tans, e por isso se diz vulgarmente Salguei--
ro e Quintans.
SALHARIZ — Vide Selhariz.
SÁLIA— rio, Minho, —Vide Sélho.
SALINAS —é um appellido nobre em Por--
tugal: veio de Hespanha, tomado da villa de:
Salinas, na Guipuscoa. Não se sabe quem 0)
trouxe a Portugal. O seu brazão d'armas, é
--em campo de prata, uma asna de purpu-
ra firmada, entre 3 flores de liz do mesmo
—êlmo d'ago, aberto; e por timbre o pesco-
SAL 343
ço e cabeça de um unicornio, da sua côr,
com a ponta de prata.
SALIR ou SELIR—freguezia, Algarve, na
comarca e concelho de Loulé, 24 kilometros
de Faro, 225 ao S. de Lisboa.
Tem 800 fogos.
Em 1757, tinha 514.
Orago, S. Sebastião, martyr.
Bispado do Algarve, districto administra-
tivo de Fáro.
A mitra apresentava o prior, que tinha
720 alqueires de trigo, de renda por anno.
É uma grande povoação, e antiquissima.
Foi villa, no tempo dos mouros, e praça for-
tificada. Ainda conserva as ruinas do seu ve-
tusto castello, a uns 250 metros ao N. O. da
povoação. Esta é situada sobre uma collina,
Com o terramoto do 1.º de novembro de
1755, cahiram 40 moradas de casas; mas só
morreu uma menina, ainda de peito.
A egreja é pequena para o tamanho da
freguezia, e nada tem de notavel.
O territorio da freguezia, fica entre dous
ramos da serra do Algarve, tendo cada um
d'elles, 18 kilometros de comprido.
É terra fertilissima, e são famosos os seus
vinhos, chamados d'Alicante; produz optima
laranja, que exporta para Inglaterra.
Fabrica-se aqui muita aguardente de me-
dronhos;e ha vastos montados, onde se criam
muitos porcos, e são abundantes de caça.
A uns 200 metros da povoação, corre a
ribeira de Salir, que réga, móe, e traz algum
peixe. Junto à aldeia de Tôr, toma este no-
me.
Pela lei de 7 de abril de 1838, perdia, pa-
ra o Ameixial, os dez Valles de Luiz Néto—
os oito Valles da Rosa—os dous das Gorti-
cadas—os 6 da Ameixieira—e os cinco das
Fornalhas. Para Querença, perdia os Valles
do Barranco do Velho, e os do Sêrro Alto.
Esta lei não teve effeito.
Seis kilometros ao N. de Salir, está a mon-
tanha da Rocha da Pena, cortada perpendis-
cularmente, com 3 kilometros de extensão;
a qual, pelo referido terramoto, ficou racha-
da em varias partes, e lançou penedos, de
prodigiosa grandeza, a grandes distancias,
Só é accessivel ás aguias, buffos, e griffos,
que fazem bastantes estragos no gado miu-
4h SAL
do. No seu cume, ha um profundissimo la-
gar. :
Trez Kilometros ao O. desta serra, ha ou-
tra, chamada Peninha, e na raiz d'ambas ha
nascentes d'aguas ferreas.
Salir é uma palavra portugueza muito an-
tiga: significa—morrer. E se se Paay (Payo)
Martinz ante sal ca eu per morte (se mor-
rer antes de mim.) Doc. de Alpendurada, de
1292. — Sal, tambem era synonimo de sahir,
ou de sahimento. Ainda hoje empregamos
este ultimo substantivo, para designarmos o
acompanhamento de um enterro.
SALIR DO PORTO—freguezia, Extrema-
dura, comarca e concelho das Caldas da Rai-
nha (foi da comarca d'Alcobaça, concelho
extincto de S. Martinho do Porto), 100 kilo-
metros ao N. O. de Lisboa.
Tem 120 fogos.
Em 1757, tinha 50.
Orago, Nossa Senhora da Conceição.
Patriarchado de Lisboa, districto adminis-
trativo de Leiria.
O prior de S. Pedro, d'Óbidos, apresentava
o cura, que tinha 60 alqueires de trigo, 30
de cevada, e 50 almudes de vinho.
Fica a 3 kilometros ao S. de S. Martinho
do Porto, e por isso, ainda alguns chamam à
barra de S. Martinho—barra de Salir.
É terra fertil.
Foi villa e cabeça de concelho (couto d'Al-
cobaça) com juiz ordinario, capitão-mór «
uma companhia de ordenanças.
Dizem alguns, que teve foral velho, dado
por D. Sancho IT, o que é duvidoso.
O antigo nome d'esta freguezia, era Salir
da Foz, e é o nome que tem no foral que lhe
deu o rei D. Manuel, em Lisboa, a 10 de mar-
ço de 1515. (L. 2.º dos foraes novos da Ex-
tremadura, fl. 139, col. 2.2)
É terra abundante de peixe do mar, que
lhe fica à 3 kilometros ao N. O.
Esta povoação é antiquissima, e ficava a
pouca distancia da famosa cidade da antiga
Lusitania chamada Eburobriga. (Vide Alfei-
zirão, Evora d' Alcobaça, Eburobriga, e vida
tambem o Salir seguinte.)
Para a etymologia, vide o 1.º Salir.
SALIR DOS MATTOS—ou Salir do Matto
—freguezia, Extremadura, comarca e con-
SAL
celho das Caldas da Rainha, 105 kilometros
a N. O. de Lisboa, e 5 do Salir antecedente.
Tem 360 fogos.
Em 1757, tinha 221.
Orago, Santo Antonio, patriarchado de
Lisboa, districto administrativo de Leiria.
O abbade geral do mosteiro de religiosos
bernardos d'Alcobaça, apresentava o viga-
rio, que tinha 4205000 réis, e o pê d'altar.
Como o Salir antecedente, é povoação an-
tiquissima, e foi villa e cabeça do concelho
do seu nome (couto de Alecbaça) e tinha juiz
ordinario, apresentado pelo D. abbade de Al-
cobaça.
D. Manuel 1, lhe deu foral, em Lisboa; no
1.º de outubro de 1514. (Livro dos foraes no-
vos da Extremadura, fl. 132 col. 4.2). N'este
foral se lhe dá o nome de Salir do Matto.
Ficava tambem, como o antecedente, pro-
ximo da cidade de Eburobriga, e da villa de
Alcobaça. (Vide Alfeizirão, Eburobriga, e
Evora d' Alcobaça).
Que esta povoação foi habitada pelos ro-
manos, o prova uma lápide, menciorada por
o doutor allemão, Emilio Hubner, nas suas
«Noticias archeologicas de Portugal» pag.
6.
Eis a inscripção da lápide:
D.M.sS.
SOLPICIAE C. OL.
SIPONESI AN.
XXXV CALLECVS
R... SL... VXORI
P... P... €.
É pois um monumento sepulchral, e quer
dizer— Dedicado aos deuses manes. Aqui jaz
Sulpicia, natural de Colippo (Leiria) irman
de Calleco, a qual falleceu na edade de 35
annos.
As tres letras da ultima linha, talvez si-
guifiquem Pientissimae Poni Guravil.
Calleco, parece ser lusitano, e era duun-
viro, provavelmente do municipio de Ebu-
robriga.
Em Alfeizirão, se teem descoberto varias
lápides, com inscripções romanas, e entro
ellas, a seguinte:
SAL
SVLPICIAE.
L. F. AVITAE,
EX. T. SVO. Q.
SERVILIVS.
AVITVS HER,
G. SERVILL.
LAVRI PATRIS.
SVIF. .. €.
Parece que é a sepultura de uma Sulpi-
éia, que, por testamento, deixou encarrega-
do do seu funeral a seu parente Servilio
Avito.
Póde muito bem ser que esta Sulpicia
fosse irman, ou da familia Sulpicia da in-
scripção achada em Salir dos Mattos; e tal-
vez ambas da cidade de Calippo, onde a fa-
milia Avito foi muito considerada, e à qual
familia ambas as Sulpicias pertenciam,
(Para a etymologia, vide o primeiro Sa-
tir.)
SALLAMONDE —Vide Salamonde.
SALOIO—o habitante dos arredores de
Lisboa. Julga-se geralmente que a etymolo-
gia d'esta palavra vem do árabe çála ou sa-
láh, que significa, oração, rogativa ou de-
precação.
Deriva-se do verbo sálla, orar, rezar, de-
precar.
A cala era rezada pelos mouros, cinco ve-
zes por dia:—1.º ao romper d'alva, e se cha-
mava salat el sobbi, que significava oração
da madrugada.—-2.* ao meio-dia, e se cha-
mava salat el dóhri, oração do meio-dia. —
3.2 às & horas da tarde, e se chamava salat
el arsi, oração da tarde. —4.º ao sol-posto,'e
se chamava salat el megreb, oração do sol-
posto. —5.4 ຠoito ou nove horas da noite, é
se chamava salat el dxé, oração da noite.
De fazerem a çala, se deu aos mouros O
nome de salóios.
Quando D. Affonso Henriques tomou Lis-
boa aos mouros, em 1447, não os quiz, nem
aos judeus, misturados com os christãos,
para evitar continuas rixas e desordens, nas
quaes os mouros e judeus ficavam sempre
mal.
Aos judeus foi designado para a sua ha-
bitação o bairro da Ribeira-Velha, que por
isso se ficou chamando Judiaria,
(Para evitar repetições, vide Judiaria, a
SAL 945
pag. 421 do 3.º vol. —no artigo Lisbõa, 4.º
vol., pag. 172, col. 2.2-—e no mesmo artigo
Casa dos Bicos—e a pag. 170, col. 1.º Villa
Nova de Gibraltar.)
Aos mouros foi marcado o terreno que
principiava fóra do Arco do Marquez de Ale-
grete (actual largo da Mouraria) e compre-
hendia as actuaes ruas da Mouraria, Caval=
leiros, Gapellão, Amendoeira, é todas as tra=
vessas e bêccos immediatos.
A este sitio ainda se continua a chamar
bairro da Mouraria.
Os mouros se foram convertendo pouco a
pouco ao christianismo, e se ligaram com
familias christans, o que lhes facultou pos
derem estender-se pelos arredores de Lis-
boa, fóra dos limites primeiramente marca-
dos.
Muitos physionomistas julgam ainda pers
ceber nas caras dos salôios o que quer que
seja do typo árabe.
Deixem-nos confessar que, se os saloios
se parecem com os mouros, estes não eram
de certo nenhuns Adonis, nem Apollos de
Bélvedere; nem as salôias Venus ou Junos.
Julga-se que tambem da palavra cala vem
o nome de calaya, tributo que pagavam do
pão cosido, os padeiros salôios, e que de-
pois se estendeu a todos os padeiros, quer
do termo, quer de Lisboa.
Gala Ben Gala (Saléh Bed Saléh) é nome
proprio de homem, árabe. Siguifiza—Justo
filho de Justo. —Deriva-se do verbo saléha,
ser justo, perfeito, completo.
SALRÊU —freguezia, Douro, comarca, con-
celho e 3 kilometros ao S. de Estarreja, 18
kilometros ao N. de Aveiro, 265 ao N. de
Lisboa, 900 fogos.
Em 1757 tinha 701 fogos.
Orago, S. Martinho, bispo.
Bispado e districto administrativo de
Aveiro,
A abbadessa do mosteiro de Lorvão (de
freiras bernardas) apresentava o prior, que
tinha 2:4008000 réis de rendimento annual.
Situada em terreno levemente accidenta-
do e fertilissimo. Cria muito gado, de toda
a qualidade, e a ria e o mar lhe dão abun-
dancia de peixe.
Tem uma vasta e sumptuosa egreja ma-
346 SAL
triz, de 3 naves, optimos passaes e boa casa
de residencia parochial.
A egreja foi restaurada em 1878, obten-
do-se do governo um subsidio. de 6008000
réis.
Foi aqui prior o sr. Dr. Antonio Ayres
Tavares de Pinho, actual prior da freguezia
de Santa Justa e Rufina, de Lisboa, e des-
embargador da Curia Patriarchal. É um ca-
valheiro de muita illustração e do mais
exemplar comportamento; pelo que é geral-
mente respeitado e estimado.
Diz o padre Carvalho, na sua Chorogra-
phia portugneza, que havia aqui muitas fa-
milias nobres.
A maior parte dos habitantes desta fre-
guezia são lavradores, e muitos d'elles ri-
cos proprietarios.
A grande quantidade de seixos rolados
que se encontram aqui e nas freguezias li-
mitrophes, provam que o Oceano occupou
por muitos seculos este territorio.
No logar de S. Martinho, desta parochia,
se construiu, em 14871, uma bonita ermida,
dedicada a Nossa Senhora das Dores.
É de bella architectura, e as pinturas in-
teriores são primorosas.
Foi feita por devoção e à custa do sr.
Elisiario Antonio de Sousa, proprietario
d'esta freguezia. Faz-se a festa à Senhora,
no primeiro domingo depois da festa de S.
Payo da Torreira, e é sempre concorridis-
sima.
No alto de um cabeço está a capella de
Nossa Senhora do Monte. É tambem um for-
moso templo, de bella cantaria, e muito an-
tigo; mas não pude saber quando e por quem
foi construido. É grande e tem capella-mór
com seu altar, e dois no corpo da egreja.
No terreiro que circumda a capella, ha
algumas oliveiras, e d'aqui se gosam boni-
tas e dilatadas vistas.
A imagem da padroeira é de marmore,
de boa esculptura e de um metro de alto.
A sua festa é feita no dia da Assumpção, e
é sempre muito concorrida.
Ainda pelo decurso do anno vem aqui
muitos fieis visitar a Senhora.
Tem uma boa eonfraria, que cuida na con-
servação e aceio do templo e lhe faz a festa.
SAL
Em abril de 1876, morreu aqui Joaquim
Milina, na edade de 102 annos.
Foi soldado, e fez toda a campanha da
guerra peninsular, e, quando já não podia
trabalhar, mendigava, para não morrer de
fome. É o premio que os governos partuguê-
zes dão a quem os serve, e é balda velha,
No mesmo anno de 1876, foi esta fregue-
zia invadida por uma temerosa praga de
gafanhotos, que devastava tudo.
No dia 10 de julho, pelas 6 horas da ma-
nhan, juntaram-se o regedor da parochia,
com seus cabos de policia, e muitos lavra-
dores, e dando caça aos gafanhotos, enche-
ram grande numero de canastrás d'estes in-
sectos damninhos.
Onde causaram maiores prejuizos foi nas
lavouras dos Ternos da Gandara, devoran-
do a terça parte das searas. Deixavam-se
apanhar facilmente.
Esta lavoura tem trez kilometros de com-
prido, e outro tanto de largo; a maior parte
pertence a esta freguezia, é o resto é já no
concelho de Albergaria-Velha.
No Districto d'Aveiro n.º 731, de 17 de
fevereiro de 1879, lê-se o seguinte:
Cartas de Estarreja
«Fomos admirar os effeitos da cheia do
rio Antuan; e são realmente grandes |
No caminho de ferro, entre Salreu e Es-
tarreja, são importantes os estragos. Admi-
ra como a força da corrente fosse capaz de
arrastar comsigo obras que se julgavam tão
solidas.
Os prejuizos que a cheia da noite do dia
9 para o dia 10 do corrente causou em par-
te do nosso districto, pódem ser calculados
em mais de quatrocentos contos!
UI, freguezia do concelho d'Oliveira d'Aze-
meis, ficou sem todos os seus moinhos, que
eram muitos e importantes; e no rio Cáima
foram tambem grandes os prejuizos. Pon-
tes, aqueductos, casas, açudes, tudo foi ar-
rastado atraz de si.
Era tal o estrondo que a agua fazia no rio
Antuan, quemuitas pessoas se levantaram de |
SAL
noite, julgando presencear o diluvio univer-
sal!
Na segunda-feira de manhan, viam-se aqui
e alem, envolvidas na corrente impetuosa,
madeiras, e algumas de grandes dimensões,
caixas, soalhos, moégas, médas de palha e
animaes mortos. Felizmente não ha a lamen-
tar muitas vidas, porque apenas nos consta
o serem uma ou duas as pessoas que mor-
reram afogadas.
As aguas agglomeraram-se junto à ponte
do caminho de ferro, e como esta não pou-
de dar vasão áquellas, em vista talvez das
madeiras que alli se juntaram, subiram aci-
ma da linha, arruinando-a desde o kilome-
tro 286,600 a 287,200; seiscentos metros de
extensão.
O pégão da ponte, do lado do norte, desa-
bou completamente, arrastando comsigo par-
te da ponte de ferro, levando-a a uma dis-
tancia talvez de duzentos metros.
Do lado do sul da ponte, ha um rombo
consideravel. Os rails, como estavam ligados
uns aos outros, ficaram suspensos como
uns esqueletos. Pareciam uma cousa phan-
tastica, como se o Deus das trevas tivesse
tomado alli sua parte importante.
As providencias que as circumstancias
reclamavam, não se fizeram esperar por par-
te da companhia. Só em Estarreja trabalha-
ram aproximadamente cem pessoas. A estes
trabalhos presidiu o ex.mo sr. Espergueira,
com os srs. Macgherman, chefe da via e
obras; chefe de secção ajudante, Villaça, e
com o activo capataz Nunes.
Nos rombos que houve entre Ovar e à
Granja, tambem se trabalhou activamente,
sendo estes trabalhos dirigidos pelo enge-
nheiro chefe de secção, Gil.
Se o tempo o permittir, talvez que dentro
em cinco ou seis dias possam vir os com-
boios do Porto a Estarreja. Sabemos que
quando, porém, aqui chegarem, a compa-
nhia estabelece diligencias entre Estarreja
e Salreu, visto que o comboyo ascendente
chega até alli, e isto tão sômente emquanto
se não faz a ponte provisoria sobre o Antuan,
que póde levar trez semanas a um mez, pa-
ra se concluir.
A companhia merece louvores pelas pro-
SAL 347
videncias eaetividade que empregou; porque
desta maneira harmonisa os seus interes-
ses com os interesses do publico.
O serviço do correio, como já devem sa-
ber, entre o Porto e Estarreja, é feito por
terra.
—Na estrada districtal de Estarreja a Al-
bergaria, distante da de ferro trezentos me-
tros, pouco mais ou menos, fez tambem a
cheia alguns estragos, porque, subindo aci-
ma do seu leito talvez metro e meio, des-
truiu metade della.
Não ha memoria d'uma cheia assim. Foi
imponente. Do mais que souber escreverei.
— Um lavrador.»
Como o actual sr. prior de Santa Justa,
de quem já fallei, foi, como então disse, mui-
tos annos prior de Salreu, escrevi-lhe, a pe-
dir por muito favor. alguns esclarecimentos
com respeito à sua antiga parochia, pois,
sendo um cavalheiro de tanta illustração,
muito hade saber d'aquella terra. Sua Ex.2
anda, porém, tão azafamado a encabrestar os
padres do patriarchado (expressão d'elle)
com o seu famoso Regulamento, que nem
resposta se dignou dar-me | Talvez julgasse
descer da sua alta dignidade, corresponden-
do-se com um obscuro e humilde escriptor
publico. Muito obrigado, sr. prior.
SALSAS — freguezia, Traz os Montes, con-
celho, comarca, districto administrativo, e
bispado de Bragança (foi do concelho de
Izêéda, comarca de Chacim—extinctos) 45
kilometros de Miranda, 465 ao N. de Lis-
boa, 180.
Em 1757 tinha 36 fogos.
Orago S. Nicolau.
A mitra apresentava o reitor, que tinha
608000 réis e 0 pé de altar.
Clima excessivo, mas saudavel e fertil.
Muito gado e caça.
SALSELLAS—freguezia, Traz-os-Montes,
comarca e concelho de Macêdo de Cavallei-
ros (foi da comarca de Chacim, concelho de
Izêda—extinctos), 30 kilometros de Miranda,
465 ao N. de Lisboa. Tem 165 fogos.
Em 1757, tinha 60.
Orago, S. Lourenço.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
348 SAL
O abbade do Valle da Porca, apresentava
o cura, que tinha 68000 réis de congrua e
o pé de altar.
Clima excessivo, mas saudavel e fertil.
Gado e caça.
Salsella, é o mesmo que Salsa pequena.
Esta freguezia foi desmembrada da ante-
cedente, com a qual confina ha mais de 200
annos.
SALTADOURO — rio, Minho. —Nasce nas
vertentes septentrionaes da serra da Cabrei-
ra, no concelho de Vieira.
Despenha-se apertado por entre alcanti-
lados rochedos, formando bellas cascatas e
muitas cachoeiras. Morre, com 9 kilometros
de curso, no rio Cávado.
Nas suas escarpadas margens, criam-se
frondosos castanheiros, oliveiras, e arvores
silvestres.
É atravessado por duas pontes muito co-
nhecidas —a de Ruivães e do Saltadouro:
esta é construida a uns 500 metros de dis-
tancia da confluencia d'este rio com o Cá-
vado. Foi reconstruida no principio d'este
seculo, e tem de altura, na estiagem, desde
a superficie da agua até ao pavímeuto, 8m,5,
e de comprimento 227,5. —Tem um só arco,
e guardas de cantaria.
Fica esta ponte, a 3 kilometros ao N. E.
da povoação de Salamonde. O primeiro ki-
lometro de estrada, da ponte a Salamonde,
é um atalho ingreme, subindo sempre em
curvas de pequeno raio, ou ziguezagues ;
à direita do viandante, ha uma encosta es-
carpadissima, e ao fundo um precipício.
Dá-se a este sitio a denominação de Vol-
tas do Saltadouro.
Este rio, serviu antigamente de divisão
das provincias do Minho e Traz-os-Montes;
era esta divisão, entre o Cávado e o Tâme-
ga, da fórma seguinte:
Subia pelo rio Saltadouro até ao cume da
serra da Cabreira, pelo regato da Ribeira
da Lagem, até à Cruz, e d'ahi ao Murco do
Touro, pela Portella- Velha, onde ainda exis-
te o marco da divisão: d'alh, passava ao Lo-
deiro d' Arque, onde tem tambem um marco,
ESSAS ES Sage
a 50 metros da povoação: passa ao Marco do
' Ruivães) 58 kilometros ao N. E. de Braga,
' 400 ao N. de Lisboa.
Carvalho e subia a serra da Seixa, onde tem
outro marco; e d'ahi subia ao Valle d'Arca,
SAL
onde tambem existe um marco; e d'ahi pas-
sava aos Pontões, onde se reune 0 rio Beça,
com o de Govas, e d'ahi pelo rio das Mestras,
até desaguar no Tâmega.
SALTEAR — portuguez antigo guerreap.
No tempo de Viriato, o herminio, dava se 0
utulo de latro, ao que depois se a
adiantado, e por fim, fronteiro.
Na Hspanha ha uma nobre familia de ap»
pellido Ladrão (Ladron.)
Junto à praça de Cima, em Lamego, em
um quintal que foi dos Duartes, existiu uma
inscripção romana, dedicada a Porcio Lg-
tro, e se faz menção de uma familia dos La-
drões, e de outros appellidos hespanhoes,
No tempo dos romanos, se dava o ngme
Laterones, à guarda nobre do imperador; e
os membros d'ella eram tão considerados,
que até tinham talher à mesa delle; por isso
tambem se chamavam bucellarios. Era uma
especie d'archeiros.
Vemos pois que, ser ladrão é titulo deno-
breza, não só dos nossos tempos, mas dos
antigos.
(Aviso aos advogados que tiverem de de-
fender algum reu, por crime de injuria, com-
prehendido nos artigos 407 e 410 do Codigo
Penal.)
SALTEIRO—portuguez antigo—psalterio.
— Em um testamento que existia na livraria
do Mosteiro de Maceiradão, de 1331, se lê—
Mando resar sobre mim, dous salteiros.
Psalterio se denominam os 150 psalmos
de David—os 7 psalmos penitenciaes, com
as suas ladainhas—e tambem o rosario da
Santissima Virgem, que consta de 150 Ave-
Marias.
Psalterio, é tambem um instrumento mu-
sico, de cordas.
SALTINHO —Vide o 1.º Poiares, e Pontos
no Douro (n.º 90, que é o ultimo.)
SALTO —portuguez antigo—cêrro, outeis
ro, ou outro qualquer logar eminente, po-
voado de arvoredo.
SALTO — freguezia, Traz-os-Montes, co-
marca, concelho e 24 kilometros ao S. de
Montalegre (foi desde 1841 até 1853, da mes-
ma comarca, mas do extincto concelho de
SAL
“Tem 400 fogos.
Em 4757, tinha 200.
Orago, Nossa Senhora do Pranto.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Villa Real.
Até ao reinado de D. Pedro I, era da co-
roa. Este monarcha a annexou à abbadia de
Santa Senhorinha de Basto, cujo abbads
apresentava o reitor de Salto. Depois, passou
a ser da casa de Bragança, e commenda de
D. Luiz Gonçalves da Camara Coutinho, que
apresentava o reitor, e este tinha 2008000
réis de rendimento annual.
Para evitarmos repetições, é preciso ver
a palavra Pranto, no 7.º vol., pag. 658, co-
lumna 2.2
Ha n'esta freguezia o monte chamado La-
mas de Melhoso, que está quasi sempre co-
berto de neve, no inverno, e n'elle teem mor-
rido algumas pessoas geladas.
Em 16 de março de 1309, houve aqui um
pequeno combate, entre alguns soldados por -
tuguezes, e os do general Soult, quando in-
vadiu este reino.
Esta freguezia é muito antiga. Existia, se-
gundo consta, com o titulo—Ad Saltum—no
tempo que os suevos occupavam o norte de
Portugal. Tambem consta, que em um livro
antigo, impresso em Hollanda, ha uma es-
tampa, em que estã o logar de Salto com a
sua egreja e toda a freguezia, estendida en-
tre dois rios; assim como a freguezia da
Villa da Ponte.
Em um documento do seculo XIII se lé :
A rainha D. Thereza, deu à egreja de Santa
Maria de Salto, no julgado de Barroso, uma
herdade, da qual a dita egreja recebe o ter-
rádigo e el-rei as direituras.
Emquanio á egreja matriz, vid. vol. 7.º
pag. 658.
O Sacrario da Egreja de Salto foi posto,
em 1606, à custa dos devotos freguezes, que
davam dois almudes de azeite; e o commen-
dador dava um, que consignou na renda em
1686.
No altar mór se acha a Senhora do Pran-
to. Os devotos mandaram fazer uma ima-
gem, que está dentro do nicho e um calix
dourado, em 4520. As casas da residencia
parochial, foram reformadas e augmenta-
5
SAL 349
das pelo reitor Affonso Annes, da casa da
Corujeira, do logar de Carvalho, d'esta fre-
guezia.
No paredão do ádro da egreja matriz, es-
tão sete moimentos, ou sepulturas antigas de
pedra bem lavrada. Datam, pelo menos, do
anno de 1300,'segundo consta d'uma memo-
ria escripta em letra gothica muito antiga.
No chão do mesmo adro, veem-se outras
muitas sepulturas rasas, da notavel grande-
za de 12 palmos.
A mais famosa é uma que tem os mar-
cos das cabeceiras lavrados e distantes um
do outro 18 palmos. Dizem ser d'um gigante
que houve na Revoreda. Será do celebre
Muzxa? (Vide adiante.)
Compõe-se esta freguezia de 19 povoações,
a saber: Salto, séde da parochia, Cerdeira,
Pomar da Rainha, Pereira, Amêar, Linha-
relhos, Ganiçó, Paredes, Carvalho, Amial, Ba-
gulhão, Lodeiro d'Arque, Ceara, Córva, Be-
çôs. Virandellos (povoação moderna), Ta-
boadelia, Póvoa e Revoreda.
Em 1836 ainda pertenciam, para os effei-
tos civeis, ao concelho de Basto —Serra com
d fogos; Beçós, com 16: Carvalhal, com 40;
Lodeiro d'Arque, com 4; e ao concelho de
Ruivães, Caniçó, com 20; e Linharellos, com
16 fogos.
Ha n'esta freguezia quatorze capellas pu-
blicas e trez particulares e são:
S. Thiago, na povoação de Caniçó; San-
ta Comba, em Linharelhos; Santa Maria
Magdalena, em Corva; Santa Quiteria, em
Amial; S. Bento, em Lodeiro d'Arque;
Nossa Senhora das Neves, em Bagulhão ;
Santo Antonio, no Carvalho ; Santa Barba-
ra, em Beçós; S. Gonçalo, na Serra; S. Fru-
ctuoso, em Taboadella; S. João, na Revore-
da; S. Pedro, na Póvoa; Santo Antonio, em
Pereira; S. Martinho, em Amear. As particu-
lares são—s. José, em Pomar de Rainha, per-
tencente a familia de José Alves Pereiras
S. Domingos, em Paredes, edificada pelos
annos de 14723, por mandado de Domingos
Alvares, da casa d'Agrez, do mesmo logar;
e Senhor dos Aífiictos, na serra da Cabreira,
e pertence ao reverendo Domingos José Al-
vares Barroso.
Esta freguezia é, sem duvida, a mais dis-
350 SAL
persa e uma das mais populosas da comar-
ca.
Apesar das suas 19 povoações se acharem
situadas entre ramos destacados das trez
serras Alturas, Cabreira, Gondiães ou Sei-
xa, não é aceidentado de mais seu terreno.
Produz centeio e muita batata, e em muitas
povoações bastante milho e feijão. Cria mui-
tos e bons gados, em rasão das abundantes
pastagens, principalmente vaccum, sendo o
desta freguezia o melhor de Barroso, de
maior corpo e melhormente formado. A vi-
tella d'esta freguezia é muito estimada e
afamada pelo seu bom gosto e excellente
qualidade.
Em abril de 1878, o intendente de pecua-
ria do districto de Braga, comprou a José
Gonçalves Pereira, do logar de Bagulhão,
duas toiras, pelo preço de 728000 réis cada
uma; as quaes foram mandadas pelo nosso
governo para a exposição universal de Pa-
riz; e uma obteve 0 3.º premio.
Por esta occasião, o mesmo intendente,
comprou à sr.* D. Julia Ferreira Caldas, do
logar de Villarinho de Negrões (Montalegre)
uma junta de bezerros, por 1358000 réis,
que foram tambem para a exposição de Pa-
ris. .
Ha n'esta freguezia trez pisões de mantas
de lan, onde se fabricam annualmente mais
de 1:500 mantas, que vão para a feira de
S. Miguel, em Basto.
No dia 15 d'agosto, solemnisa-se o orago
d'esta freguezia, sob a invocação de Nossa
Senhora do Pranto, e apesar de não ser fes-
tejada com aquelle esplendor, com que era
ha annos, todavia afiluem alli, no proprio
dia, muitos romeiros. Nota-se porem a falta
d'estes, principalmente desde que deixou de
haver fogo d'artificio. A causa da falta
d'elle agora, foi communicar no dia 15 de
agosto de 1844, um foguete, o fogo a uma
porção de palha de centeio, e d'esta passar
às casas, ficando toda a povoação de Salto
reduzida a cinzas.
Além d'esta festa, ha uma outra, com
caracter especial. É a de S. Sebastião, feita
expontaneamente a expensas de devotos,
que para a mesma concorrem com suas es-
SAL
molas. Ha missa cantada e sermão; e de-
pois, a distribuição do carôlo, a qual é feita
pelos juizes da festa a todos os romeiros ri-
cos e pobres, que, postos em circulo, em um
grande campo, recebem o carólo, a que at-
tribuem grande virtude. Em alguns annos o
numero dos romeiros excede a oito centos.
O carôlo é uma fatia de pão, feito de mi-
lho e centeio, que os juizes da festa recebem
no peditorio, que fazem na freguezia.
No logar da Córva, ha uma casa apalaça-
da, que foi do, ha pouco, fallecido, Braz An-
tonio Pereira, e actualmente pertence, por ti-
tulo de herança, à sr. D. Emilia Pereira de
Barros, sobrinha d'aquelle.
Esta casa, mandada fazer pelo reverendo
Antonio Fernandes Pereira, reitor de Mou-
çós, com o producto dos vinhos da quinta da
Retorta, em Villarinho dos Freires, no Dou-
ro, é a unica peça de architectura civil, exis-
tente em Barroso, digna de mensão.
“ Proximo ás povoações de Bagulhão, Póvoa
e Taboadella, nasce um riacho, que, tendo
percorrido, na direcção de E. a O., dentro
dos limites da freguezia, uns oito kilometros
e engrossando com alguns ribeiros, sob à
ponte do Arco, cujo nome toma, acaba, com
o curso de doze kilometros, no Regavão
seis kilometros acima da ponte da Misarella
Cria peixe. Réga e móe.
Esta freguezia é atravessada de sul a nor-
te por uma estrada transversal, antigo sys-
tema, que de Cabeceiras de Basto segue para
Montalegre e Galliza.
Pelo norte d'esta freguezia, passava uma
das mais antigas vias romanas, que decor-
riam da Chancelaria de Braga para Aquas
Flavias, hoje Chavest. A direcção d'esta es-
trada, ou antes via, segundo a tradição e al-
guns poucos vestígios, ainda existentes, era
Zebral de Ruivães, Amear, Beserelho, Co-
1 Segundo o Itinerario de Antonino Pio,
quatro estradas militares romanas sahiam
de Bracara-Augusta (Braga) para Asturica
(Astorga.) A 42, esta de que se falla no tex-
to, por Áquas-Flavias (Chaves.) À 2.º, a ma-
ritima (em parte) por Fão. A 3.º, a da Gei-
ra, pelo Gerêz. E a 4.º, por Limia (Ponte
do Lima.)
SAL
vello do Monte, Ailhó, hoje Atilhó, Quintas,
Boticas de Barroso, Casas Novas, Chaves.
Antes de existir a ponte de Cavêz, a estra-
da de Braga para Traz-os-Montes, vinha de
Casares, a Lodeiro d'Arque, Beçós, Fonte-
Fria, Lomba da Cerva (assim chamada em
razão d'uma grande Cerva, que uns caçado-
res ali apanharam,) passava pelo teso de
Mesouquinhas, Filgueira, rio de Covas, por
baixo do logar d'Alijó, ao rio de Canedo,
por baixo do logar de Veral; atravessava 0
rio Tâmega, para Parada de Monteiros, no
concelho d' Aguiar.
Ainda existem muitos vestígios d'esta es-
trada. Consta que perto de Fonte-Fria exis-
tiam duas casas que davam estalagem ; em
uma d'ellas se recolhiam muitos salteadores;
e n'outra vivia uma mulher, que tinha uma
filha; desconfiando a mãe que a filha lhe ti-
nha roubado algum dinheiro, veiu correndo
apoz ella até ao sitio, chamado Portella da
Estafa, onde lhe deu uma grande estafa de
pancadas; motivo porque assim se ficou cha-
mando o local.
A filha, muito apaixonada, por estar inno -
cente no crime que lhe era imputado, e ven-
do-se tão mal tratada por sua mãe, retirou-
se a um córrego, e alli se enforcou em uma
arvore. Passados alguns dias a mãe procu-
rando a filha e encontrando-a enforcada, se
enforcou tambem-na mesma arvore.
Córrego ficou chamando-se das Enfor-
cadas.
Tinha antigamente esta freguezia, feira nos
dias 27 de cada mez; agora tem feira an-
nual, mas pouco concorrida, úos dias 30 e
31 de outubro e 4.º de novembro.
Confina pelo sul e poente com a provin-
cia do Minho; e por esta freguezia passa a
linha divisoria das duas provincias. Vide |
Saltadouro.
Houve n'esta freguezia dois parochos, di- |
gnos de especial mensão—foram: |
1.º O reverendo João Baptista, natural do
logar de Salto, reitor desta freguezia pelos
annos de 1600. Era muito exforçado . e
mau, pelo que chegou a commetter muitos
SAL 391
e varios crimes. Veiu de Braga, para o pren-
der, uma alçada dobrada, em uma quinta
feira santa, e chegando na occasião em que
estavam cantando no côro, o officio divino,
teve o reitor noticia secreta; deixou no côro
um leigo vestido com a sua roupa é sahiu
coberto com um gabão de burel, atado com
um cingidouro de palha. Da mesma manei-
ra sahiu o seu coadjutor o reverevdo Anto-
nio Pires, natural da Revoreda. Era de eguaes
costumes e sentimentos aos do reitor.
Em seguida foram ambos maltratar e des-
baratar os criados e cavalgaduras, dos da
alçada, que estavam no cruzeiro.
Cortaram as orelhas e arreios ás cavalga-
duras, deixando-as em tão mau estado, que
os cavalleiros retiraram a pé para Braga; e
trez criados ficaram mortos no caminho.
Resultou disto, nunca mais ser procura-
do, nem novamente processado, ficando livre
dos crimes passados.
Foi capellão d'um arcebispo de Braga.
2.º O reverendo Gonçalo Barroso Pereira.
natural da Ceara, foi ordenado de presbyte-
ro, em Lisboa, pelo bispo de Targa.
Foi vigario de S. Pedro do-Couto de Dor-
nellas, por espaço de quinze annos, e depois,
reitor d'esta freguezia de Salto, por trinta e
cinco annos.
Era abundante de palavras e dotado de
grande talento.
Foi notario apostolico, commissario, visi-
tador e muito instruido em diversas disci-
plinas e sciencias, chegando a ser mestre em
algumas, por muitos annos. Era o pae carita-
tivo dos pobres, allivio dos atribulados, co-
lumna forte dos parentes e amigos, valente
defensor da sua terra natal; bem disposto,
robusto e esforçado.
Teve grandes differenças e desintelligen-
cias com o arcipreste de Barroso, Francisco
Palhares de Castro, natural de Monção, fin-
dando a causa a favor d'elle reitor. Tambem
teve com outros visitadores varias alterca-
ções e algumas bulhas.
Tirou, em virtude de duas sentenças que
alcançou, o lançamento d'éguas, que sua ma-
gestade mandava lançar a todo o concelho
de Barroso. Estas sentenças foram guarda-
das por mais de trinta annos; ainda em 4722
J92 SAL
eram observadas. Fez à sua custa esta mer-
cé ao concelho de Monrvalegre.
Fez riscar, por ordem d'el-rei, um capi-
tulo, feito pelo juiz de fóra de Montalegre,
e pela câmara da mesma villa, no qual se
determinava «Que não servisse cargo nobre,
de vereador, almotacel ete., homem algum
do concelho; e no caso que algum quizesse
servir, daria quarenta mil réis ou faria à sua
custa as Endoenças na villa, e que sómente
seriam de fóra da villa os procuradores e
recebedores.» Tudo isto fez annular e riscar
pelos annos de 1697.
Sustentou unia grande demanda, que hou-
ve entre os moradores d'alguns logares
da freguezia de Salto e os do concelho
de Ruivães. A demanda originou-se pela
causa seguinte: os habitantes d'alguns lo-
gares, da freguezia de Salto, traziam antiga-
mente no monte, ou antes na serra da Ca-
breira, muitos bois e eguas de criação e al-
guns até traziam os porcos; e sempre foram
senhores d'estes montados. Os moradores
do concelho de Ruivães, porque queriam
prohibir esta posse, levavam e encurrala-
vam todos os gados e bêstas, que no mon-
te achavam, no curral da villa de Ruivães,
e depois quem queria tirar o seu gado, pa-
gava por cada cabeça 600 réis, ou o que a
camara determinava. Moveram se duvidas
e principiou-se uma grande demanda, que
durou desde 1680 até 1695, contra o mor-
gado de Ruivães, Gervasio da Pena, e con-
tra todo o concelho de Ruivães, que por fi-
nal sentença da Relação do Porto, foram ex-
cluidos de todo o direito que pretendiam ter
ao dito monte, pagaram todas as custas, e
ouviram contra si a brava sentença, sem ap-
pellação, e sob pena de condemnações e as-
peros degredos para as ilhas maritimas.
Fez conservar o direito e costume de pas-
tarem promiscuamente os gados grossos e
miudos, dos moradores da Ceara, com os dos
logares de Carvalho, Beçóse outros; e tircu
uma provisão real para poderem pastar os
da Ceara, até às paredes dos contrarios ; e
tambem obteve duas sentenças, da Relação
do Porto, a favor dos moradores da Ceara:
isto pelos annos de 1691.
Conseguiu, por ordem de sua magestade,
| o reverendo João Barroso de Carvalho, ab-
SAL
expulsar da Relação de Braga, dvis desem-
bargadores—Manuel Dias Vidal e o Castello
Branco—por serem contrarios a seu primo,
bade de Souzella, em uma demanda, que
corria na dita Relação. Esta demissão fez
grande abalo e causou grande sentimento
na Relação, pois os ditos desembargadores
eram magnates do arcebi-po D. João de Sousa.
Os desembargadores metteram-se religio-
sos.
Revolveu a Relação e tribunal do civel, do |
Porto, de tal maneira, que fez embargar e an- |
nullar uma sentença de forca, já julgada é
sellada na Junta, contra um Lourenço, do lo-
gar de Covello do Monte, freguezia de Ger-
dédo, o qual tinha feito uma morte, e que
merecia ser castigado com mil forcas. |
Deu-se volta a esta sentença, em vinte e |
nove dias, e foi commutada a pena de morte |
em degredo perpétuo, para a ilha de S. Tho-
mé, mas se voltasse a este reino, morresse
morte natural.
Ainda lhe fez outro favor, que foi ir a sen-
tença a registar na ilha de S. Thomé, e o reu
para casa de seu filho Aleixo, que residia no
Brasil: Pelos annos de 1697, voltou ao reino,
e foi-se accommodar ou recolher a Rio Caldo,
em casa d'um filho, que alli estava casado.
Mandou pedir ao reitor, licença para o vi-
sitar, mas o reitor não lh'a concedeu e res-
pondeu: Que não desejava vél-o nem saber
onde estava. .
Quando o reitor se mudou do Couto para
Salto, queria deixar n'aquella freguezia,
o reverendo Antonio Barroso, o Cabeçu-
do, porém não o quizerrm acceitar, do que
resultaram grandes demandas, que não ti-
veram fim. Vieram da Ceara ao Gouto mais
de 40 homens da freguezia de Salto; os do
Couto fugiram e não tornaram.
Teve dois filhos — Antonio Barroso de Care
valho, que casou em Braga e teve um filho,
capitão de Malta, e outro letrado e casado
no Porto; e Manuel Pereira, que foi para a In-
dia, onde casou muito rico e nobremente ;
foi eleito governador da praça Callao do Li-
ma, e duas filhas—Ignez, que casou no lo-
gar de Gondiães, e Isabel, que casou no lo-
gar de Bagulhão. :
SAL
Foi sepultado na egreja de Salto, em fe-
vereiro de 4705, tendo 75 annos de edade.
Teve muitos parentes ecclesiasticos, ab
bades, religiosos, e seculares formados e mi-
nistros; homens notaveis nas letras e santi-
dade; entre ou'ros: o reverendo Geraldo Pe-
reira, beneficiado; o reverendo João Barroso
Pereira, seu tio, abbade de Parada d'Outei-
ro; o reverendo João Barroso Pereira, seu
primo, prior da Ceara; o reverendo Juão
Barroso, seu irmão, vigario da Ponteira ; o
reverendo João Barroso de Carvalho, seu
primo, famoso nas lettras, abbade de Sou
zella; o reverendo João Barroso Pereira, na-
tural de Caniçó, famoso nas lettras, reitor da
Torre de Moncorvo, depois abbade de Cas-
tello Branco, onde foi sepultado em 1722; 0
reverendo Pedro Barroso de Macedo, filho
do capitão mór de Caniçô; Gervasio Barro-
so, reitor, por mais de trinta annos, em 8.
Thiago d'Adeganha; o padre mestre fr. Juão,
da ordem de S. Domingos, de Villa Real;
fr. João de Baroso, guardião de S. Francis
co; e outros muitos, simples sacerdotes; o
dr. Geraldo Pereira, juiz de fóra, da villa de
Trancoso, depois corregedor de Lagos, no
Algarve e em Coinibra, e eleito desembarga-
dor do Porto: foi sepultado pelos annos de
1717; e Alexandre Pereira, filho do anterior;
foi corregedor de Lamego, e cavalleiro do
habito de Christo.
Farei aqui menção d'alguns individuos,
notaveis, d'esta freguezia e que existiram de |
1600 em diante.
Bacharel, Antonio Pereira Barroso, natu-
ral do logar d+ Salto, foi ministro:
Bacharel, Antonio Pereira Barroso, filho
do anterior, natural do mesmo logar, foi len-
te em Coimbra.
Bacharel, Affonso Pereira, natural do mes-
mo lugar, fui vigario em S. Lourenço de
Dorrães, termo de Barcellos.
Bacharel, Antonio Barroso, por alcunha o
Arigas, tambem natural de Salto, abbade de
S. Martinho do Campo, termo de Barcellos-
Bacharel, Diogo Gonçalves Pereira, ainda
natural de Salto, beneficiado e "abbade de S.
Pero Fins de Támél, termo de Barcellos.
Bacharel, Gonçalo Pereira, irmão do an-
terior, abbade de S. Thiago de Cerdédo,
SAL BBB)
termo de Montalegre. Estes quatro indivi-
duos eram da familia dos Borralheiros e nas
cidos na casa de Baixo, dos annos de 4600
em diante.
Bacharel, Balthazar Pereira Barroso, na-
tural de Salto, formado em direito canonico
e civil: defendeu theses em 22 de julho de
1726, ficando approvado — nemine discre-
pante—foi prégador, advogado e reitor, na
villa de Mont'alegre—1727 a 1754.
Bacharel, Bento Pereira Barroso, natural
do mesmo logar, advogado, e reitor em Mou-
rilhe em 1819; depois reitor em Monrale-
gre. Era um outro Corrêa Telles, que as
partes iam consultar de muito longe. Exis-
tia, ha pouco tempo, um velho da freguezia
de Villa Cova e Banhos (Santa Maria), que
de Barcellos foi lá consultal-o, e dizia: Que
o achára de polainas ao lume e alli mesmo
respondêra à consulta.
Padre, Domingos Barroso Pereira, filho
de Antonio Barroso, natural do logar de
Salto, foi sepultado em Coimbra, em 1720,
cursando direiro canonico.
Bacharel, João Barroso Percira, irmão do
anterior, cavalleiro do habito de Christo, juiz
de fóra, da villa da Torre de Moncorvo, ou-
vidor e auditor de guerra, em 1727, na pra-
ça de Margão (India), cargo que exerceu
por trez annos; foi eleito syndico de Cabo
Verde; e, em 1730, provedor de Evora, com
capello de desembargador.
Bacharel, João Pereira Barroso, natural
do mesmo logar, desembargador no Porto
Bacharel, Antonio Joaquim Gonçalves Pe-
reira, nasceu no logar de Salto, a 9 d'agos-
to, de 4823, concluiu a sua formatura em
direito, na universidade de Coimbra, no an-
no de 1850.
Foi nomeado, no 4.º de março de 1854,
administrador de concelho de Mon alegre,
cargo que exerceu com honradez e probi-
dade, por espaço de onze annos consecuti-
vos, com intervallo d'um anno, do decimo
para o undecimo.
Foi procurador da Casa de Bragança, em
Chaves, desde 1868 até 1872. Actualmente
exerce a profissão de advogado, com gran-
de fama e boa reputação, nos auditorios d'a»
quella villa.
394 SAL
Bacharel, Antonio Alves de Sousa, natural
do logar de Paredes; foi advogado e reitor
d'esta freguezia por quarenta annos.
Antonio Alves Barroso, natural do mesmo
logar de Paredes, bacharel em medicina.
Bacharel em canones, Antonio Gonçalves
Pereira, natural do logar de Pereira, foi pré-
gador e advogado em Mont'alegre por cin-
coenta annos.
O reverendo Antonio Barroso, natural do
mesmo logar de Pereira, ordenado em Ro-
ma. Antes de ir para Roma, matou, na fre-
guezia da Venda Nova, dois individuos ir-
mãos, da familia dos Bahias, e quando che-
gou a Roma já havia feito mais cinco mor-
tes. O papa deu-lhe por pentencia que an-
dasse n'aquella curia sete annos; passados os
quaes é que foi ordenado ; e chegando à
terra natal, foi morto, na Villa da Ponte, pe-
los netos dos Bahias.
Padre Manuel Francisco Domingos dos Mi -
lagres, Mont'alegre, natural de Amear, fra-
de capucho, foi guardião no mosteiro de
Chaves e no Porto, pelos annos de 1697 a
1724.
André Paulo Gonçalves de Sá, natural da
Revoreda. Está cursando, em 14879, o se-
gundo anno da Academia Polytechnica do
Porto.
Militares
Gabriel Pereira Diodares, naturald' Amear,
soldado famoso, foi mestre de campo na pra-
ça de Tanger, e obteve por seus serviços o
habito de Christo.
Teve um irmão alferes de infanteria.
Affonso Pereira, filho de João Gonçalves
e da familia dos Coelhos, natural da Cer-
deira, foi alferes de cavallaria, em Chaves,
pelos annos de 1727 a 1730.
Teve um irmão, que, em Minas Geraes,
foi capitão da mesma árma.
Na Revoreda houve um famigerado solda-
do, valente (e companheiro do conde de S.
João, Luiz Alvares Távora) conhecido pela
alcunha de Muxa, que fez grandes proezas
nas guerras de 1660.
Affonso Dias Pereira, natural da Revore-
da: passou a Minas Geraes, e ahi exerceu o
posto de capitão (por Carta Patente de 5 de
SAL
maio de 1760), da companhia d'Ordenanças
a pé, da freguezia de S. José da Barra, ter-
mo da cidade de Marianna.
Foi cavaileiro de Christo, com tença de
128000 réis (Alvará de 27 d'agosto de 1760).
Professou em Villa Rica a 15 de janeiro de
17614. Serviu com muita honra (como cons-
ta ds certidão authentica e legal de 146 de
janeiro de 1801) desde 1772 até 4800, de
thesoureiro geral dos rendimentos da curoa,
na capitania de Minas Geraes.
Foi promovido, por Carta Patente de 11
d'abril de 4780, ao posto de coronel do pri-
meiro regimento de cavallaria auxiliar de
Villa Rica, no qual posto serviu com activi-
dade, honra e zelo (são as proprias expres-
sões com que ohonrou o capitão general, Luiz
da Cunha e Menezes, que servia em 1788);
e foi finalmente reformado no mesmo posto,
por decreto de 20 de novembro de 1800,
com todas as honras, privilegios, isenções e
liberdades.
Gervasio Barroso, natural de Caniçô, da
casa do Rio, foi pelos annos de 1635 capitão-
mór no concelho de Ruivães; e serviu el-rei
com cavallos e armas suas por vinte e oito
annos.
Teve um filho, chamado Gaspar de Mace-
do, que foi sargento-mór em Ruivães,
Estes dois individuos eram parentes do
celebre reitor, Gonçalo Barroso Pereira.
N'esta freguezia ha muitas familias, que
fundadas ou escudadas em um documento,
extrahido em 1730, d'uma memoria, escripta
em pergaminho, com letra gothica e antiga,
blasonam e ufanam-se de ser oriundas de
estirpe fidalga.
Lé-se no tal manuseripto:
«Pelos annos de 1260, havia n'esta fregue-
zia, quatro familias illustres, mui apotenta-
das, chamadas ricos-homens.
Foram valentes e esforçados soldados nas
guerras do Minho e da Beira.
Em certos dias faziam escaramuças e ou-
tros divertimentos, então usados; mas, es-
pecialmente, o jogo da barra era o mais fre-
quente, por cuja razão havia muitos desafios
e, por vezes, mortes ou, pelo menos, muita
pancadaria. Em dias de festa jogavam a es-
SAL
pada e, às vezes; com duas. am em ranchos
à feira de S. Miguel em Basto; e todos te-
miam estas familias, por serem valentes.
Pelo decorrer dos tempos foram procurar
outras terras e cidades, de sorte que em
1312 muitas tinham abandonado suas casas
n'esta freguezia.
Aos descendentes d'estas familias se pa-
gavam foros e actualmente ainda se pagam
alguns.
Os Barrosos enxertam-se em Vasco de Al-
vim Barroso e D. Maria Mendes Petite, cuja
geneologia é a seguinte:
Vasco d'Alvim Barroso, grande cabo de
guerra, adiantado nas gaerras do Minho e
Beira, homem rico, senhor da casa de Pe-
draça e de muitas terras: Revoreda, Taboa-
della e Povoa, a que chamam Quinta de Bar-
roso, onde tinha seu paço e capella de S.
João, junto à fonte: cascu com D. Maria Men-
des Petite, filha de D. Soeiro Mendes, senhor
da Terra da Feira, adiantado e valido dos
reis, grande cabo de guerra, e de D. Maria
Sapata, sobrinha de D. Mayor Mendes Pe-
tite, abbadessa de Santo Thyrso.
Tiveram, segundo se lé em alguns manu
scriptos existentes n'esta freguezia de Salto,
dois filhos: D. Francisco Barroso e Sousa,
primeiro conde de Basto e D. Leonor de Al-
vimi. Morreu Vasco de Alvim Barroso, e sua
mulher D. Maria Mendes Petite passou a se-
gundas nupcias com Joaquim Gonçalves
Barroso, da Póvoa, homem muito agiganta-
do, valente soldado, adiantado nas guerras
do Minho, onde morreu, estando casado ha-
via nove annos. 2
D. Maria Mendes Petite, sentiu tanto esta
segunda viuvez, por causa do muito amor
que tinha a seu marido, do qual não houve
filhos, que resolveu deixar Barroso e reco.
lher-se a um convento, o que só pôde effe-
- Ctuar passados oito annos, porque depois de
ter mandado compôr suas casas e estando
proxima a partir, foi obrigada a demorar-se
o tempo indispensavel para juntar a sua gen-
1 Isto está em contradicção com o que di-
zem Carvalho e Pinho Leal, quando tra-
tam de Villa Nova de Gaia.
2 Temos a mesma contradição: ou D. Ma-
ria Mendes Petite seria casada trez vezes?
SAL 395
te para a guerra, no caso de que houvesse
perigo. Para este fim mandou collocar um
facho no alto da serra da Seixa, para que
se tocasse uma busina (corno de boi) no alto
d'um monte ao nascente da Revoreda, que
ainda hoje conserva o nome de Corno da
Revoreda. É tradição que a tal busina se
ouvia na distancia de trez leguas.
Arrendadas suas quintas e concluidos to-
dos os seus negocios, partiu para a cidade
do Porto, onde deu principio ao mosteiro de
S. Domingos, de Villa Nova de Gaya, com
invocação de Corpus Christi; o qual se fez
todo à sua custa. Dotou-lhe as quintas de
Barroso, que ainda hoje lhe pagam foros.
Jaz alli sepultada e oi padroeira do mes-
mo mosteiro.
A fundação do dito mosteiro foi pelos an-
nos de 1340 a 1348, reinando D. Affonso IV,
que lhe deu licença para tal fim.
D. Maria Mendes Petite, vivia de verão na
Revoreda e no inverno em Pedraça.
D. Leonor de Alvim, filha, segundo uns,
neta, segundo outros, de D. Maria Mendes
Petite, casou com Vasco Gonçalves Barroso
cavalleiro de grande qualidade.
Tinham seu solar, com sua grande torre,
em Pedraça, onde viviam de inverno, e de
verão viviam na Revoreda, onde tinham suas
casas junto à fonte.
Morreu Vasco Gonçalves Barroso, não ten-
do havido filhos, e deixou a sua meação aos
frades de Refojos de Basto, onde está se-
pultado ; e d'aqui proveiu a commenda de
Canêdo e suas annexas ou filiaes.
A viuva, D. Leonor de Alvim, casou com
o condestavel D. Nuno Alvares Pereira, é
d'este casamento nasceu D. Brites Pereira,
unica herdeira, que depois casou com D. Af-
fonso, filho natural de D. João I; e foi o pri-
meiro conde de Barcellos, e primeiro duque
de Bragança, tronco da casa reinante de Por-
tugal.
Consta que, quando D. Nuno se retirou
para Bragança, escolhéra n'esta freguezia
Salto, ou antes na povoação de Revoreda,
doze homens agigantados, que muito estima-
va, e os levara comsigo; e que todos elles o
acompanharam nas jornadas de Lisb oa. D'es-
396 SAL
tes só voltou à sua terra natal, Francisco
Delgado, da Póvoa, por haver quebrado uma
perna n'uma escaramuça.
Com a retirada de D. Nuno, ficou a casa
da Pedraça deserta; o que apressou a sua
ruina; e pelo andar do tempo os moradores
“visinhos, foram se aproveitando da pedra
para novas casas; e da pedra da torre se fez
a ponte do Arco de Baúlhe.
D.Francisco Barroso e Sousa, primeiro con-
de de Basto, homem muito esforçado e cora-
joso, de estatura fóra da marca, e grande ati-
rador de barra, morreu arrebentado por uma
ilharga, a atirar a barra, afim de ganhar ou
ficar vencedor dos Pereiras, da Taipa.
Outros dizem que morreu em conseguen-
cia d'uma arma ihe arrebentar nas mãos.
Sua familia, muito estimada e nobre, teve
uma grande contenda, por causa deste de-
sastre, com a familia dos Pereiras, no cam-
po do Sêcco, ou campo da Feira, em Basto,
que tomaria proporções assustadoras, senão
interviessem os religiosos do mosteiro ; e só
quando viram que um d'estes se aproxima-
va d'elles contendores, é que suspenderam
as hostililades e largaram as armas.
Nºesta occasião os Barrosos se abraçaram
eom a cruz e diziam que eram amigos de
Christo.
Desde esta data, acabaram as pendencias
entre estas duas casas; e os Barrosos e Pe-
SAL
Os Lopes d'esta freguezia, procedem d'es-
te fidalgo.
Francisco Gonçalves Pereira teve seus
paços nos campos de Oliveira, em Salto,!
e era senhor de todos os dizimos d'esta fre-
guezia. Tambem foi senhor da illustre casa
e mórgado da Taipa, em Basto.
Foi perseguidor da casa de S. Miguel, de
Refojos, e por esta causa se originou uma
renhida pendencia com os Barrosos, que
eram protectores da dita casa.
Na Taipa, era senhor de grandes palacios,
e por seu fallecimento, ficou sua mulher her-
deira d'elles, mas, segundo a tradição, ella
morreu coberta de bichos e os palacios se
foram arruinando.
Gil Pereira de Alacassus, fidalgo cavallei-
ro, do habito de Christo, solteiro, furtou da
côrte uma nobre senhora, chamada So-
| phia de Alvim, e com ella se aposentou em
' Cristello, limites da Ceara. Alli teve seus
| paços, e mandou fazer uma capela, dedi-
| Cada a Santa Sophia, com terreiro, onde cor-
ria cavallos e fazia escaramuças. Tinha tam-
bem uma fonte, chamada da Carvalhinha, da
qual bebeu Santa Senhorinha e a benzeu.
Teve egualmente casas e aposentos, com
terreiro de passear cavallos, na portella do
Quteiral; e casas e jardim na Revoreda, on-
de chamam o Paço, e aqui viveu com sua fa-
milia, mais de doze annos. Actualmente, ape-=
reiras se congraçaram e uniram por casa- | nas se véem os vestigios de seus palacios é
mentos. Razão pórque as armas dos Perei-
ras andam unidas às dos Barrosos.
A cruz das armas dos Pereiras é allegoria
da que foi m-ttida no meio d'elles, na occa-
sião da contenda. .
Valerio Lopes de Carvalho, casado na casa
do Espirito Santo, da cidade de Lamego, foi
senhor de grandes rendas, no logar de Salto,
ou perto, no sitio chamado Oliveira, onde
tinha suas fazendas e quintas: e ahi morreu.
Doou purte destas rendas aos religiosos
de S. Jeronymo, de Coimbra, dos quaes era
padroeiro, e vendeu os restantes foros a An-
tonio José Dias, da Revoreda, por quatorze
mil cruzados.
o terreiro, onde faziam escaramuças.
Foi valente e esforçado nas guerras do
Minho e Beira e cognominado o Cortez.
Tinha dois capellães, que o acompanhavam
sempre e se chamavam: Affonso Annes, O
Mimoso, e Pedro Gomes Uarroso. Este ulti-
mo, fui bispo de Lisboa, Coimbra e Sevilha,
n'esta ultima cidade falleceu em 1374, com
80 annos de edade.
Sua esposa (de Gil Pereira) a nobre So-
phia, não viveu na companhia dell: mais de
sete annos e dois mezes; e foi sepultada em
1! Se os campos de Oliveira só tiveram um
possuidor, de certo fui este, e não Valerio
Lopes de Carvalho.
SAL
“um dos jazigos, que estão em volta do adro
da egreja matriz d'esta freguezia.
Tiveram trez filhos, cujos nomes são :
Organtino das Montanhas, Henrique de
Seixas, e padre João de Christo e Alvim.
Organtino das Montanhas, foi um valoroso
guerreiro; e depois de enfadado do trato mi-
litar, professou n'um convento ds Castella,
chamado Malahor. Sabia muitas linguas: cal-
dêa, hebraica, siriaca e arabica. Passou ao
Oriente, sofírendo grandes trabalhos pela fé
de Christo, foi operario da vinha do Senhor.
Morreu na Syria com opinião de santo.
Assistiram sobre sua sepultura trez aves
brancas, fazendo suas musicas ao Eterno, e
desappareceram, passados trez dias.
Henrique de Seixas, religioso de S. Bento
em Bastos, fui escriptor e prégador.
Padre João de Christo, o mais novo, foi |
grande atirador de barra e grande esgrimi- |
dor, chegando, por vezes, a ter desafios |
com senhores de alto poder. Foi o causador ;
da contenda em que aconteceu o desastre
ao conde de Basto.»
Em um documento que existe no car-
torio da camara de Cabeceiras de Basto, re-
fere-se outra legenda relativamente a este
individuo, e é a seguinte:
Gil Pereira, cavalleiro professo do habito
de Christo, natural de Belem ou cercanias,
condemnado à pena de dez annos de degre-
do, foi enviado à camara de Basto, e junta-
mente uma ordem, para que a referida cama-
ra lhe assignasse a serra mais alta que hou-
vesse no seu districto, para na mesma pas-
SAL 357
des no local, a que ainda chamam Paço, e
para aqui vinha um rego d'agua do ribeiro,
a que -chamam a Melra, cujos vestigios ain-
da existem. Tinha, no Outeiral, umas pias
para lavar roupa e bebrrem os cavallos, mós
de moinhos de mão, efengenho de mostarda.
Feita pela camara a devida participação
do cumprimento do degredo, mandou el-rei,
que Gil Pereira se recolhesse a Thomar. Par-
tu do logar do Outeiral, com grande re-
ceio de ser mal recebido por el-rei (no que
se não enganou) acompanhado de alguns
familiares, e deixando outros para cultiva-
rem as suas terras.
Tendo chegado a Thomar, foi posto, por
ordem de el-rei, em custodia, até se junta-
rem os Estados do reino.
Vendo Gil Pereira co que se passava, lhe
pesou muito ter deixado suas brenhas e mat-
tos, já muito bem cultivados, e parecendo-
lhe que passaria alli muito bem o resto da
sua vida, tentou pôr-se a caminho; porém,
um seu tio, frade, sahiu-lhe ao encontro e
levou-o para o convento de Belem. Obede-
ceu, com grande repugnancia, aos desejos
do tio.
Gil Pereira doou ao convento de Belem,
um foro, das terras, que lhe tinham perten-
cido. Este foro, a principio não era certo, e
pagaram por muito tempo como senso e sem
praso, e ultimamente foram obrigados a fa-
zêr praso, como consta, segundo tradição,
do tombo velho do referido convento.
Álguns dos individuos que acompanharara
a Gil Pereira, quando se foi apresentar a
sar 0s dez annos de degredo, em que tinha | el-rei, voltaram para Basto.
sido condemnado.
Martin Agno de Alcassus, casado com Ma-
A camara, em cumprimento do que lhe | rinha Affonso, foi, depois de Gil Pereira, o
era ordenado, designou-lhe um sitio, por | primeiro habitante, casado, do logar da
baixo da serra da Seixa, a que hoje chamam
Cristello, onde passou dei annos e sete me-
zes; e alli teve capella, dedicada a Santa So-
phia, e passeio para correr cavallos.
| Ceara.
Teve um filho chamado Martin Agno da
! Charneca, que, depois de cansado da vida
militar, tomou o habito de S. Bento, no mos-
Este cavalleiro empregava seus criados na | teiro de Basto, em 4312.
cultura da terra, e parecendo-lhe que o si- |
—s
tio, onde actualmente estã o logar da Ceara, | Consta que a aldeia de Salto já era ha-
era melhor, mandou cultival-o e lhe chama | bitada no tempo dos mouros.
va as Cearas e d'aqui deriva o nome da po-
voação.
| Egualmente consta, que no cume do Cras-
Tinha aposento, cérca e outras proprieda- ! to tiveram os mouros uma cidade bem mu.
VOLUME VIII
23
358 SAL
rada, d'onde sahiam a roubar os lavradores;
e que na Portella de Coartas, tinham o seu
passeio, e alli jogavam os torneios e faziam
escaramuças.
N'uma d'estas occasiões, um capitão, cha-
mado Lux Fafes (ou Fufes Luz) sahindo d'u
ma emmbuscada, onde espreitava opportunida-
de, cahiu, com uma grande manga de solda-
dos, sobre os muros, quebrou-lhes as Coar-
tas de pau (?) (d'isto proveio onome do local),
então muito usadas, desbaratou-os e matou
muitos, que foram inteirados em um córre-
go, a que ainda hoje por isso chamam da
Paixão.
O reverendo João Barroso Pereira, da ca-
sa de Alcassús, do logar da Ceara, filho de
Gervasio Barroso e de Maria Pereira, nas-
cido em 41682, ordenado presbytero em
1709, fez um caderno, muito curioso e com
muito boa letra, das cousas notaveis d'es-
ta freguezia, copiado, em grande parte,
de bons auctores, cujas obras lhe confiava
um seu tio, que era bibliotecario no mos-
teiro de S. Migu+l, em Refojos de Basto.
Fui d'este caderno que extrahi cs apon-
tamentos d'este artigo, cuja veracidade, na
maior parte, não garanto.
Assevero que n'esta freguezia'tem havido
muitos ecelesiasticos, e grande numero d'+1
les foram abbades, reitores e vigarios. Tal-
vez se possa dizer que é a freguezia serta-
Deja, onde houve mais padres e doutores.
José dos Santos Moura (abbade de Caires).
SALTO — logar, Douro, na freguezia de
S. Romão, de Aguiar de Sousa, comárca e
concelho de Paredes.
(Vide no 4.º vol., pag 39, col. 2.2)
A uus 6 Kilometros da aldeia de Aguiar
de Souza, está a serra do mesmo nome, a
qual corre de N. aS., mas é cortada pela
corrente do Souza, que aqui se despenha
com medonho fragor, precipitando-se em
um temeroso abysmo.
No alto, é tão estreita a quebrada do rio,
japenas tem uas 3 metros, A este sitio
á o nome de Salto.
1
SAL
No plató que fica ao S., está a capella de
Nossa Senhora do Salto.
Eis a lenda d'esta Senhora:
Abaixo do templo, está um penhasco,
entre castanheiros e matto, e nºelle (penhas-
co) se vê uma lapa ou gruta, onde umas
pastorinhas das aldeias de Alvares, e Senan-
de, que por alli apascentavam os seus gados,
acharam uma imagem da Virgem.
O povo lhe construiu, junto ao rochedo,
uma ermida; e, de uma fonte, proxima,
manava, não só agua, mas tambem vinho,
azeite e vinagre, para os operarios, em quan-
to duraram as obras; e o rio os fornecia
abundantemente de peixe.
O apparecimento da Senhora, foi em dia
da Ascenção de Christo, e por isso se faz
n'esse dia a festa da padroeira.
Perto da ermida, existem as ruinas de uma
pequena casa, onde consta ter passado os ul-
timos annos da sua vida, uma devota da pa-
droeira (esta é de pedra de Ançan, e tem 07,60
de alto.) A romaria que se faz à Senhora do
Salto, costuma ser muito concorrida:
Ha n'esta freguezia minas de antimonio,
das quaes foram considerados descobrido-
res legaes, em maio de 1876, Miguel da Cos-
ta Faria, e José Carnriro de Sampaio.
SALTO DA SARDINHA— famosa cachoei-
ra do rio Douro, logo acima da Barca d'Al-
va, onde termina a subida dos barcos,
SALTO DO PASTOR — outra cachoeira do
Douro, tambem de grande celebridade. Q
Salto do Pastor, é formado por dous enor-
mes rochedos. Diz-se que tem este nome, por-
que um pastor o transpoz de um salto, sal-
vando O rio a uma altura vertiginosa, e pas-
sando assim, de Portugal para Castella.
Fica este Salto, proximo da cidade de Mi-
randa.
SALUQUIA —nome proprio de mulher á áras
be. Siguitica engenhosa.
Houve uma moura d'este nome, filha de
Bu-Hassun, senhor de muitas terras no
Al-mtejo. Saluquia, foi alcaidessa dy castel-
lo de Moura, e é della que se julga proce
der o aciual nome da villa. Vide Moura.
SALVADA-freguezia, Al-mtejo, contelho,
comarca, districto administrativo, bispado
SAL
proximo de Beja, e 75 kilometros a O. de
Evora, 140 ao S. de Lisboa.
Tem 700 fogos.
Em 1757, tinga 265.
Orago, Nossa Senhora da Conceição.
A mitra, apresentava o cura, que tinha
420 alqueires de trigo, de renda annual.
Em outubro de 14874, andando um traba-
lhador a desaterrar o pavimento de uma ca-
sa, achou, a um metro de profundidade, uma
panella cheia de moedas árabes, perfeita-
mente conservadas.
SALVADOR—freguezia, Beira Baixa, co-
marca de Idanha a Nova, concelho de Pe-
namacor (foi da mesma comarca, mas do
concelho de Monsanto—extincto) 50 kilome-
tros da Guarda, 260 ao E. de Lisboa.
Tem 190 fogos.
Orsgo, Nossa Senhora da Oliveira.
Bispado e districto administrativo de Cas-
tello-Branco.
Nenhuma freguezia do Salvador, vem no
Portugal Sacro e Profano! Esqueceu.
Ha n'esta freguezia a grande quinta do
Cerrado, que foi dos condes de Belmonte, e
é mesmo nesta quinta que está a egreja ma-
triz.
Segundo a tradição, a imagem da pa-
droeira appareceu no concavo de uma oli-
veira, é por isso se lhe deu tal invocação.
Por estar em propriedade dos condes de
Belmonte, ficaram estes com o padroado da
egreja. ad
- Quasi todos os moradores da freguezia
eram caseiros d'estes condes.
É templo muito antigo, e estando em rui-
nas, foi a S-nhora transf-rida para a egreja
de Santa Maria Magdalena, matriz da fre-
guezia da Aldeia de Juão Pires, que era en-
tão annexa a esta, e o templo da Senhora da
Oliveira foi demolido, para se construir o
actual, e n'aquella egreja esteve a Santa ima-
gem alguns annos, porque os condes se re
cusaram a reconstruir a egreja que seus as-
eendentes haviam fundado.
Os parochianos, em vista de tão inju-ta
recusa, tiveram de construir a egreja à sua
custa, mas não no local primitivo, porém.
em uma elevação proxima.
Sendo bispo da Guarda (a cuja diocese
SAL 399
pertenceu antigamente esta parochia) D. Ro-
drigo de Moura Telles, em visita ao bispado,
achou a imagem da padroeira em tal esta-
do, que a mandou enterrar e fazer outra
nova.
SALVADOR—-capella, Douro, na freguezia
de Villa-Côa do Bispo, comarca e concelho
do Marco de Canavezes.
O bispo do Porto, D. Sisnando, irmão de
D. Mouinho Viegas, resignou 0: bispado, é
foi viver no mosteiro de Villa Bôa, que o
dito seu irmão havia fundado.
Costumava o santo bispo, ir todas as sex-
tas feiras dizer missa à capella do Salvador,
que estava em um monte, no alto da fregue-
zia. Sabendo isto os mouros, que estavam na
margem opposta do Douro (esquerda) em
Maurilhe (hoje Mourilhe) e S. Martinho de
Mourvus, passaram o rio de noite, e foram
assassinar às lançadas o bixpo, quando elle
dizia missa na referida cap-lla.
Os christãos o sepult.ram em uma arca
de pedra, no mesmo logar onde foi morto,
e por baixo do supedaneo do altar.
Foi o 4.º bispo que n'esta diocese se en-
terrou dentro de um templo.
Na sua sepultura se gravou a seguiute
inscripção: é
II KAL. FEBRUARI
OBIT IN DOMINO, D. SESNANDUS,
EPISCOPUS PORTUC.
A MAURORUM TELIS CONFRIXUS,
DUM SACRUM FACERET.
ERA MLXIII.
(Aos 30 de janeiro de 1063, o bispo do
Porto, D. Sesnando, foi assassinado ás lan»
cadas, pelos mouros, quando celebrava O
santo sacrificio da missa.)
SALVADOR —quinta, Beira Baixa, nos af-
redores de Viseu. Vide Pinhanços, vol. 7.º,
pag. 46, col. 1.2
SALVADOR — fregueria, Beira Alta, con-
celho, comarca, districio administrativo,
bispado, e 1 kilometro ao S. de Viseu.
Tem 350 fogos. R
Orago. Nossa Senhora das Neves.
Dá-se a esta freguezia o nome de Salva-
dor, porque principiou por uma ermida de-
dicada ao Salvador do Mundo, mandada con-
360 SAL
struir por um fidalgo, cujos descendentes vi-
vem hoje em S. Pedro de Sul.
Esta ermida está em um sitio delicioso e
fresco, cercado de vinhas, e pomares de boa
fructa, proximo ao rio Pavia. Ha tambem
junto á ermida uma abundante fonte de ex-
cellente agua potavel.
Está em terreno que pertencia ao funda-
dor, o qual tinha por estes sitios muitas e
valiosas propriedades.
Em volta da ermida se foram construindo
algumas moradas de casas, até chegar a ser
uma vasta aldeia, que tomou o nome do pa-
“droeiro da ermida.
Esta é bonita, e tem 16 metros de compri-
do, por 6 de largo, no corpo da egreja, e a
capella mór tem 7 metros de comprido e 5
de largo. Tem altar-mór e dous lateraes, to-
dos de talha dourada.
No altar-mor, está a imagem do Salvador,
e nos lateraes, estão—em um, Nossa Senho-
ra das Neves, e em outro, Santo Antonio.
Por morte do fundador, os seus herdeiros
trataram sómente de desfructar os rendimen-
tos das propriedades, e nada quizeram saber
da capella, apezar de estarem aquellas enca-
beçadas e vinculadas n'esta,! nem cuidaram
em satisfazer os encargos de missas, a que
eram obrigados pela in-tituição do vineulo.
Com o tempo, e faltá de reparos, se foi
arruinando o corpo da egreja, e chegou a
cahir a capella-mór.
Os habitantes da povoação do Salvador,
decidiram reedificar a ermida, e na Te-
construcção, lançaram fóra o escudo de ar-
mas do fundador, e a capella ficou desde en-
tão, e sem a minima opposição do successo-
res do fundador, sendo do dominio do pu-
blico.
Instituiu-se uma grande irmandade a Nos-
sa Senhora das Neves (que ja tinha uma
confraria) para cuidar da conservação e
aceio do seu aitar, e para lhe fazer a festa,
a 5 de agosto de cada anno; mas como n'es
te dia se fazia tambem a festa de Nossa Se-
nhora das Neves, de Ranhados, que é pro-
1 Este vinculo passou depois a Diogo de
Barros, de S. Pedro do Sul.
SAL
xima, se mudou o dia para o da Natividade
da Senhora.
O bispo de Viseu, D. Diniz de Mello, con-
firmou os estatutos da Senhora das Neves,
em 1638.
Os irmãos mandaram, depois d'isto, fazer
outra imagem da sua padroeira, que collo-
caram no altar-mór.
A irmandade foi instituida com 100 ir-
mãos seculares e 12 sacerdotes, mas depois,
o numero, tanto daquelles como d'estes, foi
muito augmentado. Tinha tambem 26 ir-
mans, donzellas.
Como a nova imagem de Nossa Senhora
das Neves foi collocada junto à do antigo
padroeiro, se ficou denominando Nossa Se-
nhora do Salvador.
Em 1646, o pontifice Alexandre VII! con-
cedeu à irmandade, uma bulla perpétua com
muitas e grandes indulgencias.
Constituida a aldeia do Salvador em pa-
rochia independente, desmembrando-se da
da Sé de Viseu, foi a capella elevada a ma-
triz da nova freguezia, e ficou sendo sua pa-
droeira, Nossa Senhora das Neves.
SALVADOR DO ADRO (São) — freguezia,
Traz-os-Montes, comarca e concelho de Mi-
randella, 60 kilometros de Miranda, 400 ae
N. de Lisboa.
Tem 100 fogos.
Orago, S. Salvador.
Bispado e districto administractivo de
Bragança.
O rei D. Diniz deu foral à aldeia do Pica-
nal, na freguezia de S. Salvador da Pena,
(julgo que é esta) em Lisboa, a 11 de no-
vembro de 1290. (Gavêta 41, maço 41, n.º
30, 8 47.)
Não pude obter mais noticias d'esta fre-
guezia. Escrevi ao parocho, que se não di-
gnou responder-me!
SALVADOR DO BURGO —freguezia, Dou-
t Estou resumindo estas noticias do San-
ctuario Marianno (vol. 5.º, pag. 317) mas
aqui ha um anachronismo. Alexandre VII,
não era papa em 1646. Innocencio X foi fei-
to papa em 4644, e governou a Egreja de
Deus até 1655, e, fallecendo n'este anno, lhe
succedeu Alexandre VII. E provavel que a
bulla fosse expedida em 1656.
SAL
To, no concelho e comarca, e 2 kilometros
ao 8.0. da villa d'Arouca, e no seu formoso
valle, 44 kilometros ao S. E. do Castello de
Paiva, 14 ao S. E. do rio Douro, 50 ao O.
de Lamego, 75 ao N. E. de Aveiro, 50 ao
S. E. do Porto, 280 ao N. de Lisboa.
Tem 285 fogos.
Em 4757, tinha 222.
Orago, o Santissimo Sacramento.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Aveiro.
A abbadessa do real mosteiro de freiras
bernardas, de Arouca. apresentava o abba-
de, collado, que tinha 2003000 réis e o pé
de altar.
Dá-se a esta freguezia vulgarmente a de-
nominação de Salvador, porque o seu pa-
droeiro, até ao fim do seculo passado, foi o
Salvador do Mundo.
Officialmente, dá-se-lhe o nome de fregue-
zia do Burgo; porem o Burgo é uma peque-
na villa, que foi cabeça do concelho do seu
nome, hoje supprimido, e nunca foi fregue-
zia, mas sempre pertenceu à do Salvador.
A egreja matriz, é um templo antiquissi-
mo, mas está bem conservado, em conse-
quencia das varias reconstrucções que tem
recebido, feitas à custa das freiras da Arou-
ca, que recebiam dous terços dos dizimos.
Fica em uma elevação, donde se descobre
a maior parte do bello e fresquissimo valle
d' Arouca.
É terra muito fertil e cria muito gado de
toda a qualidade. O rio Arda, e um ribeiro,
que nasce na Forcada, atravessam e fertili-
zam a freguezia; fazem mGver as rodas de
alguns moinhos, e trazem peixe miudo.
É composta dos logares do Burgo, Eiras,
Eiriz, Sóto (ou Sótam) Milhaço, Mouta, Ma-
larézes, Aido, Frága, Corujeira, Pisão, Deve-
zas, Espinhaço de Cão, Pimenta, Villa-Nova
e Santo Antonio do Burgo.
A egreja parochial está em sitio dezerto,
não tendo junto a ella senão a residencia
parochial.
Os dizimos do pão, vinho, azeite, e san-
joaneira, eram divididos em trez partes, duas
para as freiras, e uma para o abbade.
Ha n'esta freguezia as capellas, do Espiri-
to Santo, S. Domingos, Santo Aleixô, Santo
SAL 3614
Antonio, € o oratorio de Eiriz, fundado por
D. Antonia Maria Michaella, e pertence hoje
ao gr. Jeronymo Leite Cabral Castello-Bran-
co. Vide Arouca, e Villa Mean do Burgo.
O bispo de Lamego, D. Fernando de Me-
nezes Coutinho e Vasconcellos, assignou, em
1514, um pergaminho, que se guarda au-
thentico, no cartorio do mosteiro d'Arouca,
pelo quall consta que, a instancias da abba-
dessa, D. Melicia de Mello, se uniram ao
mosteiro as egrejas, do Salvador, e Santa
Eulalia, no valle de Arouca; com auctorisa-
ção do arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Al-
meida, seu metropolitano, concedida a 15
de junho; de 1513.
SALVADOR DA BARREIRA — ermida, na
freguezia de Nossa Senhora da Luz, de Ma-
ceira, comarca, concelho, districto adminis-
tractivo é bispado de Leiria.
Foi construida pelos moradores da aldeia
da Barreira, em 1534, ficando os mesmos
obrigados à sua fábrica, como consta de uma
escriptura que está no cartorio do cabido
de Leiria.
Foi o iinfante D. Henrique (depois cardeal
rei) que, sendo prior-mór de Santa Cruz de
Coimbra, e a requerimento de João Vicente,
da Barreira, deu licença para se levantar o
altar, com obrigação do requerente dar um
calix de prata, para a ermida.
Em 1602, o bispo de Leiria, D. Pedro de
Castilho, fez mudar a capella, que estava on-
de hoje se vê o alpendre, para o local em que
agora existe.
SALVADOR DE CERVÃES—freguezia, Mi-
nho.—Viide Cervães.
SALVADOR DE LÁVRA-—Vide Lávra.
SALVADOR DO MONDEGO —— antiga fre-
guezia, Douro, que foi ha muitos annos sup-
primida, e está hoje annexa à de Monte-
Mór-Velho,
SALVADOR DO MUNDO. —Cachão extin-
to, Beira Alta, e Traz-os Montes, que se cha-
| mou tambem, Cachão do Salvador da Pes-
“queira, ma freguezia, concelho e comarca de
S. João da Pesqueira.
Tambem se lhe dá o nome de Cachão da
Valleira, ou da Pesqueira, mas o ponto da
Valleira, é o immediatamente inferior e na
mesma freguezia.
E
362 SAL
“No 4.º vol., pag. 60, col. 2.2, mencionei o
ponto do Cachão, que é o 61.º dos pontos do
rio Douro. Aqui darei sobre elle mais algu-
mas informações, por ser o logar proprio.
Fica este ponto, 120 kilometres ao N. E.
da cidade do Porto, e proximo à ermida do
Salvador do Mundo, à qual deve o seu no-
me, e era inaccessivel antes de serem rom-
pidos a fogo e a picão, os penedos que for-
mavam um temeroso cachão, ou catadupa.
A junta da companhia geral da agricultu-
ra das vinhas do Alto Douro, obteve de D.
Maria I, em 1779, a auctorisação necessaria
para cobrarem 40 réis em pipa de vinho e
outros liquidos, que fossem transportados
pelo rio Douro, até ao Porto, sendo 0 pro-
ducto d'esta contribuição applicado às obras
do mesmo rio.
Dez annos leyou a romper o rochedo enor-
me que interrompia a navegação, e, em 1792.
ja os barcos passavam este temivel ponto,
que, mesmo assim, não é isento de perigos.
Ao sopé do rochedo da margem esquerda,
mas na altura de 247 palmos (54 metros)
acima do nivel do rio, e em logar inacces-
sivel, e portanto não se póde ler de parte al-
guma, está gravada a seguinte inscripção,
na propria rocha, e em letras de bronze:
IMPERANDO D. MARIA 1,2
SE DEMOLIU O FAMOSO ROCHFDO
QUE, FAZENDO AQUI UM CACHÃO
INACCESSIVEL, IMPOSSIBILITAVA
A NAVEGAÇÃO DESDE O SEU PRINCIPIO
E DOS SECULOS DUROU A OBRA, DE
1780 A 1792.
É este ponto, o limite do Douro supe-
rior, e é sobremodo temeroso. Amontoados
de enormes rochedos ladeiam a estreita gar-
ganta que dá perigosa passagem aos barcos,
e é preciza toda a pericia dos barqueiros
para que se transponha esta medonha gale-
ria.
Se um barco se despedaçar aqui, de en-
contro à penedia, a morte dos tripulantes e
passageiros, é quasi certa, porque as ribas
são perpendiculares, sem que à raiz tenham
o mais estreito carreiro, ou espaço sufficien-
te em que osnaufragos se possam susten-
tar, em quanto esperam por soecorro.
SAL
Á entrada d'esta garganta, e no vertice de
um sérro de medonha altura, alveja o tem-
plosinho do Salvador do Mundo, que dá e
nome ao sérro e ao ponto.
É o padroeiro desta ermida, muito vene-
rado por estes sitios, e sobre tudo pelos que
navegam este rio. Os barqueiros descobrem-
se, com a maior devoção, e se encommen-
dam ao Salvador do Mundo, para que os
deixe passar a salvamento, e guardam um
profundo silencio durante esta passagem.
Segundo diz D. Jeronymo Contador d'Ar-
gote, nas suas Memorias de Braga, já no
tempo de D. João III, se fizeram tentativas,
para destruir este obstaculo invencivel; e no
reinado de D. Pedro II, aqui veio, por or-
dem d'este monarcha, Miguel de Lascal, para
fazer os necessarios estudos, e este distincto
engenheiro, no seu relatorio, disse que o
emprehendimento, posto offerecer bastantes
difficuldades, não era impossivel; mas nada
mais por então se fez.
D. João V, encarregou dos mesmos estu-
dos, Bento de Moura Aragão, que disse o
mesmo que havia dito Lascal; mas as obras
não se principiaram, por não haver quem
se quizesse arriscar a trabalhar em tão pe-
rigoso sitio.
Finalmente, no reinado de D. Maria I (co-
mo já disse) deu-se principio a tão grande
empreza, em 1780, sendo a direcção das
obras confiada ao padre Antonio Manuel Ca-
mélb, da Pesqueira, homem energico, e de
grande habilidade, mas pouco habilitado pa-
ra esta obra, por falta dos indispensaveis
conhecimentos theoricos que ella exigia.
Oito annos depois de principiada a obra,
veio da Italia, o engenheiro hydraulico, José
Maria Yola, para o coadjuvar, e, desde en-
tão, os trabalhos se fizeram com a maior re-
gularidade, e, a 22 de outubro de 1789, su-
biu 2 desceu n'este sítio, o primeiro barco»
sem perigo; porem as obras só se conclui-
ram em 1792.
Ne anno seguinte, o engenheiro das es-
tradis do Douro, José Aufluliener, ma com-
pantia de dous deputados da companhia
dos vinhos, embarcou na Barca d'Alva, é
desceu o rio, até passar o cachão do Salva-
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SAL
dor do Mundo, e attestou que era possivel
tornar o rio navegavel, desde a fronteira
hespanhola até à barra do Porto.
O alvará do 4.º de sete »bro de 1507, au-
ctorisou o copitão-mór de Moncorvo, João
Carlos de Oliveira Pimentel, ? a formar uma
companhia, por acções, para levar a effcito
tão gigantesco quanto util emprehendimen-
to.
Mas, a invasão de Junot obstou à forma-
ção da companhia, porém o conccessionario
não abandonou a empreza, e ao mesmo tem-
po que tomava parte activa na guerra con-
tra os francezes, alcançou ter, em 1809,
prompta a navegação, até à Foz do Sabor; e
em 1811, até à Barca d'Alva, serviado en-
tão já esta via fluvial, para facilitar o forne-
cimento dos exercitos alliados.
Foi isto de grande vantagem, não só para
Traz-os-Montes e Beira Alta, mas até para
os hespanhoes, e principalmente para os
que navegam desde Salamanca a Zamora.
Apezar do rompimento do cachão do Sal-
vador do Mundo, ou da Valleira, a passa-
gem d'este ponto, que é facil e sem risco
nas aguas baixas, se torna perigosissima, e
por vezes impraticavel nas enchentes do rio,
por causa da sua corrente impetuosissima
a que a estreiteza do rio obriga as aguas
que aqui refervem com fragor medonho»
aterrando o navegante, por mais intrépido
que elle seja.
Por muitas vezes, enormes rochedos se
desprendem d'estas ribas alcantiladas, e pre-
cipitando-se no rio, criam n'este logar no-
vos perigos à navegação, e teem causado
bastantes naufragios, e a morte de muitas
pessoas, sendo uma d'ellas, o barão de Fo-
r
1 Avô paterno do sr. Julio Maximo d'Oli-
veira Pimentel, feito visconde (2.º) de Villa-
Maior, em 45 de julho de 1861.
"Este cavalheiro, é o auctor do formosissi-
mo e curiosissimo livro, a que deu o titulo
do DOURO ILLUSTRADO, uma das mais elegan-
tes obras litteraria, do ultimo quartel do se-
culo XIX, impressa com o maximo luxo e
enriquecida de muitas e bellas gravuras. E,
mais do que um livro, um album primoro
"So, para adornar as mezas das salas luxuo -
sas.
SAL 363
rester, como já disse a pag. 199, col. 2.º, do
7.º volume.
Entre as rochas do Cachão, do lado do N.
(Traz-os-Montes) na margem direita, e pro-
ximo do rio, está o enorme Penêdo das le-
tras. Vide Rapa-Velha.
SALVADOR DO MUNDO—Vide no 2.º vol.
pag. 343, col. 2.º, a 5.2 freguezia antiga de
Coimbra. Aqui só acerescentarei o seguinte:
A freguezia—hojs supprimida—do Salva-
dor do Mundo, é uma das mais antigas de
Coimbra, como fica dito no logar acima ci-
tado.
A capella de que alli fallo, mandada fazer
por Guiomar de Sá, é dedicada à Santissi-
ma Virgem Mãe de Deus, cuja imagem é de
marmore, e de estatura agigantada.
Segundo a tradição, uma senhora, chama-
da Marianna de Sa, ascendente dos fidalgos
Sás, da Anadia. foi quem mandou fazer esta
imagem, e uma sua filha ou neta, a tal Guio-
mar de Sa, lhe construiu a capella, na refe-
rida egreja, e doou para a sua conservação
e aceio, muitas fazendas, ficando a fundado-
ra com 0 padroado da capella; porem os seus
herdeiros negaram-se a dar «s rendimentos
das terras, pelo que o prior da freguezia mo-
veu contra elles demanda, no fim do secu-
lo XVII
A Senhora, Mãe de Deus, era objecto de
grande devoção dos moradores de Coimbra,
em tempos antigos, principalmente dos es-
tudantes da universidade, que a Ella recor-
riam, para serem felizes nos seus exames.
SALVATERRA DE MAGOS— villa, Extre-
madura (mas ao S. do Tejo) cabeça do con-
celho do seu nome, comarca e 6 kilometros
a N. E. de Benavente, 60 kilometros ao E.
S. E. de Lisboa.
Tem 650 fogos.
Em 1757, tinha 453.
Orago, S Paulo, apostolo. Patriarchado de
Lisboa, districto administractivo de Santa-
rem.
A mitra apresentava O vigario, que tinha
60 alqueires de trigo, e 708000 réis em di-
nheiro.
O concelho de Salvaterra de Magos, é com-
posto só da freguezia d'este nome e da de
Muge.
304 SAL
Tem 1:000 fogos.
Está situada em uma vasta e fertil plani-
cie, entre o Tejo (margem esquerda) e o
Sorraia. Gado, caça, e peixe, do Tejo, do
Sorraia e do mar.
Foi antigamente da comarca de Santa-
rem.
Tem alguns palacios de boa architectura;
porem quasi todos em mau estado.
Foi fundada por el rei D. Diniz, em 1295,
e a egreja parochial, pelo bixpo de Lisboa,
D. João Martins de Soalhães, em 1296.
O seu primeiro foral, tem os privilegios
do de Santarem, mas não tem data; porem
foi-lhe dado por D. Diniz. Este mesmo mo-
narcha, lhe deu outro foral, em Coimbra, no
4.º de junho de 1295. L. 2.º das Doações de
D. Diniz, fl. 104, col. 2.2
O rei D. Manuel, lhe deu foral novo, em
Lisboa, a 20 de agosto de 4517. L. de foraes
novos do Alemtejo, fl. 108 v., col. 4.º
Tem uma grande coutada, da casa real,
com um bom palacio, fundado em 1514, por
o infante D. Luiz, duque de Beja, filho do
rei D. Manuel e de sua segunda mulher, a
rainha D. Maria, filha dos reis catholicos D.
Fernando e D. Izabel, que era viuva do
infante D. Affonso, filho de D. João II (e que
seria rei, se não morresse, da queda de um
cavallo, junto a Santarem, em 14914, na vida
de seu pae.)
Na tapada, faziam os nossos reis frequen-
tes e grandes caçadas—hoje está muito de-
teriorada.
D. Pedro II, accrescentou este palacio e
mandou fazer bellos jardins, pelos annos de
1690. Hoje está em bastante ruina.
Tem um paúl, chamado dos Magos (o que
deu o sobrenome à villa) que D. João IV
mandou abrir, pelos annos de 1650.
O rei D. Diniz fez doação d'esta villa ao
referido bispo, D. João Martins de Soalhães,
para elle e seus successores, logo em 1295.
Tem Misericordia e hospital.
Os primeiros donatarios desta villa, foram
os condes da Atalaya, e a deram ao dito in-
fante D. Laiz, recebendo em troca, a villa
da Asseiceira e outros logares.
Aqui é a luxuosa casa de campo, que foi
de Garcia de Mello, monteiro-mór do reino.
SAL
Está a freguezia na confluente do Sorraia
com 0 Tejo.
Morte do 1.º marquez de Loulé
Na noite de 28 para 29 de fevereiro de
1824, deu-se em Salvaterra um facto natu-
ralissimo, que os liberaes aproveitaram afa-
nosos, para desacreditar o sr. D. Miguel I-—
então infante—e, como lhes foi impossivel
convencer o publico, conseguiram, pelos
meios mais torpes, tornar o caso obscuro,
para que a calumnia não fosse completa-
mente destruida.
Na referida noite, houve um ensaio, no
theatro do paço real, ao qual assistiram mui-
tas pessoas da côrte, e entre ellas, o mar-
quez de Loulé, que se retirou antes de ter-
minar o ensaio,
O edificio do palacio, já então principia-
va a arruinar-se. O marquez, tomou por um
corredor que não estava illuminado, e foi
a uma antiga porta que foi construida para
dar entrada a uma sala que já não existia,
e estava transformada em saguão, e, por con-
seguinte, a porta estava servindo de janella»
rasgada.
O marquez, ou por conhecer pouco esta
parte do edificio, ou (o mais provavel) por
esquecimento, foi andando, e, como a janel-
la não tinha grades, cahiu sobre uma pilha
de entulho, que estava no saguão, e morreu
da quéda.
Quando na manhã de 291 appareceu o ca-
daver do marquez, ninguem se lembrou de
que fosse assassinado por ordem do sr. D.
Miguel; mas é certo que, como Loulé se ti-
nha posto ao serviço de Buonaparte, contra
Poriugal, desde 1807 até 1815? e ainda ti-
1 Sempre será bom notar aos meus leitos
res, que o anno de 1824 foi bissexto.
2 D. Agostinho Domingos José de Mendon-
ça, marquez de Loulé, e pae do 4.º duque
do mesmo titulo, foi condemnado à morte,
e exautorado de todos os seus titulos, hon-
ras e privilegios, por traidor à patria, por
sentença de 41 de novembro de 18114, sendo
o seu maior crime, vir em 18140 contra Por-
tugal, no exercito de Massena. )
O marquez, tinha muitos parentes e ami-
gos, na corte de D. João VI. Este monarcha.
SAL
nha por isso alguns inimigos, e bastantes pes-
soas de boa fé, attribuiram a morte a vin”
gança de algum patriota exaltado; chegando
mesmo a dizer-se que o marquez foi abafa-
do com uma manta de campino, para não
gritar, e ferido com uma choupa, que entran-
do pelo ceu da bocca, lhe sahuu - pela nuca! 1
O integerrimo magistrado, doutor Torres»
corregedor da comarca, procedeu logo a au-
to de exame e corpo de delicto, no cadaver»
e os dous cirurgiões, e as testemunhas do
auto, declararam n'elle. que o marquez não
tinha o mais leve signal de ferimento ou con-
tusão.
Mas o ministro da justiça, Lacerda, ini-
migo implacavel do sr. D. Miguel, queria
por força attribuir a um crime, a morte do
marquez, e imputal-a ao principe.
Chamou o corregedor e exigiu que elle
substituisse o auto de corpo de delicto, por
outro dictado por elle, e com as testemu-
nhas indicadas por Lacerda; mas o honrado
corregedor, recusou-se obstinadamente a
tão grande infamia.
Lacerda, para que o facto ficasse pelo me-
nos duvidoso, sumiu o auto, que nunca mais
appareceu.
Os inimigos do sr. D. Miguel I, não se con-
tentando em exagerar-lhe os defeitos, lhe
teem assacado todas as especies de calum-
nias, mas ainda nenhum se lembrou — que
me conste—de o chamar hypocrita ou des-
leal; portanto, se o sr. D. Miguel tivesse par-
te, directa ou indirecta, na morte do mar-
quez, não continuaria conservando na sua
intimidade os filhos d'elle: nem os filhos,
estava muito indignado contra o marquez,
porem os amigos d'este, conhecendo o cara-
cter bondoso do suberano, o induziram a
um pass'io, pelos arredores do Rio de Ja-
neiro, e, tendo preparado uma emboscada,
della sahiu Loulé, que, ajoelhando aos pés
de D João VI, com as lagrimas nos olhos,
lhe pediu perdão. O rei, não só lhe perdoou
e lhe restituiu todas as honras e titulos, mas
até o fez seu camarista e valido.
! Então se não queriam que elle gritasse,
eo tinham abafado com uma manta, como
lhe atinaram com a bocca, para lhe dar a
choupada, e como é que elle se pôz a geito,
com a bocra aberta (e sem gritart...) para
O ferirem alli?— Que disparate!
SAL 365
que eram uns perfeitos homens de bem, con-
tinuariam a ser amigos do assassino de seu
pae.
Ainda mais, o sr. D. Miguel, foi sempre
verdadeiro amigo do marquez, que nunca
lhe deu o mais leve motivo de desagrado ;
continuou a ser o inseparavel companheiro
de seus filhos, e esta affeição durou até aos
ultimos momentos do sr. D. Miguel.
Foi ainda este principe, que, no dia se-
guinte ao da morte do marquez, apresentou
ao rei seu pae, o filho primogenito d'aquel-
le 1, (D. Nuno José Severo de Mendonça Rô-
lim de Moura Barreto; desde então 2.º mar-
quez de Loulé, 9.º conde de Valle de Reis
etc., etc.) e D. José Maria de Mendonça, fi-
lho natural do 4.º marquez de Loulé, e de
madame Bruni.
Levou-os para a sua companhia, e toda a
gente de Lisboa viu os trez, passeiarem de
trem ou a cavallo, como intimos amigos.
Quando as intrigas palacianas obrigaram
D. João VI a mandar viajar o sr. D. Miguel,
com a obrigação de fixar a sua residencia
em Vienna d'Austria, para onde embarcou
a 9 de maio do mesmo anno de 4824, um
dos camaristas que o principe escolheu, foi
o referido D. José Maria de Mendonça.
Nem o 4.º duque de Loulé, nem um só
de seus filhos, se lembraram já mais de at-
tribuir ao sr. D. Miguel a morte do marquez,
e foram sempre dos que mais concorreram
com avultados subsidios, para a sustentação
do sr. D. Miguel, depois que a quadrupla al
liança o obrigou a deixar o throno e à pa-
tria.
Vemos hoje o nobilissimo conde de Azam-
buja e sua virtuosa esposa, assistirem ás
festas de familia, de seu primo germano, O
sr. D. Miguel II, e serem dedicados amigos
deste principe, o que muito os honra, tra-
tando-os com a familiaridade e franqueza,
propria de pessoas da sua familia.
Sendo, como incontestavelmente são, to-
dos os filhos do 1.º duque de Loulé, cava-
1 Que depois foi 1.º duque de Loulé, e ca-
sou no 4.º de dezembro de 1827, com a in-
fanta D. Anna de Jesus Maria, filha de D.
João VI, e da rainha D. Carlota Joaquina, as-
sistindo esta senhora, ao casamento.
366 SAL
lheiros da mais rigorosa delicadeza, em pon-
tos do honra, a sua amisade sincera e leal
ao principe proscripto, é, quanto a mim,
uma prova irrefragavel de que o 4.º mar-
quez de Loulé morreu de um desastre, e
não de morte violenta.
Argumentam os liberaes com o decreto
de 24 de junho de 1825, assignado por D.
João VI, no qual, entre outras culpas imagi-
narias, assacadas ao sr. D. Miguel, vem tam-
bem a historia do assassinato do marquez
de Loulé ; mas todos sabem que o rei, cer-
cado de inimigos de seu filho segundo, sem
o ter a seu lado, para o proteger, e, de mais
a mais, de animo extremamente indeciso e
pusilanime, o que queria era que os seus
ministros o deixassem em paz, € assignava
quanto elles quizessem (e isto, suppondo
que a assignatura do monarcha fosse verda-
deira.)
Tambem elle tinha assignado o decreto de
30 de maio de 1823, que accusava o sr. D.
Miguel de rebelde e inimigo do rei, e logo
em junho, por outro d-creto, faz os maiores
elogios à sua dedicação e fidelidade, e o no-
meia commandante em chefs do exercito.
Note-se que o sr. D. Miguel II, tem trata-
do os filhos do 4.º duque de Loulé, com
todas as atrenções e preferencias, como
seus proximos parentes, e que, nem o sr.
D. Pedro, quando regente, nem sua filha.
nem seus netos, quizeram reconhecer o ca-
samento d'aquelle fidalgo, com a infanta D.
Anna de Jesus Maria, apezar das instancias
feitas pelo duque, e dos serviços que sem-
pre prestou à causa liberal.
Ninguem póde aleunhar de suspeito, o
doutor A. da Silva Gaio, pois que é inimi-
go implacavel do sr. D. Miguel I; e, apezar
d'isso, no seu Mário (tomo 2.º pag. 166 e se-
guintes, da 2.2 edição) depois de pesar todos
os argumentos pró e contra, termina assim
a narração da morte do marquez de Loulé.
Posso dizer, com socêgo de consciencia, que
estou convencido de que o infante (o sr. D-
Miguel 1) o não mandou perpetrar. (O assas-
sinato do marquez.)
SAL
Uma tourada em Salvaterra de Magos
Havia antigamente em Salvaterra grandes
e esplendidas touradas, divertimentos a que
os nossos reis eram muito inclinados.
D. José I, que se dobrava a tudo quanto
queria o marquez do Pombal, nunca transi-
giu com elle quanto às corridas de touros,
com que Pombal embirrava.
Em 1762, houve uma grande tourada em
Salvaterra. Um dos mais destros cavalleiros
d'aquelle tempo, era o conde dos Arcos, fi-
lho e discipulo do marquez de Marialva, o
mais famoso cavalleiro da Peninsula.
Sahiu do curro um touro preto, tão temi-
vel, que nenhnm cavalleiro se atreveu
afrontar-lhe as iras, senão o conde dos Ar-
cos, que lhe metteu um ferro. O touro, fu-
rioso, investe com o cavallo do conde, que
cahe na arena. arrastando comsigo o conde,
que, ferido em uma perna, se não pôde le-
vantar. O touro o arremeça aos ares, e €s-
perando-o com as armas, na queda, o esma-
gou depois com as patas.
Esta desgraça aterrou o monarcha e to
dos os espectadores.
O marquez de Marialva, tinha setenta an-
nos, mas desceu com a velocidade de um
mancebo, os degraus do amphitheatro, para
vingar a morte do filho querido, ou morrer
com elle.
Um camarista o intima, por ordem do rei,
para que não desça à arena, acrrescentando
— «Sua magestade entende que o dia já foi
bastante desgraçado, e não quer perder n'el-
le dous vassallos.»
Marialva respondeu.
— « El-rei manda nos vivos, é eu vou mor-
rer. Aquell: (apontando para o cadaver do
conde dos Arcos) é o corpo de meu filho.
Está all! Sua magestade póde tudo, me-
nos deshonrar os cabellos brancos do crea-
do que o serve ha tantos annos. Deixe-ms
passar, e diga isto a el rei.
O rei amava o marquez (que era seu es-
tribeiro-mór) pelas suas virtudes e pela sua
lealdade nunca desmentida, e a resposta de
ancião o petrificou.
Quando o marquez pisava a praça, com à
coragem e sangue frio de um verdadeiro fi-
SAL
"dalgo, todos cs espectadores se levantaram
por um impulso instantaneo, e com os olhos
arrazados de lagrimas.
O marquez ajoelhou junto do cadaver do
filho, e o beijou na fronte. Desabrochou-lhe
0 talim é cingiu-o: levantou do chão a es-
pada de dous gumes, passou a capa no bra-
ço e cobriu-se; e, ecllocado no meio da pra-
ça, esperou o touro a pé firme.
O animal o investe, cégo e irado, mas o
marquez com a maior destreza lhe evita a
pancada.
Em fim, depois de um combate de alguns
momentos, a espada do marquez se embebe
até aos cópos, na nuca do touro, que dando
um temeroso bramido, cãe morto aos pés do
vencedor, que então abraçou o corpo do fi-
lho, cobrindo-o de beijos.
O rei, virando-se, viu de pé, coberto de pó,
como quem vinha de granie jornada, o ros-
to severo do marquez do Pombal, que lhe
disse:—«Temos guerra com a H-spanha, se-
nhor. É inevitavel. Vossa magestade rão pó-
de consentir que os touros lhe matem o tem-
po e os vassallvs.»
D. José, reconhecendo a justiça d'estas pa-
lavras, respondeu: -— «Fui a ultima corrida,
marquez. A morte do conde dos Arcos, aca-
bou os touros reaes, emquanto eu Tei-
Dar.»
«Assim o espero da sabedoria de vossa
magestade (disse Pombal.) Não ha tanta gen-
te nos seus reinos, que possa dar-se um ho-
mem, por um touro. Vossa magestade aucto-
risa-me a hir em seu nome consolar o mar-
quez de Marialva?» —«Vá! É pae. Sabe o que
ha de dizer-lhe?»— «O mesmo que elle me
diria a mim, se o meu Henrique estivesse
como está o conde dos Arcos.
Pombal chegou à praça, e, como era mais
alto: do que o marquez, o levantou nos bra-
ços, e, com voz meiga e tri-te, lhe disse: —
Senhor marquez, os poriuguezes como v.
ex.', são para darem exemplos de grandeza
d'alma, e não para os receberem. Tinha um
filho, e Deus levou lho. Altos juizos Seus. A
Hespanha declara -nos gu-rra, e El rei, meu
amo e meu senhor, precisa do conselho e
da espada de v. ex.
D. José cumpriu a palavra dada ao seu
SAL 367
primeiro ministro, e no seu reinado, não hou-
ve mais touradas em Salvaterra.
Recommendo aos meus leito-
res o bello livro do fallecido
escriptor, Luiz Augusto Robel-
lo da Silva, intitulado Contos e
lendas ; e cujo ultimo conto é
— Ultima corrida de touros, em
Salvaterra.
Foi d'elle que resumi o que
deixo escripto com respeito à
morte do conde de Arcos.
Os constantes e diuturnos temporaes do
inverno de 1876 para 1877, foram terriveis
para muitas povoações de Portugal, e prin-
cipalmente para as das margens do Téjo.
Em Salvaterra, a enchente chegou até ao
meio da rua de S. Paulo, invadiu a egreja da
Misericordia, e muitas casas.
É sempre com o maior prazer, que men-
ciono n'esta obra as acções dignas de me-
moria, praticadas por benemerilos filhos
d"esta nossa terra.
Por isso copio do n.º 3:5914 do Diario Po-
pular, de 15 de dezembro do 1876, o que se
segue.
Peço desculpa aos meus leitores, da ex-
tenção do artigo, mas nada lhe pude resu-
mir.
Eil-o :
«Ágora que as communicações se acham
restabelecidas, vão-se recebendo informações
mais completas ácerca das peripecias e dos
desastres das ultimas cheias.
Eis o que temos de Salvaterra :
No dia 6 e noite de 7 do corrente, no dia 7
e noite de 7 para 8 atê ás 5 horas da manhã,
d'este ultimo dia, foi a maior força e o maior
perigo da enchente, envolvendo as povoa-
ções do Reguengo, Vallada, Alqueidão, etc.
Ás 5 horas da madrugada de 8, começou
a vasante da cheia e o maior perigo ia pas-
sando.
No dia 6 de madrugada todos os mariti-
mos de Salvaterra, com excepção dos de um
barco, se pozeram às ordens do sr. José Vi-
cente da Costa, proprietario e negociante era
Salvaterra.
368 SAL
Este cavalheiro e seu filho, o sr. José Vi-
cente da Costa Junior, prestaram valiosos
serviços, como se vae ver da narração.
O sr. José Vicente da Costa, mandou logo
partir um barco para Vallada, com ordem de
salvar, primeiro gente e depois gado e ce-
reaes, no que muito se lidou e com bom
exito.
Ás 10 horas, todo o campo era um mar,
o vento soprava rijo e chovia a torrentes.
Queria partir o barco do João d'Azambu-
ja, mas só tinha dois homens.
O sr. José Viernte da Costa, à vista do po-
vo acrummulado no caes, oferecia tudo para
apparecerem mais tripulantes, mas ninguem
se movia. Então o sr. José Vicente da Costa
Junior saltou para dentro do barco, despiu-
se, descalçou-se e foi servindo como maritimo.
Com este auxilio o barco largou, e uma
hora depois chegava ao Álqueidão, não sem
ter corrido perigo de sossobrar ao desem- |
bocar da valla de Salva.erra no Tejo.
O barco destinado pelo sr. José Vicente a
soccorrer o Alqueidão, largou ferro na Ta-
pada. Então o sr. José Vicente da Costa Ju-
nior, encostado a um pau com que ia son:
dando o terreno inundado, mettendo-se na
agua e no lodo, foi até o povo de Reguengo,
avisar de que em' breve chegaria em seu
soecorro outro barco mandado de Salvater-
ra por seu pae. Aquella pobre gente chora-
va e abraçava o excellente rapaz, que com
perigo de vida ia levar-lhe palavras de es-
perança.
Infelizmente a cheia crescia e o barco an-
nunciado não podéra ainda chegar.
Um homem chamado José Zêco, apontava
chorando para o celeiro onde tinha 4 moios
de trigo, unicos haveres da sua pobre fami-
lia, e que a agua começava a invadir,
O sr. José Vicente da Costa Junior, cor-
reu ao barco e a muito custo conseguiu ar-
ranjar sacos para 3 moios de trigo.
Ensacou-se rapidamente o cereal, e, quan-
do acabou esta faina, alagou-se todo o cel-
leiro.
Neste ponto começaram novastribulações,
porque a gente do Reguengo queria o bar-
|
co para salval-a e ao mesmo tempo era ne-
cessario accudir ao Alqueidão.
SAL
O barco vindo de Salvaterra, não podia
transpor a Tapada, nem os do Alqueidão
podiam refugiar-se nella por falta de lan-
chas.
Infelizmente no Reguengo só havia duas
lanchinhas, que andavam atarefadas em ti»
rar mobilia das casas alagadas e aluidas. A
final o sr. José Vicente da Costa Junior con»
seguiu arranjar uma lancha, e metteu-se
nella, levando comsigo um homem que no
Alqueidão tinha a mulher.
O fragil barco partiu ao longo da Tapada,
e luctou duas horas contra o mar, a agua
que se despenhava da Tapada e o vento. A
final os valentes tripulantes conseguiram pôr
a lancha sobre a Tapada, d'onde já se ouvia
o choro da gente refugiada na casa do Al-
queidão.
Envolvidos pela agua, derrubados muitas
vezes, ora nadando, ora agarrando-se ás oli-
veiras, conseguiram o srs. José Vicente da
Costa e seu companheiro chegar à casa do
Alqueidão, onde foram recebidos com incri-
vel alvoroço.
O sr. José Vicente do Costa, trouxe d'alli
3 barcadas de gente, que foi largar sobre a
Tapada, rodeada d'agua, e onde só havia a
largura livre de 3 palmos.
Na 4.º barcada vieram mulheres. Na casa
só ficaram o administrador, que protestava
não largal-a em quanto não abatesse, dous
guardadores e uma irman do administra-
dor.
No sobrado da casa, estavam 100 moios de
trigo, que o administrador para alli mandá-
ra transportar.
O rio enchia mais, chovia a cantaros, e o
vento era bastante forte.
N'este apuro o sr. José Vicente da Costa
Jurior, transportou para o barco a gente
que estava sobre a Tapada, e navegou para
o Reguengo.
No caminho avistou um barco com ban-
deira de soccorro. Era o barco do Côdea,
que o sr. José Vicente da Costa mandára de
Salvaterra para Vallada.
O barco, atulhado de gente e trigo, enca-
lhára n'um comoro e estava em perigo de
sossubrar.
O sr. José Vicente da Costa Junior, ali-
SAL
viou-o de 8 moios de trigo, com o que con-
seguiu safar se,
Depois dirigiu-se o sr. José Vicente para
o Reguengo, e acabou de carregar o.barco
com gente d'aquella terra, e mandou-a para
Salvaterra, d'onde a esse tempo já tinham
chegado mais dois barcos com saccos para
d0 moios, destinados ao trigo de Joaquim
Martins, que tinha o celleiro um metro fóra
d'agua.
O sr. José Vicente entendeu melhor não
seguir exactamente as ordens de seu pac, e
deu 40 moios de saccos a Pedro Gaspar, que
tinha 50 moios de trigo só 0» (04 fóra da
agua. Os restantes 10 moios de saccos foram
distribuidos pelos pobres para salvarem os
seus cereães.
Finalmente ainda chegou mais um bareo
mandado pelo sr. José Vicente da Costa Se-
hior, que tambem enviára já trez para Val-
lada.
A agua ameaçava rebentar a tapada que
protege o Reguengo.
Os dois barcos que ficaram no Reguengo,
passaram alli a noite, e deram abrigo ao po-
vo que receava ficar nas casas.
A bordo de um d'elles, uma mulher deu
à luz uma creança.
Os vapores do governo chegaram no dia
8 de manhã, depois de passado o maior pe-
Tigo, que foi nos dia 6 e 7. Estes vapores po-
diam acudir a Vallada, que fica à beira do
Tejo, porem não ao Reguengo, que está as-
sente no meio do campo.
Alem do que fica dito, O gr, José Vicente
da Costa tem trabalhado dia, e noite, obrigan-
do à partir os barqueiros, que temiam o tem-
po e a força da corrente.
Nos seus celleiros tem abrigado mais de
900 moios de cereaes de diversos.
Mandou 200 pães para o Reguengo, fari-
nha e milho para Vallada, e de accordo com
0 sr. João Luiz Neto e outros cavalheiros de
Salvaterra, deu abrigo à gente fugida de
Vallada, Reguengo e Alqueidão.
Durante o maior perigo não se arredou do
caes de Salvaterra, ora fazendo partir os bar-
cos, ora desamarrando-os com as suas pro-
prias mãos, ora apressando o carregamento
de 30 carros que tinha juntado para a des-
SAL 369
carga irapida dos barcos, afim destes pode-
rem dee novo partir em soccorro dos inun-
dados.
O sr.. José Vicente da Costa Junior, esteve
dous dlias sem comer, e quatro dormindo
encharccado dentro dos barcos atulhados de
gente e gado.
No diia 9 foi dentro d'uma lanchinha de
dous palmos de largo, a Vallada, prevenir
os lavrradores de que na bocca da valla de
Salvaterra estavam cinco barcos para os soc-
correr, mas que não podiam navegar por
falta des vento.
D'allii partiu na fragil casca de noz, para
bordo «do Pescador, cujo mestre mostrou q
maior :zelo, guiou o navio até à bocca da
valla, e uma hora depois estava com os bar-
cos em Vallada.
Finalimente, no dia 11, pedindo-lhe um
pobre ssingeleiro que salvasse a sua junta
de bois: que morria de fome na tapada, foi
n'um bearco buscal-a.
O sr.. José Vicente da Costa e seu filho, teem
na sua consciencia, nas bençãos dos povos
de Valliada, Reguengo, Porto de Muge e Al-
queidão», a melhor recompensa dos relevan-
tes serviços, que com perigo de vida e pre-
juiso da sua fazenda prestaram.
Mas aos poderes publicos cabe o dever de
lhes darem uma manifestação de reconheci-
mento macional por tantas vidas e tantos ha-
veres deedicadamente arrancados à furia dos
elementtos.
No Ciorreio da Tarde, n.º 1:588, de 9 de
janeiro «de 4877, se lé o seguinte:
«Tramscrevemos, com a devida venia, de
um colleega da capital, parte de uma corres:
pondenctia de Salvaterra, que manifesta bem
ao vivo; o estado actual dos campos por
alli.
«Á cassa de Cadaval teem-lhe morrido, se-
gundo me consta, quarenta e tantas cabeças
de gado) cavallar, e note-se que esta casa,
sendo a mais opulenta do districto, não lhe
faltam pastagens e recursos; mas as melho-
res estão) todas inundadas, restando lhe ape-
nas aremeiros e charnecas onde necessaria-
mente 0ss animaes comem muita areia junta
370 SAL
com a pouca herva que apanham, é daqui
lhe sobrevem dôres que os matam em puu-
cas horas.
«E não é só a este lavrador que isto acon-
tece; está acontecendo a quasi todos.
«Em resumo, temos os gades em parte
cançados, 08 pastos a acabarem-se e as ter-
ras cheias de agua; de modo que as que
se poderem tapar só em fim de fevereiro ou
março podem ser fabricadas!
«Os cofres abertos para receberem as col-
lectas e nem ao menos nos concedem a mo-
ratoria, com que o thesouro pouco per-
dia.
«E ainda mesmo que não nos concedam
a moratoria, de certo as contribuições não
podem entrar todas no cofre até fevereiro,
porque ainda que p-nhorem e façam quan-
ta tyrannia lhes parecer, de certo que em-
quanto não chegar a colheita, não ha-de es-
tar feita a arrecadação.»
Em setembro de 1877, foram arremata-
dos, na repartição de fazenda do districto de
Lisboa, os bens pertencentes à extincta com-
menda de Salvaterra de Magos, da qual foi
ultimo administrador, o sr. conde da Ribei-
ra Grande, do conclho de Salvaterra.
Em 4379, renova-se a guerra com Cas-
tella.
O principe de Cambridge, vem com um
exercito inglez, em soecorro de Portugal, e
justo a casar com a infanta D. Beatriz, filha
de D. Fernando I, e de D. Leonor Lelles de
Menezes.
Esta guerra, desastrosa para ambos os
paiz-s, continuou até 1382.
D. Fernando, de Portugal, e D. João I de
Castella, estavam entre Elvas e Badajoz, de-
cididos a darem batalha; mas vieram à con-
certos, e a 2 de abril d'este anno, foi assi-
gnado o tratato de Salvaterra de Magos, te-
gundo o qual, o rei castelhano casou com
a dua D. Beatriz, e a guerra terminou.
O principe de Cambridge, foi para Ingla-
terra com as suas tropas, com razão, des-
peitado pela falta de palavra, do rei portu-
guez.
SAL
Este casamento violava: o
determinado nas côrtes de La-
mêgo, e por causa d'elle, per-
deriamos então a nossa autho»
nomia, se não fosse a bravura
do joven Mestre de Aviz, e a
intr-pidez e lealdade do ainda
mais joven1 D. Nuno Alvares
Pereira, e da fidelidade e co-
ragem dos portuguezes, pela
causa da patria.
O casamento do rei caste-
lhano com D. Beatriz, reali-
sou-se a 14 de maio de 1383.
» Magos, é— com pequena corrupção—a pa-
lavra persa, Mojus, que significa philoso-
pho.
A religião, ou seita, dos magos (que ado-
ravam o fogo) foi introduzida na Persia e na
Chaldeia, por Zoroastes ou Zoroasto, e du-
rou 400 annos.
Omar HI, kalifa dos árabes, a extinguiu.
Gerardo João Vossio, porém, deriva a pa-
lavra mago, do hebraico mahgin, do verbo
haja, que significa buscar, examinar.
Talvez que o sobrenome de Salvaterra,
não procêda nem do persa, nem do chaldeu;
mas do antigo portuguez mógo, que signifi-
ca marco, que divide uma propriedade ou
territorio, da confinante. Acho isto mais ve-
rosimil.
SALVATERRA DO EXTRÊMO— villa, Bei-
ra Baixa, comarca e concelho de Tdanha No-
va (foi cabeça do concelho do seu nome, é
da mesma comarca) 85 Kilometros da Guar-
da, 240 ao E. de Li boa. 300 fogos.
Em 1757, tinha 4114 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Conreição.
Bispado, districio administrativo e 25 Ki-
| lometros à E. de Castello Branco.
(Foi do bispado d+ Guarda.)
O rei, plo tribunal da mesa da conscien-
cia e ordens, apresentava 0 vigario, que ti-
nho 404000 réis e o pé d'altar.
1D. João 1 (o Mestre de Aviz) tinha em
1383. 25 annos, pois nascêra a 44 de abril
de 1358—D. Nuno, tinha apenas 23 annos;
mas n'estes dois heroes, a bravura suppria
a edade.
SAL
Dá-se a esta villa o nome de Salvaterra
do Extrémo, não só para a distinguir da an-
tecedenie, mas porque, com efeito, está so-
bre a margem direita do rio Elgas, que a:
separa da Hespanha.
Ainda nos fins do seculo passado, havia
um curato chamado Monfortinho, contiguo
a esta freguezia.
Era uma pequena aldeia de 5 fogos.
Foi annexa a esta.
Vide Monfortinho.
Fica Salvaterra a 6 kilometros da villa de
Sarça, na Extremadura hespanhola.
O seu concelho, que foi supprimido por
decreto de 24 de outubro de 1855, tinha 1:000
fogos.
Tem misericordia, e é terra fertil, ainda
que de clima excessivo.
Foi praça de guerra; cercada de muralhas,
com seu “castello, mandado construir pelo
rei D. Diniz, em 4290.
Já se vé que está tudo desmantelado.
A nascente Jaguas mineraes, chamada
Fonte Santa, fica perto da villa, e no distri-
eto da supprimida freguezia de Monfortinho,
onde já fica mencionada.
D. Sancho II lhe deu foral, na Guarda, a
2 de maio de 4229.
(Maço 3 de foraes antigos n.º &-—e no Li-
ero 1.º de Doações, do rei D. Diniz, fl. 76,
col. 2.2)
D. Manuel lhe deu foral novo, em Santa-
rem, no 4.º de junho de 1510,
(Livro de foraes novos da Beira, fl. 27 V.,
col. 22)
Em 24 de julho de 4840, houve aqui um
Pequeno combate, entre as tropas poriugue-
38, e as francezas de Massena.
Em junho de 1876, foram estas terras in-
vadidas por uma nuvem de gafanhotos, que
fizeram graudes devastações nos campos e
pomares.
Para se fazer ideia aproximada da gran-
de quantidade de gafanhotos que assolaram
estas terras, basta dizer, que, no dia 2 de
junho, 30 pessoas, em 45 minutos, apanha-
ram 60 alqueires d'elles)
SAL 3714
Não foi só aqui a invasão destes terriveis
insectos: quasi todo o districto administra-
tivo foi invadido, vendo se o general da di-
visão obrigado a empregar 200 soldados no
seu exterminio.
Nos concelhos d'Elvas, Salvaterra do Ex-
tremo (hoje Idanha Nova) e Figueira de Cas-
tello Rodrigo, foram então apanhados 44:400
kilogrammas de gafanhotos |
Veiu esta praga, da Extremadura hespa-
nhola (e que cousa bôa nos virá de Hespa-
pha). Os castelhanos lhe chamam langos-
tas.
Ainda no dia 24 de maio de 1877, torna-
ram Os campos, é até mesmo as terras in-
cultas, de Salvaterra de Magos, Figueira de
Castello Rodrigo, Escarrigo, Almofala. Mat- |
ta de Lobos, e ouiras freguezias d'esta re-
gião, a ser invadidas por outra praga de
gafanhotos; porém a freguezia que mais sof-
freu, foi esta de Salvaterra do Extremo.
No referido dia 24, foram apanhados 1:291
kilogrammas destes insectos — no dia se-
guinte, 2:208 e meio kilogrammas—e no dia
23, 2:232 e meio kilogrammas.
Foram pagos aos apanhadores, a razão de
40 réis o Kkilogramma, o que somou em
2295280 réis, pois o total da apanha, foi de
9:732 Kkilogrammas pagos.
Alem d'isto, foram apanhados gratuita-
mente, pelos lavradores da freguezia, 2:000
kilogrammas, o que faz a totalidade de
7:732 kilogrammas. '
Os gafanhotos
Pertencem, provavelmente, os que inva-
diram o nosso paiz, à especie Grillus migra-
torius, de Linneu, La Sauterelle de passage,
de Cuvier.
Foi encontrada esta especie por Barrow,
no sul d'America, cobrindo um espaço de
duas milhas quadradas, e é mencionada por
um correspondente de Kirby, e Spence, O
qual em Mahrata, região da India, viu uma
columna de gafanhotos de quinhentas mi-
lhas de extensão, que obscureciam o sol,
como se houvera um eslipse.
O habito d'estes insectos é voarem n'uma
3172 SAL
columna extensa e cerrada, abaixando-se à
terra para se alimentarem, ou cahindo ex-
haustos de forças.
No mar, formam um arraial imenso, flu-
cluante, elevando-se em montões, formados
pelos es orços dos mais fortes para cavalga-
rem sobre os mais fracos.
Diz João de Barros, no livro terceiro da
segunda Década, capitulo quarto, que com
as trovoadas de Guiné, se criam tantos ga-
fanhotos, que cobrem o céo, e abrazam a
terra por onde passam; que no interior da
Africa algumas vezes se veem nuvens de ga-
fanhotos, que cobrem o espaço de quasi oi-
to leguas de caminho.
Em algumas nações, em pousando os ga-
fanhotos, os matam, é seceos ao sol, em gran-
des medões, os guardam para mantimento,
e que n'aquelles desertos, não chovendo ou-
tro manná áquella triste gente, tem por
grande praga a falta d'esta praga.
Diz o mesmo João de Barros, que passan-
do uns capitães, por umas povoações alem
da cidade de Dabul, pelo rio acima, acharam
muitas jarras cheias de gafanhotos em con-
serva, como vianda muito estimada dos mou-
ros, que se leva como mercadoria do Estrei-
to de Meca para fôra.
Na Relação do novo caminho, que fez por
terra e mar, vindo da India para Portugal,
diz o padre Manuel Godinho, descrevendo
Baçorá, no capitulo XVI:
«Tem esta cidade muitas ruas cobertas
por cima ao'modo turqueseo, nas quaes es-
tão as tendas dos officiaes e lojas de merca-
dores.
Na sua praça foi a primeira vez que vi
vender gafanhotos, e tambem vi que se le-
vavam às rebatinhas; cosem-nos em agua e
sal, e não lhes botam fóra mais que as azas
e os pés: quando navegam, levam-nos por
mantimento, seccos em jarras.
Eu os comi, e achei serem muito bons pa-
ra quem não tem outra cousa, como S. João
Baptista não tinha no deserto.»
Diz Cuvier, que a especie Gryllus migra-
torius é originaria da Tartaria, e arriba, al-
gumas vezes, em columnas innumeraveis,
aos paizes orientaes da Europa, como Polo-
nia, Hungria, e até mesmo à Allemanha.
ca de Armamar, concelho de Mondim da
Beira, 10 kilometros de Lamego, 330 ao N.
SAL
SALZÉDAS—freguezia, Beira Alta, comar-
de Lisboa, 400 fogos.
Orago, o SS. Nome de Jesus.
Bispado de Lamego, districto administra-
tivo de Viseu. é
Não vem no Portugal Sacro e Profano,
porque em 1757 ainda não era freguezia,
mas pertencia à chamada Burgo de Salzê-
das, que tinha então 70 fogos.
O D. abbade do mosteiro de Salzédas, |
apresentava O cura, que tinha 608000 réise |
o pé d'altar. |
É povoação antiquissima, e foi couto. |
Tem um foral velho, sem data, que se acha
na Torre do Tombo, na Gavêta 9.2, maço 40,
n.º 27, fl. 4, no principio.
Sabe se apenas que esta carta de foral, é
do principio da monarchia, e lhe dá o nome
de Salzéda, é é este o que se vêem todos |
os documentos antigos.
Em 4152, D. Affonso Henriques, fez doa-
ção do eouto de Argeriz (que depois foi de
Salzêdas) à Fernandus Cativus, curiae dapi-
fer (mordomo-mór da casa real.)
Em 1135, fez o mesmo D. Affonso Henri-
ques, doação de todos os direitos reaes de |
varias terras, ao mosteiro de Salzedas.
Em 1164, D. Mendo, bispo de Lamego,
por escriptura publica, fez renuncia dos dí-
reitos episcopaes do couto de Salzédas, ào
mosteiro d'esta freguezia.
Sendo já abbade de Salzédas, D. João Nu-
nes, em 4155, entregou D. Thereza Affonso,
mulher de D. Egas Moniz, este mosteiro a
frei João Cirita, e a todos os seus frades que
alli quizessem viver, segundo a regra de S.
Bento.
Frei João Cirita, morreu no mosteiro de
S. Christovão de Alafões, e no seu tumulo
está a seguinte inscripção:
JOANNES ABBAS CIRIT.
“ REXIT MONASTERIUM S. JOANNIS,
S. CHRISTOPHORI, SALZEDAE, S. PETRI.
CLARUS VITA, CLARUS MERITIS,
CLARUS MIRACULIS, CLARET IN GOELIS.
OBIT X KAL. JANUARI
E MCCII. É
1 Anno de Jesus Christo, 117
a
SAL
Em 4203, Miguel Mendes, e sua mulher,
Tóda Paes, para remedio de suas almas, de-
ram ao mosteiro de Salzedas, uma pitança
annual, em dia de S. Martinho, a saber —
LXX peisotas (pescadas) G (100) et panibus
(et fiant tali mensura, dest, est faciant V
(5) panes ex una taliga): una reste de allia:
una alqueire de manteiga: G. (100) ova. Et
post obitum mostrum filij nostri supradictum |
Censum persolvant Fratribus Salzedae. Et
hoc relinquimus eis. unde illum Censum ha-
beant, + idelicet, illum campum, etc.
(Livro das doações do mosteiro de Salze-
das.)
Do mesmo livro de doações consta que,
em 1209, D. Elvira Égas (ou Viegas) doou a
este mosteiro, quatro casaes em Breteande,
para que, todos os annos— Ex fructu ipso-
rum Casalium Diem meum Anniversarium
faciat Prior Salzedae Refectorium Monacho-
rum, et Conversorum sufhcientissime.
Esta mesma D. Elvira, deixou outros ca-
saes que tinha em Canellas do Douro, junto
a Luzim, a este mosteiro, applicados só para
os usos da cosinha; declarando, que estariam
sempre na administração do cellareiro, sem
que os abbades os podessem applicar para
outra cousa.
Em 1227, Fernão Pires Ferreiro, esua mu-
lher, D. Agueda, deixaram ao mosteiro, a
pitança de 17 teigas de pam cosido, 20 peixo-
tas, e dois módios de vinho.
D. Chámoa (Chama, e tambem—em latim
—Flamula) Gomes, deixou no seu testamen-
to, feito em 1258, varias rendas a este mos-
teiro.
Eis uma verba do tal testamento— Se qui-
zer ser Zaadona (senhora, livre, fórra, in-
genua) Christiana, que a baptizem, e lhe dem
de vestir, e lhe fação bem.
Referia-se esta clausula, a Elvira Vas-
ques, uma menina moura, que fôra escrava
de D. Chámoa, e que ella forrava no seu
testamento que ainda em 1834 existia, no
cartorio do mosteiro.
Menciono estas doações por
serem das mais antigas e cu-
riosas, pelos termos de que se
servem os doadores; mas, de-
pois d'isto, muitas e valiosas
VOLUME VIII
SAL 373
doações foram feitas ao mos-
teiro; porém o que se não sabe
é quem hoje cumpre os bens
d'alma, por essas doações im»
postas aos frades, e que elles
sempre cumpriram religiosa-
mente...
Este mosteiro era o maior eo mais rico
de monges portuguezes, depois do de Alco-
baça.
Constava de quatro dormitorios, forman-
do um quadrado, tendo no centro um jar
dim (talvez o melhor da provincia) com um
bello chafariz, no meio de um vasto e for-
moso tanque.
Os claustros eram de abobada, tendo por
cima um eirado descoberto, é por baixo, as
sepulturas dos frades.
Havia outro claustro para 0 S., com va-
randas de madeira, destinado para os hos-
pedes.
Tinha botica, celleiros, tulha, cosinhas e
mais officinas, assim como vastas cavallari-
ças.
Este edificio venerando, está desmantella-
do, excepto o dormitorio que fica por cima
da sachristia da egreja, os claustros e varan-
das, e à casa do celleiro, na qual vivem os
herdeiros do comprador desta casa e cêr-
cas.
Do vasto e formoso jardim, já nem vesti-
gios ha.
A egreja está menos mal reparada, por
que é—já desde o tempo dos frades—matriz
da freguezia.
E' um magestoso templo, como não ha
muitos no reino, construido em fórma de
cruz, com trez altas e amplas naves.
Tem 14 altares,ou capellas, alem do altar-
mór, que é elegante e bem esclarecido, ten-
do capacidade para 60 lumes.
O retabulo do camarim, representando a
Assumpção de Nossa Senhora, e attribuido
a Paschoal, é uma obra prima de pintura.
Ainda existe na capella-mór, o coro dos
frades, com duas ordens de cadeiras, de op-
| timo pau sancto, e excellentemente lavra-
das.
Andava em construeção o frontespicio da
egreja, quando Junot invadiu Portugal, em
24
374 SAL
1807; pelo que as obras pararam, e nunca
mais, até hoje, se concluiu.
As cercas do mosteiro que foram vendi-
das depois de 1834, são duas, e muito fer-
teis, por serem regadas por um ribeiro, o
qual tambem faz mover as rodas de alguns
moinhos, e um lagar de azeite.
No territorio da freguezia, viviam os se-
nhores; mas no couto (que era o mosteiro,
jardim e cêrcas) só viviam os monges e os
seus creados e operarios.
Os monges viviam do seu trabalho, ca-
vando, lavrando, semeando e fazendo todos
os mais serviços agricolas, como consta das
suas chronicas.
Fóra destes trabalhos, entregavam-se ao
retiro do mundo, à oração e penitencia, e
nunca comiam carne.
O D. abbade do mosteiro, apresentava 0
parocho d'esta freguezia, e os de Ucanha,
Villa Chan de Cangueiros, Simbres, e Gran-
ja Nova, tendo em todas estas freguezias ju-
risdicção ordinaria.
Antes de ser elevada a matriz a egreja do
mosteiro, a egreja parochial era uma capel
la, dedicada ao Santissimo Nome de Jesus,
e tinha um só altar.
As aldeias d'esta freguezia são:
Meixédo, Cortegado, Murganheira, Burgo
(o mosteiro) e Villa Pouca.
Ha n'esta freguezia, as capellas, do Salva-
dor, Santa Barbara, São Martinho, Santa
Luzia, Santo André, Santo Antonio, e Espi-
rito Santo.
Esta freguezia é muito abundante em tri-
go, milho, painço, centeio, azeite, vinho é
castanhas.
Cria muito gado, e nos seus montes ha
boa quantidade de lebres, coelhos, e perdi-
z8s.
O rio Tôrno, banha esta freguezia, corren-
do de E. a O.
Foi D. Fernando, D. abbade do mosteiro
de Salzêdas, que, em 1427, construiu, à cus-
ta da ordem, a ponte de cantaria sobre o
Varosa, e a torre à entrada da villa de Uca-
nha.
SAM
Alem de D. Vasco Coutinho, conde de Ma-
rialva, e mariscal do reino, e de sua viuva,
D. Maria de Souza, aqui foi sepultado, D.
João Coutinho Gomes, tambem conde de Ma-
rialva, valente batalhador, que foi feito em
postas, pelos mouros, na tomada de Arzilla,
na Africa, em 1460.
Nºesta infeliz guerra, o rei (D. Affonso V)
perde a flor do exercito portuguez.
O mosteiro de Salzêdas, é quasi contiguo
ao de S. João de Tarouca, da mesma ordem,
e eram filiaes do de Claraval.
E” natural d'esta freguezia, o sr. Silvestre
d'Aguiar Bizarro, distincto professor de mu-
sica, residente no Porto, onde rege a 1.º
musica de capella, desta cidade.
E' um perfeito homem de bem, é cava-
lheiro geralmente bemquisto, pelas suas
apreciaveis qualidades.
Tudo o mais que se não achar n'este arti-
go, com respeito a Salzêdas, deve procurar-
se no artigo Burgo e Salzêdas, vol, 4.º, pag.
506, col. 1.2
SAMAIÕES e OUTEIRO JUSÃO— fregue-
zia, Traz-os-Montes, comarca e concelho de
Chaves, 90 kilometros ao N.E. de Braga, 455
ao N. de Lisboa.
Tem 140 fogos.
Em 4757, tinha 96 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Expectação.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Villa Real.
O vigario, collado, do Salvador, de Villar
de Nantes, apresentava o vigario, ad nutum
que tinha 708000 réis e o pé d'altar.
Vide Outeiro Jusão.
SAMÃO e GONDIÃES—freguezia, Minho.
Vide Gondiães e Samão.
SAMARITANA — vide Beato e Xabré-
gB8..
SAMBADE—freguezia,Traz-os-Montes, co-
marca de Moncôrvo, concelho d'Alfandega da
Fé (foi do mesmo concelho, mas da extin-
cta comarca de Chacim) 120 kilometros ao
N. E. d- Braga, 410 ao N. de Lisboa.
Tem 280 fogos.
Em 1757, tinha 313 fogos. 1
1 Sambade tem actualmente 205 fogos, Co=
SAM
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Bragança.
O real padroado apresentava o reitor, que
tinha 1108000 réis e o pé d'altar.
Vide Salamonde.
A esta freguezia estão annexas as de Co-
véllas e Villa Nóva.
Foi abbade d'esta freguezia, Manuel de
Souza Moreira, academico de numero, da
academia real de historia.
Era natural do Mogadouro, e falleceu aqui
em Sambade, em 1722.
Escreveu o— Theatro historico, genealogi-
co y panegyrico: erigido a la immortalidad
de lu Excellentissima casa de Sousa. Dedi-
cale al Exmo Sr. Carlos José de Ligne, mar-
quez de Arronches, Senescal de Huynaut,
principe del S. R.S. del consejo de Su Ma-
“gestad. Paris, en la enprenta real, por Juan
Anisson. 1694, fol. maximo.
Como se vê, é livro escripto em castelha-
no, e nitidamente impresso, com um bellis
simo ante-rosto gravado, e muitas estampas
e vinhetas, bem gravadas, e adornando todo
o livro.
Está esta freguezia vistosamente situada
na vertente austral da bem conhecida serra
do Monte-Mel ou serra de Bornes, distante
de Mirandella, 18 kilometros.
É terra fria, porem mui saudavel e fertil-
lissima: produz abundantemente bom vinho.
saborosa batata e castanha, trigo, centeio,
milho, feijão e toda a casta de hortaliça, fru-
ctas saborosissimas, optima carne de porco,
seda, lã, gado de toda a especie, e muitas
outras producções, em que não é tão farta,
mas sufficientes para os proprios habitantes.
Sambade, era outr'ora bastante notavel
pelas fabricas de lan que sustentava, cujo
producto tinha, pelas differentes terras, tal
estimação e importancia, que chegou a acar
retar para Sambade copiosas sommas de di-
o annexa, 35, e Villa Nova, 40; total
Não sei a causa porque Sambade diminuiu
desde 1757, nada menos de 108 fogos.
Talvez fosse engano do Portugal Sacro e
Profano, e não tivesse, quando elle se pu-
blicou, tão grande numero de fogos.
SAM 375
nheiro, e de que proveio a riqueza de mui-
tas familias, cujas casas, ainda que quasi
desmoronadas, hoje recordam a sua opulen-
cia passada.
Depois, desde os fins do seculo VIII, Sam-
bade começou a sentir, com pezar, a sua de-
cadencia; ainda que hoje é a principal po-
voação do concelho d'Alfandega da Fé e que
bem se póde dizer que a dita villa é susten-
tada com os productos d'aquella freguezia,
e lhe fornece a feira que alli se faz aos 17
de cada mez, com batata, castanha, centeio,
porcos, etc.
Ainda que o solo de Sambade, é improprio
para azeite, com tudo, muitas familias o co-
lhem, não só para seu gasto mas para ne-
gocio; porque possuem na Villariça grandes
casaes ou quintas, com ricos olivaes.
Nos tempos em que Sambade se mostravá
soberba com a sua suficiente riqueza, fa-
zia divulgar tambem a sua subida instru-
eção pelos seus contornos; pois que ainda
hoje os seus moradores mais antigos recor-
dam com dôr as pessoas respeitaveis de to-
dos os estados; mas o que mais avultava
ainda era 0 clero, que, segundo se diz, o nu-
mero de padres (de missa) era de 18, afora
menoristas, todos naturaes d'alli; e o que
lhes facilitava a sciencia ou ordenação, eram
dous ou trez padres que alli havia, que en-
sinavam latim, logica, e moral, cujas aulas
eram numerosamente frequentadas, não só
pelos estudantes de Sambade, mas de mui-
tas freguezias, e até algumas muito distan-,
tes.
Hoje porém decaiu em tudo: antigamente
havia alli um reitor ou abbade e dous curas,
alem de todos os outros padres acima men- :
cionados, hoje existe sómente um abbade.
Antigamente havia, alem das aulas acima
ditas, mais duas de instruéção primaria,
hoje ha uma que, apezar de ser regia, des-
graçadamente é frequentada por dez a quin-
ze alumnos.
Foi Sambade tambem uma das povoações
que, em 1834, supporteu as iras e cruelda-
des do partido liberal, chegando no dia 45
de maio do dito anno, algumas pessoas no-
bros da freguezia a serem victimas do seu
cobiçoso furor, depois de lhe serem rouba”
376 SAM
das as suas joias e mais objectos de valor.
Ha em Sambade uma grandiosa casa da
residencia, onde está o abbade, à qual se
junta um rico pomar; porém, hoje está qua-
gi arruinada.
Proximo da residencia acha-se a ma-
gnifica egreja, cujo exterior, tanto em ex-
tensão como em obra de arte, se póde sem
receio comparar a qualquer das das nossas
cidades; esta obra é admirada pelos viajan-
tes que a vêem.
O granito dos seus cunhaes e cornijas é
primorosamente lavrado; apresenta uma
elegante torre com trez grandes sinos, as:
sim como uma bôa sacristia, a qual tem si-
do admirada pelos seus visitantes. Tem cin-
co ricos altares, nos quaes se acham gran-
des imagens.
A egreja que agora existe, não é a primi-
tiva, pois que esta era muito mais peque-
na. O que admira é, como em tempos tão
modernos se alli fez tal obra; pois que, se-
gundo a era que se acha na porta lateral da
sarhristia, esta egreja ainda foi acabada em
1798.
É tradição assente aqui, que— «andando a
fazer-se as escavações para os alicerces da
nova egreja, se encontrára no logar em que
existia a velha, um corpo de mulher (diz-se
que era d'uma moça, que tinha sido sepul
tada havia já muitos annos, e a qual fora
morta por um seu irmão), e depois de vestida
novamente com outros vestidos, foi meittida
, n'um caixão de pau, forrado de seda, e
mettido em um ouiro de latão, e este ainda
dentro d'um de granito, e o depositaram de-
pois n'um tumulo, que para isso foi desti-
nado, ao lado direito da capella-mór da no-
va egreja.
Depois (porque hoje já alli não existe na-
da, senão o caixão e uma lapide lavrada
em cima, mas sem inscripção alguma) esta
santa (nome que lhe deram logo) foi rouba-
da (o que se não sabe é para onde).»
Não sabemos com certeza se isto aconte-
«ceria; o que se sabe é, que ainda ha pouco
tempo, o povo mettia rosarios ou outra qual-
quer cousa n'um fenda que existe no tumu-
lo, e tirando-os, a fé lhes dizia que ficavam
bentos.
SAM
Diz-se tambem haver reliquias da dita
santa.
Ha em Sambade, além da egreja parochial,
mais trez capellas: a primeira é dedicada a
Nossa Senhora do Rosario, com um rico al-
tar dourado, porém de muita antiguidade.
A segunda, dedicada a Santo Antonio, é
a que hoje se acha mais velha.
E a terceira, dedicada a S. Sebastião, é
ainda moderna, foi reedificada nos annos de
1867-1868-1869, sobre as ruinas d'uma ou-
tra antiquissima capella dedicada ao mesmo
santo.
Alem d'isso, ha em cada uma das annexas
uma capella: em Villa Nova ha uma dedi-
cada à 8. Roque, tambem muito antiga; e em
Covellas, ha uma grande capella, com a de-
dicação dê Nossa Senhora das Neves; esta é
ainda moderna, mas já não é a primitiva.
Ha n'esta capella um tronco d'uma arvore
(mas já mui pequeno), que, segundo a tra-
dição, — existia ja, quando se começaram
os alicerces para a primitiva capella; e que
o motivo de se alli levantar a mesma foi,
porque appareceu Nossa Senhora sobre o
tronco da mesma arvore, entre um circulo
de neve, cujo espaço era o que devia occu-
par a capella que a mesma Senhora queria
que alli se lhe edificasse.
O que é certo, é que ainda hoje os fieis |
que visitam a dita capella, levam uma por-
cãosinha de páu do dito tronco para suas ca- |
sas, como reliquia.
Sabe-se tambem que depois que se le-
vantou a capella à Senhora, no logar mar-
cado, ella começou a fazer muitos milagres ; |
e tempo depois, o producto d'essas esmolas |
deu para se lhe augmentar mais a capella, |
que é a que agora existe.
A actual imagem da Senhora, é uma das |
mais perfeitas de Portugal, que tem sido ad-
mirada por differentes esculptores e pinto-
res.
É esta imagem, nas occasiões d'alguma |
calamidade, o alvo das supplicas e promes- |
sas de todos aquelles povos.
E quando a falta d'agua se faz sentir, tra- 1
ta-se de leval-a em procissão para a egreja à
da freguezia, para alli lhe pedir soceorros ;
por meio de novena ; então é que aqui os 1
SAM
sambadenses anciosamente visitam com res-
peito e veneração a santa imagem.
A Senhora conserva-se depois: aqui, até ao
dia da sua festa (5 d'agosto), dia em que os
sambadenses, auxiliados tambem pelas fre-
guezias circumvisinhas, fazem à sua pro-
tectora, uma esplendida festa, pelo bene-
ficio recebido (pois que acabada a nove-
Da, estes povos são quasi sempre attendi-
dos).
No dia da festa, conduzem, à sua verda-
deira casa, a imagem da Senhora, em uma
pomposa procissão, com lindos andores,
não só da mesma freguezia de Sambade,
mas das freguezias visinhas; e apezar da dis-
tancia e aspereza do caminho, todos os fieis
acompanham alegres aquella procissão.
Era Sambade reitoria, mas ha annos foi
elevada a abbadia, por determinação do sr.
arcebispo de Braga, D. José (actual) na pes-
soa do reverendo Jusé Manuel Cordeiro, que
ha vinte annos exerce aqui este santo lu-
gar, tornando-se digno de estima dos seus
parochianos.
É natural da Alfandega da Fé, e perten-
cente à familia dos Cordeiros.
A capella de S. Sebastião, foi reedificada
a expensas de alguns devotos da freguezia, e
aos esforços do reverendo parocho.
SAMBARCGO—portuguez antigo—chinéllo,
sapato velho.
SAMBENÍTO — habito de penitencia que
os inquisidores obrigavam a vestir aos pe-
nitentes convencidos de heresia.
É corrupção de sacco bento (ou benito.)
Os castelhanos lhe chamavam tambem Za.
marra.
Já desde o tempo dos hebreus se chama-
va sacco ao vestido de penitencia. e era vul-
gar dizer-se— andar vestido de sacco.
Até ao seculo x1m, o vestido de sacco era
benzido, e por isso se lhe chamava benito.
Consistia o sam-benito, em uma tunica
semelhante a uma abbatina; mas de côr
amarella, com figuras de diabos, pintados
de negro.
SAM-CERIZ (ou São Cyriaco)—villa e fre-
guezia extincta, Traz-os-Mentes, no conce-
lho, comarca, districto administrativo, bis-
pado e proximo a Bragança, a cuja fregue-
SAM 37%
zia hoje pertence, 40 kilometros de Miran-
da, 480 ao N. de Lisboa.
Em 41757, tinha 25 fogos.
Orago, S. Cyriaco.
A mitra apresentava o cura, que tinha
63000 réis de congrua e o pé d'altar.
Tambem se escrevia Sanseriz, e é o no
me que lhe dão os foraes.
É povoação antiquissima.
O rei D. Diniz lhe deu foral, em Lisboa,
a 24 de junho de 1285.
(L.º 4.º dos foraes do rei D. Diniz, fl. 140,
col. 2.2)
O rei D. Manuel, lhe deu foral novo, sem
data.
(Livro de foraes novos de Traz-os-Mon-
tes, fl. 73, col. 2.2)
Este foral remette-se ao foral de Miran-
da, que foi dado em Santarem, no 4.º de ju-
nho de 1510.
Foi cabeça do concelho, com casa da ca-
mara, vereadores, juiz, escrivão e mais offi-
ciaes de justiça.
Ainda não ha muitos annos, que na casa
da camara d'esta antiga villa, existia um
freio com o qual se castigavam as mulhe-
res bravas, maldizentes ou mexeriqueiras.
Tinha lingua para a bocca, argola para
o queixo de baixo, cambas, para pôr sobre
o nariz; tudo de ferro. :
Tinha tambem cabeçada, com sobre-testa
(testeira) para prender o freio à cabeça, com
uma fivella que fechava para traz; e Te-
deas.
O mesmo instrumento havia nas camaras
de Murça, Mós, e outras de Traz-os Montes,
e para o mesmo fim.
Os taes freios desappareceram de todo
em 1834.
SAMEICE ou CAMEIÇA — freguezia, Bei-
ra Baixa, comarca e concelho de Cêa (foi da
comarca de Gouveia, concelho, extincto, do
Ervédal) 60 kilometros a E.N.E. de Coim-
bra, 275 ao E. de Lisboa.
Tem 220 fogos.
Em 1757, tinha 122 fogos.
Orago, São Martinho, bispo.
Bispado de Coimbra, districto administra-
tivo da Guarda.
O rei, pelo trihunal da mesa da conscien.
378 SAM
cia, apresentava“o prior, que tinha 3508000
réis de rendimento.
Clima excessivo, mas terra fertil.
Muito gado, de toda a qualidade, e caça
grossa e miuda.
O nome d'esta freguezia, é corrupção do
árabe Xameiça, que significa, logar desco-
berto e exposto ao sol.
SAMEIRO — freguezia, Beira Baixa, co-
marca de Gouveia, concelho de Manteigas
(foi do mesmo concelho, mas da comarca
da Guarda) 30 kilometros da Guarda, 305
ao E. de Lisboa.
Tem 220 fogos.
Em 1757, vinha 41 fogos.
Orago, 8. João Baptista.
Bispado e districto administrativo da
Guarda.
O commendador da Covilhan (da ordem
de Malta) apresentava o cura, que tinha
504000 réis, e o pé d'altar.
Terra abundante de castanhas e batatas,
do mais, pouco.
Gado e muita caça.
Clima excessivo.
SAMEIRO—monte, Beira Baixa, na fre-
guezia antecedente, e à qual dá o nome.
É um ramo da Serra da Estrella.
SAMEIRO—monte, Minho, na freguezia
de Espinho, concelho, comarca, districto ad-
ministrativo, arcebispado e 3 kilometros ao
N.E. de Braga, e 2 ao S. do Bom Jesus do
Monte.
É fragoso e ingreme, mas revestido de
permanente verdura.
Do seu cume se descobrem sete Sanctua-
rios, todos dedicados à Santissima Virgem
-—as cidades de Braga, Vianna e Guimarães,
e as villas de Barcellos e Espozende, Santo
Thyrso, Villa do Conde — o Alto do Moran-
queiro, na serra do Gerêz—a egreja da La-
pa, do Porto—grande numero de freguezias
— e uma vasta extensão do Oceano Atlan-
tico.
A” custa dos fieis, se construiu aqui um
monumento, dedicado à Purissima Concei-
ção da Santissima Virgem, lançando-se-lhe
a 4.º pedra, a 14 de junho de 1863, dia an-
niversario d'aquelle em que, no anno de
1637, se jurou em Braga, em synodo, cele-
SAM
brado pelo arcebispo, D. Sebastião de Mat-
tose Noronha! a crença da Immaculada Con-
ceição de Maria Santissima.
A imagem, de marmore, da Senhora, col-
locada no monumento, chegou a Braga a 6
de agosto de 1869, foi benzida solemnemen-
te, pelo arcebispo, D. José Joaquim d'Aze-
vedo e Muura (ja fallecido) a 29 do mesmo
mez, depois de estar collocada no seu logar,
desde o dia 12.
A imagem, fóra o globo e a base, tem
37,10 d'altura.
Foi feita por Emygdio Carlos Amattuci,
do Porto (já fallecido) o qual, tendo ajusta-
do a sua esculptura em 1864, só a deu con-
cluida em julho de 1869.
Ainda à custa dos fieis, anda em construc-
ção uma formosissima egreja, tambem dedi-
cada a Nossa Senhora da Conceição.
Principiaram as obras, em 31 de agosto
de 1863, mas teem sido morosas, por falta
de meios.
As paredes já teem 3,750 de alto, mas, se-
gundo o risco, a sua altura será de 14 me-
tros, por 3,755 de largo, e 8 de fundo.
Representa uma cruz romana, e comme-
mora o concilio ecumenico do Vaticano.
A formosissima imagem de Nossa Senho-
ra da Conceição, que hade hir para esta Ca=
pella, chegou a Braga no dia 7 de agosto
de 1878.
Em quanto não vae para o seu destino,
está exposta no templo de Nossa Senhora
do Populo, que foi de religiosos agostinhos
calçados (gracianos) no (Campo da Vinha.
A imagem foi esculpida em Roma (de
proposito para esta capella) por Eugenio
Maccagnani.
De Sameiro vae uma optima estrada para
o famosissimo Sanctuario do Bom Jesus do
Monte, a qual é um formosissimo passeio.
A commissão encarregada de promover
os donativos para estas obras, é composta
de cavalheiros da maior probidade, e que
tem empregado toda a sua sollicitude para
que ellas se concluam.
Na exploração dos terrenos d'este monte,
1 Vide 1.º vol., pag. 445, col. 1.2,0 ultimo
periodo.
SAM
se descobriram magnificas nascentes de op-
tima agua potavel, que, atém de darem mui-
to mais valor ao sitio, podem abastecer Bra-
ga, com muito pouca despeza.
Alem da freguezia de Sameiro, e dos mon-
tes do mesmo nome, ha ainda em Portugal
a aldeia de Sameiro, na freguezia de Cané-
do, concelho da Feira, e outros logares tam-
bem assim chamados.
Por mais que procurei, não acho a sigai-
ficação d'esta palavra.
Talvez seja corrupção de Sameice, que si-
gnifica logar descoberto, exposto ao sol, cir-
cumstancia que efectivamente se dá em to-
dos os sitios designados com o nome de Sa-
meiro.
Tambem tenho notado que ha algumas
fréguezias e varias aldeias com o nome de
Bornes.
Todos sabem que borne, é a parte do tron-
co da arvore, que está entre a casca e 0
cérne. Ora, borne e samo, são synonimos.
Nas provincias do norte, para designarem
um objecto no singular, juntam ao positivo
a terminação eiro ou eira — vgr.— cabêllo,
cabelleiro—grão, graeiro—um grão de cen-
teio, centiciro—um grão de milho, milheiro
—palha, palheiro—etc.
Quem sabe se de samo fizeram Sameiro?
Todavia, parece-me mais plausivel que
Sameiro seja corrupção de Sameice.
SAMÉL— aldeia, Douro, na freguezia de
Mamarroza, concelho de Oliveira do Bairro,
comarca da Anadia.
Na antiga estrada real, de Coimbra para
Aveiro, entre esta aldeia e a da Mamarroza,
situadas ambas em um delicioso valle, está
o templo de Nossa Senhora dos Banhos, ob-
jecto de muita devoção dos povos da Bair-
rada, que lhe fazem muitas romarias.
A egreja é muito linda.
Tem capella-mór, fechada por grades de
ferro.
Em volta do templo ha uns alpendres, on-
de se compõem as procissões, que d'alli fa-
zem a sua entrada.
Antigamente vinham aqui muitos cirios.
É egreja bastante antiga, mas não se sabe
quando nem por quem foi construida.
SAM 319
O mome de Senhora dos Banhos, provem-
lhe de que, mesmo debaixo do altar-mór,
nasce uma fonte de agua á qual se attribuem
grandes virtudes therapeuticas.
Corre por um aqueducto, para um tanque
que estã dentro de uma casa, fóra da egre-
ja, e alli vão tomar banhos muitas pessoas,
na esperança de acharem cura, ou allivio
aos Seus padecimentos.
Nunca (que me conste) foram estas aguas
analysadas scientificamente; mas supponho
que são sulphuricas, visto haver por estes
sítios, minas de carvão fossil, contendo bas-
tante quantidade de enxofre.
SÁMIL — freguezia, Traz-os Montes, con-
celho, comarca, districto administrativo, bis=
pado e proximo a Bragança, 480 kilometros
ao N. de Lisboa.
Tem 85 fogos.
Em 41757, tinha 65 fogas.
Orago, Nossa Senhora da Assumpção.
O prior de Santa Maria de Bragança, apre-
sentava o cura, que tinha 82000 réis de
congrua e o pé d'altar.
Terra pouco fertil.
Gado e caça.
SAMODÃES ou SAMUDÃES-—freguezia,
Beira Alta, concelho, comarca, bispado e 10
kilometros ao N. de Lamego, 350 ao N. de
Lisboa.
Tem 170 fogos.
Em 4757, tinha 105 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
Districto administrativo de Viseu.
O D. abbade cisteriense (bernardo) do
mosteiro de S. João de Tarouca, apresenta-
va o abbade, que tinha 6002000 réis de ren-
dimento annual.
Fica esta freguezia sobre a margem es-
querda do Douro, e é situada em uma apra-
zivel elevação.
É terra fertil em todos os generos agri-
colas do paiz, e cria muito gado, de toda a
qualidade.
Nos seus montes ha bastante caça miuda,
e o Douro a fornece de optimo peixe, prin-
cipalmente de excellentes lampreias e sa-
borosos saveis.
No tempo do exclusivo da companhia ge-
ral de agricultura das vinhas do Alto Dou-
380 SAM
ro, era esta freguezia comprehendida na de-
marcação dos vinhos de feitoria, sujeitos à
inspecção da mesma companhia.
O rei D. Manuel, lhe deu foral, em Lisboa,
a 26 de julho de 1514.
(L.º de foraes novos du Beira, fl. 97, col.
1.2)
Era reguengo, e sempre pertenceu ao ter-
mo e jurisdicção de Lamego.
É povoação muito antiga, e foi das que
D. Thedon e D. Rousendo resgataram do
poder dos mouros, no seculo x1. Chamava-
se então Gamudaens, ou Zamudães.
O documento mais antigo que encontrei
d'esta freguezia, é uma carta de doação que
D, Affonso Henriques fez, em 1133, a Men-
do Viegas, da povoação de Gamudaens, com
todos os seus logares e termos, assim como
partia com Pena-Judéa (hoje Penajoia)
Avões, Paço, e outras terras.
| Era do padroado real, em 1258. Contava
então 25 casaes, que davam ao rei, no 4.º de
maio, oito varas de bragal e outros foros.
Ha n'esta freguezia as capellas de Nossa
Senhora da Graça — S. Sebastião—uma em
Angorez—outra no meio das vinhas—outra
de Antonio de Azevedo (hoje do sr. conde de
Samodães) outra de Simão Pereira—outra
de Joaquim Cardoso—e, finalmente, outra
de Manuel Teixeira—ao todo oito capellas.
É na freguezia de Samodães, a grande e
bellissima quinta do Mourão, 3 kilometros
ao O. da Régua, e sobre a margem esquer-
da do Douro, na extremidade oriental da
freguezia, ficando-lhe Cambres a E., e Pe-
najoia ao O.
Produz optimo vinho de embarque, muita
fructa de boa qualidade, excellente laran-
ja, e abundancia de cereaes, legumes e hor-
taliças.
Tem um vasto jardim, cercado por uma
grade de ferro, e o palacio d'esta quinta é
de grande magnificencia: delle e do jardim
se gozam lindas vistas.
É seu actual possuidor, o sr. Bernardo
Pereira Leitão, fidalgo da casa real, e resi-
dente na cidade do Porto.
Ainda existe n'esta freguezia, a casa onde
nasceu o 1.º conde de Samodães.
SAM
Foi fundada em 4679, e era vinculada,
desde 1639, sendo instituidor d'este morga-
do, o licenciado, padre Miguel de Carvalho,
que o fez em favor de Belchior Botélho, da
villa de Mondim, com a obrigação de casar
com D. Brites de Carvalho, irman do insti-
tuidor.
Em 1695, falleceu na cidade de Viseu, sua
neta, D. Maria de Magalhães, e o vinculo de
Mondim passou para a casa de Farelães (ho-
je conde de Cavalleiros —Vide Rio-Mau, do
concelho de Villa do Conde.)
O vinculo de Samodães, passou para Ma-
nuel Teíxeira de Carvalho, primo de D. Ma-
ria de Magalhães, por ser filho de André Tei-
xeira de Carvalho, irmão de D. Brites de
Carvalho, de quem já fallei.
Este Manuel Teixeira de Carvalho, foi bi-
savô do 1.º conde de Samodães.
Francisco de Paula de Azeredo Teixeira
de Carvalho, foi feito visconde de Samodães,
em 20 de maio de 1835.
Foi feito conde do mesmo titulo, em 23
de julho de 1842.
Seu filho, o sr. Francisco de Azeredo Tei-
xeira d'Aguilar, foi feito visconde de Samo-
dães, em 28 de fevereiro de 1840-—e con-
de do mesmo titulo, no 4.º de março de
1849.
Para o mais que se desejar saber d'esta
esclarecida familia, veja-se Gojim ou Gogim,
no 3.º vol., pag. 284, col. 2.2
SAMÕES--freguezia, Traz-os-Montes, co-
marca de Mirandella, concelho de Villa-Flor,
135 kilometros ao N. E. de Braga, 390 ao N.
de Lisboa.
Tem 120 fogos.
Orago, S. Braz.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Bragança. ;
Não vem no Portugal Sacro e Profano.
Entre esta freguezia e a de Candoso, no
sitio dos Barreiros, houve, durante a guerra
da restauração, uma grande batalha entre
portuguezes e castelhanos, sendo estes der-
rotados.
Em memoria d'esta batalha, se ficou cha-
mando a uma fonte que alli ha, a foate de
Mil- Almas, que tantos foram os inimigos que
alli ficaram mortos.
SAM
SAMÕES-— antiga freguezia, Traz-os-Mon-
tes, ha muitos annos supprimida, e ânnexa
à da villa de Chaves, que fica proxima.
Tinha por padroeira, Nossa Senhora do Ó.
Ha n'esta aldeia, uma boa quinta, perten-
cente aos herdeiros de Juão Baptista de Car-
valho.
N'esta quinta fundou Balthazar de Carva-
lho, em 4670, uma bonita capella, dedicada
a Nossa Senhora das Necessidades, para ca-
beça de um vinculo, que n'esse mesmo anno
instituiu.
A imagem da padroeira, posto ser de bar-
ro, é de bca esculptura, e tem um metro de
alto.
A gua festa, é a 2 de julho, dia da Visita-
ção de Nossa Senhora; é feita à custa dos
mórdomos, e das esmolas e offertas que se
fazem à Senhora.
SAMÓRA CORREIA! — villa e freguezia,
Extremadura (mas ao S. do Tejo), comarca,
concelho e 17 kilometros de Benavente, 45
kilometros ao E. S. E. de Lisboa.
Tem 500 fogos.
Em 1757, tinha 280.
Orago, Nossa Senhora da Oliveira.
É no patriarchado de Lisboa, districto ad-
ministrativo de Santarem.
OQ rei, pelo tribunal da mesa da conscien-
cia e ordens, apresentava o prior, que tinha
180 alqueires de trigo, 120 de cevada, e
208000 réis em dinheiro de renda por anno,
Está esta freguezia bellamente situada em
uma vasta planicie, sobre a margem esquer -
da do Tejo.
É fertillissima em todos os generos agri-
colas do paiz e cria muito gado—e tambem
touros bravos, para as corridas — tem mat-
tas, que produzem muita lenha, e criam
muita caça.
É abundante de peixe do Tejo, e cria mui-
tos porcos, que exporta.
O rei D. Manuel, lhe deu foral, em Santa-
rem, a 13 de abril de 4510. (L. de foraes
novos do Alemtego, fl. 79, col 2.2)
Foi collegiada (priorado) com dous bene-
“1 Antigamente escrevia-se Camora, e é as-
sim que está no foral.
SAM 381
ficiados, da ordem de S. Thiago, de Palmel-
la, da qual era commenda.
Tem Misericordia e hospital, e teve até
1834, uma companhia de ordenanças, com
os respectivos officiaes.
Junto ao porto onde fundeiam os barcos,
está a capella de Nossa Senhora de Guada-
lupe, que fica a 3 kilometros de distancia da
villa, e jundo a uma grande quinta que foi
dos condes de Sarzêdas.
É templo antigo, mas não se sabe o anno
em que foi construido; porém devia ser no
3.º quartel do seculo xvi.
Em 1632, estando muito arruinado, se re-
construiu, e pelos annos de 1700" se lhe fez
uma rica tribuna, de talha dourada.
Teem os povos do Riba-Tejo, muita devo-
ção com esta Senhora, e lhe fazem varias ro-
marias. Antigamente eram estas concorri-
dissimas dos habitantes das duas margens
do Tejo que lhe ficavam em redor, e até por
muitas familias de Lisboa.
É povoação muito antiga, e foi dos duques
d'Aveiro, que tinham por estas terras, e em
Setubal, Palmelta, Azeitão, e até às praias
do mar, muitas quintas, herdades e fóros,
que tudo perderam, com a vida, em 1759,
como em varias partes d'esta obra tenho re-
ferido.
Dom Jorge de Alemcastre, 2.º duque de
Aveiro, casou com D. Magdalena Giron (fi-
lha dos duques de Ossuna, condes de Du-
refia) pelos annos de 4560. Vivia esta fami-
lia muito descontente, por não ter filhos, e
prometteu a Nossa Senhora de Guadalupe,
de lhe mandar construir uma capella, se ti-
vesse geração. Como lhe nasceu uma filha,
cumpriu o voto.
Foi esta filha, D. Juliana, que herdou à
casa de seus paes, e casou com D. Alvaro
de Alemcastre, seu primo, filho de D. Affon-
so de Alemcastre, irmão do 2.º duque, e fo-
ram, esta senhora e seu marido, os 3.º du-
ques d'Aveiro.
Deste matrimonio, nasceu D. Jorge de
Alemcastre, que foi o 1.º duque de Torres-
Novas, fe ito por D. Philippe II, e não che-
382 SAM
gou a ser duque d'Aveiro, por morrer an-
tes de seu pae.
D. Jorge, casou duas vezes — da primeira
mulher, que morreu pouco depois de casa-
da, não teve filhos; — casou segunda vez,
com D. Anna Maria Manrique de Lára, filha
do duque de Maquêda (Hespanha), D. Nico-
lau de Cardenas Manrique de Lára.
D'este casamento nasceram—D. Raymun-
do, que deixou o reino, como moço impru-
dente, e perdeu a sua casa; — D. João, du-
que de Maquêda, que morreu solteiro, — e
D. Maria de Guadalupe, que foi para Castel-
la, e lá casou com o duque dos Arcos.
A dita duqueza d'Aveiro, D. Magdalena
Giron, mandou construir a formosa capella
da Senhora de Guadalupe, em terreno do
seu ducado, e junto a um excellente pala-
cio que alli tinha; mas que em 1700 já es-
tava em ruinas.
O templo é bastante grande, com capella-
mór e seu altar, e no corpo da egreja ha
dois altares lateraes. Tem um bonito alpen-
dre, com um grande átrio, e ao pé, as casas
para residencia do eremitão, que foi apre-
sentado pelos duques até 1759, e desde en-
tão pelo parocho da freguezia.
Tudo estava construido çom magnificen-
cia, e a duqueza e seus successores, dota-
ram a capella com ricos paramentos e al-
faias.
Os temporaes do inverno de 1876 para
1877, causaram muitos prejuizos n'este con-
celho. — Na Varzea de Samóra Correia, su-
biram as aguas a grande altura, e cobriram
a grande estrada que a atravessa.
No viaducto, as bermas (sapatas) e talu-
des do aterro, do lado de juzante, foram le-
vados pela cheia; e nos aterros junto das
obras d'arte, houve grandes rasgões, inter-
rompendo-se a viação.
A villa ficou incommunicavel com a ca-
pital do concelho. Esta inundação causou
grande miseria nos habitantes pobres da
freguezia.
SAMORINHA-— freguezia, Traz-os-Montes,
comarca de Moncôrvo, concelho de Carrazê-
da de Anciães, 140 kilometros ao N.E. de
Braga, 360 ao N. de Lisboa, 30 fogos.
SAM
Em 1757, tinha 23 fogos.
Orago, a Santa Cruz.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Bragança.
O reitor d'Anceães, apresentava o vigario,
que tinha 403000 réis e o pé d'altar.
É terra pouco fertil. Cria bastante gado,
de toda a qualidade, e é abundante de caça,
grossa e miuda.
SAMOUCO —freguezia, Extremadura (mas
ao S. do Tejo), comarca d'Aldeia Gallega do
Riba Tejo, concelho de Alcochête, 48 Kilo-
metros ao S.E. de Lisboa, 130 fogos.
Em 1757, tinha 80 fogos.
Orago, S. Braz.
Patriarchado e districto administrativo de
Lisboa.
O rei, pelo tribunal da mesa da conscien-
cia e ordens, apresentava o capellão, cura-
do, que tinha de rendimento, 240 alqueires
de trigo, 90 de cevada e 123000 réis em di-
nheiro.
Esta freguezia foi desmembrada da de Al-
cochête, para formar parochia independen-
te, no seculo xvr.
Foi, como Alcochête, commenda da or-
dem de S. Thiago de Palmella, de pleno jure.
É terra fertilissima em todos os generos
agricolas do nosso paiz, principalmente em
cereaes: cria muito gado, e é abundante de
peixe do Tejo (em cuja margem esquerda
está situada) e do mar.
Ha n'esta freguezia uma boa propriedade,
dos condes de S. Vicente, chamada Quinta
Rôta, onde esta nobilissima famiha costuma
vir passar a estação calmosa.
Tem uma linda capella, dedicada à San-
tissima Virgem, e que os seus proprietarios
conservam com todo o aceio.
A Quinta Róta, foi feita em 1693, pelo car-
deal-regedor, Dom João Nuno da Cunha.
Foi vinculada em 1780.
Andou muitos annos fóra d'esta familia,
mas foi reivindicada em 1870.
Na Ribeira de Samouco, ha varias mari-
nhas, quasi todas pertencentes ao hospital
real de S. José, de Lisboa.
Em 48 de julho de 1877, todas estas ma-
rinhas foram desamortisadas, e postas em
praça publica, pelo rendimento de cinco an-
SAM
nos!—isto é — pela quarta parte do seu va-
lor.
Felizmente subiram muito, porque, sen-
do o valor da lista, a quantia de 2:417 4000
réis, foram vendidas por 9:3848550 réis.
A maior parte d'estas marinhas, estão em
terreno da freguezia de São João Baptista,
d'Alcochête.
SAMPRIZ ou SÃO PRIZ ou SÃO PRISCO—
freguezia, Minho, comarca dos Arcos de Val-
le de Vez, concelho de Ponte da Barca.
Esta freguezia já fica descripta na pala-
-vra Priz, 7.º volume, pag. 675, ultima linha
da 1.º: columna. Aqui accrescento mais.
Foi do real padroado, passando depois
para os cruzios de Villa Nova da Muhia, e,
por fim, para os senhores de Barca.
O castello da Nóbrega, d'esta freguezia, era
a cabeça do julgado (quando Sampriz era
villa) e n'elle se faziam as audiencias, e as
sessões da camara. Depois, a séde do conce-
lho se mudou para a villa da Barca.
É povoação antiquissima, e até alguns
pretendem que foi fundadia por Brigo, 4.º rei
de Hespanha, que lhe dem o nome de Nóbri-
ga, ou Anobriga. (Vide Núbrega, no 6.º vol.,
pag. 102, col. 1.2)
Um viajante (touriste) vendo as ruinas
deste vetusto castello, lne mandou gravar
em uma das suas pedras, estas quadras:
Nunca ninguem me venceu,
Nem creio que me fez guerra,
Senão um raio do ceu,
Que atirou comigo a terra.
Deram-me a um certo homem
Com bôas rendas no fim;
Mas, Os senhores que as comem
Nada se lembram de mim.
Ha n'esta freguezia a irmandade da San-
tissima Trindade, erecta ha poucos annos.
O actual arcebispo primaz (o sr. Dom Jo-
sé) por despacho de 26 d'abril de 1864, au-
ctorisa a entrar para esta irmandade, todas
as pessoas do arcebispado que o exigirem;
podendo os parochos das freguezias dos pre-
tendentes, tomar-lhes os nomes, e requisita-
rem dos mesarios, em Sampriz, as cartas-
patentes respectivas.
SAN 383
SAMUEL —freguezia (foi villa), Douro, na
«comarca, concelho e 6 kilometros ao S. de
Soure (foi da mesma comarca, mas do ex-
tincto concelho da Abrunheira), 30 kilome-
tros ao S. de Coimbra, 180 ao N. de Lisboa,
525 fogos.
Em 1757, tinha 504 fogos.
Orago, Nossa Senhora da Purificação (Can-
(deias).
Bispado e districto administrativo de Coim-
Ira.
O D. abbade cisterciense o mosteiro de
(Ceiça, apresentava 0 vigario, ad nutum, que
tinha 1403000 réis e o pé d'altar.
Tem annexa, Urmar, e por isso se diz vul-
garmente— Samuel e Urmar.
Urmar tambem foi villa, e teve, em tem=
pos antigos, um castello, que depois se con-
verteu em hospício do mosteiro de Santa
Cruz, de Coimbra.
Eram estas duas freguezias (Samuel e Ur-
mar) da casa dos duques d'Aveiro, que lhe
deram foral em 1744. D'ahi a 45 annos, pela
extincção do ducado d'Aveiro, passaram para
a corôa.
É terra muito fertil. Peixe do Mondego é
Caça.
Para evitarmos repetições, vide Verride.
SANCHE — freguezia, Douro, comarca é
concelho d'Amarante. Esta freguezia já fica
descripta na palavra Isidóro (Santo).
SANCHES — appellido nobre em Portugal,
e patronimico de Sancho. Esta familia tem
a sua origem em Hespanha. Durante o rei-
mado de D. Joãa III, passaram a este reino,
trez irmãos, d'este appellido. Albergaria, não
declara os seus nomes (fl. 189 v.) e é por isso
que ha differentes brazões d'armas d'este ap-
pellido. Frei Manoel de Santo Antonio, diz
que vira, em livros antigos, dos reis d'armas
d'este reino, os brazões dos Sanches. O 1.º
brazão, é o dos Sanches de Ciudad Rodrigo
(Hespanha) e é — em campo de prata, uma
torre de negro, sahindo do alto della um
braço, com uma espada azul, em acção de
descarregar o golpe, e, arrimada à torre,
uma escada da sua côr. Timbre, o braço
com a espada. Villas-Bôas, lhe dá uma es-
trella no chefe.
O 2.º brazão d'este appellido, é — escudo
384 SAN
dividido em palla—no 4.º, de púrpura, uma
torre de prata, com porta e frestas d'azul.
Na 2.º ordem, de púrpura, um pendão, ou
bandeira, com hastea e lança de ouro, que
aponta para a direita do escudo, e por bai-
xo do pendão, uma caldeira, do mesmo me-
tal. Timbre, um braço, armado de prata,
com o pendão na mão, e este, cheio de ban-
das de ouro e púrpura. Assim as achou frei
Manoel de Santo Antonio, na carta de bra-
zão que passou o rei d'armas, João de Hes-
panha, no reinado de Philippe II, a Diogo
Mendes de Brito, em 23 de julho de 1590.
O 3.º escudo dos Sanches, cujo brazão foi
passado pelo rei d'armas, Pedro de Souza,
é—escudo dividido em palla—na 1.º, d'azul,
sete estrellas d'ouro, de 8 pontas, em 3 pal-
las — na 2.2, tambem d'azul, banda de púr-
pura, perfilada douro, entre duas flores da
liz, do mesmo. Timbre, uma das estrellas do
escudo.
O 4.º brazão d'este appellido, segundo
consta da carta de brazão que o rei d'ar-
mas, Francisco Gonçalves Correia, passou a
Bernardo Sanches Pereira, em 15 de junho
de 1683, é — ao escudo antecedente, acres-
centou uma orla de púrpura, carregada de
8 áspas de ouro, como a orla das armas dos
Azevedos. Timbre, uma áspa do escudo, car-
regada de uma estrella azul.
Outra familia d'este appellido (segundo
diz Villas Bôas, no capitulo 44, a pag. 329)
traz por armas o 4.º brazão — que é — em
campo azul, um gallo de prata, picando uma
espiga de trigo. (Na livraria Palmella, este
gallo é de côr parda, com crista e barbas de
púrpura, tendo à direita um mólho de tri-
go, com espigas de ouro, pendendo para a
parte do gallo, tudo sobre contra-chefe es-
treito, de terra, da sua côr.
Em 140 de fevereiro de 1869, foi feito vis-
conde de Sanches de Baena, em duas vidas,
o sr. Augusto Romano Sanches de Baena Fa-
rinha.
SANDE-—freguezia, Minho, comarca e con-
celho de Villa Verde (antiga comarca e con:
celho de Pico dos Regalados), 1d kilometros
ao N. de Braga, 370 ao N. de Lisboa, 150
fogos.
Em 4757, tinha 126 fogos.
SAN
Orago, Santa Eulalia.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A mitra apresentava o abbade, que tinh
4008000 réis.
É terra muito fertil. Cria muito gado, €
nos seus montes ha caça grossa e miuda.
O primeiro nome desta freguezia, foi Ba-
bo, corrupção de Babon, substantivo árabe
que significa porta; assim como babe signi-
fica portinha.
Jã se vê que é povoação antiquissima, e
muito anterior à fundação da nossa monar-
chia.
Sande, é corrupção do substantivo hebrai-
co—Sandel—especie de calçado usado pelos
antigos, e que nós corrompemos em Sanda-
lhas. Vê-se pois que, mesmo o nome actual
desta freguezia e das outras assim chama-
das, é muito antigo.
É n'esta freguezia, a casa da Penha, que
foi de Bento da Silva Menezes, e passou a
seu cunhado, Lourenço de Souza.
Consta que n'esta freguezia era o verda-
deiro solar dos Barros, que foram, em tem-
pos antigos, padroeiros d'esta egreja.
SANDE — freguezia, Beira Alta, concelho,
comarca, bispado e 3 kilometros ao N.0. de
Lamego, 360 ao N. de Lisboa, 150 fogos. (Em
1531, tinha apenas 56 fogos.)
Em 4757, tinha 110 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Districto administrativo de Viseu.
O vigario de S. João Baptista, de Avões,
apresentava o vigario, que tinha 1008000
réis de renda.
Foi villa, e ainda conserva a cadeia é o
pelourinho.
O rei D. Manoel lhe deu foral, em Lisboa,
a 17 de maio de 1514. (L.º de foraes novos
da Beira, fl. 71 v, col. 2.2)
Foi cabeça de concelho, com justiças pro-
prias, vereadores, e mais empregados muni-
cipaes. Foi ha muitos annos supprimido.
O documento mais antigo que achei d'es-
ta freguezia, é um prazo, feito pelo bispo de
Lamego, D. Egas Paes, e seu cabido em 1251,
a João Pires, e sua mulher, Ouroana Egas,
do casal do Lagêdo, da freguezia de Sande.
Depois se acha (doc. de Tarouca) uma car-
SAN
ta de escambo, do rei D. Diniz, feita em 1306,
pela qual, dá ao mosteiro de Tarouca, a vail-
la de Sande, e outros bens, pela terça parte
da villa (hoje cidade) de Aveiro, que até en-
tão era do dito mosteiro.
Está esta freguezia situada em terreno
aprazivel, e fertil em cereaes, muito bôa fru-
cta, optimo vinho de embarque, e muito azei-
te. Fica sobre a margem esquerda do rio Va-
rosa.
A egreja matriz, é um bom templo, e mos-
tra muita antiguidade.
Ha n'esta freguezia uma capella publica,
dedicada a Santa Luzia, que se festeja a 13
de dezembro, havendo sempre um arraial
muito concorrido de romeiros.
Ha mais duas capellas particulares, onde
se celebram os oficios divinos — uma per-
tence ao sr. doutor, José de Beires, de quem
adiante trato—e outra, ao sr. doutor, Anto-
nio Rodrigues Pinto.
Atravessa esta povoação, a nova estrada,
à mac adam, de Lamego à Régua.
Tem duas escolas régias de instrucção pri-
maria, uma para cada sexo.
Ha aqui optimas propriedades, sendo uma
das principaes, a quinta de Sequeiros, dos
srs. viscondes d"Alpendurada, João Baptista
Pereira da Rocha, e D. Josephina Augusta
Vieira de Magalhães, filha do 4.º visconde
d'Alpendurada. Esta senhora e seu marido,
obtiveram o titulo, em 9 de agosto de 1865.
(Antomo Vieira de Magalhães, 1.º viscon-
de d'Alpendurada, foi feito barão d'este ti-
tulo, em 13 de julho de 1848, e visconde, em
13 de maio de 1854. Foi seu filho, o sr. An-
tonio Vieira de Magalhães Junior, feito ba-
Tão de Magalhães, em 43 de maio de 1854,
e conde do mesmo titulo, em 24 de maio de
1870, e n'este mesmo anno feito ministro da
fazenda, pela dictadura Saldanha.)
A senhora D. Henriqueta Augusta Vieira
de Magalhães, condessa de Samodães, é ir-
man da senhora viscondessa d'Alpendura-
do, Josephina.
Para os marquezes de Sande (titulo hoje
extincto) vide vol. 7.º, pag. 162, col. 1.3, no
lim, e seguinte; e col. 4.2 de pag. 163. Os
marquezes de Sande, eram condes da Ponte,
SAN 389
villa da Beira Alta.(Vide os logares cita-
dos.)
Em 1668, o conde de Mesquitella, D. Ro-
drigo de Castro, mandou matar o marquez
de Sande, Francisco de Mello. O conde, em
consequencia deste assassinato, foi degre-
dado para a India, por toda a vida, com a
notificação de que—vindo a Portugal, mor-
reria de morte natural, e seus bens seriam
confiscados para a corôa.
O conde sahiu de Lisboa para a India, a
2 de abril de 1674. Não se dando bem em
Gôa, foi para Roma, e lá morreu.
Na antiga villa de Sande, nasceu a 23 de
março de 1825, o sr. doutor, José de Beires.
É filho dos senhores Justo de Beires e D.
Mafalda Maria Pereira, ambos já fallecidos.
É filho dos mesmos paes, o sr. doutor,
Manoel de Beires, que foi delegado do pro-
curador regio em Mangualde, onde tam-
“bem foi administrador do concelho. Tam-
bem foi administrador dos concelhos de Cas-
tro Daire, e depois de Vouzella. Hoje, é juiz
de direito da comarca de Mangualde.
Se os senhores Jusé e Manoel de Beires,
não contam nos seus antepassados, fidalgos
de antiga nobreza hereditaria, contam com
justo orgulho, filhos do povo, nobilitados pelo
seu amor e dedicação ao trabalho honrado,
e que, por elle, chegaram a obter alguma
fortuna, adquirida com o suor do rosto, e
não legado de ociosos, que nada fizeram para
a gozarem, porque nasceram ricos.
O sr. doutor José de Beires, formou-se em
direito, pela universidade de Coimbra, em
1852. Foi advogado e depois administrador
do concelho de Lamego, em 1856. Foi secre-
tario geral do governo civil de Viseu, em
1861. Teve depois o mesmo emprego, em
Villa Real. Foi nomeado governador civil
d'Aveiro, em 1868. Passou a exercer o mes-
mo cargo, em Fáro, e por fim, em Portale-
gre. Em 1878, foi exonerado d'aquelle car-
go, para exercer ouro superior, em uma
das repartições do ministerio da marinha.
Em todos estes importantissimos empre-
gos, que não sollicitou, e que só deve aos
incontestaveis merecimentos, tem sido o sr.
386 SAN
José de Beires, um magistrado exemplaris-
simo, pelo que é geralmente estimado e res-
peitado.
Tambem é natural dºesta villa, o sr. dou-
tor, Antonio Rodrigues Pinto, actual juiz de
direito. É filho de outro do mesmo nome,
que foi capitão de milícias, ambos cavalhei-
ros distinctissimos, pelas suas bellas quali-
dades. O sr. doutor Rodrigues Pinto, é O
mais rico proprietario d'esta freguezia.
Sande, é tambem um appellido nobre, em
Portugal, cuja familia é de Hespanha, e tem
o seu solar no castello. de Sande (Galliza). 1
Não se sabe (dizem os manuscriptos da ca-
sa Palmella) quem o trouxe a este reino, mas
já no reinado de D. Diniz, foi notavel por
seu valor, Fernão de Sande, que tinha o seu
solar na quinta de Sande, comarca de Gui-
marães — Suas armas, são — em campo de
púrpura, leão d'ouro, armado de prata, lam-
passado de azul, entre quatro flores de liz;
d'ouro, postas em cruz: êlmo de prata, aber -
to; e por timbre, meio leão de púrpura,
com uma das flores de liz do escudo, na ca-
beça.
Segundo outra opinião, o primeiro Sande
que veio para Portugal, foi Lopo Affonso de
Sande, no reinado de D. João T; o que cons-
ta de um brazão d'armas, concedido pelo
rei D. Manoel, em fevereiro de 1513, a Fran-
cisco de Sande, 3.º neto do dito Lopo Aflon-
so de Sande. é
Esta familia se estabeleceu na provincia
do Minho, onde reedificou o mosteiro de São
Martinho de Sande, de monges benedictinos,
nove kilometros ao O. de Guimarães, e do
gual trato no artigo seguinte.
Julga-se porem que este Lopo Affonso de
Sande, é descendente de Fernão de Sande,
que primeiro nomeei, porque as suas armas
são as mesmas que já descrevi.
Outros Sandes, trazem por armas — em
1 O appellido de Sande, ainda se conser-
va na actual provincia de Orense (Cella-No-
va) antiga Galliza, e ao seu solar ainda se
chama o castello de Sande. Os marquezes de
Valle de Fontes, na Extremadura hespanho-
la, pertencem a esta familia.
SAN
campo douro, uma águia négra, e na orla»
um cordão pardo.
Outros do mesmo appellido, uzam do bra-
zão, seguinte—em campo de prata, águia nê-
gra, e de roda, do escudo, seis estandartes
e seis bandeiras. Estas armas, são as prin-
cipaes, por serem as dos Sandes da Galliza,
progenitores dos de Portugal.
Ha actualmente n'este reino, muitas fami-
lias nobres; de appellido Sande, todas des-
cendentes do mesmo tronco; mas que teem
composto as suas armas, com as de outras
familias coma que se ligaram.
Para a etymologia, vide o Sande antece-
dente.
SANDE—freguezia, Minho, comarca, con-
celho e 9 kilometros ao O. de Guimarães, 7
ao N.E. de Braga, 365 ao N. de Lisboa, 229
fogos.
Em 41757, tinha 187 fogos.
Orago, S. Martinho, bispo.
Arcebispado e districto administrativo de”
Braga.
A mitra apresentava o reitor, que tinha
1604000 réis de rendimento.
É terra fertilissima.
Muito gado e caça.
Como já fica dito no artigo antecedente,
houve aqui um mosteiro de monges benedis
ctinos de fundação antiquissima. Em 1596
ou 1597, o arcebispo de Braga, D. frei Agos-
tinho de Castro, deu este mosteiro aos ere-
mitas de Santo Agostinho, do convento do Pó-
pulo, em Braga, e estes, passado pouco tem-
po, o reduziram a abbadia secular. Foi de-
pois commenda da Ordem de Christo.
Julga-se que estava abandonado, quando
passwu aos agostinhos, e supponho que os
frades do Pópulo tambem nunca o habita-
ram. Ignora-se a data da fundação deste
mosteiro, mas sabe-se que já existia no se-
culo v. É perto da serra da Falpérra.
Em 3 de março de 668, falleceu aqui o
abbade deste mosteiro, de benedictinos, o
famoso Receswinto, varão esclarecido. Foi
insigne poeta e orador, como o testemunham
as Cartas que escreveu a Santo Ildefonso,
cheias de piedade e erudição ; e o elegante
poema que compoz, em louvor de Santa
SAN
Engracia, e seus 18 companheiros no mar-
tyrio.
O abbade Receswindo, assistio ao X con-
cilio, de Toledo, convocado pelo rei Reces-
windo, pelos annos de 660, tendo por com-
panheiro, o abbade Wámba, tambem bene-
dictino, do mosteiro de Santa Leocadia de
Briteiros. Ambos estes abbades, morreram
com fama de santos. (Vide Idanha Velha.)
No 4.º vol. do seu Anno His-
torico (pag, 95) diz Frei Fran-
cisco de Santa Maria, que o
rei Wamba, falleceu a 20 de
janeiro de 672; e no 3.º vol.
(pag. 714) diz que elle foi un-
gido rei, com grande pompa,
na cidade de Toledo, a 19 de
setembro de 672 (!)—«Aliquan
do dormitat Homerus.»
Tornemos ao abbade Receswindo.
O arcebispo de Braga, Liuba, foi que o
mandou, como seu procurador, e como gran-
de theologo e orador insigne, ao referido
concilio de Toledo, 1 onde se distinguiu pela
sua eloquencia e profundo saber.
Em abril de 1877, a sr.2 D. Maria Alexan-
drina Vieira Marques, offereceu ao governo,
uma casa, para escola de instrucção prima-
Pia, n'esta freguezia.
Esta casa, é no sitio das Gaias, e foi ava-
liada em 4:6008000 réis.
A junta de parochia, fornece a mobília, é
os utencilios necessarios, e offereceu 40,000
Téis, para as despezas da inauguração.
São insufficientes os maiores elogios que
se façam a esta caritativa senhora; e a be-
nemerita junta de parochia tambem se tor-
nou digna da gratidão publica.
Em 9 de agosto de 1823, D. João VI, fez
barão de Sande, a João de Campos Navarro,
do conselho de sua magestade, commenda-
dor da ordem de Christo, medico da real
+ Alguns escriptores dizem que este con-
cilio foi o XIV, e não o X.
SAN 387
camara, physico-mór do reino, lente jubi-
lado de medicina.
Foi deputado pela universidade de Coim-
bra, para o acto da coroação de D. João VI.
Casou com D. Maria Leonor Cabral de
Aragão Calmou, filha de Francisco Xavier
Cabral da Silva, do conselho de D. Maria 1,
commendador da ordem de Christo, do con-
selho da fazenda no Rio de Janeiro, e de D.
Anna Romana de Aragão Calmou, 4.º baro-
neza e 4.º condessa de Itapagipe (Brasil), e
dama da imperatriz do Brasil. Acompanhou
a sr.º D. Maria da Gloria, na sua viagem à
Europa, em 4828. Já ambas falleceram, e
até agora não foi renovado o titulo.
Tiveram quatro filhos—1.º, D. Anna Lui-
za—2.º, D. Maria Carlota—3.º, D. Maria Joan-
na—4.º, Sebastião de Campos Navarro.
O 4.º (e unico, até hoje) barão de Sande,
era filho do doutor, Sebastião Navarro de
Andrade, que foi medico em Guimarães, é
de D. Anna Luiza de Campos Pereira.
Estes tiveram 9 filhos.
1.º—João (o que foi barão de Sande.)
2.º—Joaquim Navarro dº Andrade, do con-
selho de D. João VI, commendador- da or-
dem de Christo, lente jubilado, de medicina,
director litterario da academia real de ma-
rinha e commercio, da cidade do Porto, e de-
putado às cortes em 18241.
3.º— Luiz Thomaz, do conselho de sua ma-
gestade, commendador da ordem de Chris-
to, e bacharel em direito.
4.º— Antonio, que foi abbade em Gonda-
rem. R
9.º—José, que foi desembargador da casa
da supplicação.
6.— Rodrigo, 1.º barão de Villa-Sêcca. (Vi-
de esta palavra.) Todos fallecidos.
7.º— Sebastião, lente jubilado de philoso-
phia, em Coimbra, e que casou na Bahia €
lá morreu.
8.º—Jacintho, cavalleiro da ordem de
Christo e conego da Sé de Lisboa. Fallecido.
9.º— Vicente, 1.º barão de Inhomerim (Bra-
sil) commendador da ordem de Christo, me=
dico da camara, e casado com D. Maria Joa=
quina Vianna.
Para a etymologia, vide o 4.º Sande.
88 SAN
SANDE—freguezia, Minho, comarca e con-
celho de Guimarães, 9 kilometros ao N. E.
de Braga, 360 ao N. de Lisboa, 200 fogos.
Em 4757, tinha 113 fogos.
Orago S. Clemente.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O reitor de S. Martinho de Sande (a fre-
guezia antecedente) apresentava O vigario,
collado, que tinha 1203000 réis de rendi-
mento annual.
É terra muito fertil.
Cria muito gado de toda a qualidade, e
nos seus montes ha bastante caça.
SANDE —freguezia, Minho, comarca e con-
celho de Guimarães, 6 kilometros ao N. E.
de Braga, 360 ao N. de Lisboa, 160 fogos.
Em 4757, tinha 120 fogos.
Orago 8. Lourenço.
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
O reitor de S. Martinho de Sande, no mes-
mo concelho, apresentava o-vigario, collado,
que tinha 808000 réis de rendimento.
Terra fertil.
Gado e caça.
Para a etymologia, vide o 1.º Sande.
Estas trez ultimas freguezias (S. Martinho,
S. Clemente e S. Lourenço) formaram até ao
seculo 16.º, uma só parochia. Depois dividi-
ram-se em trez curatos (depois vigariarias)
filiaes da de S. Martinho, e é por isso que o
reitor d'esta, apresentava os parochos das ou-
tras duas.
SANDE—freguezia, Douro, comarcae con-
celho de Marco de Canavezes (foi da comar-
ca de Soalhães, concelho de Bem-Viver) 50
Kilometros ao N. E. do Porto, 305 ao N. de
Lisboa, 440 fogos.
Em 1757, tinha 276 fogos,
Orago S. Martinho, bispo.
Bispado e districto administrativo do
Porto.
- O padroado real, apresentava o abbade,
que tinha 7008000 réis.
É terra muito fertil.
Muito gado de toda a qualidade.
SAN
É povoação muito antiga. Já em 1277, era
abbadia, pois n'esse anno, o abbade d'esta
freguezia, appellou do bispo do Porto, D.
Vicente, por aqui ter instituido um benefi-
ciado.
Doc. d'Alpendurada, do referido anno.
Para a etymologia, vide o 4.º Sande.
SANDE ou VILLA NOVA DE SANDE —
freguezia, Minho, comarca e concelho de
Guimarães, 12 kilometros ao N.E. de Braga,
360 ao N. de Lisboa, 65 fogos.
Em 1757, tinha 62 fogos.
Orago, Santa Maria (Nossa Senhora da
Abbadia).
Arcebispado e districto administrativo de
Braga.
A mitra apresentava o abbade, que tinha
7008000 réis de rendimento.
É terra fertil, e povoação muito antiga.
Ha ainda em Portugal algumas aldeias
com o nome de Sande, mas não são paro-
chias, nem teem cousa digna de nota.
SANDIÃES ou SANDEÃES — freguezia,
Minho, comarca e concelho de Ponte die Li-
ma, 18 Kilometros ao O. de Braga, 370 ao
N. de Lisboa, 130 fogos.
Em 1757, tinha 85 fogos.
Orago, S. Maméde.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
A mitra apresentava o abbade, que tinha |
3502000 réis de rendimento.
Terra fertil.
Muito gado e caça, peixe do rio Liima, e |
do mar.
SANDIM—freguezia, Douro, concelho de
Villa Nova de Gaia, comarca, districto admi- À
nistrativo, bispado, e 20 kilometros ao S. E.
do Porto, 300 ao N. d» Lisboa, 500 fogos.
Em 1757, tinha 300 fogos.
Orago Santa Maria (Nossa Senhora da
Expectação.)
As religiosas do mosteiro de S. Bemto da |
Avé-Maria, do Porto, apresentavam o reitor |
(hoje abbade) que tinha 2402000 réisde ren- |
dimento.
É terra fertilissima, e uma das maiores,
mais bonitas e mais ricas freguezias do con- |
celho.
SAN
Nos nossos dias, tem prosperado muitis-
simo, com o dinheiro vindo do Brasil.
É no districto da antiga Terra da Feira.
SANDIM, ou SENDIM —freguezia, Douro,
na comarca e concelho de Felgueiras, (foi
do mesmo concelho, mas da comarca de Lou-
sada) 30 kilometros ao N. E. de Braga, 120
ao N. E. de Guimarães, 370 ao N. de Lis-
boa.
Tem 230 fogos.
Em 1757, tinha 187 fogos.
Orago, S. Thiago, apostolo.
Arsebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
A mitra primacial, e o D. abbade, bene-
dictino, do mosteiro de Pombeiro, apresen-
tavam alternativamente o abbade, que tinha
3002000 réis de rendimento.
É terra muito fertil, e povoação muito an-
tiga.
É certo que por estes sitios se tem acha-
do em varias épocas, vestigios de edifícios,
que denotam ser construcções de eras mui-
to remotas.
Ha aqui uma torre, de que foi senhor,
Gonçalo Lopes de Garvailho, e que pertenceu
aos antigos senhores dos coutos de Negrel-
los e Abbadim. É solar dos Sandins, d'on-
de sahiram os senhores de Riba-Visélla.
S-gundo alguns escriptores, ainda nos
primeiros seculos do clhristianismo existiu
n'este logar, a antiquissima cidade de Au-
fragia, da qual foi governador, Lenciano.
Seus paços estavam ao sopé do monte Co-
lumbino (em portuguez, Pombeiro, ou dos
pombos) e é a actual rica e grande quinta
de Cirgude, à qual estão annexas muitas ren-
das, e uma extensa matta.
Aufragia, foi arrazada pelos mouros, no
principio do 8.º seculo.
(Para evitarmos repetições, vide Aufrugia
e 0 1.º Pombeiro.)
Na Vida e martyrio da insigne virgem e
martyr prodigiosa, Santa Quiteria, escripta
pelo doutor, frei José de Santa Maria, D.
abbade geral da ordem benedictina, publi-
cada em 1722, à pag. 37, diz— «não mui dis-
tante d'ella (a ermida de S, Pedro, da qual
fallei em Pombeiro) estã o Valle da Aufra-
gia, porque é tradição muito commum, e
VOLUME VIII
SAN 389
com ella não faltam opiniões que digam que
aquelle delicioso Valle, que cérca este mon-
te (Columbino, ou Pombeiro) pelas partes
do Nascente, até às do Norte, começando na
freguezia de Sandim, é acabando em Taréja,
foi o Valle da Aufragia, porque nºelle este-
ve situado, no principio de Christandade,
esta cidade (Aufrágia) como assim absoluta-
mente o diz; um gravissimo, ainda que mo-
derno auctor, ! na sua Chorographia portu-
queza, descrevendo o concelho de Felguei-
ras e as suas freguezias, chegando à
de Sandim, diz estas formaes palavras —
Nesta freguezia, em um bello valle, esteve
no tempo da primittiva egrega, a cidade de
Eufrazia, de que foi regulo, Lenciano, cujos
paços estão ao pé do Monte-Columbino, que,
supposto ella pereceu, na invasão dos mou-
ros, de que só ficaram memorias e ha vesti-
gios; permaneceu, entre tantos tormentos,
esta régia casa e a sua grande torre, para
vir a ser, não cova de coelhos, mas morada
e solar, dos senhores d'este appellido (Coe-
lhos) a qual se chama Cergude, etc.»
É tradição que na quinta de Cergude, ou
Sergude, viveu o grande Egas Moniz. ?
No reinado de D. Sebastião, herdaram es-
ta quinta, por casamento, Martim Teixeira
de Azevedo (tronco dos Teixeiras) casado
com D. Maria de Mello Coelho, filha de Gon-
calo Coelho da Silva, o homem da mais agi-
gantada estatura e das mais herculeas forças
do seu tempo.
O actual solar dos Teixeiras Coelhos, é na
Teixeira.
SANDIM—Vide Sendin e Sindim.
SANDOMIL— villa, Beira Baixa, comarca,
concelho e 10 kilometros de Cêa (foi da co-
marca de Gouveia, concelho, extincto, de
Sandomil), 75 kilometres ao E.N.E. de Coim-
bra, 240 4o E. de Lisboa, 400 fogos.
Em 1757, tinha 192 fogos.
Orago, S. Pedro, apostolo.
1 Refere-se à Chorographia do padre An-
-tonio Carvalho da Costa, tomo 4.º, cap. 23,
pag. 121.
2 Parece-me que, quem foi senhor d'esta
quinta, não foi o famoso aio de D. Afionso
Henriques, mas seu sobrinho, o poeta, Egas
“Moniz Coelho, progenitor d'estes Coelhos, de
Cergude.
25
390 SAN
Bispado de Coimbra, districto administra -
tivo da Guarda.
O padroado real apresentava o prior, que
tinha 3508000 réis.
- É povoação muito antiga, e foi um conce-
lho com 1:100 fogos. Tinha casa da camara,
vereadores e mais justiças, cadeia e pelou-
rinho. Foi supprimido em janeiro de 1856.
O pelourinho foi demolido em 4876. Onde
existiu a casa da camara, se construiu —
com os seus materiaes — uma escola de in-
strueção primaria.
Foi senhora donataria d'esta villa, D. Ur-
raca Fernandes, que lhe deu o seu primeiro
foral.
D. Manuel lhe deu foral novo, em Lisboa,
a 40 de fevereiro de 1514. (L.º de foraes no-
vos da Beira, fl. 80, col. 1º)
É terra fertil. Grande abundancia de ga-
do, de toda a qualidade, e muita caça, gros-
sa e miuda.
Produz milho, vinho, azeite, legumes, e
fructa de varias qualidades, que amadurece
muito cedo; pelo que se vende por preços
vantajosos, para diversas localidades.
D. João V, fez conde de Sandomil, em 142
de março de 1732, a Pedro Mascarenhas.
Este titulo está hoje extincto.
Os condes de Sandomil, pertenciam a uma
das mais nobres familias de Portugal; pois
era a mesma dos duques d'Aveiro; marque-
zes de Fronteira; marquezes de Gouveia;
marquezes d'Alorna; condes da Torre; con-
des de Assumar; condes d'Alva; e condes de
Cuculim.
Os condes de Sandomil, traziam por ar-
mas —trez faxas, d'ouro, em campo de púr-
pura. Timbre, um leão de púrpura, armado
e lampassado de ouro.
Actualmente, o unico edifício d'esta villa
que tem brazão d'armas, é a casa do sr. Joa-
quim Manocl da Silveira Castello-Branco.
Esta freguezia é formada pelas seguintes
povoações — a villa, Córgas, Furtado, e Ca-
beça d' Eiras.
As freguezias limitrophes, são — Folhado-
sa, Torrozêllo, Villa-Gova da Coelheira, Val-
lezim, Sezes da Beira, São Gião, Penalva
d'Alva, e Lagos da Beira.
Consta que foi natural de Sandomil, D. frei |
SAN
Bartholomeu dos Martyres, bispo Ro Ultra-
mar, e que morreu no principio d'este se-
culo.
A 2 kilometros da villa, passa a nova es-
trada de Coimbra a Celorico da Beira.
Resídem na villa, trez bachareis, um for-
mado em theologia, outro em direito, e ou-
tro em medicina: alêm d'outros que estão
fóra da terra.
Os francezes, incendiaram aqui trez mo-
radas de casas, em 48140.
Onze pessoas d'esta villa foram culpadas
por causa da revolta de 16 de maio de 1828.
Em 2 de junho de 1847, uma força de in-
fanteria cabralista fuzilou aqui cinco indi-
viduos, por serem patuleias|!
Fica 2 15 kilomeiros da villa de Gouveia.
A egreja matriz fui incendiada pelos an-
nos de 1760, e não se reconstruiu,
Serve desde então de matriz a capella que
está no centro da villa.
Ha n'esta freguezia, mais as caprllas de
Nossa Senhora da Esperança, S. João Ba-
ptista, S. Sebastião, Senhora das Preces, Se-
nhora da Piedade, S. Cosme, Senhora da Es-
pectação, e Santo Antonio.
É cabeça do arciprestado de Sandomil.
Tem direcção do correio, e uma aula de
preparatorios (particular).
Apezar de tudo quanto fica dito, não tem
esta povoação prosperado, o que era de es-
perar, do concurso de circumstancias favo-
raveis ao seu desenvolvimento.
Em 1691, nasceu n'esta villa, Maria do Sa-
cramento, filha de paes nobres. Na edade de
15 annos, entrou para o mósteiro de freiras
franciscanas (de Santa Clara) da villa de Vi-
nhó, na comarca e concelho de Guuveia, on-
de professou, e alli viveu 32 annos, sendo
uma religiosa exemplarissima, e um com-
pendio de todas as virtudes christans. Mor-
reu, com fama de santa, a 2 d'agosto de 1738.
O povo de Vinhó tem grande devoção com
esta freira, à qual attribue muitos milagres.
SANFINS— Vide São- Fins.
SANGALHA — portuguez antigo — medida
sangalha, era de sólidos e liquidos.
SANGALHO — portuguez antigo. — Medida
de pão que constava de cinco selamins, se-
,
|
SAN
gundo documentos dos cruzios de Grijó, e
da Serra do Pilar (Gaia).
SANGALHOS — villa, Douro, na comarca,
concelho e 7 Kilometros a N.N.0. da Anadia
(foi da mesma comarca, mas do concelho de
S. Lourenço do Bairro), 45 kilometros ao 8.
d'Aveiro, 30 ao N.0. de Coimbra, 230 ao N.
de Lisboa, 640 fogos.
Em 1757, tinha 580 fogos.
Orago, S. Vicente, martyr.
Bispado e districto administrativo d'Avei-
To.
O mosteiro de freiras franciscanas, de San-
ta Clara, de Coimbra, apresentava o vigario,
que tinha 2004000 réis de rendimento.
O nome d'esta freguezia, provêm-lhe das
medidas (sangalhos) que os seus moradores
pagavam às religiosas, padroeiras da egreja.
O rei D. Manoel, lhe deu foral, em Lisboa,
a 20 d'agosto de 1514. (L.º de foraes novos
da Extremadura, fl. 101, col. 1.2)
Este foral, serve tambem para— Amoreira
da Gandara, Fogueira, Paraimo, Peregal,
Póvoa da Cortiça, Sá, e São João.
É povoação muito antiga, e, com toda a
certeza, já existia no tempo dos gôdos; pois
no anuo de 1040, os frades do mosteiro da
Vaccariça (Mealhada) fizeram uma justifica-
ção, pela qual provaram, que já antes da in-
vasão dos mouros, em Portugal (716) lhe
pertenciam as seguintes povoações, com
suas egrejas:
Monçárros, Villar de Coreixa, Barrô, San-
galhos, Morangaus (Morangal?), Tamengos,
Horta, Ventosa, Cepins, & outras mais.
D. Fernando III (o Magno) que tinha res-
gatado Coimbra e o seu territorio, do poder
dos mouros, em 4037, confirmou as doações
que os reis gôdos haviam feito aos frades da
Vaccariça, e lhes deu as indicadas fregue-
zias.
cha
« Fica esta parochia, 6 kilometros a E. da
margem esquerda do Cértoma, e 4 kilome-
tros a S.E. da estação do caminho de ferro,
de Oliveira do Bairro.
Ha n'esta freguezia vastos pantanos, que
e
SAN 391
se semeiam d'arroz, o que torna a terra in-
salubre.
A cheia, causada pelos temporaes do in-
verno de 1876, destruiu a ponte de Por-
touro, sobre o Cértoma, e que dava passa-
gem d'esta freguezia para a de Oiiveira do
Bairro.
Nasceu, e ainda vive, aqui uma mulher,
em 1772; tem portanto actualmente (1679)
nada menos de 107 annos. Conserva todas
as suas faculdades moraes, e ainda faz al-
guns serviços caseiros.
Ha no logar da Amoreira, d'esta fregue-
zia, uma lindissima capella, dedicada ao San-
tissimo e Immaculado Coração de Maria,
tendo uma archiconfraria, que todos os an-
nos faz uma esplendida festa à sua Padroei-
ra, que dura trez dias, durante os quaes são
feitas muitas offcrtas à Senhora.
Faz-se n'esta freguezia, uma esplendida
festa a Santa Eufemia.
Ha tambem aqui a nobre e antiga familia
dos srs. Brancos de Mello, filhos do falleci-
do Antonio Maximo Branco de Mello.
a]
Segundo o jornal Campeão das Provincias,
que se publica em Aveiro, um grão de tri-
go, nascido por acaso, na cova arrazada, de
uma videira que se tinha mergulhado, em
um sólo argiloso, do districto d'esta fregue-
zia, produziu, em junho de 1878, TAINTA E
NOVE espigas de trigo, com 40 grãos (termo
médio) cada uma, total 1:560 sementes! .
SANGUÊDO, ou TERREIRO — freguezia,
Douro, comarca, concelho e 42 kilometros
ao N.N.E. da Feira.
Esta freguezia já está descripta sob a pa-
lavra Guêdo (S.) no 3.º vol., pag. 344, col. 2,2;
mas aqui tenho a acerescentar:
O primeiro nome d'esta freguezia, foi San-
ganhêdo, ou Sangunhedo.
É povoação antiquissima, pois, segundo
os documentos que existiram nó mosteiro
de Pedroso (freguezia, no concelho de Gaia)
sabemos que:
Gondezindo, filho d'Ero, e sua mulher, En-
derquina Pala, filha de capitão, Mendo Gu-
terres, tiveram (Gondezindo e Pala) quatro
392 SAN
filhos: — Soeiro, Ermesinda, Adosinda, e
Froila.
No dia 9 das kalendas de março, da era
de Cesar 935 (27 de fevereiro do anno 897 |
de J.-C.), o dito Gondezindo e sua mulher,
doaram ao mosteiro de monges e monjas, da
ordem de S. Bento, do Salvador, de Labra
(o Salvador é ainda o padroeiro da fregue-
!
SAN
Todos estes trez mosteiros foram funda-
dos em quintas dos doadores.
Ainda na mesma data, Gondezindo » sua
mulher, doaram tambem ao mosteiro d: La-
vra (no qual sua filha Adosinda se havir fei-
to religiosa), entre outros muitos bems, os
| padroados das seguintes egrejas:
zia de Lavra, no concelho de Bouças) junto |
à praia do mar (fundato ab antiquo in ripa
maris) e pouco ao N. de Mattosinhos, os trez
mosteiros da mesma ordem, e tambem do-
brados, que haviam fundado, e eram:
1.º— S. Miguel, d' Azevedo (hoje ainda esta
aldeia conserva o nome official de Azevedo,
mas denomina-se vulgarmente, Azeveduce,
na freguezia de S. Jorge de Caldellas, do con-
celho da Feira — para a distinguir de outra
do mesmo nome, à & kilometros ao N.E. d'es-
ta, e na freguezia de Gião, do mesmo conce-
lho. D'este mosteiro de S. Miguel, de Azeve-
do, não existe o minimo vestigio.
(Vide Azevêdo, aldeia, vol. 4.º, pag. 292,
col. 2.2, no fim.)
2.º—São CHRISTOVAM DE SANGANHÊDO, 0n-
de já havia uma antiga egreja de Santa Eu-
lalia, entre Douro e Vouga. (Santa Eulalia,
é ainda actualmente a padroeira da fregue-
zia de Sanguêdo. Vê-se portanto que esta pa-
rochia já existia antes da invasão dos mou-
ros na Lusitania, em 716.)
Ainda existem vestígios d'este antiquissi-
mo mosteiro, junto à egreja; e formava par-
te d'elle, a actual residencia do parocho —
já se sabe, muitas vezes reconstruida.
3.º—S. Pedro, de Dide, entre o Douro e Tá-
mega. (?) Esta dcação fui feita, sendo abbade
do mosteiro de Lavra, D. Desterigo, e com a
condição de ser n'este mosteiro religiosa, sua
filha, D. Froila, à qual deram tambem os doa-
dores, 100 escravos, para que a servissem em
sua vida, e por sua morte, ficassem forros,
bem como suas mulheres, filhos, e netos. «Et
non habeant licentiam ex genere meo acre-
pantandi ! illos, pro servitio.»
1 Quer dizer—E não terão licença de tra-
tar com rigor os escravos, por causa do tra-
balho. Acrepantar, era um verbo do antigo
portuguez, e significava, subjugar, obrigar
ao trabalho, tratar com rigôr, etc.
1.2—Santa Eulalia, de Gondomar.
2:-—São Pedro, de Kauso. (?)
3.2— São Martinho, de Vallongo. (Hoje, São
Martinho do Campo, no concelho de Vallon-
go, comarca do Porto.)
A doação foi feita—«ad Fratres, el Soro-
res, qui ibi sunt avitantes, vel qui ibidem
Dominus super duxerint, et in vita Sencta
perceberint, sub manus de ipsa Abba, et de
ipsa filia mea, jam superius nominatis.»
Protestaram os doadores, que era sua su-
prema vontade, que, em nenhum tem-
po, e sob qualquer pretexto, se
possam estes bens vender, dar,
doar, ou por coutro qualquer
modo alienar do dito mosteiro,
etc.
Na primeira doação que fica referida, on-
de se inclue o mosteiro de Sanganhedo, de-
claram os doadores, que sua filha Froila,
nascera tão aleijada e contrafeita, que sê
não podia sentar; o que atribuiam a casti-
go das suas culpas (d'elles doadores). E para
que Deus lhes perdoass», libertaram todos
OS seus eseravos, e separaram a quinta par-
te de todos os seus bens, que eram immen-
sos, e com ella fundaram e largamente do-
taram os trez mosteiros benedictinos, du-
plex, da primeira doação, e que nella doa-
ram ao mosteiro de Lavra, do qual era en-
tão abbadessa, D. Gelvira.
A D. Adosinda deram tambem 4100 escra-
vos fôrros, d'ambos os sexos, para a servi
rem emquanto ella vivesse.
Esta mesma senhora, depois da morte de
sua mãe, fundou com varias herdades do
seu dote, o mosteiro de S. Martinho, d' Avin-
tes, sobre a margem esquerda do Douro, e á
3 kilometros ao E. do Porto; ao qual seu paé
doou o senhorio da mesma villa d'Avin=
tes.
SAN
* Estas escripturas de doação acham-se,
originaes, no archivo da universidade de
Coimbra.
SANGUINHÊDA — aldeia, Douro, na co-
marca e concelho da Tábua (foi do mesmo
concelho, mas da extincta comarca de Mi-
dões—e antes d'isso tinha sido do concelho
de Farinha "odre) 35 kilometros de Coim-
bra, 240 ao N. de Lisboa. Tem 400 fogos.
Esta povoação, que é muito antiga, foi
villa, e hoje nem freguezia é, pois está ha
muitos annos annexa à da Garapinha. (Vi-
de esta palavra.)
Foi antigamente cabeça de concelho, com
justiças proprias.
D. Manoel I, lhe deu foral, em Lisboa, a
2 de novembro de 1513. (L.º de foraes no-
vos da Beira, fl. 57 v., col 2.º)
Esta povoação tem decahido muito da sua
antiga importancia.
Para a etymologia de Sanguinhêda e San-
guinhêdo, vide o ultimo periodo do 3.º San-
guinhêdo.
SANGUINHÊDO —aldeia, Traz os Montes,
na freguezia de Codeçoso do Arco, comarca
e concelho de Montalegre (foi do concelho
das Boticas da mesma comarca).
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Villa Real.
A freguezia de Codeçoso do Arco estã ha
muitos annos annexa à de Santa Marinha do
Ferral.
Pela aldeia de Sanguinhêdo passava uma
das qnatro vias militares, romanas, que de
Braga hiam a Astorga.
Aida no fim do seculo passado, existia
aqui um marco milliar, dedicado ao 'impe-
rador Claudio.
Estava servindo de hombreira da porta
de um curral. (!)
Tinha esta inscripção:
CLAUDIUS CAESAR
AUG. GERMANICUS
PONT. MAX IMP,
V. COS. HI TRIB.
POT. 1. P. P. BRAC.
AUG. XXXV,
(O imperador Claudio Cesar Augusto,
germanico, Pontifice Maximo, imperador cin-
SAN 393
co vezes, e trez vezes investido do poder tri-
bunicio; mandou concertar este caminho.
D'aqui a Brachara Augusta, são 35:000 pas-
SOS.) )
Vê-se da inscripção, que esta via mi-
litar foireparada no anno 43 de J. C.; pois
que era então Claudio, pela 3.º vez do poder
tribunicio, em 41.
Sendo imperador Trajano, mandou repa-
rar esta estrada, no anno 103 de J. C., des-
de Braga até diante d'esta aldeia de Sangui-
nhêda.
O doutor João de Barros, nas suas Anti-
guidades d'Entre o Douro e Minho, mencio-
na dvus marcos milliares d'esta estrada, que
provam aquella data, pois que Trajano, teve
a 7.º vez o poder tribunicio, desde outubro
de 103, atê 404.
Um d'estes marcos estava no logar da
Pastoria, a 6 kilometros de Chaves, e di-
zia—
IMP. CAESAR
DIVI NERVAE
F. AUG. GERM. MAX.
TRIB, POT. VII IMP. IV.
AQUIS FLAVIS
M. P. IV.
(Dedicado ao imperador, Cesar, filho do
divo Nerva Augusto, Germanico, Maximo,
do poder tribunicio sete vezes, imperador à
4.2 D'aqui a Braga são 4:000 passos.)
Junto a Sanguinhêdo, e na mesma fregue-
zia, estava outro marco, que dizia—
IMP. CAES. DIVI
NERVAE F. NERVAE
TRAIANO AUG. GER.
DACICO. PONT. MAX.
TRIB. POT. VII. IMP. IV.
AQUIS FLAVIS M. P. XLII.
(Dedicado ao imperador Cesar Nerva
Trajano, filho de divo Nerva, Augusto, Ger-
manico, Dacico, Pontifice Maximo, do poder
tribunicio sete vezes, e a 4.º vez imperador.
D'aqui a Chaves, são 42.000 passos.)
No anno 46 de J. C., o mesmo Trajano
mandou concertar esta estrada, segundo
consta de outro marco millar que existia
proximo da povoação das Boticas e tinha
esta inscripção —
SAN
IMP. CAES. TRAIANUS
AUG P. M. TR. POD.XX.
REFICLT AQUIS FLAVIS
M. P. XLII
(O imperador Cesar Trajano Augusto,
Pontifice Maximo, do poder tribunício 20 ve-
zes, reformou esta estrada. D'aqui a Chaves,
são 43:000 passos:)
Consta tambem, que esta mesma estrada
se reconstruiu no tempo do imperador
Adriano, piincipiando as obras em agosto
do anno 136.
Prova-se isto, por um marco milliar que
exista no cemiterio do hospital real,ide Cha-
ves, e diz—
IMP. CAES. TRAIANUS
ADRIANUS AUG.
P. M. F. POT. XX REFE-
CII. AQUIS FLAVIS
MPa.
(O imperador Cesar Trajano Adriano Au-
gusto, Pontifice Maximo, do podor tribuni-
cio 20 vezes, mandou reparar esta estrada.
D'aqui a Chsves, são 2:000 passos.) Vem a
ser 3 kilometros.
——
Ainda por estes sitios teem apparecido ou-
tros padrões (marcos milliares) que não
menciono, para não enfadar o leitor.
Sanguinhêdo, é uma povoação antiquissi-
ma, e foi freguezia independente, com 60 fo-
gos; mas supprimiu-se ha muitos annos,
unindo-se à de Codeçoso do Arco.
D. Sancho II, (o Capéllo) achando-a aban-
donada, a mandou povoar, em 1223.
É terra fertil em pão, vinho, e cria mui-
to gado, de toda a qualidade.
É abundante de caça.
SANGUINHÊDO, ou SANGUINÊDO — rio
do Misho.
Diversas doações, do tempo da anarchia,
mencionam este rio, e dizem que corria por
baixo do Monte de Santo Adrião, a par da
villa de Lagenas, e junto à villa de Guadi-
nales, por baixo do monte Barriello.
Vem a ser o rio que passa pela villa de
Regalados, e que hoje se chama Cabariz.
Passa por uma rendosa propriedade que
SAN
ainda conserva o antigo mome d'este rio
(quinta de Sanguinêdo).
Desagua no rio Homen, pouco antes d'es-
te se juntar ao Cávado.
SANGUINHÊDO —aldeia, Beira Alta, na
freguezia de S. Pedro de Cotta, concelho,
comarca, districto administrativo, bispado e
16 kilometros ao N. O. de Viseu. (Foi do
extincto concelho de Mões, comarca de Cas-
tro-Daire.) Vide 2.º vol., pag. 411, col. 4.º
Proximo à aldeia de Sanguinhêdo está a
capella de Nossa Senhora do Freixo, de con-
strucção antiquissima.
Ao sitio onde está construida esta capella,
dá o povo o nome de Terra de Santa Ma-
ria.
Não se sabe porque deram a esta senho-
ra o titulo de Santa Maria do Freixo, pois
que, nem n'aquelle logar, nem por aquelles
arredores, ha freixos.
O templo está em uma cova, e para se
entrar n'elle, é preciso descer bastantes de-
graus. Tem uns 7 metros de comprido, por
2.750 de largo, no corpo da egreja. A capel-
la-mór, tem 4 metros de comprido e 3,750
de largo. O arco que divide a capella-mór,
do corpo da egreja, é muito mais moderno
do que esta, pois foi construido em 1549,
segundo se vê da data, gravada em um dos
pés direitos d'elle.
Os povos d'estes sitios teem muita devo-
ção com esta Senhora, é antigamente vinham
aqui muitas procissões pelo decurso do an-
no. No dia da Ascenção do Senhor, vinha à
de S. Pedro de Cotta, com o seu parocho e
freguezes—Vinha a de S. Sebastiã: de Quei-
riga, que se juntava com a de Colta—Na
quinta feira santa, vinha a da freguezia da
Ermida. Alem d'estes dias, ainda vinham
aqui outras procissões e romarias.
Não tem irmandade, porem mórdemos an-
nuaes, que lhe fazem a festa, e cuidam da
conservação e reparos da ermida, à custa
de esmolas e offertas dos fieis.
Alem d'estes trez logares com o nome de
Sanguinhédo, e do de Sanguinhéda, ha ain-
da outras aldeias em Portugal com à mesma
denominação.
Ou elle se deriva de sanguinho, tambem
|
|
º
SAN
chamada Sempre-noiva, que é uma planta
rasteira e medicinal, bem conhecida—ou de
Sanguinho ou (Sanguinhairo) arvore silves-
tre, muito vulgar nas nossas mattas incultas.
SANGUINHEIRA — aldeia, Alemtcjo, na
freguezia da Amieira, concelho de Portél.
(Vide vol. 1.º, pag. 199, col. 1.º, 2.º Amiei-
ra.)
Fica esta aldeia proxima 6 ao N. da villa
da Amieira, depois de se passar uma pe-
quena ponte de pedra, sobre o ribeiro da
Amieira.
No alto de um outeiro, povoado de oli-
veiras, está à antiquissima ermida de Nossa
Senhora da Sanguinheira, que, segundo à
tradição, foi no tempo dos romanos, um tem»
plo dedicado à deusa Lucina, invocada pe-
los idolatras, nos parto: difficeis de suas mu-
lheres. 1
A capella-mór da ermida, é fechada de
abobada de pedra.
Alem do altar-mór, tem dois lateraes, No
corpo da egreja; é tanto esta como aquella,
foram antigamente revestidas interiormente
de azulejos.
Para a porta principal, se sóbe por qua-
tro degráus, e se entra em um átrio, tão an-
tigo como o templo.
Já em 1711 se queixava frei Agostinho de
Santa Maria (Sant. Mar., tom, 3.º, pag. 430)
que a devoção a esta Senhora, estava muito
fria.
Tinha um unico sino, que os castelhanos
roubaram no seculo XVII.º, durante a guer-
ra da independencia.
1 Parece-me que não passa de uma
fabula, e que se diz isto por causa do titulo
da Senhora (Sanguinheira) e porque ainda
hoje esta Senhora é invocada pelos fivis,
quando suas mulheres estão com as dores
da maternidade.
- Tambem dizem que se deu esta invocação
à Senhora, por ser advogada das mulheres
naquellas occasiões; quando tal denomina-
ção só procede de estar a ermida em sitio
onde antigamente havia sanguinheiros (ou
sanguinheiras—Vide o 3.º Sunguinhêdo, no
fim.)
A verdadeira invocação da padroeira, é
Nossa Senhora da Natividade, e tanto que a
festa se faz no seu dia proprio, a 8 de se-
tembro.
SAN 595
Tinha esta ermida muitas propriedades e
rendas, annexas a uma capella, cabeça do
vinculo, cujo administrador era obrigado à
fabrica e despezas da casa da Senhora, e de
mais trez ermidas—a do Salvador, a do Es-
pirito Santo, e a de Santo André.
Estas propriedades e foros, vieram depois
à corôa, e D. João IV, deu tudo (1642), á
Santa casa da Misericordia, da Amieira, que
era pobre; com a condição de fazer a festa
à Senhora, ficar ohrigada aos reparos do
templo, e mandar n'elle dizer duas missas -
cada semana.
Muitas d'estas rendas, fo-
ram...... perdidas, e a Mi-
sericordia abandonou a Ca-
pella
A imagem primittiva da Padroeira, tão
antiga como a capella 1 estava tão mal feita,
que fui mandada enterrar pelo visitador, é
a actual foi esculpturada pelos annos de 1686.
Ainda no seculo passado vinham em cada
anno trez procissões a esta capella—a Da,
no domingo do Espirito Santo—a 2.2, na
quinta feira de Corpus Christi—e a 32, nO
dia 8 de setembro, dia da Nativilade da Se-
nhora.
Para cada uma d'estas procissões, tinha à
Misericorda da villa da Amieira, obrigação
de dar 60 cirios, pela instituição do vinculo
de que já fallei.
Por não ter ido no Ingar competente, di-
rei aqui o seguinte.
Na villa da Amieira, nasceu o feroz Fran-
cisco de Mattos Lobo, a 2 de julho de 18144.
Era filho de José Pedro de Mattos Conde, o
de D. Maria Vicencia.
Destinado por seus paes á vida ecelesias-
tica, foi mandado, em 1829, para o Semina-
rio de Sernache do Bom-Jardim, onde estu.
dou grammatica latina, rhetorica e philoso-
phia, e se distioguiu, mais do que pela sua
applicação, pelo seu genio turbulento e pou-
co religioso.
Fechado o Seminario, em 1834, regressou
1 Alguem pretende que era à propria es-
tatua de Lucina, transformada na santa ima-
gem, depuis, pelos christaos. seria.
396 SAN
Mattos Lobo a casa de seus paes, e foi des-
de então que deu largas ás suas paixões. Fi-
liou-se no partido liberal, a que tambem
pertencia seu pae, e nas desordens e tumul-
tos entre a villa da Amieira e a do Gavião 1
fez-se cabeça de motim, e tornou-se tão sa-
lisnte pelo seu mau procedimento, que até
seu pae o reprehendia por muitas vezes,
agourando-lhe mau fim.
Para não cançar o leitor com a historia
d'este scelerado, tão geralmente conhecida,
direi apenas:
Consta que, ainda estudante, em Serna-
che do Bom-Jardim, roubára o relogio, d'ou
ro, a um seu condiscipulo. Que a um tio,
que fôra capitão-mór da villa de Mação,
roubára um faqueiro de prata. E, finalmen
te, que assassinára um pobre soldado do
exercito realista, convencionado em Evora-
Monte.
Seu pae, viu-se obrigado a expulsal-o de
casa, pelo seu pessimo comportamento, e
pela falta de respeito com que tratava os au
ctores de seus dias.
Tinha vindo para Lisboa, sua prima, D.
Adelaide, viuva do pianista, João Evange-
lista Pereira da Costa, natural de Proença
Nova (BB) fallecido em Calais (França) em
1832.
Viera esta senhora, sob o pretexto de edu-
car seus dois filhos; porem mais ainda, por
conselho do primo de seu marido, o padre
João Pereira, para se subtrahir às indignas
perseguições de Mattos Lobo.
Assentou a sua residencia em uma casa
de trez andares, na rua de S. Paulo n.º.5,
com frente tambem para a rua Nova do
Carvalho, e junto ao arco grande, da rua do
Alecrim.
- Mattos Lobo, soube d'esta fuga, e mar-
1! Depois de 1834, os de Gavião queriam
que o concelho da Amieira fosse supprimi-
do, e encorporado ao seu; o que consegui-
Fam, mas por pouco tempo; porque, é ver-
dade que o concelho deixou de existir, mas
passou a fazer parte do de Portel.
Estas rivalidades, deram causa a grandes
motins.
SAN
chou para Lisboa, em perseguição da sua
victima, que, ou com vontade, ou sem ella,
e temendo algum escandalo, teve de orece-
ber em sua casa. :
Vivia D. Adelaide, com sua filha Julia,
menina de 17 annos; seu filho Emygdio Pe-
reira da Costa, de 11 annos; e uma creada.
Pelas 41 horas da noite de 25 para 26 de
julho de 1844, o filho de um negociante que
morava na casa fronteira, via um homem
passear no quarto da menina Julia, e uma
cadellinha d'esta ladrar-lhe freneticamente,
e o homem pegar n'ella e arremeçal-a pela
janella.
Fez-lhe isto grandê impressão, e deu par-
te a uma patrulha.
Esta, e outras auctoridades, suppondo al-
gum crime, se dirigiram à casa de D. Ade-
laide, e, como estivesse fechada e trancada
por dentro, teve de servir-se de uma escada
e entrar por uma janella, o capitão Barrote,
da guarda municipal, que abriu a porta aos
mais.
Examinada a casa, foram achar esten-
didas em um grupo, e alagadas em sangue,
a dona da casa, seu filho e a creada, todos
mortos!
Ouvindo suspiros afflictivos em um quar-
to distante, foram dar com a menina, ferida,
com 17 punhaladas, e com o punhal do as-
sassino, que, atravessando-lhe o ventre, foi
cravar-se na espinha dorsal!
Esta menina ainda vivia, e conservava to-
da a lucidez de espirito. Interrogada pelas
auctoridades, declarou que o assassino de
todas estas quatro victimas, fôra seu primo
Francisco de Mattos Lobo.
Esta desgraçada menina ainda viveu até
às 10 horas do dia seguinte, e repetiu a sua
declaração, perante as auctoridades civis e
administrativas.
Perguntando-lhe estas, se o roubo seria 0
motivo destes crimes, respondeu que não
sabia; mas indicou os logares onde sua mãe
guardava as pratas da casa, e pediu que fos-
sem ver se lá estavam. Nada faltava.
Como tivesse dito que seu primo ainda
estava n'aquella casa, foi procurado por to-
da a parte, mas não appareceu.
À
À
À
|
SAN
Perguntaram-lhe se sabia onde elle mo-
rava, e respondeu que na rua de S. Bento,
n.º 4, 4.º andar.
O capitão Barrote, mandou immediata-
mente um alferes com quatro soldados, pro-
ceder à prizão. Foram achar o monstro mui-
to descançado em sua casa; e, tendo chega-
do n'aquelle momento, apenas tivera tempo
de tirar O casaco, e estava em mangas de
camiza, e com a maior desfaçatez e sereni.
dade.
O alferes perguntou-lhe:
—EÉ o sr. Francisco de Mattos Lobo?
Respondeu orgulhosamente:
—Eu mesmo.
—S senhor acaba de assassinar uma fa-
milia inteira.
—É mentira. Em casa não ha ninguem
que possa provar isso (!!!) 1
—Engana-se. Sua prima Julia, ainda não
morreu.
O malvado perturbou-se, mas, tomando
logo o seu descarado sangue-frio, respon-
deu muito admirado:
—Pois ella ainda está viva?
—Estã viva e declarou tudo.
Mattos Lobo, encolheu os hombros, e não
respondeu.
O alferes disse-lhe:
— Vista 0 casaco e acompanhe-me.
Lobo, queria mudar de roupa, mas o al-
feres, vendo-lhe as calças, o colête e as mãos
manchadas de sangue, não consentiu.
Ao pôr o chapeu na cabeça, cahiu delle
um rôlo de papeis e, entre elles, trez acções
do banco commercial do Porto, tudo perten-
cente a D. Adelaide. O official, apoderou-se
immediatamente d'estes papeis.
O assassino, estava tão des-
orientado quando acabou de
commetter tantos e tão gran-
des crimes, que não reflectiu
que fazia um roubo inutil, pois
que todos estes papeis não lhe
1 Não é preciso dizer aos meus leitores,
que não estou a fazer um romance, mas a
escrever um diccionario. Tudo quanto digo
d'esta damnada fera, é da mais rigorosa ver-
dade, e foi plenamente provado nos autos.
SAN 397
serviam de mais nada senão
para a sua condemnação.
A entrada d'este malvado na casa das suas
victimas, causou um terror geral.
Mattos Lobo, era corpulen-
to, muito trigueiro, grande bô-
ca, beiços grossos, olhos fero-
zes e feições pronunciadas. Era
o typo completo de um assas-
sino.
O capitão Barrote, disse-lhe:
—Vossê é'o Francisco de Mattos Lobo?
O malvado, em vez de responder á per-
gunta, disse descaradamente:
— Eu não matei ninguem.
Foi levado à presença dos cadaveres de
D. Adelaide, do filho e da creada.
O assassino, metteu as mãos debaixo dos
braços, e poz-se a olhar para as victimas
com a maior indifferença.
Foi depois levado ao quarto da menina,
que ainda vivia. Ella, apenas o viu, disse,
com voz já muito debil: —É elle, é o mesmo
Mattos Lobo, que nos matou.
Elle respondeu descaradamente: —É men-
tira.
O official, ao vêr-lhe as mãos ensanguen-
tadas, perguntou-lhe: — Que é isso? — Elle
respondeu com a maior indifferença: — É
sangue.
Interrogado sobre os motivos que o leva-
ram a perpetrar tantos crimes, respondeu
que D. Adelaide queria que elle casasse com
a menina Julia, e como elle se recusasse à
isso, ella (D. Adelaide) e a criada se lança-
ram a elle, armadas de facas, e então teve
de fugir pela janella que dava para 0 arco.
— Então porque não gritou?
—Porque não queria que me imputassem
estas mortes. (!)
O desgraçado contradizia-se em todas as
suas respostas.
D. Julia, disse aos circumstantes, que Mat-
tos Lobo raras vezes hia áquella casa, e que
tal casamento jámais havia sido fallado, nem
pensado.
D'alli foi conduzido ao Carmo, e lá con-
fessou que tinha assassinado, por ciumes (!)
toda aquella gente.
O monstro, não satisfeito de ter roubado
398 SAN
a vida a quatro innocentes, quiz tambem
roubar-lhes a honra!
Todavia, apezar da prova incontestavel do
roubo, negou-o «empre, dizendo que as trez
acções, as havia recebido à conta do dote
para o seu casamento com D. Julia!
Depois de não ter negado o crime, inven-
tou outra mentira. —Disse que na casa havia
um hospede, que teve desordem com a fa-
milia, e a assassinou. Elle acudiu ao baru-
lho, mas, como visse todos mortos, fugiu,
para evitar incommodos.
-— Então porque tem vossê as mãos ea rou-
pa manchadas de sangue? — Não sei.
As calças estavam tão man-
chadas de sangue, no sitio dos
joelhos, que tinha repassado
as seroulas, e até chegado à
pelle: signal evidente de que
elle tinha ajoelhado sobre al
guma das victimas, para a aca-
bar.
— Quem era esse hospede que matou as
quatro pessoas?
— Não o conheço: só sei que é da pro-
vincia.
Pelas 3 horas da manhan, tornaram a le-
val o á casa onde perpetrêra os crimes, para
se formar o auto de exame e corpo de de
licto. ;
D'este exame, viu-se que, D. Julia tinha
17 punhaladas; Julio, 14; e D. Adelaide e a
creada, mais de 301! O punhal com que fo-
ram feitos os ferimentos, era uma especie
de faca de matto, grosseiramente fabricada,
e de 07,33 de comprido.
A infeliz menina, ainda teve forças para
repetir tudo quanto já tinha dito.
Enião o scelerado virou-se para ella, e
disse-lhe: — A prima bem sabe porque isso
foi. (!)
Quando o malvado foi d'alli removido de
novo para o Carmo, já era dia claro, e já
muita gente sabia do acontecido, e se tinha
agglomerado à porta onde tivera logar a tra-
gedia; e se não fosse a grande força da guar-
da municipal que o escoltava, seria despe-
daçado pelo povo. '
Na tarde do mesmo dia 26 de julho, foi o
reu conduzido, no meio de uma grande for -
“a de infanteria e cavallaria, para a cadeia
SAN
do Limoeiro, e, pelo trajecto, grande traba-
lho teve a tropa para livrar o malvado do
justo rancor do povo lisbonense.
Durante os oito mezes e 20 dias que este-
ve no Limueiro, conservou-se quasi sempre
com a maior audacia e sangue-frio, negan-
do obstinadamente os crimes. Escreveu va-
rios artigos para os jornaes, pretendendo
justificar-se, mas cahindo sempre nas mais
absurdas contradicções. N'estas correspon-
dencias, e mesmo em cartas particulares, in-
sultava os juizes, 03 empregados da cadeia,
e sobretudo os medicos.
Quando os remorsos o accommettiam com
mais violencia (se é que póde ter alguns re-
morsos uma alma tão depravada) tentava
suicidar-se; pelo que foi preciso vestir-lhe
o colete de força. Sendo, na 1.º instancia,
sentenciado a pena ultima, appellou para à
relação, e não conseguindo annullar o pro-
cesso, recorreu de revista, para o supremo
tribusal de justiça, mas não teve provimen-
to (4 de março de 1842).
Foi então que, perdendo toda a esperan-
ça de escapar a uma morte infamante, pelos
crimes de assassino e ladrão, perdeu o seu
orgulho, e deixou de comer, no proposito de
morrer de fôme; pelo que foi preciso deita-
rem-lhe, à força, o caldo de gallicha por um
funil.
Custa a crer, mas é verdade — este ho-
mem, apezar dos scus monstruosos crimes,
teve muitos protectores, é foi isso à causa
de o seu processo levar quasi nove mezes à
terminar. |
Foram tambem estes protectores que ten-
taram (mas, por fortuna, inutilmente) obter
do poder moderador a commutação da
pena.
O assassino estava então desanimado. Já
não era o insolente orgulhoso, que insulta-
va a todos: tornára-se humilde para com os
seus guardas, até à mais nojenta baixeza.
Foi por este tempo (27 de janeiro de 1842)
que Antonio Bernardo da Costa Cabral (ho-
1 A audiencia do julgamento. foi logo a 30
d'agosto, 35 dias depois do crime; porém os
recursos entretiveram quasi oito mezest
À
|
SAN
je marquez de Thomar) fez a revolta do Por-
to, restaurando a carta constitucional.
Os amigos de Mattos Lobo, deram-lhe es-
peranças de escapar à forca, em vista da
nova phase politica, e elle tornou a ser O
reu altivo, motejador e impertinente; mas,
pouco lhe durou este periodo de mal funda:
das esperanças. A mudança de politica nada
influiu no seu destino fatal.
A desesperação apossou se novamente
desta alma depravada. Só lhe ficou a im-
penitencia, e a falta completa de arrependi-
mento.
Negava-se obstinadamente a ouvir os cle-
rigos destinados au soccorro espiritual dos
condemnados: só quiz ter a seu lado, o seu
antigo amigo, o prior de Marvão.
Este padre, tinha estado pre-
zo alguns annos, por varios
crimes.
Em 1834, fez como outros
muitos— disse que estava pre-
so por liberal, e foi solto.
Era homem turbulento, vin-
gativo e rancoroso.
Ainda depois de posto em
liberdade, continuou, a seu
pedido, a ficar sendo capellão
do Limoeiro.
Era só d'este padre que Lobo queria ou-
vir missa, e era só a elle que se confessava.
Entre estes dous homens, havia um laço
mysterioso de união, que ficou para sempre
ignorado.
Até 25 de março escreveu cartas a diffe-
rentes conhecidos, e a tigos, quasi todos in-
convenientes e agressivos, para os jornães.
Finalmente, a 14 de abril, pelo meio dia,
foi-lhe lida a sentença que o condemnava à
morte. O reu, que havia sempre mostrado a
maior insolencia, e o mais ignobil descara-
mento, desmaiou, e esteve muito tempo sem
sentidos.
Foi logo conduzido ao oratorio, e só en-
tão se resolveu a que o prior dos Martyres O
ouvisse de confissão ; mas este recusou-se,
respondendo que isso competia ao prior de
Marvão, ao qual até alli se tinha confessado-
O padre Gregorio de Salles Pinto, que es
tava nO oratorio, empregou todos os seus
wi meme
SAN 399
recursos oratorios, na conversão do reu, e
conseguiu o.
O ihesoureiro dos Martyres, que era ami-
go, ou, pelo menos, conhecido de Mattos Lo-
bo, instou com elle, para que fizesse uma
publica confissão do seu crime.
O reu consentiu, e pediu ao padre Salles
que a escrevesse, e assignou-a.
Pelas 114 horas do dia 15 de abril de 184%
sahiu do oratorio, para o patibulo, em uma
cadeirinha, em razão do seu estado de aba-
timento.
Ao meio dia, chegou ao sitio onde tinha
commettido os crimes, e onde devia dar trez
voltas, em cumprimento da sentença.
O padre thesoureiro dos Martyres (José
dos Santos Silva) de uma das janellas da
casa de D. Adelaide, fez uma commovente
prática allusiva ao crime, e leu a declaração
que o reu havia assignado no oratorio, con-
fessando que fôra elle o unico auctor d'a-
quellas mortes, repentina e inevitavelmente
arrebatado por circumstancias graves do mo-
mento, e por força de uma cega e louca pai-
ão, originada de muito antes, mas que to-
cára então o seu termo, sem ideia alguma de
roubo.» :
O reu ouviu tudo isto com a maior im=
passibilidade, e completamente aniquilado.
O seu rosto causava pavor a toda a gente,
e uma escuma sanguinolenta sahia de seus
grossos labios.
Chegado o funebre préstito ao caes do Tójo
(à Bôa Vista)! foi o reu entregue ao carrasco,
1 Em Lisboa havia então dois logares de-
nominados Caes do Tójo; o primeiro, era no
sitio hoje occupado pela estação principal dos
caminhos de ferro do norte o lrste, e era ahi
que estava uma força permanente, onde eram
suppliciados os assassinos e ladrões. Este
logar porém, é no districto da freguezia de
Santa Engracia, e como o dia 15 de abril, é
santificado alli, por ser o da padroeira, foi
Mattos Lobo enforcado à Bôa Vista.
O segundo, que ainda existe com o mes-
mo nome, apezar das grandes alterações que
no sitio se fizeram, com o formoso atêrro
da Bôa-Vista, é perto ea E. da Rocha do
Conde d' Obidos, no districto da freguezia de
Santos-o- Velho.
Ambos estes logares são à beira do Tejo,
um (o 4.º) no bairro oriental; e outro (o 2.º)
no oceidental, de Lisboa.
400 SAN
que teve de o subir em braços pela escada
do patibulo.
O prior de Marvão, disse debaixo. —Filho,
dize de todo o teu coração: Vargem Maria,
encaminha a minha alma... Não pôde di-
zer mais, porque cahiu morto, com uma
apoplexia fulminante.
Muitos dos espectadores dizem que, quan-
do Mattos Lobo viu cahir morto o seu anti-
go amigo, olhára, para o cadaver, com um
pronunciado gesto de satisfação. Porque ? —
Ninguem o souba.
Para terminar esta horrivel historia, direi,
que o reu morreu enforcado, e a justiça dos
homens foi cumprida.
Na mesma tarde do supplicio, os lentes da
escola medico-cirurgica de Lisboa, os dou-
tores, Francisco Martins Polido, e Jvão José
de Simas, tomaram conta do cadaver do sup-
pliciado, para no seu craneo fazerem expe-
riencias pbrenologicas; as quaes se verifica-
ram nos dias 17 e 18, no theatro anatomico
do hospital real de S. José onde ainda exis-
te a cáveira.
O exame demonstrou que a organisação
da cabeça de Mattos Lobo, affirmava os cara-
cteres proprios dos facinorosos, e a propen-
são para a destructiwidade, ao passo que as
secções correspondentes ás faculdades mo-
raes e intellectuaes, eram diminutissimas ;
d'onde se mostrava que os bons sentimen-
tos e a intelligencia, deviam ter n'este faci-
nora, um mui pequeno desenvolvimento: o
que estava provado pelos factos, em vista
dos insignificantes resultados dos seus tra-
balhos intellectuaes.
SANGUNHEDO — aldeia, Traz-os-Montes,
concelho das Boticas, comarca e 18 kilome-
tros ao 8. de Montalegre, e na freguezia do
Salvador de Eiró. (Vide Eiró )
Ao meu esclarecido amigo, o reverendis-
simo sr. José dos Santos Moura, dignissimo
Abbade de Caires, e que tantos e tão rele-
vantes serviços tem feito ao Portugal Anti-
go e Moderno, devo os apontamentos que
constituem este artigo.
A freguezia de Eiró, está situada na mar-
gem direita do rio Térva; e na parte E. da
serra de Leiranco, em uma baixa e amena
SAN
planicie. Era commenda da ordem de Chris
to, e seus commendadores, os marquezes de
Marialva.
Compõe-se de trez povoações—Eiró, séde
da parochia — Boticas, capital do concelho
d'este nome, e Sangunhedo.
Os commendadores, recebiam os dizimos
d'esta freguezia e da de Santa Maria da
Granja, que era da mesma commenda.
A egreja matriz da freguezia, é muito an-
tiga, e foi reedificada om 1817. O vigario,
principiou a ter o titulo de reitor em 1837.
A freguezia está abrigada do N. e N. 0.
pela serra de Leiranco, e como é abundan-
te d'aguas, o seu sólo é fertilissimo, em
centeio, milho, legumes, hortaliças, vinho
(verde) excellente fructa, e optima castanha.
Eiró e Sangunhedo, eram casaes cerra-
dos.
Pelo centro da freguezia corre (de N. a 8.)
um ribeiro, que tem duas origens—uma ao
N., no sitio do Fontão, e por isso, chamado
ribeiro do Fontão — outra, ao O., junto às
povoações de Seirães e Quintas, chamado,
ribeiro de Ladrêdo, ou Córgo da Ribeira.
Juntam-se abaixo da villa das Boticas, e com
d kilometros de curso, logo abaixo da ponte
de Requeixo, mas ainda na freguezia de
Eiró, no sitio da Palla, na direita do Térva,
que corre ao S. da freguezia.
O ribeiro de que fallei, tem duas pontes
—uma junto á povoação de Sangunhedo—
outra nas Boticas — e um pontão, na con-
fluencia dos dous ribeiros. Regam, móem, é
criam algum peixe miudo.
A freguezia, é atravessada por uma estra-
da real, antiga, que de Chaves vae a Braga,
passando pelo centro da villa das Boticas, 1
sendo aqui cortada por outra estrada, tam-
bem antiga, que de Villa-Real se dirige a
Montalegre, e d'aqui á Galliza, na direcção
de S. E. a N. O.
São ambas muito frequentadas.
Tambem pela villa das Boticas, passava
uma das quatro vias militares romanas que
de Braga hiam a Astorga, por Chaves.
Segundo o novo traçado, ainda ao N. de
1 À esta nova villa, dá-se vulgarmente a
denominação de Boticas de Barroso.
SAN
Eiró, ha de passar a nova estrada em con-
strucção, de Braga a Chaves; e pelo meio das
Boticas, a estrada districtal, de Montalegre
a Villa-Real.
Nas Boticas, ha duas escolas de instru-
cção primaria, uma para cada sexo, e duas
feiras (mercados) à 5 e 20 de cada mez. Fo-
ram creadas em 1787.
Capellas na freguezia de Eiró
1.2 Santo Aleixo — em Sangunhedo, per-
tencente aos moradores da aldeia.
2.2 Nossa Senhora das Necessidades—na
aldeia de Eiró. E particular, e foi mandada
construir, por Lazaro Vieira de Carvalho,
juiz dos orphãos em Montalegre. Pertence
hoje (1879) ao sr. Antonio Joaquim Aunes,
da mesma aldeia.
3.2 8. Francisco — no centro da villa das
Boticas. Foi fundada por João Baptista de
Queiroga, juiz de fóra, de Braga. É particu
lar, e pertence, actualmente, aos herdeiros
de José Maria da Silveira, residentes em
Braga.
Era natural das Boticas, o bacharel, fun-
dador da ermida de S. Francisco, que falle-
ceu no principio d'este seculo.
Foi juiz de fóra, em Braga; corregedor,
em Santarem; ouvidor em Chaves. Foi so-
gro do doutor Francisco Antonio de Sousa
da Silveira, natural de Braga, fidalgo da ca-
sa real (em 1783) e desembargador do paço.
Teve este trez filhos, todos nascidos nas
Boticas, e que tiveram o foro de fidalgos da
casa real, eram Antonio da Silveira, José Ma-
ria da Silveira, e Joaquim Alberto da Sil-
veira.
Em Sangunhedo, nasceu o bacharel João
Monteiro de Miranda advogado, e que vivia
em 1813. É bisavô materno do sr. Augusto
Xavier Teixeira, filho do sr. Manuel Joa-
quim Xavier Teixeira e de D. Leonor Xa-
vier Monteiro de Miranda. RAS
O sr. Augusto, nasceu em Sangunhedo, a
25 de setembro de 1855.
Estudou preparatorios em Braga, obtendo
em seus exames, varias distincções. Matri-
culou-se, na universidade de Coimbra, nas
SAN 401
faculdades de mathematica e philosophia,
em 1872. Sentou praça, em 28 de julho de
1874, no regimento de artilheria n.º 1, em
Lisboa, e foi feito alferes alumno, em 1 de
agosto do mesmo anno. Matriculou se na es-
cola do exercito, em novembro de 1876, con-
cluindo o curso em 1878. Obteve seis pre-
mios na universidade de Coimbra, e no 1.º
e 2.º annos da escola do exercito. -
Tambem em Sangunhedo, nasceu, no 4.º
de janeiro de 1851, o sr. Abel Xavier Tei-
xeira de Magalhães, filho natural do dito sr.
Manuel Joaquim Xavier Teixeira, e Maria
Joaquina Rodrigues, solteira.
Frequenta actualmente o 3.º anno de di-
reito, na universidade de Coimbra.
O sr. Manuel Joaquim Xavier Teixeira,
pae dos dois cavalheiros antecedentes, é na-
tural da villa de Montalegre, é um distincto
facultativo, do partido da camara das Boti-
cas, e formou-se na escola medico cirurgi-
ca de Lisboa.
É hoje administrador deste concelho. É
geralmente estimado e respeitado, pela sua
afiabilidade e honradez.
SANHOANE — freguezia, Traz-os-Montes,
comarca e concelho de Mogadouro, 30 Kilo-
metros de Miranda do Douro, 480 ao N. de
Lisboa.
Tem 80 fogos.
Em 1757, tinha 55.
Orago, S. João Baptista.
Bispado e'districto administrativo de Bra-
gança.
O real padroado apresentava o cura, que
tinha 88000 réis de congrua e o pé d'altar.
É terra pouco fertil e pobre. Muito gado
e caça,
Para a etymologia, víde o ultimo Sanhoa-
ne.
SANHOANE— Vide Pinheiro de Sanhoane,
SANHOANE — freguezia, Traz-os-Montes,
concelho de Santa Martha de Penaguião, cos
marca do Peso da Regua, 84 kilometros ao
N. E, do Porto, 13 Kilometros ao O. da Re-
gua, 360 ao N. de Lisboa.
Como esta freguezia está ha muitos an-
nos unida à de Medim, vide esta palavras
402 SAN
Houve na freguezia de Sanhoâne, antes de
estar unida à de Medim, um antiquissimo
mosteiro duplex, da ordem de S. Bento, que
no seculo XV foi unido av de S. João de
Taroua. (Vide esta palavra.)
N'este mosteiro de Tarouca, havia um tes-
tamento, feito em 1335, no qual o testador
declara dever ao mosteiro de Sanhoane, 10
libras que me emprestaram para minha so:
terraçom. (Soterraçom, é portuguez antigo
—siguifica enterro, e tambem funeral.)
Os antigos portuguezes diziam Sanhoâne,
por S. Juão. Depois, disseram S. Joanne, O
nosso Camões ainda diz nos Lusiadas, Joan-
ne em vez de João.
SANJOMIL—Vide Jomil (São.)
SANJURGE, ou S. Jurge—freguezia, Traz
os Montes, comarca e concelho de Chaves,
80 kilometros ao N. E. de Braga, 480 ao N.
de Lisboa.
Tem 80 fogos.
Em 4757, tinha 66.
Orago, Santa Clara, virgem.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Villa-Real..
O reitor de Bobabella, apresentava o vi
gario, cullado, que tinha 508000 réis e o pé
d'altar.
É terra fria, pouco fertil e pobre. .
Esta freguezia esteve algum tempo an-
nexa à do Outero Sêcco.
Os antigos portuguezes, em vez de Jorge,
diziam Jurgo, e depois, Jurge.
O nome d'esta freguezia, procede de ser
S. Jorge o seu primeiro orago.
SANOM — portuguez antigo—senão.
SANOMEDE — portuguez antigo, S. Ma-
mede.
SANTA ANNA — freguezia, Alemtejo, co-
marca de Moura, concelho de Serpa. (Vide
4.º vol., pag. 217, col. 2.2, no fim).
Orago, Santa Anna.
A mitra apresentava o cura, que tinha
180 alqu-ires de trigo e 40 de cevada.
Em 41757. tinha 37 fogos.
- SANTA ANNA— freguezia, Alemtejo, con-
eelho de Portel, comarca, arcebispado, distri-
eto administrativo e 35 kilometros, de Evo-
ra, 420 ao S. E. de Lisboa.
SAN
Tem 430 fogos.
Em 1757, tinha 80.
Orago, Santa Anna.
Foi do mesmo concelho, mas“da extincta
comarca de Monçaraz.
A mitra apresentava o cura, que tinha 180
alqueires de trigo e 30 de cevada.
É terra muito fertil.
Esta freguezia já fica descripta no 4.º vol.
pag. 217, col. 2.º (a penultima Anna (Santa.)
Repito-a aqui, para rectificar um peque-
no érro do 4.º volume.
Na Serra dos Velhascos, d'esta freguezia,
ha grande abundancia de caça miuda, ras-
teira e do ar, e tambem corças, veados eja-
valis.
SANTA ANNA — freguezia, Beira Baixa,
concelho, comarca, districto administrativo,
bispado, e 12 kilometros da Guarda, 295 ao
E. de Lisboa.
Tem 90 fogos.
Em 1757, tinha 64.
Orago, Santa Anna.
O prior de Ramella, apresentava o cura,
que tinha 403000 réis e o pé d'altar.
É terra de clima excessivo, e pouco fer-
til.
Muito gado miudo e caça.
(Vide 4.º vol., pag. 217, col. 2.º-—a segun-
da Anna (Santa.) Esta freguezia repete-se,
pelo mesmo motivo da antecedente.
SANTA ANNA—(Estação do caminho de
ferro do N. e L.) Vide a primeira Anna
(Santa) no 4.º vol., pag. 217, col. 2.º
SANTA ANNA DA SERRA — freguezia,
Alemtejo, comarca e concelho d'Ourique (foi
do mesmo concelho, mas da comarca de Al-
modóvar).
Orago, Santa Anna.
Bispado e districto administrativo de Beja,
A milra apresentava O cura, que tinha
330 alqueires de pão meiado.
(Vide Anna da Serra (Santa) no 1.º vol.,
pag. 218, co. 4.º)
SANTA ANNA DE CAMBAS—Vide a se-
gunda Cambas.
SANTA ANNA DO CAMPO —Vide Anna do
Campo (Santa).
Pela suppressão da comarca de Arraiolos,
ficou a freguezia pertencendo ao concelho
SAN
deste nome, mas á comarca de Monte-Mór-
o-Novo.
SANTA ANNA DO MATTO — freguezia,
Extremadura (ao S. do Tejo). Vide Maito e
8. Torquato.
SANTA BARBARA-—-serra, Traz os-Mon-
tes. —Já está descripta na col. 4.º pag. 322,
do 1.º vol. (É a 3.2 Barbara (Santa.)
Aqui darei a parte oficial da batalha que
alli teve logar, a 13 de março de 1823 (e não
a 10 d'abril, como por mal informado disse
no 1.º volume.)
vevo a posse d'estes documentos, ainda
ao meu illustrado amigo, o reverendissimo
sr. José dos Santos Moura, digoissimo abba-
de de Caires, no concelho de Amares.
Eis a copia textual da parte, dada pelo
brigadeiro, Francisco Antonio Pamplona Mo-
niz, que commandava as tropas liberaes, na
ausencia de Luiz do Rêgo.
«Tenho tanta honra, como desventura em
participar a v. ex.?, para conhecimento de
sua magestade, que no dia 13 do corrente
das 6 para as 7 horas da manhã, fui ataca-
da a divisão do meu commando, que se
compunha dos batalhões de caçadores n.º
7, 9, 10, 11 e uma porção de infanteria n.º
21, o que fazia, pouco mais ou menos, uma
força de novecentos combatentes, e se acha-
vam aquartelados o batalhão n.º 7, em Ven-
tuseles, n.ºº 9 e 10 em Bedoal, e o batalhão
n.º 44 e infanteria n.º 21 em Pereira de Sel-
lão, e tudo ficou prisioneiro d+pois de trez
horas de fogo, o que não sucecederia, apezar
das forças com que fui atacado, constarem
dos regimentos de cavallaria n.º 6,42 e trez
esquadrões do 9.º regimento de infanteria
n.º 24, 0 batalhão fn.º 12 de infanteria, o re-
gimento de Melicias de Chaves, parte da de
Viila Real, e a paizanos armados, se
o major Lima, commandante de caçadores
n.º 7, cumprisse com a ordem, que lhe dei na
vespera, diante da officialidade do seu com-
mando, mostrando as posições, que devia
tomar, quando fosse atacado, o que repeti
ao ajudante na manhã do ataque, quando
me veiu participar de mando do dito major,
que estava a ser atacado por instantes, por
SAN 103
que as tropas inimigas marchavam para es-
se fim, participação que haveria meia hora
antes me tinha mandado dizer por um sar-
gento, em consequencia do que mandei to-
car immediatamente a assemblea, e mandei
o commandante do batalhão n.º 40 postar à
esquerda do batalhão n.º 7, communicando-
se com elle, ordenando que logo que fosse
forçado se retirasse para a forte e eminen-
te posição da capella de Santa Barbara, on-
de se deviam reunir todos os corpos, à me-
dida que fossem obrigados a ceder as pri-
meiras posições; e depois de acabar de pos-
tar o batalhão de caçadores n.º 9, a esquer=
da do 40, communicando com elle para co-
brir o flanco esquerdo, e retirar-se para à
dita cap-lla, quando fusse forçado, passei a
ver se 0 batalhão de caçadores n.º 11 e infan-
teria n.º 21, qu? se achava à rectaguarda
no Povo ds Pereira de S-llão, tinham toma-
do as posições do flanco direito, que lhe ti-
nha mandado, que era 0 batalhão n.º 41, à
direita de caçadores n.º 7, e infanteria n.º 21
à direita em communicação com os caçado-
res n.º 14, e assim esperava defender a po-
sição por todo aquelle dia ou pelo tempo,
que fosse preciso até que chegasse a divi-
são do general Rego, que se achava a pou-
co mais de trez leguas, em Villa Real, e pa-
ra onde o dito general marchou da mesma
posição, com toda a brevidade, a buscal-a
dopois de ter assistido um pequeno espaço
de tempo ao fogo, e até ter suposto, quando
me veio a participação de que o inimigo
avançava, que seria a cobrir o movimento
de retirada para Bragança, porque assim
constava, e chegando ao flanco direito vi
que o batalhão n.º 414 e infanteria n.º 21 es-
tavam sustentando a posição com um vivis-
simo fogo, e estando quasi a ser tomada a
posição de infanteria n.º 21, esta com uma
descarga, seguida de um bote de baioneta,
arrojuu o inimigo da posição, continuando
estes dois corpos a sustentar o flanco direi-
to na minha presença, e de repente sentin-
do sobre mim um vivo fogo cruzado da ca-
pella de Santa Barbara (posição que tinha
escolhido para sustentar com toda a divisão
dep.is que fossem forçados os primeiros
pontos, em que me podia conservar até que
404 SAN
fosse obrigado pela fome), vejo que o inimi-
go se tinha apoderado d'aquelle importante
ponto, por causa, como depois o soube, e
que é constante por toda a divisão, é até
pelo mesmo inimigo, o commandante de ca-
cadores n.º 7, não ter tomado a posição que
lhe ordenei, e em seu logar formar em or-
dem estendida, sem reserva, na frente do
povo de Ventuzelos, em um terreno de pla-
nicie, e por isso cedeu aquelle bravo bata-
lhão à carga, que a cavallaria lhe deu, fi-
cando todo prisioneiro, à excepção do com-
mandante, que a pés de cavallo abandonou
o batalhão, deixando-o entregue á sua sorte,
e, se em logar de tomar a fuga, vem ter
comigo ao fogo, dar-me parte do aprisiona-
mento do seu batalhão, eu ainda tinha tem-
po de penetrar na capella primeiro que o
inimigo, porque estava o batalhão n.º 11, a
pequena distancia dºella e segundo me cons-
ta o dito commandante, quando passou pe-
las bagagens, que iam em marcha para à
rectaguarda, ainda o fogo durou por mais
de duas horas depois que elle passou, e por
isto se viram os batalhões n.º 9 e 10, força-
dos por toda a parte, e retirando-se quasi
juntos com o inimigo, por não poderem re-
tirar para a capella que se achava tomada
pela falta de obstáculo, que acharam no ba-
talhão n.º 7, que foi o ponto por onde os
inimigos penetraram, porem a falta vein do
commandante do batalhão, não tomar a po-
sição, e não dos soldados e muito menos dos
officiaes b-nemeritos, que eram dignos de
melhor sorte; e d'esta forma e por toda a
parte os inimigos, gritando:
Viva o rei e o nosso foro, camaradas não
façam fogo, atirem para o ar, que todos só-
mos portuguezes.
E desgraçadamente vi que varios solda-
dos assim o faziam, até que recorri ao uli-
mo recurso, mandando armar bayoneta, eto-
car todas as cornetas, que alli se achavam,
avançar, gritando lhes:
Viva a constituição |! soldados, avança,
avança, a victoria é nossal
Porem a maior parte não correspondeu
ao meu desejo, apezar do exforço que tam-
bem faziam os officiaes, que alli se achavam,
que em geral se portaram bravamente em
SAN
todos os sitios, em que me achei, mas nos
soldados não se via aquelle encarniçamento
que os fez formidaveis aos francezes, e até
a maior parte se podia salvar de prisionei-
ros se fizessem por isso, porém, immensos,
com a maior facilidade largaram as armas
e começaram a abraçar-se e dár vivas ao
rei, estando intimamente persuadido que se
fossem inimigas tropas estrangeiras, que a
acção não se perderia, ao menos teria sido
mais sanguinolenta e não seria nem meta-
de da divisão prisioneira, assim vendo tudos
perdido, sem lhe poder dar remedio, tratei
de salvar a infanteria n.º 21, que só seacha-
va formada regularmente e seu numero, n'a-
quella occasião, pouco excederia de cem
combatentes de bayoneta.
Então fiz uma retirada sobre o flanco di-
reito, desviando-me dos caminhos por cau-
sa da cavallaria, que ia por toda a parte,
até que o inimigo conhecendo a minha re-
tirada, flanquearam com a cavallaria, por
toda a parte, na direcção em que eu ia, ja
por todos os lados cercado de cavalaria e
até já de infanteria subindo pela montanha
em que me achava.
Assim, em nada a minha consciencia me
remorceia de ter faltado ao meu dever de
commandante e soldado.
Em minha infelicidade tenho a consola-
ção, que os inimigos olham para mim com
respeito e consideração no meu estado de
prisioneiro, e da divisão que commandei ain-
da nem um só individuo me arguiu ou ra-
lhou de que eu fosse a causa da perda da
acção, antes tenho d'elles recebido todas as
provas de amor, sentindo a benemerita offi-
cialidade mais a minha desgraça, que elles
a sua, e que não só com a divisão, mas até
com o inimigo hei de provar em conselho
de guerra, que desde já peço para me jus-
tificar perante a nação, esperando que até
então suspendam qualquer juizo menos fa-
voravel que de mim façam.
Chaves, 14 de março de 1823.
Tll.mo e ex.mo gr, Manuel Gonçalves de Mi-
randa, Francisco Antonio Pamplona Moniz.»
Conforme com uma copia (existente em
meu poder), extrahida pelo medico, José dos
Santos Dias, de Montalegre.
SAN
Mais. Em um folheto, impresso em 1823,
e intitulado Memoria e exposição authentica
da conducta civil e militar de Luiz Vaz Pe-
reira Pinto Guedes, visconde de Montalegre,
desde 1821 até 1823, lê-se a paginas &: «e 0
dito visconde de Montalegre foi de propo-
sito por Guimarães, em: novembro do dito
anno, quando fez a sua jortada para a pro-
vincia de Traz-os-Montes, convidar e con-
sertar com seu primo o general Gaspar Tei-
xeira de Magalhães, hoje visconde de Peso
da Régua, que igualmente ambos se deram
as mãos a entrar na dita combinação ; bem
como depois o communicou tambem aos
dois capitães de cavallaria em Chaves, Miguel
Vaz Pereira Pinto Guedes, seu sobrinho, do
6.º regimento de cavallaria (morto em o dia
13 de março na acção de Santa Barbara) e,
em Villar d'Ossos, casa do mesmo visconde.»
Lê-se a paginas 8: «Na sempre gloriosa
aeção de Santa Barbara, em o memoravel
dia 13 de março, à testa do regimento de
cavallaria n.º 6 do seu immediato comman
do, e que fazia a vanguarda da columna da
esquerda da cavallaria. commandada pelo
general Gaspar Teixeira de Magalhães La-
cerda, que a ell- se lhe havia reunido em
Villa Real, atacou o visconde de Montale-
gre, com os seus esquadrões, n'aqueila acção
tão denodadamente, que às repetidas cargas
dos mesmos esquadrões se deve inteiramen-
te o vencimento d'aquella grande batalha
cuja cobriu de uma gloria immortal a divi-
são Transmontana, por destruir, derrotar e
aprisionar completamente de um golpe, e
em poucas horas, a melhor divisão de tropas
Ligeiras que tem havido jámais em Portu-
gal, cujo combate deverá ter um bem dis-
tincto logar nos fastus da nossa historia por-
tugueza.»
Esta memoria é assignada por differentes
officiaes militares.
SANTA BARBARA. Vide no 4.º vol., Bar-
bara (Santa) para todas as freguezias d'esta
denominação.
SANTA BARBARA DOS PADRÕES. Vide
Padrões.
SANTA CATHARINA. Vide a primeira Ca.
tharina (Santa).
SANTA CATHARINA.Vide Fonte do Bispo.
VOLUME VIII
SAN
SANTA CATHARINA. Vide
(Santa Catharina).
SANTA CATHARINA (capella) Vide Ca-
tharina (oratorio de Sunta).
SANTA CATHARINA DE AZOIA. Esta fre-
guezia da Extremadura. fica a 6 kilometros
de Leiria, e já está descripta no 1.º vol.,
pag. 298, col. 2.º (a 1.º d'esta columna.) Agui
acrescento.
Disse no 4.º volume, que esta fregu-zia
era uma das mais antigas da comarca; po-
rem isto só se entende quanto à egreja, €
não à parochia.
Na aldeia de Azôia, havia uma antiquissi-
ma ermida dedicada a Santa Ca-harina, vir-
gem e martyr. Um devoto, d'eta aldeia, cha-
mado João Luiz, deixou a esta ermida tudo
quanto tinha, para que com os rendimentos
se occorresse à conservação e aceio do tem-
plo, e para que no dia da padroeira, hou-
vesse missa cantada e sermão.
A imagem da Santa, está dentro de um
nicho de marmore, e junto d'elle uma lapi-
de com esta inscripção.
405
Riba-Mar.
ESTA CBRA FEZ FERNÃO VAQUEIRO,
POR SUA DEVOÇÃO QUE TINHA
A” BEM-AVENTURADA
SANTA CATHARINA
Este nicho, denota muita antiguidade.
Azôia, era uma povoação pertencente à
freguezia de S. Pedro d+» Leiria, e o bispo
desta diocese, D. Alvaro de Abranches, a
erigiu em parochia independente, em 1743.º
Para isto, tinha mandado demolir a antiga
capella, e erigir de novo a egreja actual, que
tem 22,=50 de comprido, pur 8 de largo e 8
d'alto.
A capella-mór é de ab'bada e alem do
seu altar, ha mais dois lateraes, no corpo da
egreja.
Em 1810, os francezes, de Massena, fize-
ram d'esta egreja cavallariça, construindo
em cada uma das paredes lateraes, uma li-
nha de mangedouras!
Da casa do baptis'rrio, fizeram dispensa.
Queimaram tudo quanto na egr:j: havia que
fosse de madeira, menas às portas,
Quando estes malvados fugiram, como à
26
406 “SAN
egreja estava destruida e profanada, e o po-
vo (que tinha fugido todo) regressou a suas
casas, collocaram o Santissimo Sacramento,
na capella de Alcugulhe, e alli se confessa-
vam e ouviam missa, mas os baptisados
eram feitos na egreja matriz de Parceiros.
Em 1813, construiram um altar proviso-
rio, e uma nova pia baptismal.
Os parochianos, foram, pouco a pouco,
reconstruindo à egreja e fazendo novos al-
tares, até que, em 1822, veio para elle o SS.
e ficou restituida a todos os ofícios divinos.
Tem esta freguezia duas confrarias—a do
SS., cujos estatutos (compromisso) foram ap-
provados pelo provisor João Henrique dos
Reis, em 41744. Governava então a diocese
de Leiria, o bispo de Coimbra, D. Miguel da
Annunciação—e a confraria das Almas, cujo
compromisso foi approvado em 1822.
A imagem de Nossa Senhora da Piedade
que está no altar lateral, da parte do Evan-
gelho, foi achada por uns trabalhadores, sob
as ruinas de uma antiquissima ermida de
S. João, na Ribeira de Valle Gracioso, à qual
propriedade se dá hoje o nome de Quinta de
S. João. É na freguezia da villa da Batalha.
Esta imagem é de primorosa esculptura.
Tambem ha muitos annos, e quando ain:
da a capella de Santa Calharina não era
egreja matriz, é uns 500 metros ao N. E. da
aldeia de Azôia, e na encruzilhada de um
caminho, foi achada a imagem do apostolo
S. Thomé, que está na egreja.
Em memoria d'este achado, se erigiu no
sitio onde foi feito, um cruzeiro, que se ficou
chamando Cruz de S. Thomé. D'este cruzei-
ro só hoje existe parte do pedestal.
Nas vinhas que ha, entre Alcugulhe e Val-
le do Horto, está uma cruz, de marmore
branco, de 2 metros d'alto, em um pedestal
de alvenaria. É dedicada a 8. Silvestre, pa-
pa, e lê-se no pedestal:
ESTA CRUZ FEZ UM DEVOTO
DE' 8. SILVESTRE: 1670.
CONTINUANDO O SANTO A TIRAR
AS SESÕES, SE POZ A d.2 CRUZ,
“EM 1793
Em 1829, andando o dono da vinha mais
proxima a este cruzeiro, cavando-a, achou
| Alcugulhe.
“da esta capella, mas já existia em 1712. Em |
SAN
uma sepultura de pedra, contendo ossos hu-
manos. Denotava muita antiguidade.
Ha n'esta freguezia duas capellas publi-
cas, que são:
Santo Antonio de Lisboa, na aldeia de
E a ermida mais vasta e sumptuosa do
bispado. Tem 22 metros de comprido, por 8
de largo e 9 1/, d'alto. A capella-mór, é de
abobada de pedra, e o pavimento do tem-
plo é todo dejbellas lageas de marmore.
Tanto o altar-mór, como os dois lateraes, no
corpo da egreja,;são de primorosa talha, !
dourada.
Não se sabe o anno em que foi construi-
1785 lhe fizeram uma bellissima fachada.
Foi seu fundador Jacome Leite, solteiro,
natural da villa de Aljubarrôta, o qual com-
prou não só o chão da capella, mas tambem
varias fazendas em redor, fazendo de tudo |
uma boa quinta, que é hoje dos herdeiros |
do conego, Ignacio dos Santos. |
N'esta quinta residiu o fundador, por al-
guns annos.
Principiou a construir uma capella, só
para elle e para a sua familia, porem, sa-
bendo depois, que não podia prohibir o po-
vo de lá hir à missa, e não querendo que a
quinta fosse devassada, desmanchou o que
estava feito, e mudou a capella para 0 sitio
actual, que era terreno aberto.
Quando Jacome Leite fallecen, deixou to-
dos 'os bens, ou grande parte d'elles, ao hos-
pitalda Misericordia, de Leiria, com a obri-
gação d'este hospital pagar aum capellão, que
dissesse missa n'esta capella, à hora que o
povo quizesse.
Quando o bispo, D. Manuel d'Aguiar, fez
o novo hospital, determimou que a Santa
Casa pagasse a um capellão para dizer mis-
sas na capella, mas só nos domingos e dias
santificados.
A Misericordia, cumpriu isto até 1854.
O povo d'Azóôia, reclamou energicamente
o cumprimento desta clausula, e obrigou
os mórdomos da Santa Casa a cumpril-a.
Em 1866, porem, declararam os mórdomos
formalmente que não pagavam mais'ao ca-
pellão, e assim 'o fizeram! '
|
,
|
|
SAN
Nossa Senhora da Saude — no valle do
Hórto.
Tem 17 metros de comprido, por 7 de lar-
go, e 7 d'alto. Tem um só altar.
José Rodrigues, em cumprimento de um
voto, e ajudado tambem com esmolas do po-
vo, construiu uma edicula à Senhora, em
1752; porem, concorrendo aqui os fieis, e
dando valiosas esmolas, se fez a actual ca-
pella, com mais amplas dimenções.
O povo de Valle do Hórto, tinha institui-
do uma confraria de defuntos, muito antes
de existir a capella, e celebravam as suas
sessões, e guardavam os utensilios e arran-
jos necessarios, em uma casa que construi-
ram junto e ao S. do logar. Feita a capella,
para alli mudarem a confraria, com aucto
risação do provisor, João Henrique dos
Reis, sendo bispo de Leiria, D. João de Nos-
sa Senhora da Porta. Tem um compromisso
approvado em 4761, pelo provisor, Pedro
Paulo de Barros Pereira, sendo bispo d'esta
diocese, D. frei Miguel de Bulhões e Sousa.
Disse à pag. 298, col. 2.2 do 4.º vol., que
o parocho tinha 604000 réis de rendimento
eéo que lhe dá o Portugal Sacro e Profa-
no (que tem o costume de diminuir muito
o rendimento dos parochos) mas a renda
exacta do parocho desta freguezia, foi até
4834, à seguinte—53 alqueires de trigo, 20
de cevada, uma pipa de vinho, e 154000
réis em dinheiro, pago pelos dizimos.
O povo dava, no diu de Todos os Santos,
o que queria em generos, e regulava isso por
50 alqu-ires de milho. Tambem pelo Natal
e pela Paschoa, cada chefe de familia dava
em dinheiro, a esmola que queria. Tinha
alem dºisto o pé de altar. Andava tudo por
1003000 réis.
SANTA CATHARINA—freguezia, Estre-
madura, na comarca e concelho das Caldas
da Rainha: Vide 2.º vol., pag. 213, col. 1.2:-—
Catharina (Santa).
“Nos logares da Portella eda Granja Nova,
ambos d'esta freguezia, ha, em cada um
d'elies, uma mina de carvão fossil. Ambas
estas minas foram registadas, em dezembro
de 1876.
SAN
SANTA CATHARINA (Nossa Senhora da
Penha)—serra, Minho, comarca, concelho e
3 kilometros a E. de Guimarães, 20 a0 N. E.
de Braga.
Tomou este nome, de uma antiquissima
capella da virgem e martyr, Santa Cathari-
na, cujas ruinas ainda existem no alto da
serra, juuto a uma pyramide geodesica. 1
Em volta d'esta ermida, veem-se muitos mi-
lhares de carradas de pedra de alvenaria,
prova de que houve aqui, em tempos remo-
tissimos, uma não pequena povoação, e pro-
vavelmente uma das muitas crdades mortas
que abundavam entre o Douro e o Minho,
e cujo nome e as tradições foram esqueci-
das pelo correr de muitos seeulos.
Varios sucalcos e alicerces de muros, pro-
vam tambem que parte d'este terreno foi
cultivado.
A padroeira d'esta ermida, tem a sua len-
da, conservada, de paes a filhos, entre o po-
vo do Minho: eil-a.
407
—
Poucos metros ao S. da ermida, existe um
grupo de penédos, e a um d'elles, que tem
uma concavidade, chama o povo, Cama de
Santa Gatharina, por ser alli que, segundo
a lenda, a santa passava as noites, em ora-
ção.
A santa virgem Catharina, pastoreava por
1 É escandaloso o abandono em que está
este templosinho, pois à padroeira tem uma
irmandade com bastantes rendimentos, que
são distrahidos, ninguem sabe em que; dei-
xaado os irmãos desmantelar a capella, ve-
neranda pela sua antiguidade, e pela tradi-
ção que lhe anda ligada.
Nos primeiros tempos, era a capella fa-
bricada pelos religiosos jeronimos do mos-
teiro de Santa Murinha da Costa. em Gui-
marães. (Vide 3.º vol, pag. 358, col. 1.2)
Os monges apresentavam aqui um eremi-
tão, e tratavam do culto divino e dos repa-
ros da ermida.
Mesmo assim ainda se lhe faz uma gran-
de romaria, no dia deS Thiago, apóstolo (25
de julho) para o que vão, buscar, na vespe-
ra, a imagem da Santa, e à trazem para à
capella, cujas paredes “(que não tem mais
nada) são adornadas de colchas e flores.
Chamam 'a estã romaria—não sei porque—
aRonda.
408 SAN
estes sitios desertos, numerosss rebanhos,
sendo ao mesmo tempo, uma atalaya vigi-
lante dos christãos, contra os serracenos.
Em certa noite, viu a Santa, que uma
grande partida de mouros, com fachos acce-
sos, descia a serra, em direcção a Guima-
rães, cujos habitantes descuidados dormiam
a somno solto.
Era materialmente impossivel, avisal-os
a tempo, da iminencia do perigo.
Então a santa recorre a um estratagema
—áta velas accesas, nas pontas das cabras, e
as faz descer a montanha.
Os mouros, já perto das portas de Guima-
rães, vendo à sua rectaguarda descer aquel
la multidão de luzes, suppõem ser um exer-
cito de christãos, que marcha em soccor-
ro da villa, fogem em desordem, e deixam
os christãos em paz.
Bem vemos que esta lenda pecca bastante
por inverosimil, porque seria dificil —senão
impossivel--poder arranjar Santa Cathari-
na tão grande numero de velas, n'aquelle
deserto. Mesmo que em ligar de velas, fos-
sem fachos de palha, em quanto a santa os
fazia e ascendia, tinham os mouros tempo de
sobejo para assassinar ou captivar tudo, na
villa; mas, o nosso bom povo, tem unia fé
entranhada n'estas piedosas lendas, que são
completamente inoffensivas, e é bem melhor
crer n'ellas, do que ser falto de religião e
obstinadamente incredulo.
Nossa Senhora do Carmo,
da Pénha
Este famosissimo Sanctuario da provincia
do Minho, fica, como já disse, a 3 kilome-
tros ao E. de Guimarães, na serra de Santa
Catharina, a mais bella e pittoresca da pro-
vincia. Até ao meio da sua encosta, é culti-
vada, em sucalcos ou comoros, que a certa
distancia se assemelham a uma escada gi-
gantesca, e é povoada de formosas granjas é
casas de campo.
Do meio até ao alto, desapparece a vege-
tação opulenta da base, e o monte é forma-
do de varios outeirinhos, ou cabeços, até
quasi ao seu cume, que consta apenas de
fragas escalvadas e penêdos gigantescos,
amontoados uns sobre os outros, formando
SAN
grupos fantasticos, imitando as ruinas ma-
gestosas de vastas fortalezas, ou de paltcios
e templos em ruinas.
Por entre essa agelomeração de roch:dos,
se veem grutas extensas, e sinuosas cever-
nas, algumas de grande profundidade.
O panorama que se gosa d'estas altaras,
é encantador e surprehendente.
Em baixo, em um valle, cercado de va-
rios outeiros, senta-se a vetusta cidade de
Guimarães, orgulhosa de "suas tradições e
da sua historia, e coroada com os resta ve-
nerandos do alcaçar do conde D. Henrique,
onde nasceu o primeiro é um dos maiores
——senão o maior—dos nossos reis; esse vul-
to legendario, que, com o seu pesado e te-
mivel montante, à custa do seu sangue, e de
quasi sessenta annos de continuo batalhar,
nos deu uma patria e a liberdade.
Do alto da serra,e formando parte della,
se vê, ao S., no alto de um cabeço, a poeti-
ca ermida de S. Roque, cercada de frendo-
so arvoredo. Junto a esta ermida foram se-
pultadas muitas victimas de uma horrorosa
peste que devastou esta terra, desde os an-
nos 1507 até 1509.
É um sitio summamente aprasivel, e no
centro das sepulturas, fundou um pisdoso
eremitão, uma pequena casa terrea, para
agasalhar os aldeãos das visinhanças, e lhes
ensinar a doutrina christan, cas maximas do
catholicismo. X
Por morte d'este eremitão, vieram para
aqui viver dois clerigos seculares, que fun-
daram uma capellinha dedicada ao Bom Je-
sus do Calvario, e n'ella diziam missa todos
os dias.
Os visinhos arroteiaram parte d'este ter-
reno, reduzindo-o à cultura, plantando mui-
tas arvores, e semearam grande quantidade
de flores.
Um dos dois padres, chamado Francisco
Ferreira, que era bom esculptor, fez varias
imagens de santos, que collucou em diver-
sos pontos d'aquelle bosque, o qual é rega-
do por uma fonte perenne, de agua crysta-
lina, e em um nicho de murta, junto da fon-
te, se via a imagem de Jesus Christo Cru-
cificado, e a seus pés, chorando, Santa Ma-
ria Magdalena.
SAN
Em outra parte, se via a imagem do apos-
tolo S. Pedro, chorando lagrimas de arre-
pendimento, por ter negado tres vezes, o seu
Divino Mestre. (As lagrimas é a agua verda-
deira, que a fonte lhe ministra.) E tinha uma
inscripção, que dizia—Non sum Petrus, sed
miser senex.
No centro de um outro grupo de copa-
das arvores, estava a imagem de S. Jerony-
mo, tendo ua mão esquerda um Crucifixo,
e na direita, uma pedra, com que batia no
peito, e com a inscripção— Tibi soli peccavi.
O Divino Pastor, via-se dormindo, sobre
uma cama de flores naturaes, e a inscripção
—Ego dormio, et cor mesm vigilat.
«Todo este sitio de santidade, é cercado
de paredes, e pelas partes, do norte, nascen-
te e poente, é a parede interlaçada de capel-
linhas, em que se manifestam os Passos da
Paixão de Christo, do Horto até ao Calva-
rio, as quaes teem as portas para dentro da
cêrca, e para fóra as janellas, com grades
de ferro, para que 0 povo possa fazer a sua
oração.»
«De tudo isto, resta hoje (1873) apenas a
capella do Bom Jesus do Calvario, alem da
de S. Roque, e poucos vestigios mais, do que
já fôra.»
«Mais alem, para o occidente, estendem-
se as campinas de S. Miguel de Creixomil,
amplas e viçosas, semeadas de casas de cam-
po e palacetes, com a sua egreja parochial,
a alvejar, no meio d'aquelle mar de ver-
dura.»
«Depois, são collinas e montes de bellos
variadissimos contornos ; depois, ermidas é
egrejas, poutes e estradas, fontes, rios, bos-
ques e campos, que formam um panorama
surprehend nte, que deleita docemente, os
olhos e o espirito.»
«Alguns passos mais, e vencida a crista
da montanha, veremos rasgar-se diante de
nós, horisontes ainda mais espaçosos, é qua-
dros mais bellos e variados.»
«É no cimo da Penha!»
«Chegados aqui, vemo-nos collocados no
centro de uma bacia enorme, cujas orlas são
formadas ao nascente, por montanhas eleva-
dissimas, que se destacam em magestoso am-
phitheatro, prolongando-se ainda para além
SAN 409
das raias d'esta provincia; ao norte, além
de outras, pelas cordilheiras do Gerêz, no-
taveis pela belleza e novidade de sua vege-
tação, e pela caça brava, sempre abundante
n'aquellas paragens; ao sul, pela serra do
Marão; sendo fechada ao poente, pelo Atlan-
tico, que se avista, como largas fitas de pra-
ta, nas alturas de Matlosinhos, Villa do con-
de, Póvoa de Varzim, e Vianna do Castello.
«Dentro d'esta circumferencia, de grande
extensão de kilometros, pousam. e avistam-
se d'aqui, as villas de Margaride, Santo Thyr-
so, Villa-Nova de Famalicão, e Fáfe, perfei-
tamente destacadas, com as suas casarias
brancas e espaçoso hospital geral.»
«Depois, descobrem-se as povoações da
Lixa, Caldas de Visella e das Taipas, etc,»
«Além de muitos e importantes monumen-
tos e grande numero de ermidas, que seria
longo enumerar, vê-se ainda d'aqui (20 NO.)
o mosteiro que foi de monges varatojanos,
na serra da Falpérra, adiante da egreja de
Santa Maria Magdal-na; e mais alem, a es-
tatua collossal e o monumento da San-
tissima: Virgem, do monte. Sameiro, leyan-
tado na. extremidade do concelho de Gui-
marães, e proximo. ao famosissimo Sanciua-
rio do Bom Jesus do Monte, em Braga.
«Mais proximo à Serra de Santa Catharina
(ao N. E.) no centro de uma ribeira, cober-
ta de esplendida vegetação, levanta-se a ar-
rojada maça architectonica, do famoso San-
ctuario de S; Torquato, ainda por concluir,
mas tendo as obras já em grande desenvol-
vimento, e que é visitado por grande nume-
ro de romeiros, principalmente, no mez de
julho.
«N'aquella cinta de montânhas, descobre-
se, ao norte, o Sanctuario de Nossa Senho-
ra do Pilar, e para o sul, o de Santa Qui-
teria, em Pombe-iro, ambos com as suas Ca-
pellinhas brancas, a mostrarem-se pur en-
tre os arvoredos.»
Local e gruta-ermida
de Nossa Senhora do Carmo da Penha
Penedos descommunaes, amontuados ao
acaso. como se a mão de gigante moustruo-
so para alli os arremeçasse, formam uma
410 SAN:
pyramide bizarra e ameaçadora. Outros, ca-
prichosamente encostados, formam porticos
magestosos, ou arcadas informes.
Mais adiante, outros penedos, .alinhados
como as antas de Carnac, formam uma im-
mensa galeria.
" Sob estes penhascos, ha vastos subterra-
neos, e grutas admiraveis.
Descendo uma extensa fraga, cortada nos
passos menos accessiveis, por toscos de-
graus, abertos a picão, na rocha, chega-se à
Fonte de Santa Gutharina, cujas aguas lim-
pidas e salutiferas rebentam de uuns altero-
sos penhascos, e, seguindo ávante, chega-
se à Gruta do Sino, que é uma garganta es-
treita, mas extensa, aberta entre altissimos
penedos.
Dá-se-lhe este nome, porque, ao fundo, e
à esquerda della, ha um penedo, que ferido
por outra pedra, produz o som, semelhante
ao de um sino.
Passando alem da pyramide geodesica de
que já fallei, e depois de um longo pla-
no, chega-se à Gruta-Ermida, coberta de
enormes penedias, cortadas por numerosas
cavernas, que se communicam subterranea-
mente, formando um labyrinto de difficil
percurso.
Por baixo d'esta penedia, abre-se uma
grande caverna, formada por dois penedos
collocados perpendicularmente, e por outro
collocado sobre elles, formando lhe o tecto.
O pavimento é formado” por uma enorme
lagem.
- Á entrada, do lado esquerdo, ha outra ca-
verna, que desce em linha quasi regular
até grande distancia para o norte.
No fundo da entrada principal, ha ainda
outra gruta, espaçosa e alta, que depois se
bifurca, tomando uma a direcção do O., e
outra, que, tomando a direcção do E., dá sa-
hida a estas informes galerias. U tecto de
todas ellas, é formado de grandes penedos,
sendo alguns alli collocados artificialmente.
Como esta penedia era inaccessivel por
todos os lados, fizeram. os antigos, uma |
escada de pedra, de onze degraus, que fica
ao sul, e pela qual se sóbe para um pavi-
mento quasi regular, que, na frente, dá en-
trada para o hospicio, e pela esquerda dá
SAN
passagem para a Gruta-Ermida, por um es-
treito corredor, ao fundo do qual, se abre,
em rocha viva, uma grutasinha artificial,
forrada de cortiça e musgo, e nella está a
imagem de Santo Elias, monge carmelitano,
docemente adormecido.
D'aqui, por entre dous grandes penedos
que se fecham em abobada, sobem-se por
uma escada tosca e estreita, 48 degraus, —
chega-se a um segundo pavimento, forman-
do um terraço de 15 metros de comprido,
por 142 de largo, plantado de flores, em ta-
boleiros de buxo.
Ao N. d'este jardim suspenso , sobem-se
mais 7 degraus, para se chegar ao Terraço
da Bandeira, menos espaçoso que o antece-
dente, porem mais regular.
Subindo mais algumas escadas, e parte
do costado de um penedo altissimo, chega-
se à Cruz Alta, o ponto culminante d'estes
aleantis.
Pelo que já fica dito, póde fazer-se uma
ideia, ainda que muito inferior à realidade,
do imponente panorama que d'aqui se des-
fructa.
Da Cruz-Alta, desce-se por uma escada
de 21 degraus, ao Terraço da Ermida, e
d'este para a capella, ainda se desce outra
escada de seis degraus.
A Gruta-Ermida, é composta principal-
mente, de dous grandes penedos, formando-
lhe um d'elles, a parede do lado da Episto-
la, e o outro, o tecto, e as paredes da sa-
christia, do lado do Evangelho. Entre esta
e o corpo da egreja, se construiu uma pare-
de de estuque, não só para maior commo-
didade dos actos religiosos, como tambem
para dar ao recinto mais alguma regulari-
dade. |
N'esta parede ha dous nichos, tendo um
a imagem de Nossa Senhora da Oliveira, e
' o outro, a de Nossa Senhora do Rosario, e
se levanta um dos altares lateraes, de talha
muito antiga, com suas columnas torcidas,
| cobertas de varios ornatos.
É dedicado a S. José, padroeiro da egre-
ja. O altar que lhe fica em frente, tambem
| do mesmo gosto, é dedicado a S. Simão Stok,
' patriarcha da ordem do Carmo.
Á esquerda d'este altar, estã o pulpito, e
SAN
à direita um banco, onde o celebrante e os
acólitos tomam assento, nos dias solemnes.
O altar principal, onde está a imagem de
Nossa Senhora do Carmo da Penha, e uni-
co onde se diz missa, é de talha dourada, .
moderno, e de elegante e bonito gosto.
Por baixo do pavimento da ermida, ha
uma profunda loja, para a qual se desce por
uma escada de pedra. Este subterraneo, re-
cebe a luz por uma janella, com caixilhos
de chumbo, com vidros. Por baixo, ha ainda
uma outra furna, escura e profunda, que se
dilata pelo centro da penedia circumferente.
A ermida, tem, desde a porta da entrada
até ao altar-mór, 8 metros de comprido, e
de largo, de um ao outro altar lateral, 8",80,
sendo a media da altura, 37,20.
O hospício, ou casa da Senhora, está col-
locado sobre este montão de rochedos, para
o lado do E.—Compõe-se de cosinha, dis-
pensa, uma sala e dous quartos, tudo com
communicação para um evrredor que dá
serventia para um terraço, plantado de ar-
bustos e trepadeiras.
Sahindo d'esta casa,, e descendo a escada
da entrada principal, para E., e já fóra do
grande grupo de rochedos que ficam des-
criptos, está um enorme penédo, para O
qual se sobe por degraus abertos a picão no
mesmo.
A superficie é cavada naturalmente, em
fórma de bacia. É um reservatorio das aguas
da chuva, e que tem servido muito para as
obras de pedreiro e caiador que alli se tem
feito.
Este penedo, é escavado na sua parte in-
ferior, e fórma uma grande loja, que foi
alargada artificialmente, e se lhe fez uma
porta de entrada, e uma pequena janella. A
esta concavidade se dá o nome de Gruta-
Verde, por ter as paredes interiores reves-
tidas de um mimosissimo musgo, semelhan-
do velludo verde.
Abaixo d'esta gruta, ao E., a meia encos-
ta, ha outra caverna muito regular, formada
por um grande penedo, que veio pousar so-
bre dous que o sustentam, em fórma de co-
lumnas. Pretendem alguns que isto seja uma
anta, construida por esses povos desconhe-
SAN 414
cidos, e a quese convencionou chamar pré-
celtas, por se ignorar o seu verdadeiro nos
me.
Ao fundo d'esta gruta, ha ainda outro
penedo, que lhe fórma parede por este lado.
D'elle rebenta um arroio de crystalinas
aguas, quando as chuvas são muito conti-
nuadas.
Ha ainda por todo este monte, muitos ou-
tros penedos, grutas e furnas, tudo de fór-
mas variadas e curiosas, cuja descripção
seria enfadonha, por extensa.
Todos os penedos são mais ou menos es-
phericos, mostrando evidentemente que por
muitos seculos andaram percorrendo esta
parte da terra, impellidos pelas aguas do
Oceano, até que este, abandonando uma
grande parte da Europa occidental, os dei-
xou ficar onde hoje os vemos.
Os geologos, dão a isto o nome de pene-
dos errantes. Distinguem-se das oulras ro-
chas, pela ausencia absoluta de arestas.
São vulgares estes penedos errantes, na
Peninsula hispanica; mas, onde os tenho
visto em maior abundancia, é nos concelhos
de Arouca, Castello de Paiva, Sinfães e Cas-
tro Daire.
Acham-se em muito maior quantidade,
nos altos ou nas encostas dos montes, que
nos valles.
As celebres Pedras de Linhares, no Tio
Douro. a 35 kilometros ao E.N.E. do Perto,
e as Pedras da Rua, no mesmo rio, e uns 3
kilometros mais acima, são Penedos erran-
tes.
Origem da Gruta-Ermida
e hospicio de Nossa Senhora
do Carmo da Penha
Poucas noticias ha sobre a origem da Gru-
ta-Ermida, e do hospicio. O primeiro escri-
ptor que se occupou d'isto, foi frei Agosti-
nho de Santa Maria, no seu Santuario Ma-
riano, tom. 4.º, pag. 302.
Mas este livro foi publicado em 1712, e
desde então, grandes alterações tem aqui
havido.
Depois d'este escripter, mais nenhum se
occupou d'esta notabilissima ermida, até
que, em 1873, o sr. padre Antonio José Fer-
reira Caldas, publicou um curiosissimo i-
412 SAN
vrifho, ao qual deu o titulo de — LOCAL E
GRUTA-ERMIDA DE NOSSA SENHORA DO CARMO
DA PENHA, NA SERRA DE SANTA CATHARINA,
CERCÁNIAS DR GUIMARÃES.
É d'este livrinho, primorosamente eseri-
pto, e qu: o s'u autor teve à bondade de
mé offerecer, que eu resami tudo quanto
n'este artigo fica dito.
O Santuúrio Mariuno, diz, no logar cita-
do, é em resumo, 0 seguinte:
Um dºvoto e virtuoso ermitão, chamado
Guilherme, natural de uma aldeia proxima
a Roma, sahiu daTtalia, é depois de ter per-
corrido varias terras da Europa, atravessou
a Hespanha até à Galliza, entrando em Por-
tugal pla n'ssa praça de Vallença.
Foi percorrendo as montanhas da poetica
provincia de Entre Douro e Minho, a ver se
encontrava um retiro, ende, longe dos ho-
mens, podesse terminar os seus dias na ora-
ção e p-nitencia.
Ach'tu ste sitio apropriado ao seu inten-
to, e se recolheu a uma das innumeraveis
cavernas d'esta serra.
Quando ja aqui estava havia bastante tem-
po, foi visto por um caçador, que, vendo
aquelle him-m de grandes barbas, ' e com
um habito para elle desconhecido, fugiu
aterrado, julgando-o um ser fantastico ou
diabolico.
Deu parte desta apparição aos outros ca-
cadores seus companheiros, que animados
pelo numero, se atreveram a hir requerer o
eremita, como se fosse alma do outro mun-
do.
Aos exorcismos que lhe faziam, respondia
0 bom do eremitão em italiano, lingua total-
mente desconh-cida dos caçadores, que ain-
da mais se assustaram, fugindo para Gui-
marães, onde cuntaram o suctedido.
A justiça da terra, acompanhada de gran-
de numero de curi sos, se foi à serra ter com
Guilherme, e lhe perguntou quem era, 'e o
que fazia entre aquelles penhascos,
“O pobre asceta, lá foi respondendo por mi-
mica, comy pôde, e conseguiu fazer-se en-
tend:r. Coro ihe não acharam armas, e vi-
ram que era um homem pacifico e peniten-
te, O deixaram.
Isto aconteceu em setembro de 1702.
SAN
Como vivia e do que se sustentava o po-
bre eremita, não o diz o Santuario Mariano.
Só diz que elle mandára a Braga, fazer uma
imagem da Santissima Virgm, e a collocon
em um altarzinho que fez, na lapa que ago-
ra se vê por baixo da ermida, ea qual já
descrevi.
O povo dos arredores, principiou a vene-
rar o eremitão, como santo, e a ter grande
devoção com a santa imagem, dando-lhe
muitas esmolas, fazendo-lhe muitas offertas,
e designando-a pela invocação de Nossa Se-
nhora da Penha.
Frei Agostinho de Santa Maria, depois de
descrever esta parte'da montanha, no estado
em que tudo estava no seu tempo, continúa:
«É de saber que esta casa, hoje da Senho-
ra, era uma furna, ou lapa, como ainda é ao
presente; porque do mesmo penhasco e ro-
chedo são formadas as paredes e o tecto. E
porque'o districto era apertado e estreito,
lhe fez o eremitão, em ordem ao alargar,
algumas minas, e com o fogo, fez mais es-
paçoso o logar. E, como o rochedo era al-
tissimo, fez o eremitão que no alto d'elle se
mettessem algumas traves (porque então,
não chegariam os seus cabedaes a lhe for-
mar alguns arcos de ujolo; ou porque este
não: o haveria, o que se poderá: fazer, pelo
tempo adiante.» *
«N'aquelle vão, e sobre aquellas traves,
que assoalhou muito bem, dispoz a casa-e ér-
mida da Senhora, e para ella, depois de com-
posta eaceiada, ainda que pobremente, se
trasladou a imagem da Virgem Nossa Senho-
ra, do seu primeiro logar, ou lapinha em
que o eremitão a havia posto. N'esta-nova
casa, lhe levantou um altar, adornado com
papeis pintados, e, supposto que tudo está
ainda muito pobre, ainda assim, o aceio e a
fervorosa devoção do eremita, faz que tudo
se estime e louve, como precioso; e espera
que venha a crescer muito aquelle limitado
logar, em um grande e devoto edificio.»
Devemos: dar eredito a tudo quanto diz
frei Agostinho de Santa Maria, visto ser con-
temporaneo dos acontecimentos: que relata.
É tradição constante, qué o hospicio da
Penha, foi construido mais tarde, pelos re-
SAN
ligiosos carmelitas calçados, e aqui viviam
sempre alguns noviços, em companhia de
um monge professo, que se intitulava pre-
sidente, d'esta pequenina communidade.
Não se sabe. porém, o anno em que os
carmelitas construiram este hospicio, em
um dos cunhaes do qual, ainda se vê escul-
pido o emblema da sua ordem: o que se 'sa-
be é que já existia em 1766. 1
Residiram aqui, até à suppressão das or-
dens religiosas em Pormugal, ou até muito
pouco antes d'esse acontecimento, pois ain-
da ha muita gente-em Guimarães, que se
lembra de os ver aqui:
Não se sabe “quando falleceu o virtuoso
cenobita, fundador da gruta-ermida. Á por-
ta da sachristia della, vê-se uma pequena
cavidade quadrilonga, forrada de tijolos, em
fórma de sepultura Diz-se que foi aqui se-
pultado o santo Guilherme, prlos frades car-
melitas. Hoje está esta sepultura cheia de
terra, e não se sabe onde foram parar os os
sos do pobre italiano.
Em 1870, alguns, poucos, devotos, decidi-
ram levantar'o culto da Virgem da Penha,
eaformosear e engrandecer a ermida e seus
arredores.
Recorreram à piedade das senhoras vima-
ranenses, as quaes concorreram com valio-
sos donativos e mimosas prendas, que, ven:
didas em leilão, produziram os meios suffi-
cientes para que, logo no primeiro anno, se
realisassem bastantes m-lhuramentos.
A 23 de julho de 1871, dia designado para
a romagem á Senhora, “alguns milhares de
fieis subiram à serra, e ficaram' satisfeitos
por ver como Us seus donativos tinham sido
conscienciosamente empregados.
A gruta ermida, tem agora um aspecto in-
teiramente novo. Todo oseu recinto foi cui-
1 Em 29 de novembro de 1766, casou, na
freguezia de S. João Baptista, de Pencéllo,
Domingos Machado, com Joanna Maria. En-
tre outras testemunhas, se vê que o foram:
tambem. o padre Joaquim de Santo Elias,
presidente d'este hospício, e seu creado, João
de Carvalho.
O livro onde está este astento de casamen-
to, ainda existe em Pencêllo.
SAN 4143
dadosamente reformado-.e retocado. Todas
as imagens antigas, foram encarnadas, e se
adquiriram outras novas. As alfaias e mais:
objectos do culto, são em numero sufficien-
te e bôas.
Os terraços foram aplanados, e n'elles eol-
locadas mesas de pedra (lousa) e plantados
de buxo, trepadeiras e flores.
Construiu-se um novo Passo, elegante e
magestoso, dedicado à Assumpção da Vir-
gem, que foi benzido solemnemente, no Te-
ferido dia 23 de julho, na presença de gran-
de numero de romeiros.
Em 1872, os mesmôs e outros devotos, à
custa de muito trabalho e sacrifícios, repa-
raram a casa do hospício da Senhora, e man-
daram estudar por um engenheiro habilita-
do, o nivelamento: das aguas, que sahindo da
Fonte de Santa Catharina, devem ser con-
venientemente cazalisadas para o sitio da
Penha; e aomesmo tempo; marcou o logar
onde sc devem construir seis novos Passos.
Instituiti-sê a irmandade de Nossa Senho-
ra do Carmo da Penha, com os competentes
estatutos, approvados por alvará de 23 de
março de 1872.
N'este mesmo anno se principiou e con-
cluiu o 2.º Passo, que foi solemnemente ben»
zido a 24 de julho d'esse anno: É dedicado
a Nossa Senhura da Annunciação.
Em uma pittoresca gruta, sob um lindo
grupo de penedos, foi 'collocada uma ima-
gem de S. Francisco Xavier, 0 famoso mis-
sionario da India.
Esta imagem, que é de primorosa escul-
ptura; fui oferecida à m-sa da irmandade,
por um devoto, de Guimarães.
Trata-se da completa reforma do hospício,
e da acquisição dos terrenos necessarios,
para edificação de novos Passos; tem-se ar-
borisado os que já eram da Senhora, e vae
abrir-se uma estrada, que, seguindo de Gui-
marães, pela de Fáfe, até à freguezia de São
Romão, córte aqui, pelo Senhor dos Serodios,
em direccão à Penha, paraonde depuis se
póde hir de carroagem.
Muitos naturaes da provincia do Minho,
que estão no:Brasil, teem concorrido para
estas obras, com valiosas somas.
Muitos fieis, além: de avultadas esmolas,
4144 SAN
teem ofierecido à Senhora, varios objectos
para o calto divino e outros variados dona-
tivos. Muitos devotos se teem offerecido para
trabalharem gratuitamente n'estas obras:
Além da romaria annual, que se faz no 1.º
domingo depois do dia de Nossa Senhora do
Carmo, uma das mais bellas e concorridas
romagens d'estes arredores, vêem-se em to-
do o decurso do anno, muitos fieis, subindo
estas penedias, em visita á Senhora.
Muitas familias de Guimarães, vão alli pas-
sar os domingos e dias sanctificados; e va-
rios individuos tratam”de adquirir terrenos
n'esta serra, para n'elles construirem cha-
lets, e casas de recreio, attrahidos do pitto-
resco e vistoso do sitio, e na bem fundada
esperança de que este Sanctuario venha a
ser um dos primeiros da provincia, colloca-
do, como está, em uma serra, a que, sem
contradicção, se póde dar o nome de Cintra
do Norte.
SANTA CATHARINA DA SERRA — fre-
guezia, Extremadura, comarca, eoncelho e
42 kilometros de Leiria.
Esta freguezia já está descripta, a pag. 245,
col. 4.2, do 2.º volume. Aqui accrescento
mais:
Esta parochia foi creada em 1549, por D.
frei Braz de Barros, primeiro bispo de Lei-
ria, religioso da ordem de S. Jeronymo, va-
rão de grandes virtudes, que foi reformador
dos conegos regrantes de Santa Cruz de
Coimbra, e que persuadiu a D. João III que
impetrasse do pontifice, a desmembração das
rendas do mosteiro de Santa Cruz, si a
universidade de Coimbra.
O bispado de Leiria, foi crea-
do por D. João III, em 1545
(no mesmo anno em que foi
creado o de Miranda, hoje Bra-
gança) e confirmado pelo pa-
pa Paulo Il.
Em 1553, D. frei Braz, resi-'
gnou, e fui viver para Lisboa,
à espera das bullas da confir-
mação. De Lisboa, recolheu ao
mosteiro do Maito, da mesma
ordem de S. Jeronymo, e d'alli
passou para o de Penha-Longa,
SAN
da mesma ordem, fundado no
alto da serra de Cintra, e ahi
falleceu, sendo sepultado no
claustro do mosteiro.
Quando se criou esta freguezia, constava
apenas de 30 fogos.
A egreja matriz, está longe do povoado.
Tem altar-mór, e trez lateraes, no corpo
da egreja. Era uma antiga caprlla, dedicada
à actaal padroeira (Santa Catharina )
Ha n'esta freguezia trez capellas publicas
—são— 1.2, S. Guilherme, no logar de Pedró-
me (contracção de Pedro-Homem.) Faz-se-
lhe uma grande romagem, por ser advoga-
do contra as febres intermitentes.
Tinha eremitão, mas já ha muitos annos
que o não tem.
2.2 S. Miguel, archanjo—no logar de Val-
le do Summo, feita em 1610.
3.º Santa Martha—no logar da Loureira,
tambem feita em 4610.
Os moradores dos logares onde estão es-
tas capellas, são obrigados à sua fábrica.
Em todas trez se administram os sacra-
mentos ao povo.
SANTA CHRISTINA aldeia, Douro, na
freguezia de Nossa Senhora da Natividade,
de Luso, concelho da Mealhada, comarca
da Anadia, bispado de Coimbra, districto
administratico de Aveiro.
Junto a estaaldeia ha uma abundante rmi-
na de optimo carvão fossil.
Uma companhia ingleza registou esta mi-
na, e tem principiado a exploração em gran-
de escala. Vae abrir um caminho de ferro,
do systema americano, para ligar a mina
com a estação do caminho de ferro do mor-
te, na Mealhada.
SANTA CHRISTINA DO COUTO — fregue-
zia, Douro, na comarca e concelho de Santo
Thyrso (foi da mesma comarca, mas do extin-
cto concelho de Negréllos) 24 kilometros ão
N. do Porto, 335 ao N. de Lisboa, 150 fogos,
Orago, Santa Christina.
Bispado e districto administrativo do
Porto.
Esta freguezia ainda não existia em 1757:
era uma aldeia da freguezia de S. Miguel
do Couto, e curato da de Monte-Córdova,
cujo reitor aqui apresentava o cura. Tinham
SAN
então a freguezia de S. Miguel, e a actual
de Santa Christina, apenas 52 fogos.
Foi antigamente esta freguezia (ainda uni-
da à de S. Miguel) da comarca e termo do
Porto: depois é que passou a formar parte
do concelho de Negrellos.
Vide o ultimo Couto, col. 4.2 da pag. 416
do 2.º volume. Vide tambem Monte-Górdo-
va, e a 22-Sala.
| SANTA CLARA —freguezia, Douro, no con-
celho de Coimbra. Vide Clara (Santa) no
2.º vol., pag. 309. col. 2.2, a ultima linha,
SANTA GLARA A NOVA. — Vide Clara
Nova (Santa.)
SANTA CLARA A VELHA. — Vide Clara
Velha (Santa.)
SANTA COMBA. — Vide Roças ou Santa
Comba.
SANTA COMBA. — Vide no 2.º volume,
desde pag. 363, todas as Combas (Santas.)
SANTA COMBA--serra, Traz os Montes.
— Vide Lamas d'Orelhão.
SANTA COMBA DE BASTO —mosteiro an-
tiquissimo, Minho, na freguezia de S. Mi-
guel de Refojos de Basto. (Video 1.º Refoyos.)
- Este mosteiro, era d2 freiras benedictinas»
e foi fundado no 6.º ou 7.º seculo christão.
Dizem alguns escriptores, que este mos-
teiro foi de vestaes, no tempo dos romanos?
e que, expulsos estes da Lnsitania, esteve o
mosteiro abandonado uns cento e tantos an-
nos, até que se purificou, transformando-se
em convento de monjas beneditinas.
Ignora-se quando deixou de existir este
convento, mas é certo que já estava aban-
donado no principio da nossa monarchia.
1 Vesta, divindade mythologica, era, se-
gundo a Fábula, filha de Saturno e de Ops,
ou Cybele. Tinha dous templos em Roma;
Rómulo, fundou um d'elles, e Numa Pom-
pilio o outro. Numa consagrou-lhê sete vir-
gens, denominadas vestaes, que eram obri.
gadas à mais rigorosa castidade, e que con-
servavam o fogo sagrado, perpetuamente
accêso no templo. Este fogo era renovado to-
dos os annos, nas kalendas de março, pela
acção dos raios do sol. Se as vestaes falta-
vam ao seu dever, com respeito a estes dous
pontos, eram enterradas vivas.
Em Chellas (freguezia do Beato, termo de
Lisboa) houve outro mosteiro de vestaes.
(Vide 2.º vol., pag. 287, col. 2.2, no fim.)
SAN 4145
Suppõem alguns, que Al-Mançor, Kalifa
de Córdova, invadindo a Lusitania, em 985,
destruindo muitas povoações e assassinan-
do todos os christãos que pôde agarrar 1
veio a este mosteiro, onde assassinou todas
as religiosas, e Santa Comba, sua abbades-
sa, desmantelando a egreja e o mosteiro 2.
Isto não está satisfatoriamente provado
(vide a nota) mas é certo que este mosteiro
deixou de existir ha mais de oito seculos.
Tudo nos leva a crer que existiu n'este
logar, ou muito proximo, uma povoação ro-
mana, com fôro de municipio, e não é pois
inverosimil que existisse aqui o tal mostei-
ro de vestaes.
Em 4805, frei Bento de Santa Gertrudes,
monge do convento beneditino desta fre-
guezia, achou nas ruinas do mosteiro de
Santa Comba, uma inseripção romana, que
copiou e mandou para a Academia real da
historia, e é a seguinte :
00 co RVM. ET.
esscios VAL. PRO
é ecotalpi LINVM. E
O doutor Emilio Hubner (Noticias ar-
1 Foi n'este anno de 985, que Braga, La-
mego, Viseu, Coimbra e outras povoações
fortificadas, cahiram em poder do feroz Al-
Mançor, que as arrasou e incendiou.
2 A Monarchia Lusitana, diz que este mos-
teiro era proximo a Lamego: talvez fundas-
se esta asserção em que n'este mesmo anno
de 985, Al-Mançor assassinou todas as frei-
ras do mosteiro de Sismiro (junto à Tran-
coso) e lhe destruiu o mosteiro, como fez a
outros muitos.
Isto concorda com o que deixo dito no
penultimo periodo, col. 2.º, de pag. 364 du
9: vol. Note-se porem que o martyrio d'es-
ta Santa Comba (Dão) e das suas freiras, te-
ve logar a 49:de fevereiro de 982, e portan-
to, mais de 3 annos antes do martyrio de
Santa Comba, de Basto. Deixo estes myste-
rios historicos para serem explicados por in-
dividuos mais competentes do que eu.
416 SAN
cheologicas. de Portugal. pag. 81) completa
do mudo seguinte esta inscripção :
IMP. CAES. M.
ANTONIO
GUORDBIANO
AVG. PIO. P. P.
CONSECRATVM
PER M. VAL
CARVM. ET.
M. VAL. PRO
CVLINVM. E
IVs. PRAEFo
Termino este artigo, observando aos meus
leitores que—se não está provado o marty
rio de Santa Comba, n'este mosteiro, mas
sim no de Santa Comba Dão; está plenamen-
te provado que existia aqui um mosteiro de
monjas benedictinas.
Ha porem uma cireumstancia em ambos
estes mosteiros de Santa Comba, que não
comprehendo. Pois, se desde: o martyrio
d'estas duas Combas, os seus mosteiros dei-
xaram de existir, como é que já em 982, ou
985, tinham a invocação de Santa Comba ?
Quem havia canonizado estas duas santas
abbadessas, mesmo antes da sua morte, para
as fazer padroeiras dus seus conventos ?
“Quem escreve das nossas cousas antigas,
quantos mais livros consulta, quanto mais
enleado se vê muitas vezes!
SANTA COMBA DÃO. — Esta villa, já está
descripta a pag. 364, col. 2.º, do 2.º volume.
Os compositores, por um d'aquelles enga-
nos vulgares em obras de grande extensão,
não paginaram duas columnas ou graneis,
O que me obrigou a fazer uma repetição, a
pag. 464, col. 4.2, do mesmo 2.º volume, sob
a palavra Dão. (É preciso ver tambem San-
ta Combu de Basto—a antecedente.)
Em junho de 1876, se abriu n'esta villa,
uma estação telegraphica, de serviço limi-
tado.
SANTA CGOMBINHA. — Vide Combinha
(Santa.)
SANTA CRUZ. —Vejam.se as Cruzes, que
prineipiam a pag. 431, col. 4.2: do 2.º vol.
SANTA CRUZ DA BATALHA. — Esta villa
e freguezia, já fica descripia a pag. 348, col.
2.2 (no fim) e seguintes do 4.º volume. Aqui
accrescento mais.
SAN
O concelho da Batalha, pertence actual-
mente à comarca de Porto de Moz.
O julgado da Batalha, foi supprimido por
decreto de 23 de dezembro de 1873, sendo
annexado ao de Porto de Moz.
Afjonso Domingues, constructor do sump-
tuosissimo mosteiro dominicano, d'esta villa»
era natural de Lisboa, nascido e baptisado
na freguezia da Magdalena.
D. João I, querendo levantar este edificio,
no mesmo sitio onde teve logar a batalha,
ou proximo a elle, comprou a Egas Coelho
e sua mãe, Maria Fernandes de Meira, a
quinta do Pinhal: o que consta da carta de
doação que fez ao mosteiro de Nossa Senho-
ra da Victoria, da Batalha, em Coimbra, a
14 de janeiro da era de 1436 (3 de janeiro
de 1398 de Jesus Christo.)
A tal quinta, abrangia o logar onde está
o mosteiro, parte da cerca actual, e alguns
terrenos, onde se fizeram as necessarias of-
ficinas, para os differentes artistas que tra-
balhavam na obra, e foram as casas d'estas
officinas que deram principio à vila.
Foi a Batalha elevada a parochia inde-
pendente, em 44 de setembro de 1542, pelo
bispo da Guarda, D. Pedro, que era D. prior-
mór de Santa Cruz de Cuimbra. E como o
dia da creação da parochia, era o da Esxal-
tação da Santa Cruz, ficou sendo padroei-
ra, é é dia santo de guarda na freguezia,
Como consta de uma inseripção que está
na porta principal da egreja matriz, debai-
xo das armas do rei D. Manuel, foi elle que
mandou construir .este templo, em 15321,
ficando os freguezes obrigados à fabrica do
corpo da egreja, e os bispos de Leiria, à da
capella-mór, que é de abobada.
O parocho, como disse no 1.º volume, era
apresentado. pelo. bispo, que, até 1834, lhe
dava de ordinaria, annualmente, 40 alquei-
res de trigo, 25 almudes de vinho, e 88000
réis em dinheiro, o que tudo regulava por
1 D. Manuel, determinou no seu testa-
mento, que, à custa da-sua herança, se cons-
truisse esta egreja; mas, só dez annos de-
pois da sua morte (elle falleceu a 1) de
aee de 14921) é que a obra se con-
cluiu.
SAN
504000 réis, alem do pé de altar. Não tem
casa de residedcia.
comem,
No altar da Santissima Trindade, se ins
tituiu uma irmandade do mesmo-titulo.
Como em Leiria, pelas festas do Espirito
Santo, havia aqui, no domingo da Santissi-
ma Trindade, corridas de touros, e bôdo aos
pobres e romeiros.
As rendas d'esta irmandade, são apenas
as esmulas e offertas. É muito antiga, e já
em 1536, se mandou que não comprassem
touros bravos, para o referido bôdo, mas
sim rezes mantas.
Ha n'esta villa da Batalha, um hospital,
proximo da egreja parochual, e junto da er-
mida de Nossa Senhora da Victoria.
Tem de renda annu:l, uns 308000 réis, e
obrigação de dar agasalho a pobres e pere-
grinos.
Tem tumba, confrades e um provedor,
que acompanha os d-functos, com vestes da
Misericordia, e vara preta. Tem mais, um
escrivão, um mórdomo, um andador, e um
coveiro.
É uma instituição muito antiga, e ainda
conserva 0 seu compromisso, feito em 1427.
O bispo D. Diniz de Mello, lhe quiz orde-
nar a irmandade da Misericordia, mas nun-
ca. os moradores da villa se concordaram
para este fim.
Ha n'esta freguezia as seguintes ermidas:
4.2 Nossa Senhora da Conceição—abaixo
do logar das Brancas, junto à estrada que
vae para Purto de Môz, e no mesmo sitio
onde existiu outra muito antiga, da mesmo
invocação. Sempre teve confraria e compro-
misso.
Tem de renda annual, 34230 réis, em di-
nheiro, oito alqueires de trigo, e algumas
missas de obrigação.
A ermida é de abobada, e tem um só al-
tar, a sachristia e um sino pequeno.
2.2 Santo Antão, abbade—junto ao logar
da Faniqueira,
É autiquissima. Tem confraria, mas não
tem rendas.
SAN 147
3.2 S. Bento—no logar da Cividade, tam.
bem muito antiga.
Tem sachristia e um alpendre, feito em
1582. Tem uma confraria de defuncios, da
aibergaria do Aforadouro, a qual tinha com-
promisso e obrigações, como a da Torre, e
ainda conserva o tombo, em pergaminho,
feito em 1513.
A casa d'esta albergaria, está proxima ao
ribeiro de S. Bento.
4.2 Senhor Jesus—no logar da Golpelhei-
ra. Estão aqui instituidas duas caprllas de
missas; uma por Divgo Frade, com obriga-
ção de 20 missas cada anno, e o possuidor
da fazenda obrigado à fabrica da ermida. A
outra capella tem a obrigação de 50 missas
em cada anno.
Foi instituida por Pedro. Gomes, escrivão
da chancellaria do reino, que foi o funda-
dor d'esta ermida.
Não tem sachristia, nem alpendre.
5.º Santa Maria Magdalena— por cima da
villa, e na estrada que vae para a Boutaca. *
Foi construida em 1572, e dotada por um
devoto, sendo bispo D. frei Gaspar do Ca-
sal.
62 Nossa Senhora da Consolação —no lo-
gar da Canoeira. Tem obrigação de 13 mis-
sas annuaes, por uma capslla que instituiu
em vinculo, Matheus Trigueiros.
As fazendas obrigadas a estas missas, é
tambem á fabrica da ermida, são sitas no
mesmo logar da Canoeira.
7a S. Juão Baptista—logo abaixo do di-
to logar da Canoeira. Tem confraria, e à
fabrica da ermida, são obrigados os moinhos
que foram de D. Maria de Suusa, do Arra-
balde da Ponte, (Leiria) e os herdeiros de
João Rodrigues, da Canoeira.
8.2 Santo Antonio de Lisboa—no logar de
Bico-Sachos. Foi fundada por o padre Jero-
nymo Ribeiro, em 1625.
9» S. Sebastião, martyr — no logar do
Freixo. É antiquissima ; não tem rendas, é
está em ruinas.
1 Deu-se o nome de Boutaca à esta al-
deia, por aqui ter vivido alzuns amos, em-
pregado nas obras do mostriro, o famoso
Boutaca, architecto do templo e mosteiro dos
Jeronimos, de Belem.
418 SAN
10.2 Santo Antonio de Lisboa — no logar
da Rebolaria. Tem sacramento, e o povo do
logar é obrigado à sua fabrica.
Foi feita em 1645.
114.2 Nossa Senhora da Victoria — da qual
adiante trato mais detidamente.
Salinas da Batalha
No 1.º vol. pag. 486, col. 2.2, sob à pala-
vra Brancas, disse que havia aqui vestigios
de salinas, ou marinhas de sal, e que tinha
cessado esta exploração, pelos pesados tribu-
tos que lhe impoz a camara de Leiria ; po-
rem no Couseiro (pag. 1144) impresso em
1868, se lê: '
«Alem da villa da Batalha, e da ermida
da Conceição, defronte do logar das Bran-
cas, do rio para alem, estão as salinas em
que se faz sal, o melhor do reino. Corre a
agua por um cano de pau de pinho, porque
só este se conserva, e no principio lhe po-
zeram um de ferro, por onde sahisse a agua,
a qual o consumiu brevemente.
Cãe a agua em um poço, o qual nunca se
enche; mas, em chegando a agua ao nivel,
não passa para cima.»
«Não ha noticia d'onde nasce esta agua,
e o sitio dista trez leguas, ou quasi, do mar.»
«Do poço, tiram a agua com caldeirões
de pau, e por cáes (calles) a vão repartindo
por talhos que estão feitos, em que se coa-
lha, e é cousa para ver, quando estão com
agua e com o sal.
«Os ditos talhos, são de pessoas particu-
lares. Os officiaes da camara, vão todos os
annos visitar e devassar, e tem um sacco de
sal grosso e um alqueire do fino, cada um,
de ordinaria.»
«No mesmo caminho, que .vae para Porto
de Móz, estão outros olhos de agua salgada,
mas não se aproveitam, por terem mistura-
da agua doce.»
«Paga-se o dizimo do sal, como das mais
novidades.»
«El-rei D. Sancho, mandou, por uma pro-
visão sua, que do seu sal se pagasse dizimo;
cuja cópia authentica, está no livro intitu-
lado Das cartas e papeis, pertencentes ao
bispado, (de Leiria) a folhas 80, v.»
SAN
«Este rei, foi o segundo do nome, e que
começou a reinar, no anno de 1223.»
Vide n'este 8.º vol., a pag. 203, col. 2.2,
onde trato das salinas de Rio Maior.
Estas salinas, ficam 40 kilometros ao S. E.
das da Batalha, e provavelmente são deri-
vadas da mesma nascente.
Notemos que o tal livro a que me refiro,
intitulado— O couseiro, ou memorias do bis-
pado de Leiria, foi escripto nos principios
do seculo XVII, um por clerigo, regular ou
secular, cujo nome se ignora. Sabe-se ape-
nas que o auctor existia no anno de 1605,
porque, no cap. 5.º diz:— Em meu tempo, no
anno de 1605, etc. —e do capitulo 40.º cons-
ta que ainda vivia em 1657.
Era varão de grande importancia no seu
tempo, "pois do capitulo 148.º, consta que
foi árbitro, entre os bispos, D. Pedro Bar-
bosa d'Eça, e D. Diniz de Mello, na conten-
da que entre si tiveram, por causa de umas
contas.
Como já disse, foi publicado em 1868, e
anotado pelo cardeal, D. frei Francisco de
S. Luiz, e por um ecclesiastico do mesmo bis-
pado de Leiria, que se não nomeia.
Ermida de Nossa Senhora da Victoria
Quando D. João T deu principio ao gran-
dioso mosteiro de Nossa Senhora da Victo-
ria, da Batalha, mandou fazer junto a elle,
uma ermida da mesma invocação, para que
o grande numero de pedreiros, cabouquei-
ros e servidores, não tivessem de ir à mis-
sa, às egrejas de Porto de Môz, que fica a 9
kilometros de distancia.
Esta ermida communica com o mosteiro,
por uma porta interior.
No tempo dos frades, todos os dias se di-
zia missa nºesta ermida.
Tem trez altares—no principal, e em um
retabulo de marmore, está a imagem da pa-
droeira. Os lateraes, são—um de S. Jorge, e
ó outro de 'S. Domingos.
Antigamente eram enterrados nesta er-
mida, a maior parte dos habitantes da villa.
Várzea
Várzea é o nome de uma grande quinta,
SAN
proxima ao Valle do Hôrto, e que é perten-
ça do mesmo mosteiro. Tem campos de ter-
ra lavradia, moinhos, e um lagar de azeite.
É um logar muito aprasivel no verão, e |
aqui vinham passar as férias e aliviações,
os frades do mosteiro, e para isso, tinha o
edificio, cellas e outras officinas.
A quinta é abundante d'aguas, e dentro
d'ella está a ermida de S. Gonçalo.
Residia aqui sempre, um religioso da or-
dem, leigo, ou converso, para ter cuidado no
amanho das terras, na administração dos
moinhos e lagar, e na cobrança das rendas.
SANTA CRUZ DO MARMELLAL (ou VE-
RA CRUZ DO) — aldeia, Alemtejo, no termo
e concelho de Portel.
Ha aqui um rico templo e um bom pala-
cio, que fvi dos bailios da ordem de Malta.
Fazem-se nesta aldeia duas grandes fei-
ras anhuaes, uma no 4.º de maio, e outra a
14 de setembro.
Além' d'estas, faz-se, mesmo em Portel,
uma concorridissima feira, que principia no
ultimo sabbado d'agosto.
SANTA CRUZ DA VILLARIÇA — antiga
villa, Traz-os-Montes, junto à ponte do Sa-
bôr.
Entre os rios Douro e Sabôr, havia no
principio do seculo XII, uma villa, denomi-
nada Santa Cruz da Villariça, que foi arra-
sada então pelos mouros.
D. Fernando Magno, rei de Castella e Leão,
a reedificou em 1040.
Fica a 5 kilometros da actual villa da Tor-
re de Moncorvo.
A villa de Santa Cruz, além de ser doen-
tia e falta d'aguas, era aberta, pelo que os
seus habitantes a foram pouco a pouco aban-
donando, para hirem residir na nova povoa-
ção da Torre de Muncorvo, que, além de es-
tar em melhores condições de salubridade e
fertilidade. tinha uma fortaleza que a pro-
tegia.
D. Affonso 1I, a 8 dos idos de junho, da
era de 1263 (29 de maio de 1225 de J..C.) '
mudou para a Torre de Moncorvo, a villa
de Santa Cruz, com o seu foral e todos os |
' dem de Malta, apresentava o reitor, que ti-
seus privilegios..
Santa Cruz, completamente abandonada,
cahiu em ruinas, e d'ella apenas restam ves- :
SAN 149
tígios de antigas muralhas, restos da egreja
| (à qual hoje dão o nome de Derroida) e de
algumas casas de habitação.
É preciso vêr, no 5.º vol, pag. 382, col.
4.:—Vide tambem Sabór e Villariça.
SANTA EUFEMIA— formosa capella, Ex-
tremadura, na serra de Cintra, onde se faz
em setembro uma devota e muito concorri-
da romaria.
O sitio é summamente pittoresco. — Vide
Cintra.
SANTA EUFEMIA—Vide Sorval.
SANTA EUFEMIA — Vide Eufemia (San-
ta) no 3.º vol., pag. 57, col. 1.º (a 2.º Eufe-
mia). Alli disse, por mal informado, que o
logar de Touris era na freguezia de Real,
quando pertence á-de S. Pedro do Paraizo,
que é contigua. No mais está certo.
SANTA EUFEMIA—Vide Eufemia, ou Eu-
phemia, vol. 3.º, pag. 87, col. 2.2, no princi-
pio.
SANTA EUGENIA—Vide Eugenia (Santa).
SANTA EULALIA (castello de)—Vide 5.º
vol., pag. 513, col. 1.:—e a 4.º Santa Valha.
SANTA EULALIA — Beira-Alta. — Vide
Couto de Baixo.
SANTA EULALIA-— freguezia, Minho, co-
marca e concelho de Villa Nova de Famali-
cão. Vide Arnôzo (o 2.º) e Mosteiro de Ar-
noso.
Ha n'este concelho trez freguezias.d' Ar-
nôzo — Nossa Senhora da; Conceição, Santa
Eulalia, e o Salvador. Esta ultima, está ha
mais de 100 annos annexa à de Santa Eula-
lia. A extuncta freguezia do Salvador, cha-
mava-se antigamente Mosteiro d'Arnôzo, e
ainda alguns chamam à freguezia de Santa
Eulalia, Mosteiro de Arnôzo..
SANTA EULALIA— freguezia, Minho, co-
marca e concelho de Ponte do Lima, 30 ki-
lometros ao O. de Braga, 380 ao N. de Lis-
boa.
Em 1757, tinha 90 fogos.
Orago, Santa Eulalia.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
O bailio de Léça (Leça do Bailio); da cr=
nha 1008000 réis de rendimento.
Esta freguezia está -ha muitos annos an-
420 SAN
nexa à de Refojos do Lima. (Vide esta pala-
vra.)
SANTA EULALIA — freguezia, Douro, na
comarca e concelho d'Arouca.
Já fica deseripta no 3.º vol., pag. 87, col.
9.2 — Aqui acerescento:
O orago da freguezia, é Santa Eulalia de
Mérida.
Ha n'esta freguezia, sete capellas — a de
Santo Antonio do Burgo, de que já tratei;
Nossa Senhora do Monte; S. Mamede; Santo
André, e S. João Baptista — todas publicas
—e Nossa Senhora da Gonceição, e o Senhor
d'Âmilo; particulares.
O sitio onde estã a capella
de S. Juão Baptista (a aldeia
de Vallinhas) é um alto cabê-
ca, coberto de arvoredo. Foi
aqui que Éxa Martim julgou
pôr em segurança, sua mulher
e as bagagens, quando princi-
piou a batalha contra D. Af-
fonso Henriques; mas lá foi D.
Egas Moniz, e aprisionou tu-
do. Vide Arouca.
SANTA EULALIA DE CONSTANCE —Vi-
de Eulalia de Constance (Santa) é Marco de
Canavezes.
SANTA EULALIA DE OLIVEIRA — Vide
Oliveira do Douro. 6.º vol., pag. 274, col. 2.2
SANTA EULALIA — para todas as mais
Santas d'este nome, vide Eulalia (Santa).
SANTA IRÍA—Vide Iria (Santa).
SANTA IRÍA—Vide Iriu (Santa) e Ribei-
ro de Santarem
SANTA IRÍA — Vide Iria (Santa) ou Pó-
voa de Santa Iria.
SANTA ISABEL — freguezia, Extremadu-
ra, extramuros de Lisbva, e na sua comar-
ca, distrieto e patriarchado, mas no conce-
lho de Belem. Tem 150 fogos. Vide Belem, e
Lisboa.
SANTA JUSTA—Para todas as freguezias
d'esta denominação, vide Justa (Santa).
SANTA LEOGADIA—Vide Leocadia (San-
ta).
SANTA LUCGRECIA-—Vide Lucrecia (Sun
-“a).
SANTA LUZIA —monte, Minho, na fregue-
--zia de Areosa, concelho, comarca e distri-
DAN
eto de Vianna. (Vide 4fife.)—Tambem a es-
te monte se dá o nome de Cividade.
Nas palavras Afife e Britonia, mencionei
este monte, que fica 4 kilometros ao N.N.0.
da cidade de Vianna; mas, depvis de publi-
cado 0 4.º volume d'esta obra, tem-se aqui
feito varias escavações, e como é um cbjecto
de grande importancia archeologica, darei
d'ellas algumas resumidas noticias.
Como já disse no logar competente, exis-
tiu aqui (segundo varios escriptores dignos
de credito, uma antiguissima cidade roma-
na, da qual ainda restam claros vestigios;
porém já antes dos romanos, aqui existiu
uma povoação—provavelmente celta — cujo
nome tambem se ignora, e da qual se encon- |
tram muitos vestigios, |
Todo o povo d'estés arredores sabia, por |
tradição constante, de paes a filhos, que nºes-
te monte existia uma grande cidade, e por
isso ainda a este monte denominam Civida- |
de; mas, como depois se construiu aqui uma |
ermida dedicada a Santa Luzia, se foi, pou-
co a pouco, perdendo a antiga denominação,
que foi substituida pela da Santa. |
Como o nosso povo attribue aos árabes |
todas as constru-ções de remota antiguida- |
de, dizia que esta cidade fôra edificada pe- |
los mouros.
É o monte de Santa Luzia, uma projecção |
da grande serra d'Arga, que, com bons fun- |
damentos, se suppõe ser o Medulio, dos ro-
manos. (Vide Arga e Medulio.) ,
Segundo a divisão dos condados d'Entre |
o Douro e Minho, feita no reinado de D. Fer- |
nando Magno, de Castrlla e Leão, pelos an-
nos de 1126 (vide 4.º vol., pag. 494, col. 4.2) .
esta povoação e outras muitas de que ha |
vestigios em varias partes da referida serra |
d'Arga, estava dentro da circumseripção da
famosa cidade de Britonia.
A Chronica do rei D. Afjon-
so, 0 Sabio, de Leão (2.º parte, |
cap. 51) diz que — Theodomi- |
ro, rei dos Suevos (564 a 570)
fez a divisão dus bispados de
Galliza; e, tratando dos bispa- |
dos de Tuy (vide Braga) diz a |
SAN
paginas 194, col; 1.º, no prin-
cipio — El Obispado de Tuy,
tenga, desde esse lugar, em to-
dus las Iglesias en derredor,
Fasta Gorrelli, Tolvenga, Lu-
dapara: estaes Espaga, Ayno-
me, Sagrica, el Vilione, Gabda,
y todo lo al que 3 es pertenece
al Obispado de Bretonica. El
Obispado de Bretonica, tenga
las Iglesias que en: derredor
della son, entre los Bretenes
deso uno con el gran: Monaste-
rio fasta el rio de Oca.
Vê-se pois d'esta divisão,
que o bispado de Britonia con-
finava-com o de Tuy, e este in-
cluia todo o territorio d'entre
o Lima e Minho, e portanto, a
serra d'Arga.
É provavel que uma das povoações no-
meadas n'aquella divisão, seja a que exis-
tiu no monte de Santa Luzia, nenhuma das
quaes já hoje existe, ou, pelo menos, mudou
de nome, ignorando:se a qual das actuaes
pertence o antigo.
Em 1857, visitei esta povoação morta, e
em 1865, não só tornei a este monte, como
percorri varios pontos da serra d'Arga, on-
de me disseram que havia restos de cidudes
mouriscas. Vi, é verdade, bastantes vestigios
de construcções antiquissimas, porém, para
poder dar-aos meus leitores alguma noticia
mais circumstanciada, era preciso que eu
dispozesse de muito tempo e de muito: di-
nheiro; e ambas as cousas me faltavam. Mes-
mo assim, do pouco que examinei, dou no-
ticia, em varios logares desta obra, segundo
os nomes antigos ou modernos, com que são
designadas as localidades onde existem es-
ses vestigios.
O desmazêlo dos nossos governos, de to-
dos os tempos, junto ao das auctoridades
d'estes sitios, deixaram em completo aban-
dono, e sem a minima investigação, esses
restos de povoações construidas por os po-
vos desconhecidos, que nos precederam, na
Lusitania.
VOLUME VII
SAN 4214
O monte de Santa Luzia, fica 680 metros
acima do nivel do mar.
É encantador o vasto panorama que se
gosa do seu cume ; já vendo-se ao sopé, a
formosa cidade de Vianna, e as pittorescas
aldeias que, por entre frondoso. arvoredo,
povoam as duas margens do Lima, tudo ao
S. e S.E,, já a sequencia interminavel de po-
voações, templos, campos, bosques e gran-
jas, que -orlam a estrada real, quede Vian-
na vae a Caminha, na. direcção N., e que
d'alli, fazendo um angulo obtuzo, segue a
direcção N.E., para Villa Nova da Cerveira,
Vallença, Monção, Melgaço, ete.! —Tambem
d'este ponto se avista, ao O., uma vasta ex”
tensão do Oceano Atlantico.
Em 41 de abril de 1877, o sr. Joaquim
Possidonio Narcizo da Silva, esclarecido pre-
sidente da real associação dos architectos ci-
vis e archeologos portuguezes (a cujo numero
tenho.a honra de pertencer), subiu ao cume
do monte de Santa Luzia, e n'elle achou
grande numero de ruinas, de casas circula-
res, já rentes com o nivel do solo. Facilmen-
te obteve licença da camara de Vianna, para
fazer escavações, e, coadjuvado pelos srs.
Francisco Camacho, e Miguel de Souza, que
lhe arranjaram alguaus operarios, principiou
o desentulho de algumas ruas, que estavam
apenas cobertas de terra, da altura de 0m,62
desobstruindo-se tambem o recinto de algu-
mas casas irregulares, umas como diame-
tro de 5",25, outras com 37,82; e cujas pa-
redes tinham a espessura de:07,98, formadas
de duas ordens de pedras quasi cubicas, de
07,18, por 07,21, sem nenhuma argamaça.
Tambem appareceram algumas casas de
fórma oval, mas em pequeno numero.
As muralhas que circumdavam estas cons-
trucções, ainda em alguns sitios conservam
a altura de um metro.
Nem todas as casas estão dentro do recin-
to das muralhas, algumas d'elias se veem ex-
1 Ainda ao O. da estrada real de 1.º clas-
se, de que fallo no texto, segue a mesma di-
recção, e parallelamente, o caminho de fer-
ro do Minho, que já chega (junho de 1879) à
freguezia de Segadães (ou Cristello-Gôvo),
3 kilometros ao O. da praça de Vallença.
27
4929 SAN
tra-muros, dos lados do O. e N., dispostas
irregularmente.
A grande extensão occupada por estas rui-
nas, não só indica o augmento progressivo
da população primittiva, mas tambem que,
não receiando já hostilidades, aproveita-
vam os terrenos mais bem situados. e pro-
ximos da primeira fundação, para os habi-
tar.
Só achou duas casas de fórma quadrada,
sendo uma d'ellas circumdada por uma pa-
rede de 100 metros de cada lado.
Dentro d'este quadrado, achou o sr. Pos-
sidonio, cinco casas REM ENS) com a entra-
da para o E.
O lugar em que estão estas construcções,
é o que domina a foz do Lima, e a actual ci-
dade de Vianna.
Dentro da casa mais pequena, achou duas
"medalhas, uma de bronze, outra de co-
bre.
N'uma d'ellas, está bem visivel uma efi-
gie, com a corôa raiada.
Junto a uns penedos, com varios hiseia,
feitos a picão, em fórma de cruzes, está um
men-hir (anta) de uns cinco metros de al-
tura, tendo sobre a face do S., tambem gra-
vada, a fórma de uma cruz.
A pouca distancia d'este monumento me-
galithico, vê-se outro, formando um cyou-
lech (dolmen) composto de seis pedras.
Apezar da incontestavel competencia do
sr. Possidonio, na materia, estou persuadi-
do que as construcções a que elle chama ca-
sas, pertencem à mesma época dos men-hi-
res e cronlechs, e são carns, isto é, tambem
monumentos megalithicos, construidos pe-
los celtas, ou pre-celtas.
Não tinha noticia da existencia de um dol-
men n'este sitio, mas de outro, ainda hoje
perfeitamente conservado, 10 kilometros ao.
N. do monte de Santa Luzia, e na fregue-
zia de Gontinhães, que vi e desenhei, em
1857.
(Vide Ancora—rio e freguezia—e Gonti-
nhães.) :
Os padres Carvalho e Cardoso, nas suas
Chorographias, não se oceupam de monu-
mentos pre-celtas; e D. J. Contador de Ar-
SAN
gote, nas suas Memorias do Arcebispado de
Braga, diz que na provincia de Entre-Dou-
ro e Minho, não existem dolmens (porque
não tem noticia d'estes dois.)
Ora, eu, que percorri, por espaço de tre-
ze mezes, a cordilheira, que partindo do
monte de Santa Luzia, e correndo de S. a
N., abriga, pelo E., as freguezias de Ariosa,
Carrêço, Afife, Ancora, Gontinhães, Mollédo,
Christéllo, Portella (ou Villarêlho) até à vil-
la de Caminha, e que examinei detidamen-
te tudo quanto por alli havia que me pare-
cesse digno de nota, encontrei — pribcipal-
mente nas freguezias do Mollêdo e Christél-
lo—grande numero de carns, a que o povo
d'estes sitios chama cerrados dos mouros;
e que, pela sua singela construcção, demons-
tra mais antiguidade do que os do monte de
Santa Luzia; mas evidentemente nunca po-
diam ser casas de habitação, pois não são
máis do que recintos, de differentes fórmas
e tamanhos, fechados por uma linha de pe-
dras (de granito ou schisto) espetados per-
pendicularmente—alguns perfeitamente con-
servados—e que bem deixam ver que nun-
ca tiveram, nem podiam ter mais altura.
(Para evitarmos repetições, vide, além de
Ancora, Ghristéllo, 2.º vol., pag. 11414, col. 4.2,
449, col. 1.2-—e 5.º vol., pag. 374, col. 4.2)
As casas do monte de Santa Luzia, quan-
to a mim, são carns mais modernos, e de
melhor construcção; provavelmente, da mes-
ma época dos do monte do Crasto, nà fre-
guezia de Romariz, na comarca da Feira.
(Vide Castro ou Crasto, no 2.º vol., pag.
200, col: 2.2)
Notemos tambem, que em todo o litoral,
desde Vianna até Caminha (ao qual os nos-
sos antigos chamavam a Marinha d' Ancora)
ha muitos e claros vestígios de monumen-
tos de remotissima antiguidade, não só em
construcções, como até nos nomes de diffe-
rentes localidades, como Sapór, Médo, ete.,
e mais modernos, mas tambem anteriores
à nossa monarchia, como Valle d'Azares,
Batalhoz, e outros, que ficam mencionados
nos logares acima citados; o que prova que
estes sitios foram incontestavelmente habi-
tados, desde tempos remotissimos, por po-
vos, cuja denominação hoje ignoramos.
SAN
Continuemos com as descobertas do sr.
Possidonio.
Dentro d'estas construcções, encontrou Va-
rios fragmentos de objectos de barro, de dif-
ferentes qualidades, feitios e cores, sendo 0
barro misturado com mica, materia abun-
dante n'estes sitios.
Estes objectos (louça) foram feitos ao tor-
no, e, pela perfeição dos filetes e gommos,
que ornam o exterior, demonstram que o
povo que o construiu, estava bastante adian-
tado em civilisação. 1
Os adóbos são quadrados, tendo a côr
muito rubra, e todos mostram um rebordo,
no qual ha um entalhe, para sobrepôr à jun-
ta e ficarem mais unidos.
Teem som metalico, e foram encontrados
no centro das casas, e de um dos lados, teem
ferrugem.
Achou carvao vegetal, ferro e cobre, sem
se poder sober a que objectos pertence-
ram.
Encontrou «em poucas casas, couceiras,
com encaixe circular, no qual girava a por-
ta, e outra pedra, com rebaixe para bater,
d'época mais recente, ? porque, pela maneira
como se mostra ter sido feita a construcção
antiga das casas, não podiam estas ter por-
tas nem janelas.» 3
Não encontrou ossos humanos, nem de
qualquer animal irracional, n'estas escava-
ções.
Pela tal ou qual perfeição das pedras fa-
1 Talvez que estes artefactos de barro, fos-
sem fabricados pelos povoadores da primi-
tiva Vianna, que era aqui.
2 Estamos no mesmo caso da nota. ante-
-cedente.
3 Nenhum carn tinha porta, ou cortadu-
ra para entrada, nem d'ella precisavam, sal-
tando-se por cima, visto que a sua maior
altura (nos mais modernos) nunca excedia
a 0,788.
Os mais antigos, nem tinham as pedras
unidas, pelo que, pelos espaços entre uma
e outra pedra, collocada perpendicularmen-
te, com a maior facilidade se podia entrar
e sahir.
São estas as taes construcções a que o
povo destes sitios chama cerrados dos mou-
ros.
SAN 423
ceadas d'estas ruinas, é certo que já perten-
cem à edade do ferro.
As construcções, de diferentes fórmas e
tamanhos. são em numero de 1:600, pouco
mais ou menos, abrangendo um espaço de
quasi dois kilometros de comprimento e um
de largo.
O3 lavradores destes sitios, teem d'aqui
tirado grande numero de carradas de pedra,
para vedarem as suas tapadas.
Diz o sr. Possidonio : —«Em vista desta
importantissima descoberta, ou se verifique
ou não, ser este o sitio da antiga Britonia,
etc.»
Não é, não senhor. Posto que hoje se não
saiba com certeza a situação exacta da an=
tiga Britonnia, sabe-se todavia que era sobre
uma das margens do rio Lima (ou talvez so-
bre ambas.)
Vide Britonia do Lima.
No reinado de D. Fernando, de Leão (1026)
se procedeu à divisão do condado d'Entre q
Douro e Minho, e n'esta divisão se lê:
(Traducção.) — «Principia (o condado) no
lugar, cabeça (foz) do Minho, onde o tal rio
entra no mar, e o rio Froylano (hoje Coura)
entra no Minho (Caminha.) D'alli vae cor-
rendo pela costa do mar até á foz e cabeça
do rio Lima (hoje Vianna) e d'alli, pelo mes=
mo rio Lima acima, ATÉ BRITINIA, ONDE AN=
TES FOI BRITONIA, etc.
(Vide no 4.º vol., pag. 494 e seguintes.)
Pelos annos 970 de J. C., o feroz Abou-
Amer, cognominado o Almançor, vendo os
christãos entretidos com as guerras recipro-
cas, entre D. Bermudo II, rei da Galliza e
Asturias, e seu primo, D. Ramiro III, rei de
Leão, invadiu a Lusitania, pondo tudo a
ferro e fogo, e, chegando a Britonia, os seus
moradores lhe resistiram tenazmente, sendo
esta cidade a que mais heroica resistencia
lhe oppoz; mas, por fim, teve de ceder à
enorme desproporção do numero.
Os mouros, furiosos, arrazaram de tal
modo a cidade, que nem della hoje restam
vestígios.
«A maior parte dos britonenses, foram
mortos ou captivos, e os que poderam esca-
par, foram estabelecer-se em um alto mon-
42h “SAN
te, na costa do Oceano Atlantico, 4 kilome-
tros ao N. N. O. da foz do Lima, e 2 ao E.
do mar, no sitio onde hoje existe a capella de
Santa Luzia, e ahi edificaram uma povoa-
ção, a que deram o nome de Vianna.» 1
«Passados annos, e expulsos os mouros de
toda a Lusitania, foram os povos da primi-
tiva Vianna, pouco a pouco, estabelecendo-
se na planicie que fica ao sopé do monte, do
lado do S., proximo à foz do Lima, e sobre
a margem direita d'este rio; e se foi despo-
voando a antiga Vianna, por ser o sitio
d'ella, escabroso e esteril.»
«Assim lançaram os fundamentos à mo-
derna cidade de Vianna, e da velha, apenas
restam ruinas.»
«Em 1258, passando o nosso D, Affonso III,
pela velha Vianna, e vendo o estado de aban-
donc em que estava, e a impropriedade de
tão inhospito sitio, para uma povoação, a
mandou remover, para o sitio da actual
Vianna, aproveitando muitos materiaes da
antiga», etc.
Em Vianna, serei mais explicito.
Ao meio da encosta do monte, do lado do
S., existe uma mina (que o povo diz cons-
truida pelos mouros) para a qual ainda se
distinguem as rampas, bem traçadas, do la-
do do O., e é a unica nascente d'agua d'este
monte.
O sr. Possidonio propoz à camara de Vian-
na as providencias necessarias, para obstar
à total destruição d'estas antiguidades; sen-
do attendido pelo presidente, o sr. Antonio
Pinto d'Araujo Correia, que concordou em
hir ver estas ruinas, com o sr. Joaquim Ca-
bral de Noronha e Menezes, então governa-
dor civil de Vianna, e outros cavalheiros da
cidade. |
Com effeito,no dia 17 d'abril (do dito an-
no de 1877) sahiram todos, com o sr. Pos-
sidonio, em direcção ao monte de Santa Lu-
Zia, onde examinaram tudo o que era digno
1 Mas este sitio já havia sido povoado em
tempos remotos, por os celtas, ou outros po-
vos, cujo nome hoje ignoramos, e talvez que
depois, pelos romanos; como se póde colli-
gir pelos vestigios de trez épocas diversas,
que aqui se teem descoberto.
SAN
de exame, e resolveram estacionar alli um
guarda, para que o povo não continuasse a
destruir aquillo.
A camara continuou as escavações, diri-
gidas pelo sr. Felgueiras, director do colle-
gio viannense; e n'ellas se acharam varias
moedas de prata e cobre, alguns penates, e
muitas outras preciosidades archeologicas.
Nomeou-se uma commissão, presidida pe-
lo sr. Antonio Pinto d'Araujo, para dirigir
os trabalhos de exploração, que principia-
ram logo em 2 de junho, e para a camara
foi remettido um grande numero de moedas
e medalhas, algumas em bom estado de
conservação, e perfeitamente legiveis, e ou-
tros objectos que alli se hiam achando.
No principio de julho, já estavam a des-
coberto, treze casas (ou cousa que o pare-
ce) d'este monte.
Ha aqui vestigios de trez diferentes épo-
cas, entre as quaes medeiaram alguns secu-
los.
A 4.2, pertence incontestavelmente aos
tempos pre-historicos.
A 2.º, com toda a probabilidade, aos ro-
manos.
(Nem é de suppor que elles deixassem ao
abandono, um ponto de tanta importancia
militar.)
A 3.2, com toda a certeza, é dos seculos
X, XI, XII € xr — isto é — do tempo da pri-
mitiva Vianna: (como era de esperar) ha
deste tempo mais numerosos vestígios.
Quando descrever a cidade de Vianna, di-
rei o mais de que tiver noticia, com respei-
to ás ruinas do monte de Santa Luzia.
SANTA LUZIA-—Vide Luzia (Santa.) .-
SANTA MARGARIDA (Lapa de) —Extre-
madura (mas ao S. do Tejo) comarca, con-
celho, freguezia, e 4 kilometros ao O. de Se-
tubal.
Quasi á raiz da famosa serra da Arrabi-
da, que fórma o cabo do Espichel—e Pro-
montorio barbarico dos antigos (vide Arra-
bida) proximo à foz do Sado, e do porto se-
maphorico, no sitio onde o mar furioso arre-
meça as suas ondas espumantes sobre alcan-
SAN
tilados rochedos, está uma gruta, obra da
natureza, à qual se dá o nome de Lapa de
Santa Catharina, virgem e martyr.
Segundo a tradição, a imagem desta san-
ta, está aqui desde uma época remotis-
sima.
Tem a gruta mais de 22 metros de com-
primento.
A gua largura varia muito, em razão de
varias outras grutas mais pequenas que se
communicam com a principal; pelo que, em
partes, vem a ter mais de 40 metros de
largo.
Póde conter mais de 400 pessoas, e den-
tro rebenta uma fonte, de optima agua po-
tavel, que nunca secca, ainda nas maiores
estiagens.
O tecto está ornado de formosissimas sta-
lactites, as quaes, vistas á luz de archotes,
produzem um effeito surprehendente.
Tem uma grande rotura, por onde lhe en-
tra io ar e a luz, e por onde tambem muitas
vezes entra o mar. Á esquerda, fica a entra-
da da gruta.
Do alto da serra, para a lapa, desce-se por
uma calçada, hoje em bastante ruina, que
consta ter sido feita por um eremitão da
santa.
Esta calçada vem ter a uma rocha em que
bate o mar.
Tomando-se à direita, chega sea uma va-
randa com assentos e parapeitos, que é o
adro da ermida da gruta, descendo-se ain-
da para ella, 42 largos degraus.
A capella é quadrada, e se lhe fez um te-
cto, forrado e telhado, por causa da agua que
cáe pelos intervallos ou fisgas do rochedo
superior.
Tem um só altar, tendo no centro a ima-
gem de Nossa Senhora da Salvação, com
uma gallé na mão direita, e o Menino Jesus
na esquerda.
Á direita da Senhora, está a imagem de
Santa Margarida, padroeira da ermida, e á
esquerda, a imagem de Santo Antonio.
Todos os marinheiros e pescadores teem
grande devoção com a Senhora da Salvação.
Segundo a lenda, que é muito verosimil,
fugindo um barco de christãos a um corsario
mourisco, se refugiou n'este sitio.
SAN 425
Os mouros o perseguiram até aqui; mas,
encalhando o seu barco, tedos foram agar-
rados pela gente da terra.
É por isto, que se collocou uma gallé na
mão da Senhora.
Antigamente, quando em Portugal havia
mais religião e temor de Deus, todos os ho-
mens do mar, de Setubal, se encarregavam
da conservação e culto d'esta ermida, e fa-
ziam à Senhora da Salvação uma grande fes-
ta annual.
Até 1834, sempre aqui houve eremitas, a
maior parte clerigos, que residiam em umas
casas à maneira de recolhimento, com sua
cérca, tudo feito à custa dos duques d'Avei-
ro, que possuem por estes sitios muitas e
grandes propriedades, e immensas rendas;
e eram senhores de toda a serra da Arra-
bida.
(Vide Arrabida, Azeitão, Setubal, Villa
Fresca de Azeitão, e Villa Nogueira.)
e
A pouca distancia da Lapa de Santa Mar-
garida, na quebrada que a serra da Arrabi-
da faz para o O., está a ermida de Nossa
Senhora do Carmo, fundada por D. Magda-
lena Girão, duqueza d'Aveiro, filha dos du-
ques de Ossuna (vide Samóra-Correia) a qual
para que se soubesse que a fundação era de
uma hespanhola, deu à Senhora o título Del
Carmen. f
É um templo vasto, tendo o corpo da egre-
ja mais de 14 metros de comprido, além da
capella-mór.
Sobre o arco cruzeiro, foram collocadas
as armas dos duques d'Aveiro.
Tem só o altar-mór.
No centro está a imagem da padroeira,
tendo à direita a da Senhora da Pinha, e à
esquerda a do Menino Jesus.
Antigamente era esta capella muito con-
corrida, pelos povos de Azeitão, Cezimbra,
Palmella, Setubal e outros, que lhe faziam
grandes romarias, havendo em algumas del- .
las, além das missas cantadas, sermões, mu-
sica, fogo preso e do ar; tambem comedias,
entremezes e bailes; mas, como n'isto se
praticavam muitas vezes, actos menos ho-
nestos, 0 cabido de Lisboa, em séde vacante,
prohibiu as comedias e bailes, em 1714, sob
426 SAN
pena de excommunhão-maior, por uma pas-
toral que mandou pregar na porta da egre-
ja da Senhora.
A irmandade da padroeira, mandou fazer
algumas casas, junto à ermida, para com-
modo e recolhimento dos irmãos e dos ro-
meiros.
Sobre a verga de uma das portas d'estas
casas se lé:
ESTAS CASAS MANDOU FAZER
A IRMANDADE DE SETUBAL,
E SE ACABOU A OBRA NO ANNO
DE 1611.
Até 1834, tinha esta capella um eremitão,
com boas casas de residencia e sua cêérca,
murada, contigua à egreja; e um capellão,
que aqui dizia missa aos domingos e dias
sanctificados.
A ambos dava uma ordinaria, a casa dos
duques de Aveiro, até 1759.
À imagem de Nossa Senhora da Pinha, foi
mandada fazer e collocar neste templo, por
D. Maria de Fáro, duqueza do Cadaval.
Tudo isto se vê actualmente no mais com-
pleto abandono.
(Vide Arrabida e Setubal.)
SANTA MARGARIDA DA SERRA — Vide
Margarida da Serra (Santa.)
SANTA MARIA ALTA—portuguez antigo
-—hoje diz-se Nossa Senhora do Pilar.
SANTA MARIA D'ANTE NATAL —portu-
guez antigo — hoje diz se — Nossa Senhora
do Ó, ou da Expectação.
SANTA MARIA DAS JUNIAS— vide Pi.
tões.
SANTA MARIA DE MEINÊDO — esta fre-
guezia do Douro, já fica descripta a pagina
160, col. 4.2, do 5.º volume; porém, como
depois pude obter curiosissimos apontamen-
tos, de que não quero privar o leitor, os po-
nho aqui.
Esta freguezia foi sempre em Terras de
Lousada, mas pertencia, no principio do
seculo xvrrr, à camara de Penafiel do Souza,
que lhe fica 6 kilometros ao sul.
Em 572 de J. CG. (sendo rei dos soevos,
Ariamiro, filho de Theodomiro) era Meiné.
do uma cidade episcopal, já com o nome de
Santa Maria de Magneto, que se corrompeu
SAN
em Meinêdo; mas durou pouco tempo este
bispado, tendo só um bispo, que foi Santo
Thyrso, o qual foi morto ás pedradas, pelo
povo de Arrifana do Souza (hoje Penafiel)
o qual ainda então era idolatra.
Ariamiro supprimiu então este bispado,
unindo-o ao do Porto.
(Vide 5.º vol., pag. 160, col. 2.º)
A invocação da padroeira, é Nossa Senho-
ra do Pilar, antigamente Santa Maria Alta.
Era esta imagem de estatura agigantada e
de pedra, e, em 1686, pretendendo os mor-
domos fazer-lhe novo retabulo. de talha dou-
rada, como a imagem, além de muito gran-
de, era muito antiga, e de esculptura pouco
correcta, a quizeram enterrar, ao que 0 po-
vo se oppoz obstinadamente, pelo que os
mórdomos, que já a tinham tirado do altar-
mór, onde estava, a collocaram em um dos
altares lateraes. E
Segundo a tradição, dava-
se a esta Senhora a denomina-
ção de Santa Maria Alta, pela
sua elevada altura.
Hoje a padroeira é Nossa Se-
nhora das Neves.
Mas o primeiro padroeiro d'esta egreja,
depois de Meinêdo ser elevado a parochia,
foi Santo Thyrso, o tal bispo de quem já fal-
lei, e cujo corpo está em uma capella abo-
badada, da parte do Evangelho, na egreja
matriz d'esta freguezia.
Não se sabe quando Meinêdo mudou de
padroeiro, mas, em 1553, ainda era Santo
Thyrso, como consta do Tombo da egreja
e couto de Meinêdo, feito a 18 de dezembro
d'esse anno, que dá à freguezia a denomina-
ção de Santo Thyrso de Meinêdo, e declara
ser arcediagado, do bispado do Porto.
(Cathalogo dos bispos do Porto, pelo bis-
po D. Rodrigo da Cunha, parte 2.º, pag.
216.)
Nos seculos passados, tinha o povo d'esta
provincia, tanta devoção a Santo Thyrso, que
varias freguezias o tomaram para seu pa-
“droeiro.
O mosteiro de Santo Thyrso de Riba de
Ave (de monges benedictinos) tomou a invo-
cação d'este santo—não sendo seu padroei-
SAN
ro — por uma reliquia d'elle que poderam
obter.
A egreja matriz de Meinêdo, foi primiti-
vamente a de um antiquissimo mosteiro be-
nedictino.
O corpo do Santo, está, na referida capel-
la, em uma sepultura raza, sob 0 altar, no
qual está a imagem delle, em vulto.
Os povos d'estes logares, quando padecem
qualquer molestia, tomam terra da sepultu-
ra do santo, e misturando-a com agua; a be-
bem, crendo que com este remedio saram,
o que muitas vezes acontece, tal é a fé que
depositam neste singular remedio.
Segundo o Sanctuario Marianno, tomo 5.º,
pag. 40, já em 572 era padroeira de Meiné-
do, Nossa Senhora Alta, e sustenta—contra
o que diz D. Rodrigo da Cunha — que Santo
Thyrso nunca foi padroeiro d'esta fregue-
zia.
Tambem o padre Carvalho, na sua Choro-
graphia Portugueza, não diz que Santo Thyr-
so foi bispo de Meinêédo, nem martyrisado
pelos da Arrifana do Souza, mas diz que o
conde Fonsa (abreviatura de Fonseca) trou-
xera as relíquias d'este santo — natural de
Toledo — da cidade de Constantinopla, no
anno 600, onde padecêra martyrio, no tema-
po do imperador Décio.
A opinião mais seguida, porém, é que San-
to Thyrso foi martyrisado pelos romanos, na
cidade de Apollonia, na Thracia, em 28 de
janeiro do anno 284, como já fica dito em
Meinêdo.
O que é certo, é que a sua festa se faz a
28 de fevereiro.
SANTA MARIA DE NOGUEIRA -- Já está
descripta no 6.º vol., pag. 104, col. 1.:—a ul-
tima Nogueira dota gi ci aqui accres-
cento mais:
Pelo: O. d'esta freguezia, corre o ribeiro
Almoróde, que tem dois nascimentos—um na
aldeia de Paredes, freguezia de S. Pedro de
Avioso — outro na freguezia de Silva-Es-
cura.
Juntam-se acima da ponte d'Almoróde,
proximo a Nogueira, tomando então o nome
d'Almoróde, que perde, mettendo-se no rio
Leça, na freguezia de São Faustino, de Gui-
Íões.
SAN m27
Até à ponte d'Almoróde é denominado) Rio
Calqueiros, em razão de passar por umas al=
deia d'este nome, na freguezia de Godim.: End
Nogueira tambem lhe chamam Rio da Pe-
na, nome de uma aldeia desta freguezia de
Nogueira, é onde tem uma ponte, de pedra.
Diz o povo destes sitios, que o nome dºes=
te rio, lhe provem da ponte de Almoróde,
em Nogueira, onde ha uns moinhos perten=
centes a um lavrador, de alcunha Almoróde,
corrupção: (segundo o povo) de Ambrozio,
(1) nome antigo do primeiro dono destes
moinhos.
Na minha opinião, Almoróde, é corrupção
do substantivo árabe al-modde—medida de
cereaes, correspondente ao nosso alqueire,
e que os portuguezes tambem corromperam
em almude. (Os arabes pronunciavam al-
móde, e era facil a corrupção.) O almude
veiu depois—e até aos nossos dias— a ser
medida de liquidos.
O Almoróde, corre de N. a S., por espaço
de 10 Kilometros. Nas suas aguas se criam
saborosas trutas, barbos, bógas, e algumas
eirozes.
Desde 1869, faz-se na freguezia de No-
gueira a procissão dos Passos, no domingo
3.º da quaresma. Para esse fim, se construi-
ram, no caminho que conduz ao Calvario,
varias capellas, representando alguns factos
da Paixão de Christo. São cinco—1.º, o Hôr-
to-2.º, à Prisão—3.º, o Senhor preso à co-
lumna—k.s, a coroação de espinhos —5., 0
Senhor no pretorio. No Calvário ha uma ou-
tra capella, que é a da Crucifiaão.
Todos as cinco capellas são uniformes, de
“bella architectura, e as figuras, em vulto,
de tamanho natural; obra admiravel, e que
póde competir com as melhores d'este ge-
nero, de qualquer cidade ou povoação no-
tavel.
Tudo isto foi feito por donativos volunta-
rios dos moradores da freguezia.
Importou cada capella, fóra as imagens,
em 1004000 réis, e as imagens, cada una
em 2008000 réis.
A capella do Calvario, que é maior, culs-
tou 1508000 rêis.
Toda a pedra d'estas obras, foi exitrahide
428 SAN
das pedreiras de Nogueira, e é um granito
de optima qualidade.
Anda em construcção, e está quasi con-
cluida, uma estrada à mac-adam, desde a
freguezia de Nogueira, até S. Mamede de
Infesta; eliga com a estrada do Porto a Bra-
ga. Atravessa as freguezias de Milheiroz da
Maia, Silva-Escura, e S. Mamede de Coro-
nado, 'todas ao N. de Nogueira. Termina na
3.º estação do caminho de ferro do Minho,
em S. Romão.
“Todos os annos se faz nesta freguezia uma
esplendida festa a S. Bartholomeu, no dia
proprio (24 de agosto) havendo concorridis-
simo arraial.
“O orago da freguezia, é Nossa Senhora do
Ó, cuja festa se faz à 18 de dezembro.
SANTA MARIA DA OLIVEIRA — Vide Gui-
marães, e Oliveira (Santa Maria da) no 6.º
vol., pag. 255, col. 1.º, pr.
SANTA MARIA DE OLIVEIRA—Já está
descripta, sob a palavra Oliveira, no 6.º vol.,
pag. 265, col. 1.2, pr.
Aqui accrescento mais, o que o meu es-
clarecido amigo, o sr. doutor Pedro Augus-
to Ferreira, se dignou mandar-me, com res-
peito a esta freguezia.
Tem um pequeno passal e casa de resi-
dencia, que foram doados à freguezia em
1695, pelo ábbade Francisco Gonçalves Car-
doso.
“ Esta freguezia é limitada ao nascente pela
de Fontellas, ao poente pelo ribeiro Serma-
nha, linha divisoria entre esta freguezia e à
- de Cidadelhe —ao sul pelo Douro, e ao nore
te pela freguezia de Cediéllos e pelo monte
Mourinho.
- O seu solo é muito fertiletodo bem cultiva-
do. Asua producção dominante é vinho, bom
“para o baixo-Corgo;—e tambem produz ba-
k Ago sebueneiro, azeite, fructa e legumes.
“PA egreja matriz é um bom templo. Tem o
tecto forrado de castanho com molduras em
relevo, e todas douradas. Foi esta obra feita
em 1763, sendo abbade, Antonio Alberto da
Torre, da nobre casa das Torres, que con-
tribuiu com valiosos donativos. El-Rei D. João
SAN
v deu 6008000 réis, e o restante foi dado
pela confraria e por diversos parochianos.
Desde 1695 até 1797 houve 3 abbades
dignissimos. O 4.º foi Francisco Gonçal-
ves Cardoso, que, alem d'outros beneficios
Televantes prestados a esta parochia, a do-
tou com.o passal e residencia;—o 2.º foi o
mencionado Antonio Alberto, da casa das
Torres, que regularisou a escripturação,
creou quatro irmandades, promoveu a sua
dotação, fez obras: importantes na igreja e
deu-lhe um orgam, sinos, ete.—O 3.º foi José
Barbosa d'Albuquerque, que por escriptu-
ras feitas no Porto em 4790, 1792 e 1796, de-
positou na irmandade dos Clerigos a quan-
tia de 7:2008000 réis, para com o seu ren-
dimento se celebrar perpetuamente na egre-
ja matriz d'esta parochia um ofício de oito
padres com obrigação de missa, todos os an-
nos, pela alma dos seus freguezes, e se dar
por occasião da festividade da padroeira, no
dia 45 de agosto, a esmola de 28400 a cada
um de 25 parochianos pobres, de differen-
tes estados e edades, que provem boa moral,
etc.
Alem d'isto dotou a egreja com as alfaias
seguintes: um calix grande de prata, com
molduras abertas a buril, patena e colher,
—uma caldeira grande com hyssope,—uma
bacia e um jarro,—um par de galhetas, —2
thuribulos, 2 navetas e 2 colheres, —um vaso
grande para as communhões,—2 chaves para
0 sacrario, sendo uma muito rica e enfeitada,
com caixa propria, —uma ambula “grande
para os Santos Oleos,—uma dita mais pe-
quena para a Extrema-Uncção,—4 calices
com patenas e colheres, — um ostensorio
(custodia) grande que mede quasi 4 palmos
de altura, com um circulo de pedras verme-
lhas finas, rosas de pingos d'agua, luneta
toda de diamantes, em uma caixa forrada
por dentro de velludo vermelho, com duas
almofadas de damasco de seda da mesma
côr, e por fóra coberta de marroquim.
Todas estas alfaias são de prata e quasi
todas douradas e lavradas.
Deu ainda mais para a egreja—um para-
mento branco de seda e capa d'asperges, tu-
do bordado, — um outro tambem de seda com
capa d'asperges, de côr roxa, egualmente bor-
SAN
dado, —outro de velludo preto superior, com
capa, etc., e guarnições de galão d'ouro fi-
no;—um palio com 6 varas, — uma umbella,
—um pano para o pulpito,—e um pavilhão
para o sacrario, tudo de seda branca, bor-
dada—um outro pavilhão roxo para o sa-
crario—6 lanternas de folha, e varas, tudo
dourado. E deixou rendimêntos consigna-
dos para a limpesa das alfaias e concerto dos
paramentos, com a expressa condição de
se não emprestarem para outra freguezia.
Em 1808, por ordem de um general fran-
cez, foram entregnes ao juiz de fóra de Me-
zão-Frio—1 caldeirinha, 1 jarro e bacia, 1
thuribulo e naveta, 2 galhetas e 2 cruzes,
tudo de prata, pesando 19 1/, arrateis—sal-
vando-se a custo o restantel...
Esta freguezia conta actualmente 180 fo-
gos, com 700 habitantes, e a mortalidade é,
termo medio, 18 a 20 fallecimentos por an-
no.
O seu clima é temperado e saudavel.
Ha n'esta freguezia 8 capellas que são—
da Senhora da Esperança, —do Rosario (em
ruinas), —Familia Sagrada, —sS. José, —Santa
Barbara, —Senhora da Livração,—Santa An-
na,—e Senhora da Piedade, com uma riquis-
sima imagem da Virgem.
Os habitantes d'esta parochia eram obri-
gados a ir aMezão-Frio comprar a carne nos
talhos da villa, o que lhes era altamente in-
commodo, e por isso requereram privilegio
para terem açougue proprio, o que lhes foi
concedido em 28 de dezembro de 1583, por
Philippe 11, de Hespanha, de execranda me-
moria.
Esta freguezia é formada por uma povoa-
ção unica, etem grandes proprietarios e bons
edifícios, avultando entre elles a elegante
casa das Torres, toda de bôa cantaria, com
duas torres, um corpo central e dous late-
raes, e dous espaçosos terreiros. É seu actual
possuidor o sr. Eduardo Affonso de Faria
Girão.
“Depois do vistoso palacete das torres é di-
gna de menção a casa dos herdeiros de José
Borges de Carvalho.
SAN 429
São tambem espaçosasas casasdosr. doutor
José Januario d'Almeida Borges, distincto
jurisconsulto, e a do sr. Luiz Pereira da Fonse-
ca, lente jubilado da eschola medico-cirur-
gica do Porto, grande proprietario e pessoa
de merecimento, natural d'esta freguezia.
Ainda pelo meiado d'este seculo havia
n'esta parochia 7 presbyteros e 7 bachareis
e doutores, —hoje, apesar do progresso, tem
esta freguezia apenas um presbytero—o re-
verendo parocho, Domingos d'Almeida Pi-
nheiro,—e um bacharel formado em direito,
que é o mencionado doutor José Januario de
Almeida Borges. O lente jubilado Luiz Pe-
reira da Fonseca reside no Porto.
Terminaremos este artigo consignando um
dos maiores disparates da nossa divisão pa-
rochial.
Indo de Mezão-Frio para a Régua, a primei-
ra freguszia que se encontra é a de Villa Ma-
rim; segue-se a de Cidadelhe, e depois a de
Oliveira, sendo estas ultimas divididas pelo
Sermanha, ribeiro d'alguma força e que cor-
re por um valle fundo e medonho, como na
Ponte Cavallar e em Nostim, limitte de Ce-
diéllos, e mesmo debaixo da povoação d'Oli-
veira, ha sobre este ribeiro uns penedos co-
lossaes, escalvados e nus onde (diz a lenda)
os demonios fazem audiencia à meia noite!
É o Sermanha difficil de transpor, e tanto
que na confluencia com o Douro tem uma
respeitavel ponte de pedra, que na linha fer-
rea marginal em construcção, vae ser sub-
stituida por outra, considerada uma das pri-
meiras obras d'arte d'esta linha.
É pois o Sermanha a divisão natural d'es-
ta freguezia d'Oliveira e efisctivamente a li-
mita a oeste, desde Cediellos até ao Douro, e
vae pela margem do Douro até ás Caldas do
Mollêdo, comprehendendo ainda n'estas Cal-
das, os Quarteis amarellos, e todos os banhos
(da Estrada, da Lameira e da margem do
rio)—mas o pequeno povoado do Granjão
(onde avulta a casa do barão deste titulo)
na margem esquerda do Sermanha, não per-
tence a esta freguezia d'Oliveira, nem à de
Cidadelhe, na outra margem do ribeiro, mas
430 SAN
é de Villa-Marim, contigua a Mezão-Frio.
Desce a freguezia de Villamarim até ao
Douro e vae pela margem d'este rio, com uma
pequenissima nesga de terra, isolando o lo-
gar de Cidadelhe, buscar o Granjão, alem do
Sermanhal
Não se acredita facilmente.
—E ainda para cumulo do escandalo, a es-
trada de Oliveira para as Caldas do Mollêdo,
que em parte, como dissemos, pertencem a
Oliveira, atravessa o Granjão, e vor conse-
quencia terreno de Villa-Marim!...
(O doutor Pedro Augusto Ferreira—Ab-
bade de Miragaia.)
SANTA MARIA DO PEREIRO—templo an-
quissimo, Beira Baixa, pertencente á fregue-
zia da villa de Cinco-Villas. (Vide Cinco-
Villas, e no 8.º vol., pag. 297, col. 2.2, a re-
petição da mesma palavra.)
Fica o templo de Santa Maria do Pereiro,
a pouca distancia da villa de Castello Rodri-
go, na antiga comarca do Riba-Côa (hoje Sa-
bugal). É uma egreja vasta e muito formo-
sa, posto ser muito antiga, o que facilmente
se*conhece pela sua architectura.
Não sei com que fundamento, dá o povo
d'aqui, o nome de Santa Maria do Pereiro,
à padroeira d'esta egreja; e tambem alguns
a denominam, Egreja das Santas Reliquias.
Ninguem sabe a data da construcção d'es-
te templo, e só que é antiquissimo.
Segundo a tradição constante, houve n'es-
te silio, em tempos remotos, uma grande
povoação, que foi abandonada e cahiu em
ruinas.
Suppõe-se que foi em 4193, anno em que
uma grande peste assolou estes sitíos. Cons-
ta que a gente da antiga povoação (chama-
da Pereiro) fugiu d'aqui, indo residir para
uma, então pequena, povoação, que é a actual
Cinco-Villas, e fica perto do templo da Se-
nhora.
Tambem é tradição que o primeiro nome
de Cinco-Villas, era Villa-Nova, e que, re-
fugiando-se aqui os moradores de quatro
povoações, no tal anno de 1493, ficou, des-
de então, com a denominação actual.
Todavia, foi sempre povoação de pouca
importancia, pois nunca teve foral, velho ou
SAN
novo, e se regia pelo da villa de Fontenares
à qual o rei D. Manoel deu foral, em Evo-
ra, a 15 de novembro de 1549. 1
Esta villa de Fontenares, foi arrazada pe-
los castelhanos, durante a guerra da restau-
ração (1640-1668) e dºella apenas hoje res-
tam poucos vestigios.
Nos livros mais antigos, que tratam de
Cinco-Villas, se lhe dá o nome de Ginco-Vil-
las-da-Reigada.
A freguezia (e antiga villa) da Reigada—
ou Arreigada, nome que lhe dá o foral—fi-
ca proxima à de Cinco-Villas, e esta era de-
pendente d'aquella. O rei D. Manoel, deu fo-
ral à Reigada, tambem em Evora, e no mes
mo dia, mez e anno, em que o deu a Fon-
tenares.
O padre Antonio de Vasconcellos, na sua
Descripção do reino de Portugal, diz que a
imagem da Senhora do Pereiro, e as santas
reliquias que se veneram no seu templo, fo -
ram achadas no mesmo logar, enterradas pe-
los christãos, quando os mouros invadiram
a Lusitania, em 7146.
Não se sabe quando tudo isto foi desco-
berto, mas é certo que foi ha bastantes se-
culos.
Junto ao templo de Nossa Senhora do Pe-
reiro, fica outro, ao S., e a uns 60 metros
de distancia, dedicado a S. Julião, e consta
que foi a matriz primittiva da freguezia do
Pereiro. É tambem templo vasto e antiquis-
simo, e pertenceu à ordem de Christo. (Vi-
de 8.º vol., pag. 297, col. 2.2-—e S. Julião do
Pereiro.
Consta que a egreja de Nossa Senhora do
Pereiro, o foi de um mosteiro de templarios,
o que é muito provavel, visto que em 1349,
passou esta freguezia e immediatas a forma-
1 É provavel que os templarios, antigos
donatarios de Cinco-Villas, lhe dessem fo-
ral, ou, depois d'elles, seus herdeiros, os ca-
valleiros da ordem de Christo; mas Fran-
klim não o traz. Foi, até 1834, commenda
da ordem de Christo.
SAN
rem uma commenda da ordem de Christo,
na qual se fundiu a do Templo.
A imagem da Senhora (de 0,730 d'alto)
tem o Menino Jesus no braço esquerdo, e
com a mão direita lhe está offerecendo um
pômo; e é por isso que se lhe deu (não se
sabe porque) o titulo do Pereiro.
SANTA MARINHA DE CGÊA—villa, Beira
Baixa. — Vide Marinha (Santa) no 5.º vol.,
pag. 74, col. 4.2, a 2.º Marinha.
SANTA MARINHA DO FERRAL —Esta fre-
guezia ja está descripta com o nome de Fer-
ral, no 3.º vol., pag. 169, col. 2.º
Como o meu esclarecido amigo, o reve-
rendissimo sr. José dos Santos Moura, di-
gno abbade de Caires, se dignou dar-me mais
esclarecimentos de muita valia, com respei-
to a esta parochia, os ponho neste logar.
Fica esta freguezia, 22 kilometros ao O
da villa de Montalegre, a cujo concelho e co-
marca pertence. Desde 1841 até 1853, era da
mesma comarca, mas do concelho de Rui-
vães.
Consta por tradição, que até ao anno de
1452, era padroeiro d'esta freguezia S. João,
com a denominação de Misarêlla; e que a
egreja matriz existia, no monte superior à
ponte, e que n'esta egreja, de que ainda se
encontram vestigios, se enterravam tambem
os freguezes das annexas, Contim, Villa da
Ponte, e Venda Nova.
A residencia parochial era no logar de
Ferral.
Um morgado da casa da Poça, do logar de
Santa Marinha, tinha uma capella, junto à
casa, dedicada a Santa Marinha martyr, que
ficou sendo, desde 1452, a padroeira da fre-
guezia, em cumprimento da comminação,
feita com o mórgado, que deu o terreno ne-
cessario para a nova egreja matriz, e ficar a
mesma dentro do praso da casa da Poça. A
capella-mór foi reedificada em 1725. A Te-
sidencia parochial foi tambem, depois de
muito tempo, mudada, pelo abbade José da
Rosa Magalhães, natural de Villa-Real, para
o mesmo logar de Santa Marinha, e fica, dis-
tante da egreja matriz uns 400 metros, no
cume do logar, separada de visinhos e com
caminho muito ingreme.
SAN 431
Era abbadia da Serenissima casa de Bra-
gança e rendia em dizimos, primicias e são-
joanneira, juntamente com as annexas ou
filiaes, Villa da Ponte, Venda-Nova e meta-
de de Contim, 1:0308000, e destes pagava,
em virtude de uma Bulla pontificia, do San-
to Padre, Benedicto x1v, datada de 5 das Ka-
lendas de agosto de 1747, as quartas-nonas
para a Patriarchal e as congruas dos paro-
chos das ánnexas.
O abbade d'esta freguezia apresentava os
parochos de Contim, Venda Nova e Villa da
Ponte.
Tem esta freguezia cinco capellas publi-
cas, dedicadas—aS. Thiago, na povoação de
Sanzello—a Santo Antonio, em Nogueiró—a
Nossa Senhora da Assumpção, em Viveiro—
ao Bom Jesus, no Ferral—e à SS. Trindade,
em Sichós.
Compõe-se de oito povoações — Sanzello;
Nogueiró; Santa Marinha, séde da parochia;
Ferral; Viveiro; Pardieiro; Villa Nova; e Si-
chós.
Está situada, em terreno accidentado, no
angulo formado pela confluencia dos rios Re-
gavão e Cávado. É, quasi, no seu vertice a
legendaria ponte da Misarélla, obra de El-
Rei D. Manoel, por alvará de à de setembro
de 1514.
O seu solo, em rasão da sua baixa situa-
ção e exposição meridional, é muito fertil:
produz centeio, milho, feijão, batatas, vinho.
verde, algum azeite e muita castanha.
Correm, na direcção de E. a O., ao norte
o rio Cávado; ao sul o Regavão; e pelo cen-
tro, a estrada do antigo systema, de Mont'a-
legre a Braga.
São naturaes d'esta freguezia:
Manoel Antonio Alvares Pereira, nascido:
na casa do Principe, de Ferral, aos 17 de ju-
nho de 1793. Estudou preparatorios em Bra-
ga e Coimbra, tomou o grau de bacharel, na
faculdade de Canones e Leis em 1821, e aca-
bou a formatura em 1822, obtendo as com-
petentes cartas, com boas informações, n'es-
se mesmo anno,e habilitado para os logares.
de lettras e magistratura,
Foi advogado em Braga por quatro annos.
— 1823, 1824, 1825, 1826—e n'este ultimo
anno foi a Lisboa, onde se habilitou para
432 SAN.
advogar na côrte e casa da supplicação. Foi
por algum tempo, vigario geral de Chaves.
Foi vigario geral do arcebispado, desde
18 de abril de 1834, atê ao seu fallecimento.
Abbade de Amares em 1827; de Vieira em
21 de novembro de 1849, e de Priscos em 26
de setembro de 1855.
Foi governador do arcebispado, na au-
"“sencia do sr. D. Pedro Paulo, desde 19 de
agosto de 1845, até abril de 1846. Examina-
dor Synodal desde 1843 até à morte. Pro-
fessor de Direito Canonico, no Seminario
Diocesano, por muitos annos. Falleceu no 4.º
de dezembro de 4866 e jaz sepultado na
egreja de Santa Cruz, de Braga.
Desempenhou estes honrosos cargos com
muita dignidade e aptidão.
Era amigo verdadeiro, leal e sincero; af-
favel, discreto, lhano e agradavel em tudo
e para tudo; atrahia a estima e respeito de
todos quantos o conheciam.
“Era apaixonadissimo por Barroso, a pon-
to de, em todas as suas conversações, fallar
no meu Barroso.
Frei Manuel de Aguiar, nasceu em Sichós,
aos 25 de março de 1776, foi ordenado em
Evora, a expensas d'um lavrador do Gavião,
com quem, depois, teve uma desintelligencia,
perto da cidade de Evora. Consta que falle-
ceu no Alemtejo.
“O logar de Sichós, foi incendiado, pelo
exercito francez, no dia 16 de maio de 1809:
Por engano diz-se a pag. 313, do 2.º vol,
e pa. 169 do 3.º vol., que a freguezia de Co-
deçoso do Arco, hoje venda Nova, está ha
muitos annos annexa a esta, Ferral; mas não
é assim; Codeçoso do Arco, ou Venda Nova,
era annexa ou antes filial de Ferral; e con-
serva-se separada.
SANTA MARTHA—monte, Minho, sobran- |
ceiro ao da Magdalena, na serra da Falpêr-
ra, antigamente denominada Monte -Maior.
(Vide esta palavra.) O monte de Santa Mar-
tha, está 562 metros e 53 centimetros acima
do nivel do mar, no sitio onde foi collocada
uma pyramide geodesica (ou marco trigo-
nometrieo.)
SAN
D'este ponto se descobre um vasto e de-
leitoso panorama.
Fica sobre o rio Éste, ou Déste.
. D. Jeronymo Contador d'Argote (Memo-
rias de Braga, tom. 4.º, pag. 305) diz—«S.
Martha, monte, sobre o rio Déste, e Villa-
Egican, (?) e sobre o rio Cantabrion, (?) e
Villa, e sobre Villar de Cérvos, e Lodomar,
e o rio Cantabrion; segundo consta de di-
versas Doações, que existem no livro Fidei,
algumas, do tempo da Anarchia. Hoje con-
serva o mesmo nome, que lhe provem de
uma Capella que alli está, de Santa Martha.»
Está aqui a ermida de Santa Martha, que
dá o nome ao monte, e à qual se faz uma
grande romaria, no mez de julho;mas quasi
todos os annos ha n'ella grandes desordens
e pancadaria.
Muitos dos habitantes d'estes arredores,
aguardam o dia d'este arraial, para se vin-
garem de seus inimigos, pelo que, é de cos-
tume hir sempre fazer a policia do logar,
um forte destacamento de infanteria 8, es-
tacionada em Braga, commandado por um
capitão, e coadjuvado por uma força de ca-
vallaria, que nem sempre obstam a que mui-
tos dos romeiros regressem a suas casas com
as cabeças rachadas.
À causa principal das desordens, é a gran-
de quantidade de pipas de vinho, que na
vespera e no dia da festa, se esgotam aqui.
(Vide Faipêrra e Monte-Maior.)
SANTA MARTHA—Vide Portozêlio.
SANTA MARTHA-—Vide Martha (Santa).
SANTA MARTHA DA MONTANHA — Vide
Marta da Montanha (Santa).
SANTA MARTHA DE BOURO— Vide Bou-
ro (Santa Martha de).
SANTA MARTHA DE PENAGUIÃO — Vi-
de Martha de Penaguião (Santa).
Segundo a tradição, foram os irmãos, D.
| Thédo e D. Rausendo, que expulsaram d”a-
| qui os mouros, pelos annos de 1030. Quan-
' do os christãos se viram senhores d'estas
“terras, collocaram a bandeira dos Albuaza-
res (a de D. Thedo) no alto de um penhasco,
e d'aqui procede o nome da villa = pena-
quião.—Procederá.
SAN
Em 3 de julho de 1823, D. João VI, fez 1.º
visconde de Santa Martha (de Penaguião) a
Manoel Gregorio de Souza Pereira de Sam-
payo, commendador da ordem de Christo, ca- |
pitão de cavallaria, na extincta primeira pla- |
na da córte, deputado da companhia do Al-
to-Douro. Era filho natural, e foi legitimado
a 17 de março de 1774. (Tinha nascido a 29
de novembro de 1766.)
Casou, a 8 de setembro de 1790, com D.
Antonia Victorina Teixeira de Magalhães e
Lacerda, 5.º filha de Antonio Teixeira de Ma-
galhães e Lacerda, senhor da casa da Galça-
da, em Villa Real (vide Villa Real de Traz-
os-Montes), e de D. Anna Thereza Pereira
Pinto de Azevedo Souto-Maior.
Era filho de José de Souza Pereira Gue-
des Vahia de Sampayo, senhor da casa de
Santa Martha de Penaguião, mestre de cam-
po, do terço auxiliar de Chaves; casado cum
D. Joaquina Angelica de Menezes e Vilhena,
filha de Sebastião Guedes Cardoso de Carva-
lho, senhor da casa de Adebarros, fidalgo da
casa real, e capitão-mór de Caria, e de D.
Cecilia Joaquina Guedes Viçoso Pereira Cou-
tinho de Vilhena.
Do casamento de José de Sousa Guedes
Vahia de Sampayo, só houve uma filha, cha-
mada D. Helena Pereira Pinto Osôres.
Já disse que o 4.º visconde de Santa Mar-
tha era filho natural, legitimado. Foram seus
filhos, José e Antonio.
José de Souza Pereira de Sampayo, o 4.º
filho, foi 2.º visconde de Santa Martha, com-
mendador das ordens de Christo e Torre-
Espada, cavalleiro da Legião d'Honra (em
França), condecorado com a medalha da
campanha da guerra peninsular, pelos rele-
vantes serviços que então prestou. Fez par-
te da expedição de Pernambuco (1817), co-
mo major de um dos batalhões da divisão
dos voluntarios leaes d'el-rei; foi sub-chefe
do estado-maior, do sr. infante D. Miguel
(depois 1.º do nome) quando general em che-
fe do exercito (generalissimo) em 1823; go-
vernador das armas do Minho, em 1824; e
tenente-general graduado, do exercito rea-
lista, feito em 26 de outubro de 1832; mas
foi expulso do mesmo exercito, por se ter
SAN 433
“apresentado aos liberaes, antes da conven-
ção d'Evora-Monte.
Nasceu a 3 de junho de 17914.
Antonio José de Souza Pereira de Sam-
payo, irmão do antecedente, nasceu a 14 de
agosto de 1806. Foi tenente de cavallaria
n.º 8, do exercito realista, feito em 7 de fe-
vereiro de 1834.
Tinha casado, em 4 de março de 1830, com
D. Henriqueta Emilia de Souza Moraes Pi-
zarro, 2.º filha de Francisco Homem de Ma-
galhães Pizarro, e de D. Antonia Adelaide
de Moraes Sarmento Pereira Pinto, da casa
dos viscondes *de Bóbeda.
D'este casamento nasceram trez filhos —
Manoel, José e Joaquim.
O titulo de visconde de Santa Martha, está
actualmente extincto.
SANTA OVAIA—Vide Ovaia (Santa).
SANTA OVAIA DE BAIXO— logar, Beira-
Alta, na freguezia de Canas (ou Cannas) de
Sabugosa, comarca e concelho de Tondella.
Vide Canas de Sabugosa.
N'ºesta freguezia ha o logar de Santa Ovaia
de Baixo, e ao E. d'elle, está o Sanctuario
de Nossa Senhora da Expectação (ou do 6)
vulgarmente chamado Nossa Senhora da Rua
Fria, por ter aqui havido uma antiquissima
povoação denominada Rua-Fria, e da qual
apenas restam tenues vestigios.
A construeção do templo da Senhora, re-
vela muita antiguidade, mas ignora-se a da-
ta da sua fundação. Consta porém que é mais
antigo do que a egreja matriz da freguezia.
Em 1691, fazendo-se uma escavação, fóra
da porta principal do Sanctuario, se acha-
ram, a pouca profundidade, duas sepultu-
ras, de pedra d'Ançan, tendo uma d'ellas
ainda alguns ossos humanos, de individuo
de estatura agigantada. Eram compostos de
duas pedras cada um—a inferior cavada ao
geito do cadaver, e a superior, que era à
tampa. Não tinham inscripção alguma.
Ainda ao N. do templo, da parte de fóra
da capella-mór, se acharam pouco depois, é
tambem enterradas, outras sepulturas se-
melhantes.
Pretendem alguns, que existiu n'este si-
SAN
tio um antiquissimo mosteiro de monjas be-
nedictinas, que os mouros arrazaram no se-
culo IX. — Outros, porém, sustentam (com
mais probabilidade) que foi de templarios, e
que as sepulturas pertencem a cavalleiros
d'esta ordem.
Note-se que o sitio é sobremodo frio, e
que a distancia de uns 20 metros ao E, do
templo, está uma fonte publica, de aguas
crystalinas, que conservam a sua frescura,
ainda na quadra da maior estiagem. É um
manancial abundantissmo e perenne, do
qual não só bebe o povo da freguezia, mas
ainda serve para regar e fertilizar as fazen-
das adjacentes. Fica perto da estrada pu-
blica.
Ao N. e S. do templo, se véem extensos
arvoredos silvestres, sendo algumas das ar-
vores de excessiva grandeza.
Ao E., ha excellentes terras cultivadas,
que a sobredita fonte, e outras que vem do
N., regam e tornam ferteis.
Ao 0. fica a aldeia de Santa Ovaia de Bai-
Xo, cercada de campos, vinhas, hortas e po:
mares.
Sabemos pela historia, que, nos annos de
742 e 743, O rei D. Afionso, o Catholico, 1
acompafihado de seu irmão, D. Frucia, e
com um bom exercito de christãos, entrou
pelo N. da Lusitania, resgatando do poder
musulmano, Braga, Chaves, Viseu, e outras
muitas povoações d'entre o Douro e Mondê-
go, achando-as quasi todas em ruinas, prin-
cipalmente Braga e Viseu.
Pouco tempo, porém, estiveram estas ter-
ras livres dos inimigos da Cruz, porque um
grande exercito de mouros, commandados
por Omar, filho de Abd-el-Rahman, tornou
a assolar toda a região resgatada por D. Af-
fonso.
Passados tempos (824), sendo alcaide de
Viseu, o mouro Rages, D. Ramiro I (filho de
D. Bermudo I) tornou a reconquistar a maior
1 D. Affonso, era filho de D. Pedro, duque
de Byscaia e Navarra, descendente do santo
rei, Ricaredo, e cunhado (D. Affonso) do rei
D. Favila, que tinha morrido em 739, des-
pedaçado pelas garras de um urso, quando
andava à caça.
SAN
parte do territorio perdido; mas, achando a
cidade de Viseu em misero estado, a acibou
de destruir, e a abandonou.
D. Sebastião, bispo de Salamanca, repo-
voou a cidade, pelos annos de 840.
Subindo ao throno D. Affonso .o Magno,
em 862, tratou logo de reconstruir as cbras
de defeza, de Braga, Chaves, Viseu e ouiras;
e, quando os christãos estavam occupados
na reedificação de Viseu, invadiu a Luzita-
nia, Abd-Alá, irmão do kalifa de Córcova,
com um grande exercito, e retomou Sala-
manca, Viseu e outras terras, pelos aanos
de 875.
Os mouros, apenas estiveram senhores de
Viseu 39 dias, porque D. Affonso Magno, lhe
tomou a cidade de assalto, morrendo ns: to-
mada da cidade, a maior parte dos inimigos.
Na menoridade de D. Ramiro III (967) Al-
Mançor, kalifa de Córdova, tornou a invadir
a Lusitania (que já, havia mais de 30 arnos,
se principiava a chamar Portugal), assclan-
do toda a provincia da Beira, e retomou Vi-
seu, que esteve em poder dos mouros, por
espaço de 71 annos.
Emquanto os netos de Alboazar Ramires
resgatavam do poder dos mouros varias ter-
ras sobre a margem esquerda do Douro, en-
tre os rios Varósa e Paiva, derrotando com-
pletamente os mouros em uma grande ba-
talha, dada nas margens do Távora (1098) o
rei D. Fernando Magno (que se denominou
imperador) resgatou Viseu do poder dos in-
fieis, e esta cidade ficou desde então e para
sempre, livre das suas correrias. *
D. Fernando Magno, tendo
desavenças com seu cunhado,
o rei D. Bermudo III, de Leão,
morrendo este, em 1037, na ba-
talha de Lantade; e, não tendo
filhos, lhe tomou posse da co-
rôa, D. Fernando, que ficou
sendo rei de Castella e Leão,
tomando o titulo de impera-
dor.
Com estas repetidas invasões dos serrace-
nos, se destruiram e arrazaram muitas po-
voações da Beira-Alta, de tal maneira, que
hoje, nem dºellas ha vestígios.
SAN
É pois muito provavel, que uma das po-
voações destruidas, fosse no sitio do templo
- da Senhora da Expectação, e tivesse o nome
de Rua-Fria.
O nome de Santa Ovaia de Baixo, que se
dá à povoação proxima, faz-nos suppôr que
ao que se chamou depois Rua-Fria, se dés-
se antigamente o nome de Santa Ovaia de
Gima.
A imagem da padroeira do templo, é de
pedra d"Ançan, e denota muita antiguidade.
Tem 07,66 d'alto.
Tem romaria no seu dia proprio, que é a
18 de dezembro.
Tem uma antiga irmandade, instituida
com 74 irmãos. Segundo os seus estatutos,
cada irmão, padre ou solteiro, que fallece,
tem 34 missas. Se é casado, tem 17, ea mu-
lher outras 17.
Tinha tambem 30 irmans (solteiras ou viu-
vas) que, por seu fallecimento, tinha cada
uma 30 missas.
Além disto, no 4.º sabbado da quaresma,
havia um anniversario, pelas almas de todos
os irmãos fallecidos, e cada irmão era obri-
gado a rezar um rosario quando morria al-
gum confrade, e outro no dia do anniversa-
rio.
Tinha a irmandade um capellão, que era
obrigado a dizer 20 missas, pelas almas dos
irmãos vivos, e pelos bemfeitores da irman-
dade, em differentes dias do anno.
Ainda no principio d'este seculo se faziam
à Senhora, trez procissões em cada anno —
a 4,2, na quarta feira das rogações — a 2.2,
dia de Santa Maria Magdalena (22 de julho)
ea 3. a 18 de dezembro.
Antigamente, concorriam aqui muitas ro-
marias, pelo decurso do anno; mas as prin-
cipaes, e mais concorridas, eram—desde 17
até 25 de dezembro— e, de 20 a 25 de mar-
ço. Esta era a maior.
Pelo meiado do seculo XVII, foi reedifi-
cado e alargado o templo, que ficou com o
corpo da egreja de 11 metros de comprido
6 47,40 de largo; e a capella-mór, 4 metros
de comprido, por os mesmos de largo. O fór-
ro, tânto da capella-mór, como do corpo da .
SAN 435
egreja, foi feito à custa de um devoto, do lo-
gar de Santa Ovaia.
SANTA QUITERIA DE MÉCA — Já tratei
d'esta freguezia, nas palavras —Espiçandei-
ra e Méca. Na palavra Remedios (a 8.º d'este
nome), 8.º vol., pag. 125, col. 2.2, tratei do
Sanctuario da Senhora d'esta invocação, na
mesma freguezia.
Depois, deu-se outro facto, de cuja noti-
cia não devo privar os meus leitores, e é o
seguinte:
José Antonio Soares Leal (irmão de Au-
gusto Soares Leal, empregado no escripto-
rio da companhia do Grão-Pará, e dono da
quinta do Carvalhal, na freguezia da Espi-
candeira, annexa à de Santa Quiteria de Mé-
ca—3.º vol., pag. 62, col. 1.2) queria ser ba-
rão; mas, provavelmente, com aspirações a
titulo mais elevado. Não quiz ser barão do
Carvalhal, porque já havia um conde deste
titulo. ! Tambem não quiz ser barão da Es-
piçandeira, que era um titulo bastante. ....
esquizito. * Foi pois, em 8 de agosto de 1855,
feito barão de Santa Quiteria (de Méca)—e,
em 6 d'agosto de 1859, foi feito visconde do
mesmo titulo.
Em 144 de junho de 1878, foi
agraciada com q titulo de vis-
condessa de Santa Quiteria, a
sr.º D. Maria Soares Leal (filha
do 4.º visconde d'este titulo),
permittindo-se que seu mari-
1 Hoje já ha 2.º — Em 8 de setembro de
1835, foi feito conde do Carvalhal, João do
Carvalhal, da ilha da Madeira. Em 3 d'agosto
de 1852, obteve o mesmo titulo, o sr. D. An-
tonio da Camara do Carvalhal Esmeraldo
Athouguia Sá Machado, tambem da ilha da
Madeira, filho do 4.º conde, e sogro do actual
conde de Rézende, o sr. D. Manoel Benedi-
cto de Castro Pamplona de Souza Holstein,
que obteve o titulo em abril de 1876, por
morte de seu irmão primogenito. (Vide Ré-
zende.)
2 Gom o sr. José Cordeiro Feio, aconteceu
um caso semelhante. Elle queria ser viscon-
de. Tem uma propriedade nos arrabaldes de
Setubal (ao E. e sobre a margem direita do
Sádo) chamada Quinta da Parvoice. Ser vis-
conde da Parvoice, era um titulo.... triste:
preferiu ser visconde das Fontainhas, que
' é outro sitio de Setubal, onde elle não tem
nada.
SAN
do, o sr. Carlos Wachs, -capi-
tão chefe de esquadrão, do 2.º
regimento de dragões, de Ba-
de, use do mesmo titulo, em
sua vida.
Tornemos a José Antonio Soares Leal, 1.º
barão e 4.º visconde de Santa Quiteria:
A formosa Lusitania, livro êscripto em in-
glez por Catharina Carlota, Lady Jackson (e
traduzido, prefaciado e anotado pelo nosso
esclarecido escriptor publico, o sr. Camillo
Castello-Branco, o mais fecundo e o primei-
ro dos romancistas portuguezes) se tem
muitas cousas bonitas, e merecidos elogios
a Portugal e aos seus filhos, é inegavel que
traz tambem graves inexactidões, muitas
apreciações erroneas e apaixonadas, e bas-
tantes disparates, que o illustre traductor
corrige, em notas tão sensatas como espiri-
tuosas.
Em muitas partes do famoso livro, paten-
teia a auctora, um odio implacavel ao sr. D.
Miguel 1; já pelas calumnias que os emigra-
dos propalaram pela França, Inglaterra e
outros paizes, desde 1828 até 1834, e ainda
depois, por muitas vezes; já pelos cicerones
de que se serviu em Portugal, que lhe em-
butiram toda a casta de patranhas, que ella
engulia com a maior facilidade, e escreveu
e publicou, com a mais britanica semcere-
monia.
Uma d'estas patranhas allude ao 4.º vis-
conde de Santa Quiteria, e lê-se a pag. 173
e seguintes da Formosa Lusitania.
Para conhecermos quantos despropositos
impingiu aos seus leitores a crédula Lady,
dou primeiro, em rapidos traços, a biogra-
phia do heroe d'aquelle conto da carochi-
nha.
José Antonio Soares Leal, nasceu na quin-
ta do Carvalhal, freguezia da Espicandeira,
concelho de Alemquer, pelos annos de 1804.
Sentou praça de cadete, no regimento de in-
fanteria n.º 4 (supponho que em 1824) e to-
mou parte na revolta d'este corpo, a 21 de
agosto de 1831, que foi dominada no curto
espaço de tres horas. 1
1 Os liberaes que estavam em Lisboa—fia-
dos na protecção da esquadra franceza, do
almirande Russin (composta de 6 naus, 3
SAN
José Augusto Soares Leal, poude escon-
der-se e fugir (diz-se que vestido de mulher)
para bordo de um navio inglez, no qual foi
para Londres, e d'alli para a Terceira, d'on-
fragatas e 3 corvetas) que tinha entrado no
Tejo a 114 de julho do mesmo anno de 1831,
e que nos roubou a nossa esquadra—conse-
guiram revoltar contra o governo do sr. D.
Miguel, a maior parte do referido regimen-
to, que principiou o grito de alarme, pelas
10 horas da noite, no quartel, assassinando
alli mesmo, o capitão Victoria, e ferindo ou-
tros officiaes, sargentos e soldados, que não
quizeram annuir à revolta.
Um official do regimento, correu a Valle
de Pereiro, dar parte do occorrido, ao com-
mandante de infanteria n.º 46, e, depois, a
outros corpos da guarnição da capital.
Pelas 10 horas e meia, o regimento n.º 4,
commandado por um official desligado, que
nem pertencia a este corpo, sahiu do quar-
tel, levando, à força, alguns dos seus offi-
ciaes.
Dirigiram-se a Valle de Pereiro, na inten-
ção de attrahir ao seu partido o 146; mas,
como este se poz em defeza, fechando as por -
tas, e decidido a fazer fogo, os revoltosos
tomaram a direcção da rua de 8. Bento. Che-
gando ao arco, em frente do mosteiro (hoje
palacio das cortes) já ahi acharam a 40,2
companhia da quarda real da policia, e o re-
gimento de milicias de Lisboa Occidental,
que os não deixaram avançar. Retiraram en-
tão na direcção da praça do Rocio, onde che-
garam pela meia noite, assassinando pelas
ruas do transito, o conde de S. Martinho
(major da guarda real da policia) e outros
individuos.
Do lado O. do Rocio, estava já postada à
maior parte da policia, que deu uma des-
carga, á queima roupa, no regimento 4, o
qual, perdendo a coragem, se poz em fuga,
e perseguidos os revoltosos, pela policia e
pelo regimento 16.º que accudiu ao sítio, fo-
ram sendo agarrados pelas ruas por onde fu-
giram, e outros se foram apresentar a difie-
rentes quarteis militares.
Nuno Augusto de Brito Taborda, (que em
1833 se entregou aos liberaes) commandan-
te do regimento revoltado, estava no largo
da Boa-Morte, com as praças que não tinham
annuido á revolta, e alli recebeu os officiaes
e soldados que tinham sido levados à força
pelos seus camaradas. Finalmente pelas duas
horas da manhan, toda a capital estava em
paz.
Devemos confessar que esta revolta foi
uma verdadeira traição à patria. O insulto
e roubo escandaloso que então sofireu Por-
tugal, não foi só um attentado conira o go-
SAN
de regressou para o reino, em julho de
4892. Fez à campanha até 1834, entrando de- |
pois na vida diplomatica.
Sendo nosso embaixadar na Austria le
voltando de um baile, em Baden-Baden, se
lhe virou o trem, quebrando o visconde
uma perna, por mais de uma parte. Não
“querendo que lh'a amputassem, lhe sobre-
veiu um tétano, de que falleceu.
Era bastante rico, e de varia instrucção;
mas soffrivelmente tagarella, e gostava de
pregar a sua pêta.
Seria elle que contou à Lady, a historia
que ella nos impingiu ?—Eil-a—segundo a
tradueção do sr. Camíllo Castelo-Branco;
mas os sublinhados são meus.
«O caes de Sodré—palco do ultimo acto
da tyrania e crueldade miguelista.
ev cs0. “vc coco ces vo noso cs cc. . .
Foi a execução de oito ou nove mancebos
estudantes de Coimbra, e ofjficiaes que alli
estavam aquartellados. (!!!) Accusados como
suspeitos (este sublinhado é do sr. Camillo
Castello Branco) de conspirarem para a que-
verno renlista, foi-o contra todos os portu-
guezes. Muitos liberaes verdadeiros (entre
elles, 0 coronel D. José Miguel de Noronha,
que, de mais à mais, estava preso por libe-
ral, na Torre de S. Julião da Barra) se cffe-
receram para servir no exercito real, contra
os inimigos da patria. O sr, D. Miguel, apre-
ciou devidamente este acto de patriotismo,
mandando immediatamente pôr em liberda-
de o coronel Noronha, mais nobre por esta
acção de um verdadeiro tidalgo portuguez,
do que pelos seus illustres e antigos perga-
minhos.
Tristissimos foram os resultados desta re-
volta infeliz. No dia 40, de setembro, foram
fuzilados 18 revoltosos, junto ao quartel de
Campo d'Ourique (Li-boa). No dia 24, e no
mesmo logar, foram fusilados mais 24. O
conselho de guerra condemnuu a serem fu-
silados mais 30; mas, como no dia 26 de ou-
tubro fazia 29 anuos o sr. D. Miguel, lhes
perdoou, pur decreto deste dia, é a pena foi
commutada na immediata.
Não se derramou mais sangue, por causa
d'esta revolta.
1 Isto segundo diz o sr. Camillo Castello
Branco. O meu fallecido amigo e bem ro-
nhecido academico, Antonio Augusto Tei-
Xeira de Vasconcellos, disse-me que quando
morreu (1875 ou 1876) o visconde, estava
addido à embaixada da Belgica.
VOLUME VII
“SAN 437
da do execrando D. Miguel (111) Foram agar-
rados e presos, e como traidores, sentencia-
dos à morte, e suas cabeças expostas em es-
| peques, no caes do Sodré.» (!)
«D. Miguel (o Senhor) affizera a plebe
de Lisboa a tão horrorosa scena; ainda as-
sim, a desventura d'aquelles mancebos exci-
tou muita compaixão.» (!!)
«Os amigos de um d'elles, Dom (2) José
Augusto Leal, conde ds Santa Quiteria, par
do reino (?) sobornaram parte das guardas
e quadrilheiros que escoltaram os presos,
para o deixarem escapulir-se, ao que estes
promeiteram acceder, se possivel fosse, na
occasião em que a chegada dos reus proma-
vesse confuso tumulto. Devia fazer-se a exe-
cução ao pôr do sol; (!) porem. quando os
padecentes eram levados, um d'elles desapa-
reteu. (1) Favorecidos pelo lusco-fusco da
rapido crepusculo d'aquella latitude, (1) às
amigos do conde, contavam facilitar-lhe en-
sejo de fugir despercebido. Tinham-lhe na
passagem, um cavallo prestes; mas, apenas
elle metteu: pé no estribo, avisaram-o loga
as vigias, que uma patrulha de cavallaria
lhe hia na pista. Elle cravou esporas no ca-
vallo; e, como quem foge à morte, despediu
a galope, pela rua do Ouro, conseguia
distanciar-se logo dos perseguidores, entrou
no Rocio !—m'aquelle tempo, escuro e solita-
rio como as ruas circumvisinhas, temivel
depois que anoitecia, e mui diversa praça do
que é hoje (?) *—e, em vez de proseguir para
diante, desandou por uma das ruas lateraes,
e entrando na dos Fanqueiros, foi dar á pra
ga do Commercio. * O conde, vendo que, ao
! Mesmo assim era esperto! Fugia para
aquelle deserto, que fui e ha de ser sempre,
o coração da cidade.
2 A praça do Rocio, em 1831, era a mes-
missima cousa que é hoje, com a differença
apenas, do palacio dos Estaus estar agora
substituido pelo theatro Agrião.
* U que aqui vão de desconchavos! — O
conde (frito pla anctora) fugiu do caes do
Sodré (de certo pela rua do Arsenal:-—nem
tinha outra) e viu ter ao Terreiro do Paço;
curreu pela rua do Ouro, desandou por uma
dus ruus lateraes (a travessa de S. Domin-
| gos, ou a-rua da Bitesga? —(não ha outras
para aquelle lato) e entrando na dos Fan-
* queiros, foi dur á Praça do commercio (Ter-
28
|
|
438 SAN
menos por instantes, desorientára (a lady é
que estava desorientada quando escreveu
isto) os perseguidores, desmontou de um sal-
to, prendeu o cavallo ás grades da estatua
de D. José (havia de ser a sentinella do mo-
mumento que o ajudou a prender alli o ca-
vallo) desembaraçou-se do boldrié e da espa-
da que levava comsigo (então elle vinha a fu-
gir da forca, ou de alguma parada?) trocou
a jaqueta por um capote e um lenço de ca-
beça que um amigo lhe havia mettido de-
baixo do braço (esqueceu-lhe a saia) desa-
tou a fugir, a pé, e vingou metter-se em re-
fugio seguro.»
«N'este comenos, um mancebo francez,
segundo dizem, atravessando a Praça, deu
tento do cavallo que saltava e escouceava
para se desprender (eu já nem sublinho) e
dirigindo-se para elle, reparou no cinturão
e na roupa que o .outro deixára. (Não me
diga a sr.º Jackson que o conde e par do
reino—feito por ella—levava muita pressa,
e corria como quem foge à morte, visto que
teve tempo de largar as armas, despir-se e
vestir-se, n'aquelle êrmo do Terreiro do Pa-
ço, e áquellas horas.) Apanhou o boldrié; e,
quando o joven francez estava a examinal-o
á frouxa luz do lampeão (o diabo do homem
até era capaz de ver estrellas ao meio dia!)
eis que chegam os soldados que perseguiam
o fugitivo (não haviam de vir muito suados)
e o filam. Debalde protestava elle que não
era a pessoa que buscavam, que não era
portuguez, e que não estava desfarçado, co-
mo elles affirmavam. Cingiram-n'o com o bol-
drié que elle tinha nas mãos; (nem elle po-
dia ser enforcado sem hir bem armado) e,
como acontecesse estar-lhe à medida da cin-
reiro do Paço)—isto é—fez uma rodiosca e
foi ter ao mesmo sitio da partidal—A mu-
lher está muito atrazada na typographia de
Lisboa! —Alem de todas estas patranhas, no-
temos tambem que os taes estudantes não
foram enforcados no caes de Codré, mas no
caes do Toyo, (o oriental) e então ainda a
rodiosca do conde vinha a ser maior e mais
desparatada!
O lusco-fusco da lady eram (como diz, e
diz bem, o esclarecido traductor, entre as
tres e quatro horas de um clarissimo dia de
junho.
SAN
tura (então era boldrié, talim, ou cinturão?)
concluiram evidentemente que era elle. 1Le-
varam-o ao local do patibulo. Ahi, rogos e
supplicas, valeram-lhe tanto como os homens.
da justiça, cujo cargo era completar o numero:
dos sentenciados (isto era o cúmulo do dis-
parate, se não fosse o supra summum do ri-
diculo!) como tinham valido com os solda-
dos que o prenderam. Elles eram responsa-
veis por um certo numero de padecentes; se
um dos reus se tinha safado estava alli ou-
tro que o substituisse, e em circumslancias
que o condemnavam. (Oh, meu Deus! Que fi-
carão dizendo dos portuguezes, os que lá
“por fóra lerem semelhante. ... monstruosi-
dade?!) Foi portanto degolado (está feito,
ao menos não o enforcaram) 2 protestando
até morrer, a sua innocencia, e que não ti-
vera parte no crime que lhe imputavam e
do qual não tinha noticia.»
Cococoo concorra ooo ro cd oc corro oc o pos
«Elle (o conde e par) falleceu ha um ou
dois annos sómente. O amigo qne me refe-
riu esta historia da fuga, ouviu-a da pro-
pria boca do fugitivo.»
É certo que o visconde de Santa Quite-
ria gostava de contar patranhas; mas não
acredito que elle se atrevesse a forjar uma
tão monstruosa.
«O sr. Camillo Castello Branco, em uma
nota (pag. 175) diz:
«Quem seria o amigo que abusou da cre-
! Como em nossos dias muita cousa tem
mudado de nome, não sei qual dão agora
aos diversos utencilios militares.
No tempo em que eu servi (e portanto em
1831, época da tal historieta) a peça de que
estava suspensa a bayoneta dos caçadores,
se chamava cinturão—á que prendia a bayo-
neta das praças de pret, de infanteria, se da-
va o nome de boldrié—á dos porta-bandei-
ras, se chamava talabarte—e à que prendia
as espadas dos officiaes, talim.
O talabarte e o boldrié, como se punha
em diagonal (ao tira-collo) servia a toda à
gente, não assim o talim e o cinturão, que
era presiso acertar pela grossura da cinta
do individuo.
2 O que ella nos não diz, é onde o car-
rasco foi desencantar o cutello para o dego-
lamento. Seria com a espada com que os sol-
dados o armaram no Terreiro do Paço, ou
construiram alli, à pressa uma guilhotina?
SAN
dulidade infantil desta historiadora? Ou
quem seria aquelle conde de Santa Quiteria,
par do reino, que contou ao amigo de lady
Jackson, uma historia tão verdadeira como
o seu condado?! Convem saber que o conde
fugitivo, primeiramente, no livro d'esta da-
ma, chamava-se conde de Avila de T., par do
reino, e assim figura no texto; mas a aucto-
ra, melhor informada, escreveu uma errata
que diz:
«Conde d'Avila T., leia, D.
José Augusto Leal, conde de
Santa Quiteria.
«Isto peorou a verosimilhança do conto;
mas salvou o sr. conde de Avila, hoje mar-
quez ! e presidente de ministros, de figurar
tão deploravelmente no cannibalismo dos
estudantes, que por justas causas foram en-
forcados, no caes do Tojo, e não do Sodré,
como diz a auctora, em 20 de junho de
1828.»
Co misjloro nro io Slnia gia Dica 0 0 gioisraro na ais eleven inotar e TD
«Como este academico, conde e par do
reino, mal poderia pertehcer a uma conju-
ração de homicidas, com seu tanto de sal-
teadores de bahús, a ingleza conta-nos que
os estudantes foram condemnados méramen-
te como suspeitos de attentarem contra o
usurpador (este sublinhado é meu) e arran-
ja o fusco e rapido crepusculo da nossa la-
titude, para desculpar a cegueira da escol-
ta, tendo sido aliás os reus justiçados entre
as 3 e 4 horas de um clarissimo dia de ju-
nho.»
«E o francez que fui enforcado em logar
do estudante (degolado, diz o texto: behea-
ded) simplesmente porque o boldrié lhe ser-
via, € porque era precizo enforcar um de-
terminado numero de sujeitos?»
«Contam-se lá fóra coisas de Portugal, que
elevam a um gráu chrystalino de tolice, as
pessoas que as escrevem.»
Vide vol. 2.º, pag. 371, col. 2.º, e 7.9, pag.
305, col. 2.º, e 539, col. 2.2
1 Agora duque. Mesmo quando a auctora
escreveu O livro, já era marquez. Foi feito
conde, em 13 de fevereiro de 1864, e mar-
quez, em 24 de maio de 1870, sendo dicta-
dor o marechal de Saldanha.
SAN
Peço perdão aos meus leitores por ser tão.
difuzo com respeito ao visconde de Santa
Quiteria; mas, nem todos possuem a Formo-
sa Lusitania, e eu desejo dar as informa-
ções mais verdadeiras, com respeito aos fa-
ctos da nossa historia (principalmente da
contemporanea) e mostrar como os estran-
geiros os descrevem, adulterando-os, já por
má vontade que nos teem, já pelos informa-
dores, muitos dos quaes os iliudem de pro-
posito, para depois os escarnecerem.
SANTA SENHORINHA DE BASTO — Esta
freguezia já está em Basto (Santa Senhori-
nha) aqui accrescento mais:
Na egreja matriz está a seguinte inscri-
pção.
h39
Ae MP. CAES
SI HA DA-
« « ANTONINO
AVG. PIO
+ +++ EVRNIVM
00. +. PROCVL
«co T. À VEGETI
Hubner (Noticias archeologicas de Portu»
gal, pag. 80) completa-a assim:
IMP. CAES.
T. AELIO HADR-
IANO ANTONINO
AVG PIO
PER T. FVRNIVM
M, F. GAL. PROCVL.
VM ET A. VEGETI
UM... F. GAL....
seco o 0 0,0 0 0
SANTA SOPHIA— freguezia, Alemtejo, co-
marca e concelho de Monte-Mór-Novo (foi
do mesmo concelho, mas da comarca d'Ar-
raiolos) 18 kilometros d'Evora, 100 ao S.E.
de Lisboa.
Tem 120 fogos.
Em 4757, tinha 79 fogos.
Orago, Santa Sophia.
Arcebispado e districto administrativo de
Évora.
A mitra apresentava o cura, que tinha
360 alqueires de trigo, e 124 de cevada.
É terra fertilissima em cereaes; cria mui-
440 SAN
to gado, produz bastante azeite, € DOS seus
montes ha muita caça, grossa € miuda.
SANTA SUZANA — freguezia, Alemtejo,
comarca e concelho do Redondo (foi do mes-
mo concelho, mas da extincta comarca de
Moncaraz) 18 Kilometros d'Evora, 75 ao S.E.
de Lisboa.
- Tem 120 fogos.
Em 1757, tinha 110 fogos.
Orago, Santa Suzana.
Arcebispado e districto administrativo de
Evora.
A mitra apresentava o cura, que tinha 240
alqueires de trigo, e 60 de cevada.
Fertil em cereaes, gado e caça.
- SANTA SUZANA—freguezia, Extremadu-
ra (mas ao S. do Tejo) comarca € concelho
d'Alcacer do Sal, 40 kilometros ao O. d'Evo-
ra, 65 ao S.E. de Lisboa.
Tem 110 fogos.
Em 1757, tinha 101 fogos.
Orago, Santa Suzana.
Arcebispado d'Evora, districto administra-
tivo de Lisboa.
O rei, pelo tribunal da meza da conscien-
cia e ordens, apresentava O capellão, cura-
do, que tinha 180 alqueires de trigo, 90 de
cevada, e 102000 réis em dinheiro.
Fertil em cereaes, azeite, vinho, gado e
caça. ;
No logar da Córte do Pereira, desta fre-
guezia, hr uma mina de zinco argentifero,
da qual foi reconhecido proprietario legal,
em 10 de janeiro de 1877, Mr. Charles Hy-
ne.
SANTA TECLA—freguezia, Minho—Vide
Basto (Santa Tecla.)
SANTA TECLA DO GERAZ—freguezia an-
tiquissima, ha muitos annos unida à de San-
"to Estevam do Geraz.—Vide Geraz (Santo
- Estevão) e Geraz (Santa Tecla.)
SANTA VALHA ou SANTA EULALIA —
antiquissimo castello, Douro, que deixou de
existir ha muitos annos.
Foi n'este castello que o fallecido Luiz Au-
gusto Rebello da Silva, fez representar as
scenas mais interessantes do seu bello ro-
“mance—Odio velho não cança—(Vide Mon-
te: Mór-Velho, 5.º vol, pag 513, Col. 4.º)
SANTA VALHA— freguezia, Traz-os-Mon-
SAN
tes, comarca e concelho de Valle Paços, 90
kilometros ao N. de Miranda do Douro, 480
ao N. de Lisboa.
Tem 200 fogos.
Em 4757, tinha 115 fogos.
Orago, Santa Eulalia.
Bispado de Bragança, districto adminis-
trativo de Villa Real.
O padroado real, apresentava O abbade,
que tinha um conto de reis de rendimento
annual.
(Santa Valha, e depois Santa Claia, é por-
tuguez antigo: hoje dizemos Santa Eulalia.)
Ainda que de clima excessivo, é terra fer-
til e saudavel, e abundante de aguas.
Cria muito gado de toda a qualidade, e ha
por aqui muita caça grossa e miuda.
Fica proximo da raia hespanhola.
SANTA VICTORIA—freguezia, Aiemtejo,
comarea e concelho de Beja, 6d kilometros
20 O. d' Evora, 125 ao S. de Lisboa.
Tem 200 fogos.
Em 1757, tinha 401 fogos.
Orago, Santa Victoria.
Bispado e districto administrativo de
Béja.
A mitra apresentava o cura, que tinha 240
alqueires de trigo e 60 de cevada,
Terra muito fertil em cercaes e azeite.
Muito gado e caça.
SANTA VICTORIA—Vide 0 3.º Ameixal
ou Ameixial, vol. 1.º, pag. 194, col.2,º, no
fim.
SANTAÇÕES—freguezia, Douro, comar-
ca e concelho de Villa do Conde (foi da mes-
ma comarca, mas do concelho da Povoa de
Varzim) 35 Kilometros zo O. de Braga, 30
ao N. do Porto, 360 ao N. de Lisboa.
Tem 25 fogos.
Em 1757, tinha 15 fogos.
Orago, S. Miguel, archanjo.
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo do Porto.
As religiosas benedictinas, do mosteiro de
Vairão, apresentavam O vigario, que tinha
40 5000 réis e o pé d'altar
É terrá fertil, e fica perto do rio Ave.
Foi do condado de D. Payo de Bagunte,
um dos sete condes enganados por D. Mem
Soares de Novellas, sendo todos sete assas- |
SAN
sinados, e foram sepultados em S. Pedro
de Atei.
O antigo nome desta pequena freguezia
era Santiagões, e assim está escripto no
Portugal Sacro e Profano.
Segundo a tradição, viveram aqui dois
irmãos, de appellido São-Thiago, tão ricos
como turbulentos, despotas e amigos do
alheio; por isso conhecidos pela alcunha de
Santiagões, e foi d'elles que à freguezia to-
mou o nome que tem.
Diz-se que antes d'isso se chamava Civi-
dade.
Parece que o antigo povo d'esta freguezia
formava a companhia, ou quadrilha dos taes
dois irmãos.
O que é certo é ainda hoje por estes sitios
haver um anexim que diz—Santagões, 15
freguezes e 16 ladrões.
(Visto isso, tambem o vigario entrava na
conta.)
Hoje é a freguezia composta de lavrado-
res pacificos e de bons costumes.
O monte da Cividade, fui uma grande po-
voação em tempos remotissimos.
É muito alto, e d'elle se descobre um vas-
to panorama, e grande extensão do mar.
Esta freguezia foi supprimida, por peque-
na, e annexa à de Bagunte.
Vide esta palavra.
SANTALHA--villa, Traz os-Montes, co-
marca e concelho de Vinhaes, 80 kilome-
tros de Miranda do Douro, 480 ao N. de Lis-
boa. Tem 160 fogos.
Em 1757, tinha 60 fogos.
Orago, Santa Eulalia.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
A mitra apresentava o reitor, que tinha
808000 réis e o pé de altar.
O nome d'esta villa é tambem corrupção
de Santa Eulalia,
Foi capital do antigo concelho da Lomba,
ao qual o rei D. Diniz deu foral, em Lisboa,
no 1.º de fevereiro de 13114.
(Gaveta 15, maço 3,n.º 10—e Livro A.º de
Doações do rei D. Diniz, fl. 57 v., col. 2.)
O mesmo D. Diniz lhe deu outro foral
confirmando e ampliando o 4.º, em Lisboa,
a 22 de agosto de 1324.
SAN A]
(Livro k de Doações do rei D Diniz, fl. 104
v., col. 1.2, in fine.)
O rei D. Manuel lhe deu foral novo, em;
Lisboa, a 4 de maio de 1512.
(Livro de foraes novos de Traz os Montes,
119 eh d*)
A esta freguezia estão annexas ha muitos
annos as de Contins, Penso e Seixas.
SANTÃO — freguezia, Douro, comarca €
concelho de Felgueiras (fui do mesmo con-
celho, mas da comarca de Lousada) 30 ki-
lometros ao N. E. de Braga, 360 ao N. de
Lisboa.
Tem 120 fogos.
Em 41757, tinha 100 fogos.
Orago, Santo Adrião.
Arcebispado de Braga, dislricto adminis-
trativo do Porto.
Era commenda da ordem de Malta, e O
commendador apresentava o vigario, que ti-
nha 508000 réis e o pé de altar.
É terra fertil, e cria muito gado.
É n'esta freguezia a nobre e antiga casa
de Santão, da qual é hoje representante, O
sr. Gaspar Lobo de Souza Machado e Cou-
ros.
Foram senhores desta casa Simão Lobo
de Souza Machado Pereira, cavalleiro da or-
dem de Christo, familiar do santo oficio; é
seu neto, Simão Lobo de Souza Machado 6
Couros, tenente-coronel de milícias, fidalgo
da casa real, e casado com D. Rita Bernar-
dina de Moraes e Castro, açafata honoraria,
filha de Bernardo de Moraes Madureira, fi- .
dalgo de antigo Solar, e de sua mulher, D.
Maria José Correia de Moraes e Castro, do-
na da camara de D. Carlota Joaquiva (mu-
her de D. João VI) quando ainda era prin-
ceza do Brasil.
SANTAR-—freguezia, Minho, comarca é
concelho dos Arcos de Valle de Vez, 30 ki-
lometros ao O. de Braga, 385 ao N. de Lis-
boa.
Tem 60 fogos.
Em 1757, tinha 55 fogos.
Orago, Nossa Senhora das Candeias (Pu-
rificação.)
Arcebispado de Braga, districto adminis-
trativo de Vianna.
Era commenda da ordem de Malta, e o
commendador de Távora, apresentava o vi-
gario, collado, que tinha 1158000 réis e o pé
de altar. É terra muito fertil, bonita e sau-
davel. proximo do rio Vez.
Metade dos dizimos d'esta freguezia eram
da egreja de Paçô, no mesmo concelho, cujo
vigagio era obrigado a administrar os sa-
cramentos aos povos de Santar.
Segundo a tradição, a infanta D. Urraca,
filha de D. Ordonho 1I, de Leão, quiz (pelos
annos de 915) fundar um mosteiro de mon-
jas benedictinas, na freguezia de Outeiro
Maior (hoje concelho de Villa do Conde) mas
como o não podesse fazer, pela razão que fi-
ca dito em Ermélio (vol. 3.º, pag. 46, col. 1.2,
no fim) chegando a este siiio com as suas
companheiras, que; com ella, queriam ser
religiosas; e vindo muito cançadas, lhes dis-
se —sentar—e d'esta palavra se deriva o no-
me d'esta freguezia. Derivará.
- À egreja matriz primitiva, era sagrada e
antiquissima, mas foi demolida no seculo
xvir, e sendo reedificada, perdeu o privile-
gio da sagração.
SANTAR—freguezia, Beira Alta, no con-
celho de Nellas, comarca de Mangualde (foi
da: mesma comarca, mas do extincto conce-
lho de Senhorim) 42 kilometros de Viseu, e
240 ao N. de Lisboa.
Orago, São Pedro, apostolo.
Bispado e districto administrativo de Vi-
seu.
A mitra apresentava o abbade, que ti-
nha 3808000 réis de rendimento.
N'esta freguezia nasceu, em 1808, Fran-
cisco Coeiho do Amaral, pertencente a uma
das mais illustres familias da Beira-Alta.
Ainda muito joven, e quando cursava as
aulas da universidade de Coimbra, sentou
praça em artilheria.
Tomando parte na revolta de 16 de maio
de 1828, ficou prisioneiro das tropas realis-
tas, e esteve até 1834 nas cadeias de Estre-
moz e Abrantes.
" Regressando a Santar, no fim da guerra
civil, organisou e commandou uma compa-
nhia a que deu o titulo de guarda naçional.
SAN
No concelho de Nellas, foi juiz ordinario»
presidente da camara e administrador do
concelho, exercendo todos estes cargos com
honra e desinteresse.
Foi tambem constantemente provedor da
misericordia de Santar.
No tempo dos Cabraes, tomou o partido
do povo, e parts activa na revolta de 1846;
sendo pelo ministro da fazenda, da junta do
Porto, feito thesoureiro pagador do districto
administrativo de Viseu.
Formando-se por este tempo dois bata-
lhões populares, em Viseu, foi um denomi-
nado batalhão movel de Viseu, do qual foi
commandante o intrepido Jayme Garcia Mas-
carenhas—e outro denominade batalhão pro-
visorio, e cujo: commando foi dado a Fran-
cisco Coelho do Amaral.
Na batalha de Torres-Vedras (22 de de-
zembro de 1846) ficou prisioneiro a maior
parte do batalhão movel de Viseu, e o seu
destemido commandante, depois deter obra-
do prodigios de valor.
Os que escaparam d'este batalhão, se uni-
ram ao provisorio.
Coelho do Amaral, com o seu batalhão, fez
a campanha da serra da Estrella, soh as or-
dens do general realista, Póvoas, e pela sua
bravura, foi feito, pela Junta, cavalleiro da
ordem de Nossa Senhora da Conceição.
O seu batalhão, que era um dos melho-
res da Junta, pelo aceio, valor e disciplina,
marchou para Traz-os-Montes, com o 5.º da
Legião, um meio esquadrão (de cavallaria)
n.º 1, e outros corpos, em perseguição do
general Simão da Costa Pessoa, já feito vis-
conde de Vinhaes'1 e assistiu aos ataques e
tomada de Mirandella (abrilde 1847) sob as
ordens do general realista, Bernardino Coe-
lho Soares de Moura, que chegára a Miran-
della com o regimento de infanteria n.º 9
(que tinha sido do Macdonell) e meio esqua-
drão de cavalaria; o que deu em resul-
tado, a fugida de Vinhaes e dos seus pa-
1 Tinha sido feito barão de Vinhaes, em
17 de junho de 1840.
Visconde do mesmo titulo, a 2 de janeiro
de 1847 —e foi feito conde, a 47 de junho de
1862.
SAN
ra a Galliza, sendo perseguidos até à raia,
pelas tropas da Junta. 1
A Junta, condecorou Coelho do Amaral,
com o grau de official da ordem da Torre
Espada, pela distincção com que se houve
n'esta campanha.
Foi eleito deputado em difierentes legis-
laturas, e vice-presidente da camara dos de-
putados.
Foi convidado pelo sr. bispo actual de Vi-
seu, para aceitar uma pasta no seu minis-
terio, o que recusou, bem como recusou o
pariato, que pelo mesmo prelado lhe foi of.
ferecido, declarando que — não trocava a
procuração do povo, pela farda do ministro
nem pelos arminhos do par.
Terminou seus dias, na edade de 68 an-
nos, em casa de seu genro, o sr. doutor Jo-
sé Caetano Henrique dos Reis, na villa de
Cannas de Senhorim, em 7 de outubro de
4876.
Mórgado dos Lemos, em Santar
- Foi instituido por D. Joanna de Sampaio
do Amaral, viuva de João d'Almeida Castel-
lo-Branco, capitão-mór do concelho de Se-
nhorim, e filha de Domingos Sampaio do
Amaral, capitão-mór do mesmo concelho, e
de sua mulher, D. Maria Coelho de Sá. (Seu
marido era filho de Mannel Fernandes de Fi-
gueiredo, e de sua mulher, D. Antonia de
Almeida Castello-Branco.)
Á instituidora succedeu seu filho, Manuel
de Almeida Castello-Branco, e a este, sua
irman, D. Maria Josefa Luiza d'Almeida Cas-
tello-Branco, mulher de Diogo Lopes de Sou-
za d'Alvim, 18.º senhor da casa e terras de
Bordonhos, e seus padroados.
(Vide Bordonhos, Torre d'Alvim e Tró-
ja, do Douro.)
É hoje dono desta casa e representante
desta nobilissima familia, o sr. Ruy Lopes
de Sousa d'Alvim e Lemos de Carvalho e
Vasconcellos, residente n'esta casa de San-
A Nesta campanha, fomos companheiros
d'armas, pois que ó batalhão de Viseu fez
brigada com o meu regimento (o de infan-
teria n.º 9).
SAN h43
tar, e um dos mais respeitaveis fidalgos da
provincia.
O sr. Ruy Lopes, é neto materno de José
de Souza de Menezes Almeida e Vasconcel-
los, casado com D. Maria Rita de Mello Vi-
lhena e Castro.
Esta Senhora, era irman de D. Maria Isa-
bel de Mello Vilhena e Castro (ambas da no-
bilissima casa de Figueiredo das Donas) é
mulher de seu primo, Gaspar Maria de Cas-
tro e Lemos Magalhães e Menezes, capitão
do segundo regimento de infanteria do Por-
to (18.)
Este Gaspar Maria, era o 6.º, de 22 ir-
mãos (!) pela ordem das edades, porém, fal-.
lecendo sem filhos, seus irmães, Duarte, An-
tonio, e Ignacio, e sendo os dois immedia-
tos cavalleiros professos da ordem de Malta,
que não podiam succeder em vinculos, veio
o 6.º filho a herdar toda a grande casa de
seus paes.
Teve Gaspar Maria só dois filhos; o sr. An-
tonio Carlos de Castro e Lemos Magalhães e
Menezes, que foi capitão do batalhão de ca-
cadores n.º 7 (feito em 24 de janeiro de 1834)
convencionado em Evora-Monte, e que ainda
vive, solteiro, na sua casa doCôvo (junto a Oli-
veira de Azemeis) é Sebastião de Castro é
Lemos Magalhães e Menezes, que, sentando
praça, de cadete, em cavallaria, passou de-
pois a coronel de milicias, do exercito rea-
lista; e já é fallecido.
Casou com D. Emilia Maria Antonia Pam-
plona de Souza Holstein, filha do fallecido
tenente general Pamplona (visconde de Bei-
re) e de sua mulher — tambem já fallecida
—D. Maria Helena de Souza Holstein, irmam
do 4.º duque de Palmella.
Sebastião de Castro e sua mulher, tive-
ram 8 filhos:
Gaspar Maria, hoje casado e com fi-
lhos.
Manoel Maria, Antonio Maria, e José Ma-
ria, solteiros.
D. Maria Isabel, casada com D. Manoel
de Niza.
D. Maria Helena, hoje condessa da Ri-
beira.
D. Anna Maria, e D. Maria da Conceição,
ainda solteiras.
bh SAN
Vê-se pois que o sr. Ruy Lopes, é segun-
“do primo d'estes oito irmãos.
Além d'este proximo parentesco, ainda 0
sr. Ruy Lopes é parente dos referidos oito
irmãos, pelo lado paterno, em razão do ca-
samento de duas senhoras, filhas de seu 4.º
avô, Bernardo de Carvalho Lemos, 8.º se-
nhor de Trófa (a do concelho d'Agueda) e
irmans de seu 3.º avô, Luiz Thomaz de Car-
valho Lemes, 9.º senhor de Trófa.
Uma destas duas senhoras, casou na ca-
-sa dos Castros, de Villa Nova de Cerveira,
e outra, na dos Magalhães, do Côvo; casas
que depois, pur casamentos, se fundiram em
uma só, que é a actual do Cóvo.
Além do senhorio da Trófa, possuiam os
antepassados do sr. Ruy Lopes, na mesma
freguezia, varios bens alodiaes, que foram
repartidos por seus descendentes, pelo que,
a casa do Côvo, ainda alti tem bastantes ren-
das; assim como o sr. Ruy Lopes, que tam-
bem ainda alli possue as ruinas do antigo
Palacio, solar dos Lemos, cujo herdeiro, em
linha recta masculina, é este cavalheiro, so-
brinho da actual senhora marqueza da Bem-
posta—Sub Serra,
(Vide Alhandra, Roque-Annes, Torre de
Alvim, Várzea, e Villarélho.)
Dos ditos, Manoel Fernandes de Figuei-
redo, e mulher, D. Antonia de Almeida Cas-
tello-Branco, paes do referido João d'Almei-
da Castelo-Branco, procedem tambem, Amn-
tonio de Abreu da Gama, senhor da casa de
Cannas de Senhorim; e por linha de varão,
a casa de Midões (Ribeiros Abranches Cas-
tellos Brancos) representada actualmente pe-
lo conselheiro, Cesar Ribeiro Abranches Cas-
tello Branco, fidalgo da casa real, dignissi-
mo presidente da relação do Porto, feito 2.º
visconde de Midões, em 21 de julho de 1870,
e que é filho de Roque Ribeiro de Abran-
ches Castello-Branco, que foi par do reino
desde 1834, e senhor da casa de Midões, em
que succedeu a seu pae (falecido) a 12
de julho de 1783.
Roque Ribeiro tinha sido feito 1.º viscon-
SAN
de de Midões (com grandeza) em 23 de ou-
tubro de 1837.
SANTAREM--sitio, Traz os-Montes, pro-
ximo às aldeias de Valle d' Egua, Zébras, é
Cabeça do Seixo, no concelho e 20 kilome:
tros de Chaves.
No sitio de Santarem, existem muitas rui-
nas de uma antiquissima e vasta povoação,
de mais de 2 kilometros de circumferen-
cia.
Ainda aqui se vê um arco, menos mal
conservado, e uma torre, com grandes ves-
tigios de edificios samptuosos, com todos os
signaes de obras romanas.
Em varios sitios, nas immediações de Uha-
ves, se veem muitos vestígios de povoações
antiquissimas, que todas, ou quasi todas, de-
notam ser obra dos romanos.
Vão nos logares competentes.
Aqui só tratarei de duas cidades ou povoa-
ções mortas, que ficam perto das de Santa-
rem.
No logar de Curalha, a 7 kilometros de
Chaves, existem as ruinas de uma povca-
cão, com sua cêrca de muralhas, e dentro
della, alicerees de diversos edifícios.
Ainda se lhe dá o nome de Castro da Cu-
ralha.
Diz o povo, que foi povoação de mouros.
Consta que a este castro, vae ter uma es-
trada subterranea, bastante larga, que ainda.
ninguem se atreveu a examinar.
Tem principio em uma gruta, na margem.
opposta do rio Tâmega, em um logar cha-
mado Bóbeda, e, a uns 10 ou 12 metros,
principia a descer, enterrando-se por um
monte que cáe sobre o mesmo rio, e, pas-
sando por baixo d'este (que corre aqui en-
tre penhascos) vae ter—segundo crê o povo.
d'aqui—ao tal castro. Se assim é (o que cus-
ta a crer...) deve tambem ser obra roma-
na, e foi de grande despeza.
Entre uma montanha, chamada Cóta de
Mayros, no termo de Monforte do Rio Li-
vre,e o logar de Villa Frade, existem as.
ruinas de outra grande povoação, com par-
te de seus muros ainda de pé. Vide Villa
SAN
Frade, Villa Nova do Monte, Villarandêllo,
e Villas-Bôas.
O aríigo que segue, é of-
ferecido ao ex.mº sr. Gui-
lherme de Azevedo, esclare-
cido filho de Santarem, em
testemunho de sincera ami-
sade.
SANTAREM — cidade, Extremadura, capi-
tal do concelho, comarca e districto admi-
nistrativo do seu nome, no patriarchado e
84 kilometros ao N. E. de Lisboa.
Tem actualmente trez freguezias (não con-
tando com a de Santa Iria, ou Ribeira de
Santarem—antigamente, Ribeira do Alfange
— Vide Iria (Santa) a 2.º col. do 3.º vol.,
pag. 3:9, col. 2.2, e Ribeira de Santarem.)
As freguezias da cidade, propriamente
dita, são— Nossu Senhora de Marvilla, com
600 fogos—sS. Nicolau, com 450 — e o Sal-
vador, com 500—total, 1:550 fogos, e 6:200 |
almas.
“Antigamente, tinha 13 freguezias, que
eram:
1.2 Santa Maria de Alcáçova—— cujo pa-
rocho era prior, da apresentação do real pa-
droado, e tinha de rendimento 230 8000 réis.
Em 1768, tinha 200 fogos.
2.2 Nossa Senhora de Marvilla—apresen-
tada pela mitra patriarchal.
O prior tinha 5008000 réis de rendimen-
to.
Em 1768, tinha 285 fogos.
Em 24 d'agosto de 1876, o governo con-
cedeu 008000 réis para reparos desta
egreja.
3.2 Santa Cruz — Q parocho tinha réis
1603000. Era vigario, collado, apresentado
peia collegiada de Santa Maria d'Alcáçova.
Em 41768, tinha 153 fogos.
4.2 Santa Iria—O parocho era vigario,
da mesma apresentação. Tinha 1805000
réis.
Em 1768, tinha 381 fogos.
(É a actual freguezia da Ribeira de San-
tarem, que é um arrabalde da cidade.)
5.2 O Salvador—A casa das rainhas apre-
sentava 0 vigario, que tinha 120 alqueires
SAN 445
de trigo, 90 de cevada, dous cantaros de
azeite e duas pipas de vinho.
Em 1768, tinha 481 fogos.
É hoje um dos melhores templos da ci-
dade.
6.2 S. Julião — A abbadessa do mosteiro
cisterciense de Odivellas, apresentava o prior
que tinha 3508000 réis.
Em 1768, tinha 210 fogos.
7.2 S. Matheus — Os duques do Cadaval
apresentavam o prior, que tinha 5008000
réis.
Em 41768, tinha 7 fogos!
8.º S. Nicolau — Os beneficiados e capel-
lães desta egreja, apresentavam o prior, que
era collado pelo ordinario, e tinha de ren-
da, 5003000.
Em 1768, tinha 425 fogos.
9.2 S. João do Alfange—A collegiada de
Santa Maria d'Alcáçova, apresentava 0 vi-
gario, que tinha 1003000 réis.
Em 4768, tinha 130 fogos.
102 Santo Estevam ou Santo-Milagre—A
casa das rainhas, apresentava o prior, que
tinha 4008000 réis.
Em 1768, tinha 130 fogos.
11.2 S. Martinho--A mitra apresentava o
prior, que tinha 2002000 réis.
Em 1768, tinha 60 fogos.
12.2 S. Lourenço —da mesma apresenta-
ção. O prior tinha 3008000 réis.
Em 1768, tinha 28 fogos.
13.2 S. Thiago— O rei, pelo tribunal da me-
sa da consciencia e ordens, apresentava O
vigario, que tinha 1508000 réis.
Em 1768, tinha 17 fogos.
Vinham pois a ter as freguezias da cida-
de (então villa) 2:507 fogos; mas abatendo
381 da freguezia de Santa Iria (Ribeira) vi-
nha a ter 2:126, mais 576 fogos (2:300 al-
mas) do que actualmente! — É o resultado
da extineção das ordens religiosas.
O concelho de Santarem, é composto de
28 freguezias, que são — Abetureiras, com
520 fogos—Abraan, 206-—Achête, 310—Al-
canhões, 270— Alcanêde, 590-— Almostêr, 390
— Ameaes de Baixo, 170), — Arneiro dos Mi-
lhariços, 160 — Azinhaga, 220 — Azóia de
Baixo, 100—Azóia de Cima, 114-—Cazével,
446 SAN
140—Louriceira, 80—Malhou, - 130— Paúl,
300 — Pérnes, 200 — Pomballinho, 1580 —Pó-
voa dos Gallegos, 100 — Ribeira, 420 — Ro-
meira, 120 — Marvilla, 600 — S. Nicolau.
450 — O Salvador, 500 — (estas trez são
as da cidade) Tremez, 200 — Vaqueiros, 70
— Valle, 160 — Valle de Figueira, 160 —
Várzea, 220. — Todas com 6:850 fogos, ou
27:400 almas.
A comarca de Santarem, é composta do
seu julgado e do de Rio-Maior, com 2:900
fogos. Total, 9:750 fogos.
O districto administrativo, comprehende
18 concelhos, que são: — Abrantes, Almei-
rim, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Cons-
tancia, Coruche (do Alemtejo), Ferreira do
Zêzere, Gollegan, Mação, Rio-Maior, Salva-
terra de Magos, Santarem, Sardoal, Thomar,
Torres Novas, Villa. Nova da Barquinha, e
Villa Nova de Ourem.
Todos com 135 freguezias, e 45:000 fogos,
ou 180:000 almas.
Pertence ao districto da 4.º divisão mili-
tar, e é quartel de infanteria n.º 4 eartilhe-
ria n.º 3. E
Tem estação telegraphica; e é a 12.º es-
tação do caminho de ferro do norte, no bair-
ro da Ribeira (Vide Iria femia e Ribeira
de Santarem.)
Tem um grande mercado no ão domingo
de cada mez, e feiras annuaes pela Paschoel-
la e a 41 de outubro.
Por onze vezes 1 aqui teve logar a convo-
cação das cortes dos trez estados, como adian-
se verá.
Foraes de Santarem. —O primeiro lhe foi
dado em 13 de novembro de 1095 (Livro
preto, da cathedral de Coimbra, a fl. 40.)
O 2.º por D. Affonso Henriques, em Coim-
bra, no mez de maio de 1179. Maço 3 de fo-
raes antigos, n.º 2 e 3. Foi confirmado por
1 A carta de lei, de 2% de dezembro de
1868, que lhe restitue a sua antiquissima
cathegoria de cidade, diz que se convocaram
aqui doze vezes cortes. Julgo ser erro typo-
graphico, porque eu não acho senão onze.
SAN
D. Affonso II, em Santarem, a 8 d'abril dg
12144. (Maço 3 de foraes antigos, n.º 3.) Se-
gunda vez confirmado e ampliado pelo mes-
mo soberano, em Coimbra, a 42 de novem-
bro de 1217. (Maço 12 de foraes antigos, n.º
3, fl, 4 v., col. 2.2) Este foral acha-se impres-
so, com os costumes, no tomo 4.º de Ineditos
de historia portugueza, pag. 531.
Tem uma sentença de foral, datada de 25
de maio de 1444. (Corpo .chronologico, parte
22, maço 4º doc. 2.º) Tem outra sentença
de foral, dada a favor de Santarem, contra
o marquez de Villa Real. (Gaveta 3.º, maço
3, 0.º 49.)
O rei D. Manuel lhe deu foral novo, em
Almeirim. no 4.º de fevereiro de 1506. (Lê-
vro de foraes novos da Extremadura, fl. 16
V., Col. 2.2)
Foi por muitas vezes côrte dos nossos
reis, até 1834, e todos a distinguiram muito;
e aqui viveram alguns, grande parte do seu
reinado, Ros paços reaes da Alcáçova, man-
dados fazer por D. Affonso I, junto à capel-
la real da mesma denominação, reedificada
pelos cavalleiros do Templo, sobre as rui-
nas de um templo romano. |
D. Affonso I, desde 8 de maio de 1147, dia
em que conquistou Santarem, até ao fim do
seu reinado, enriqueceu esta povoação, mão
só com grandes privilegios, mas tambem
com magestosos edificios.
O rei e os seus guerreiros,
entraram em Santarem pela
porta de Atamárma e perpe-
tuou esta victoria, instituia-
do a ordem de S. Miguel d' Ala,
e fundando uv magestoso mos-
teiro cisterciense, de Alcobaça.
Para a palavra Atamárma
vide o 1.º vol., pag. 251 col.
2a
D. Pedro I, reconstruiu os paços de Alicá-
cova.
D. Manuel I, tambem aqui fundou magni-
ficos templos, fontes, calçadas, a famosa tor-
re das Cabaças, a ponte da Asseca, e ou-
tros edificios.
“Teve muitos palacios de titulares e outros
SAN
fidalgos, sendo os principaes, os dos duques
de Bragança e os dos condes de Aveiras, da
Palma, de Tarouca e de Unhão.
Tinha voto em côrtes, com assento no ban-
co primeiro, ao lado de Lisboa, Porto, Evo-
ra, Coimbra, e Elvas.
Até ao fim do seculo XVIII, foi Santarem
governada pelo sénado da camara, e por um
vigario-geral, com jurisdicção, tanto no tem-
poral, como no espiritual. O governo do rei,
não podia intervir nos negocios municipaes,
senão depois de concluidos, e para acudir-
lhes com dinheiros do thesouro publico.
Esto, em vista dos seus antigos privilegios,
sempre-religiosamente respeitados pelos nos-
sos monarchas.
Houve em Santarem muitas emparedadas,
sendo as de maior fama de santidade, Maria
Domingues, D. Gontina, D. Maria Bernar-
des, Elvira Paes, e Elvira Durôa.
O seu escudo d'armas, é—em campo azul,
um castello de prata, com trez torres, sobre
um rio, tendo o castello, sobre a porta, as
armas de Portugal.
A alcaidaria-mór de Santarem, andava na
casa dos condes de Assumar, depois, mar-
quezes de Alorna e da Fronteira.
É cabeça do vicariato-geral, e assento do
seminario patriarchal.
Santarem, é tambem um appellido nobre
em Portugal. Procede de João Guilherme de
Santarem (gue tomou este appellido, por ser
d'aqui natural) no reinado de D. Diniz; po-
rém, D. João I, é que armou cavalleiro, à
João Affonso de Santarem, na batalha de Al-
Jubarrôta, em 44 d'agosto de 1385. O mes-
mo soberano lhe deu por armas—escudo es-
quartellado: no 4.º e 4.º, de negro, um leão
de prata, armado de púrpura—no 2.º e 3.º,
do mesmo, trez coticas de ouro, em palla—
êlmo d'aço aberto; e por timbre, o leão das
armas, com uma cotica de púrpura, no cos-
tado.
SAN 447
Este João Afionso de Santa-
rem, foi sepultado na egreja
de S. Nicolau, da villa do seu
nascimento, na capella de Je-
sus Christo, em um rico mau-
soleu, que ainda existe. Foi
este fidalgo que instituiu o
“hospital de Jesus Christo, em
1126.
Foi 3.º neto de João Guilher-
me de Santarem, João Affonso
de Santarem (cutro) que usava
de brazão d'armas differente
— era — escudo dividido em
palla — na 1.2, de negro, um
leão de prata, armado de púr-
pura—na 2.2, do mesmo, trez
coticas de ouro, em palla—
élmo d'aço aberto; e por tim-
bre — o leão das armas, com
uma das coticas do escudo, na
espadua.
Julga-se que foram estas as
primitivas armas dos Santa-
rens.
Fica esta cidade, quasi no centro da pro-
vincia da Extremadura. A sua parte princi-
pal, está assente no alto de um monte, que,
do lado do éste, é cortado quasi perpendi-
cularmente sobre o valle. Ao fundo está o
antigo bairro do Alfange (antigo Alhanse) e
mais alem o da Ribeira, onde é a estação do
caminho de ferro do norte. 1
A cidade é dividida em trez bairros —
Marvilla (antigamente Maravilhas) Ribeira,
e Alfange. Marvilla, occupa a parte superior
(o plató) do monte. — Ainda aqui se veem
alguns lanços de muralhas ameiadas, e al-
gumas das suas antigas torres, cubéllos e
barbacans. Tinha cinco portas—da Atamár-
ma (vide esta palavra) que ainda existe—a
de Leiria, que foi arrazada—e a de Mansos,
que ainda se conserva — a do Sol, actual-
1 Alhanse pronunciava-se com o h aspi-
rado, e, como nós transformâmos em F
aquella letra, diziamos Alfanse, que facil-
mente se corrompeu em Al/ange.
448 SAN
mente tapada a pedra e cali-—e a de San-
thiago.
Tinha tambem varios postigos, alguns dos
quaes ainda existem.
No ponto mais elevado da povoação, e so-
branceiro ao Tejo, está a antiga cidadella da
Alcáçova, com a sua cêrca de muralhas, por-
tas e postigos. Teve antigamente uma ponte
levadiça, à entrada da porta principal.
Dentro d'esta cidadella, estavam os paços
reaes, por isso chamados da Alcáçova. Ain-
da aqui se veem muitos vestígios de edifi-
eios antigos, e entre elles, uma porta, de bel-
lissima architectura gothica.
No bairro de Marvilla (a parte principal e
mais nobre da cidade) estão os sens melho-
res edificios, e og monumentos mais respei-
taveis da sua historia.
Os bairros do Alfange e da Ribeira, es-
tendem se pela margem direita do Tejo e
pelo declive da encosta, orlando as calçadas
que sobem para Marvilla: sendo a mais no-
tavel a da Atamárma, que vae ter à fonte e
à porta do mesmo nome, por onde entrou
D. Affonso Henriques, com a maior parte da
sua hoste, quando, em 8 de maio de 1147,
conquistou esta praça.
Estes dois bairros, são tambem antiquis-
simos, e foram egualmente cercados de mu-
ralhas, guarnecidas de torres, das quaes ain-
da ha muitos vestigios. Ha n'elles grande
movimento commercial e industrial, por que
são o deposito de todos os generos que a ci-
dade importa e exporta, pelo Tejo, de que
estão proximos.
O seu principal edifício religioso, e um dos
mais antigos, é a real collegiada de Santa
Maria de Alcáçova, fundada pelos templarios
(que ajudaram D. Affonso I à conquistar
Santarem) dentro da antiga cidadella de que
tomou o nome, e ficava contigua aos paços
1 Esta porta, dá sobre um medonho des-
penhadeiro (o de que já fallei) e durante o
dominio dos arabes, eram d'aqui precipita-
dos os reus de crimes graves, quê mereciam
a morte.
Quando chegavam ao fundo, hiam reduzi-
dos a uma massa informe.
SAN
dos nossos antigos réis, servindo-lhes ds ca-
pella-real, para o que havia uma commani-
| cação interior. Ainda conserva o titulo de
capella-real.
Esta collegiada foi instituída pelos annos
de 1282, reinando D. Diniz, com 17 cónegos,
k meios cónegos e trez dignidades (chantres
mestre-escola, e thesoureiro.) A egreja é de
| trez naves, e pequena. Exteriormente, nada
| conserva da sua architectura primittiva. No
interior, apezar das repetidas reconstrucções
(a maior das quaes, principiou em 1715 e
terminou em 1724) ainda conserva bem vi-
siveis alguns restos, que denotam muita an-
| tiguidade.
Na capella-mór desta egreja, do lado do
Evangelho, está um tumulo de mármore,
embebido na parede, onde foi sepultado D.
Rodrigo Affonso, prior desta egreja, conego
de Santa Cruz de Coimbra, e filho bastardo
de D. Affonso III.
Alem d'esta, ha outras sepulturas de pes-
| soas, mais ou menos notaveis.
No adro, estão dois cippos, com inserip-
ções romanas, que dizem (traducção) uma
— Memoria, dedicada aos deuses dos mortos-
Aqui está sepultado, Marco Antonio, natural
de Lisboa, filho de Marco Lobo, da tribu Ga-
léria—a outra diz — Memoria dedicada aos
deuses dos finados. Aqui jaz, Quinto Antonio,
militar, filho de Cayo, perfeito, natural de
Lisboa.
A collegiada de Santa Maria de Marvilla
(antigamente, das Maravilhas) tambem foi
instituida durapte o reinado de D. Affonso
Henriques. A sua egreja (parochial) é uma
das mais bellas e vastas da cidade. É de trez
naves, sustentadas por altas e elegantes co-
lumnas jonicas. Tem sido tambem por va-
rias vezes reconstruida. O rei D. Manoel,
reedificou à fundamentis, a capella-mór, e
ampliou o corpo da egreja. A sua porta prin-
cipal, é de architectura gothica, e adornada.
de primorosos lavores. (Vide o anno 1244.)
A egreja de Santo Estevam (mais conhe-
cida pela denominação de Santo Milagre, e
que foi matriz da freguezia do seu nome) foi
fundada no seculo xr, e sagrada em 1244.
SAN
Não é tão vasta como a de Alcáçova; mas
é tambem de trez naves, sustentadas por co-
lumnas de architetura toscana. Em quatro
paineis, no corpo da egreja, está represen-
tada a historia do Santo Milagre. No 1.º vê
se a mulher que commetteu o sacrilegio, re-
cebendo a communhão—No 2.º, vae ella em
caminho de sua casa, levando escondida a
sagrada particula—No 3.º, se vê a arca onde
guardou a hostia, cercada de anjos e res-
plendores—No 4.º, se representa a procissão
com que foi levada a hostia para a egreja
de Santo Estevam, donde tinha sido minis-
trada. (Vide o anno 1226; e no 4.º vol. ar-
tigo Listoa—o Homem das botas.)
A egreja parochial de S. Nicolau, é tam-
bem de trez naves.
A primittiva foi devorada por um incen-
dio, em 1613.
A egreja parochial do Salvador, é uma das
mais vastas e formosas da cidade.
Todas estas trez egrejas estão no bairro de
Marvilla.
Alem d'estas egrejas, ha ainda algumas
que foram antigas matrizes, e grande nume-
ro de capellas.
Um dos mais famosos e venerandos tem-
plos de Santarem, era o de S. João d' Alpo-
rão. Foi templo romano, dedicado a Julio
Cesar, depois, mesquita dos árabes, e por
fim teraplo christão, (Vide o anno 49, antes
de J.€.)
Julga-se que os mouros chamavam torre
do Alcorão 1 a uma que estava ao lado d'es-
1 É a palavra arabe 4l-koran. Significa
livro por excellencia (como entre christãos e
judeus — Biblia.) Deriva-se do verbo cará
(lér, colligir escriptus.) O Alcorão, dos ma-
hometanos, por muito tempo andou disper-
so por differentes sectarios, em capitulos e
rapsodias, e só depois de tudo reunido em
“um livro, é que se lhe deu este nome. E uma
mistura de chri-tianismo, judaismo e paga-
nismo, a que juntaram outras doutrinas de
Mahomet.
Alcorão, tambem significa logar eminente.
—() aduil, andou com elle a braços, e o lan-
-çou do Alcorão abaixo, o por ser muito alto,
se fez em pedaços. (Chronica d'el-rei D. Ma-
SAN 449
| te templo, e Alcorão, se corrompeu em Al-
porão.
A egreja de S. João d'Alporão, tão vene-
randa pela sua remotissima antiguidade (tem
nada menos de 1:928 annos!) foi transfor-
mada em um reles theatro, depois de 183%.
Actualmente anda a reparar-se, para se
estabelecer alli o museu archeologico do dis-
tricto. Valha-nos isso !...
(Vide adiante, onde trato d'este museu.)
Até ao principio do seculo XV, houveem
Santarem grande numero de hospitaes, para
pobres, que, em 1426, Dom João II, anne-
xou ao de Jesus Christo, fundada por D. João
Affonso de Santarem, no reinado de D
João T.
.
A torre do relogio (torre das Cabaças) é
um monumento notavel.
Santarem, tinha jurisdieção sobre 16 vil-
las, e grande numero de freguezias.
Sobre a porta de Mansos, havia uma tor-
re quadrada, onde o tribunal da relação fa-
zia as suas sessões; mudado este para Lis-
boa, ficou a torre, por muitos annos, servin-
do de casa da camara.
Foi mandada edificar pelo rei D. Manoel.
Tem 22 metros de altura, e é rematada por
uma cúpula, sobre a qual estã um grande
sino, sustentado por 4 robustos varões de
ferro. É o sino das horas, e a sua voz é re-
percutida por sete bilhas quebradas, presas
a varões de ferro. (Diz o povo que represen-
tam os 7 vereadores da camara —represen-
tarão.) É destas bilhas que à torre provem
o nome de Cabaças.
A mais alta torre que havia em Santarem,
era a torre do Bufo; que se suppõe ser cons-
trucção romana, ou pelo menos, árabe. Era
na Alcáçova. Foi demolida em 1640, para
com os seus materiaes se reconstruirem as
muralhas da praça.
Tambem na Alcáçova existia a torre Alm
noel, por Damião de Góes, parte 4.º, capitu-
lo 39.)
150 SAN
barran (tão antiga como a do Bufo, e que
teve a mesma sorte.)
As ruas de Santarem, como as de todas as
povoações antigas, são estreitas, tortas, im-
mundas e mal calçadas; mas tem algumas
praças alegres e espaçosas, e quasi todas ar-
borisadas modernamente.
Em Fóra de Villa (sitio assim chamado,
por ficar extra-muros) ha um bonito passeio
publico, arborisado, com alegrêtes, e assen-
tos de pedra. É ali que se fazem as feiras e
mercados da cidade. Hoje denomina-se Gam-
po de Sá da Bandeira.
A praça onde está a casa da camara, e a
egreja de Santa Maria de Marvilla, foi o an-
tigo tabolado de Santarem. Aqui se faziam
justas, torneios, jogos de cannas, e corridas
de touros.
O terreiro da Piedade, chamava-se antiga-
mente, terreiro do Paço, por estar em fren-
te de um dos trez palacios que os nossos reis
tinham em Santarem. Foi no chão d'este pa-
go que se construiu depois o collegio dos je-
suitas, hoje o seminario patriarchal.
O palacio dos condes de Unhão, que, por
extincção d'esta familia, passou aos marque-
zes de Niza, foi comprado pelo patriarcha
D. Guilherme I, que o reconstruiu, e é hoje
o palacio patriarchal.
Ha em Santarem, um theatro, uma praça
de touros, e uma casa de assembleia.
Tem varias fontes, mas nenhuma digna de
mensão, pela sua architectura.
Judiaria—Vide adiante— Ermida de San-
to lidefonso.
Todo o territorio comprehendido no dis-
tricto administrativo de Santarem, é, em ge-
ral, fertilissimo, sobre tudo em cereaes, vi-
mho, azeite, legumes, hortaliças e fructas.
São famosos, pela sua vastidão e antigui-.
dade, os olivaes de Santarem.
Os que lhe ficam ao 8.0.e O., foram mui-
SAN
to damnificados, tanto pelos realistas, como
pelos liberaes, desde outubro de 1833, até
maio de 1834.
Consta que, em tempos antigos, exporta-
vam annualmente, termo medio, 3:000 pi-
pas de azeite.
É tambem celebre, o Campo da Gollegan,
vasta planicie que lhe fica ao N.E., com mais
de 20 kilometros de comprido, por 6 a 8 de
largo, toda cultivada, comprehendendo oli-
vaes, vinhas, cearas, hortas e pomares, e que
o Tejo banha pelo sul.
Os mouros lhe chamavam Valle de Assa-
caia, palavra árabe, que significa Valle dos
Regatos.
Ainda nos arrabaldes de Santarem, ha um
sitio chamado Assacaia. É n'elle que se vê
a estação do caminho de ferro.
Os árabes tambem diziam Acequiat, vem
do verbo sacá, regar. D'aqui vem o substan-
tivo do antigo portuguez, acequia. Hoje diz-
se—molta, madria, açúde, levada, etc. —No
Minho tambem se lhe dá o nome de Nacei-
ro.
Assacaia, ou Acequia, tambem significa,
valla para irrigação. Antes de chegarem, ha-
viam de passar muitas acequias.(Chronica
de El-Rei D. Manoel, por Damião de Góes,
parte 3.º, capitulo 74.)
O Tejo e o mar, abastecem Santarem e a
maior parté do seu districto, de optimo pei-
xe, de varias qualidades.
O clima de Santarem é bastante saudavel
e muito mais o seria, se houvesse mais cui-
dado da sua limpeza.
Militarmente fallando, é Santarem um pon-
to importantissimo, e, se fosse conveniente-
mente fortificado, bem como Palmella, Al-
mada, Torres Vedras, Peniche e a Ericeira,
a cidade de Lisboa e a sua barra, tornar-se
hia quasi inconquistavel, depois de cons-
truidas as obras de defeza indicadas por Sá
da Bandeira.
De quasi todos os pontos do bairro de
Marvilla se gozam magnificas e extensas vis-
tas, sobre tudo, do alto de São Bento, da
SAN
Porta do Sol, da torre do seminario, e do
monte dos Cravos.
Alem dos Campos da Gollegan, e de vas-
tissimos olivedos, vê-se o curso do Tejo, em
muitos kilometros de extensão; as villas de
Almeirim, Muge, Salvaterra de Magos, Be-
navente e Coruche (do Alemtejo) e os loga-
- res de Vallada, Porto de Muge, e muitos ou-
tros.
Ao sul do Tejo, se veem vastos pinhaes,
e longas cordilheiras de serras, e ao fundo,
os bairros da Ribeira do Alfange, e mais
alem, o bonito arrabalde, que ainda conser-
va o nome árabe de Assacaias, e o das Om-
nias, estendendo-se pela margem direita do
Tejo. Tambem se vê uma grande extensão
da via ferrea.
Nos arrabaldes da cidade, ha muitas, ri-
cas, extensas e magnificas quintas, todas
muito ferteis.
Nos seus campos se cria toda a qualidade
de gado, principalmente cavallar, que ex-
porta em grande escala. 1
Tambem são abundantes de caça, e, no
inverno, acode muita, de arribação, às le-
sirias, de que se fazem grandes e divertidas
caçadas.
A cidade está ligada com Lisboa, Coimbra,
Porto, Elvas, Badajoz, e outras muitissimas
povoações irtermediarias, pelo caminho de
ferro do norte e leste.
Us homens notaveis nascidos em Santa-
rem, vão mencionados nas annos competen-
tes.
1 Os antigos diziam que os cavallos dos
campos de Santarem— eram — como os de
Cintra—filhos de Vento; para exprimirem a
prodigiosa velocidade da sua carreira. Com
effeito, os antigos cavallos de uma grande
parte da Lusitania, eram de finissima raça,
e, eguaes, senão superiores aos da Arabia
(os famosos bereberes) e aos melhores da Nu-
midia. Os romanos e outros invasores de
Portugal, nos roubaram os melhores, e a ra-
ça apurada, chegou quasi a extinguir-se.
Hoje alguas creadores teem-se esmerado em
aperfeiçoar a raça cavallar, distinguindo-se
entre todos, o sr. Carlos Relvas, da Golle-
gan, quê tem uma das melhores caudelarias |
de Portugal. . ..
SAN
No livro 3.º, pag. 22, da Fundação, anti-
guidades e grandezas, da mui insigne ci-
dade de Lisboa, pelo capitão, Luiz Marinho
de Azevedo, se diz quena Porta do Pão (Ribei-
ra) em Santarem, existiu a seguinte inscripção
451
D. M.8,
JULI. MARC. FAN. (?) XXVIII.
JUL. PATERNA. MATER.
FILIAE. PIENTISSIMAE,
OLISIPONENSI. ARAM.
POSUIT.
H. S. E.
(Consagrada aos deuses manes. Aqui está
sepultada Julia Marcos, de 28 annos, natural
de Lisboa. Sua mãe, Julia Paterna, dedicou
esta ára, a sua piedosissima filha.)
O sabio doutor allemão, flubner, varias ve-
zes citado n'esta obra, diz que de Santarem
sahia uma via militar dos romanos, em di-
recção à costa; provavelmente por Monte-
Junto, talvez nas.alturas da villa das Caldas-
da-Rainha. «O que é certo (diz elle) é que na
fertil região da costa, entre Peniche e Lei-
ria, se encontram numerosos vestigios de co-
lonias romanas.»
Calçadas
Eis os nomes das nove calçadas por onde
se sobe para Santarem.
1.º — Atamarma : nome que procede de
uma fonte que alli ha, onde termina; tendo
principiado na Ribeira. |
2.º— Santa Clara: Principia na Ribeira e
termina no mosteiro de Santa Clara, e no de
frades de S. Francisco.
3.º — 8. Thiago: Está actualmente quasi
intransitavel. Principia junto da egreja de
Santa Iria, na Ribeira, e acaba na Porta da
Alcáçova.
h.2—Alfange: Principia no bairro d'este
nome, ao S. da cidade. Os arabes lhe cha-
mavam Alhanse, que significa cóbra, pelas
voltas que dá até ao alto. O mesmo nome
davam ao valle hoje chamado do Alfange.
Termina no adro do mosteiro dos agosti-
nhos.
9.º— Nossa Senhora da Vallada: Tambem
452 SAN
chamada das Omnias, e da Madre de Deus.
Principia nas Omnias, (margem do Tejo) e
termina na rua do Pereiro. Viterbo suppõe
que Omnias é corrupção de almuinhas; mas
outros pretendem que venha do latim Om-
nia, por haver n'aquelle sitio varias hortas
e pomares, que dão toda a qualidade de fruc-
tas, de optimo gosto.
6.º — Junqueira: Tambem principia nas
Omnias, vae a S. Lazaro, e d'ahi, dobrando
ao N.E., entra na cidade pela porta de Man-
sos.
7.2 — Do Sitio, ou das Pedreiras: É a es-
trada de Lisboa, e termina junto do hospi-
tal civil, que foi mosteiro de S. Francisco.
(Este mosteiro foi fundado em um logar,
chamado antigamente, Sitio da Magdalena.
82 — S. Domingos: Termina no mosteiro
de frades dominicos.
9.:— Nossu Senhora do Monte.
Estas trez ultirnas sobem do N. e O., e to-
das vem de profundos valles.
Portas
Eram oito. Eis os seus nomes.
— A3— Atamarma, no alto da calçada doseu
nome. (Sobre esta porta foi construida a er-
mida de Nossa Senhora da Victoria, por en-
trar por aqui D. Affonso I, quando tomou
Santarem.)
— 22-—Leiria, junto da egreja de Nossa Se-
nhora da Piedade. Vide egreja de Nossa Se-
nhora da Trindade, e mosteiro de agosti-
nhos descalços.
3.º— Mansos. Onde em uma ermidinha está
a Senhora do Bom Successo. É por isto que a
esta porta se chama hoje — Arco do Bom-Suc-
cesso.
hº—Vallada, ou da Madre de Deus. (Por
ter em cima a ermida d'esta Senhora ) As
capelas que estavam sobre estas quatro por-
tas, foram mandadas construir por D. Affon-
so I.
d.2—S. Thiago. Junto à porta do antigo
castello de Alcáçova.
0.:— Sol. Esta era mesmo no castello e fi-
cava sobre o despenhadeiro perpendicular
ao Tejo. (A Alhafa, dos mouros.)
“Ea esta pita (pelo S.) que vem tera cal-
cada do Altange.
SAN
72—Alfange. (Antigamente Alhanse,)
8» 8. Gens. — Deu se-lhe este nome por
que por ella entrou S. Gens, a prégar o Evan-
gelho, aos santarenos. Outros, porém, dizem
que o nome lhe provem de ser aqui mariy-
risado aquelle santo, pelus romanos.
Ignora-se 0 nome que tinha no tempo dos
romanos e depois, no dos arabes.
9.2 Postigo de D. Margarida. —Fica ao O.
—Tambem se ignora o nome primitivo d'es-
ta porta; e é mesmo provavel que os roma-
nos lhe dessem um, e os mouros outro.
O moderno foi-lhe dado, porque junto a
ella havia umas casas. ou palacio, onde por
muitos annos residiu D. Margarida, mulher
de D. Martinho Affonso de Castro. vice-rei
da India, e mãe de D. Francisca de Távora
e Castro, mulher de Fernão Telles de Mene-
zes da Silveira, 1.º conde de Uuhão.
Todas estas portas foram construidas pe-
los romanos, e depois, 03 godos as guarne-
ceram de fortes baluartes e cubéllos.
Sómente as quatro primeiras tinham er-
midas.
Santarem foi sempre da coroa. Foi o 1.º
assento do tribunal da relação e casa do ci-
xel, d'este reino. Fui côrte por muitos annos,
de varios dos nossos reis, que lhe concede-
ram muitos e grandes privilegios.
Até 1834, era o senado da camara muni-
cipal composto de trez vereadores, um pro-
curador do concelho, dous misteres, um al-
feres,! um escrivão, um thesoureiro, um
síndico, dous almotacés com seus esvrivães
(um do bairro de Marvilla e outro do da Ri-
beira) um agente, um pagem, e um porta-
chaves.
Tinha casa dos vinte e quatro, com juiz do
povo, escrivão e um almotacé da limpeza.
»Na praça da villa, existem (1740) as ca-
sas do senado da camara, com uma vistosa
galeria, de janellas de sacada, com grades
de ferro. No ultimo andar de cima, para on-
1 O alferes tinha assento no senado, em
cadeira de espalda; era chanveller e guar-
da-sellos da camara, e levava a bandeira
municipal, nos actcs solemnes..
SAN
de se sobe da grande sala em que o juiz de
fóra faz a sua audiencia, tem trez formosas
salas, cuja sahida faz uma bem lançada es-
cada de pedraria lavrada—a 1.º, é a sala on-
de estão os porteiros e pagens—na 2., está
a meza dos senadores, e ahi tem uma bem
armada capella de Nossa Senhora, onde se
diz missa todos os dias em que ha despacho
—e logo mais para dentro estã uma grande
casa, na qual existe 0 cartorio, ou archivo,
onde se depositam todas as cousas perten-
centes a esta villa, asssm antigas como mo-
dernas. Por baixo logo d'estas casas da ca-
mara, ficam as dos contos, em que tem tri-
bunal o provedor das lezirias, com a mes-
ma grandeza, e janellas que as de cima. E
por baixo d'esta dos contos, ficam as cadeias
dos presos, que são, duas dos homens e uma
das mulheres, todas com muita fortaleza de
grades, e bem fechadas; com um carcereiro,
o qual se obriga a dar conta de todas as pes-
soas prisioneiras que lhe entregam.»
«Contiguos a estas cadeias, estão os açou-
gues, onde se vende carne e pcixe, e no
meio da escada em que se sóbe da praça
para o dito senado, fica uma casa com sua
janella de grades, sacada, que é onde os al-
motacés, em certos dias, fazem as suas au-
diencias. Defronte, na mesma praça, está 0
aljube, onde se mettem os presos que per-
tencem ao ecelesiastico, tendo por cima, o
vigario geral, o seu tribunal, em que faz au-
diencia.»
«Tem esta villa, um desembargador juiz
do tombo das terras da corôa, e um procura-
dor da mesma coroa real, que ambos são
ministros de béca, com seu escrivão.»
«Tem provedor da camara, com um escri-
vão, um meirinho, um contador, e um inque-
redor, que, além das villas d'esta comarca,
entra em correcção, na villa de Torres-No-
vas e seu termo, que é dos duques de Avei-
ro. E, alem do Tejo, na villa de Muge, que
é dos duques do Cadaval; e na villa de Co-
ruche» (do Alemtejo).
«Tem juiz de fóra, com alçada e dez es-
erivães do civel e crime, um distribuidor,
cinco inqueredores, dous alcaides (que no-
meia o alcaide-mór d'esta villa, e os confir
ma o senado da camara) dous escrivães das
VOLUME VIL
SAN 453
armas, um das execuções, com seu ajudan-
te; cinco tabelliães, dous escrivães das cizas
(um da repartição de Marvilla, outro da Ri-
beira) um escrivão do real d'agua, e um fiel
das appellações.
«Tem juiz de fóra, dos orphãos, com alça-
da, o qual tem quatro escrivães do juizo,
dous repartidores, dous avaliadores do con-
celho, um curador geral dos orphãos, um
inqueredor e um distribuidor.»
«Ha n'esta terra um provedor das lezirias,
o qual tem jurisdição, desde a villa de
Abrantes, até à villa de Cascaes, com dous
escrivães (um das lezirias, outro das juga-
das) um procurador da fazenda, e um mei-
rinho geral das Vallas. Tem quatro almoxa-
rifes; um das jugadas, com seu escrivão, e
porteiro, cujo almoxarifado se divide em
cinco ramos, e cada um d'estes tem seu es-
crivão, carreteiro e medidor; e um d'estesra-
mos, por ser maior que os outros, tem dous
escrivães. O almoxarife, tem um medidor-ge-
ral, de todos os celleiros, para pagamento
das tenças e ordinarias que d'este almoxa-
rifado se pagam.»
«Almoxarife do Paul da Asseca, com seu
escrivão, carreteiro, medidor, e meirinho.»
«Almoxarife das Barrocas da Rainha, com
seu escrivão e meirinho.»
«Almoxarife das cizas, com seu escrivão
e dous thesoureiros.»
«Um almoxarife da portagem, que é da
casa do infantado, com trez escrivães, um
n'esta villa, outro em Porto de Muge, e ou-
tro na villa da Gollegan.
«Um almoxarife das quintas, reguengo da
Tojosa, e jugadas de Casével, com dous es-
crivães, do que é donatario, o conde de Ta-
rouca.»
«Provedor, e guarda-mór da saude, com
seu escrivão, e meirinho.»
«Juiz das imposições e aposentadorias,
com dous escrivães e um porteiro.»
«É d'esta villa de Santarem alcaide-mór,
o conde de Assumar, onde tem seu mordo-
mo; e quando o dito alcaide-mór assiste
n'esta villa, é capitão-mór d'ella.»
«Tem sargento-mór da camara, com um
ajudante, e manda 32 companhias—7 den-
tro d'esta villa, e 25 pela comarca.»
29
454 SAN
«Tem mestre de campo dos auxiliares,
com seu sargento-mór, e ajudante; cujo do-
minic tem 40 companhias.»
«Ha n'esta villa, mamposteiro-mór dos ca-
ptivos, com escrivão e procurador.»
«Ha tambem juiz das coutadas, mattas e
montarias, da repartição d'esta villa, com
seu escrivão e meirinho.»
«Monteiro-mór, com 24 monteiros da guar-
da das mattas da banda do norte.»
«Dous superintendentes das caudelarias
—um da repartição da Serra, outro do Cam-
po; cada um d'elles com seu escrivão.»
No ecclesiastico tem:
«Um vigario-geral, com jurisdição, tanto
no temporal, como no espiritual; juiz dos
residuos e casamentos; chanceller, e pro-
motor, um escrivão da camara, 4 escrivães
do juizo, inqueredor, distribuidor, conta
dor, meirinho-geral, escrivão dos depositos
e causas matrimoniaes, thesoureiro dos de-
positos, chancellaria, e solicitador.»
Ah!=Até que emfiml...
Juntando toda esta gente, aos parochos,
cónegos, beneficiados, sachristães, sineiros,
coveiros, organistas, etc., das 13 freguezias;
aos frades, leigos, donatós, familiares e crea-
dos dos 11 conventos; ás freiras, seculares,
educandas e creadas, de trez conventos; aos
empregados dos diversos hospitaes; e ainda
por cima, ao grande numero de fidalgos, ca-
maristas, porteiros da canna, archeiros, fami-
liares, creados e lacaios da casa real, quan-
a corte estava em Santarem, parece impos-
sivel caber lá tanta gentel
Periodicos que me consta terem sido pu-
blicados em Santarem:
Congresso Litterario........
O Scalabitano
Aurora de Santarem. .......
O Alfageme
Aurora do Tejo
1856
1857
1866
1871
1878
O rei D. Manuel, fundou em Santarem
uma grande fabrica d'armas.
E
eee
Termo de Santarem
Tanquinhos, aldeia.
SAN
Azinhaga, freguezia, com Misericordia e
um hospital, e cinco ermidas — (Espirito
Santo, S. José, S. João, S. Sebastião, e Santa
Catharina.)
Pombal, freguezia, cuja padroeira é Santa
Cruz. (É a actual freguezia de Pomballinho,
concelho de Santarem.)
Valle de Figueira, freguezia, com um mos-
teiro de frades arrábidos. (Vide Valle de Fi-
queira.)
Alcanhões, freguezia.
Pôvoa de Gallegos, freguezia.
8. Vicente do Paúl, freguezia, com as suas
aldeias de—Tojosa, Corredoura, Carpintei-
ros, Martinhaes, Reguengo d'Alviella, e Ar-
ressaio.
Vaqueiros, freguezia.
Casével, freguezia.
Ribeira de Pérnes, freguezia (hoje Pernes)
com a sua ermida de Santo Antonio, e com
as seguintes aldeias— Outeiro, Chan de Ci-
ma (com uma ermida) Chan-de Baixo, Pó-
voa das Mós (com as suas ermidas, de S. Ben-
to e S. Miguel) Aldeia da Mouta (com a sua
ermida da Senhora da Conceição) Malhô (ao
pé da Serra de Santa Martha) Arneiro das
Milhariças (hoje freguezia) S. Lourenço (ho-
je freguezia) com a sua ermida de S. Lou-
renço.
Espirito Santo (hoje freguezia) Ameaes de
Baixo, com a sua ermida de S. Gens, Lou-
riceira (hoje freguezia) com as suas ermi-
das de S. Vicente e Nossa Senhora da Puri-
ficação—esta, na Quinta dos Olhos d'agua.
Awête, freguezia, com as suas aldeias de
— Fonte da Pedra, Cumeeiras, Verdêlho, A
do Vagar, e A de D. Fernando.
Tremez, freguezia.
Santos, aldeia.
Azóia de Cima, freguezia.
Azôia de Baixo, freguezia. (Foi n'esta fre-
guezia, a Quinta de Valle de Lobos, que
morreu o primoroso escriptor, Alexandre
Herculano. Vide, Valle de Lóbos.
Romeira, freguezia.
Abetureiras, freguezia — com as suas al-
deias de Villa-Nova-da-Babéca, Mouçarrias,
Povoa-do-Baixinho, Vidigan, Soydos, Lama-
rosa, Joanninho, Albergaria, Póvoa do Gon-
de, Povoa de Trez, e Porto da Oliveira.
SAN
Rio-Maior, villa e freguezia, com as suas
aldeias dº— Ribeira, Serra, Traz da Serra,
e Marinhas.
São João da Ribeira, freguezia, com as
suas aldeias de — Marmelleira, Malaqueijo,
Arouquellas, e Assentiz.
Almostér, freguezia, com o seu real mos-
teiro, de freiras bernardas, e com as seguin-
tes aldeias — Freiria, Atalaya, Alfôbres de
Mel, Póvoa, Isenta, Pimenteira, Almedelim,
Mata-Quatro, Casal do Paúl, Louriceira,
Villa Nova do Couto (com a sua ermida de
Santa Victoria) Outeiro, Alfunsomel, Valle do
Gago, Albergaria (com a sua ermida de San-
ta Catharina) Bom-Palreu, Chuchêm (com a
sua ermida tambem de Santa Catharina)
Casaes da Charneca, Bairro-Falcão (com a
gua ermida de Santo Amaro).
Arrifana, freguezia com as suas 8 ermi-
das, e as aldeias de—Alcoentrinho, Villa No-
va de São Pedro, Póvoa do Sobral, Moccessa,
Fonte-Nova, Carvalho, Foupineira, Ventosa,
Calla, Barran, Lapa, Casaes de Alcoentri-
nho, Outeiro, Carrascal, Torre, Baraçal, e
os casaes da Macusso, e Eireira.
Varzea, freguezia com mais duas aldeias,
que são— Outeiro, e Villa-Gateira.
Valle, freguezia.
Arruda dos Pisões, freguezia.
Ribeira da Cortiçada, freguezia, com as
suas aldeias do Outeiro, e Correias.
Vallada, freguezia com a aldeia de Porto
de Muge, e esta com a sua capella de S. João
Baptista.
Pont vel, freguezia.
Cartaxo, villa e freguezia, com as suaser-
midas do Espirito-Santo, São Pedro, São
Gens, e o mosteiro de frades franciscanos,
da provincia de Portugal.
São do termo de Santarem, ao S. do Tejo:
Valle de Cavallos, freguezia, (hoje do con-
celho da Chamusca.)
Alpinça, freguezia (hoje do concelho d'Al-
meirim.)
Pinheiro, freguezia (hoje chama-se Pinhei-
ro-Grande, e é do concelho da Chamusca.)
Souto, freguezia extincta.
Rapoza, freguezia (hoje do concelho d'Al-
meirim.)
SAN
Santa Martha, freguezia extincta.
Monsão, freguezia extincta.
455
Pertenciam a jurisdicção do civel,
e comarca de Santarem, as 14 villas seguintes
Azambuja, Aveiras de Gima, Aveiras de
Baixo, Torres-Novas, Gollegan, Alcanêde,
Azambujeira, Alcoentre, Almeirim (ao S. do
Tejo) Salvaterra de Magos (ao S. do Tejo)
Mugem (ao S. do Tejo) Montargil (ao S. do
Tejo) Érra (ao 8. do Tejo) Lamarosa das
Enguias (ao S. do Tejo).
cms
Barca da passagem
Em quanto se não conclue a magestosa
ponte sobre o Tejo, traz a camara de San-
tarem arrendada a barca da passagem, por
dois contos de réis annuaes.
A scena dos embarques e desembarques é
excessivamente pittoresca. Em dia de gran-
de concorrencia, ha quasi sempre desordens
sérias, é muita pancada. Os barqueiros raras
vezes deixam de apanhar, como supplemen-
to à sua modica remuneração, alguas mur-
ros e pauladas, do que elles se vingam, fa-
zendo esperar os passageiros, uma hora e
mais, à torreira do sol, nos areaes do sul, ou
obrigando-os a estarem entre a estação do
caminho de ferro e o Tejo, o mesmo tempo
à espera que os barqueiros se digoem lar-
gar da margem opposta.
mem
Museu districtal de Santarem
Foi creado por alvará de 16 de fevereiro
de 1876.
A honra da iniciativa d'este estabeleci-
mento, cabe ao então governador civil do
distrieto, o sr. conselheiro, José Ferreira da
Cunha e Sousa, natural de Aveiro e hoje.
aposentado.
Pelo referido alvará, foi creado um museu
archeologico, e uma exposição permanente
dos productos industriaes do disirivto.
No mesmo dia da data do alvará, foi no-
meiada uma commissão, que logo no dia se=
guinte deu principio aos trabalhos de que
foi incumbida.
156 SAN
A 17 de março, tinha ella concluido eap-
provado o seu regulamento organico, que foi
logo sanccionado pelo digno governador ci-
vil.
As resoluções a que a benemerita com-
missão chegou, resumem -se no seguinte pro-
gramma de trabalhos:
4.º) Colleccionar todos os objectos nota-
veis pelo valor artistico ou pela incontesta-
vel antiguidade.
2.º) Expor permanentemente os productos
de todos os ramos de industria do districto
de Santarem, comprehendendo materias pri-
mas, suas transformações e processos Telati-
vos;
a.) Fazel-os conhecidos dentro e fóra do
paiz.
b.) Incitar por meio de concurso os in-
dustriaes e productores ao aperfeiçoamento
deles.
c) Expôr em collecções os productos dos
demais districtos do reino, e vs dos reinos
estrangeiros, obtidos por troca, compra ou
outro qualquer meio. :
3.) Vigiar pela conservação dos monumen-
tos e objectos d'arte que existirem no dis-
tricto.
4.) Promover pesquizas archeologicas e
realisal-as todas as vezes que possa.
5.) Fazer acquisição de machinas, instru-
mentos aperfeiçoados, sementes, plantas, mo-
delos, etc., etc., logo que tenha meios pecu-
niarios.
6.) Mandar fazer estudos sobre diversos
productos.
7.) Encarregar-se, mediante certos requi-
sitos, da venda de objectos que qualquer pro-
ductor ou industrial tiver exposto com aquel-
le fim.
A commissão, para ampliar a esphera da
sua acção, resolveu nomear representantes
seus, nos conselhos de districto, apesar dos
auxiliares natos (administradores de conce-
lho e presidentes das camaras municipaes)
que o documento constitutivo da sua exis-
tencia determina.
Esses membros correspondentes teem a
seu cargo:
4.º) Coadjuvar a mesma commissão, em-
SAN
pregando os meios ao seu alcance para que
os concelhos de districto não deixem de es-
tar representados, nas diversas secções do
museu, por collecções de amostras dos pro-
ductos das industrias que n'elles se exerce-
rem, já enviando officialmente as amostras
que forem colligindo, já solicitando-as dos
productores e industriaes queas remettam, e
já fazendo-lhes ver as vantagens que das
suas remessas poderão auferir.
2.) Communicar à commissão o appareci-
mento de qualquer objecto de valor artisti-
co, ou archeologico, e procurar desde logo
a sua acquisição para o museu.
3.º) Velar que nos seus respectivos con-
celhos não sejam damnificados e destruidos
os monumentos d'arte que n'elles existam,
representando à commissão sobre as provi-
dencias que entenderem precisas para a res-
tauração, guarda e conservação dos mesmos
monumentos.
k.º) Prestar todos os esclarecimentos que
lhe forem pedidos pelos productores.
5.º) Informar sobre todos os objectos e as-
sumptos que forem de interesse para o mu-
seu.
6.º) Enviar informações circumstanciadas
ácerca de qualquer aperfeiçoamento de in-
dustria local ou de introdueção de nova in-
dustria.
7.º) Remetter relatorios e descripções dos
monumentos archeologicos e trabalhos ar-
tisticos de que tiverem conhecimento e exis-
tirem nas respectivas localidades.
8.º) Enearregar-se de promover a organi-
sação de colleeções para os concursos e ex-
posições temporarias.
Vejamos agora as condições economicas
do novo museu.
O magistrado que o creara, providenciou
tambem ácerca dos meios. A junta geral do
dístricto deu um preclaro testemunho da sua
intelligencia e do seu alto patriotismo, vo-
tando—a primeira no nosso paizl—um sub-
sidio annual ao museu:
Em 1876-77 de 4868300.
Em 4877-78 de 5008000.
A maior parte d'esta somma, fui absorvida
pela restauração da séde definitiva do museu:
a veneranda egreja de S. João de Alporão
SAN
da antiga ordem militar de S. João do Hos-
pital de Jesusalem (depois: ordem de Malta)
monumento que data dos primeiros tempos
da monarchia e que ameaçava imminente
ruina. Tinham ali estabelecido um misera-
vel theatro construido em 1849 por conces-
são provisoria do governo (!!) e que ia dan-
do cabo da egreja, como o theatro de D. Luiz
em Coimbra deu cabo (1860) da historica
egreja de S. Christovam, de Coimbra, irman,
pelo estylo (romanico-byzantino) da de San-
tarem.
O governo remediou o mal com a conces-
são definitiva da egreja ao museu, a 1 de ju-
“lho de 1876; dez dias depois a commissão
tomava posse do edificio. Procedeu-se a uma
restauração piedosa & artistica do monu-
mento, respeitando todas as suas feições ca-
racteristicas. Os trabalhos começaram a 16
de abril de 1877 e proseguem ainda.
Os trabalhos de restauração emprehendi-
dos no futuro edificio do museu tiveram por
fim: 4.º garantir a segurança material do
edificio; 2.º restituir-lhe quanto possivel a
sua antiga feição architectonica; 3.º adap-
tal-o convenientemente ao fim a que se des-
tina, sem proceder a sensiveis alterações. Os
habeis operarios. da localidade, srs. Jerony-
mo Jorê e Jo:é da Piedade, pae e filho, de-
ram conta da tarefa, merecendo elogio da
parte da commissão. Em resultado destes
trabalhos, desatterrou-se o portico de entra-
da até á sua base; nivelou-se o pavimento
interno, que, por sua anterior desegualdade
de superficie, estava incapaz de servir; la-
geou-se a maior parte d'esse pavimento. Na
capella-mór substituiram algumas peças la-
vradas, por as pedras antigas estarem dam-
pificadas, e desobstruiram a capella dos so-
brepostos de alvenaria que escondiam e de-
turpavam as fórmas organicas da construc-
ção; vrincipiaram-se os concertos das fres-
tas externas que dão luz à dita capella, etc.,
etc.; as modestas sommas dispendidas che-
garam ainda para apparelhar varias peças
necessarias em reparos ulteriores.
A commissão [ropõe ainda as seguintes
obras, que demandarão sommas mais conai-
deraveis.
Restauração do portico principal; cons-
SAN 457
trucção da parte arruinada dos olhaes do
frontespicio o do arco cruzeiro; substituição
dos fragmentos destruidos das cimalhas; re-
vestimento de algumas partes mais deterio-
“radas das paredes externas, com a compe-
tente enxilharia.
Feito isto, pensa a commissão que estarão
terminados os reparos; mas, mesmo antes,
poderá transferir para ali o museu, sem pe-
rigo algum, fazendo as seguintes restaura-
ções:
Rematar as obras do pavimento, da ca-
pella-mór e das frestas.
Cobrir extericrmente as abobadas, de mo-
do a evitar a infiltração das aguas pluviaes.
Converter o portico lateral em janella,
reabrir em frente d'esta uma outra para dar
passagem á luz qne escasseia.
Guarnecer essas janellas, os olhaes e as
frestas de caixilhos de vidro, para obstar à
entrada das chuvas, dos animaes, etc.
Concluidos estes trabalhos seria ainda pre-
ciso:
Collocar rédes de ferro de resguardo, on-
de fôr necessario, para proteger os objectos
expostos.
Construir os aparadores e estantes para
elles. :
É evidente que a dotação do museu terã
de ser augmentada, logo que elle esteja ins-
tallado definitivamente, e comece a fazer ac-
quisição por compra. Até hoje os objectos
teem sido collocados provisoriamente n'uma
sala do paço municipal, cedida pela camara
de Santarem, que significou d'este modo o
alto apreço em que tem os esforços da com-
missão e os serviços da junta geral do dis-
tricto.
Esse pequeno nucleo de museu, devido
ao concurso, todo voluntario e patriotico, dos
habitantes mais graduados do districto, é já
digno de attenção.
Dos objectos adquiridos por diligencia da
commissão, mencionaremos os restos de um
precioso tumulo existente em uma parede
do convento de S. Domingos (ha pouco de-
molido em Santarem), o qual se suppõe ser
de D. João de Lacerda, casado com D. Ma-
ria Affonso, filha natural de el-rei D. Diniz;
um precioso peitoril de janella, de pedra la-
158 SAN
vrada, do mesmo convento; as curiosas go-
teiras da antiga torre da egreja de Marvilla;
differentes brazões de armas lavradas em pe-
dra; varios fragmentos de esculptura orna-
mental em pedra; diversos exemplares de
azulejos antigos de relevo e lisos; alguns pa- -
drões das antigas medidas dos concelhos de
Santarem e Alcanêde; apreciaveis fragmen-
tos de ceramica antiga, tijolos, telhas e ma-
nilhas, encontradas em antigas construcções,
etc.
Dos objectos alcançados por ofíerta, ha a
mencionar: a lapide sepulchral de D. Lopo
de Sousa Coutinho, nascido em Santarem e
pae do celebre escriptor frei Luiz de Sousa:
dadiva do ex.mº gr. conego Joaquim Maria
de Sousa, que a encontrára numa velha pa-
rede de sua casa, junto à egreja do Salva-
dor.
Posteriormente o museu adquiriu mais
umas curiosas pedras sepulchraes encontra-
das em 1873 n'um terreno da freguezia das
Olarias do concelho de Torres Novas, quan-
do o preparavam para cemiterio; uns tro-
ços de pedra a que os habitantes da povoa-
ção de Rio Fundeiro (freguezia de Aguas-
Bellas, concelho de Ferreira do Zezere) pres-
tavam culio e denominavam S. Silvestre (co-
mo consta de documento authentico em po-
der da commissão); e um exemplar da gra-
vura, já rara, a sopa economica, doada ao
museu pelo padre José Corino Ribeiro, já fal-
lecido.
«Maior seria ainda a importancia d'aquel-
las antigualhas e mais proficuo resultado
houvera já obtido o museu districtal, se lh'o
não obstasse a pouca capacidade da casa
onde este provisoriamente se tem conserva
do. É por esta causa que a commissão não
“pôde ainda adicionar ao museu archeologico,
além de outras antiguidades que por man-
dado da competente auctoridade foram guar-
dadas em logar seguro,—os mausoleus da
ilustre familia d'Ocem (e entre elles o de
Martim d'Ocem, conselheiro e chanceller-
mór de el-rei D. João 1) os quaes sendo re-
movidos do convento de S. Domingos, foram
depositados na egreja de Nossa Senhora da
Piedade; assim como tambem pelo mesmo
motivo, ainda lhe não foi possivel—em des-
SAN
empenho de um dos seus mais importantes
fins—o fazer conhecidos convenientemente
pela exposição permanente, alguns exempla-
res de novas machinas, para o que já a fabri-
ca constructora de instrumentes agricolas de
Howard de Londres se propoz a concorrer
com diversos productos da sua industria.
A digna commissão tambem já encetou
praticamente esta segunda parte do seu pro-
gramma.
A 26 de abril de 1876 expedia uma cir-
cular, na qual, fazendo conhecida a sua ins-
tituição, fins e utilidade, convidava os pro-
ductores do mesmo districto a apresentarem
ali amostras dos seus productos agricolas é
fabris.
Posto que nem todos respondessem, uma
grande parte dos convidados accendeu prom-
ptamente.
Vinte e trez dias depois, já o museu dis-
trictal inaugurava a sua primeira exposição
de productos naturaes.
Os srs. administradores dos concelhos de
Almeirim, Barquinha, Mação e Thomar, me-
recem especial elogio pelo auxilio que pres-
taram à commissão.
Se a ajuda efficaz de todos os interessa-
dos continuar, como é natural esperar, po-
demos contar em poucos annos com um mu-
seu que marcará uma era nova na historia
das collecções do paiz, dedicadas à instru-
eção geral.
A benemerita commissão desdobra uma
perspectiva que illumina a vista de luz no-
va e conforta o coração.
«Será assim que na sociedade archeologica,
não só se poderão reunir as preciosidades
artisticas, que se teem accumulado no pe-
riodo d'alguns seculos, nos conventos d"Al-
mostér, de Santa Clara, e das Donas de 'S.
Domingos, e que pela suppressão mais ou
menos proxima d'esses conventos, é de jus-
“tiça que se recolham na dita secção — mas
tambem se conseguirá juntar na mesma, as
demais antiguidades e obras d'arte que exis.
tem em abandono por todo o districto, ou
que n'elle se descuram com o correr dos
tempos.» .
«Será assim tambem que pela exposição
permanente se poderá alcançar, tanto na re-
SAN
presentação verdadeira das materias primas
creadas no districto, é dos productos devi-
dos ao trabalho dos seus habitantes, como o
conhecimento dos novos inventos, oU aper-
feiçoamentos introduzidos pela seiencia no
campo da industria agricola, ou fabril.»
A commissão diz afinal:
«Se os resultados obtidos, estão por em-
quanto longe do que ha a esperar-se, como
a commissão é a primeira a reconhecel-o,
são todavia um auspicioso começo que acon-
selha à promover o seu proseguimento.»
São mais do que isso, dizemos nós; são
um alto exemplo dado a todo o paiz, dado
inclusive à capital do reino, que soffreu que
o Museu Fradesso da Silveira fosse desfeito,
vandalisado.
E com tudo, esse homem que nos prestou
como commissario | regio os maiores servi-
ços em Vienna de Austria (1873) reuniu-o
à custa da sua vida, à custa de um impro-
bo trabalho (na Austria, na Belgica, em Fran-
ça) que o levou poucas semanas depois à
sepultura; elle chegou a Lisboa com o mt.
seu, mas chegou quasi moribundo para se
deitar na cama, de onde não se levantou
mais.
Abriram o museu no arsenal da marinha
e expulsaram-o d'alli, apenas o generoso
fundador fechára os olhos, desfazendo-6, di-
vidindo e lançando o resto n'um bric á-brac.
E todavia, esse museu Fradesso da Silvei-
ra, representava, assim como à secção in-
dustrial do museu de Santarem, uma ideia
eminentemente pratica e fecunda.
Esto não é vergonha ; é simplesmente in-
famia. 2
Em face de uma scena destas na capi-
tal, não havemos de admirar à constancia e
a fé de uma pequena cidade da provincia ?
«Não desconhece a commissão que para 0
conseguir se exige, alem do emprego dos
1 O imperador d'Austria despediu-se de
elle numa carta que era acompanhada de
uma grão-cruz austriaca.
2 Aos que desejarem discutir comnosco à
respeito do rigor slo termo empregado po-
demos apresentar provas—preto sobre bran-
co—em como elle podia e devia ser mais
forte.
SAN h59
meios já indicados, O dispendio de sommas
de algum valor; porem entende a mesma, que
uma tal exigencia não d:ve servir de obsta-
culo para se continuar um emprehendimen-
to, que ennobrece este districto, um dos mais
importantes do reino por sua riqueza e il-
lustração.»
Esto não é enthusiasmo cheio de illusões;
é a consciencia da dificuldade bem sentida,
bem pezada, e do outro lado a nobre e te-
naz coragem de quem quer vencer.
Estes fattos que expomos, imparcialmen-
te, sem outro impulso que não seja a nossa
profuada sympathia pela ideia tão bem ini-
ciada—porque não temos a honra de conhe-
cer nenhum dos cavalheiros iniciadores !—
| estes factos consummados dão ao Museu Dis-
prictal de Santarem o direito de reclamar
todas as reliquias que estão dentro dos limi-
tes do districto.
«É de justiça que se recolham na dita se-
ecão,» diz a commissão; é de toda a justiça,
accrescentaremos nós.
A capital teve ha quatorze annos quem
lhe lembrasse o que devia fazer.
O sr. Julio Cesar d' Andrade, propoz então
(1863) à direcção da Sociedade Promotora
de Bellas Artes a organisação de uma exposi-
ção de bellas artes, applicadas a industria 2,
«O conselho tomando na devida conside-
ração esta proposta, julgou que lla deveria
ser discutida pela assembléa geral, porque
até certo ponte modifica o espirito dos nos-
sos estatutos.»
Isto imprimia-se a 18 de agosto de 1865 º
Pois à proposta nem sequer foi discutida!
Em compensação à Sociedade teve tempo
para fazer seis ou sete alterações dos esta-
tutos, que transformaram completamente O
caracter d'ella, como foi, por exemplo, a ad-
missão de artistas estrangeiros à distribui-
cão dos premios da loteria que, segundo o
1 O proprio Relatorio de que nos servi-
mos fui-nos emprestado.
2 É portanto ao sr. Andrade que cabe a
honra de ter sido, entre nós,o primeiro que
acertou no verdadeiro alvo, Suum cuique.
3 Relatorio e contas da Sociedade Promo-
tora das Bellas Artes em Portugal no anno.
de 1864-1865. '
Lisboa, 1865. Pag. 12.
460 SAN
estatuto primitivo, devia beneficiar exclusi-
vamente artistas do paiz! Que admira que
logo depois apparecessem 25 quadros de ar-
tistas estrangeiros na exposição ! da Socie-
dade, em 1866?
Não é agora a occasião de analysar a in-
fluencia que a Sociedade Promotora de Bel-
las Artes exerceu sobre o movimento artis-
tico do paiz, mas desde já affiançaremos, que
o publico se illudiu completamente, a res-
Feito do alcance de similhante instituição,
desde o principio, e que os corpos gerentes
mesmo não tinham, nem um fim determi
nado pratico, um programma claro, uma
distineção das necessidades locaes e do paiz,
em geral, em materia d'arte.
Fallamos depois de uma analyse miuda,
laboriosa, de dez Relatorios e contas, e onze
Catalogos de exposições; é o que se vé, de-
pois de uma comparação rigorosa das ideias
ahi expendidas, a qual nos revelou as con-
tradições mais singulares e a falta de toda
e qualquer norma de conducta, nos corpos
gerentes que se succederam de 1861 até
1875.
A ideia fecunda está, portanto, em Santa-
rem e não em Lisboa.
Que as outras cidades da provincia imi-
tem o exemplo dado pela sua irman; que
Coimbra, Braga, Evora, 2 Guimarães, e Vi-
zeu, que todas as cidades eminentemente
historicas sigam o mesmo-caminho; é o que
sinceramente desejamos.
Então e só então, depois de terem feito
fallar os faetos consummados, depois dos
municipios terem creado e dotado conve-
Dientemente os seus museus districtaes, en-
tão e só então, repetimos, terão um argumen-
to irrespondivel para reclamar a posse dos
objectos que a força de lei secular fôr ar-
Tancando às trevas dos conventos, onde nos
consta andarem já aves de rapina, fazen-
do gordas prêzas.
1 Sociedade Promotora das Bellas Artes.
Catalogo da Quinta exposição.
Lisboa, 1866, 8º
- * Em Evora existe o Museu Cenaculo, de
archeologia, devido à iniciativa do sr. A. F.
Simões, mas hoje pouco ntnos que aban-
donado (v. o Relatorio de 1869.)
SAN
Para acabar condignamente esta noticia,
inscrevemos no fim os nomes dos cavalhei-
Tos que formam a commissão organisadora
do museu districtal de Santarem. .O seu
maior elogio é a sua obra.
Fundador—O sr. conselheiro José Ferrei-
ra da Cunha e Sousa.
Vice-presidente—Visconde de Atouguia.
Thesoureiro—Silverio Alves da Cunha.
Vogaes—Jacintho d'Almeida de Sousa Fal-
cão, Antonio Lourenço da Silveira, João Pei-
xoto da Silva, João Fagundo da Silva, Fran-
cisco José do Nascimento Moura, Alexandre
Marques Sampaio, José Xavier da Silva.
Secretario (relator) —João Manuel de Car-
valho.
Joaquim de Vasconcellos.
(Extrahido da Actualidade, de 14 de mar-
ço de 1879.)
Santarem, é, indisputavelmente, uma das
mais antigas e nobres povoações da Lusita-
nia.
Quando a fundação e a historia de uma
cidade, se perde na noite dos tempos, está
sempre envolvida em fabulas e maravilhas,
mais ou menos inverosimeis, e Santarem não
podia ser a excepção desta regra geral; e o
individuo que tiver de escrever a sua his-
toria, hade forçosarnente vêr-se na necessi-
dade de seguir os livros antigos, e dar à po-
voação a origem que elies lhe deram, por
mais inacreditaveis que ella lhe pareça.
Muitos escriptores teem tratado de Santa-
rem, distinguindo-se entre elles, o padre
Ignacio da Piedade e Va:concellos, natural
d'esta cidade, e conego secular de S. João
Evangelista (loyo) com a sua Historia de
Santarem edificada, em dois grossos volumes,
publicados em 4740.
—
De todos os livros que consultei, que foi
um grande numero, extrahi o que se segue.
Entendi que, para maior clareza, e mais
facil comprehenção do Jeitor, era mais cu-
rial descrever os factos principaes, pela or-
dem das datas. É o que faço.
SAN
HISTORIA CHRONOLOGICA DE SANTAREM
Annos antes de Jesus Christo
1372 (anno 2632 do mundo.)
|
|
SAN 161
deiro amigo, deixando-o pacifico senhor de
Lisboa e do seu districto.
Ulysses, fundou um sumptúoso templo a
Minerva, mandou erguer e reforçar os mu-
ros de circumvalação, construir fortissimas
Bacho, filho de Semele, à frente de uma | torres, e outros edificios, no proposito de
numerosa legião de gregos, entra na Lusi-
tania, pouco depois do fallecimento de Sic-
Ulo, filho de Luso, e que, segundo varios
auctores, foro XX e ultimo rei indigena.
Não entrou em som de quer ra; tratou leal
e generosamente os lusitanos, que acceita-
ram para seu rei, o grego Lysias.
A este, seguiu-se Lycinio-Caco, e a este
Gergoris, ou Gorgoris, filho de Palatuo.
Diz-se que Gergoris, fui co-
gnominado, o Melicola, por ser
o primeiro que soube extrahir
o mel, dos favus das abelhas.
Seria.
Segundo Manuel de Faria e
Sousa (Epitomedelas historias,
pag. 15.) Gergores (a que elle
dá o nome de Gorgoris) reinou
77 annos na Lusitania.
1215 (anno 2789 do mundo) e no reinado
de Gergoris, Ulysses, rei de Itaca,2 entrou
no Tejo, com alguns navios, guarnecidos de
tropas gregas, que andavam divagando (pi-
rateando) pelos mares Mediterraneo e Atlan-
tico, depois da tomada e destruição de Troya.
Gergoris, com um numeroso exercito de
lusitanos, se dirige a Lisboa, para atacar
Ulysses, mas este astucioso grego, em vez
de tentar uma resistencia que lhe seria fa-
tal, em vista da inferioridade numerica dos
seus soldados, propoz a paz aos lusitanos,
dando ao seu rei, muitos e valiosos presen-
tes; pelo que Gergoris se tornou seu verda-
! Gergoris, na antiga lingua peninsular,
significa braza ou chamma.
* Pequena ilha do mar Jonico, hoje cha-
ES Val di Compari. (Vide no 6.º vol., pag.
Segundo outros, ha aqui um anachronis-
mo de 31 annos, ou então Ulysses andou
todo este tempo pirateando por esses mares;
porque a guerra de Troya terminou no anno
do muado 2820431 antes da fundação de
Roma, e 148% antes do Nascimento de Jesus
Christo.
|
fixar a sua residencia em Lisboa. Mudou o
nome da cidade, que era Elisa, para Ulyssea.
Hoje, muitos escriptores de
boa nota, negam obstinada-
mente a vinda do marido de
Penélope, à Lusitania; porém,
todos os escriptores antigos o
affirmam. Todavia, o nome de
Elisa (que se pronunciava
Elissa) é tão parecido com
Ulyssea, que a gente fica em
duvida com respeito a esta
chrisma.
Em factos de tão grande an-
tiguidade, havemos de resi-
gnar-nos a escrever o que di-
zem os antigos, visto não ter-
mos provas em contrario.
Segundo o auctor da Historia de Santa-
rem edificada, Ulysses seduziu Calipso, filha
de Gergoris, e d'esta união nasceu ABIDIS,
ou Abidos.
Gergoris, furioso contra Ulysses, o foi ata-
car a Ulyssea, mas o grego não esperou og
lusitanos, e, embarcando com a maior parte
dos seus, fugiu para o Levante (mar Jonico)
e nunca mais cá tornou.
Calipso ficou em Ulyssea com o resto dos
gregos. Gergoris os atacou e venceu; e, agar-
rando aBiDis, O mandou lançar a uma ca-
verna que havia entre penhascos, para ser
devorado pelas féras. Depois, mudando de
parecer, mandou metter o menino em uma
cesta e deital-o ao Tejo.
A maré, trouxe-o pelo rio acima, até umas
brenhas que serviam de covil a uma cérva,
e esta amamentou a creança.
Diz-se que aBi1DIS foi creado
em um sitio escabroso, entre
Alcáçovas e o Pereiro (Santa-
rem.)
Alguns dizem que não foi
uma cerva, mas uma lóba que
o creou. k
O que nenhum escriptor nos
diz (que eu saiba) é como 0
pegueno se arranjava no in-
verno, ou se a cérva (ou a
lôba) o vestia...
Cresceu o joven principe, e se foi creando
por aquelles desertos, dormindo nas suas
cavernas, e fugindo dos caçadores (unica
gente que por alli apparecia.)
Um dia, porém, pôde ser apanhado e o le-
varam, como uma raridade, à presença de
Calipso, que, por certos signaes que o me-
nino tinha, o reconheceu pelo filho que lhe
havia sido roubado, e o conservou junto
de si.
Faria e Sousa, na obra já citada (parte
4.º, cap. 2.º, pag. 15) conta isto com algu-
mas variantes: diz elle (tradueção):
Os gregos, abusando da generosidade dos
lusitanos, corriam os seus mares pirateando,
pelo que, os lusitanos lhes fizeram guerra,
expulsando-os quasi todos.
(Parece-me que isto tem mais geito.)
Ao mesmo témpo que Ulysses fugia pela
foz do Tejo, entrava pela do Minho, Diórae-
des, rei de Etholia (outro grego que tambem
regressava da guerra de Troya) e fundou
Tide, ou Tude) do nome de seu pae (ou de
seu filho, Tideo), que é à actual cidade gal-
lega de Tuy, em frente da nossa praça de
Vallença. (Vide 7.º vol., pag. 271, col. 2.2)
Tornemos a Gergoris, segundo Faria e
Sousa.
«Uma hija suya (de Gergoris) se hizo pre-
fiada de un galan que seguia sus amores (de
su propio padre, dize algun autor) porque
luego que nació un nino deste parto» ete.
Faria e Sousa, conta a mes-.
ma historia da gruta, e da cêsta
— que chegou—
«junto á la villa de Santarem y fue hallado
enla playa, adonde una cierva le dio leche, y
con esta piedad, nombro al logar, que le Ilamo
del propio nino, lamado Abidis, lamandose
Escalabis, casi esca Abidis.»
«De la madre silvestre heredo la ligereza
con que vagava por aquellos montes, com ad-
miracion de los caçadores, quando, encontran-
dole, advertian que era hombre en la fórma,
y en las acciones ficra.»
SAN
Tendo Gergoris noticia de tão estranho
caso, sem imaginar que o menino selvagem
podia ser seu neto, mandou que lhe armas-
sem laços, e, caçando-o, o trouxeram ao rei,
que, por notorias semiales, vino á conocerlo.
Tomou grande affeição ao menino, e o do-
mesticou, dando-lhe aios e mestres que o
tornaram illustre em varias artes.
Fundou Abides a cidade de Astigi, que
passados tempos se chamou Ezija; e a de
Asturica (á qual deu este nome por estar na
margem do rio Astura, confluente do Dou-
ro) e é hoje Astórga.
Até aqui, Faria e Sousa.
Gergoris, não tendo outra filha, reconhe-
ceu Abidis, por seu suceesor, e este chegou
a ser um grande rei, governando toda a Pe-
ninsula.
No meio das suas grandezas e sumptuo-
sidades, nunca se esqueceu das brenhas in-
cultas onde passou os primeiros annos da
sua infancia, e decidiu fazer d'aquelles co-
vis de féras, uma cidade magnitica, e capi-
tal do seu reino.
Mandou pois construir uma formosa po-
voação, que cercou de muros com suas tor-
res, e lhe deu o nome de Esca-Abidis, que
significa sustento ou manjar, de Abidis.
Principiou esta fundação, no anno do mun-
do 2863, 1141 annos antes de Jesus Christo.
Foi Abidis, um rei sábio, amou a justiça,
era liberal, e por isso foi amado dos seus
povos.
Tão intelligente para os negocios, como
bravo na guerra, venceu muitas batalhas
contra os seus inimigos.
Foi 26.º rei de todas as Hespanhas, por
successão continuada desde Tubal. Reinou
Jô-annos. :
Eis, segundo a lenda, a origem da cidade |
de Santarem, nobilissima pela sua muita an- |
tiguidade (qualquer que ella seja) pelos seus
venerandos monumentos, e pelos factos im-
portantissimos da nossa: historia, que tive- |
ram logar aqui, desde que ha documentos |
escriptos.
Mesmo a fabula que envolve a sua remo- |
SAN
tissima origem, é uma prova da mais incon-
testavel antiguidade.
Morto Abidis, esteve a Lusitania quasi
despovoada e sem rei, por espaço de 146 an-
nos, em razão da sécca que principiou no
anno 309 do mundo.
(A Historia de Santarem diz que o inter-
regno foi de 447 annos, mas de certo é êrro
typographico.)
995---da ereação do mundo, 3009.
Uma sêcca de vinte e seis annos esterili-
sou o solo das Hespanhas, e muitas familias
se viram obrigadas a emigrar para paizes
estrangeiros.
Quando terminou a calamidade, os lusi-
tanos regressaram á sua patria, trazendo
comsigo um grande numero de gallos-cel-
tas, que augmentaram muito a população.
A fama da fertilidade e salubridade do
Dosso clima, atrahiu outros povos das Gal-
lias, e atraz d'elles gregos e chaldeus ; mas
Santarem esteve sempre possuida pelos lu-
Sitanos.
954—da creação do mundo, 3050.
Chegada dos phenicios à Peninsula—San-
tarem conserva-se em poder dos seus natu-
raes.
992—da creação do mundo, 3412.
Os carthaginezes invadiram o litoral da
Lusitania, tratando bem os seus povos, e San-
tarem continúa sendo dos descendentes dos
seus fundadores.
Terminam os tempos pre-historicos.
308—da creação do mundo 3696.
Os celtas apossam-se de Santarem, mas
sem guerra, e ligam-se por casamentos com
os lusitanos.
230—da creação do mundo 3774.
Época do famoso Viriato, o antigo, que se
suppõe ser de Eborobriga, hoje Extramadura
portugueza. (Para evitarmos repetições, vide
Alfeigirão, e Eburobriga.)
212-—da creação do mundo 3792.
SAN
Os romanos na Peninsula Iberica.
200-—da creação do mundo 3804.
O senado romano, divide a nossa Penin-
sula em duas provincias—Cilerior, desde a
direita do Ebro até aos Pyreneus—Ulterior,
desde a esquerda do Ebro até ao mar.
153—da ecreação do mundo 3851.
Epoca do famosissimo Viriato, o hermi-
nio.
Vide Póvoa-Velha.
Alé este tempo, Santarem conservou O
seu primitivo nome de Escalabis.
84—da creação do mundo 3920.
Época do grande Sertorio. Vide Evora.
63—da creação do mundo 39%.
Os romanos tornam-se finalmente senho-
res da Lusitania, depois de uma guerra de
149 annos!
Foi n'este anno que Julio Cesar, veio por
questor de Tuberon, para a Lusitania, que
alagou em sangue dos seus naturaes, e só
quando não existiam senão velhos, mulhe-
res e creanças, é que se julgou seguro o do-
minio dos romanos.
463
h9-— da creação do mundo, 3955.
Julio Cesar, em guerra com os filhos de
Pompeu, que se tinham feito fortes na-Lu-
sitania, receiou entrar n'este paiz, lembran-
do-se das crueldades que n'elle tinha prati-
cado como questor; mas era homem de bom
senso, e sobremaneira astucioso, pelo que,
para atrahir os lusitanos ao seu partido, fez
com elles uma paz honrosa, em Beja—que,
por isso, se ficou chamando Paz-Julia.
D'aqui marchou para Evora, à qual hon-
rou com o titulo de municipio do antigo di-
reito latino. Esta cidade, em reconhecimento
d'este beneficio, tomou o nome de Liberali-
tos Julia.
Os romanos, tinham edificado, ou o que é
mais provavel, reconstruido as velhas forti-
ficações de Santarem, pondo-lhe o nome de
Scalabi-Gastro, e dando-lhe os privilegios de
colonia romana, e depois, constituindo-a mu-
nicipio do antigo direito latino.
h64 SAN
Julio Cesar elevou Santarem a séde de um
dos quatro conventos juridicos em que foi
dividida a Lusitania, e abrangendo esta, todo
o territorio das actuaes provincias das duas
Beiras, Extremadura, e ainda parte da Ex-
tremadura hespanhola.
Os santarenos, reconhecidos, lhe edifica-
ram um templo famoso, que veio a ser mes-
quita de mouros, e que depoisos christãos
purificaram, e D. Affonso Henriques deu aos
templarios. É a egreja de S. João d'Alporão.
Tinha este templo romano uma varanda,
da qual se leu ao povo o celebre edieto de
Augusto—ut adscriberetur universus orbis
— quando nasceu Jesus Christo.
A camara mandou demolir esta varanda,
em 1799. (Já então havia vereadores muito
ilustrados!) !
Os romanos construiram magestosos edi-
ficios e uma sumptuosissima ponte de can-
taria, sobre o Tejo, em frente de Santarem,
na via militar que de Lisboa hia a Merida,
então capital da Lusitania. ;
Foi então que Santarem attingiu o su-
premo gráu de importancia e grandeza, tor-
nando-se uma das trez cidades principaes
da Lusitania (Lisboa, Braga e Santarem.)
h2—da creação do mundo, 3962.
Época do famoso Octavio Augusto, um dos
melhores imperadores romanos. Repartiu a
Lusitania em quatro chancellarias, que fo-
ram, Merida, Beja, Braga, e Santarem. Es-
tas cidades lhe erigiram magnificas estatuas,
Estas chancellarias procede-
ram, por ordem de Augusto,
ao recenceamento da popula-
ção da Lusitania, e consta que
deu em resultado, quasi SEIS
xiLHÕES (!) de chefes de fami-
1 D. Maria I, era esperada em Santarem,
e para que o coche real podesse passar à
larga, pela rua contigua ao edificio, é que a
camara praticou este vandalismo estupido.
D'esta varanda, que era uma especie de
pulpito, é que se publicavam ao povo, todos
os editos provenientes de Roma, ou dos con-
sules, pretores e perfeitos das provincias
conquistadas; e parece que, depois, os ára-
bes tambem d'aqui apregoavam gazua (cha-
mavam os seus à guerra.)
SAN
lia, ou perto de vINTE E QUATRO
MILHÕES de almas |
Parece isto inacreditavel, e
talvez que haja cifra de mais;
mas, devemos notar que du-
rante o dominio dos romanos,
grande numero de italianos, é
outros povos, se vieram esta-
belecer na Lusitania.
Quatrocentos cincoenta e oito annos durou
a dominação romana na Peninsula, e, deve-
mos confessar que—se esta sujeição custou
rios de sangue aos lusitanos, e tambem não
pouco aos romanos, estes, senhores pacificos
do paiz, o elevaram a um grau supremo de
prosperidade, e transformaram os semi sel-
vagens lusitanos, em homens civilisados.
Ainda hoje admiramos grande numero
de monumentos que, desafiando o longo cor-
rer dos seculos, existem de pé, attestando à
magnificencia e sollicitude dos dominado-
res.
Estamos chegados ao anno do mundo 4004,
753 da fundação de Roma, que foi no anno
3251 do mundo.
Amnnos de Jesus Christo
|—Imperava Octavio Augusto, e reinava
uma paz universal, 1! e eram pretores na Lu-
sitania, Quadrato, e Tito Fluvio Claudiano.
É o anno 4.º do nascimento do REDEM-
PTOR.
14—Morte de Augusto, succedendo-lhe
Tiberio. Para proconsul da Lusitania veiu
Vibio Serêno.
41—Suppõe-se que n'este anno fui, pela
primeira vez, prégado o Evangelho na Lusi-
tania, pelo apostolo, S. Thiago-Maior.
Imperava o ferocissimo Néro, que foi um
cruel perseguidor dos christãos ; mas os da
Lusitania foram tratados com menos cruel-
dade, porque tinham por pro-consul, o hu-
mano Otho Silvio.
74-Imperio de Vespasiano, que muitos
1 Ainda hoje, quando queremos significar
uma longa paz, dizemos—uma paz octaviana.
SAN
beneficios fez à Lusitania, construindo obras
maguificas, soberbas pontes, e optimas es-
tradas.
Succede-lhe seu filho Tito asi) e
veio para questor da Lusitania, o grande
escriptor Plinio.
Foi então a Lusitania dividida em trez
comarcas, Lérida, Beja e Santarem.
Já então havia na Lusitania grande nu:
mero de municipios romanos, muitas colo-
nias, e uma numerosissima população.
14—Época do immortal Trajano (hespa-
Bhol, natural da Cidade de Córdova) que
grandes beneficios fez à Lusitania.
162-Succedeu-lhe Adriano, que tambem
favoreceu à Lusitania.
Aestesuccedeu Antonino Pio. Deste impe-
rador só consta que fez (ou mandou fazer) o
celebre ltinerario do seu nome.
Passemos em claro um espaço de 144 au-
Dos, no qual, por muitas vezes o sangue dos
martyres alagou o sólo da patria, como se
tem lido em muitas partes d'esta obra; e che-
guemos ao tempo feliz do primeiro impera-
dor christão, (306) Constantino Magno, filho
de Santa Helena, que deu a paz à Egreja
Catholica.
277 (18 de março) —
natural de Santarem.
(Vide Santos portuguezes.)
392— Roma contou este anno, no numero
dos seus imperadores, um dos mais notaveis
pelas suas virtudes e illustração : foi Theo-
dosio o Grande, lusitano, natural da cidade
de Cauca, situada entre Braga e Vallença.
(Vide Gauca, e Cossourado, do concelho de
Coura )
Depois da morte de Theodosio o Grande,
o império romano foi dividido em dois—
Oriental, e Occidental. Foi o principio da
decadencia d'este vasto imperio, que já en-
tão contava 1145 annos.
S. Narciso, martyr,
Invasão dos povos do norte
Em 395, hordas inoumeraveis de povos do
Norte, invadiram as Gallias—hoje França-—
onde ficaram os ostrogodos.
Os wissigôdos, wandalos, suevos, alanos,
selingos, e outros barbaros, vindos das sel-
vas e montanhas da Gothia, Suecia, Norwe-
SAN 465
ga e Germania, passaram os Pyreneus, in-
vadindo a nossa Peninsula, e assolando é
destruindo, a ferro e fogo, tudo quanto acha-
ram na sua passagem devastadora.
Chegaram à Lusitania, em 405. Os pri-
meiros annos do seu dominio, foi uma ver-
dadeira época de terror | Além dos lusitanos
que morreram ás mãos d'estes ferozes in-
vasores, tambem por esse tempo houve uma
terrivel fome, á qual suecedeu uma peste
exterminadora, que causou a morte a mui-
tos milhares (alguns dizem milhões) de pes-
soas, das nossas provincias.
Nas partilhas que entre si fizeram os bar-
baros, pertenceu aos alanos esta parte da
Lusitania.
Os alanos e suevos, debalde tentaram to-
mar Santarem, cujo povo lhes oppôz sempre
a mais tenaz resistencia, e só foi conquistada
em 418.
Senhores da cidade, os barbaros arraza-
ram quasi tudo quanto lhe podesse recordar
o dominio dos romanos, e fvi então que os
seus mais nobres e sumptuosos edificios dei-
xaram de existir.
Até o seu nome romano foi proseripto,
restituindo-lhe o antigo de Escalabis.
A amenidade do clima, a fertilidade do
sólo, e os costumes patriarchaes dos lusita-
nos, foram pouco a pouco domesticando os
barbaros, de maneira que, pelos annos de
414, já o seu dominio era dr ao dos
romanos.
Quando o rei godo Eurico veiu à Lusita-
nia, pelos annos 500, já os barbaros e os
aborigenes formavam um só povo.
Estes invasores eram, pela maior parte,
hereges, arianos, e o resto idólatras,
No principio da sua occupação, destrui-
ram indistinctamente todos os templos, quer
fossem catholicos, quer romanos; mas, com
o tempo, se foram convertendo ao catholi-
cismo; até que, em 558, foi feito rei dos sue-
vos, Theodomiro, que, sendo ariano, se con-
verteu ao christianismo catholico, em 564.
Em 585, Leovigildo, rei dos godos da Gal-
lia Narbonense, usurpou o throno de Ebu-
rico, filho de Ariamiro, reí da Lusitania €
da Galliza, e ficou senhor de toda a Penin-
sula.
SAN
Para seu maior descanço,
fez cortar o cabello a Eburico,
obrigando-o a ser monge do
mosteiro de Dume, no Minho;
e a mesma sorte teve Endeca,
o qual, como Eburico, era
creança quando falleceu Aria-
miro, que lhe havia usurpado
os seus estados, que Leovigil-
do lhe tirou em proveito pro-
prio.
Leovigildo, era ariano, e foi um feroz
perseguidor dos catholicos, principalmente
dos bispos, e dos principaes varões, nota-
veis em lettras e virtudes.
Em 586, falleceu Leovigildo, e lhe succe-
deu seu filho; Flavio Ricaredo, que. conver-
tido por seu irmão, Santo Hermenegildo,
abjurou o arianismo, e em poucos annos
deixou de existir esta seita.
631 — (6 de maio) S. João Godo, natural
de Santarem. Vide Santos Portuguezes.
Foi no 2.º quartel do seculo VII (631 ou
632 de J. €.) que em Nabancia (hoje Tho-
mar) teve logar o martyrio de Santa Tria,
ou Irêne, ou Eréa. Era filha de Ermigio, e
Eugenia, e sobrinha do abbade, Célio. Seu
assassino, foi Tribaldo (ou Theobaldo) filho
de Castinaldo e Cácia.
Segundo a lenda, o corpo da Santa Vir-
gem, sendo lançado ao rio Nabão, este o
lançou no Zêzere, e este no Tejo, onde os
anjos lhe construiram um bello sepulchro,
no meio do rio, em frente de Santarem, cu-
ja povoação tomou, pouco depois, o nome de
Santa Irêne, que se corrompeu no actual.
Onde existiu o tumulo da Santa, mandou
depois a rainha Santa Izabel, mulher de D.
Diniz, erigir um padrão, que ainda existe,
693—0 rei godo Receswintho, que era ca-
tholico, tomou aos alanos a cidade. de San-
tarem, e lhe mudou então o nome para Santa
Irêne, que facilmente se corrompeu no actual.
Vide a 2.º Iria (Santa) Nabancia, e Ribeira
de Santarem.
Novo periodo de calamidades esperava
esta povoação!
SAN
Destruido o exercito dos gôdos, em 743,
na desastrosa batalha de Guadalete, e mor-
to; ou perdido o seu rei (vide Pedernaira)
pelo exercito mouro-africano de Tarif. Aben-
Zarca, ajudado pelos traidores, conde Julião,
e seu irmão o bispo Ópas, deixou de exis-
tir o imperio dos gôdos, succedendo-lhe a
terrivel dominação dos árabes, que lhe cha-
maram Chantarin ou Ghantireyn.
Estes, tomaram de assalto a cidade:de
Santarem, em 715, assassinando ou capti-
vando os seus moradores.
Trinta e oito annos estiveram os mouros
senhores de Santarem.
Pela morte de D. Affonso, o Catholico, rei
de Oviêdo, lhe succedeu seu filho, D. Frue-
la 1, illustre guerreiro, que logo no princi-
pio do seu reinado, ganhou na Galliza gran-
des victorias sobre os árabes, commandados
por Omar, filho de Abd-el:Rahman, kalifa
de Córdova; e entrando na Lusitania, der-
rotou Ali-Aben-Tarif, resgatando (753) toda
a Extremadura (a nossa) e o Algarve.
Em 760, Abd el-Rahman, tornou a con-
quistar Lisboa, Evora, Beji,Santarem, todo
o Alemtejo, e o reino do Algarve.
Foi por este tempo, que Aben-Cri, senhor
de Santarem, reconstruiu e ampliou as for-
tificações romanas d'esta praça.
Por morte do rei D. Atfonso, o Casto, lhe
succedeu D. Ramiro I, filho de D. Bermu-
do I. O novo rei, foi um militar distincto, e,
depois de dominar a rebelião do conde Ne-
pociano, nas Asturias, e derrotar os norman-
dos, na Galliza, foi o seu reino invadido pe-
los mouros, porque o rei ge tinha negado a
pagar-lhes o infame tributo das cem donzel-
las. (Vide vol. 3.º, pag. 193, col. 2.2) D, Ra-
miro ataca os mouros (824) obrigando Al-
Hamar, rei mouro de Coimbra, a fazer-se
tributario dos christãos; e tomando-lhes San-
tarem, e outras povoações da nossa Extre-
madura.
Vinte e seis annos depois (850) tornou
Santarem a cahir em poder dos mouros,
commandados por Mahomet, rei de Córdova,
e a dominaram por espaço de cem annos,
até que, D. Ordonho [II, filho de D. Ramiro
H, lh'a tomou, em 950.
1067—D. Fernando o Magno, por sua mor-
SAN
te, dividia as Hespanhas pelos seus trez fi-
lhos—A D. Sancho, deu a Castella—a D. Af-
fonso, Leão—e a D. Garcia, Portugal e Gal-
liza.
Esta divisão não agradou aos dous pri-
meiros, que qualquer d'elles queria para si
sómente, O imperio das Hespanhas.
D. Garcia, tinha um valido, chamado Ver-
na, que o fez commetter algumas crueldades,
o que causou o descontentamento dos prin-
cipaes senhores portuguezes e gallegos.
O conde, D. Rodrigo Dias, assassina Ver-
na, mesmo na presença do rei, no paço de
Coimbra.
D. Sancho e D. Affonso, irmãos de D. Gar-
cia, mandam contra elle os condes castelha-
nos, D. Nuno de Lára, e D. Garcia de Ca-
bras.
O conde D. Rodrigo Dias, e seus irmãos,
D. Pedro e D. Vermuiz, portuguezes, derro-
tam os castelhanos (1070) na famosa bata-
lha d'Agua de Maias, e os obrigam a retirar
para Castella.
1071—D. Sancho, reune um grande exer-
cito e vem sobre Coimbra.
D. Garcia foge para Santarem, porém ahi
o foi atacar D. Sancho, e depois de uma san-
guinolenta batalha, este ficou prisioneiro,
mas, podendo fugir, continuou a batalha.
Nºeste comenos, chega ao campo castelhâno,
D. Ruy Dias de Bivar (o Cid) famoso guer-
reiro d'aquelle tempo, com um grande re-
forço de tropas, e a victoria pendeu para os
castelhanos.
D. Garcia ficou prisioneiro, e seu irmão,
depois de lhe mandar arrancar os olhos (!)
o mandou encerrar em uma prisão do Cas-
tilho de Luna, villa do reino de Leão, e que
“hoje é a nossa villa de Alfaiates, no Riba-
Côa. (Vide Alfuiates e Sabugal.)
N'ºesta prisão terminou seus dias o infeliz
principe.
D. Sancho ficou então (1071) rei de Por-
tugal, Castella e Galliza.
Pouco tempo porem durou a usurpação
de D. Sancho, porque Icgo em 1072, estan-
do a cercar sua irman, D. Urraca, em Zamo-
ra (á qual tambem queria usurpar a heran-
ça paterna) foi morio, em um dos ataques
que deu à cidade.
SAN 467
Seu irmão D. Affonso VI, ficou unico se«
nhor de Portugal, Castella, Leão e Galliza,
tomando o titulo de imperador.
Emquanto durou esta guerra fratricida,
os mouros tornaram a apossar-se de Santa-
rem,
1093-—(21 d'abril) D. Affonso VI, expulsa
os mouros de Santarem; e antes e depois, de
outras povoações da Exiremadura portu-
gueza.
Foi n'este anno que elle, resgatando do
poder dos mouros varias povoações em re-
dor de Santarem, até Almourol, Céra e Zê-
zere, lhes arrazou todos os seus castellos e
muralhas; o que só d'ahi a quasi um seculo
foi reconstruido pelo famoso D. Gualdim
Paes, mestre do Templo.
N'este mesmo anno de 1093, deu D. Af-
fonso VI, o reino de Portugal, e tudo quan-
to se podesse resgatar do poder dos mou-
ros, até à margem direita do Guadiana, à
sua filha, D. Thereza e marido, o conde
D. Henrique.
1095— (43 de novembro) 4.º foral de San-
tarem, dado pelo conde D. Henrique e sua
mulher.
Suppõe-se qua n'este anno, os templarios
principiaram a fundação da egreja de Santa
Maria d'Alcáçova, ou, pelo menos, n'estes 16
annos em que os portuguezes estiveram de
posse de Santarem.
Dizem outros que já no local havia um
templo romano, que os arabes converteram
em mesquita, e que os cavalleiros do Tem-
plo demoliram, para com os seus materiaes
edificarem a nova egreja catholica. Vide o
anno 1154.
1110-—Cyro, rei arabe, poz a Santarem
um apertado cérco, e, depois de uma defe-
za heroica, a praça rendeu-se pela falta de
mantimentos.
1147—(8 de maio) D. Afíonso Henriques,
toma aos mouros, por surpreza, a formida-
vel praça de Santarem.
Teem havido duvidas sobre
a data (o dia) da tomada de
Santarem por D. Affonso I.
Dizem uns, sem sombra de
fundamento plausivel, que foi
a 15 de março. Outros, susten-
SAN
tam que fvi a 29 de setembro.
Estes fundam-se em que a pra-
ça fui tomada em dia de S. Mi-
quel. Os antigos escriptores, |
pela falta de explicação, de-
ram causa a este anachronis-
mo. Santarem foi então toma-
da no dia da Apparição de S.
Miguel, que é a 8 de maio, co-
mo todos sabem.
Ha TODA A CERTEZA de que
este feito militar, occorreu a
8 de maio.
1.º—Porque, por muitos se-
culos, no dia oito de maro, hia
o senado da camara, com uma
procissão, à ermida de S. Mi-
guel (fundada na Alcágova,
por D. Affonso I) dar graças
pela milagrosa tomada de San-
rem.
2.º—Porque no frontispicio
da mesma ermida, se collucou
uma estatua de D. Affonso
Henriques, toscamente cinzel-
lada,e feita no reinado do mes-
mo soberano, em cujo pedes-
tal se gravou a seguinte ins-
cripção:
SAN
até à noite, marchando então
para os olivaes de Santarem.
Pelas 2 horas da manhã de
sabbado, 8.º, atacou e tomou
Santarem,
4.º — Todos sabem que D.
Affonso I, vendo que os mou-
ros estavam aterrados com à
perda inesperada da formida-
vel praça de Santarem, tida
por inconquistavel, não os dei-
xou tornar a si do susto, é
marchou sobre Lisboa, que to-
mou a 25 de outubro do mes-
mo anno, depois de um asse-
dio de cinco mezes, que é exa-
ctamente o tempo que vae de
maio a outubro.
Vide Memorias historicas da
insigne collegiada de Santa
Muria d'Alcáçova, de Santa-
rem, por Luiz Duarte Villela
da Silva—Lisboa, 1817.
Frei Joaquim de Santa Ro-
sa de Viterbo (Elucidario), to-
mo 2.º, pag. 235, col. 2.º da
2.2 edição) diz—como se fosse
cousa incontestada, que D. Af-
fonso I tomou Santarem, a 15
de março de 1147.
Julgo que a razão porque
EL-REI DOM AFFONSO HENRIQUES
QUE ESTA TERRA TOMCU AOS MOUROS
EM DIA DE S. MIGUEL
OITO DE MAIO DE 1147
fixa esta data com tanta cer-
teza, é fundar-se em uma doa-
ção (em latim) que o rei fez
3.º—Porque se sabe que D.
Affonso I partiu de Coimbra
em uma 2.º feira, 3 de maio
(de 1147) e foi dormir à po-
voação de Alfufar..
Na 3.º feira, &—dormiu em
Dornellas.
Na 4.º feira, ô—em Aldeia
das Pêgas.
Na 5.º feira, 6—na serra de
aos templarios de omni Eccle-
siastico Sanctae Herenae, elc.
— Facta Karta mense Aprilis.
E. M. C. L. XXX. V.—que vem a
ser o anno de J. C. 1147. Mas,
todos sabem que em abril d'es-
te anno estava 0 rei em Coim-
bra, e alli se conservou até 3 de
maio, como claramente vemos
em Duarte Nunes de Leão
(Chron. do rei D. Affonso Hen-
riques, fl. 39.)
Albardos. (Vide esta palavra (É este acreditado escriptor que
e Alcobaça.) menciona o itinerario de D. Affonso
Na 6.º feira, 7 —foi ter à I, desde Coimbra até Santarem e que
maita de Pernes, onde esteve affirma ter esta praça cahido em po-
SAN
der do rei portuguez, a 8 de maio
de 1447.)
A karta de que acima fallei,
póle ser apocripha; póde es-
tar alterada na data, por érro
de cópia; e póde facilmente
ser que o Sanctae Herenae se
refira ao castello de Céras, jun-
to ao Nabão e à cidade de Na-
bancia, patria e logar do mar-
tyrio de Santa Irene.
Na minha humilde opinião,
semelhante carta, pelas razões
apontadas, nada prova contra a
geral opinião de que Santa-
rem foi conquistada a 8 de
maio, e não em outro qual-
quer dia.
Os que desejarem mais am-
plas informações com respeito
a este ponto, vejam a Historia
de Santarem edificada, do pa-
dre Ignacio da Piedade Vas
concellos, tomo 2.º, pag. 30 e
seguintes.
Foi para commemorar esta victoria, que
o rei fundou a ermida de S. Miguel, archan-
jo, da qual adiante fallarei.
Deve ficar em memoria, tudo o que pre-
cedeu a este feito d'armas, um dos mais au-
dazes e gloriosos d'aquelle tempo. Eis pois,
em poucas palavras, a historia da tomada
de Santarem, por D. Affonso I.
Resgatada definitivamente Leiria do poder
agareno, em 1145, 1 ainda os mouros, pos-
suiam na Extremadura portugueza, as duas
fortissimas praças de Santarem e Lisboa,
alem d'outras menos importantes.
Os mouros de Santarem, faziam repetidas
entradas nas terras dos christãos, rouban:
do-as, e fazendo captivos. ai
O animo guerreiro e impetuoso do rei,
1 D. Affonso T tinha tomado Leiria, aos
mouros. em 1135; porém, Ismario, aprovei-
tando se da «usencia do rei portuguez, que
andava em gúerra com o de L: ão, invade a
Extremadura portugueza, e retoma Leiria,
em 4140.
VOLUME VIII
"SAN 469
exasperava-se com estas desgraças, e, ape-
sar das poucas forças de que podia dispôr,
para empreza tão arrojada, r-une, em Coim-
bra, os do seu conselho, e propõe-lhes a ten-
tiva de arrancar Santarem do poder dos ara-
bes. Os conselh-iros, e os mais intrepidos
militares, aterrados com a grandeza do com-
metimento, lhe observaram que—eram pou-
cos para combater tão grande numero de
inimigos, não só abrigados por formidaveis
obras de defeza, como protegidos pelo po-
deroso rei de Sevilha (do qual era a praça
de Santarem) e dos outros chefes mouros da
parte oceidental da Extremadura, do Algar-
ve, é da He-panha.
Eram verdades tão geralmente conhecidas,
que D. Affonso fingiu-se vencido, e pareceu
dar de mão á empreza,e deixou passar alguns
dias sem fallar mais em similhante assum-
pto.
Entra os seus guerreiros, havia um que o
rei muito estimava, não só por ser neto do
grande D. Egas Moniz, como pelo seu valor,
astucia, sciencia militar, e por ser homem de
grande segredo —era D. Mem Moniz de Gon-
dar.
Combinou com elle secretamente, que
fo-se a Sintarem, assentar pazes com o seu
alcaide, Auzecri, e que, com este pretexto,
examinasse com a possivel minuciosidade,
os sitios mais fortes e mais fracos da villa.
Cumpriu Mem Moniz a commissão de que
fôra encarregado, e regressando a Coimbra,
deu conta ao rei de tudo o que fez e exa-
minou, accrescentando que se offerecia para
ser ells 0 primeiro que arvorasse a bandei-
ra real, sobre os muros da praça, e despe-
daçar as “uas portas, para dar entrada aos
portuguezes.
Exaltado D. Affonso com o discurso de
-Mem Moniz, reuniu os sens mais bravos guer-
reiros, e todos os templarios que estavam
em Coimbra, e com elles marchou na direc-
ção da Extremadura, sem que pessoa algu-
ma (alem de Mem Moniz) soubesse dos seus
projectos.
Sahiu, como vimos, no dia 3 de maio, se-
guindo sempre por caminhos travessos, O
itinerario já descripto.
No dia seguinte, se lhe reuniu em Dor-
30
AT) SAN
nellas, seu irmão bastardo, D. Pedro Affon-
so (que o rei tinha mandado chamar ao Mi-
nho) com alguma gente.
Só aqui é que D. Affonso deu parte do seu
projecto ao dito seu irmão e aos fidalgos da
sua côrte, que não tiveram remedio senão
aproval-o.
De Dornellas mandou Martim Mohab, com
dois companheiros, a Santarem, dar parte ao
alcaide, que estavam levantadas as pazes, e
declarando-lhe guerra passados trez dias,
como então era do estylo.
No dia 6, pelas 40 horas da noite, sahiu
da serra d'Albardos, ! e, por caminhos não
trilhados, andou toda a noite, até chegar na
madrugada a uma mata, no alto do monte
de Pernes, a uns 48 kilometros de Santa-
rem.
Foi n'este logar que o rei declarou o fim
da sua empreza, a toda a sua gente, fazen-
do-lhe ao mesmo tempo uma extensa prati-
ca, para os animar. 2
* Todos se prestaram animosos a satisfazer
os desejos do r+i, mas pediram-lhe com
grandes instancias, que se não aventurasse a
um perigo tão grande, no qual, não só ar-
riscava a sua vida, como a independencia
da patria. Que lhes desse por chefe, a seu
irmão D. Pedro Affonso, que elles juravam
seguir todas as suas instrueções, e, ou toma-
rem Santarem, ou morrerem tudos na em-
preza.
O rei, com sentidas palavras lhes agrade-
ceu tanta dedicação, mas respondeu que, ti-
nha decidido, ou tomar a praça ou morrer
na acção.
Tudo se preparou do melhor modo que foi
possivel, para o emprehendimento, e o rei
mandceu alli mesmo fazer doze escadas, para
assaltar as muralhas, e mandou que se es-
colhessem 120 soldados, dez para cada es-
cada, e que o primeiro que subisse, arvo-
1 Foi d'esta serra que, segundo dizem os
livros dos monges de S. Beroardo, D. Affon-
so Henriques fez voto de fundar um mastei-
ro d'esta «rdem, e dar-lhe tudo quanto d'aqui
se vê até ao mar Vide Albardos e Alcobaça. | bios d'elles. em seus agouros, fizeram d'aquil-
* Esta pratica, que oceupa 21), paginas | lo prognostico de que teria aquella terra
in folium. póde ver-se na Historia de San-
SAN
rasse a bandeira portugueza, para animar
os de fóra, e aterrar os mouros.
Todas as bagagens e quasi todos os crea-
dos, ficaram escondidos na mata de Pernes.
No principio da noite de 7 para 8, sahi-
ram de Pernes, todos acavallo, e chegaram
pela meia noite a uns olivaes, a que então
se dava o nome de Valle de Moirol (ou Al-
morol) depois, Valle da Inveja, e a quehoje
chamam Santa Catharina dos Olivaes (onde
depois fundou o mosteiro de terceiros arra-
bidos—Vide adiante, o 1414.º e ultimo mostei-
ro de frades.)
N'este olival deixaram todos os cavallos
(para que se lhe não ouvisse o tropel) en-
tregues a alguns creados, que para isso le-
varam, e se aproximaram de Santarem (eram
250 homens!) pelo lado do N., parando nas
hortas da Assacaia. ao sopé do monte, onde
depois se construiu o mosteiro de monges
benedictinos.
D'alli ouviram as vozes de a-léria, dadas
pelas sentinellas mouriscas, collocadas sobre
as muralhas.
Foi n'este comenos, que no ar foi vista
uma brilhante estrella (provavelmente um
bólilo) caminhando vagarosamente para o
N.0., deixando um rasto luminoso, e se per-
deu de vista, para 0 lado do mar. 1
D. Affonso I, ou por convicção propria,
ou por astucia, aproveitou esteapparecimento
para dizer aos seus — Avante meus filhos e
companheiros ! Não temam os inimigos: a
victoria é nossa; aquelle signal do Geu nol-o
certifica!
1 Dizem as chronicas do tempo, que na 4.º
feira, 5 (trez dias antes da tomada de San-
tarem) e dia em que se quebraram as pazes
pel» meio dia, viram os mouros da villa, uma
espantoso comêta, semelhando uma horren-
dissima serpente, formada á feição de um
touro, lançando, desde a cabeça até ao fim
da cauda, lavaredas de ardente fogo, tão me-
donhas e tristes, que causou grande pasmo
aos mouros de Santarem, quebrando-lhes os
animos de atemorisados, porque os mais sa-
novo rei, que a havia de governar com ou-
tarem edificada, tmo 1.º, pag. 38 e seguin- | tras leis, ete.— (Hist. de Santarem, tomo 4.º
pag. 44.)
tes, onde vem por extenso.
SAN
No quarto d'alva, sahiram os portuguezes
d'aquelle sitio, a pé, pelo olival de Montiraz,
descendo ao valle que fica entre a calçada de
Santa Clara e a da Atamarma, snbindo com
o maior silencio, e levando na frente, por
guia, Mem Moniz, que sabia todas as dispo-
sições do sitio, e seguido logo pelo rei.
Porem os mouros, depois da sahida de
Mem Moniz (no dia 5) tinham construido
uma especie de palanque, e n'elle collocado
duas sentinellas avançadas, que então con-
versavam uma com a outra, para se desper-
tarem. Pouco depois, passou a ronda pelo
alto das muralhas, recommendando vigilan-
cia.
Os portuguezes se tinham deitado, para
não serem percebidos, entre uma ceára de
pão que alli havia, até que, não ouvindo mais
vozes, supposeram os mouros descuidados
ou adormecidos.
D. Affonso tinha divídido os seus em duas
secções, a 1.º: commandada por elle em pes-
soa, e a 2.º por seu irmão D. Pedro Affon-
so. (Vide 4.º vol., pag. 363, col. 1.2)
D. Mem Moniz, marchou então com alguns
soldados, e se dirigiu à porta de Al-Cudia, 1
e trepando ao telhado da casa de um oleiro,
que estava encostada ao muro, alli collocou
uma das 12 escadas; mas esta, ficando mal
segura, Cauiu sobre o telhado com grande
estrondo, que, felizmente, não foi ouvido pe-
los mouros.
Um dos soldados, mancebo robustissimo,
por appellido Mogeime, segurou então a es-
cada sobre os hombros, e por ella subiu D.
Mem Moniz, e a segurou, atando-a a uma
das ameias da muralha, collocando em ou
tra a bandeira portugueza.
Estando já sobre a muralha Mem Moniz e
mais dois soldados, acordaram as duas sen-
tinellas que alli havia, e uma perguntou —
quem vem lá? — Mem Moniz lhe respondeu
em árabe—é a ronda, falla baixo — e che-
gando ao mouro, lhe cortou a cabeça; po-
1 O padre Ignacio da Piedade e Vascon-
cellos, diz que esta porta era entre a da Ata-
marma e a subida das Figueiras, junto onde
no seu tempo (1740) havia à casa de João
Palha Botelho, na Mouraria.
SAN 474
rem o outro principiou a gritar—Nasranil
Nasrani! !-A ronda mourisca accudiu ao
sitio a toda à pressa, e travou-se dura pe-
leja.
D. Mem Moniz gritou então—São Thiago?
Aos mouros! Morram os infieis! Rupazes, co-
ragem, que el-rei ahi vem em nosso auxilio?
D. Affonso gritava de baixo — Coragem,
meus filhos! Matem esses pêrros, inimigos da
Fé! Cortae sem piedade, que aqui está o vos=
so rei e companheiro! Virgem Muria soccor-
rei os que combatem por vós.
A confusão foi indescriptivel! Os gritos dos
mouros, os lamentos dos feridos, e as vozes
dos ehristãos, tornavam a scena horrorosa.
Jã trez escadas estavam encostadas ao mu-
ro e por ellas subiam mais portuguezes, que
feriam os mouros, sem descanço.
O rei mandou seu irmão, D. Pedro Affon-
so, com alguns portuguezes, para o lado do
O., atacar a porta de Leiria; e a Gonçalo
Gonçalves, com outros, para a esquerda, ata-
car a porta de Atamarma; e como julgasse
este ponto de maior perigo, para alli foi tam-
bem, com os poucos que tinha a seu lado.
D. Mem Moniz; vendo que os seus se hiam
sustentando, apezar da enorme despropor-
ção do numero, marchou com cinco compa-
nheiros, para a porta de Atamarma, na in-
tenção de, arrombando-a, dar entrada ao
rei. Chegando ao logar do seu destino, com
um machado arrombou a porta, por onde
logo D. Affonso entrou. 2
A primeira cousa que o rei fez, apenas se
1 Naz”renos! Nazarenos! — Nome com que
os árabes designavam os christãos, por se-
guirem a religião de Jesus Nazareno. Elles
pronunciavam—nacerani.
2 Foi por esta acção, que o rei mandou que
Mem Muniz e todos os seus descendentes,
usassem do appellido de Machado. (Vide o
3.º Gondar, e no 6.º volume, pag. 36, cul. 4.2,
o appllido Machado.)
D. Mem Moniz (ou D. Mendo Moniz) como
já disse, era um dos prineipaes fidalgos d'a-
quelle tempo, neto do famoso D. Egas Mo-
niz, e rico-homem do Minho.
Alguns eseriptores lhe: chamam D. Mem
Moniz de Gondares, e outros de Gondarei,
quando é certo que elle era senhor de Gon-
dar, freguezia do Minho, na comarca e con
celho de Guimarães.
h72 SAN
viu dentro das portas, foi ajoelhar, e dar
graças ao Altissimo; depois, desembainhan-
do o montante, disse para os que o acompa-
nhavam—Eia, portuguez:s! Não fique um só
mouro com vida! Tendes à frente o vosso rei,
companheiro, e testemunha de vossa coragem.
Aos mouros!
O rei se dirigiu à praça da villa, onde se
ouviam grandes gritos, e alli encontrou seu
irmão, D. Pedro Affonso, e Gonçalo Gonçal-
vas. de Coimbra, que, tendo entrado pela por-
ta de Leiria, faziam nos mouros horrivel
carnificina, que o rei e os que com elle vi-
nham ainda augmentaram.
D. Affonso, que tinha então 37 annos e
pouco mais de 2 mezes (naseêra a 25 de ju-
lho de 1109) distinguiu-se de todos, pela in-
trepidez, e pelos terriveis golpes do seu pe-
sado montante.
Os mouros principaes, vendo a praça per-
dida, fugiram para a torredo Alfange (Alhan-
se) a mais forte da praça, na esperança de
escaparem alli ao furor dos portuguezes, e
esperarem soccorro do rei de Sevilha; mas
D. Affonso I; D. Pedro Affonso; Gonçalo Gon-
calves; D. Pedro Paes, seu alferes-mór; D,
Gonçalo de Sousa, e ouros, entraram na for-
taleza, de envolta com os mouros, e os acu-
tilavam sem dó.
Eram porem os inimigos em tão grande
quantidade, e defendiam-se com tanta deses-
peração, que o rei estáva em grande perigo.
Foi então que Lourenço Viegas, com um
bom troço de soldados, ac-udiu a este pon-
to, e os mouros foram todos passados ao fio
da espada.
Ao mesmo tempo, D. Mem Moniz, com 60
soldados, percorria todas as ruas da villa,
degolando quantos mouros encontrava, qual-
quer que fusse o seu sexo ou edade.
Muitos, cegos de terror, se despedaçavam,
cahindo da Alhafa. 1
2 Alhafa, é corrupção do substantivo ára-
be al-chafa, que significa temor, ou cousa
que causa médo. Deriva se do verbo chafa
—ter mêdo, receiar, temer, ete.— Traduzido
em portuguez, quer dizer — despenhadeiro,
precipício, etc.— segundo algpns escriptores,
os arabes davam a tuda a povoação o nome
de Al chafa.
À principal avenida ds Santarem, e que
SAN
Auzecri (ou Aben-Zecri) o alcaide de San-
tarem, e alguns, poucos, poderam escapar à
carnagem, fugindo para Sevilha, a unhas
de cavallo, levando ao seu rei Al-Bujaque,
a infausta noticia da perda de Santarem.
De memorias antigas, consta
que o alcaide e os seus, fugi-
ram pela porta de Santo Es-
tevão, que, porisso, se ficou
desde então chamando Posti-
go da Carreira.
Assim cahiu Santarem para sempre, em
poder dos portuguezes.
* D. Affonso I deu aos templarios, em pre-
mio da sua bravura, na tomada d'esta praça,
todo o ecclesiastico de Santarem.
Na frente da egreja de Santa Maria d'Al-
cáçova, se gravou a seguinte inscripção :
ANNO AB INCARNATIONE MCLIV AB URBE ISTE CAPTA VII.
REGNANTE D. ALFONSO REGE COMITIS HEURICI FILIO, ET
UXURE EJUS REGINA MACHALDA: ! HAEG ECCLESIA FUNDATA EST
IN HONOREM S. MARIA VIRGINIS, MATRIS CHRISTI, A MILI-
TIBUS TEMPIE EIECROSOLOMITANI, JUSSO MAGISTRI UGONIS:
PETHO ARNALDO AEBDIFICI CURAN GERENTE.
ANIMAE EORUM REQUIESCANT IN PAGE. AMEN.
115t—Sendo mestre da ordem do Tem-
plo, D. Hugo, francez, se concluiram, n'este
anno, as obras da egreja e casa de Santa Ma-
ria da Alcáçova.
D. Hugo, deu a superintendencia d'estas
obras, a D. Frei Pedro Arnaldo, cavalleiro
templario, natural ds Santarem, commen-
dador da mesma villa.
D. Pedro principiou logo a receber n'esta
casa, muitos confrades, familiares e tercei-
da margem do Tejo subia, pela Alhafa, até
à Alcáçova, chamavam os mouros—Alhanse
(Al-anse) a Cobra—pelos muitos zigues-za-
gues, ou tacêtes. que a calçada fazia até che-
gar à porta da Alcaçova.
Era d'esta porta que os mouros precipita-
vam os seus criminosos. que morriam des-
pedaçados na queda —Vide Portas de San-
tarem.
1 D'esta inscripção, e dº outras mais, vê-
se que nos primeiros seculos da nossa mo-
narchia ainda se usava o h aspirado dos
árabes, até mesmo escrevendo em latim ;
pois aqui temos Mahalda. Como não aspi-
ravamos 0 h, e o substituimos por f, lia-se:
Mafalda, como hoje.
SAN
ros, os quaes fizeram largas doações à com-
menda. 1
4457 (julho)—D. Affonso I deu tambem
aos templarios, oito moinhos, na ribeira do
Alviella, declarando-se na carta de doação,
que metade do rendimento dos taes moinhos
seria para a corôa. Consedeu tambem mui-
tas honras, privilegios e isenções às pessoas
dos caralleiros do Espital (templarios) de
todo o reino.
1159. (fevereiro) —D. Affonso Henriques,
deu aos templarios, em troca do ecclesias-
tico de Santarem, o castello de Céra (vide
esta palavra) com todos os seus termos, para
que tudo possuissem e povoassem, elles e
seus successores.
D. Gilberto, primeiro bispo
de Lisboa ? depois de resgata-
da pelos portuguezes (25 de
outubro de 1147) oppoz-se (em
1149) a que os templarios fos-
sem senhores das egrejas que
no tempo dos gôdos tinham
sido do bispado de Lisboa, e
houve uma renhida demanda
que chegou a hir a Roma. O
rei, para pôr termo à conten-
da (e porque o papa tinha de-
cidido a favor da mitra) deu
aos templarios a terra Nullius
de Cera (hoje Thomar) ceden-
do o bispo, por si e seus suc-
cessores, todo e qualquer di-
reito que podesse ter, de pre-
1 Este D. frei Pedro Arnaldo, foi feito mes-
tre da ordem do Templo, em toda a Penin-
sula, a à de abril de 4158.
Foi seu successor no mestrado da ordem,
em Portugal (julho de 14157) o famoso D.
Gualdim Paes.
2 D. Gilberto eraum prelado virtuosissimo,
nascido em Inglaterra. Veio na esquadra dos
cruzados, que tão a proposito arribsu às
praias de Lisboa, quando D Affonso I cer-
cava esta cidade, e que tanto concorreram
para a sua conquista O rei nomeou a D.
Gilberto, bispo de Lisboa, o que foi confir-
mado pelo papa Eugenio II. Foi sagrado
pelo arcebispo de Braga, D. Juão Peculiar.
Os crusados d'estaexpedição, ficaram quasi
todos em Portugal, dando-lhes D. Affonso I
muitas villas e terras na Extremadura e no
Alemtejo.
SAN 473
sente ou de futuro, nas egre-
jas que já estivessem construi-
das, ou se viessem a construir
n'aquelle vasto territorio.
675 annos existiram as cou-
sas n'este estado, e se conser-
vou este isento ou nullius dio-
cese; guardando todos os nos-
sos reis até ao sr. D. Miguel E,
inclusive, o determinado por
D. Affonso I. Todos sabem que,
sendo supprimida a ordem dos
templarios, por D. Diniz (em
cumprimento da bulla do papa
Clemente V) aquelle rei previ-
dente—e matreiro, creou a or-
dem de Christo, em 1319, para
não vêr sahir para Roma as
imnmensas riquezas dos tem»
plarios, como o pontifice pre-
tendia.
A nova ordem de-cavallaria,
herdou tudo quanto era da or-
dem extincta, assim como to-
das as suas honras, isenções e
privilegios, o que foi confir-
mado por bulla do papa João
XXIII!
Os templarios, sendo seu
grão-mestre o famoso D. Gual-
dim Paes, constituiram o seu
convento de Thomar, capital
da ordem, e a mesma cathe-
goria continuou a ter pelos ca-
valleiros de Christo, desde 1319
até 14834, sob a denominação
de Prelasia de Thomar, hoje
annexa ao patriarchado.
Em resultado d'esta concordata, logo D.
Gilberto e os seus conegos, renunciaram à
todos os direitos episcopaes que tinham, ou
podessem vir a ter—assim na egreja de S.
1 Não se arhando nos templarios porta-
guezes, nem um só dos grandes crimes atri-
buidos aos das outras nações, grande parte
d'aquelles foram depois incorporados na or-
dem de Christo, da qual ficaram fazendo
parte; pelo que podrmos dizer que a ordem
do Templo em Portugal, em vez de ser sup-
primida, foi chrismada.
h74 SAN
Thiago, fundada na planicie e rechan, ou as-
sento da villa de Santarem, como em todas
as outras já edificadas, ou que de futuro se
edificassem no termo de Céra, pagando cada
uma d'estas egrejas, annualmente, à mitra
lisbonense, cinco soldos, de reconhecimento
O mesmo lhe ficou pagando a egrja de S
Thiago, de Santarem, que desde logo foi
curada por um sacerdote, freire da ordem
do templo, o qual, primeiramente se chamou
capellão, e depois prior.
O prior de S. Thiago, era como bispo da
sua egrceja, que foi a primeira collegiada in-
signe da ordem, a qual, em 4585, foi ele-
vada a commenda da ordem de Christo.
Os que desejarem saber isto
detalhadamente, vejam a citada
Historia de Santarem, no tomo
1.º, pag, 73 e seguintes, e Elu-
cidario, de Viterbo, tomo 2.º,
pag. 235 e seguintes (da 2.º
edição.)
1170—Vide— 1255 (22 de junho.)
4179 (mzio)—2.º foral de Santarem.
4181 (8 de maio—Al-Baraque (ou Al-Bo-
jaque! rei mouro de Sevilha, sabendo que
D. Affonso Henriques, além de ter quasi 72
annos, estava aleijado de uma perna, não
podendo montar a cavallo, e que, de mais
a mais, estava em Santarem com pouca gente
de guerra, juntou um grande numero de tro-
pas andaluzas, e de mouros africanos, catra-
vessundo o Guadiana, invadiu Portugal, pelo
Alemtejo, na intenção de tomar Santarem, e
alli captivar o rei portuguez.
As terras por onde passaram os mouros,
ficaram devastadas, pois que tudo levaram
a ferro e fogo, saqueando os povos, e assas-
sinando todos os christãos que podiam agar-
xar.
Chegados a Santarem, lhe põem um aper-
1 Nenhum d'estes nomes é árabe. Nos
apontamentos de um frade meu parente, se
dá ao tal rei o nome de Al-Ben-Jacoub Este
sim que é árabs, e quer dizer—O Filho de
Jacob. Os portuguezes, fizeram de Jacob—
Tágo—e depois Thiag). Os francezes, ingle-
zes e allemães, de Jacub fizeram Jaques. As
sim ficava” sendo o nome do mouro Alben-
jaque, (Al-Ben Jaque) que facilmente se cor-
ormpia em Albojaque.
SAN
tado cêrco, estabelecendo os seus arraiaes a
pouca distancia da villa, no referido dia 8
de maio,
D. Affonso Henriques, mandou o deste-
mido capitão Lourenço Viegas (filho d'Egas
Moniz) com 190 de cavallo e 1:800 infantes,
ao encontro do inimigo. Lourenço Viegas
sae da praça, e ataca os mouros em um si-
tio que então se chamava Rocio d Alvisquer,
e depois se chamou Valladinhos.
Antes de sahir da villa, ti-
nha Lourenço Viegas dito a
seu irmão, o famoso Mem Mo-
niz, que, se 0 visse em perigo,
lhe accudisse com a gente de
cavallo que podesse reunir.
Foi tão inesperado e tão terrivel a accom-
mettida dos portuguezes, que os mouros, jul-
gando que o seu rei vinha sobre elles com
todas as suas forças, fugiram desordenada-
mente, deixando muitos mortos e feridos no
campo, e sendo perseguidos pelos portugue-
zes.
Mas Al-Bujaque era um guerreiro cora
joso, e vendo o pequeno numero dos chris-
tãos, fez parar as suas tropas, e arguindo-as
de cobardes, as obrigou a voltar a cara ao
inimigo, e elle mesmo deu o exemplo, met-
tendo-se intrepidamente por entre as filei-
ras dos portuguezes, e obrigando-os a reti-
rar : todavia, segundo as historias do tempo,
os portuguezes, matando grande numero de
mouros, não perderam um unico soldado, e
levaram 22 mouros captivos.
Ao entrar Lourenço Viegas em Santarém,
encontrou-se com seu irmão, que marchava
em seu soccorro, com um esquadrão de gen-
tis e valentes cavalleiros.
Como eram moços e ardidos, tornaram à
sahir; porém os mouros não esperaram com -
bate. Os dois irmãos estiveram no campo
todo o resto do dia, e só de noite entraram:
em Santarem, onde o rei os recebeu de bra-
ços abertos, nomeiando logo Lourenço Vie-
gas, mestre de campo general do exercito.
No dia seguinte (9) appareceu Al Bujaque
com o seu exercito, acampado em ums oli-,
vaes e pomares fronteiros ao Tejo, destruin-.
do todas as arvores, para construir bastidas,
que o livrassem de qualquer surpreza.
SAN
N'essa mesma noite, deram os portugue-
zes sobre os inimigos, matando e captivando
muitos, e tomando-lhes umas poucas de ban-
deiras.
Estas perdas, porem, pouca faltas faziam
aos mouros, em vista do seu grande numero,
e porisso, D. Affonso Henriques temia dar
uma batalha campal, que podia trazer fu-
nestas consequencias.
Estava D. Affonso indeciso e receioso,
quando lhe chegou a noticia de que seu gen-
ro, D. Affonso, rei de Leão (casado com sua
filha, D. Urraca) invadira Portugal, pelo
norte, em direcção ao Porto; e suppondo
que elle faria juneção com os mouros, resol-
veu-se a dar batalha. 1
Disposto tudo para a grande batalha, man-
dou o rei abrir as portas da praça, para da-
rem sahida ás suas tropas.
Lourenço Viegas, commandava a vanguar-
da, e seu irmão, Mem Moniz, o grosso do pe-
queno exercito.
Na rectaguarda, hia o rei, armado com to-
das as armas, em um carro, tirado por dous
fogosos cavallos, e acompanhado pelos seus
melhores cavalleiros, e principal nobreza do
reino.
Se o ataque foi terrivel, a defeza foi obsti-
nada, e, segundo as chronicas, fui esta uma
das maiores e mais sanguinolentas batalhas
da Peninsula no XII seculo.
Al-Bujaque, que, apezar da superioridade
numerica das suas tropas, via a batalha du-
vidosa, accudiu com os mais bravos caval-
leiros da sua guarda.
1 Tódos sabem que, quando D. Affonso 1
acabou de tomur Badajoz aos mouros (11475)
foi accommetrido pelo rei de Leio, e vindo-o
esperar fôra das portas da praça, entalou
uma perna no ferrolho de uma porta della,
quebrando-a (a perna) prlo que ficou pri
sioneiro do genro. Para escapar das garras
dos leonezes, prometteu ao seu rei, hir às
côrtes do seu reino, e reconhecer-se seu vas-
sallo, logo que, são da perna fracturada, po-
desse montar a cavullo. Para ter um pre-
texto de faltar—sem deshonra—á sua pala-
vra, nunca mais em sua vida montou a ca-
vallo. D'aqui se originou uma guerra, que
so terminou, entregando D. Affonso Henri-
ques, ao genro, as praças conquistadas na
Hespanha aos mouros e leonezes.
SAN h7o
D. Affonso Henriques, vendo os seus em
perigo, saltou fóra do carro, e se dirigiu
para o logar onde o ataque era mais encar-
niçado.
Estava ahi a bandeira real, e o alferes-
mór tinha sido morto pelos mouros.
O rei os ataca furioso: os fidalgos da sua
guarda, vendo-o a pé, saltaram fóra dos ca-
vallos, e a seu lado despedaçaram quantos
inimigos os cercavam.
Finalmente, os mouros fogem em todas as,
direcções, espavoridos; Al-Bujaque pôde sal-
var-se a unhas de cuvallo, deixando no cam»
po muitas eentenas de mortos, feridos e ca-
ptivos; todas as suas bagagens, que eram
muitas e valiosas, e tudo quanto os seus ti-.
nham roubado no Alemtejo.
Tambem este dia era o 34.º anniversario
da tomada de Santarem.
O rei de Leão não tinha vindo a Portugal
na intenção de fazer a guerra ao sogro, mas
para o soecorrer contra os mouros! e, sa-
bendo que estes tinham sido de-baratados,
mandou seus embaixadores dar os parabens.
ao sogro, por tão assignalada victoria.
D. Affunso I presenteou generosamente 08:
embaixadores do genro, e agradecendo a
este as suas boas intenções, lhe mandou à
tenda da campanha, do rei mouro, que era
riquissima, e alguns dos mais formosos ca-
vallos que tinha tomado aos mouros.
1185 (24 de junho a 2 de julho) — Al-Bu-
jaque não podia resignar-se à perda da for-
tissima praça de Santarem, e desejava ar-
dentemente uma desforra da derrota que ti-
nha soffrido, a 8 de maio de 1181, em fren-
te dos seus muros. Mandou pedir auxilio a
Joseph- Aben-Jacob, o miramulim? de Mar-
Tocos.
1 Este ponto da nossa historia não está
sufficientemente resolvido. Alguas escripto-
res dizem que a tenção do lconez era apos-
sar-se de Portugal, em quanto D. Affonso
Henriques se via a braços com tão grande
poder de mouros; e que mudou de opinião,
vendo os portuguezes livres dos inimigos,
por uma victoria tão gloriosa. Isto é o mais
provavel.
? Miramulim, é corrupção de Emir -el Mu-
ATO SAN
Este, atravessa o Atlantico, com um nu-
meroso exercito e reunindo se aos andalu-
zes d'Al-Bojaque e a mais 12 reis, ou emi-
res, tornaram a invadir Portugal pelo sul,
passando o Tejo a 24 de julho (Chronica de
D. Affonso Henriques, por Duarte Nunes de
Leão, pag. 53) e n'este mesmo dia, tomaram
de assalto, saguearam e arrazaram, o cas-
tello de Torres-Novas. (Monarch. Luzitana,
por frei Antonio Brandão, p. 3.º, livro 44,
pag. 262) 1
Parece que os mouros se demoraram por
estes sitios, para reunir as differentes co-
lumnas que vinham chegando da Andaluzia,
até ao dia 4 de iulho, que era uma 2.º fei-
ra, e então levantaram o campo.
O seu itinerario foi—Alcanêna, Bugalhos,
Vaqueiros, Pérnes, Povoa dos Gallegos, Val-
le de Figueira, Alcanhões e Santarem.
No dia 4 (2.º feira) acamparam em um
monte, então chamado Pompeyo e hoje Al-
pompe—na 3.º feira, 5, em um logar chama-
do então Redinha, (que depois se chamou
Barrócas da Redinha, e que o vulgo deno-
mina Barrócas da Rainha) na actual fregue-
zia de S. Domingos de Valle de Figueira,
concelho de Santarem — na 4.º feira, 6, na
menim. E o titnlo que os kalifus árabes jun-
tavam ao seu nome proprio, e ainda hoje
usam este titulo, os imperadores de Marro-
cos. Emir-el-Mumenim, significa chefe dos
crentes.
Os árabes chamam aos seus principes,
commandantes, ou governadores — Mir. Emir
significa — principe por exellencia, e não
qualquer ch-fe suhalerno (como Mir Os-
sem, Mir Mahomed-Zuman, ete.)—O el ante-
posto aos coguormes, indicava singularidade;
mas, supprimiam el, em quasi todos os no-
mes (não assim em Al Maçor, Al-Iskander,)
Vide Vestígios da lingua arabica em Portu-
gal, por frei João de Sousa, nos logares com-
pet-ntes.
1 Não faço estas citações para ostentar de
erudito; mas porque nem todos os escripto-
res são concordes n'estas datas, e eu desejo
que se saiba onde fui buscar as noticias his-
toricas que dou. Ainda ha outra razão —
Tenho extrahido noticias, não só de escri-
ptores contemporaneos, mas de obras pu-
blicadas ha 200 e 300 annos, e que ninguem
até agora contradisse, e passaram em julga-
do. Pois apezar d'isto, tenho sido arguido
por alguns... de inexacto!—Deixal-os.
| SAN
Horta da Lagõa, actual freguezia d'Alca-
nhões, do concelho e a uns 6 kilometros de
Santarem.
Aqui esperaram um dia (7) que se reu-
nisse o resto da gente. Na 6.º feira, 8, acam-
param em frente de Santarem.
Os dias 9 e 40, foram empregados, pelos
mouros, nos preparativos do ataque, e pelos
christãos, em augmentar as obras de de-
feza.
O infante D. Sancho (depois 4.º do nome)
estava na praça com pouca gente de guer-
ra, mas escolhida.
Mandou arrazar algumas casas que esta-
vam fóra dos muros, e que podiam servir ao
assalto que esperava.
Entrincheirou o melhor que pôde as por-
tas que offereciam menos resistencia, e
construiu alguns palanques, d'onde os solda-
dos não só podessem offender o inimigo mas
tambem observar os seus movimentos.
No dia 41 (2.2 feira) teve logar o primei-
ro ataque, furioso da parte dos mouros, e
heroicamente repellido pelos portuguezes.
Nos dias 12, 43, 14 e 15, repetiram-se os
assaltos, e D. Sancho, combatia como um
leão, escolhendo sempre os logares de maior
perigo.
Os mortos e feridos eram muitos de parte
a parte, porém os mouros, que combatiam
a peito descoberto, soffreram perdas muito
maiores.
Apezar, d'isso, no 5.º dia do ataque (15)
os mouros se apoderaram de um dos fortes
palanques, à custa de muitas vidas dos seus
e de não poucas dos nossos, ficando aqui fe-
rido o infante.
Este, vendo tão grande estrago nos seus,
e que a grande mortandade dos inimigos
não lhes diminuia a coragem, nem era sen-
sivel, em vista do seu grande numero, jul-
gou a praça perdida, e estava a ponto dg
mandar retirar para a cidadella de Alcaço-
va, e alli, ou esperarem soccorro, ou ven-
derem caras as vidas.
Mas D. Affonso Henriques, que tinha sido
avisado em Coimbra, do perigo em que es-
tava seu filho, os mais portuguezes e à pra-
ça, reune toda a gente que pode, e, apezar
dos seus 76 annos, vôa em soccorro de San-
|
SAN
tarem, onde chegou na manhan de sabba-
do, 16.
Era tal o terror que o nome do rei por-
tuguez infundia nos agarenos, que abando-
naram inopinadamente o cérco, retirando,
pelos olivaes, para o sitio denominado Mon-
te do Abbade !; porém o rei em um carro, e
seu filho montado em um cavallo de bata-
lha, levando em sua companhia os principaes
senhores portuguezes, com um bom numero
de infantes, alli foram perseguir os mouros,
fazendo n'elles uma horrivel carnificina.
D. Sancho feriu mortalmente o Miramu-
lim, que morreu ao passar o Tejo; alguns
dos reis e muitos dos principaes chefes afri-
«anos e andaluzes, alli pereceram, e a maior
parte dos seus soldados, além de grande nu-
mero de captivos.
Os mouros perderam todas as suas baga-
gens e trem de guerra, achando-se no seu
acampamento grandes riquezas, tanto em
ouro e prata, como em outras preciosidades.
Ficaram em nosso poder, quasi todos os.
cavallos e camêllos, e uma enorme. quanti-
dade de armas e bandeiras.
Parece que o ferimento do infante não
foi de muita gravidads, porque elle, com par-
te do exercito, perseguiu os mouros até ao
centro da Andaluzia, matando muitos, capti-
vando outros, e saqueando e incendiando
muitas das povoações, recolheu a Portugal
com muitos e ricos despojos.
Foi este o ultimo ataque que os mourus
tentaram para recuperar a praça de Santa-
rem.
Nem todos os chronistas estão concordes
nas datas d'esta guerra.
Faria e Souza, no seu Epitome de las his-
torias portuguezas, pag. 179, diz .que foi em
1485. —Duarie Nunes de Leão, na Chronica
do rei D. Affonso Henriques, pag. 53, diz que
foi em 1184.
Uns dizem que o desbarate do Monte do
Abbade, foi no domingo, 10 de julho; outros
que foi no sabbado seguinte, 16.
t O Monte do Abbade, fica a 2 kílometros
de Santarem.
SAN 417
Eu adoptei a opinião mais seguida, e mais
verosimil.
D. Affonso Henriques, em memoria d'esta
e d'outras muitas batalhas que ganhou aos
mouros, edificou 150 egrejas.
1207 (1.º de março). —Morre em Santarem,
D. frei Affonso de Portegal, filho bastardo,
de D. Affonso Henriques, e grão-mestre da
ordem de S. João de Jerusalem (Malta.) —
Foi um varão notavel pelo seu valor e pelas
suas extremadas virtudes. Sepultou-se na
egreja de S. João do Alporão.
12141—D. Affonso 1I, funda o mosteiro de
frades de S. Domingos.
121414—(8 d'abril)--3.º foral de Santarem
4217—(12 de novembro) —4º foral de
Santarem, confirmando o antecedente, e am-
pliando-o.
4218— D. Affonso II, funda o real mostei-
ro de frades da SS. Trindade.
Foi o 4.º d'esta ordem, em Portugal. O
povo de Santarem, tambem concorreu com
avultadas esmolas para esta obra.
D. João III reedificou o mosteiro, que fi-
cou o mais sumptuoso da villa, pelos annos
de 1560.
12261!-—Santo Milagre. Na rua das Estei-
ras, freguezia de Santo Estevam, d'esta villa,
vivia uma mulher do povo (binguem lhe diz
o nome, que eu saiba) cujo marido a trata-
va com desprezo e crueldade.
Attribuia a mulher isto a amores adulte-
ros, e tendo uma comadre judia, com fama
de bruxa, lhe contou a sua vida.
A bruxa disse-lhe. —«Se queres recobrar
o amor do teu marido, vae commungar à
1 Não ha certeza do anno, e ignora s3 0
dia em que teve logar o facto de que vou
tratar n'este artigo. Uns dizem que foi em
1226, reinando em Portugal, D. Sancho LE.
—Qutros pretendem que foi em 1247, du-
rante a regencia do conde de Bolonha (de-
pois—em 1248—D. Affonso II). — Outros,
tinalmente, dizem que fui em 1266, quando o
conde de Bolonha era já -rei de Portugal,
por morte de seu irmão.
O padre Ignacio da Piedade e Vasconcel-
los (Historia de Santarem edificada, tomo
1.º, pag. 237), assevera que este milagre teva
logar em 1247, e adduz fundamentus muito
atiendiveis.
478 SAN
egreja de Santo Estevam, e sem que sejas
vista, tira a hostia da bocca, embrulha-a em
uma beatinha (lenço) etraz-m'a; e eu te pro-
metto trazer teu marido a bom caminho.»
A mulher foi à egreja, e fez o que lhe foi
mandado.
Quando regressou de Santo Estevam para
casa da judia, ao passar por uma travessa,
que depois se tapou, onde se vê (ou via) na.
parede que faz frente à rua do Milagre, uma
cruz de azulejo, muito antiga, e junto da qual
esteve uma pintura (que já em 4740 mal se
percebia) representando o sacrilegio, viu o
povo, que da beatilha corria sangue, e per-
guntaram à mulher, se hia ferida. Ella não
respondeu, mas, arrependendo-se do que
praticara, mudou de rumo, e fugiu para sua
casa, guardando a sagrada particula em uma
arca, que havia no quarto onde dormiam, ella
e o marido. Acordou este (que de nada sa-
bia) e viu a casa cheia de uma luz brilhan-
te, e sentiu um cheiro suavessimo. Observou
que aquelles resplendores sahiam da arca, e
perguntou à mulher, o que tinha alli guar-
dado.1
A mulher, contou-lhe tudo.
Assim que amanheceu, foi o homem à
egreja de Santo Estevam, dar parte ao pa-
rocho, do que tinha acontecido.
Logo os padres e muita gente da fregue-
zia, foram a casa da mulher, e levaram para
a egreja de Santo Estevam, envolta na mes-
ma beatilha, a hostia sagrada, em solemne
procissão.
A particula foi mettida em uma custodia,
porem, passados alguns annos se achou den-
tro de uma ambula de crystal, fabricada
pelos anjos.
Mas não tardaram as dúvidas e demandas,
para se saber em qual das egrejas da villa
se havia de guardar o Santo Milagre.
A esse tempo, só havia em Santarem dous
1 Bem sei que muitos me vão accusar de
milogreiro, retrogrado, etc. por espalhar
por esta obra tantos milagres. Se lerem com
refl-xão, hão de ver que eu não afirmo na-
da dºisto. Pódem acreditar nos taes milagres,
ou escarnecêl-os; mas sempre queria que
me dissessem o que de mim diriam e o que
me fariam os santar+nos, se eu n'este artigo
não fallasse no seu Santo Milagre.
SAN
mosteiros de frades—dominicos, e menores,
e ambos elles pretendiam ter direito a pos-
suir a reliquia.
O parocho da egreja de Marvilla, allegava
que a sua egreja, além de ser a matriz das
outras, era a mais vasta e sumptuosa, e que
era lá que devia estar.
Nem deixaram de allegar o mesmo direi-
to o prior e conegos da collegiada de Alcá-
cova, visto a sua egreja ter o privilegio de
capella real.
O parocho e povo da freguezia de Santo
Estevam, alegavam que a hostia era sua,
pois tinha sahido da sua egreja. E vence-
ram; mas, para que os frades de S. Domin-
gos não ficassem completamente desconso-
lados, se lhe deu a beatilha, que elles guar-
daram em um caixilho de crystal.
A uns 20 metros ao N. da porta da egre-
ja de Santo Estevam, tinha uma boa mora-
da de casas, Francisco Homem de Magalhães,
e n'ellas uma ermida particular antiga, de-
dicada a Nossa Senhora do Monserrate. No
alpendre d'esta ermida, mandou seu pro-
prietario collocar um quadro, com o retra-
to da mulher sacrilega e da judia, com a se-
guinte inscripção:
« NO LOGAR EM QUE ESTÁ ESTA ERMIDA,
SE VIU O SANGUE NA BEATILHA
EM QUE A MULHER TRAZIA
A PARTICULA QUE HOJE HE
VENERADA PELO |
SANTISSIMO MILAGRE.
REFORMOU ESTA ERMIDA
THOMAZ HOMEM DE MAGALHÃES
Do lado exterior da parede, sobranceira
à rua publica, foi collocada a cruz de aza-
lego de que já fallei.
A casa da rua das Esteiras, onde viveu &
| mulher do sacrilegio, se foi arruinando com
| o tempo, e passados mais de 400 annos, es-
' tava convertida em um miseravel pardieiro
| deshabitado. Então (1654) o medico, Ma-
| nuel dos Reis Tavares e sua mulher, man-
daram alli construir, á sua custa, uma bo-
nita capella, toda de abobada de tijolo, ten-
do no retabulo do altar-mór uma boa pia-
tura, representando o milagre.
SAN
O fundador da ermida e sua mulher, Mar-
garida Cesar de Almeida, instituiram aqui
uma capella de missas, em 1684, ditas em
tolas as segundas, quintas e sextas feiras
do anno.
Em 1740, era administrador d'esta capel-
la, Manuel da Fonseca, morador no logar
da Corêiçada, termo de Santarem.
N'esta ermida, junto ao altar, do lado da
Epistola, se fez um arco na parede, e no seu
vão se construiu um tumulo de marmore,
sobre dous leões do mesmo, tendo na frente
da arca, esta inscripção:
D'ESTA CASA ONDE DEUS FEZ
O SANTISSIMO MILAGRE,
ANNO 1260, FIZERAM
EGREJA, O LICENCEADO
MANUEL DOS REIS TAVARES
E MARGARIDA CESAR DE ALMEIDA
E A DOTARAM, E JAZEM DEBAIXO
DO ALTAR DELLA
(Segundo esta inscripção, o milagre, co-
mo vemos, succedeu em 1266, o que toda-
via não é ponto decidido.)
O que ninguem diz—que eu saiba—é se as
duas mulheres que com o sacrilegio deram
causa à existencia do Santo Milagre, foram
castigadas, e a qualidade do castigo que
sofireram,
Se já houvesse Inquisição, bem horrivel
seria 0 seu fim.
O Santo Milagre, deu ainda causa à en-
graçadissima historia do homem das botas,
acontecida em Lisboa, a 2 de dezembro de
18114. (Vide 4.º vol., pag. 362, col. 2.3)
4292-(29 de janeiro) —N'este dia, morre,
no convento de S. Domingos, de Santarem,
o famoso bispo de Li-boa, D. Soeiro Gomes,
varão tão respeitavel por suas lettras e vir-
tudes, como celebre pela sua bravura nos
combates,
Foi elle que resgatou do poder dos mou-
ros, a notavel e antiquissima villa d'Alcacer
de Sal.
Resignando o seu bispado, tomou o habi-
to dominicano, no mosteiro d'esta villa, em
cuja egreja foi sepultado.
SAN 479
1236 — (11 de maio) —Morre em Santarem
o virtuoso Mendo Affonso, cavalleiro templa-
rio, e foi sepultado na egreja de Santa Ma-
ria d'Alcáçova. Era um varão caridosissimo,
pelo que no epitaphio da sua sepultura se
lia—Mendo Affonso, cavaileiro do Templo,
pae dos orfãos, amparo das viuvas, spccorro
dos peregrinos, e singular defensor da fé.
1240 —Fundação do mosteiro das donas
(dominicanas) à custa de Elvira Duranda.
Foi depois mudado para o sitio actual por
D. Estevainha Peres de Gasével.
(Vide Mosteiros de Santarem para tudo que
diz respeito a este e todos os mais conven-
tos, de ambos os sexos, d'esta cidade.)
1244 —Sagração da egreja de Santo Este-
vam (ou Santo Milagre.)
1242 — D. Sancho II, fanda o mosteiro de
frades franciscanos.
D. Fernando I, o reconstruiu e augmen-
tou.
1244 — (novembro) D. Ayres (ou Arias)
Vaz (ou Vasques) funda a collegiada de Mar-
villa. (Vide 4.º vol., pag. 269, col. 4.2)
1254—D. Affonso III, dá 5.º foral a San-
tarem, confirmando o antigo, e augmentan-
do-lhe os privilegios.
1255— (22 de junho) —Falleceu o venera-
vel frei Pedro Fernandes Gallêgo, natural de
Santarem.
Era filho de pessoas nobres, mas ainda
foi mais nobre pelas suas virtudes.
Tomou o habito de frade dominicano, no
mosteiro de Nossa Senhora das Neves, da
serra de Monte-Junto, termo de Alemquer,
que foi o 4.º convento d'esta ordem, que
houve em Portugal, e que depois se mudou
para Santarem. —«Alli deu principio a uma
vida mais de anjo do que de homem : ne-
gou-se a todo o mundo e a si proprio, para
se dar inteiramente a Deus.» — Contra sua
vontade, mas por obediencia, foi estudar as
sagradas lettras, e leu depois theologia em
varios conventos da sua ordem.
Escreveu com grande erudição a Vida
do patriarcha S. Domingos, e foi muito esti-
mado pelo seu patricio São frei Gil, seu pre-
lado.
Mandado para o convento de Samora, que
se tinha fundado havia pouco tempo, alli
480 SAN
falleceu no dia referido, com fama de santo,
e com 85 annos de edade, pois tinha nasci-
do em 4170.
1259—0 mesmo D. Affonso III, funda o
mosteiro de Santa Clara (freiras francisca-
nas.) Outros dizem que foi em 1272.
1262— (12 de janeiro) —Morre o beato frei
Pedro, natural de Santarem.
- Era filho de pessoas nobres, que o educa-
ram no santo temor de Deus, e desde crean-
ga foi um compendio de virtudes, brilhando
sobre todas, a mansidão e a caridade. Estu-
dou latim, logica e philosophia, e por fim
medicina, em cuja sciencia se graduou, tor-
nando-se um dos melhores medicos do seu
tempo.
Desenganado das vaidades do mundo, se
metteu frade no mosteiro de S. Domingos,
da sua patria, não deixando de curar, pelo
amor de Deus, os enfermos pobres e desva-
lidos. Foi contemporaneo de São frei Gil, que
muito o estimava pela sua humildade, scien-
cia e virtude.
Depois de uma prolongada e dolorosa
doença, soffrida com a mais exemplar resi-
gnação, falleceu na enfermaria do seu mos-
teiro, no dia indicado.
1263 —Primeiras côrtes, em Santarem (as
h.ºs de Portugal.)
No mesmo anno teve logar a fundação da
casa do noviciado, do mosteiro dos frades de
S. Francisco.
No mesmo anno de 1263, morreu o beato
frei Domingos do Guvo, natural de Santarem.
Foi um varão de muito saber e virtudes,
e eloquente orador sagrado. Professando no
convento dominicano de Monte-Junto, termo
do Alemquer, foi o fundador do da sua or-
dem, (frades) em Santarem, e n'este mostei-
ro falleceu e foi sepultado, com geral fama
de santo, depois de uma longa vida passada
no exercicio de todas as virtudes christans.
1265 —(14 da maio) —Morre no seu con-
vento de S. Domingos, de Santarem, São frei
Gil, um dos mais virtuosos frades da sua or-
dem.
Nasceu na quinta da Cavalaria, proximo
(ao O.) da villa de Vousella, capital do con-
celho e comarca do mesmo nome (então co-
marca de Lafões) no anno de 1185. Era fi-
SAN
lho de D. Ruy Paes de Valladares, um dos
principaes fidalgos do seu tempo, do conse-
lho de D. Sancho I e seu mordomo-mór, e
alcaide-mór do castello e cidade de Coimbra
—e de sua mulher, D. Thereza Gil d'Almeida,
filha de Fernão Martins d'Almeida, senhor da
quinta da Cavallaria, e descendente tambem
de uma familia muito nobre e antiga.
D'esta D. Thereza Gil, pro-
cede tambem o famosissimo
Duarte d'Almeida, o Decepado
(6.º vol., pag. 398, col. 2.2)
É 42. neta de Duarte d'Al-
meida, a senhora D. Eugenia
d'Aguilar e Almeida Monroy e
Mello Azambuja e Merezes»
actual marqueza de Peralva.
(6.º vol., pag. 587, col. 22)
Gil Rodrigues de Valladares, foi desde os
seus tenros annos muito inclinado ás ettras,
pelo que seus paes o mandaram para ccon-
vento de Santa Cruz, de Coimbra, estudar
grammatica latina e philosophia, estudando
tambem, por curiosidade, medicina.
A côrte estava então em Coimbra, e foi
tal a fama da vasta intelligencia do estudan-
te, que chegou aos ouvidos de D. Sancho I,
o qual, como estimava muito a D. Ruy Paes;
deu ao filho deste, trez canonicatos, em Bra-
ga, Coimbra e Guarda; o priorado de Santa
Iria, na Ribeira de Santarem; e o de Coru-
che, do Alemtejo. Depois o fez arcediago da
3.2 cadeira da Sé de Lisboa, e thesoureiro
da de Coimbra.
Vendo-se Gil, na flor da edade, com tão
grandes rendimentos, e em plena liberdade,
se entregou a toda a qualidade de vicios e
paixões; não abandonando todavia comple-
tamente o seu amor aos estudos, sendo ao da
medicina a que principalmente se dedicou.
Vendo que em Portugal não havia quem es-
tivesse habilitado para lhe ensinar tudo
quanto desejava saber n'esta sciencia, re-
solveu hir estudar à universidade de Paris, a
mais afamada d'esse tempo.
Nos primeiros dias da sua jornada de Por-
tugal para França, teve um companheiro, a
quem muito se afeiçoou. ! Este, com boas
1 Os seusantigos biographos pretendem que
SAN
palavras e fortes argumentos o desviou da
sua tenção, dizendo-lhe, entre outras cousas,
que a vida do medico é uma das mais tris-
tes e espinhosas, lidando continuamente com
agonias, dôres, lagrimas, chagas e mortes.
Que era mais gloriosa, facil e agradavel a
vida do nigromante.
Gil, tomou o perfido conselho do seu com-
panheiro, e, em vez de seguir a estrada de
Paris, marcharam para Toledo, onde era a
academia dus magicos. -
(Transcrevo um trecho da Historia de
Santarem (tomo 2.º, pag. 81.)
«Junto áquella cidade de Tolêdo, em um
tenebroso valle sombrio, se divisavam duas
profundas e cavernosas covas, dentro das
quaes estavam as luciferinas aulas d'áquella
infernal academia, onde o principe das tre-
vas, ditando a postilla, lia a seus discipulos
a arte de nigromancia.»
«Admittido Gil com muita brevidade,
âquelle infernal consorcio, sairam logo d'alli,
com grandes festejo e alaridos, os miseraveis
discipulos que lá estavam, mandados pelo
seu mestre, a receber o novo discipulo, le-
vando-o com grande alegria e afagos, à pre-
sença de Lucifer, que estava sentado na pes-
tifera cadeira magistral.» 1
Resumamos o que diz o padre Vascon-
cellos.
Tão ardentemente se applicou Gil Rodri-
gues de Valladares, à sciencia de nigroman-
cia, que em sete annos se graduou mestre
d'ella, e hindo para Paris, principiou logo a
dar provas «do maior homem que tinha o
“mundo, na faculdade de medicina, com as
curas pasmosas que fazia.»
Rico, e ganhando muito dinheiro, deu lar-
era 0 diabo em pessoa, com a figura humana
de um bello mancebo; é dizem a verdade.
Um mau companheiro, se pão é o proprio
diabo, ainda é peor do que elle; e torna-se
mais perigoso, se possue uma phisionomia
agradavel e «ympathica.
1 Esto e-crevia com todaa seriedade, e como
se fallassem da cousa mais natural d'este
mundo, o reverendo padre Ignacio da Pie-
dade e Vasconcellos, conego secular de S.
João Evangelista (loyo) drfinidor da sua
congregação, e natural de Santarem, no an-
no de 17401
SAN 181
gas a todos os vicios, ainda os mais torpes,
e assim continuou por alguns annos, até que
um dia (deixamos de parte os avisos sobre-
naturaes que recebeu) arrependido, foi-se ás
postillas e livros de macia, e queimou tudo.
Sahiu de França, no proposito de se met-
ter frade em um dos mosteiros mais rigoro-
sos de Hespanha.
Chegando a Palencia, viu que os frades
dominicanos andavamatarefados com a cons-
trucção de um pequeno mosteiro. Reparou
na grande humildade com que trabalhavam
na edificação, e a caridade que exerciam com
os desvalidos. Pediu ao privr que o admitis-
se na sua ordem, o que facilmente lhe foi
concedido; e, tomando o habito, se cingiu
logo com uma cinta de ferro, que fechou com
um cadeiado, lançando a chave deste ao rio,
para que nunca mais podese abrir o cilicio.
Passado o anno de noviciado, professou em
1221, e foi mandado pelo beato frei Soeiro,
parao convento da sua ordem, de Santarem.
Alli continuou uma vida de oração conti-
nua e de asperas penitencias; e, como o
prior conhecesse em frei Gil uma aptidão
extraordinoria para as sciencias, o mandou
estudar theologia à universidade de Paris,
onde foi recebido cordialmente pelo geral
da sua ordem, São Jordão, (successor de São
Domingos, no generalato) em vista de uma
carta de D. Sancho I, que o recommendava
instantemente.
Teve frei Gil por condiscipulo, o beato
Umberto de Romanis, que depois veiu a ser
2.º geral da ordem dominicana, e que mui-
to amou o frade portuguez.
Graduado doutor em theologia e feito mes-
tre da ordem, regressou ao seu mosteiro de
Santarem, ahi foi mestre dos seus confrades
e foi o 4.º leitor que a ordem de 8. Domin-
gos teve em toda a Hespanha, n'esta facul-
dade.
Foi tambem um distinctissimo orador sa-
grado, e um insigne missionario apostolico,
prégando o Evangelho por muitas terras,
tanto com a palavra como com o exem-
plo.
Fallecendo frei Soeiro Gomes, 1.º provin-
cial de toda a Hespanha, foi Gil elrito em
capitulo geral, provincial, por unanimidade
482 SAN
de votos, e foi um dos mais sabios e virtuo-
sos prelados da sua ordem.
Passados annos, e querendo frei Gil tor-
nar à sua vida de mortificação e isolamento,
pediu a resignação ao papa, que lhe foi da-
da. succedendo-lhe o virtuoso frei Pedro de
Osca; mas fallecendo este d'ahi a pouco tem-
po, tornou frei Gil a ser unanimente eleito,
e no provincialato terminou seus dias, em
quinta feira da Ascenção do Senhor, a 14 de
maio de 1265, com 80 annos de edade, sen-
do sepultado no cemiterio do mosteiro.
Passados seis annos, sua prima, D. Joan-
na Dias, senhora de Atouguia, mulher de D.
Fernando Hernandes Cogominho, senhor de
Chaves, e alcaide-mór de Coimbra, lhe man-
dou fazer uma bôa capella en'ella um mau-
soleu, na egreja do musteiro do santo, para
onde o seu cadaver (que foi achado incor-
rupto) foi transferido, com magnificas exe-
quias, a que assistiram as pessoas principaes
da villa, e quasi todo o povo.
Vide adiante, quando fallo do mosteiro de
Santa Clara (freiras franciscanas) o que diz
o visconde d'Almeida Garrett, com respeito
aos ossos de São frei Gil.
1266—Vide o anno de 1226.
1270— 9 de fevereiro) —Morre o grande
servo de Deus, frei Antonio de Santarem,
natural da terra do seu appellido.
Era filho de pessoas nobres, e namoran-
do-se de uma donzella tambem nobre e mui-
to formosa, como elle nada devesse à for-
mosura, lhe disse ella—«Lava-te muito bem
no rio Jurdão, e depois serás meu marido.»
—Elle acceitou a condição, e marchou para
a Syria, lavou-se nas aguas do Jordão, e
trouxe d'ellas um vaso, e attestados provan-
do a sua peregrinação. A donzella cumpriu
a promessa, casando com elle, porém, pou.
cos mezes depois, falleceu. Antonio, desgos-
toso por esta morte prematura, abandonou
patria, honras e riquezas, e se fui para Cas-
tella, e alli se metteu frade franciscano, ap-
plicando-se de coração aos estudos ecele-
siasticos, viado a ser um grande sabio, e um
consumado prégador.
De Castella veio para o mosteiro francis-
SAN
cano da sua patria, onde, cheio de ânnos e
de virtudes, morreu no indicado dia, sendo
sepultado na magestosa capella das almas,
da egreja do seu mosteiro, sob o altar do
SS. Sacramento.
Durante a maior parte da sua vida, e de-
pois da sua morte, fui geralmente reputado
por santo.
1272—Vide o anno 1259.
1275—(10 de janeiro) — Morre o grande
capitão, D. Payo Peres Correia, natural de
Santarem.
Dizem muitos escriptores, e com elles o
nosso esclarecido academico contemporaneo,
o sr. Manoel Pinheiro Chagas, que o famo-
sissimo XVI grão-mestre da ordem de S.
Thiago, Dom Payo Peres Correia, o conquis-
tador do Algarve, é natural da cidade d'E-
vora. (Vide 3.º vol., pag. 112, col. 2.2) Qu-
tros porém sustentam que este intrepido
guerreiro, nasceu em Santarem, no princi-
pio do seculo XIII.
Estou persuadido que este heroes nasceu
em Santarem. Assim o affirma o arcebispo
de Braga, D. Rodrigo da Cunha, na sua Hist.
eccles. de Lax.?, pag. 85l—e o padre Vascon-
cellos, na sua Hist. de Santarem, tomo 2.º,
pag. 436. Ambos estes escriptores dão por
cousa sem duvida, que o fallecimento de D.
Payo foi a 10 de janeiro (e não a 40 ou 41
de fevereiro, como outros dizem) de 1275.
Ainda mais.
No mesmo logar, da Hist. de Santarem,
diz-se que, alem do que afirma D. Rodrigo
da Cunha, é tradição constante em Santa-
rem, que D. Payo Peres Correia foi «nasci-
do e creado n'esta nossa villa de Santarem,
e nós nella temos viva tradição, que nascé-
ra e morára na freguezia de S. Thiago, nas
casas que hoje (1740) são residencia dos vi-
garios da parochial egreja de Santa Iria, as
quaes conservam ainda hoje um torreão, que
denota grande antiguidade.»
O que é certissimo, é que D. Payo Soa-
res Correia, senhor da honra de Farelães,
uma das mais nobres e antigas casas do Mi-
nho, fui pae de D. Soeiro Paes Correia, pas
de D. Pedro (ou Pêro) Peres Correia; e d'es-
te, e de sua mulher e prima, D. Dórdia (ou
SAN
Dórdes) Peres d' Aguilar, nasceram varios
filhos e entre elles, o grande D. Payo Peres
Correia. (Vide 6.º vol, pag. 695, col. 2.º —
e 7.º vol., pag. 526, col. 4.º e seguintes.)
Não pude achar memoria do anno do seu
nascimento, mas devia ser entre os annos
4195 e 1205.
Tambem é incerto o logar onde falleceu.
O sr. Pinheiro Chagas (Port. Ilustres, pag.
11) não o declara. Alguns escriptores, dizem
que elle morreu em Uclés (Hespanha) a 414
de fevereiro de 1275. (Vide o logar citado,
do 3.º vol.) — Outros dizem que morreu em
Portugal (mas não dizem em que logar) a
10 de fevereiro do mesmo anno de 14275.
(Frei Francisco de Santa Maria— Anno Hist.
tomo 4.º, pag. 180.) Em uns apontamentos
que eu tenho, mas que me não lembra já
de onde os extrahi, diz-se tambem que elle
morreu no tal dia 40 de janeiro, em uma
batalha contra os mouros, na Serra Morsna
(Hespanha) e que foi aqui que elle fez pa-
rar o sol: e que em memoria d'este milagre,
se erigiu no proprio logar da batalha, um
templo dedicado a Santa Maria Tem-Tu-Dia,
que foram as palavras pronunciadas por
elle, para fazer parar o sol, e que alli jaz se-
pultado.
No logar citado do Anno Historico, diz que
o milagre da paragem do sol, foi na batalha
de Lerena (Hespanha) e que na mesma oc-
casião, tendo os seus muita séde, espetou a
lança em um rochedo, e d'elle brotou logo
uma copiosa fonte de agua potavel, com que
todos se desalteraram.
Abstrahindo dos milagres que a pia cren-
ga dos nossos antepassados fazia figurar com
tanta frequencia, em todas as difficeis con-
juncturas, é certo que D. Payo Peres Cor-
reia, fui um guerreiro legendario, e o mais
valente batalhador do seu tempo.
Ainda adolescente, alistou-se na ordem de
S. Thiago da Espada, da qual foi eleito grão-
mestre, em 14242, e, no mesmo anno, com-
mendador de Alcacer do Sal. (Vide Evora,
no logar citado do 3.º volume.)
Os seus feitos militares principíaram no
reinado de D. Sancho II, ajudando a con-
quistar aos mouros, Cacella e Ayamonte, em
1240.
SAN 483
| Em 9 de janeiro de 1242, resgatou a pra-
| ça e cidade de Silves, do poder dos serra-
cenos.
Em quanto Affonso Peres Farinha, mes-
tre da ordem do Hospital, no mesmo anno de
1242, expulsava os árabes, de Arronvhes,
Juromenha, Serpa, Moura, Mértola e outras
povoações que os mouros ainda conservavam
no Alemtejo, o nosso D. Payo os hia expul-
sando de Aljezur, e de varias outras povoa-
ções.
A sua principal façanha d'este anno, foi a
tomada de Tavira, a 41 de junho. Eis o que
deu motivo a esta gloriosa conquista.
Havia tréguas entre os chris àus e mouros,
No dia 10 de junho, D. Pedro Rodrigues,
commendador-mór da ordem de S. Thiago;
Mem do Valle; Damião Vaz; Alvaro Gar-
cia; Estevam Vasques; e Valerio da Hora,
pediram licença a D. Payo, para hirem mou-
tear.
Negou-lh'a o chefe; mas, tanto instaram,
que por fim lh'a concedeu.
Fiados nas tréguas, entraram em Tavira,
O que os mouros tomaram como provocação
º, juntando-se grande numero d'elles, ataca-
ram os portuguezes, que tiveram de fagir
para o alto de um monte, ao O. da cidade,
defendendo-se alli, com a maior intrepidez.
Segundo alguns escriptores, os seis caval-
leiros, vendo-se assim traiçoeiramente agre-
didos por tão grande numero d+ mouros, re-
solveram que um d'elles (cavalleiros) fosse dar
parte ao grão-mestre; porem como nenhum
queria abandonar os companheiros em tão
grande perigo, foi decidido que seria tirado
à sorte o que devia marchar. Assim se fez,
e o designado, pôde atravessar a toda a bri-
da por entre os mouros, e levar a noticia a
D. Payo.
Nesta oceasião, passava por aquelle sitio
um rico mercador portuguez, chamado Gar-
cia Rodrigues, com algumas cargas de fazen-
da, e, sabendo do aperto em que estavam os
seis cavalleiros christãos, entreg:u as car-
gas aos creados, mandando-os retirar, e elle
com a espada em punho, e por entre os
mouros, se foi reunir aos cavallriros.
Durou este prodigioso combate muitas
horas; mas, depois de terem sido mortos mui-
h 8h SAN
tos dos inimigos, os christãos foram todos
assassinados.
' Quando D. Payo teve notícia do perigo em
que estavam os seus cavalleiros, que eram
os mais bravos do seu pequeno exercito,
“cheio de furor, em vista da traição cobarde
“dos mouros, voou com a sua gente sobre Ta-
vira, na esperança de ainda chegar a tempo
de salvar os portuguezes.
D. Payo e os seus soldados, entraram na
cidade, não como valentes guerreiros, mas
como 1:0es furiosos, e achando os mouros
espalhados p: las ruas cantando victoria, com
grande alegria pela sua façanha, fizeram
n'elles horrivel matança, não perdoando a
sexo nem edade, fugindo espavorides os pou-
cos que poderam escapar.
Assim ficou Tavira livre do dominio mou-
risco.
Em 12:18, D. Payo e Martim Fernandes,
são mandados com um exercito a Castella,
para auxiliar os hespanhoes na guerra contra
os mouros, e ajudar a tomar a estes a fa-
mosa cidade de Sevilha.
Martim Fernandes fica governador da ci-
dade conquistada, e D. Payo, volta a Portu-
gal, com as suas tropas.
Em 9 de março de 1249, em companhia
de D. Affonso III (o Bolonhez) toma aos mou.-
ros, a cidade de Faro.
Fisalmente, em 1250, expulsa os mouros
dos seus derradeiros asylos no Algarve, e
assim Portugal ficou para sempre livre dos
mouros.
Em 1253, D. Affonso LI, de Portugal, le-
vando em sua companhia D. Payo e outros
bravos capilães, e um exercito escolhido, pas-
sam o Guadiana, e toma aos mouros varias
praças e castellos da Andaluzia.
Em 1248, São Luiz, rei de França (Luiz
IX) dá principio à 6.º crusada, embarcando
para o Egypto, e toma aos musulmanos a
forte praça de Damistta; mas foi derrotado
na batalha de Massoure, ficando prisioneiro
com a maior parte dos seus cavalleiros.
Na Europa crganisa-se outra crusada para
livrar o rei de França do poder dos infieis,
e o grande D. Payo Peres Correia, é esco-
khido para commandar a vanguarda.
Entre tanto, São Luiz recupera a liberda-
SAN
de, entregando aos musulmanos a praça de
Damietta, e a cruzada não se effectuon. 1
Ainda depois, D. Payo se tornou celebre
no Oriente, como um dos mais bravos guer-
reiros do seu tempo, quando foi em soccor-
ro de Balduino de Flandres, imperador de
Constantinopla, contra os gregos.
Tudo o mais que diz respeito a este heroe
portuguez, achar-se-ha nos logares d'esta
obra, que ficam citados no presente artigo.
1280—Vide 1240.
1290—A rainha Santa Isabel, funda o mos-
teiro das freiras capuchas do Senhor dos In-
nocentes.
1294— (25 de março)— El-Rei D. Diniz, faz
doação á villa de Santarem, do Paúl de Ma-
gos. Assigaou a doação tambem o vereador
d'esta villa, Estevam Peres Lobato.
1300—0 milagre de Jesus Christo Crucifi-
cado.
No reinado de D. Diniz, um fidalgo de San- |
tarem, namorou-se de uma rapariga do cam-
po, que conduzia muitas vezes o seu reba-
nho para as visinhanças de uma ermida, de-
dicada a Jesus Christo Crucificado.
Não podendo elle seduzir a donzella por |
outro modo, lhe jurou perante a santa ima-
da ermida, que casaria com ella; porem, de-
pois de a haver seduzido, não cuidou em
cumprir o seu sagrado juramento. |
Ella o demandou em juizo, porem elle ne- |
gou obstinadamente que tivesse feito tal ju- |
ramento. A seduzida, não tendo testemunhas |
nem outra esperança de ver reparada a sua |
falta por meio do casamento, se dirigiu a 44 |
de abril, com muita gente à ermida, e pediu |
ao Senhor que désse um signal da verdade |
do que ella allegava. a
O Senhor, despegou da cruz, um dos bra- |
1 São Luiz, ainda emprehendeu uma 7.º, |
e ultima, cruzada, em 1270, contra o pare- |
cer dos seus conselheiros.
Desembarca no costa da Africa, e põe cer- .
co a Tunis; mas uma terrivel peste lhe di-
zima as suas tropas, e elle mesmo é atacado,
morrendo sob es muros da praça que si-
tiava. A Egreja Catholica, o incluiu no nu-|
mero dos seus santos; e a Historia o colloca |
no cathalogo dos maiores reis da Europa.
SAN
* gos (que ainda assim está.) (Vide o anno
1571.)
A" vista de tal milagre, o seductor, con-
vertido, casou com a pastora.
4314— (Vide 1324.)
1319 —(18 de novembro) —Teve logar em
Santarem o acto solemne, da acceitação da
bulla do pontifice João XXTI, que confirmou
a instituição da ordem de Christo, successo-
ra da do Templo, e sua herdeira, na maior
parte dos seus edificios, quintas, e mais pro-
priedades, rendas, fóros e privilegios.
"Foi uma ceremonia de grande magnificen-
cia, assistindo o rei D. Diniz, a familia real,
toda a côrte, e as pessoas mais qualificadas
da villa, quer pela sua nobreza, quer pela
sua illustração.
Esta búlla foi lida em todas as parochias
de Portugal, causando geral regosijo, em ra-
são das enormes riquezas dos templarios
não passarem para a Curia romana, como
pretendia o papa Clemente V, allegando di-
reitos imaginarios, à herança da ordem do
Templo, que se extinguira em 4341.
Oite annos lidou o rei D. Diniz para con-
seguir este resultado; descobrindo, por fim,
o meio de subtrahir às pretenções romanas,
os bens da ordem supprimida, creando a de
Christo. Vide Alemquer.
1323—Por uma carta do rei D. Diniz, da-
da n'este anino, e em cumprimento do dis-
posto no foral de Santarem, se determinava
o seguinte:
Quando a alguma mulher casada, fosse
applicado o castigo de açoites, lh'os daria em
casa, seu marido, na presença da justiça, e
tamanhos como os costumava dar 0 alvazil.
E, se o marido assim os não désse, a justi-
ga lh'os daria d elle. (1)
Na mesma carta, ordenou, que — toda a
madeira que da Galliza passasse para Lis-
“boa, pagasse dizimo em Santarem.
Os generos que de Lisboa vinham para
“Santarem não pagavam portagem.
1324-—(20 de outubro) —t O rei D. Diniz
1 Extráio esta noticia, do Anno Histori ico,
vol. 3.º, pag. 189-—mas advirto os meus lei-
tores que aqui ha um anachronismo eviden-
tissimo. D. Philippa, morreu de péste, em
VOLUME VHI
SAN 485
e sua mulher, Santa Isabel, desceram ao Te-
jo, acompanhados de toda a côrte (que en-
tão estava em Santarem) para verem o tu-
mulo de Santa Iria (ou Irêne) fabricado por
mãos de anjos, e que o rio occultava desde
tempos remotissimos.«Eis que, de repente, se
abre o caudaloso rio, formando uma espa-
çosa rua, tão nova como aprasivel, offerecen-
do aos reis e aos cortezãos, o passo franco
e livre. Pasmaram todos, com razão, e fica-
ram não sóadmirados, mas attonitos; porem,
reconhecendo o favor divino, entraram por
entre muros de prata, pizando areias d'ouro,
a venerar a sagrada urna.» etc. e continúa
— «Levantou-se alli mesmo promptamente,
por ordem de El-Rei, um padrão, para
nova e perpétua memoria do logar e do mi-
lagre. E, voltando todos às margens do rio,
uniu este, as eorrentes divididas, e correu,
cobrindo como d'antes, o sagrado e precio-
sissimo thesouro.»
Os atheus, podem rir-se d'estas cousas. Eu
não me rio—respeito e admiro as firmes e
inabalaveis crenças dos portuguezes de ou-
tras eras. Seriam crendeiros; mas é mil ve-
zes peior o septicismo do seculo XIX.
1325-—(7 de janeiro)—Morreu em Santa-
remo grande rei D. Diniz, com 63 annos de
edade. Tinha nascido em Lisboa, a 9 de ou-
tubro de 1261. Reinou 46 annos.
Casára, em 1282, com Santa Isabel, infan-
ta aragoneza, filha de D. Pedro 3.º, rei d'A-
ragão, e que trouxe em dote a maior parte
do territorio chamado Riba-Cóa. Foi canoni-
sada pelo papa Urbano Vall.
Para os filhos (legitimos e bastardos) de
D. Diniz, vide n'este vol., pag. 72, col. 2.
Para o mais velho dos filhos bastardos (D.
Affonso Sanches, conde de Albuquerque) vide
“Villa do Conde.
D. Diniz, foi sepultado no mosteiro de Odi-
vellas. (Vide esta palavra.)
No mesmo anno de 1325, e logo a 9 deja-
Odivellas, a 18 de julho de 14145-—e portan-
to, oito annos e 3 mezes antes. O livro não
tem erratas, mas aquillo é de certo erro ty
pographico: havia de ser 1314. Alem d'isso,
o autor do Anno Historico, n30 dá como cer-
ta, mas como supposta, esta data.
al
486 SAN
neiro, foi coroado em Santarem, D. Affonso
IV, filho de D. Diniz.
1331--2.:º côrtes de Santarem. (As 114.ºs
de Portugal.)
1334-— 3.1 côrtes de Santarem. (As 12.ºs
de Portugal.)
D. Affonso IV, tentou casar seu filho, o in-
fante D. Pedro (depois 1.º do nome) com D..
Constança, filha de D. João Manoel, senhor
de Escalona, marquez de Vilhena e duque
de Penafiel; que era um dos vassallos mais
poderosos da Hespanha.
Convocou para isso as córtes de Santarem,
n'este anno de 1334; mas, reflectindo que o
rei de Castella faria grande opposição a este
casamento, não o propoz às côrtes. Só no fim
d'esse anno, estando o rei em Alemquer, alli
fez reunir o seu conselho d'estado, ao qual
expoz o seu projecto do casamento do filho,
o “que foi approvado; mas só se realisou, por
palavras de presente, no anno de 1336, na
villa de Castillos, em Hespanha.
D. Affonso XI, rei de Castella, casado com
D. Maria, filha mais velha do nosso D. Affon-
so IV,e da rainha D. Brites, filha de D. San-
cho IV, de Castella 1 oppoz-se tenazmente a
este casamento, e não consentiu que a noiva
viesse para Portugal.
D. Affonso IV, com o fim de tirar à força,
do poder castelhano, anoiva de seu filho, de-
clara guerra ao genro, a qual foi desastrosa
para ambos os paizes.
O papa, Clemente VI, e o rei de França,
“Philippe VI (o Volois) ? intervieram na con-
1 D. Affonso IV, teve da rainha sua mu-
lher, sete filhos que foram — por ordem de
edade—4.º, a dita rainha, D. Maria— 2.º, D.
Affonso—3.º D. Diniz, que ambos morreram
creanças—4.º, D. Pedro, que foi o herdeiro
da corôa—5.º, D. Isabel—6.º, D. João, que
morreram de pouca edade—7.º, D. Leonor,
a foi 2.2 mulher de D. Pedro IV, de Cas-
tella.
á Não me consta que tivesse filhos bastar-
0s.
D. Affonso XI de Castella, foi o Henrique
VIII, do seculo XIV (Vide vol. 3.5, pag. 104,
col. 4.º, nota.) j .
2 Carlos IV (o Bello) reinou em França,
desde 1322 até 1328. Era 3.º filho de Philippe
o Bello, e suceedeu a seu irmão Philippe V (o
Longo). Carlos IV morreu sem deixar filhos
SAN
tenda, e conseguiram que o rei castelhano-
deixasse sahir D. Constança (junho de 1339):
e a guerra terminou.
Em agosto do mesmo anno, entrou a in-
fanta em Lisboa, trazendo, entre outras da-
mas da sua comittiva, a bella e infeliz D.
Ignez de Castro.
Em 7 de julho de 1340, fez D. Affonso IV,
uma carta d'arrhas (por seu secretario, Pe-
ro Esteves, de Santarem) a sua nora, dendo-
varões, e n'elle se extinguiu o 1.º ram» dos
Capêtos. Segundo a lei sálica, succeden-lhe
no throno, Philippe de Valois (Philippe VD)
neto de Philippe III (o Atrevido—le Hardi)
e sobrinho de Philippe o Bello. |
Foi no reinado de Philippe de Valois
(1328-1350) que na batalha de Crécy (1346)
ganha contra aquelle monarcha, por Eduar-
do III, rei de Inglaterra, se viu é ouviu pela
4.2 vez, na Europa, a artilheria. N'esta ba-
talha morreu quasi toda a nobresa de Fran-
ça. Logo no anno seguinte, a cidade de Ca-
lais cahiu em poder dos inglezes. Philippe
de Valois, morreu em 41350. Succedeu-lhe |
João I (o Bom) que na batalha de Poitiers
ficou prisioneiro do principe de Galles, filho
do dito Eduardo III, ficando o exercito fran-
cez quasi completamente aniquilado.
Os meus leitores, teem ouvido por muitas
vezes fallar nas Vesperas Sicilianas, eamaior
parte d'elles teem ouvido cantar a bella ope-
ra do mesmo titulo, musica de Guiuseppe
Verdi, letra de Scribe e de Duveyrier; mas
talvez nem todos saibam que foi um faeto-
verdadeiro. Isto não pertence à nossa histo- |
ria, mas só 0 dou como curiosidade, com que |
os leitores nada perdem. Eis pois o que fo- |
ram as taes Vesperas. 4
Reinando em França, Philippe II (o Atre--
vido) avô (como vimos) de Philippe de Va- |
lois (1270-1285) é que tiveram logar as Ves-
peras.
Carlos dAnju, irmão de Luiz IX (S. Luiz).
tinha conquistado o reino de Napoles. O ju-
go dos francezes tornou-se intoleravel aos
sicilianos, e no mesmo dia, (1282) a hora de
vesperas, todos os francezes foram degola-
dos, em Palermo. Pedro III, rei d'Aragão,
não foi estranho a esta horrivel carnificina.
Philippe III, por isso lhe declarou guerra,
porem cahiu doente, e morreu em Perpi-
nhão. Neste reinado a Navarra, a Brie e à
Champanhe foram encorporadas ao reino de
França.
A-opera Vesperas Sicilianas, é uma das
melhores de Verdi. Cantou-se com grande
suecesso, em Lisboa e no Porto, pela ultima |
vez, em 4858. Parece que perdeu de moda.
SAN
SAN 487
lhe varias terras e foros, e a villa d'Alem- | validade do casamento com D. Ignez de Cas-
quer, com todas as suas aldeias, termos, ren-
das, jurisdieções, direitos reaes, e pertenças,
por toda a vida.
D. Constança morreu em Santarem a 13
de novembro de 1345.
D. Pedro, teve d'este casamento, trez fi-
lhos—D. Maria, que casou com o infante D.
Fernando, filho de D. Affonso IV, de Aragão
—D. Luiz, que morreu de pouca edade—e
D. Fernando, que lhe succedeu na coroa.
De sua 2.º mulher, D. Ignez de Castro,
teve quatro filhos—D. Affonso, que morreu
de pouca edade — D. João, que casou, em
1.:º nupcias, com D. Maria Telles de Mene-
zes, viuva de D. Alvaro Dias de Sousa (do
qual teve, D. Lopo Dias de Sousa, 8.º mestre
da ordem de Christo—Vide vol. 2.º, pag. 322,
col. 4.º, dia 28 de novembro de 1377.) —Ca-
sou 2.º vez (D. João) em Castella, com uma
filha bastarda de D. Henrique Il—e D. Bri-
tes, que casou com D. Sancho d'Albuquer-
que, filho bastardo de D. Affonso XI.
D. Pedro teve um filho bastardo, que foi o
famosissimo Mestre d' Aviz, depois, D. João
I de Portugal (o de Boa-Memoria.)
1340 — 4.2 côrtes de Santarem. (As 14.3s
d'este reino.)
A 30 de outubro d'este anno de 1340, te-
ve logar a gloriosissima batalha do Sa-
lado.
(Vide o 3.º vol., pag. 104, col. 1.2)
1345—(13 de novembro) —Morre em San-
tarem, a infanta D. Constança, 1.º mulher do
infante D. Pedro, depois 1.º o nome. (Vide
o anno de 1334.)
13595—Nasceu em ERRA PeDRO EAN-
NES Lobato. (O rei D. Duarte, nas Instruc-
ções que deu ao infante D. Henrique, seu ir-
mão, para a conquista de Tanger, lhe dá o
nome de Pere Eannes Lobato.)
Foi Pedro Eannes, um dos principaes fi-
dalgos do seu tempo, gozando de grande im-
portancia e auctoridade, nos reinados de D.
Fernando, D. João I, D. Duarte e D. Afíon-
so V.
Era filho primogenito de Estevam Lobato,
guarda-roupa de D. Pedro I, desde o tempo
de infante, e que se acha assignado no ins-
trumento de testemunhas, que, para prova da
tro, fez publicar em Coimbra, em 1360, o
mesmo D. Pedro I.
Francisco José da Serra
uraesbek, no Catalogo dos re-
gedores da casa do cival, lhe
dá erradamente o nome de D.
Vasco Lobato, quando é certo
que este fidalgo gallego—se-
nhor do couto de Melon—veio
para Portugal, no reinado de
D. Sancho II, ou D. Affonso III.
—Os seus descendentes, con-
servam, por varonia, a posse
da quinta de Cheira-Ventos,
no termo da villa d'Almada.
D. Vasco, casou com D. Ma-
ria Sarrassa, filha de D. João
Peres (ou Pires) Sarrassa. D'es-
te matrimonio nasceu Estevam
Peres Lobato (vide o anno 1294
—25 de março.)
Este Estevam Peres Lobato,
assignou com outros seus col-
legas, commendadores da or-
dem de S. Thiago, o consenti-
mento do contrato que o rei D.
Diniz fez com a dita ordem,
largando-lhe as villas de Al-
modóvar e Ourique, e varias
terras, no Alemtejo, pela villa
d'Almada, em frente de Lis-
boa, no fim do anno de 1297.
Duarte Nunes Leal (Chroni-
ca do rei D. Diniz, pag. 260
verso) lhe dá o titulo de com-
mendador de Cabrella (villa do
Alemtejo, no concelho de Ar-
raiolos.)
De Estevam Peres Lobato,
foi filho, Pero Esteves, natu-
ral de Santarem. (Vide o anno
1319— 18 de novembro.) Foi
Pero Esteves, secretario de D.
Affonso IV, como consta da
carta d'arrhas que este monar-
cha fez, em 7 de julho de 1340,
à infanta D. Constança (filha
de D. João Manuel, infante de
Hespanha) casada com o in-
SAN
fante D. Pedro, depois 1.º do
nome.
Tambem foi (Pero Esteves)
védor da casa de D. Pedro,
conde de Barcellos. Casou com
Margarida Eannes, dos quaes
foi filho, o pae do nosso Pedro
Eannes Lobato.
Já no reinado de D. Fernando era muito
considerado, o nosso Pedro Eannes, sendo
um dos fidalgos nomeados para vassallo
do conde de Barcellos, D. João Affonso Tel-
les de Menezes, irmão da rainha D. Leonor
Telles de Menezes (e não creado, como lhe
chama, sem fundamento, José Soares da
Silva, Memorias d' El-Rei D. João I, tomo 4.º)
Foi um dos fidalgos mais leaes de D. João I,
ao qual fez assignalados serviços, mesmo em
quanto este era simplesmente mestre d'Aviz.
Vendo os escandalos da rainha, offere-
ceu-se ao Mestre—primeiro, em Rio-Maior,
e depois em Lisboa—para assassinar João
- Fernandes Andeiro, o que D. João recu-
sou.
Teve por irmãos—Estevam Eannes Lo-
dato, e João Lobato. e com elles veio ao cêrco
de Lisboa, em 1384.
Na memoravel batalha d'Aljubarrôta, foi
(antes d'ella principiar) armado cavallei-
ro, pelo. proprio rei, e n'esse glorioso dia,
se distinguiu pela sua bravura, combatendo
sempre ao lado do grande condestavel, D.
Nuno Alvares Pereira, sob cuja bandeira mi-
litou sempre.
Quando o condestavel passou ao Alemte-
jo, pediu conselheiros para os negocios da
guerra contra os castelhanos. Os cavalleiros
do partido de Lisboa, conhecedores da 1n-
telligencia, valor e fideli ade de Pedro Ean-
nes, o escolheram e a João Vasques d'Al-
mada, e Affonso Pires da Charneca, para esta
commissão importanlissima.
Distinguiu-se na tomada de Ceuta (14 de
agosto de 1415) como capitão de uma das
naus portuguezas.
Na jornada de Tanger, fez grandes servi-
ços, pelos seus profundos conhecimentos na
arte da guerra, e offereceu ao rei D. Duarte,
um livro, que o monarcha approvou, e deu
ao infante D. Henrique, seu irmão (o de Sa-
SAN
gres) aconselhando-o que lêsse sempre por
elle, para o bom successo d'esta empreza.
O seu merecimento nas lettras, egualava
as suas prendas como militar, sendo tam-
bem experimentado na pratica do foro e na
politica da córte.
D. João I o fez seu védor da fazenda, e
quando este soberano creou a casa do civel,
o nomeiou primeiro regedor. 1
Pelos seus relevantes serivços, lhe deu
D. João I, o rendimento dos banhos da ci-
dade de Lisboa, junto ao chafariz d'El-Rei
(o que era n'esse tempo cousa muito impor-
tante.) Nomeiou-o seu vassallo ; e, pouco
tempo depois, lhe deu os direitos da Mou-
raria, da mesma cidade.
Depois, o rei D. Duarte o nomeiou seu
conselheiro, e o mandou por embaixador a
Castella.
Na menoridade de D. Affonso V, foi elei- |
to, pelas côrtes (celebradas em Torres Novas, |
em 40 de novembro de 1439) para ser um
dos fidalgos assistentes ao conselho da re-
gencia da rainha D. Leonor, e do infante
D. Pedro, tio do rei.
Casou com D. Catharina Eannes, filha de |
Estevam Eannes, é d'ella teve, João Lobato, |
que casou com D. Violante de Brito Fogaça,
filha de Diogo Fogaça, commendador de Ça- |
nha e Cabrella—Ruy Lobato, chanceller-mór |
do reino, em tempo de D. Manuel I—D. Isa- |
bel Lobato, mulher de Affonso Pereira, re- |
posteiro-mór—e D. Maria Eannes Lobato, |
mulher de João Gallego de Andrade.
Teve (em sua vida sómente) os direitos da |
villa d'Almada, que lhe deu o condestavel, |
D. Nuno Alvares Pereira, quando repartiu
os bens por seus capitães e soldados: e,|
quando o mesmo D. Nuno fundou a quinta |
de Corroios (que depois foi dos frades car- |
melitanos de Lisboa) fez Pedro Eannes Lo- |
bato outra quinta, visinha da de Corrôios, no |
sitio de Cheira-Ventos, freguezia da Amóra, |
a qual passou aos seus descendentes.
1 E não governador, como escreveu Faria |
e Souza; pois este titulo, foi dado depois, por!
distincção do reg-dur da casa da supplica-
ção, a D. Gonçalo Vaz de Castelo-Branco. |
Nem tambem regedor da casa da supplica-|
ção, como entendeu José Soares da Silva.
SAN
Falleceu em Lisboa, de edade muito avan-
cada, e foi sepultado na egreja parochial de
' S. Mamede (a que o terramoto de 1755 ar-
razou) em um tumulo de pedra lavrada, que
estava na capella do Espirito Santo.
Ainda em 1817, existia o retrato d'este es-
* clarecido portuguez, em casa de seu descen-
dente, João Lobato Q. de Faria Burroso, de-
sembargador do bairro do Mocambo, em
Lisboa.
Este retrato foi mandado tirar pelo pro-
prio Pedro Ennes Lobato, e é decorado com
as armas dos Lobatos, que são—Em campo
de púrpura, trez castellos de prata, em ro-
quête, com portas e frestas de negro. Orla
d'ouro, carregada de oito lobos negros, pas-
santes : élmo cerrado, e por timbre, um dos
castellos das armas, com um dos lobos das
mesmas, a sahir-lhe por cima.
4357—(18 de janeiro) —D. Pedro I (na pra-
ça de Santarem) manda matar barbaramen-
te, a Alvaro Gonçalves e a Pedro Goelho—as-
sassinos de D. Ignez de Castro. A Alvaro
Gonçalves, lhe foi arrancado o coração pelas
costas; e a Pedro Coelho, pelo peito.
O outro assassino de D. Ignez de Castro,
(Drogo Lopes Pacheco) pôde fugir da Hespa-
nha, para a França, e assim escapou a uma
morte cruelissima.
Este supplicio teve logar em frente do pa-
ço real d'Alcáçova. Os dois desgraçados (ain-
da que cobardes criminosos) soffreram pri-
meiro, alli mesmo, os mais atrozes tormen-
tos, antes de lhes arrancarem o coração. Pe-
dro Coelho, em quanto duraram os tormen-
tos, vingava-se em dirigir ao rei — que de
uma das janellas do paço assistia a isto —
insultos e ameaças. D. Pedro I ria-se, e só
respondeu — «Arranjem o fogo e o molho,
para assar este coelho.»
D. Pedro I, tinha feito com
seu sobrinho, D. Pedro I (o
Crú) de Castella, o tratado de
lhe entregar, D. Pedro Nunes
de Gusmão, Mem Rodrigues
Tenorio, Fernando Gudiel de
Tolédo, e Fortão Sanches Cal-
deron (que tambem foram bar-
baramente mandados assasgi-
nar por D. Pedro Crú.)
SAN 489
O rei castelhano, em troca
d'estes fidalgos, entregou ao tio
os dous assassinos de D. Ignez
de Castro.
Quando D. Pedro Cru, man-
dou prender os trez portugue-
zes, tinha sahido Diogo Lopes
Pacheco para a caça. O rei
mandou pôr guardas a todas
as portas, para não sahir nin-
guem que levasse noticia a Pa-
checo; mas, um mendigo, de
que as guardas não fizeram
caso (ou que pudéra sahir an-
tes d'ellas serem collocadas)
lhe levou a noticia, e Pacheco
pôde fugir para França, vesti-
do de almocreve. (Vide Fer-
reira d'Aves, é 3.º vol. pag.
250, col. 2.2)
1959—N'este anno (pouco mais ou menos)
nasceu n'êsta villa, João Affonso de Santa-
rem, fidalgo da casa real, do conselho de D.
João I.— Foi casado com D. Iria Affonso, da-
ma da primeira nobreza de Portugal.
Acompanhou o dito monarcha, nas guer-
ras que, depois da morte de D. Fernando,
tiveram logar contra D. João I de Portugal
e D. João I de Castella, e fez relevantes ser-
viços ao rei e à patria, não só arriscando
a sua vida nos combates, como abonando
dinheiro para as despezas da guerra, é aju-
dando o-seu principe com armas e caval-
los, comprados à sua custa, chegando o
seu patriotismo a ponto de vender para isto
as suas propriedades.
No fim da campanha, se recolheu João Af-
fonso a Santarem, pobre dos bens da fortu-
na, porem rico de serviços.
D. João I, para de alguma sorte o indem-
nisar das perdidas propriedades, lhe deu va-
rios bens, sequestrados a individuos d'esta
villa, por terem seguido o partido de Cas-
tella.
Parece que João Affonso não julgou lá
muito bem adquiridas estas propriedades,
porque, em 46 de dezembro de 1426, fez tes-
tamento e as doou para a creação do hospi-
tal de Jesus, de Santarem.
Eis o principio do testamento.
490 SAN
«Mando que n'estas minhas casas novas,
se faça um hospital, pela minha alma, de meu
pae e mãe, e pela de minha mulher, D. Iria
Affonso, e por todos aquelles por quem sou
obrigado rogar a Deus; o qual hospital seja
chamado de Jesus Christo, ete.» (Não é pre-
ciso dizer aos meus leitores, que isto é a
traducção do portuguez do seculo XIV.)
D. João I confirmou esta doação, em 1431.
O hospital de Jesus Christo, era na fre-
guezia de 8. Nicolau, que foi onde nasceu e
foi baptisado o seu fundador.
N'esta egreja de S. Nicolau, à direita de
quem entra, mandou o testador fazer uma
capella, onde fez construir a sua sepultura,
de marmore, não consentindo que n'ella fos-
sem gravadas as suas armas, nem inscripção
alguma, mas sómente o SS. Nome de Jesus.
Na mesma capella foram sepultados seus
paes e sua mulher.
(Para o mais que diz respeito a João Af-
fonso, vide Hospitaes de Santarem.)
1360—0s nossos reis, desde D. Affonso I,
até D. Affonso IV, tinham o seu thesouro de
ouro e prata, guardado na torre Albarran,
à porta do castello de Lisboa. O guardião dos
frades de S. Francisco, o prior do mosteiro
de S. Domingos, e um dos beneficiados da
Sé, tinham cada um uma chave da torre.
No castello de Santarem, havia, para o mes-
mo fim, outra torre, onde chegou a juntar-
se tão grande quantidade d'ouro e prata, tan»
to em barras, como em moeda e joias, que
se chegou a receiar que a torre não podes-
se aguentar tão grande peso.
Depositos semelhantes, havia no Porto, em
Coimbra, e em outras povoações. -
D. Pedro 1, ainda neste anno de 1360, man.
dou guardar na torre de Santarem, alguma
prata, e, se não augmentou os thesouros que
lhe haviam legado seus maiores, tambem de
todas essas enormes riquezas, nunca tirou
nem um seitil, legando tudo a seu filho, D.
Fernando I, que, com o seu pessimo gover-
no, tudo malbaratou, e ainda morreu cheio |
de dividas! |
- 4373— (49 de março) O rei D. Henrique
II, de Castella, entra em Portugal, saquean-
do todos os povos por onde passa, sem |
que D. Fernando TI, tratasse de lhe oppor a .
SAN
menor resistencia. Os castelhanos entram em
Lisboa, e a saqueiam e incendeiam. D. Fer-
nando estava muito descançado em Santa-
rem.
O papa Gregorio XI, intervem, e os dous
monarchas, depois de terem uma conferen-
cia no Tejo, em frente de Santarem, estando
presente o legado apostolico (D. Guido de
Bolonha, cardeal e bispo do Porto) fazem a
paz de Santarem, que terminou esta guer-
ra tão desastrosa para Portugal, em 49 de
março do mesmo anno.
Quando os bergantins reaes se hiam apro-
ximando, disse o rei castelhano para os seus,
indicando o bergantim de D. Fernando —
Hermoso rey, hermosa barca, hermoso arraest
(Suppõe-se que é d'este dito, que procede o
appellido Arraes.)—E dirigindo ao rei por-
tuguez, lhe disse-—Dios os mantenga, senior
que mucho me aptase el veros; por ser la co-
sa que mas deseava.
D. Fernando I, regressando a Santarem,
dizia que vinha muito henriquenho. (Henri-
quenho era o nome que em Gastella se dava
aos que seguiam o partido de D. Henrique
II, nas guerras civis que no seu tempo de-
vastaram a Hespanha.)
1376—D. Affonso Tello de Menezes, conde
de Ourem (tio de D. Leonor Telles de Me-
nezes, mulher de D. João Lourenço da Cu-
nha, senhor de Pômbeiro, com o qual se des-
casou, para casar com D. Fernando 1) funda
—o conde de Ourem—o mosteiro de frades
eremitas de Santo Agostinho.
(Vide o anno 1437.)
1382—D. Fernando 1, reedifica e amplia
as fortificações de Santarem.
1383— (22 de outubro) —Morre em Lisboa,
na edade de 38 annos (tinha nascido em 31
de outubro de 1344) D. Fernando I, e foi se-
pultado na egreja do mosteiro de S. Fran-
cisco, em Santarem.
O seu mausoleu, de optimo
marmore branco, com primo-
rosos altosrelevos (para aquel-
le tempo) esculpidos em todo
elle, foi profanado pelos fran-
cezes, e bastante deteriorado,
em 41834, por wandalos por-
tugúezes! — Está hoje no mu-
SAN
seu archeologico do Carmo
em Lisboa.
Dona Beatriz, filha de D. Leonor Telles die
Menezes, e (muito duvidosamente) de D. Fer-
nando 1, tinha casado, da edade de 12 annoss,
com D. João I, de Castella, a 14 de maio dio
mesmo anno de 1383.
D. Leonor tivêra, na cons-
tancia do matrimonio com D.
Fernando, a D. Pedro e D. A(f-
fonso, que ambos morreram
creanças, e cuja paternidade —
como a de D. Beatriz—o powo
(com bons fundamentos) attri-
buia ao gallego João Fernam-
des, que D. Leonor tinha feitto
conde de Ourem.
D. Fernando teve uma fillha
bastarda—pD. Isabel, que casou
com D. Affonso, conde de Gi-
jon, filho, tambem bastardo, de
D. Henrique II, de Castella.
D. Affonso e D. Isabel, são o
tronco dos Noronhas.
D. Fernando nomeara D. Beatriz, para llhe
succeder na corôa, e D. Leonor Telles, para
regente, e esta 0 foi 45 dias; mas, n'este pou-
co tempo, praticou toda a qualidade de des-
varios, pois quem governava O reino era. o
seu conde gallêgo; o que augmentou o odlio
que os portuguezes já tinham a ambos.
D. Diniz e D. João, filhos de D. Pedro I, e
de D. Ignez de Castro, tinham sido banidios
do reino, por terem tomado o partido de D.
Henrique II de Castella, nas guerras contra
Portugal.
Alguns fidalgos portuguezes, prudentes,
ou traidores, pediram a D. João Ide Castel-
la, que nomeiasse D. João, mestre de Aviz
(filho bastardo de D. Pedro I, e de Thereza
Lourenço, mulher do povo) regente de Por-
tugal, até que o rei castelhano tivesse um fi-
lho em edade de reinar em Portugal. D. João
I, recusou.
O povo portuguez—com exclusão de bas-
tantes fidalgos—amava o mestre de Aviz, €
fundava n'elle todas as suas esperanças de
independencia.
D. João, sabendo isto, dirige-se ao paço
real, da Moeda Nova, onde estava D. Leomor
SAN 4914
e Andeiro (6 de dezembro de 1383) e assas-
sina este com uma punhalada.
Para evitarmos repetições,
vide o que a este respeito digo
no 6.º vol., pag. 332, col. 1.º é
seguintes.
Os habitantes de Santarem foram, quasi
sempre, os da vanguarda, em todas as épo-
cas em que era preciso o sangue dos portn-
guez-s, para defeza da patria.
Em 1383, foi a primeira povoação de Por-
tugal—depois de Lisboa — que acelamou 0
nosso. D. João I—apezar de alguns fidalgos
da villa pretenderem estorvar a revolução,
por se terem vendido aos castelhanos.
1384 (42 de janeiro). —D. João I, de Cas-
tella, e sua mulher, D. Beatriz, sahiram de
Hespanha com um bom exercito, na firme
tenção de destruirem os partidarios do Mes-
tre d'Aviz, e, por consequencia, a nossa in-
dependencia.
Fizeram a sua entrada solemne em Santa-
rem, e n'este dia, foi alli acclamada (pelos
castelhanos e alguns fidalgos da villa) Dona
Beatriz, rainha de Portugal.
Os “castelhanos marcham sobre Lisboa,
mas são batidos.
Retiram para Santarem, onde, passados
poucos dias, chegou a noticia da derrota
monumental que os castelhanos soffreram
na batalha dos Atoleiros, a 29 de janeiro
d'este anno.
O general que n'esta bata-
lha commandava os castelha-
"nos, era o traidor Pedro Al-
vares Pereira, e o que com-
mandava os portuguezes, era
seu irmão, o famoso condesta-
vel, D. Nuno Alvares Pereiral .
Vide Atoleiros.
O rei castelhano, desesperado com esta
derrota, reune um grande exercito, e com
elle torna a cahir sobre Lisboa, ao mesmo
tempo que uma sua esquadra entra no Te-
jo. Derrotado em ambas as partes, retira pa-
ra Torres-Vedras, e de lá para a Hespanha.
(Vide 4.º vol., pag. 110, col, 4.º, no fim.)
Durante esta guerra, sofíreu Santarem
499 SAN
muitas vexações, sob o dominio dos caste-
lhanos, até à segunda retirada de Lisboa.
1385—D. João I, de Portugal, estabelece
em Santarem o tribunal da Relação e casa
do Civel. Depois, a pedido das côrtes, foi mu-
dado para Lisboa.
1390 (3 de outubro.) — É baptisado na
egreja de Santa Maria d'Alcáçova, o infante
D. Affonso, filho primogenito de D. João I e
da rainha D. Philippa. Tinha nascido pou-
cos dias antes.
Foi jurado successor dos reinos de Por-
tugal e Algarves.
Foram seus procuradores, dados pelo rei,
o condestavel D. Nuno Alvares Pereira, e
D. Lopo Dias de Sousa, mestre da ordem de
Christo.
O infante, nos poucos annos que viveu,
mostrava já um animo intrepido.
Os seus jogos e recreações, eram, brincar
com armas e outros petrechos de guerra,
que ornavam os paços dos reis portuguezes.
Morreu a 22 de dezembro de 1400, com
dez annos e quasi cinco mezes de idade, em
Braga, onde então estava a corte; sendo se-
pultado na sé da mesma cidade, e depois,
mudado para um magnifico mausoleu, que
de Flandres lhe mandou sua irman, a in-
fanta D. Isabel, duqueza de Borgonha.
1394—4.ºs côrtes de Santarem. (As 14.2
de Portugal.)
1400 (13 de janeiro.) — Nasce nos paços
reaes da Alcáçova, o infante D. João II, con-
destavel de Portugal, 10.º administrador e
governador (grão mestre) da ordem de S.
Thiago, e 7.º filho de D. João I e da rainha
D. Philippa de Lencastre, filha de D. João,
duque de Lencastre (Inglaterra) e neta de
Duarte III, rei da Gran-Bretanha.
— Oinfante D. João, era irmão do Infante
Santo, D. Fernando.
(Vide o anno de 1402.)
Foi D. João, um principe prudentissimo,
de singular benignidade, decidido patriota,
e muito religioso.
Já desde creança, mostrou tão boas qua-
lidades, que era extremosamente amado,
não só por seus paes e irmãos, mas tambem
por todos os portuguezes.
Como na expedição para a conquista de
SAN
Ceuta tinha apenas 13 annos, não quiz seu
pae que o acompanhasse à Africa, ficando.
com seu irmão D. Fernando—de 41 amos
de edade — entregue a D. Fernando Redri-
gues de Sequeira, grão-mestre da ordem de
Aviz, regente do reino, durante a ausencia
do monarcha.
Em 1418, os reis de Fez e Granada, e ou-
tros chefes mouros, accommetteram furiosa-
mente a praça de Ceuta, de que era gover-
nador, o infante D. Henrique (o de Sagres)
tambem irmão de D. João.
Este foi mandado por seu pae, em 3oc-
corro da praça, com uma boa esquadra e
gente de desembarque.
Não teve porem occasião—por esta vez—
de mostrar o seu valor, porque os mouros,
em vista do soecorro vindo de Portugal,
abandonaram o cêrco.
Em 1424, casou com a infanta D. Isabel,
sua sobrinha, filha de seu irmão D. Affonso,
conde de Barcellos, e tronco da casa de Bra-
gança, da qual foi 4.º duque—e de sua mu-
Jher, a condessa D. Brites (ou Beatriz) Perei-
ra—14.2 mulher de D. Affonso—filha unica do
condestavel, D. Nuno Alvares Pereira. (Este
D. Affonso, era filho bastardo de D. João L)
O sogro de D. João, lhe deu o reguengo e
logar de Collares (Extremadura) hoje villa,
do concelho de Cintra; o que o rei confirmou
a 4 de novembro do mesmo anno de 1424,
Deu-lhe tambem, para sempre, a quinta
de Bellas, com seus paços, terras, direitos,
fôros, tributos e padroádo da egreja, por car-
ta feita em Coimbra, a 114 de novembro do
mesmo anno.
Esta quinta de Bellas, pertence hoje aos
marquezes do mesmo titulo, e condes de
Pombeiro.
(Vide Bellas e Collares.)
Teve D. João, deste casamento, um filho
e trez filhas— D. Diogo, que succedeu na ca-
sa e dignidades de seu pae, e foi 4.º condes-
tavel de Portugal, e 11.º grão-mestre da or-
dem de S. Thiago, e falleceu de pouca eda-
de, em 1443-—D. Isabel, rainha de Castella,
2.º mulher do rei D. João II, com o qual ca-
sou em agosto de 1447, e foi mãe da famo-
sa D. Isabel, mulher de D. Fernando (os reis
catholicos) —D. Brites que, tambem em 1447,
SAN
casou com seu primo co-irmão, o infante
D. Fernando, daque de Vizeu, e 5.º filho do
rei D. Duarte. Foi mãe do rei D. Manuel. —
D. Philippa, senhora da villa d'Almada, que
foi uma das mais virtuosas damas do seu
tempo, e morreu solteira.
No conselho que o rei D. Duarte, seu ir-
mão, convocou para emprehender a tomada
de Tanger, foi o infante D. João de voto que
se não tentasse, por então, aquella empreza.
Depois, nas côrtes de Leiria (1437) foi um
dos que votou com mais tenacidade, porque
se entregasse aos mouros, a praça de Ceuta,
para resgatar seu irmão, o santo infante D.
Fernando ; mas, prevaleceu o voto contra-
rio.
Então, o infante D. João, desgostoso, se
retirou para Alcacer do Sal, onde estava sua
mulher.
Alli adoeceu gravemente, pelo que, não
se lhe deu parte da morte do rei seu irmão,
a qual teve logar, a 9 de setembro de 1438;
nem pôds assistir às côrtes de Torres-Novas
(1438.)
Nas divisões, parcialidades e desordens,
por causa da regencia do reino, durante a
menoridade de D. Affonso V, seu sobrinho,
aconselhou o infante D. Pedro (o de Alfar-
robeira) para que acceitasse a regencia, co-
mo o mais velho de todos os irmãos, pelo
que lhe pertencia, de direito.
Sendo chamado, da villa de Alcochête—
onde então se achava—pelos moradores de
Lisboa, com geral contentamento, concorreu
para que a regencia fosse dada ao infante
D. Pedro, déspresando as propostas que lhe
fizeram para acceitar aquella regencia.
Até a rainha D. Leonor lhe mandou offe-
recer, por D. Affonso de Cascaes, alcaide-
mór do castello de Lisboa, a corôa de Por-
tugal, para seu filho, o que elle tambem re-
cusou.
Voltando para Alcacer do Sal, tornou a
“adoecer, e ahi falleceu, a 18 de outubro de
1442, com geral sentimento de todo o reino,
especialmente do infante D. Pedro, que adoe-
ceu de pura mágua, e esteve em perigo de
vida.
Seu cadaver foi levado para o real mos-
SAN: 493
teiro da Batalha, e sepultado em um tumu-
lo egual aos de seus irmãos, e na mesma
capella.
No seu tumulo se pôz, por diviza, ramos
estendidos, com frtuctos que parecem me-
dronhos, e por entre elles, umas bolsas, ao
uso aniítigo, é trez vieiras (conchas) sobre ca-
da bolsa, allusivas à sua ordem de S. Thia-
go, e com o distico—JE AY BIEN RAIZON.
men
1402 (29 de septembro.) — Nasce em San-
tarem, o infante D. Fernando, (o infante
Santo) 8.º filho de D. João Ie da rainha D.
Philippa de Lencastre e grão-mestre da or-
dem d"Aviz.
Eis o que d'este virtuoso infante, diz O
sr. Pinheiro Chagas, nos seus Portuguezes
illustres, a pag. 25.
«Educado com extremos de affecto, por-
que pareceu ao principio debil e de pouca
vida, mem por isso foram menos perfeitos é
cultivados, o seu espirito e o seu caracter.
Ardentemente religioso, mas sem dema-
sias supersticiosas; amando a sua patria,
mas não folgando de derramar sangue, para
augmentar a sua gloria: mais por cumprir
um dever que a opinião da época impunha
aos principes, do que para ceifar louros, que
o não tentavam, promoveu a expedição de
Tanger e instou com seu irmão, el-rei D.
Duarte, para que lhe consentisse tomar par-
te n'ella.
“A expedição foi desgraçada; o exercito
commandado pelos dous infantes, D. Henri-
que e D. Fernando, viu-se obrigado a capi-
tular com os mouros (1434) e a condição
da retirada dos portuguezes, a são e salvo,
foi a entrega de Ceuta, ficando como penhor
do cumprimento da promessa, o infante D.
Fernando, que a nossa historia, com razão,
proclama — Infante Santo, ou o Principe
Constante. |
Repugnava aos portuguezes a entrega de
Ceuta, e D. Fernando foi o primeiro a acon-
selhar que não se largasse a conquista de
D. João I, e a offerecer-se como a victima
expiatoria d'este prejurio.
Então, nas trevas do carcere em que os
mouros o mergulharam, resplandeceram, co--
494 SAN
mo as estrellas no veu da noite as virtudes
do Infante Santo.
Soffreu com heroica paciencia, os maus
tratos, e os insultos dos mouros, e morreu,
em fim, a à de junho de 1443.
Repousa de certo diante de Deus, este
principe, cuja resignação angelica, perfuma
com fragrancias de virtude a historia portu-
gueza.»
Quarenta annos estiveram os ossos de D.
Fernando em poder dos mouros, e só em
1473, vieram para Portugal, em troca de al-
guns mouros que estavam captivos dos por-
tuguezes.
D. João I, com os seus dous
filhos mais velhos, tinha con-
quistado Ceuta aos mouros, a
14 de agosto de 1415, pelo que
tomou o titulo de rei de Por-
tugal e dos Algarves, e senhor
de Ceuta.
Em 1437, as côrtes reunidas
em Leiria, annullam a conven-
ção feita para a entrega de
Ceuta. Os infantes, irmãos de
D. Fernando, e este mesmo,
são da opinião das côrtes; só
o rei D. Duarte (tambem ir-
mão do captivo e que muito o
amava) era de voto que se en-
tregasse a praça de Ceuta;
mas prevaleceu a decisão das
córtes. 1
1406—5.2º côrtes de Santarem. (As 37.25
de Portugal.)
4440 —Funda-se em Santarem um mos-
teiro de conegos de Santo Antão, que, de-
1 D. João I e D. Philippa, tiveram oito fi-
lhos—(por ordem das edades)—D. Branca,
e D. Affonso, que morreram creanças — D.
Duarte, que succedeu na corôa—D. Pedro,
duque de Coimbra (o d'Alfarrobeira) — D.
Henrique, duque de Viseu (o de Sagres) —
D. Isabel, duqueza de Borgonha, mulher de
Philippe II, o Bom (de Borgonha) —D. João,
mestre de S. Thiago (o nosso santareno)—e
D. Fernando, mestre d'Aviz (0 que morreu
captivo em Africa.)
O rei teve dous filhos bastardos.
D. Affonso, conde de Barcellos, tronco da
casa de Bragança—e D. Brites, que casou
em Inglaterra, com o conde de Arrundel.
SAN
pois, passou a ser de jesuitas. Era em Mar-
villa, extramuros, junto aos paços reaes,
onde existe a ermida de Santo Antão.
(Vide Lisboa, no logar competente, e adian-
te, nos annos 1550 e 1621.)
14186. côrtes de Santarem. (As 44.2
de Portugal.)
14149 (7 d'agosto.) —Fallece em Roma, D.
frei Sebastião de Menezes, filho de paes no-
bilissimos, do seu appellido, moradores em
Lisboa, mas que residiam a maior parte do
tempo em Santarem, onde tinham muitas
propriedades, e por isso aqui nasceu e se
creou D. Sebastião de Menezes.
Depois de seguir os estudos ecclesiasticos
professou no convento da SS. Trindade e re-
dempção dos captivos, de Santarem.
D'agui foi transferido para o convento da
sua ordem, em Lisboa, e como então alli es-
tivesse a universidade (por a ter para lá mu-
dado o rei D. Fernando) n'ella se matricu-
lou e formou na sagrada theologia; obtendo
tambem o gráu de doutor na mesma facul-
dade, pela universidade de Paris, quando foi
mandado áquella côrte, por negocios da sua
ordem.
Alli foi coadjutor do doutor frei Thomaz
Loquet, ministro geral da familia trinitaria,
e esmoler do rei de França (como de jure o
eram todos os geraes d'esta ordem) em cujo
emprego deu provas de grandes talentos e
virtudes.
Regressando a Portugal, foi honrado com
a confiança e respeito da familia real e da
córte.
D. João I o nomeou por duas vezes seu
embaixador—a 4.º,a Carlos VI, rei de Fran-
ça—e a 2.2, ao papa João XXIII, que na
egreja de S. Thomaz de Formis, do conven-
to da SS. Trindade, o sagrou arcebispo de
Carthago, e patriarcha da Africa.
Pretendendo regressar a Portugal, adoe-
ceu gravemente, fallecendo no dia indicado,
com geral sentimento do papa e da curia ro-
mana.
Foi sepultado na capella-mór da egreja de
S. Thomaz de Formis.
Na sua campá se gravou uma longa in-
scripção latina, que não copio, para não en-
fadar os leitores, e porque não é mais do que
SAN
o resumo da sua vida, como fica deseripto.
(Vide Historia de Santarem edificada, to-
mo 2.º, pag. 470, onde vem a imscripção por
extenso.)
1426-—João Aflionso de Santarem, do con-
selho de D. João I, funda o hospital de Je-
sus Christo.
Depois, D. João II, annexou a este, um
grande numero de estabelecimentos de ca-
ridade que havia em Santarem.
Na egreja d'este hospital, ha uma sepul-
tura com este epitaphio:
SEPULTURA DE PEDRO ESCURO, -
DO CONSELHO DE EL-REI D. AFFONSO
HENRIQUES, A QUEM O DITO
SENHOR, PARA TOMAR ESTA
VILLA AOS MOIROS, ENCARRE-
GOU A PORTA DE VALLADA,
PELA QUAL ENTROU, E POR
MEMORIA, SE MANDOU EN-
TERRAR JUNTO D'ELLA; E DEPOIS
POR HAVER INSTITUIDO O HOS-
PITAL DO RECLAMADOR, E PAL-
MEIRO, MANDOU EL-REI D.
MANUEL, TRASLADAR SEUS OSSOS
A ESTA EGREJA, ONDE TEM
MISSA QUOTIDIANA.
Segundo a tradição, a causa porque Pe-
dro Escuro se mandou enterrar, junto à por-
ta de Vallada, foi a seguinte:
Estando este guerreiro portuguez já se-
nhor da tal porta de Vallada, pretendeu um
agigantado mouro fugir por ella, o que con-
seguiu, depois de uma furiosa lucta com Pe-
dro Escuro.
Vendo-se o mouro já salvo, virou-se para
o porluguez, e lhe disse que se haviam de
tornar a encontrar.
Escuro respondeu-lhe—Hiredes e viredes
ê aqui me acharedes, morto ou vivo.
O mouro não voltou durante a vida do
Escuro (do nome, mas esclarecido nas obras)
e o bravo guerreiro, em cumprimento da
sua palavra, se mandou alli enterrar.
O hospital de Jesus Christo, foi mudado,
em 4835, para o mosteiro de Nossa Senho-
- ra de Jesus, e os ossos de Pedro Escuro, fo-
ram removidos para a capella-mór da egre-
ja do novo edificio do hospital, por diligen-
cias do reverendo João Antonio Pereira,
SAN 495
prior da freguezia de S. Nicolau, de Santa-
rem.
1430—7.2 cortes de Santarem. (46. de
Portugal.)
1434 — 8.2 cortes de Santarem. (47.º* de
Portugal.) Publicação da famosa Lei mental.
Estas côrtes principiaram em Leiria, mas,
como então alli se desenvolveu uma epide-
mia, foram transferidas para Santarem.
1437 (22 de septembro.) —Morre em Ceu-
ta, na Africa, o grande D. Pedro de Mene-
zes, 2.º conde de Vianna, alferes-mór do rei
D. Duarte, e primeiro governador da praça
de Ceuta, que defendeu heroicamente con-
tra os mouros, por espaço de 22 annos, der-
rotando-os muitas vezes, por mar e por
terra.
Foi depositado na Sé de Ceuta (que tinha
sido mesquita-maior dos mouros) e depois,
sua filha, D. Leonor, o fez transladar para à
egreja do mosteiro dos Agostinhos, (que seu
avô havia fundado) pondo-lhe sobre a se-
pultura, uma singela lapide, com uma ex-
tensa inscripção, que ainda ha poucos annos
se via.
D. Pedro de Menezes, era neto-de D. Af-
fonso Tello de Menezes, conde de Ourem, e
de D. Guiomar Ferreira, bisneta do rei D.
Sancho de Castella—filho de D. João Affon-
so Tello de Menezes, 4.º conde de Vianna,
senhor de Penella, Miranda, Alvito e Villa-
Nova—sobrinho da rainha D. Leonor Telles
de Menezes—e pae do famosissimo D. Duar-
te de Menezes, 3.º conde de Vianna, que
morreu na Africa, em uma batalha contra
os mouros.
(Vide adiante o anno 1464, e depois onde
trato dos mosteiros de Santarem. Vide tam-
bem Vianna do Minho, e Villa-Real de Traz-
os- Montes.)
Tendo D. João I tomado a praça de Ceuta
(14 de agosto de 1415) e constando a D. Pe-
dro de Menezes (que havia ajudado ao as-
salto, apezar de ser ainda adolescente) que
não havia quem quizesse ficar por governa-
dor da praça, disse ao rei. —Eu só com este
páu, sou capaz de defender Ceuta, de todo 0
poder dos mouros.
O rei gostou d'aquelle desembaraço, e lhe
entregou o governo da cidade conquistada,
496 SAN
e o brioso mancebo cumpriu a sua palavra.
O páu de zambugeiro, que D. Pedro tinha
na mão, quando se offereceu para defender
a praça, ficou vinculado aos seus successo-
res no governo de Ceuta, e se lhes po da
va, quando tomavam posse.
É por isto que Camões disse na sua pri-
meira Egloga:
«Emquanto do seguro azambugeiro.»
«Nos, pastores de Luso houver cajados.»
D. Pedro, casou quatro vezes, e deixou
nobilissima é numerosa descendencia.
1438-—Morre em Santarem muita gente,
da peste que n'este anno assolou todo o
reino, e fez muitos milhares de victimas.
1439—Nas côrtes convocadas n'este anno
em Lisboa, se concedeu que n'esta cidade
não houvesse aposentadorias, e que se fizes-
se Estáos e casas em que os reis e as suas
cortes se podessem alojar.
Depois se concedeu o mesmo privilegio a
SANTAREM, Evora, Setubal, e outras cidades.
Por este grande beneficio,
que livrava os moradores de
Lisboa de muitos incommodos
e despezas, quizeram erigir
sobre a porta do paço dos Es-
tãos, uma estatua ao infante
D. Pedro, regente durante a
menoridade de seu sobrinho e
genro, D. Affonso V; mas o in-
fante se oppoz a isto, dizendo
—Se lá pozerdes a minha ima-
gem, virá tempo que vós mes:
mos à pedrada a derribareis e
lhe tirareis os olhos.
D. Pedro preadivinhou a
sorte que lhe estava destinada,
em Alfarrobeira, a 20 de mar-
ço de 1449.
-4444-—6.º foral de Santarem.
“44519. cortes de Santarem. (57. de
Portugal.)
4464 (20 de janeiro.) —Morte gloriosa de
um dos mais nobres filhos de Santarem—
D. Duarte de Menezes.
Era filho natural de D. Pedro de Mene-
SAN
zes, 1.º capitão de Ceuta, e de Izabel Domin-
gueis (a Bechigucira) moça de sangue no-
bre, e da camara da 1.º mulher do mesmo
D. Pedro.
(Vide anno 1437.)
Era (D. Duarte) neto paterno, do conde
D. João Affonso Tello, e bisneto do conde de
Ourem (por onde descendia dos reis de Cas-
tella.)
Não contava ainda dez annos, quando seu
| pae lhe deu casa.
(Tinha nascido em 1414, e foi legitimado
em 15 de março de 1424.)
Foi um dos pt mais bellos do seu
tempo.
Seu pae destinava-o ao estado ecclesias-
tico; mas descobrindo no filho mais incli-
nação para a guerra do que para a Egreja,
o mandou buscar a Portugal, e em Ceuta 0
exercitou na arte da sua predilecção.
No dia ô de janeiro de 1430, tendo ape-
nas 15 annos de edade, mostrou tanta bra-
vura em um ataque contra os mouros, e os
accommetteu com tão grande ousadia, que
seu pae, mesmo no campo da batalha, e à
vista do inimigo, o armou cavalleiro.
Em um recontro contra os mouros afri-
canos, livrou da morte à seu cunhado, D.
Fernando de Noronha, que estava envolvido
por 400 de cavailo e 1:000 infantes.
Por muitas vezes derrotou os mouros,
principalmente em. quanto seu pae esteve
em Lisboa, e D. Duarte ficou governando a
praça de Ceuta.
Na jornada de Tanger (1437) assistiu em
logar de seu pae, que estava doente, hindo
por alferes-mór (porta-bandeira) dos infan-
tes, D. Henrique e D. Fernando, e com a
sua gente foi sobre Tetuão, que tomou, sa-
queou e incendiou.
Foi nesta conjunctura chamado a Ceuta,
para assistir aos ultimos momentos de D. Pe-
dro de Menezes, seu pae, que mandou se-
pultar na Sé d'aquella cidade, em julho de
1438.
Veio a Lisboa, com sua irman, D. Leonor,
e aqui chegou com quatro dias de viagem,
sendo recebido com grandes festas.
O rei estava então em Aviz, por causa da
peste que grassava em Lisboa, e D. Duarte
SAN
se lhe foi alli apresentar, recebendo do mo-
narcha as maiores honras e distincções, e
sendo nomeado membro do seu conselho,
mercê então rarissima, e só concedida por
grandes serviços à patria, ou a pessoas da
mais alta nobreza.
Deu-lhe tambem o rei, o logar de seu al-
feres-mór, que exercêra D. Pedro de Mene-
zes.
Fel-o alcaide-mór e fronteiro-mór, do cas-
tello de Béja, com todas as rendas, foros,
honras, e privilegios inherentes a este posto-
Casou com D. Isabei de Mello, filha de
Martin Affonso de Mello, e viuva de João
Rodrigues Coutinho, da qual teve só uma
filha, por nome D. Maria de Menezes, que
veio a easar com D. João de Castro, filho e
herdeizo de D. Alvaro de Castro, conde de
Monsanto.
Ficando viuvo, casou com D. Isabel de
Castro, da mesma casa de Monsanto, filha
de D. Fernando de Castro, e neta de D. Pe-
dro de Castro, filho segundo de D. Alvaro
Pires (ou Peres) de Castro, conde de Arraio-
los, 4.º condestavel de Portugal, e irmão de
D. Ignez de Castro, 1.º muiher de D. Pedro 1.
D'este casamento, houve — Henrique de
Menezes, que lhe succedeu na casa e titulos
— D. Garcia de Menezes, que foi bispo de
Evora e da Guarda, tão bravo pelos seus
feitos d'armas, como distincto nas lettras—D.
Fernando de Menezes, esforçadissimo guer-
reiro— D. João de Menezes, que foi prior do
Crato e 4.º conde de Tarouca —e D. Leonor
de Menezes, religiosa no convento de Jesus,
em Aveiro, companheira inseparavel da
Santa Infanta D. Joanna.
Ainda teve de sua 2.º mulher alguns fi-
lhos, que morreram creanças.
Quando ainda era solteiro, teve um filho
natural, Pedro de Menezes, que legitimou em
Extremoz, a 6 d'agosto de 1444.
Por morte do rei D. Duarte, foi nomeado
general, pelo infante regente, D. Pedro, du-
que de Coimbra.
Hindo por embaixador a Castella, D. João II
o tratou com grandes distineções e familia-
ridade, e o fez seu conselheiro.
Ainda então durava a conquista de Gra-
nada.
SAN 497
D. Duarte pediu ao rei hespanhol para
servir m'aquella guerra, o que lhe foi con-
cedido logo, sendo promovido a adelantado
(fronteiro-mór) e durante trez annos fez alli
relevantissimos serviços.
Regressando a Portugal, acompanhou D.
Affonso V a Alcacer Ceguer, onde excedeu
em prudencia e bravura, os maiores capi-
tães portuguezes.
Tomada a praça, o rei o nomeou gover-
nador della, e como tal praticou acções de
valor, dignas de eterna memoria, tornando-
se o terror dos infieis.
Em abril de 1460, foi chamado a Porta-
gal, sendo recebido por DX Affonso V, com
grandes distineções,
Passando a Santarem, foi ahi feito conde
de Vianna, por carta de 6 de julho do mes-
mo anno, e herdeiro de seu pae. :
Tornando para o seu governo, logo pou-
cas semanas depois, no primeiro recontro
que teve com os mouros de Tanger, degolou
mais de 700, e incendiou quatro ricas po-
voações—Palmera, Geta, Aamar, e Leonçar.
Depois de tantos e tão assignalados servi-
cos, morreu despedaçado pelos mouros, ce-
mo já se disse.
Sua segunda esposa, estava em Alcacer
do Sal, quando teve noticia da morte do ma-
rido, e foi com seus filhos para Santarem,
onde logo mandou construir-lhe o sumptuo-
so mausoleu, que fica mencionado.
D. Duarte morreu de 50 annos, pois tinha
nascido em 44144.
Para os mais monumentos que existem
n'esta egreja, veja-se onde trato dos conven-
tos de Santarem (n'este artigo) o mosteiro
de religiosos de S. Francisco.
D. Affonso V, com uma esquadra de 220
vélas, é um exercito composto da flor dos
seus guerreiros—entre os quaes se conta-
vam, o infante D. Henrique; seu sobrinho,
o infante D. Fernando, e os grandes d'este
reino—passa à Africa, e depois de uma te-
naz resistencia, toma aos mouros, a fórte
praça de Alcacer-Seguer, em 1459.
1 Foi para as despezas d'esta expedição,
que D. Affonso V mandou cunhar à moeda
498 SAN
Entregou o rei o governo da praça, ao
famoso D. Duarte de Menezes, 3.º conde de
Vianna (pae do não menos famoso D. Gar-
cia de Menezes, bispo d'Evora — vide anno
1484.)
D. Duarte de Menezes, durante os cinco
annos que governou a praça africana, ga-
nhou innumeras batalhas contra os mouros,
dos quaes era o terror.
Defendeu heroicamente a praça, em dous
cêrcos que, com poderosos exercitos, lhe
poz o rei de Fez.
Depois de outras muitas acções da maior
intrepidez, morreu como bravissimo guer-
reiro e leal portuguez, n'este dia (20 de ja-
neiro de 1464) na serra de Bonacofú, para
salvar à vida a D. Affonso V.1
Os mouros lhe fizeram o corpo em tão
miudos pedaços, que o maior que depois se
achou, foi um dedo!
Sua mulher, a condessa, D. Izabel de Cas-
tro, não pôde obter dos restos de seu mari-
do, senão o tal dêdo.
Mesmo assim, mandou construir a seu
marido, em uma das capellas da egreja do
mosteiro de frades de S. Francisco de San-
tarem, um masgestoso mausoleu de archi-
tectura golhica, uma das mais primorosas
denominada cruzado, que chegou aos nos-
sos dias.
Depois da tomada de Alcacer-Seguer, ins-
tituiu a ordem de Torre Espada, para hon-
rar os que mais se distinguiram n'esta cam-
panha.
Foi tambem então que se principiou a in-
titular— Rei de Portugal e Algarves, d' Áquem
e de Alem, senhor de Alcacer-Seguer, etc.
1 D. Affonso V, invadiu segunda vez a
Africa, em 1464; mas foi infeliz n'esta em-
preza, na qual perde a maior e a melhor
parte das suas tropas.
“Não desanimou, porém, com esta catastro-
he.
j Em 1471, emprehende terceira expedição,
e toma então aos mouros africanos, as cida-
des e praças d'Arzilla e Tanger.
Voltando a Portugal, é recebido com gran-
des festas, como os antigos triumphadores
romanos.
O povo o cognominou—) Afrirano — e
D. Affonso tomou os titulos de rei de Portu-
gal e dos Algarves, d'aquem e d'alem mar,
em Africa.
SAN
obras deste genero, em Portugal, e n'elle
foi guardado o dedo.
Sobre o mausoleu, se vê, deitada, a esta
tua do conde, em vulto.
Tem este notavel monumento, a seguinte
inscripção:
MEMORIA DE D. DUARTE DE MENEZES
TERCEIRO CONDE DE VIANNA, TRONCO
DOS CONDES DE TAROUCA, PRIMEIRO
CAPITÃO DE ALCACER-SEGUER, EM AFRICA,
QUE COM QUINHENTOS SOLDADOS DE-
FENDEU ESTA PRAÇA, CONTRA CEM-
MIL MOUROS, COM OS QUAES TEVE
MUITOS ENCONTROS, FICANDO N'ELLES
COM GRANDE HONRA E GLORIA. MORREU NA
SERRA DE BONACOFÚ, POR SALVAR A
VIDA DO SEU REI, D. AFFONSO, O QUINTO.
11468-10.:s cortes de Santarem. (65.:º de
Portugal.) a
1470 (6 de janeiro.) Diz-se a 1.2 missa,
na egreja do collegio dos frades terceiros de
S. Francisco, que D. Affonso V havia fun-
dado, no anno antecedente.
É no sitio chamado Valle de Moyrol, ou
Al-Moyrol, no bairro da Ribeira, a 3 kilo-
metros de Santarem.
1470 —Suppõe-se que foi n'este anno, que
em Santarem nasceu o famosissimo DUARTE
PACHECO PEREIRA, com razão cognominado
o Achilles Lusitano.
Seus rasgos de valor sobrenatural, trans-
põem a ráia do maravilhoso, e as façanhas
portentosas que obrou, desde 1503, na In-
dia, com um punhado de portuguezes con-
tra exercitos numerosissimos e aguerridos,
tornam Duarte Pacheco um vulto legenda-
rio; e as suas espantosas victorias fizeram o
nome portuguez temido e respeitado em toda
a Ásia, para onde partiu, nas primeiras es-
quadras que foram à sua conquista.
Em 1504, foi em soecorro do nosso allia-
do, o rajah de Cochim, contra o soberano
(camori) de Calecut, que atacára aquelle
com um exercito de 50:000 homens, e gran-
de numero de elephantes de guerra.
O rajah, tinha apenas 20:000 combaten-
tes, e Duarte Pacheco só tinha 150 soldados,
uma pequena náu e duas caravellas.
Com tão diminuto numero, foi Pacheco
esperar o inimigo, à margem de um rio, que
divide o reino de Cochim do de Calecut.
PE
SAN
No dia 18 de março, pretendendo os d'es-
te ultimo reino passar o rio, acharam nos
portuguezes uma furiosa resistencia, por es-
paço de muitas horas, tendo por fim de re-
tirar, deixando 180 mortos no campo, e le-
vando muito maior numero de feridos.
Os portuguezes não tiveram nenhum mor-
to, e apenas trez ficaram feridos!
Note-se que muito poucos dos nossos al-
liados combateram, porque a maior parte
fugiram no maior ardor da batalha.
Reforçado o exercito do Gamori, veio logo
a 25 de março contra o rajah, que atacou
por mar e terra. Sahiu-lhe ao encontro o
heroe santareno, com os seus 150 soldados,
tambem por mar e terra, e com elles derro-
tou os contrarios, fazendo-lhes mais de 650
mortos, e 800 feridos. Mas Pacheco viu-se
em grande perigo, porque os alliados, como
da primeira vez,o abandonaram quando a ba-
talha estava mais encarniçada, e porque lhe
faltou a polvora.
Apezar de tudo, as tropas do Camori, re-
tiraram para um palmar, onde, cercado dos
seus, foi cahir uma bala da nossa artilhe-
ria, que lhe matounove, mesmo a seu lado.
Pouco depois, uma terrivel peste lhe ma-
tou 6:000 soldados.
Os seus feiticeiros (brahmanes) lhe ha-
viam prognosticado a victoria, e elle, em
desforra, os queria mandar matar, ao que
elles se esquivaram, dizendo que aquellas
derrotas foram um castigo dos seus deuses,
por elle não ter cumprido o voto que havia
feito de lhes edificar um pagóde.
O Çamori, d'esesperado por tão repetidas
derrotas, reune um formidavel exercito,
grande numero de elephantes de guerra, e
uma poderosa esquadra, tendo parte dos
seus navios uns castellos de madeira, de no-
“va invenção, guarnecidos por numerosas
tropas.
Com este temeroso apparato, investiu os
portuguezes a 5 de maio (dia da Ascenção
de J. C.) do mesmo anno; mas, como nos
combates antecedentes, a sorte lhe foi adver-
sa, perdendo 5:000 homens, que succumbi-
ram ao ferro portuguez, e mais 13:000 que
morreram da peste.
Então o Gamori, desanimado por tantas
SAN 499
derrotas e desgraças, deixou o throno, e foi
terminar seus dias, fazendo penitencia, em
um deserto, por conselho dos seus brahma-
nes.
A fama de tão inauditas façanhas prece-
deu em Portugal o regresso do intrepido
santareno, onde elle chegou no principio de
julho do mesmo anno.
Em acção de graças por tão assignaladas
victorias, se fez em Lisboa, no dia 26 de ju-
lho de 14505, uma solemnissima procissão,
em tudo semelhante à que então se costu-
mava fazer em dia de Corpus Christi.
O rei D. Manuel, levou n'ella, a seu lado,
desde a Sé, até à egreja de S. Domingos, a
Duarte Pacheco Pereira.
Prégou um commovente sermão, allusivo
às milagrosás victorias dos portuguezes, na
Africa e na India, o sábio D. Diogo Ortiz,
bispo de Viseu. |
A ultima victoria d'este guerreiro illustre
e tão brilhante como as antecedentes, teve
logar a 18 de janeiro de 1509.
Infestava as costas de Portugal, um cele-
bre corsario francez, chamado Mondragon,
com quatro fragatas, tendo feito grandes
roubos e depredações.
O rei D. Manuel, mandou Duarte Pache-
co, com quatro vasos de guerra, em busca
de Mondragon, que foi encontrado pelo bra-
vo santareno, nas alturas do Gabo de Finis
Terrae.
O combate principiou furiosissimo de am-
bas as partes.
Uma das fragatas francezas, foi mettida a
pique, rendidas as outras trez, e prisionei-
ras todas suas guarnições, inclusivamente o
chefe dos piratas, entrando Pacheco victo-
rioso em Lisboa, a 20 de janeiro, com as
prezas que havia feito.
D. Manuel, o mais feliz e o mais ingrato
dos reis portuguezes, dando ouvidos ás in-
trigas de invejosos, mandou prender Pache-
co, e carregal-o de ferros.
Facil foi a este illustre capitão, justificar-
se, e obter a liberdade; mas D. Manuel, nem
se lembrou de o vingar de seus detractores,
nem de o premiar pelos seus incomparaveis
serviços à patria, vindo Pacheco, passados
poucos annos, a merrer pobre, obscuro 6
500 SAN
esquecido, no hospital da Misericordia de
Lisboa.
O legendario Achilles Luzitano, era tão
intrépido guerreiro, como primoroso cultor
das lettras.
Escreveu um livro, que denominou Es-
meralda de situ orbis, que ainda se conser-
va inedito na bibliotheca publica de Lis-
boa.
Não foi só o rei que pagou com escanda-
losa ingratidão a este famosissimo guerreiro,
a propria terra onde teve o berço, o votou
ao mais triste esquecimento, e hoje a maior
parte dos habitantes de Santarem, nem sa-
bem que existiu Duarte Pacheco Pereira!
1483—141.:s cortes de Santarem. (74.2 do
reino.) Foram as ultimas que se convoca-
ram para Santarem.
1484 (31 d'agosto.)—Morre em uma cis-
terna sécca, do castello de Palmella, D. Gar-
cia de Menezes, natural de Santarem, e fi-
lho de D. Duarte de Menezes, 3.º conde de
Vianna, e de sua segunda mulher, D. Isa-
bel de Castro, filha de D. Fernando de Cas-
tro.
D. Garcia de Menezes, estudou humani-
dades, na universidade de Paris, onde se
distinguiu pela sua applicação e intelligen-
cia.
Percorreu diversas côrtes da Europa, es-
tudando differentes linguas.
Assistiu à batalha de Odigebe-Alcame; e
foi em soccorro de D. Beatriz Pacheco, con-
dessa de Medellim, contra as tropas do mes-
tre de S. Thiago, na campanha de Merida.
Foi por general de uma armada, à Italia,
contra os turcos, quando estes tinham to-
mado a cidade de Otranto.
Regressando a Portugal, adoptou a vida
ecelesiastica, e D. Affonso V, o fez bispo de
Evora, em 1471; mas, nem por isso deixou
de ser um brávo guerreiro.
D. Affonso V, flcando viuvo de sua mu-
lher e prima, D. Isabel, filha do infante D.
Pedro, duque de Viseu (o de Alfarrobeira) !
contrata o casamento com sua sobrinha, a
! D. Affonso V, casou com, sua prima, em
6 de maio de 1448. D. Isabel, morreu (sup-
E que envenenada) a 2 de dezembro de
SAN
princeza D. Joanna, herdeira ida coroa de
Castella, te para sustentar o direito da sua
noiva, invade aquelle reino (1473) com um
exercito de 20:000 homens, hindo logo na
sua rectaguarda, com outro exercito, seu fi-
lho, o infante D. João (depois o 2.º do no-
me.)
Com este foi o bispo D. Garcia de Mene-
zes, e seu irmão, D. João de Menezes, prior
do Crato, e, depois, 1.º conde de Tarouca.
Chegando e Placencia, recebe-se com D.
Joanna, e toma o titulo de rei de Portugal e
Castella.
De Placencia passa a Tôro, que o havia
acclamado. D'aqui marcha para Zamóra, à
qual põe um apertado cêrco; mas chega o
rei de Aragão ,D. Fernando V, com um exer-
cito formidavel, e entre Zamóra e Tôro, se
dá a furiosa batalha que tomou o nome de
esta ultima cidade, em maio de 1476.
Todos sabem os resultados d'esta batalha, .
em que ambos os partidos foram simulta-
neamente vensedores e vencidos.
Teve esta batalha de notavel, que, em-
quanto, de um lado, D. Afionso V era der-
rotado, do outro, seu filho, levava os caste-
lhanos de vencida; para o que muito con-
tribuiram os dous irmãos Menezes.
O bispo D. Garcia, depois de fazer gran-
des serviços à sua patria, como doutor, co-
mo militar, e como prelado, morreu por trai-
dor!
Eis em resumo, a historia d'esta traição.
D. Diogo, duque de Viseu, senhor de Be-
ja, e de outras muitas terras de Portugal, fi-
lho primogenito do infante D. Fernando e
da infanta D. Beatriz, primo co-irmão e cu-
nhado de D. João II, resentido por alguns
1 D. Isabel, irman de D. Henrique IV, de
Castella, tinha casado com D. Fernando V,
rei de Aragão.
Eram tios de D. Joanna.
Os dous esposos castelhanos, propalaram
em toda a H-spanha, a calumnia de que D.
Joanna não era filha de D. Henrique IV.—
“e assim reuniram as duas coroas (Castella-e
Leão.) São estes, os famosos reis os catho-
licos, Fernando e Isabel, e foram elles que
conquistaram o reino de Granada, unica ter-
ra que ainda os mouros possuiam ná Penin-
gula hispanica.
(Video anno 1530.)
SAN
desfavores e desconsiderações d'este sobera-
no, e guiado por maus conselheiros, fez-se
chefe de uma conspiração, em que entraram,
o dito D. Garcia; D. Fernando de Menezes,
seu irmão; Fernão da Silveira, filho do barão
de Alvito; D. Guterres Coutinho, filho do ma-
rechal D. Alvaro de Athaide e irmão do con-
de de Atouguia; seu filho, D. Pedro de Athai-
de; D. Lôpo de Albuquerque, conde de Pe-
namacor; o irmão d'este, D, Pedro de Albu-
querque, alcaide-mór do Sabugal, e outros.
Segundio a voz publica, o fim desta cons-
piração, era assassinar o rei, prender seu
filho unico, D. Affonso (vide o anno 1491) e
acelamar o duque de Viseu rei de Portu-
gal. 1
D. João II residia então em Setubal, e por
algumas vezes os conspiradores tentaram
alli contra os seus dias; mas nunca levaram
a effeito este assassinato.
Uma tarde, sahiu o rei para o campo, eo
seguiram os conjurados, com a intenção de
realisarem o seu plano.
D. João II, já estava informado desta ten-
tativa deregicidio, e vendo-se quasi só, e seus
inimigos tão perto, se encostou a uma egre-
ja que alli havia, e se virou para elles com
tanta intrepidez e magestade, que os ater-
rou.
Em outra occasião, ao descer uma esca-
da do paço, tentaram D. Pedro de Athaide e
D. Guterres Coutinho, apunhalar o rei; mas,
na precipitação da tentativa, se embaraça-
ram um com o outro.
O rei, voltando-se para D. Pedro, lhe dis-
se—Que é isso?—D. Pedro respondeu—Se-
nhor, escorreguei.— O rei lhe disse em tom
ameaçador—Guardae-vos de cahir !...
Em outra occasião, o esperaram ao des-
embarcar de uma falúa; mas foi avisado a
tempo, pelos espiões que trazia entre es con-
jurados.
D. João II, vendo-se na alternativa de mor-
1 Os conspiradores faziam as suas sessões,
em um palacio arruinado onde não morava
ninguem, e pertencia aos arcebispos de Lis-
boa. Foi n'este palacio, que, em 1617, se
construiu o mosteiro de Nossa Senhora de
Jesus, de terceiros regulares, de Jesus, de
Santarem.
VOLUME VIII
SAN 901
rer ou matar, e tendo provas mais que suf-
ficientes da traição do duque, o mandou
chamar ao paço real de Setubal, na noite de
23 d'agosto d'este anno de 1484, e lhe disse:
—(Que farieis, primo, a quem vos quizes-
se matar?
O duque, perturbado, respondeu:
—Procuraria matal-o primeiro.
O rei, disse então:
—Vós mesmo vos julgastes.
E logo o matou a punhaladas.
Mandou immediatamente guardar as por=
tas da villa (hoje cidade) para que ninguem
podesse sahir, e n'essa mesma noite foram -
presos—o bispo d'Evora (D. Garcia de Me-
nezes) que foi mandado prêso, para uma
cisterna (então sem agua) do castello da
proxima villa de Palmella, onde morreu
(talvez envenenado) d'ahi a oito dias—D.
Fernando de Menezes, irmão do bispo; D.
Guterres Coutinho, e D. Pedro de Athaide
(sendo logo degolados, D. Fernando e D. Pe-
dro.) D. Guterres, morreu em uma escura
masmorra, d'ahi à poucos dias.
Foi tambem prêso, Pedro d'Albuquerque,
e logo degolado.
Os outros cumplices poderam escapar, por
differentes modos.
D. Manoel, duque de Beja, irmão do du-
que de Viseu, não tomou parte n'esta con-
juração, e até julgo que a denunciou ao rei,
pois que elle lhe deu logo no dia seguinte
ao assassinato do duque de Viseu, todos os
estados d'este, e o fez duque de Beja, um
dos senhorios do fallecidó duque.
A ambição de reinar antes do tempo, e
por meio de um regicidio, privou o duque
D. Diogo não só da coroa, como da honra,
da fazenda e da vida.
Consta que o bispo d'Evora, morreu muito
arrependido, e reconhecendo justissimo e
leve o seu castigo.
Todos os conjurados perderam os seus ti-
tulos, commendas e mais bens; mas o rei
D. Manuel, depois, restituiu isto a muitos
d'elles, ou aos seus herdeiros.
1490—N'este anno, pouco mais ou menos,
nasceu “em Santarem, Fernão Bésteiro, fi-
dalgo da casa real, por alvará de 18 de ni
vereiro de 1531.
32
502. SAN
Desde a sua juventude até à edade de 90
annos, com que falleceu (1580), passou a vida
em oração e no exercicio da caridade. Nunca
passou por um mendigo sem lhe dar esmo-
la. Andava pelos hospitaes, tratando os en-
fermos com o maior carinho, curando-os, e
animando-os com palavras commoventes, a
seffrerem as dores com paciencia e resigna-
ção; de modo que passava mais tempo nas
enfermarias do que em sua casa.
Nasceu, viveu e morreu na freguezia de
S. Nicolau, e deixou tudo quanto tinha, ao
hospital de Jesus Christo, por testamento
feito em 17 de janeiro de 15714.
Pelo mesmo testamento, instituiu uma ca-
pella de missas quotidianas, pagas pelo refe-
rido hospital (por ser uma das condições da
doação) e uma missa cantada, em dia da
commemoração dos fieis defuntos.
Foi sepultado na capella-mór da egreja de
S. Nicolau, do lado do Evangelho.
Vide adiante, Hospitaes de Santarem.
1491—(12 de julho)—O principe D. Af-
fonso, filho unico de D. João II, e da rainha
D. Leonor, irman do rei D. Manuel, andando
a passear pela Ribeira de Santarem, cahiu
de um cavallo, morrendo poucos momentos
depois, na cabana de um pescador, para onde
foi levado, na rêde d'este. A rainha, desde
então, adoptou por emblema, uma rêde, que
se vê em todas as suas armas. 1
D. João II, quando ainda principe, teve
de D. Anna de Mendonça, senhora muito no-
bre, um filho bastardo, que foi D. Jorge de
Alencastro, mestre de S. Thiago, duque de
Coimbra, e tronco dos duques d'Aveiro, e
dos Alencastros portuguezes. D. João tinha
1 O infante morreu ás 9 horas da noite de
12, com 146 annos, um mez e 27 dias, pois ti-
nha nascido a 5 de maio de 1475. Não dei-
xou herdeiros. Tinha casado, poucos mezes
antes, com D. Isabel, filha primogenita e her-
do dos reis catholicos, Fernando e Isa-
el.
A viuva do infante, veio a ser depois (ou
tubro d> 1497) primeira mulher do nosso rá
D. Manuel, fallecendo de parto, do seu pri*
meiro filho, D. Miguel da Paz, que morreu
creança. D. Manoel, casou, segunda vez, com
sua cunhada, D. Maria, da qual teve dez fi-
lhos—e terceira vez, com D. Leonor, filha de
Philippe 1, de Castella.
SAN
muito amor a este menino, e quando tinha
apenas trez mezes, pediu à santa infanta D.
Joanna, irman de D. João, que tomasse conta
d'elle, o que ella fez, tratando-o sempre com
maternal carinho, no mosteiro de Jesus, de
Aveiro, onde vivia e onde morreu esta vir-
tuosissima princeza.
Frei Luiz de Sousa, na sua Historia de 8.
Domingos, parte 2.2, liv. 5.º, cap. 9.º, diz que
D. Joanna, no dia 6 de maio de 1450, sen-
tindo-se proxima a entregar a Deus a sua
bemdita alma, mandára chamar seu sobrinho,
D. Jorge, e depois de o abraçar com a maior
ternura, lhe disse—Filho, péçovos muito que
vos lembreis sempre, que vieste para esta casa
de trez mezes, e nella vos criei, chorando e
cantando, vestida de burel. Tende sempre
della lembrança, porque ella é a minha aima,
e tambem o são estas madres, que vos aju-
daram a criar, como se cada uma fosse vossa
mãe.
A santa princeza, falleceu logo a 42 de
maio.
O principe D. Affonso, estava casado de
poucos dias, com D. Isabel, princeza de Cas-
tella, filha dos reis catholicos, Fernando e
Isabel, e não teve filhos d'este matrimonio.
Em outubro de 1497, casou ella com o nosso
rei D. Manuel, do qual teve D. Miguel da Paz.
Como D. Isabel era filha primogenita dos reis
catholicos, e elles não tinham filhos varões,
D. Manuel e sua mulher, foram jurados em
Toledo (28 d'abril de 1498) principes de toda
a Hespanha. D. Isabel, morreu d'este parto,
em Zaragoça, e D. Miguel tambem alli mor-
reu, de tenra idade, e assim morreram tam-
bem as esperanças de D. Manuel vir a ser
imperador da Peninsula.
Casou, em segundas nupcias, com a in-
fanta D. Maria, sua cunhada, filha dos mes-
mos “reis catholicos, e d'ella teve—D. João,
depois 3.º do nome—D. Isabel, que casou
com o imperador Carlos V—D. Brites, a for-
mosa e celebre duqueza de Saboia—D. Luiz,
duque de Beja — D. Fernando, duque da
Guarda—D. Affonso, cardeal—D. Henrique,
o cardeal-rei—D. Duarte, duque de Guima-
rães— D. Maria e D. Antonio, que morreram
de pouca idade.
ia ii
SAN
Ficando D. Manuel segunda vez viuvo,
tornou à casar com D. Leonor, filha de Phi-
lippe I, de Castella, e della teve—D. Carlos,
que morreu menino—e D. Maria, senhora
de Viseu e Torres-Vedras.
De suas tres mulheres, teve D. Manuel,
nada menos de 13 filhos.
Não consta que tivesse nenhum bastardo.
Depois de D. Manoel ser acelamado rei de
Portugal, foi-lhe apresentado o duque D. Jor-
ge, filho bastardo de D. João 1I, eorei o
recebeu com muito carinho, e sempre o es-
timou muito, tratando-o como seu proximo
parente que era.
D. João II, fez todas as di-
ligencias para que este filho
bastardo lhe suecedesse na co-
rôa; porém a rainha e a maior
parte dos grandes da côrte, se
opposeram tenazmente.
1506—(1.º de fevereiro)—7.º e ultimo fo-
ral de Santarem.
(Franklim só traz cinco foraes—os de—
1095, 1179, 1244, 1217 e 14506.)
1510—Nasce em Santarem, o sabio e vir-
tuoso D. frei Gaspar do Casal.
Sabe-se que era de nobilissima geração,
mas ignora-se os nomes de seus paes, po-
rém sabe-se que era neto de Valentim Gon-
calves do Casal, cavalleiro de Christo, senhor
de Germinade e Mouril, e ouvidor da casa
do infantado.
Foi religioso eremita de Santo Agostinho
(graciano) cm Santarem, prêgador e confes-
sor de D. João III, e de seu filho, o principe
D. João. 1
10 principe D. João; nasceu em 1537. Em
novembro de 1553, casou com D. Joanna, fi-
lha do imperador Carlos V; mas, logo a 2
de janeiro de 1554, morre. À 20 d'este mez
(18 dias depois da sua morte) nasce seu fi-
lho, o rei D. Sebastião.
D. João III (avô de D. Sebastião) e sua mu-
lher, D. Catharina, filha de D. Philippe I, de
Castella, tiveram nove filhos, que foram—
D. Affonso, que morreu creança—D. Maria,
mulher de D. Philippe II, de Castella—D.
Isabel, D. Brites, D. Manuel, D. Philippe, e
D. Diniz, que morreram de pouca edade—
D. João (pae de D. Sebastião) —D. Antonio,
bue tambem morreu creança.
SAN 503
Foi terceiro bispo do Funchal (Ilha da Ma-
deira) depois terceiro bispo de Leiria, e, por
fim, 22.º bispo de Coimbra. Foi o primeiro
presidente do tribunal da Mesa da Conscien-
cia e Ordens.
Era um varão doutissimo, como o provam
o grande numero de livros que escreveu e
fez publicar. Foi duas vezes ao Concilio de
Trento, onde se tornou notavel pela sua vas-
tissima erudição. ! Edificou á sua custa, 0
mosteiro da sua ordem e a Sé cathedral de
Leiria.
Tinha sido lente e vice-reitor da univer-
sidade de Coimbra, um dos prelados mais
exemplares do seu tempo, e eloquentissimo
orador sagrado. 2
Foi 22 annos bispo de Leiria.
Morreu em Coimbra, a 9 de agosto de
1584, com 74 annos de edade e 33 de bispo,
foi sepultado na egreja da Graçr, de Coim-
bra (de frades da sua ordem) mas, em 15 de
maio de 1596, foram seus ossos transferidos
para o mosteiro da mesma ordem, de Lei-
ria, que elle havia fundado. 3
D. frei Gaspar do Casal, foi desde creança
inclinado à vida d9 claustro, e logo em 1524,
e tendo pouco mais de 13 annos entrou para
o mosteiro dos eremitas de Santo Agostinho,
de Santarem. Professou em 1526. Viveu 25
D. João III, teve tambem um filho bas-
tardo: foi D. Duarte, prior-mór de Santa
Cruz de Coimbra, e arcebispo de Braga.
* Além de outras pessoas notaveis d'este
reino, que assistiram ao concilio de Trento,
foram trez bispos—D. frei Gaspar do Casal
—D. frei Bartholomeu dos Martyres, arce-
bispo de Braga—e D. João Soares Urrô,
bispo de Coimbra, ambos tão sabios e vir-
tuosos como D. frei Gaspar do Casal.
O concilio de Trento principiou em 1535,
e terminou em 4563, no governo de cinco
pontifices-—Paulo III, Julio II, Marcello IL,
Paulo IV, e Pio IV. Durou 28 annos!
2 Tinha sido primeiramente, lente de phi-
losophia na universidade de Lisboa, e quan-
do ella foi mandada para Coimbra, continuou
a ser lente da mesma cadeira, n'esta cidade.
3 Foi o provincial, frei Antonio de Santa
Maria, filho do infante D. Jorge, e neto de
D. João II (e que depois foi tambem bispo
de Leiria) que fez cumprir esta clausula do
testamento de D. Gaspar do Casal.
504 SAN
annos como simples, mas exemplarissimo
religioso. É
Recebeu o grau de doutor em theologia,
em 19 de março de 1542.
Foi sagrado bispo do Funchal, no mos-
teiro da sua ordem, em Santarem, em 1551;
mas nunca foi à Ilha da Madeira, governan-
do o bispado por seu provisor e vigario-ge-
ral, Antonio da Costa, deão, primeiro da
Ilha Terceira, e depois do Funchal.
Succedeu na dignidade de bispo da Ma-
deira e Porto-Santo, a D. Martinho de Por-
tugal, irmão de D. Francisco de Portugal,
4.º conde do Vimioso. 1
Em 1557, foi promovido, por bulla de con-
firmação de Paulo IV, a bispo de Leiria,
sendo successor de D. Sancho de Noronha,
filho natural de D. Francisco de Faro.
Na terceira abertura do concilio de Trento,
pelo papa Pio IV, em 1560, foi um dos trez
bispos que de Portugal foram áquelle conci-
lio, para onde partiram no principio do anno
de 1561.
Em 1563, foi a Roma, e o papa, S. Pio V,
o recebeu com muitas honras, e lhe fez mui-
tas mercês. (O que elle publicou na dedica-
toria do seu livro De coena, et calice Domi-
ni.) Recolheu a Trento, em setembro do mes-
mo anno, e terminado o concilio a 4 de de-
zembro, regressou ao reino, com todos os
portuguezes que foram aq concilio, menos o
bispo de Coimbra, que seguiu outro destino.
Sahira de Trento a 8 de dezembro (de
1563) e entrou em Leiria, a 24 de fevereiro
'de 1564.
Lançou a primeira pedra, na Sé de Lei-
ria, em 41 de agosto de 1569.
Foi tambem o fundador do seminario dio-
cesano de Leiria, e reedificou a egreja pa-
rochial de Santo Estevam, e a ermida de
Nossa Senhora dos Anjos, da mesma cidade.
Em 41574, foi chamado a Lisboa, pelo ar-
cebispo D. Jorge d'Almeida, para assistir ao
synodo metropolitano, que principiou a 22
de março, em companhia dos outros bispos
suffraganeos. ?
1 D. Martinho de Portugal, foi o primeiro
(e unico) que teve o titulo de arcebispo do
Funchal.
2 Foram—D. Manuel de Menezes, bispo de
SAN
Por bulla do papa Gregorio XIII, de 21
de dezembro de 1576, e a instancias do rei
D. Sebastião, foi nomeado reformador do
convento de Thomar, juntamente como ar-
cebispo de Lisboa, o bispo de Coimbra, e o
colleitor apostolico. 1
O bispo de Coimbra, D. Manuel de Mene-
zes, morreu, a 4 de agosto de 1578, na ba-
talha d'Alcacer-Kibir, ao lado do rei D. Se-
bastião; e no anno seguinte, o cardeal-rei,
nomeiou D Gaspar do Casal, bispo de Coim-
bra.
Pela morte do mesmo cardeal-rei (91 de
janeiro de 1580) foi D. Gaspar, pelas côrtes
d'Almeirim, e pelos governadores do reino,
(na companhia do monteiro-mór, Manuel de
Mello) mandado por embaixador a Philippe
I, para que não invadisse Portugal com
suas tropas, sob promessa de se lhe guardar
illeso o seu direito.
Assistiu nas cortes de Thomar, nas quaes
foi reconhecido rêi de Portugal, o usurpa-
dor Philippe II, em 49 de abril de 4581.
D. frei Gaspar do Casal, como D. frei Bar-
tholomeu dos Martyres, foram por traidores
à patria (como tanios outros!) mas ,por en-
tenderem que só assim se podia evitar uma
guerra, que n'aquella conjunctura seria de-
sastrosissima para Portugal, que votaram
este reconhecimento, que nos causou 60 an-
nos de toda a qualidade de desgraças.
1515—Nasce n'este anno, em Santarem,
Lopo de Sousa Coutinho (pae do famoso fre
Luiz de Sousa—vide o anno 1555.) Distin-
guiu-se como militar, nas guerras da Africa
e da Asia. Publicou o Livro 1.º do cêrco de
Diu, que os turcos pozeram à fortaleza de
Diu. Coimbra, imprensa de João Alvares, aos
15 de setembro de 1556. É um folheto de 86
folhas, hoje rarissimo. Um exemplar, no lei-
lão da livraria Norton, foi arrematado por
308500 réis !
Lopo de Sousa Coutinho, morreu de um
desastre, em janeiro de 1577.
1528—Nasce em Santarem, o famoso es-
Lamego —D. André de Noronha, de Portale-
gre—e D. Jeronymo Barreto, do Funchal. |
1 Não teve effeito esta reforma, por caua |
da morte desastrosa do rei, nos campos de |
Alcacer-Kibir.
SAN
criptor, Fernão Lopes Castanhéda. Foi para
a India, com o governador, Nuno da Cunha.
Escreveu O HISTORIA DO DESCOBRIMENTO E
CONQUISTA DA INPIA PELOS PORTUGUEZES, di-
vidida em 40 livros, dos quaes só chegaram
a publicar se oito. Comprehende um periodo
de 50 annos, sendo seu auctor testemunha de
muitos factos que descreve.
Falleceu em Coimbra, em 1559.1
1530—Morre no mosteiro de Santa Clara
(franciscanas) a princeza D. Joanna, filha
primogenita de D. Henrique IV, de Castella,
que, por sua morte, nomeou aquella por
herdeira da corôa. (Vide o anno 1484.)—
D. Joanna, falleceu na edade de 68 annos,
pois tinha nascido em 1462.
Depois de annullado o seu casamento,
deu-se-lhe o titulo de Excelente Senhora, e
com elle morreu.
1531—(7 de janeiro a 25 de fevereiro) (!)
Horroroso terramoto, em todo o reino. Cau-
sou grandes prejuizos em todo o Riba-Tejo,
e destruiu muitos edificios de Santarem.
1541— Vide o anno 1585.
1550—0 papa Julio III, no primeiro anno
do seu pontificado, dá à Companhia de Je-
sus, o antigo mosteiro de Santo Antão, em
Marvilla, mas os jesuitas só para aqui vie-
ram em 1621. Vide os annos 1410 e 1624.
1554—D. João III, reedifica e amplia 0
mosteiro de religiosos da Santissima Trin-
dade, que tinha sido fundado em 1218.
1555—Nasce em Santarem, o nosso famo-
sissimo classico, FREI LUIZ DE SOUSA. (Vide
o anno 15145.)
Eis à rapida o elegantissima biographia
que d'elle faz o sr. Manuel Pinheiro Chagas,
nos seus Portuguezes Illustres, a pag. 84.
«Este eminente escriptor, cujo nome pro-
fano era Manuel de Sousa Coutinho, nasceu
em Santarem, no anno de 1555. Concluidos
os seus estudos, ou se alistou nas esquadras
portuguezas, ou nas da ordem de Malta, o
1 Não se confunda Fernão Lopes Castanhê-
da, com Fernão Lopes, que escreveu as chro-
nicas de D. Pedro I, D.; Fernando I, e D.
João 1.—Este é mais velho uns 130 annos
do que Castanhéda, e nasceu em Lisboa.
(Vide 4.º vol., pag. 320, col. 4.º linha 4.2)
SAN 505
que não está bem averiguado ; mas, o certo,
é que foi captivo dos corsarios barbarescos,
e conduzido a Argel, em 1575, ou em 1576.
Alli travou conhecimento com Miguel de
Cervantes, o grande escriptor hespanhol.
Resgatado em 1577, voltou á patria e pa-
rece que seguiu ainda a carreira das armas, '
até que, entre 1584 e 1586, casou com D. Ma-
gdalenaideVilhena, supposta viuva de D. João
de Portugal, que se julgára morto na bata-
lha de Aleacer-Kibir, ou nos carceres de
Fêz.
* Uma catastrophe inesperada, quebrou esta
união. Em 1613, separaram-se, de mutuo
accordo, para entrarem no claustro. —D. Ma-
gdalena, no mosteiro do Sacramento, de Lis-
boa—e D. Manuei de Sousa Coutinho, no
convento dominicano, de Bemfica, onde pro-
fessou a 8 de setembro de 16144, tomando O
nome, hoje immortal, de rret Luiz DE Sousa.
Qual foi o motivo d'este inesperado de-
senlace?--Foi, como narra frei Antonio da
Encarnação, a súbita chegada do primeiro
marido de D. Magdalena, que todos julgavam
morto, e que de súbito resurgira? Não ha
dados positivos para que tal se affirme. Fe-
lizmente, a arte não carece de escrupulosa
authenticidade, e a isso devemoso admiravel
drama de Frei Luiz de Sousa, escripto por
Almeida Garrett, e que, occupando no thea-
tro portuguez, incontestavelmente o primeiro
logar, póde ser considerado como um dos
mais bellos da litteratura europea, no se-
culo XIX.
Ou fosse a desgraça, que, suavisada pelos
magicos influxos do claustro, se lhe resol-
vesse em adoravel melancolia, e em mimosa
doçura de pensamentos, ou fosse natural
pendencia de seu espirito, é certo que nunca
a linguagem portugueza ostentou mais ine-
favel encanto, do que nos livros de Frei
Luiz de Sousa. Ha nºelles uma placidez que
enleva; um deslisar sereno de phrase, que
nos afaga brandamente; um perfume de mys-
ticismo, que nos extasia. Dir se-hia, um rio
manso e transparente, que vae correndo por
entre as margens viçosas, e melancolicos ar-
voredos, doirádos pelos ultimos reilexos do
outono.
O encanto do estylo, a vernaculidade da
906 SAN
linguagem, e a limpidez do pensamento, são
tudo em frei Luiz de Sousa.
É um doce poeta, e não um historiador.
Foi com tudo historia que escreveu, mas
a lenda, constantemente se interlaça com as
narrativas dos factos veridicos.
As suas obras mais apreciaveis, são--a
Historia de S. Domingos;a Vida do arcebispo
de Braga, D. frei Bartholomeu dos Martyres;
e os Annaes de D. João III.
Morreu em Bemfica, a 5 de maio de 1632.»
Até aqui o sr. Pinheiro Chagas.
Era frei Luiz de Sousa mui versado nás
humanidades, visto nas historias, grande la-
tino, excellente poeta, generoso e discreto
cortezão, e por extremo zelloso da sua re-
putação. (Para prova d'isto, veja-se o que
escrevi no 4.º volume, pag. 141, col. 1.º, no
ultimo periodo.)
D. Magdalena de Vilhena, era filha de
Francisco de Sousa Tavares. De frei Luiz de
Sousa (quando ainda era Manuel de Sousa
Coutinho) teve ella a D. Anna de Noronha,
que morreu solteira, e foi uma senhora de
grande illustração.
Morava D. Magdalena e seu segundo ma-
rido, nas suas casas de Almada (já recons-
truidas do incendio que referi no logar ci-
tado do 4.º vol.) e estando Manuel de Sousa
Coutinho, ausente, entrou na sua habitação,
um peregrino, perguntando por D. Magda-
lena, á qual disse—Sou um portuguez, que
venho de Jerusalem. Ao tempo de voltar para
este reino, me buscou outro portuguez, e me
pediu e encommendou muito, que, chegando a
salvamento, quizesse passar por esta villa, e
dizer a vossa mercê (se fosse viva) que ainda
por aquellas partes, vivia quem se lembrava
de vossa mercê. Isto é o que me trouxe aqui.
D. Magdalena, como é facil de suppor, fi-
cou petrificada, e levando o peregrino a ou-
tra sala, onde havia varios retratos, lhe disse
— Veja se algum destes se parece com quem
lhe deu o recado. O peregrino apontou logo
para o de D. João de Portugal, e disse É
este. E partiu, sem esperar outra resposta,
Chegando Manuel de Sousa Coutinho, e
sabendo do caso, resolveram ambos mette-
rem-se religiosos. Ella tomou o nome de So-
ror Magdalena das Chagas. Em quanto vive-
SAN
ram, nunca mais se viram, nem corresponde-
ram, e foram a todos os respeitos, dois re-
ligiosos exemplarissimos.
1570—Conclusão da egreja da Misericor-
dia, de Santarem.
1571—Fundação do mosteiro de monges
benedictinos, ao N. da eidade, no sitio onde
havia uma ermida, que a infanta D. Maria,
filha do rei D Manuel, deu aos monges. para
este fim.
É nesta egreja que estava o Crucifixo que
foi testemunha do juramento, de que tratei,
no anno de 1300.
1572 (24 de novembro) — Morre na ci-
dade de Gôa, capital da India portugueza, O
padre Antonio de Quadros, fidalgo, natural
de Santarem.
Professou em Coimbra, no collegio é
jesuitas, passando depois à India, como mes-
tre de philosophia e theologia. Foi insigne
orador sagrado, parocho, commissario do
Santo Officio, e provincial da sua ordem.
Era conselheiro indispensavel dos vice-reis,
por expressa determinação de D. João III.
A este virtuoso padre se deve a conversão
das ilhas de Chorão e Divar, e das terras de
Salcête e Baçam.
Morreu com fama de santo.
1577—Morre no convento dominicano de
Villa-Nogueira (Azeitão) D. frei Fernando
“de Távora, irmão de D. frei Henrique de
Távora e Brito (vidê o anno de 1582) am-
bos naturaes de Santarem.
Professou no convento de S. Domingos de
Bemfica, e foi um religicso de grande in-
telligencia e muito eloquente. O rei D. Se-
bastião, que muito o estimava, O nomeou
seu confessor.
Era muito inclinado à pintura, e foi um
dos mais peritos do seu tempo n'esta arte,
pintando alguns quadros primorosos no mos-
teiro onde professou, e que lá existiram até
1834.
Como seu irmão D. Henrique, foi disci-
pulo do santo arcebispo de Braga, D. frei
Bartholomeu dos Martyres, que então era
prior do convento de Bemfica.
Depois, foi D. Fernando de Távora prior
do mesmo convento.
O rei D. Sebastião o nomeou bispo do
SAN
Funchal (Ilha da Madeira) e foi confirmado
pelo papa S. Pio V, a 14 de novembro de
1569, mas não chegou a hir tomar conta do
bispado (por ter medo de passar o Oceano)
resignando a mitra.
D. Sebastião Io fez seu esmoler-mór, mas
tambem não chegou a exercer este empre-
go, por morrer no anno que fica dito.
Escreveu os Commentarios ao Evangelho,
de S. João, obra muito erudita (e muito ma-
cadora.)
Falleceu, como disse, em Villa-Nogueira,
mas foi sepultado no real mosteiro de S. Do-
mingos, de Lisboa.
4580 (19 de junho) —D. Antonio, 9.º prior
do Crato, é acclamado em Santarem, rei de
Portugal, contra a opinião de alguns fidal-
gos da terra. Organisou-se logo aqui, um
bom corpo de populares, em defeza do prin-
cipe: e, se todas as povoações do reino fi-
zessem como fez Santarem, certamente não
soffreriamos aquelles 60 longos annos de ca-
ptiveiro. 1
Para evitarmos repetições, vide 2.º vol.,
pag. 442, col. 1.2, no principio.
Todos sabem que o infeliz D. Antonio mor-
reu em Paris, em 1595.
Foi sepultado na egreja de S. Francisco,
d'aquella cidade.
Em agosto de 1867, demoliram os pari-
sienses, o mosteiro de S. Francisco da Ave-
Maria, para alli se construir um mercado.
Entre diversas e valiosas antiguidades, se
achou alli tambem, um caixão de chumbo
contendo o coração do 9.º prior do Crato.
1582 —Morre na cidade de Chaúl (India)
D. frei Henrique de Távora e Brito, natural
de Santarem.
1 D. Antonio sahiu pela manhan do paço,
dizendo que hia lançar a primeira pedra em
um novo forte, para defeza da praça. A maior
parte do povo da villa, que o acompanhava,
o fez montar a cavallo (em um cavallo, que,
assustado com a voseria de tanta gente, O
hia deitando ao chão) e entraram todos a
gritar—Real! Real! Por D. Antonio rei de
Portugal! E com elle percorreram todas as
tuas da villa. Pouco depois, se dirigiu a Lis-
boa, onde tambem foi acelamado rei de Por-
tugal, pelo povo, e por alguns (poucos) fi-
dalgos.
SAN 507
Era filho legitimo de Fernão Cardoso e
D. Philippa de Brito, irman de Manuel Ser=
rão e Brito, todas pessoas nobres.
Seu irmão, D. frei Fernando de Távora,
foi bispo do Funchál.
D. frei Henrique, professou no convento
de S. Domingos, de Santarem, mudando en-
tão o seu nome de baptismo (Jeronymo) no
de que usou até à morte.
Foi discipulo do santo varão D. frei Bar-
tholomeu dos Martyres, arcebispo de Bra-
ga, ao qual acompanhou quando foi ao con-
cilio de Trento.
Foi mestre da theologia, e sendo prior do
convento de S. Domingos, d'Evora, o rei
D. Sebastião o nomeou bispo de Cochim, a
13 de janeiro de 1567, sendo confirmado
pelo papa S. Pio V1.
Partiu de Lisboa para o Oriente, em 1576,
e foi um prelado sollicito e virtuoso.
Vagando a mitra de Gôa, o nomeou para
ella, o rei D. Sebastião, em 1577, o que foi
confirmado em janeiro de 1578, pelo ponti-
fice Gregorio XII.
Tomou posse da mitra primarcial, a 26
de dezembro do mesmo anno da sua confir-
mação.
Visitou por muitas vezes as freguezias da
sua diocese, fazendo proceder a todos os
melhoramentos moraes e materiaes das suas
ovelhas.
Chegando a Chaúl, em varios sermões
reprehendeu asperamente os viciosos, im-
pondo-lhes castigos espirituaes.
Um dos assim castigados lhe propinou ve-
neno em um jantar, morrendo D. frei Henri-
que, logo no dia seguinte.
Foi sepultado na egreja matriz de Chaúl,
em sepultura alta, junto ao altar de Nossa
Senhora do Rosario.
1585 (3 de outubro.) — Morre freira, no
1 Esta noticia é extrahida da Historia de
Santarem (tomo 2.º, pag. 467) mas é preci-
zo notar que não foi precisamente o rei D.
Sebastião (que então tinha apenas 43 an-
nos) que o nomeou, mas o tio de seu pae,
D. Henrique (o cardeal-rei) que foi regente,
desde 1562 até 1568.—S. Pio V, governou
a Egreja de Deus, desde 1563 até 1572, sen-
do seu antecessor Pio IV, e successor Gre-
gorio XIII.
508 SAN
convento da ordem terceira de S. Domingos,
de Santarem, D. Jeronyma de Carvalho,
d'aqui natural.
Pertencia a uma familia muito nobre, e
casou com D. Francisco Coutinho, filho dos
condes de Marialva.
Morrendo o marido, na desastrosa bata-
lha de Alcacer-Kibir (Africa) em 4 de agos-
to de 1578, metteu-se freira, e foi uma reli-
giosa exemplarissima, e por todos reputada
como santa.
Deixou descendencia.
Nascéra em 1541, e falleceu portanto de
quarenta e quatro annos de edade.
Foi sepultada na egreja do seu mosteiro.
1586 (20 de maio.) — Morre captivo, em
Marrocos, o beato frei Antonio da Conceição,
natural de Santarem.
Era filho legitimo de Sebastião Rodrigues
e Maria Paes, pessoas honradas e mediana-
mente ricas d'esta villa.
Professou no convento da SS. Trindade,
da sua patria, em 31 de dezembro de 1567,
ealli estudou phylosophia, com o padre mes-
tre, frei Luiz Soares.
Depois, foi estudar theologia para o seu
collegio de Coimbra, formando-se em ambas
as faculdades, e foi um dos mais elegantes
oradores do seu tempo.
Ficando na Africa, grande numero de ca-
ptivos portuguezes, pela derrota de Alcacer-
Kibir, foram do reino muitos frades trinita-
rios tratar da remissão d'elles, como era do
instituto da ordem.
Entre os redemptores, foi o veneravel pa-
dre frei Ignacio Tavares, filho do convento
de Santarem, e redemptor geral dos capti-
vos em Africa, e com elle o nosso frei Anto-
nio da Conceição, que com ternas e eioquen-
tes palavras de conforto, animou os sete mar»
tyres de Marrocos, que os africanos degola-
ram em 4 de julho de 1585.1 A este marty-
1 Não se confundam estes sete martyres
com os cinco outros tambem conhecidos pe-
los cinco martyres de Marrocos.
Aquelles sete, eram Francisco da Espe-
rança, natural de Masagão; Simão de Frei-
tas, e Antonio da Silva, naturaes de Setu-
bal; Domingos de Gouveia é Francisco Gi-
nes, naturaes de Monção; Amaro Gonçalves,
SAN.
rio compoz frei Antonio da Conceição um
bello livro, que dedicou ao cardeal Alberto,
archiduque d'Austria, assistente em Lisboa,
como governador de Portugal, por Phihp-
pe IL
Compoz tambem um livro sobre o seu
triste captiveiro, e trabalhos e supplicios que
n'elle soffreu, descrevendo as cousas com
uma suavidade que encanta.
D'este livro se vê que, depois de muitás
afirontas, fomes e miserias, o manietaram,
metteram em uma horrivel masmorra, por
não poder logo pagar uma grande quantia
de dinheiro que pediu emprestado, sob sua
palavra, para resgatar muitos captivos, que
jaziam. em ferros, e que elle temia viessem
a perder a fé, à força de supplicios.
N'esta masmorra terminou seus dias, este
bemaventurado martyr da Fé e da Caridade.
1590—Fundação do mosteiro de S. João
Baptista (vulgô, S. João do Pereiro) de fra-
des arrabidos; no logar onde tinham um pa-
lacio, os duques de Bragança. ;
Lançou-lhe a primeira pedra da egreja, o
duque, D. Theodorico II.
(Vide o anno 1470.)
1592—0 arcebispo de Lisboa, D. Miguel
de Castro, faz doação do palacio que a mi-
tra tinha em Santarem, aos terceiros regu-
lares de Jesus, para fundarem o seu mos-
da villa de Collares (Cintra) e João, de Pa-
riz.
Seus corpos foram trazidos a Portugal, em
1641, e collocados na capella de S. João Ca-
pistrano, da egreja de S, Francisco da Ci-
dade, de Lisboa.
Os cinco martyres de Marrocos, mais fa-
mosos, tinham sido degolados, tambem n'es-
ta cidade, a 16 de janeiro de 1220. Eram
frades franciscanos, e se chamavam — Ber-
nardo, Pedro, Adjuto, Acurçio, e Otto. Eram
italianos, e vieram por terra a Pas tugal pa-
ra hirem para a Africa.
Estiveram algum tempo em Ae ua e
n'outras partes, sendo tratados .com a maior
amabilidade, pela infanta D Sancha, filha de
D. Sancho I (irman da rainha Santa Mafalda
—a de Arouca.)
Prégaram publicamente o Evangelho pe-
las ruas e praças de Marrocos, pelo que fo-
ram presos e levados à presença do impe-
rador, e foram por elle proprio degolados.
(Vide Alemquer.)
SAN
teiro de Nossa Senhora de Jesus, cuja fun-
dação teve logar em 1617.
Era n'este velho palacio que D. Diogo e
os seus cumplices, se reuniam para os seus
conciliabulos contra a vida de D. João II.
(Vide o anno 1484.)
4593-—Morre na sua quinta de Bairro-Fal-
cão (Santarem) e alli foi sepultado, D. Ma-
muel de Quadros, natural de Santarem.
Era filho de Manuel de Quadros e de D-
Isabel Pereira, fidalgos de antiga geração.
Professou na congregação da Companhia
de Jesus.
Graduou-se licenceado em direito cano-
nico, na universidade de Coimbra, em 1546,
sendo alumno do collegio de S. Miguel, que
existia na mesma universidade, e onde de-
pois se estabeleceu o tribunal do Santo Of-
ficio.
Foi inquisidor na Inquisição d'Evora, no-
meado pelo cardeal D. Henrique, inquisidor
geral (depois rei) tomando o juramento, a
25 de novembro de 1559.
O mesmo D. Henrique o transferiu para
a Inquisição de Coimbra, tomando posse, a
5 de abril de 1565.
Foi depois promovido a um dos logares
do conselho geral, a 14 de dezembro de 1570,
hindo residir com o mesmo cardeal, para
Evora.
Nºeste mesmo anno de 14570, o fez o papa
S. Pio V, arcediago do bago da Sé d'Evora,
de cujo logar tomou posse a 27 de maio do
mesmo anno.
O rei D. Sebastião o nomeou deputado da
mesa da consciencia e ordens, em 1572.
D. Philippe II, por provisão de 9 de mar-
ço de 4583, o nomeou 4.º reformador da
universidade de Coimbra, sendo reitor della
D. Nuno de Noronha.
Tendo D. Philippe II deposto o bispo da
Guarda, D. João de Portugal (por se não
bandear com os castelhanos) aquelle usur-
pador nomeou D. Manoel de Quadros, bis-
po da Guarda, em 4585, sendo confirmado
pelo papa Xisto V.
Parece que por fim cahiu no desagrado
do usurpador, ou do cardeal Alberto, e re-
signando a mitra se retirou para a sua quin-
ta de Bairro-Falcão, onde falleceu.
SAN 909
14604-—Reedificação do mosteiro de frades
dominicanos de Nossa Senhora da Oliveira,
que D. Affonso II tinha fundado.
1610 (16 de novembro) — Morre em Elvas,
D. Antonio de Mattos e Noronha, natural de
Santarem. 1 Procedia de uma nobre familia,
e foi varão de muita virtude e grande intel-
ligencia.
Foi inquisidor-geral d'este reino. D. Phi-
lippe II o nomeou bispo d'Elvas, em 17 de
novembro de 1591, e foi sagrado pelo car-
deal D. Gaspar de Queiroga, arcebispo de
Toledo, no real mosteiro dos descalços, de
Madrid (que a princeza D. Joanna, mãe do
nosso rei D. Sebastião, havia fundado.)
Tomou posse do bispado, em 15 de mar-
ço de 1592, sendo um prelado zelosissimo
no cumprimento dos seus deveres.
Fulleceu no dia referido, e foi sepultado
na capella-mór da Sé Cathedral.
1611—Morre no mosteiro de S. Francisco,
de Santarem, o veneravel irmão leigo, frei
Romão, nascido na povoação do Alfange, na
Ribeira,
Era filho de um barqueiro e elle o foi
tambem.
Casou com uma mulher que muito ama-
va, é que morreu pouco depois de casada.
Affiicto com esta perda, e desejoso de fu-
gir do mundo, tomou o habito de religioso
converso, no mosteiro de S. Francisco dos
observantes, de Santarem, e foi em toda a
sua vida um frade exemplarissimo.
* Exerceu por muitos annos o emprego de
porteiro do convento, é o povo o denomina-
va pae dos pobres, pela muita caridade que
sempre usou com elles.
Era tão rigoroso nas penitencias que se
impunha, que esteve muitos annos sem co-
mer carne nem peixe.
Falleceu com geral fama de santo.
1613-Rebdifica-se a egreja parochial de
S. Nicolau, templo antiquissimo, que tinha
sido devorado por um incendio.
1614 (março.) — Morre em Gôa, o pa-
1 Era tio de D. Sebastião de Mattos e No-
ronha, arcebispo de Braga, famoso pela sua
traição contra a vida de D. João IV, e con-
tra a independencia da patria.
Vide Lisboa, no anno 1641
910 SAN
dre Nicolau Pimenta, natural de Santarem,
da Companhia de Jesus, e visitador das pro-
vincias da India.
Escreveu e publicou:
Cartas que o padre Nicolau Pimenta, da
Companhia de Jesus, visitador nas partes do
Oriente, da mesma Companhia, escreveu ao
geral della, a 26 de novembro do anno de
-1599,eno 1.º de dezembro de 1600, nas quaes,
entre algumas cousas notaveis e curiosas,
que conta de diversos reinos, relata o suc-
cesso da insigne victoria que André Furtado
de Mendonça alcançou do Cunhal, etc. —Lis-
boa, 1602. à
É um livro raro e muito es-
timado. Foi traduzido em di-
versas linguas estrangeiras.
Apezar de ser em 12.º, e ter
apenas 411 paginas, tem-se
vendido algum original portu-
guez que apparece, a 78000
réis.
1615 (novembro.)—Nasce em Santarem,
e é baptisado na egreja parochial de Mar-
villa, Diogo da Costa.
Morreu n'esta mesma cidade (então villa)
em 25 de agosto de 4721, com 405 annos e
-9 mezes de edade, sendo coveiro da Miseri-
cordia.
Até quasi à sua morte, andou na melhor
disposição de corpo e de espirito, e sem pre-
cizar bordão. ,
Tinha excellente memoria, e sabia onde
tinham sido enterrados os paes, avós e bis-
avós das pessoas mais velhas de Santarem.
Na edade de 105 annos, esteve apregoado
para casar com uma rapariga de 24 annos;
o que se não levou a effeito, por ella se ter
arrependido.
1617 — Fundação do mosteiro de Nossa
Senhora de Jesus, de terceiros*regulares de
Jesus.
1621-—Fundação do collegio de Nossa Se-
nhora da Conceição, dos padres jesuitas.
Os jesuitas entraram pela
primeira vez em Santarem, a
7 de maio d'este anno, sob o
governo do reitor, padre Ma-
thias de Sá.
SAN
Foi seu fundador, D. Duarte da Costa, ar-
meiro-mór, que se fez depois, padre jesuita.
Foi fundado no antigo mosteiro de Santo
Antão.
(Vide 1410, 1550, Mosteiro de Santo An-
tão, e seminario patriarchal.)
1640 (5 de dezembro.) — Foi Santarem a
primeira terra, depois de Lisboa, que fez a
acclamação official de D. João IV.
1647 (janeiro.)—Morre em Santarem, Leo-
nel da Costa, natural d'esta cidade, onde
nasceu em anno que se ignora.
Foi militar de profissão, e era muito ver-
sado nas linguas grega e latina.
Escreveu e publicou as obras seguintes :
1.º—Eclogas e Georgicas de Virgilio. Pri-
meira parte das suas obras, traduzidas do
latim, em verso solto portuguez, com a ex-
plicação de todos os logares escuros, histo-
rias e fabulas que o poeta tocou ; e outras
curiosidades muito dignas de se saberem.
Lisboa, imprensa de Geraldo da Vinha, 1624.
—Nova edicção, Lisboa, na officina de Mi-
guel Manescal da Costa, 1761.
Ambas estas edições são hoje raras.
- —
2.2 Às primeiras quatro comedias de Pu-
blio Terencio Africano, traduzidas do latim,
em verso solto portuguez. por Leonel da Gos-
ta, natural da villa de Santarem : dadas à
luz, com todo o texto latino em frente, por
Jorge Bertrand. Lisboa, na officina de Si-
mão Thadeu Ferreira, 1788 a 1789. Dous
volumes.
É obra hoje muito estimada.
3.2 — Ordem, ou construição lutteral por
palavra, das primeiras quatro comedias de
Terencio. Lisboa, na officina de Simão Tha-
deu Ferreira, 1790. —Dous volumes.
É um dos livros a que os estudantes cha-
mam—pae velho.
42—A conversam miraculosa da felice Ae-
gypcia penitente, Santa Maria. 1 Sua vida e
morte. Composta em redondilhas. Lisboa,
4627—2.º edicção, 1674.
1 Santa Maria Egypciana.
SAN
1618 — Fundação do mosteiro de Santa
Thereza, de frades carmelitas descalços. |
1654 (29 de dezembro.) — Morre no mos-
teiro do Monte Carmello (Asia) o padre frei
Basilio de S. Francisco, natural de Santa-
rem.
Professou em Italia, na ordem dos carme-
litas descalços.
Depois, com. licença dos seus prelados, foi
promulgar o Evangelho na Persia.
Passados tempos, o mandou o geral da
sua ordem, edificar um mosteiro na ilha de-
serta de Baçorá, o que levou a effeito, por
consentimento do baxá d'aquella provincia.
Governou este mosteiro 13 annos, e foi o
4.º sacerdote que alli disse missa e prégou
o Evangelho, em trez linguas — persa, ará-
bica, e turca.
Passando depois ao Monte Carmello, foi
um dos seus restauradores, e 2.º prelado.
Foi sepultado na egreja d'este mosteiro:
1664 (25 de janeiro.) —Estando em San-
tarem D. Affonso VI, assistiu a uma missa
cantada, na capella real, de Nossa Senhora
da Piedade, (frades agostinhos descalços) e
em seguida, lançou, com apparatosa cere-
monia, a primeira pedra, para a fundação
do novo templo da mesma Senhora.
Na pedra foi gravada esta inscripção:
DEIPARAE VIRGINI À PIETATE DOMINATA,
ALPHONSUS VI LUSITANIAE REX,
QUOD EJUS OPEA AD MIRACULUM INSIGNI
JOANNEM AUSTRIACUM PHILIPPI IV
CASTELLAE REGIS FIÍLIUM,
PUGNA CANALENSI, SEXTO IDUS
JUNIAS AN. DNI. MDCLXII
CIRCA STREMOTIUM COMMISSA,
PROFLIGAVERIT
HOC SACELLUM IMPENSIS SUIS
FACIENDUM CURAVIT, PRIMUNQUE
FUNDAMENTORUM LAPIDEM
PROPRIA MANU, IN AETERNUM,
GRATI, DUSTIQUE ANIMI
MONUMENTUM POSUIT
SEQ. ANNO OCTAVP KAL. FEBRUAR.
(Á Virgem, Mãe de Deus, denominada da
Piedade, Affonso VI, rei de Portugal, porque
com o auxilio milagrosamente insigne d'Ella
(ou verdadeiro milagre) derrotou a D. João
d'Austria, filho de Philippe IV, rei de Cas- |
tella, na batalha do Canal, no 6.º dia antes
SAN 914
dos idos de junho, do anno 1663, junto a
Extremoz. Este templo mandou fazer à sua
custa, e lançóu, por sua propria mão, a pri-
meira pedra dos fundamentos : para monu-
mento eterno da sua devota gratidão, no
anno seguinte (ao da batalha) no 8.º dia an-
tes das kalendas de fevereiro. (24 de janeiro
de 1664.)
A inscripção é muito mais extensa, mas,
para não enfadar o leitor, só copiei o prin-
cipio della, que é o principal.
Como se vê da inscripção, o rei portuguez
erigiu o novo templo a Nossa Senhora da
Piedade, em acção de graças, pela gloriosa
victoria do Gannal (ou Ameixial.) Vide vol.
1.º, pag. 195, col 1.º, e o artigo— Antiga er-
mida de Nossa Senhora da Piedade.
Benzeu o terreno para a egreja, o bispo
de Targa, D. Francisco Sotto-Maior, bispo
eleito de Lamego, que servia então de capel-
lão-mór do rei. (Vide Ermida da Senhora
de Guadalupe.)
1666 (28 de fevereiro) —Morre no cod-
vento de freiras agostinhas, de Santarem
(hoje dominicas) a rainha D. Luiza Maria
Francisca de Gusmão. Tinha entrado para
este mosteiro, a 17 de março de 1663. Era
filha de D. Joao Manuel Peres de Gusmão,
8.º duque de Medina-Sidonia, e viuva de D.
João IV, de Portugal, do qual teve sete fi-
lhos, que foram (por ordem de edade)—1.º,
D. Theodosio, que tomou o titulo de principe
do Brasil, ficando desde então (1649) este
titulo annexo aos primogenitos dos nossos
reis. Morreu, solteiro e sem filhos, a 15 de
maio de 1653, em vida de seus paes—2.º,
D. Anna, que morreu de pouca edade—3.º,
D. Joanna, que morreu solteira—4.º, D. Ga-
tharina, rainha da Gran-Bretanha, por ca-
sar com (Carlos II. (Vide no 4.º voi., pag.
131 — Palacio da Bemposta) — 5.º, D. Ma-
nuel, que morreu creança—6.º, D. Affonso,
que foi 6.º do nome. Tinha sido jurado prin-
cipe herdeiro, em 1653, por morte de D. Theo-
dosio. Nasceu em Lisboa, a 26 de agosto de
4643, e falleceu no palacio real, de Cintra, a
12 de outubro de 1662, despojado da corôa,
e vendo passar a esposa a segundas nupcias,
em sua vida, com seu irmão, o infante D. Pe-
912 SAN
dro. Tinha apenas 40 annos de edade.— 7.º, D.
Pedro, depois 2.º do nome. Nasceu em Lisboa,
a 26 d'abril de 1648. Em 22 de novembro de
1667, tomou posse da regencia do reino, por
incapacidade do rei seu irmão. Em 27 de
janeiro de 1668, foi jurado principe herdeiro.
Em 2 d'abril do mesmo anno, casou com
D. Maria Francisca Isabel de Saboia, filha de
Carlos Amadeu de Saboia, duque de Ne-
mours, a qual tinha casado com D. Affonso
VI em 27 de, junho de 1666.1
Foi acelamado rei de Portugal, em 12 de
setembro de 1683. Fallecendo a rainha, em 27
de dezembro d'este anno, D. Pedro II passou
a segundas nupcias, em 1687, com D. Maria
Sophia Isabel de Neubourg, filha de Wilhel-
mo, conde palatino do Rheno. O rei falleceu
em Lisboa, a 5 de dezembro de 1706.
Alem dos sete filhos legitimos que ficam
mencionados, teve D. João IV. uma filha
bastarda, a infanta D. Maria, que falleceu
recolhida no mosteiro de carmelitas descal-
ças de Carnide.
D. Affonso VI, não teve filhos, legitimos,
nem bastardos.
D. Pedro II, teve da primeira mulher, a
princeza D. Isabel, que morreu solteira, a
21 de outubro de 1690.
Do segundo matrimonio, teve sete filhos,
que foram, por ordem de edades—1.º, D.
João, que morreu de pouca edade—2.º, D.
João, que lhe suecedeu na coróa, e foi 5.º
do nome—3.º, D. Francisco, 4.º, D. Antonio
e 5.º, D. Thereza, todos tres fallecidos de
pouca edade—6.º, D. Manuel—7.º D.Fran-
cisco. |
Teve trez filhos bastardos—1.º, D. Luiza,
que foi a segunda mulher de D. Jayme, du-
que do Cadaval—2.º, D. Miguel, que casou
1 O processo para nullidade d'este casa-
mento, é uma das cousas mais ignobeis e
escandalosas que se tem visto em Portugal,
e talvez na Europa!—Vide Causa sobre a
nullidade do matrimonio da rainha D. Ma-
ria Francisca Isabel de Saboia, contra D.
mo VI— Lisboa, typographia universal,
SAN
com a filha e herdeira dos marquezes d'Ar-
ronches—3.º, D. José.
1667 (março) —Falleceu em Santarem um
menino, chamado Manoel, creado por uma
beata, serva de Nossa Senhora da Piedade.
Nascêra a creança aleijada, e, tendo re-
cuperado a saude, a ama atltribuiu esta cura
a milagre d'aquella Senhora.
A beata fez lhe um enterro magnifico ;
mas, como a morte fôra repentina, o povo
principiou a murmurar, o que chegou aos
ouvidos das auctoridades; e, passados 18
dias, foi o cadaver desenterrado, por ordem
da justiça, e se procedeu a exame. Achou-se
sem a minima corrupção, e viçosas as flores
com que havia sido sepultado. Despindo-
se-lhe a mortalha, viu-se que tinha as cos-
tas cobertas de chagas e contusões; as mãos
e pés, furados; e, em redor da cabeça, va-
rias feridas, como de espinhos; o que pro-
vou que o desgraçado menino tinha sido
martyrisado pela maldita beata, que lhe fez
o mesmo que os judeus fizeram a Jesus
Christo |
A mulher foi logo presa e remettida ao
tribunal da Inquisição, onde é provavel que
lhe fizessem peior do que ella fez à sua vi-
ctima.
A dois de dezembro do mesmo anno, nasce
em Santarem, o padre mestre, frei João de
Azevedo. Era filho de Antonio d'Azevedo
Pereira, natural da freguezia de Santo Es-
tevão d'Alfama, em Lisboa—e de D. Iria de
Ábreu Córdova, nascida na freguezia de S.
Martinho, de Santarem, filha de Antonio de
Abreu Córdova e D. Antonia de Góes, tam-
bem naturaes de Santarem.
Foi baptisado na egreja de Santa Maria de
“Marvila, a 2 de janeiro de 1668, sendo pa-
drinho o conde da, Torre, e o 4.º marquez
da Fronteira. —Professou no convento dos
agostinhos de Santarem, em novembro de
1687. Foi grande philosopho e theologo, len-
do estas faculdades muitos annos na sua or-
dem.
* Depois de jubilado, o mandou o provin-
cial, à cidade do Porto crear novos estudos,
no convento da sua ordem.
SAN
Foi doutor em theologia, examinador das
trez ordens militares e examinador synodal
do arcebispado de Lisboa Oriental.
Foi nomeado theologo da Bulla da Santa
Crusada, e era um orador eloquentissimo.
Foi tres vezes prelado da sua ordem, sendo
a ultima, do convento de Nossa Senhora da
Graça, de Lisboa, Escreveu alguns livros,
entre elles, o— Tribunal contra os confesso-
res sollicitantes, em latim—Tribunal de de-
senganos, em portuguez— Tribunal de Pane-
gyricos, tambem em portuguez—mais esere-
veu em latim, um tratado— De conscientia,
outro—De sacramento penitentiae—outro—
De reservatis in communi —outro—De reser-
vatis in particulari, e outros muitos trata-
dos em latim, tudo sob o titulo geral de Tri-
bunal theologo-morale (que, com mais pro-
priedade. podia denominar — Vastissimo ar-
mazem de somno.)
Todas estas obras tiveram muita estima-
ção no seu tempo, entre os frades da sua
ordem, e mesmo entre os de outras reli-
giões ; e devemos confessar que abundavam
em erudição... e pedantismo; mas que
lhe deram fama de grande sabio.
1670 —Nasce em Santarem, Antonio Jorge
Machado, que exerceu aqui a advocacia.
Escreveu o—Tractatus juridicus de captura
reorum. Falleceu aqui, em 1729.
No mesmo anno, a 22 de julho, morre,
no collegio dos trinos, de Coimbra, frei Isi-
doro da Luz, natural de Santarem, religioso
da Santissima Trindade, varão de profunda
sciencia. Foi o primeiro, e unico, lente de
controversias, na universidade de Coimbra,
com honras de lente dé prima de theologia.
Escreveu 10 volumes, sobre controversias e
theologia, dos quaes se imprimiram 4 em
sua vida, e 6 posthumos.
1675-—Nasce n'esta cidade (então villa) o
doutor, Luiz de Figueiredo, formado em
philosophia e canones, pela universidade de
Coimbra. Foi depois para Madrid, onde ca-
sou. Graduou-se na universidade de Alcalá
de Henares, e voltou a Madrid, onde foi
advogado do conselho do rei, e depois, cor-
regedor em Alicante, onde falleceu, em 1720.
VS eme ro see eia pm mm amem mm
SAN 513
Escreveu varios livros, sendo o melhor,
uma Allegação de Direito.
1715-—Grande reconstrucção da real col-
legiada de Santa Maria da Alcaçova.
1722— (19 de novembro) —Horrivel tem-
pestade que causou grandes estragos em
Santarem.
N'este mesmo anno se concluiu a egreja
do mosteiro de Nossa Senhora de Jesus, de
terceiros regulares, de Jesus.
1725—É removido o magnifico mausoleu
de D. Pedro de Menezes, conde de Vianna e
de sua mulher, para debaixo do côro, e junto
á porta da egreja do mosteiro dos frades
agostinhos. D. Beatriz, mulher de D. Pedro
de Menezes, foi então achada incorrupta,
apezar de estar sepultada havia quasi 300
annos!
1731 (março) —Morre em Santarem, d'on-
de era natural, Manoel da Fonseca Burra-
lho.
Foi muito versãdo é em grammatica latina,
e nas regras de poetica.
Publicou as obras seguintes :
1.º—Luzes da poesia, descobertas no Orien-
te de Apollo; nos influxos das Musas: divi-
didas em trez luzes essenciaes—Luz 1.2, da
medida e consonancia da poesia—Luz 2.2,
do ornato da possia, e figuras que nella ca-
bem—Luz 32, do espirito da poesia, e crea- |
cam do conceyto. Offerecidas a Thomaz Ho-
mem de Magalhães, fidalgo da casa de S. M.
— Lisboa, 1724.
O Burralho, seria um gran-
de latino, mas era, com toda
a certeza, um grandissimo pe-
dante.
2.2-Foral da alfandega de sic
boa, 17242. edição, 1774.
32—Foral da cidade do Porto, dado por
el-rei D. Manuel, a 20 de junho de 1517—
Porto, 1788.
Os foraes da cidade do Por-
to, Mattosinhos, Leça, Refojos,
e Villa Nova de Gaia, foram
914 SAN
reimpressos por ordem da ca-
mara municipal do Porto, em
1823. O do Porto, já tinha sido
impresso, em 1822.
h2—Foral de Abrantes, que para refor-
mar o antigo, d'el-rei D. Affonso Henriques,
lhe deu el-rei D. Manuel, no primeiro de ju-
nho de 1510—Lisboa, 1732.
5.2— Fórma e verdadeiro traslado, dos
privilegios concedidos aos cidadãos e mora-
dores da cidade de Braga.
Não tem data, nem indicação de typogra-
phia.
É livro raro e muito estimado. !
6.:—Foral de Lisboa—Lisboa, 1790.
Em dezembro do mesmo anno de 1731,
morre frei Antonio da Piedade, franciscano,
arrabido, natural de Santarem.
Escreveu e publicou :
Espelho de penitentes, e chronica da pro-
vincia de Santa Maria da Arrabida, da re-
gular e mais estreita observancia da ordem
do serafico patriarcha, S. Francisco, no Ins-
tituto capucho—Lisboa, 1728.
O 2.º volume d'esta obra, foi
escripo por frei José de Jesus
“Maria.
São livros raros, sobre tudo 0 1.º volume,
e ainda muito estimados, pelas curiosas no-
ticias que dá da serra da Arrabida, e do
mosteiro dos capuchos.
1737 (7 de junho) —Morre no convento de
Santa Clara, com 109 annos (sendo freira
professa, desde 1673) a madre Marianna da
Fé, natural da freguezia dos Anjos, de Lis-
boa. Foi vigaria muitos annos, e era uma
freira virtuosissima.
10 meu amigo e mestre, o sr. dr. José Joa-
quim da Silva Pereira Caldas, lente de ma-
thematica e director do Lyceu nacional de
Braga, um dos mais eruditos escriptores
contemporaneos, acaba de publicar uma re-
impressão d'esta curiosissima obra, juntan-
do-lhe anotações de inestimavelmerecimento.
SAN:
1755 (1.º de novembro) —Medonho terra-
moto, que se sentiu em quasi toda a Euro-
pa, e ainda na America. Santarem soffreu
tambem muito com este terramoto.
1757 (18 d'abril)—Nasce João Diogo de
Barros Leitão de Carvalhosa, 4.º visconde
de Santarem, 1.º senhor de Pontével, Ereira
e Lapa, alcaide-mór de Santarem, Gollegan
e Almeirim, 5.º senhor do morgado de Va-
queiros, commendador da ordem de S. Thia-
go, cavalleiro da ordem de Christo, guarda-
roupa da rainha, D. Maria 1, e de el-rei D.
João VI, e seu guarda-joias, thesoureiro do:
bolsinho, guarda-tapeçarias, apontador dos
fóros dos reposteiros e moços da camara,
inspector da quinta de Belem e de todos os
paços reaes, escrivão de fazenda da real casa
de Bragança, secretario da serenissima casa
e estado do infantado, guarda mór do las-
tro, etc. (O que eu não sei, é, como elle po-
dia desempenhar todos estes cargos!...)
Succedeu na casa de seu pae, a 1ô de
março de 1806, e morreu a 42 de janeiro
de 1818.
Foi casado duas vezes—a primeira, em
1788, com D. Marianna Rita Xavier Por-
cille Okelli Ribeiro Rangel, filha e herdeira
de Antonio Bernardo Xavier Porcille, fidalgo
da casa real, do conselho da rainha D. Ma-
ria I, cavalleiro da ordem de Christo, de-
sembargador do senado da camara de Lis-
boa; e de sua mulher, D. Marianna Okelli.
Fallecendo sua primeira mulher, a 16 de
novembro de 1794, casou com D. Maria José
de Sampaio, filha de Ignacio José de Sam-
paio Freire de Andrade, fidalgo da casa real,
cavalleiro da ordem de Christo, escrivão da
fazenda da junta da real casa de Bragança,
e de D. Angelina Ignacia Pereira de Aguir-
re, que morreu a 18 d'abril de 1826. (Seu
marido, falleceu a 22 de setembro de 1835.)
Residiam no seu palacio da Rua Direita
de Buenos-Ayres, mas estavam quasi sem-
pre em Paris.
Foi feito visconde de Santarem, em 17 de
dezembro de 1811.
Teve cinco filhos:
1.º— Francisco, que foi o segundo viscon-
SAN
de de Santarem. (Vide o anno 1791—18 de
novembro.) Este era filho do primeiro ma-
trimonio—do segundo, foram :
2.º— Joaquim, que morreu sem filhos.
3.º—D. Maria Isabel, que falleceu em no-
vembro de 1828. Foi primeira mulher de
José de Mattos Góes e Caupers, fidalgo da
casa real, tenente da guarda real dos ar-
cheiros, commendador da ordem de Christo,
provedor das Vallas e Lesirias.
hº— Ignacio José, que casou com D Car-
lota Wan-Zeller. Era fidalgo da casa real, e
cavalleiro da ordem de Christo.
5.º—D. Maria Joanna, mulher de João
Miguel Paes de Faria, filho de João Paes do
Amaral e Menezes, moço fidalgo, senhor da
villa de Carapito, aleaide-mór de Villa Pouca
d'Aguiar, commendador da ordem de Chris-
to, coronel do regimento de milicias de Lis-
boa Oriental.
1791 (18 de novembro) —Nasceu em Lis-
boa, Manuel Francisco de Barros e Sousa
da Mesquita de Macedo Leitão e Carvalhosa
—2.º visconde de Santarem (vide 1757 — 18
de abril) 2.º senhor de Pontével, Ereira e
Lapa, alcaide-mór de Santarem, Gollegan e
Almeirim, 6.º senhor do morgado de Vaquei-
ros, official-mór da casa real, guarda-roupa
da rainha D. Maria 1, grão-cruz da ordem
de Sarlos II, de Hespanha, commendador
das de S. Thiago e Torre Espada, e caval-
leiro da de Christo. Foi encarregado de ne-
gocios em Coyenhague, no .anno de 1849,
guarda-mór do real archivo da Torre do
Tombo, ministro e secretario de estado dos
negocios do reino, em 1826, escrivão da fa-
zenda e cartorario da real casa de Bragan-
ça, Succedeu a seu pae, 0 1.º visconde de
Santarem, em 12 de janeiro de 1818.
Casou em 30 de novembro de 1816. com
D. Maria Amalia de Saldanha da Gama, fi-
lha dos sextos condes da Ponte, e della teve
cinco filhos: João, Antonio, D. Constança,
D. Marianna e D. Francisca.
O 2.º visconde de Santarem, falleceu, em
janeiro de 1856, e este titulo está, por em-
quanto, extincto.
Foi um esclarecido cultor das lettras, e
SAN 9145
publicou varias obras de grande mereci-
mento, sendo as principaes :
1.º—Noticia dos manuscriptos pertencen-
tes ao Direito publico de Portugal e á histo-
ria e litteratura do mesmo paiz, que existem
na bibliotheca real de Paris, e outros da
mesma capital, e nos archivos de França.
Lisboa, typographia da academia real das
sciencias, 1827.
2.º—Introducção e notas, à chronica do
“descobrimento e conquista de Guiné, por Azu-
rára. Paris, 1841,
3.º—Introducção e notas ao Leal Conse-
lheiro, do rei D. Duarte.
h4.º-—Memoria sobre a prioridade dos des-
cobrimentos portuguezes na costa da Africa
Occidental, para servir de ilustração á chro-
nica da conquista de Guiné, por Azurára.
Paris, 1841.
Esta obra é hoje rara, mas
encontra-se transcriptano Dia-
rio do Governo, de 1842, do n.º
h8 em diante.
Ha della duas traducções
em francez.
d.º-—Gorpo diplomatico portuguez, conten-
do todos os tratados de paz, alliança, neu-
tralidade, tréguas, commercio, limites, ajus=
tes de casamento, cessões de territorio, e ou-
tras transacções, entre a corôa de Portugal,
e as diversas potencias do mundo, desde o
principio da monarchia, até aos nossos dias.
Paris, 1846.
6.º— Quadro elementar das relações poli-
ticas e diplomaticas de Portugal, com as di-
versas potencias do mundo, desde o princi-
pio da monarchia portugueza, até aos nossos
dias: collegido e coordenado pelo visconde
de Santarem, e continuado pelos socios effe-
ctivos, Luiz Augusto Rebello da Silva, e José
da Silva Mendes Leal. Paris e Lisboa, 1842
a 1876.
7.:-—Essais sur Vhistoire de lu Cosmogra-
phie et de la Cartographie, pendant le moyen
q
516 SAN
age; e sur les progrês de lá Géographie, etc.,
etc. Paris, 1849 a 1852.
8:-—Demonstração dos direitos que tem a
carõa de Portugal, sobre os territorios situa-
dos na costa occidental da Africa, entre o
5.º gráu e 12 minutos, eo 8.º de latitude me-
ridional. E, por conseguinte, dos territorios
de Molembo, Cabinda, e Ambriz, Lisba, 1855.
É um folheto de 40 pagi-
nas, que tambem se acha tra-
duzido em francez, com os
mappas correspondentes, que
servem para o original e tra-
ducção.
Basta a simples enumeração dos titulos
das obras do visconde de Santarem, para se
conhecer e avaliar a sua importancia.
1795 (26 de setembro) —Nasce, no dis-
tricto da freguezia do Salvador, d'esta ci-
dade, Bernardo de Sá Nogueira de Figuei-
redo.
Era filho primogenito de Faustino José
Lopes Nogueira de Figueiredo, senhor do
prazo do Reguengo e outros; moço fidalgo,
alcaide-mór do Cadaval, commendador da
ordem de Christo, e desembargador da re-
lação do Porto, nascido a 11 de janeiro de
1767, e fallecido a 2 de setembro de 1830 —
e de D. Francisca Xavier de Sá Mendonça
Cabral da Cunha Goodolphim, nascida a 12
de outubro de 1772 e fallecida a 6 de se-
tembro de 1829—filha de Estevam de Sá e
Mendonça, senhor do morgado do Desterro,
capilão-mór da villa de Pias; e de D. Maria
Ignacia Cabral da Gunha Goodolphim.
Faustino José L. N. de Figueiredo e sua
mulher, tiveram 43 filhos, que são (por or-
dem das edades.)
1.º— Bernardo, do qual adiante trato.
2.º—D. Maria Augusta, nascida a 27 de
outubro de 1796. Casou com Luiz da Cunha
Castro e Menezes, senhor de um vinculo, na
villa de Proença, fidalgo da casa real, coro-
nel de milicias de Idanha, filho de João Phi-
lippe da Cunha Pereira de Castro e Napoles,
SAN
fidalgo da casa real, e coronel de milicias de
Castello Branco, e de D. Anna de Menezes
Pitta de Castro.
3.º— Antonio Cabral de Sá Nogueira, ca-
valleiro da ordem de Christo, provedor da
moeda, commandante do 414.º batalhão da
guarda nacional de Lisboa, deputado ás côr-
tes, secretario da embaixada para a coroa-
ção da rainha Victoria, de Inglaterra. Nas-
ceu a 7 de janeiro de 4799.
4.º—Francisco Cabral de Sá Nogueira, ca-
valleiro das ordens da Conceição, e Torre
Espada, major commandante do batalhão
nacional. Nasceu a 29 de fevereiro de 1802.
5.º— Ayres de Sá Nogueira, tenente da ar-
mada real. Nasceu a 4 de março de 1808.
Casou a 31 de maio de 1830, com D. Maria
do Patrocinio Vieira d'Abreu e Vasconcel-
los, que nascêra a 14 de novembro de 1808.
Era filha e herdeira, de Francisco Vieira de
Abreu, senhor da quinta da Torre do Fato,
em Carnide; fidalgo da casa real, cavalleiro
da ordem de Christo, secretario das embai-
xadas em França e Hespanha (sendo embai-
xadores, o conde de Villa-Verde, e Diogo
de Carvalho) e de D. Luiza Barbara de Car-
valho da Fonseca e Vasconcellos, senhora
do morgado do Desvario, no districto de
Portalegre.
6.º— Estevam de Sá Nogueira, 2.º tenente
da armada real; nascido a 28 de março de
1804, e fallecido em janeiro de 1827, a bordo
da nau D. João VI.
7.º—Narciso de Sá Nogueira, tenente de
cavalaria. Nasceu a 3 de julho de 1805, e
morreu na batalha de Ponte-Ferreira, a 22
de julho de 1832.
8.º—João Cabral de Sá Nogueira, tenente
de lanceiros. Nasceu a 8 de fevereiro de
1806. Casou, a 18 de fevereiro de 1830, com
D. Maria José d'Antas Coelho, nascida a 19
de março de 1813. Filha e herdeira de Gas-
par José d'Antas Coelho, commendador da
ordem de Christo, secretario da junta da
casa e estado de Bragança, guarda-mór do
consulado geral da sahida da casa da India.
9.º—José Cabral de Sá Nogucira, capitão
de lanceiros, nascido em 15 de agosto de
1807. ;
10.º— Augusto de Sá Nogueira, guarda-ma-
SAN
“rinha. Nasceu a 21 de maio de 1810, e mor-
reu em julho de 1832.
414.º— Rodrigo de Sá Nogueira, cavalleiro
da ordem de Torre Espada, tenente da ar-
mada real. Nasceu à 28 de março de 1814.
12.º—D. Maria Brisida de Sá Nogueira,
nascida a 31 de agosto de 1813. Casou com
José Alvo Pinto de Sousa, filho dos segun-
dos viscondes de Balsemão.
13.º— Faustino de Sá Nogueira, alferes,
ajudante de ordens do governador da India.
Nasceu em 18144, e morreu a bordo, quando
hia para aquelle estado, em 1837.
Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo,
foi feito 1.º barão de Sá da Bandeira, a &
de abril de 1833. Visconde do mesmo titu-
lo, no 4.º de dezembro de 1734, e marquez,
a 43 de fevereiro de 1864. Foi feito par do
reino, em 14834.
Era grão-cruz da ordem de Christo, e da
de Torre Espada, ! condecerado com a me-
dálha d'ouro (0.º 4) pelas quatro campanhas
da guerra pedinsular, em 25 de dezembro
de 1820. Foi numerosissimas vezes minis-
tro, como adiante direi.
Succedeu na casa, a seu pae, a 2 de se-
tembro de 4830, herdando a quinta do Re-
guengo, no districto de Santarem.
Sentou praça, voluntariamente, no regi-
mento de cavallaria n.º 41, em 4 de abril
de 1810, sendo logo reconhecido cadete.
Foi despachado alferes, para o regimento
de cavalaria n.º 10. a 145 de dezemdro do
mesmo anno.
1 Foi feito official da ordem de Torre Es-
pada, em 6 de outubro de 1832, pela sua
bravura, no combate da Bandeira, de 8 de
setembro de 1832, onde perdeu o braço di.
reito, commendador da mesma ordem, em
h de outubro de 1833, e grão-cruz da mesma
ordem, em 9 de julho de 1860.
Era tambem grão-cruz da ordem da Rosa,
-no Brasil; de Leopoldo, da Belgica; de S.
Mauricio e S. Lazaro, da Italia; de Carlos HI,
e de Isabel a catholica, na: H-spanha; do
Cruseiro do Brasil; de S. Salvador, da Gre-
cia; de Francisco José, da Austria; de 8.
Gregorio Magno, de Roma; de Santa Rosa,
do merito militar, da republica de Hondu-
ras; e, finalmente, grande vfficial da Legião
de Honra, de França.
VOLUME VIII
SAN 917
Tenente de cavallaria n.º 4, em 6 de ju-
nho de 18142.
No combate que houve junto ao logar de
Viela, perto de Tarbes (Jepartamento de
Gers-França) ficou ferido gravemente, e pri-
sioneiro dos francezes, no dia 13 de março
de 1814.
Com a paz geral. de Paris, em 30 de maio
d'esse anno, regressou a Portugal.
Em 15 de outubro de 1815, obteve licen-
ça para os estudos, e matriculou-se logo na
academia de fortificação, artilheria e dese-
nho; e frequentou os e-tu los mathematicos,
desde o 1.º de maio de 1816.
Prompto para o serviço, no fim de julho
de 1817.
Tornou a matricular-se em mathematica,
e fui dado por prompto para o serviço, em
26 de junho de 1818; e n'esse mesmo anno
(a 20 de outubro) matricu!ou-se em mathe-
matica; na universidade de Coimbra.
Foi promovido a capitão de cavallaria
n.º 4, em 41 de maio de 14819, e fui dado
prompto para o serviço, no 4.º de julho de
1820.
Foi estudante tão applicado, que obteve
diversas distincções; e na guerra, bravo mi-
litar, ganhando varias condecorações.
Em 1820, declarou-se liberal.
Em abril de 1821, pediu licença para hir
alistar-se nas fileiras dos revolucionarios na-=
politanos, o que lhe foi concedido. Atraves-
sou a Hespanha e os Pyreneus, e sabendo
em França que os revoluionarios italianos
tinham sido derrotados pelo rei legitimo,
não passou de Paris, ond» se aperfeiçoou
nos estudos, desde 26 de agosto do referido
anno de 1821, até 30 de setembro de 1824.
Regressando a Portugal, fui addido ao real
corpo de engenheiros, por decreto de 16 de
fevereiro de 1825.
Obteve licença para frequentar os estudos
em Inglaterra, por portaria de 21 de março
do mesmo anno, e cursou os estudos em
Londres, desde o 4.º d'abril até 31 de março
de 1826.
Regressando a Portugal, foi nomeiado as-
sistente da divisão Hberal de operações, em
12 de outubro; e, a 27 de novembro foi addi-
do ao estado-maior-general do visconde de
33
918 , SAN
Beire, governador das armas do Alemte-
jo. Assistiu aos combates de Coruche, da
Beira-Baixa, em 9 de janeiro de 18271! e
aos de Ponte do Prado e da Barca, onde os
realistas foram batidos. Bernardo de Sá No-
gueira fui feito major graduado, por distin
ção n'estes combates, em 15 de março do
mesmo anno, e major effectivo, logo a 19 de
julho. No 4.º de setembro, foi nomeado aju-
dante d'ordens do conde de Villa-Flor, exer-
cendo esta commissão, até 10 de março de
1828. ;
Fugiu de Lisboa, escondidamente, e foi
apresentar-se no Porto, aos revoltosos de
16 de maio, sendo nomeado commandante
dos engenheiros, no 1.º de junho,
Derrotados osliberaes, em differentes com-
bates, desde a Cruz dos Morouços até ao
Vouga, retiram para o Porto.
Sá Nogueira, não imitou os seus chefes,
que fugiram para a Inglaterra, quando vi-
ram a sua causa perdida, abandonando as
tropas que tinham induzido à revolta; mas,
sustentou a honra do seu posto, e no dia 8
de julho de 1828, emigrou para a Galliza
com as tropas que se não haviam entregado
aos realistas.
Da Galliza embarcou para a Inglaterra, e
de lá, em 1829, em um navio mercante que
hia para o Brasil, e conduzia emigrados para,
na volta, d-ixar na Ilha Terceira; mas, ao
voltar do Brasil, 0 navio cahiu em poder dos
navios realistas do cruseiro.
Foi levado como prisioneiro, para a ilha
de S. Miguel, mas, escondido pelo capitão
do navio, conseguiu fugir para a Terceira,
onde chegou a 12 de dezembro de 1829;
sendo logo a 14, nomeado ajudante d'ordens
do conde de Villa-Flor, que tinha sido feito
pelos liberaes govervador e capitão-gene--
ral dos Açores; e, em 16 de março de 1832,
foi nomeado ajudante de campo dó sr. D.
! Commandava os realistas o famoso mar-
quez de Chaves, e os libsraes, o conde de
Villa-Flor (depois duque da Terceira.) Os
realistas foram batidos, em razão do seu
desanimo, por ter entrado em Lishoa (24 de
dezembro de 1826) a divisão ingleza, de
Clinton, forte de 40:000 homens, em auxi-
lio dos liberaes.
SAN
Pedro, e, como tal, acompanhou o seu exer-
cito, desembarcando em Portugal a 8 de ju-
lho de 1832; 1 e logo a 27, foi nomeado go-
vernador militar do Porto, e inspector dos
batalhões nacionaes que alli então se forma-
ram.
Em 6 de agosto do mesmo anno, foi feito
tenente coronel, continuando na mesma com-
missão.
Em 8 de setembro, os liberaes fazem um
desembarque na praia de Villa Nova de
Gaia, e ao mesmo tempo, uma sortida da
serra do Pilar. Ambas estas tentativas foram
infelizes, sendo os liberaes derrotados. Sá
Nogueira, foi gravemente ferido no braço
direito, que teve de lhe ser amputado. Nun-
ca perdoou “aos realistas esta mutilação,
nem a morte de seu irmão Narciso, na
primeira batalha de Ponte Ferreira, como
fica dito. (Vide 7.º vol., pag. 498, col. 1.2 no
fim, e seguinte.) D'ahi a dois mezes já es-
tava completamente curado e prompto para
o serviço |! Por distincção, pela bravura com
que se portou n'este combate, fazendo reti-
rar as suas tropas que escaparam em boa
ordem para a serra do Pilar, é que foi feito
barão de Sá da Bandeira; porque no sitio
da Bandeira, logo abaixo da capella de Santo
Ovidio, de Villa Nova de Gaia. é que elle
foi ferido, vindo em retirada do sitio da tal
capella, até onde tinha chegado com os seus
soldados.
Em 40 de novembro, foi nomeiado minis-
tro da marinha, e a 48, tambem interino do
reino; empregos que exerceu até 29 de maio
de 1833.
Em 24 de março de 1833, foi ferido no
ataque do monte das Antas (arrabaldes do
Porto) e ainda tornou a ser ferido levemente
por duas vezes, até maio de 1834.
Foi feito coronel, em 25 de julho de 1833.
1 Os liberaes pretenderam desembarcar
em Villa do Conde, onde estava 0 general
José Cardoso, com a sua brigada. O gr. D.
Pedro, mandou Sa Nogueira como parla-
mentário ao general realista, que lhe res-
pondeu — Eu só reconheço o sr. D. Pedro,
como um chefo de aventureiros e de...
elc., etc. — Vá-se embora, e ge vossé, ou ou-
tro, cá for mandado para o mesmo fim, man-
do-o fuzilar.» (Vide Villa do Gonde.)
SAN
Em 28 de agosto de 1833, foi feito gover-
nador da praça de Peniche, e n'esta quali-
dade teve um pequeno eombate com os rea-
listas, junto a Obidos, fazendo-os retirar.
Foi exonerado do governo da praça de
Peniche, em 14 de outubro do mesmo anno,
para ser nomeado commandante de uma di-
visão de operações no Algarve, a 17 d'esse
mez, logar que exerceu até 15 de novembro.
Em 17 de fevereiro de 1834, fui feito go-
vernador militar do Algarve, sendo exone-
rado logo a 27 de maio.
Em 18 de novembro de 1835, foi nomeado
ministro da marinha e interino do reino,
do que foi exonerado em 19 de abril de 1836.
N'este mesmo anno foi feito par do reino,
tomando logar entre os republicanos, e a 10
de setembro foi feito ministro da fazenda e
dos estrangeiros, sob a presidencia do conde
de Lumiares.
Exonerado em 4 de novembro, é a 5 feito
presidente do conselho de ministros, e minis-
tro dos estrangeiros.
No dia seguinte, encarregado interina-
mente da pasta da guerra.
Em 27 de maio de 1837, foi encarregado,
interinamente, da pasta da maribha, mas,
no 1.º de junho foi exonerado dos trez car-
gos, ficando só com a presidencia, de que
foi exonerado no dia seguinte.
Em 14 de julho, foi nomeado logar-tenente
da sr. D. Maria II, nas provincias do norte.
Em 40 da agosto, foi feito presidente do
conselho de ministaos e ministro interino da
marinha.
Tendo os marechaes Saldanha e Terceira
feito a revolta para o restabelecimento da
carta, em julho d'este anno, Sá Nogueira,
desampara a causa da sr. D. Maria, e ban-
deando-se com os setembristas, combate, a
27 de agosto, ao lado d'elles, contra os ma-
rechaes, no Chão da Feira, junto à villa da
Batalha, obrigando estes a retirar para Traz-
os-Muntes.
A 5 de setembro, é feito Prigadlira gra-
duado, e effectivo a 27.
A 9 de outubro, é exonerado de logar-
tenente da rainha; e a 25, exonerado de mi-
nistro interino da marinha.
Era 9 de novembro, é nomeado ministro
SAN 519
dos estrangeiros; e, interinamente, da guerra
e marinha, a 9 de março de 1838.
Em 47 d'abril, é exonerado da pasta da
guerra.
Em 148 d'abril de 1839, é exonerado de
presidente do conselho de ministros e das
pastas dos estrangeiros e.marinha.
Em 16 de dezembro de 1840, é nomeado
commandante da:7.º divisão militar, e gover-
nador da praça d'Elvas, do que foi exone-
rado, a 12 de fevereiro de 1841.
Em 7 de fevereiro de 1842, foi nomeado
ministro da guerra, e exonerado logo a 9!
Voltou então a tomar assento na camara
dos pares, onde figurou na vanguarda da
opposição ao governo.
Em 1845, adheriu ao movimento progres-
sista, que o gabinete presidido pelo duque
de Palmella, se incumbiu de dirigir.
Foi nomeado commandante geral da guar-
da nacional de Lisboa, em 23 de junho de
1846, e ministro da guerra, a 49 de julho—
tudo pela patuleia.
Restabelecendo-se em Lisboa o governo da
carta, pelo golpe de estado (emboscada) de
6 de outubro de 1846, foi no mesmo dia
exonerado de ministro da guerra.
Sahe de Lisboa, e vae unir-se às tropas
da junta do Porto.
O barão do Casal, general cartista, vem
sobre o Porto: Sá Nogueira o obriga a re-
tirar para Traz-os-Montes.
A junta o nomeia commandante da divi-
são de operações n'aquella provincia, para
onde marcha, em perseguição do Casal, e o
ataca em Valle-Paços, a 15 de novembro;
mas, tendo-lhe desertado para os cabralis-
tas os regimentos 3 e 45 de infanteria, foi
derrotado, tendo de fugir para o Porto, pelo
Douro.
(Vide 7.º volume, pag. 367, col. 2.2, e a
sua nota.)
Chegando ao Porto, tratou com o maior
cuidado e attenção de fortificar a cidade e
a serra do Pilar, e de dar melhor organisa-
ção aos numerosos batalhões de voluntarios
da junta; concorrendo tambem para a crea-
ção do novo regimento de cavallaria do
Porto.
Depois da derrota do conde do Bomfim,
920 SAN
em Torres Vedras (23 de dezembro de 1846)
pelo general cabralista, Saldanha, Antas, que
estava em: Santarem, retira com as suas tro-
pas, e com os poucos que escaparam de Tor-
res Vedras, para o Porto.
A junta dispunha de uma esquadra de
vapores, superior em pumero à dos cabra-
listas, ! pelo que pôde reforçar as suas tro-
pas do sul, mandando para o Algarve uma
divisão, às ordens de Sá Nogueira, que se
reuniu, em; Evora, ás tropas do conde de
Mello, e marcharam sobre Setubal, onde jun-
taram uma força respeitavel sob as ordens
de Sá Nogueira.
O general cabralista, conde de Vinhaes,
marcha ao encontro das tropas da junta, e
no 4.º de maio de 1847, tem logar o comba-
to do Alto do Viso, iunto (ao O.) de Setubal,
perdido pelas tropas -da junta, que retiram
para a cidade, onde se fazem fortes; porém
Sa Nogueira, julgando-se em uma posição
critica, foge, a 14 de junho, para bordo de
um navio inglez, que estava fundeado no
Sado, abandonando as snas tropas, as quaes,
vendo-se sem o chefe, que até alli lhes me-
recêra a mais plena confiança, fogem des-
ordenadamente, por onde podem, hindo o
maior numero em direcção do Sul, perse-
guidas até ao Algarve pelos cabralistas. 2
Este acto de Sã Nogueira,
foi uma nodoa indelevel, lan-
çada na sua, até alli, brilhan-
te carreira militar.
Nem deve ficar no esqueci-
mento, o que poucos dias an-
tes tinha praticado no Algar-
ve.
Um dos seus primeirosactos,
quando chegou a esta provin-
cia, foi decretar o chamamen-
to ás armas, de todos vs offi-
ciaes do exercito realista, ga-
1 A junta possuia—os dous vapores de
guerra que tinham vindo com o Terceira,
apri-ionára outros, havia tomado Os navios
do cruzeiro do Algarve, e uma corveta que |
tinha desertado para a patul-ia.
2 E notavel que, sendo Sá da Bandeira
um dos mais bravos militares do seu tempo,
fosse tão infeliz na guerra, perdendo TODAS
as batalhas que commandou!
SAN
rantindo-lhes os postos que
tinham na convenção de Evo-
ra-Monte.
Elles acreditaram as pala-
vras de um general distincto
e apresentaram-se prompta-
mente.
Quando d'ahi a 10 annos,
Sá Nogueira foi feito ministro
da guerra (como adiante direi)
aquelles briosos militares, re-
quereram o cumprimento da
promessa.
Consultado sobre o assum-
pto, pela commissão respecti-
va, da camara, respondeu:
«Ha. de cumprir-se 0 decre-
to da Ilha Terceira.»
(O que privava os officiaes
realistas dos seus postos, e
que se achava completamente
annullado pelo artigo 3.º da
convenção: de Evora-Montel)
Os officiaes redigiram um
memorial, e nomearam, entre
elles, uma commissão, para
o hirem apresentar a Sá No-
gueira, que os não quiz rece-
ber, nem ao memorial!
Em agosto de 1870, ainda
fez peior, como adiante vere-
mos.
Em 30 de maio de 1851, foi feito mare-
chal de campo.
Em 8 d'agosto foi nomeado director da
escola do exercito.
Em 6 de junho de 1856, foi feito ministro
da marinha, e interino das obras publicas,
mas logo a 25 foi exonerado d'esta ultima
pasta.
Em 23 de janeiro de 1857, foi encarrega-
do, interinamente, da pasta da guerra, sen-
do exonerado a 8 de setembro; e feito tenen-
te general, a 21 do dito mez.
Em 46 de setembro de 1858, foi feito mi-
pistro da guerra, interino; e foi exonerado
d'esta pasta e da da marinha, em 16 de mar-
ço de 4859.
Em 3 de dezembro de 1860, foi feito mi-
“nistro da guerra.
|
SAN
Em 12 de setembro de 1862, foi nomea-
do presidente interino do conselho de mi-
nistros, é ministro interino dos estrangeiros.
A 6 de outubro do mesmo anno, foi exo-
nerado d'estes exercicios interinos.
Em 14 de janeiro de 186£, foi exonerado
de ministro da guerra; e a 4 dejulho deste
anno, feito general de divisão.
Em 5 de março de 1865, foi feito minis-
tro da guerra; e, em 17 d'abril, encarrega-
do, interinamente, da presidencia do conse-
lho de ministros e da pasta da marinha.
Exonerado a 5 de septembro do mesmo
anno.
Em 24 de agosto de 1866, foi nomeado 4.º
ajudante de campo, do sr. D. Luiz; e no 1.º
de septembro, foi nomeado presidente da
commissão encarregada de resolver definiti-
vamente o systema de fortificações de Lis-
boa e seu porto.
Foi exonerado d'esta commissão em 214
de julho de 1868, e a 23, feito presidente do
conselho de ministros e ministro da guerra.
Exonerado d'estes dous exercicios, em 41
d'agosto de 1869.
Sá Nogueira e outros, tantas vezes expo-
seram ào sr. D. Luiz as torpezas da dicta-
dura Saldanha, que o rei decidiu-se final-
mente a demittir o ministerio dos cem dias,
a 29 de agosto de 1870, sendo nomeado o
marquez de Sá da Bandeira, presidente do
conselho de ministros, ministro da guerra,
e interinamente da marinha. 1
1 Os officiaes realistas exultaram com a
subida de Sá da Bandeira ao poder, suppon-
do-o um inimigo, generoso e leal, e, como
bravo militar que era, só conheceria adver-
sarios no campo da batalha. Enganaram-se!
Deviam lembrar-se do que elle lhes fizera
em 1856.
O decreto da dictadura, de 13 de agosto
d'este anno d+ 1870. mandava cumprir o es-
tipuládo no artigo 3.º da convenção d'Evo-
ra-Monte, a favor dos offi-iaes realistas não
contemplados no decreto de 23 de outubro
de 1831, Sá da Bandeira oppoz-se violenta-
mente ao cumprimento d'este justissimo de -
creto, que só tinha o defeito de vir 47 annos
mais tarde do que devia apparecer; e, mos-
trando a manga onde tivera o braço direito,
proferiu toda a casta de insultos e amea-
ças contra homens que, nem tinham quem
os defendesse, nem foram a causa d'elle es-
SAN 524
Foi uma escolha pessima
n'aquella critica conjuncta. Sã
Nogueira, contava 75 annos, é
estava trôpego, surdo e era
manêta, e muito falto de vista.
Foi exonerado a 29 de outubro do mesmo
anno. ;
Em 20 de março de 1873, foi encarregado
de dirigir as obras das fortificações de Lis-
boa e seu porto, é era este emprego que
exercia quando falleceu.
Tenho bastante pena de ter enfadado os
meus leitores, com a narrativa de tão nu-
merosas nomeações e exonerações d'este ho-
mem notavel; mas tambem já me doia a ca-
beça de colligir e pôr por ordem de datas,
aquellas subidas e descidas.
Finalmente o marquez de Sã da Bandei-
ra, faleceu, em Lisboa, na madrugada do
dia 6 de janeiro de 1876, com 80 annos, 3
mezes e 41 dias de edade. Não deixou des-
cendentes.
Era um homem honradissimo, de grande
firmeza de caracter, e de uma vastissima
instrucção.
Teve duas paixões dominantes: as forti-
ficações da cidade e porto de Lisboa, e a là-
berdade e civilisação dos negros. navio d'isto
chegou à vêr!
No coração tinha um odio implacavel—
era aos realistas, desde que o fizeram ma-
nêta.
Era muito dado a leituras instructivas, e
escrevia com muita correcção, graça e ele-
gancia.
Publicou alguns opusculos, sendo os mais
notaveis— O trafico da escravatura e o bill
de lord Palmerston, publicado êm 4840, em
portuguez, inglez e allemão:— Reflexões, so-
bre a pratica do direito eleitoral, publicadas
em 1845.—Carta do visconde de Sá da Ban-
deira, ao conde da Ponte de Santa Maria,
sobre a liberdade do voio dos officiaes mili-
tar maneta, porque os officiaes não dão fogo,
quanto mais—«Quem vae à guerra, dá e
leva.»
522 SAN
tares, publicada no mesmo anno.—Depois,
outra carta sobre a mesma questão, dirigida
ao referido general, contendo o exame das
accusações que, com auctorisação do conde
(então general em chefe do exercito) lhe ti-
nham sido dirigidas. Correspondencia entre
o visconde de Sá du Bandeira e os ministros
plenipotenciarios e-outros agentes das poten-
cias signatarias do protocollo (de Gramido)
de 21 de maio de 1847, acompanhada d'uma
carta a sua magestade a rainha, e de outros
documentos. Publicado gm 1848. Este livro
é importantissimo: para quem quizer escre-
ver com verdade a histuria da guerra civil
de 1816-4847. — Factos e considerações rela-
tivas aos direitos de Portuyal sobre os ler-
ritorios ide Molembo, Cabinda e Ambriz, e
mais logares da costa occidental da Africa,
entre o 5.º grau e 12 minutos, e 0 8.º grau
de latitude central.
É tambem um livro, pequeno em volume,
mas grande pelo seu merecimento, pois re-
sume todos os factos que protegem os nos-
sos direitos áquelle vasto territorio, eéacom-
panhado da planta topographica do paiz. de
Mossulo, levantada em 1791 e 1792; pela
planta do forte construido no rio Loge, em
1791.—Zambezia e: Sofália, mappa coorde-
nado sobre numerosos documentos, antigos e
modernos, portuguezes e estrangeiros. 1851.
—LCultura do algodão, 1862.— Carta ou map-
pa geral de Angola e Benguella. 1363. (Teve
por colaborador, o tenente coronel, Fernaa-
do da Costa Leal )— Memoria sobre as forti-
ficações de Lisboa, 1866. — Lettre adressée au
comte Goblet d' Alviella, sur Pouvrage «L'éta-
blissement des Cobourg en Portugal» acom-
pagnée d'une notice sur les évênements qu'ont
eu lieu duns ce pays, depuis 1886 jusqu'a
1839-1870. — Carta dirigida ao ex.mº gr. José
Maria Latino Coelho, sobre a reforma da
carta-constituciônal—1872.— O trabalho gu-
ralafricano e aadministração colonial, 1873.
—A sua ultima publicação, foi a—Carta di-
rigida ao ex.» sr. Joaquim Guedes de Car-
valho e Menezes, presidente da relação de
Loanda, 4.º de dezembro de 1874.
Publicou mais alguns folhetos de some-
nos importancia, e varios artigos em jor-
haes militares. ;
SAN
—s
1809 —Nºeste anno, havia em Santarem—
onze egrejas parochiaes, e treze conventos
de ambos os sexos. A sua população era en-
tão de 7:000 fogos, com 28:000 almas; e
bairros que hoje se acham em ruinas, desde
a invasão das hordas de Buonaparte, (os do
Alfange, Alcáçova, e S. Lazaro) regorgita-
vam de casas e moradores.
Em 1809, fizeram-se as solemnidades da
semana santa, em todas as egrejas paro-
chiaes e dos mosteiros, e este anno de 1879
“apenas se fizeram no seminario patriarchal.
É verdade que nas quatro freguezias a que
hoje está reduzida a cidade, não ha, de pa-
dres, mais do que o parocho de cada uma!
Em compensação, está-se construindo -um
theatro em uma egreja; e em outra, um
museu archeologico. Ha clubs, para musicas
e danças; sociedades marciaes; (?) passeios
de luxo ; montes-pios instituidos com os ren-
dimentos de beos roubados; etc., etc.
1810 (14 de novembro) — Massena, per-
dendo a esperança de romper as famosas
linhas de Torres Vedras, entra n'este dia em
Santarem, e aqui se conserva com os seus,
até 5 de março de 1811, praticando nos po-
bres santarenos toda a casta de roubos e
barbaridades (na fórma do costume das
hordas de Buonaparte) para se desforrar da
derrota do Bussaco, e da cobarde retirada
das linhas, sem combate.
1814 (17 de dezembro.)—-O principe re-
gente (depois D. João VI) faz visconde de
Santarem, João Diogo de Barros Leitão de
Carvalhosa, commendador (da ordem de
Malta) da commenda de Pontével. (Vidé 1757
—48 de abril.)
1823 429 de maio.) — O sr. infante D. Mi-
guel—depois 1.º do nome—á frente de al-
gumas tropas, com o fim (que realisou) de
deitar a baixo a constituição de 1820, sãe
de Lisboa, dia 27 de maio, d'este anno, e en-
tra em Santarem n'este dia.
'O general (depois duque) de Saldanha, o
general Sepulveda, D. Thomaz d'Assis Mas-
carenhas e outros, com algumas tropas, se
|
|
|
SAN
vão unir ao sr. D. Miguel, que abraça aquel-
les trez individuos, no Campo do Quadro,
perto do Cartaxo.
D'ahi a trez annos, Salda-
nha e D. Thomaz, sem nin-
quem saber porque, se torna-
ram inimigos implacaveis d'a-
guelle priocipel
Para evitarmos repetições, vide Villa
Franca de Xira.
1833 (14 d'agosto.) —Uma divisão da van-
guarda do exercito realista que sitiava O
Porto, entra em Santarem, onde ê recebida
com luminarias e repiques de sinos, e gran-
de regosijo (real ou fingido) dos santarenos.
D'aqui marcham para o cerco de Lisboa.
1833 (15 de outubro)—O sr. D. Miguel e
o seu exercito, entram em Santarem, em re-
tirada do cerco de Lisboa; mas na melhor
ordem, e sem ser incommodado na sua mar-
cha, pelas tropas liberaes.
A unica cousa bôa que cá
fez o Macdonell (então ge-
neral em chefe do exercito
realista) foi esta retiradal
O sr. D. Miguel 1, estabelece a sua resi-
dencia, no palacio do provedor das Lezirias.
Os realistas tratam a toda a pressa, po-
rém com grande solidez, de reconstruir as
velhas fortificações de Santarem, construin-
do outras de novo, de maneira que, em pou-
co tempo, se transformou em uma formida-
vel praça de guerra.
Se o sr. D. Miguel tivesse
melhores generaes... e me-
nos traidores, a sua causa ain-
da não estava perdida. Os li-
beraes, tinham já um grande
exercito, a sua esquadra e a
realista, que se lhe tinha en-
A tregado,e a protecção da Fran-
ça e Inglaterra; mas em Por-
tugal ainda só occupavam Lis-
boa, Porto, Palmella, Setubal,
Alcacer do Sal (que, depois
perderam), Lagos, Fáro, Olhão
e Peniche: tudo o mais ainda
estava pelos realistas.
SAN 23
Se estes vencessem uma ba-
talha campal, derrotando com-
pletamente os seus inimigos,
a causa do sr. D. Miguel esta-
va ganha.
Mas o sr. D. Miguel (diga-
se francamente) não era o sr.
D. Pedro; nem tinha os gene-
raes d'este..
Santarem, tornou-se então a côrte e o
quartel-general dos realistas, € o seu gover-
no, d'alli expedia ordens para todo o reino,
que eram cordialmente cumpridas.
A 3 de novembro, o general realista Aze-
vedo e Lemos, derrota e aniguilla, em Alca-
cer do Sal, o coronel Florensio: apenas este
e muito poucos soldados poderam escapar.
Florencio esteve preso e respondeu aum
conselho de guerra, no qual se justificou.
Foi uma das maiores derrotas que os li-
beraes soffreram n'esta guerra.
Entretanto, um typho exterminador, se
desenvolve em Santarem, matando mais de
3:000 homens do exercito realista, e mais de
2:500 paizanos de ambos os sexos, e de to=
das as edades.
Santarem já era uma povoa-
ção immunda; coma agglome-
ração de tão grande numero
de militares, e de muitas fa-
milias fugidas de Lisboa, ain-
da se tornou mais immunda e
insalubre.
O governo mandou sahir para os arrabal-
des de Santarem a maior parte das tropas;
mas a epidemia continuava.
Havia dias em que falleciam mais de 100
pessoas! ;
O commandante em chefe (Macdonell)
mandou vir do Porto, uma brigada, para
supprir as baixas; porque alem dos que ti-
nham morrido, os hospitaes estavam atulha-
dos de doentes.
Macdonell, não tomava a minima provi-
dencia para a desinfectação de Santarem,
não entrou nunca em um hospital, nem mes-
mo chegou ;a passar uma unica revista às
tropas! (Era a mesma apathica nullidade e
inutilidade de 1846 e 1847.)
(Vide Sabroso, de Traz-os-Montes.)
594 SAN
É demittido, por incapaz; mas foi substi-
tuido por outro que tal—o general Póvoas
— velho, doente, e, demais a mais, tinha
principiado a perder à confiança do exerci-
to, desde a batalha de Suuto Redondo (7 de
agosto de 1832) — vide Souto-Redondo — e ,
acabou de perdel-a no cérco do Porto, pelas
suas estupidas rivalidades com o general,
visconde de Santa Martha (ejusdem furfuris,
pois ambos se vieram depois a apresentar
aos liberaes, antes de terminar a guerra.)
Em 21 de dezembro d'este anno de 1833,
o general Saldanha, manda uma força des-
truir os moinhos de Torres Novas, que for-
neciam farinha para os realistas.
1834 (6 de janeiro.) — Morre em Santarem,
a virtuosissima infanta, a sr. D. Maria da As-
sumpção, irman querida do sr. D. Miguel I.
Em 47 de janeiro, o sr. D. Miguel dá uma
amplissima amnistia. (Já foi tarde!—Devia
tel-a dado em junho de 1828; e então de
certo as cousas tinham completamente mu-
dado de figura.)
1834—Em 30 de janeiro, teve logar a ac-
ção de Pernes, em que Saldanha derrota 0
brigadeiro realista, Caetano Alberto ds Sou-
za Canavarro.
(Vide Pernes.)'
Em fevereiro os agentes dos srs. D. Mi-
guel e D. Pedro, com o apoio do governo in-
glez, tratam em Londres de uma fusão, pela
qual, o sr. D. Miguel casava com sua sobri-
nha, seriam garantidos os titulos, postos e
empregos, dados por ambos os partidos, é
seria restabelecido o governo constitucio-
nal.t -
Em 17 de fevereiro, o general José Anto-
* À batalha d'Almoster, dada n'esta occa-
sião (18 de fevereiro) destruiu esta combi-
nação: todavia, estuu convencido que os re-
sultados seriam fataes.
Todos os principaes chefes dos dous par-
tidos quereriam governar, cada um à seu
modo e segundo os seus principios, e uma
desastrosa guerra civil, não tardaria a Te-
bentar, mais encarniçada talvez, do que a
antecedente.
SAN
pio d'Azevedo e Lemos, toma o commando
da áàla direita do exercito realista, e esta
marcha de tarde para o sul, pela estrada do
Cartaxo, e fica toda a noite sobre as armas,
a 10 kilometros de Santarem.
No dia 48, de madrugada, principiou o
fogo de artilheria, junto à ponte do Celleiro,
(extrema esquerda dos realistas.)
Pouco depois, o reducto da ponte da As-
seca, principiou tambem a disparar a sua
artilheria: os liberaes respondiam com a d'el-
les.
Ao sahir do sol, uma forte columna, rea-
lista, de infanteria, 8 esquadrões de caval-
laria, 12 peças de artilheria e 3 obuses, pas-
saram a ponte do Celleiro, em direcção de
Villa Nova do Outeiro e Santa Maria, po-
voações que ficavam muito alem da esquer-
da do exercito liberal, commandado por Sal-
danha.
Este, com uma forte divisão de infanteria,
caçadores e cavallaria, e oito bôcas de fogo,
corre a cccupar o Paúl d'Almoster, dei-
xando quasi abandonada a sua direita! (Elle
bem sabia porque...)
Para que os meus leitores possam fazer
uma ideia aproximada, do que foi esta bata-
lha, é preciso dizer-lhes:
A serra do Cartaxo (onde estava O exer-
cito liberal) corre com varias denominações,
de N.as.
Do lado do nascente, onde estavam os rea-
listas, é um terreno bastante aceidentado,
parte inculto, e parte povoado dos famosos
olivaes de Santarem.
Entre os dous exereitos, medeiava uma
vasta planície (Pallada) correndo-lhe lon-
gitudinalmente, uma grande valla, e sendo
(a planicie) cortada por grande numero de
outras vallas mais pequenas, que levam à
principal, as aguas provenientes do inchu-
gamento dos campos.
Já se vê que esta planicie ficava inteira-
mente a déscoberto, e exposta ao fogo de
ambos os exervitos.
Nunca pude entender a razão porque O
general Lemos, pelo meio dia, mandou o bri-
gadeiro João Antonio Rebocho, com a sua
SAN
brigada, ! atravessar aquella planicie, em
todo o seu comprimento, exposta ao fogo
dos liberaes, quando essa marcha se podia
effectuar pela nossa rectaguarda, sem risco!
O brigadeiro liberal Scwalbak, aprovei-
tando-se da tolice de tal manobra, mandou
disparar sobre nós, em quanto durou esta
marcha, e sem interrupção, toda a sua arti-
lheria, é arremeçar-nos grande numero de
foguetões.
O solo, barrento, era cortado — como já
disse—por grande numero de vallas, o que
nos difficultava sobremodo a marcha.
Para offerecermos pouca frente ao inimi-
go, marchavamos em secções de cinco.
Feliz e milagrosamente, só morreram du-
rante este trajecto, cinco soldados da poli-
cia de Lisboa (uma fila de secção) que uma
balla-raza despedaçou.
Dos foguetes livravamos-nos facilmente,
porque trazendo já pouca força, a gente ar-
rumava-se d'elles e deixava-os hir morrer
mais alem, a pouca distancia.
Mandaram collocar toda a brigada em um
olival, à nossa extrema direita, e alli estive-
mos, de pé, extenuados, quasi todos em je-
jum, até às 4 horas da tarde, em que o fogo
principiou à ponte de Santa Maria, com
grande encarniçamento de ambos os lados,
Durante as tez longas horas que estive-
mos inactivos, os liberaes, que, ainda que
nos não vissem, por causa das oliveiras, sa-
biam onde estavamos, nos arremeçaram
grande numero de granadas e bombas, que
nos mataram e feriram muita gente, sem que
podessemos dar um unico tiro.
Os soldados—e mesmo os officiaes—esta-
vam desesperados com semelhante... estra-»
tagema de guerra.
Finalmente, tivemos ordem de avançar, é
o combate travou-se então deveras, junto à
ponte de Santa Maria, quasi ao sol posto!...
1 Esta brigada era forte de mais de 3:000
homeos, a maior parte, de tropas escolhidas,
Pertenciam lhe—as guardas reaes da poli-
cia de Lisboa e Porto, infanteria n.º 5, dous
esquadrões da cavallaria, uns poucos de ba-
talhões de voluntarios realistas, cujas deno-
minações já me esqueceu, e o bravo regi-
mento de caçadores da Beira-Baixa (n.º 8)
a que eu então pertencia.
SAN 920
Á ponte do Celleiro, tambem se travou
um combate, porém menos mortifero.
Para não cançar mais os leitores, direi—
depois de correrem ondas de sangue, de par-
te a parte (só o meu regimento perdeu 160
e tantas praças!) retiramos para as nossas
posições da vespera.
Entre os officiaes que nos foram mortos
n'este dia, contam-se—os brigadeiros Santa
Clara, e Brassaget, o ajudante de campo de
este, tenente Dubrevil, e o bravissimo ma-
jor Feirão, commandante do regimento de
caçadores da Beira Baixa.
Este homem, póde dizer-se
que se suicidou.
Vendo a pessima direcção
dada a esta incomprehensivel
batalha, quando mandaram re-
tirar o seu regimento, deixou-
se ficar, com alguns soldados,
tão temerarios como elle (uns
30 e tantos) ao O. da ponte, e
alli morreram todos, matando,
sem um unico querer ficar
prisioneiro.
Os liberaes tambem soffreram grandes
perdas; e entre os seus mortos, conta-se O
intrépido coronel Miranda.
Esta batalha, não foi porém, de todo inu-
til, pois deu dous heroes d' Almoster —dos li-
beraes, ficou assim denomivando-se, o gene-
ral Saldanha—e dos realistas, o brigadeiro,
Bernardino Coelho Soares de Moura.
Entretanto, deve dizer-se a verdade—am-
bos elles foram dous leões.
Já lá estão, na terra da verdade.
É opinião assentada, que a causa d'esta
batalha se não decidir a favor dos realistas,
foi a cobardia do brigadeiro, João Galvão
Origny, commandante da cavallaria, que des-
obedecendo às ordens do general Lemos,
deixou-se estar no quartel da saude, em vez
de carregar o inimigo na occasião propria,
quando lhe tinha sido determinado. 1
1 Um official do exercito liberal, homem
de toda a verdade, e por isso digno de fé,
disse-me que, ao jantar, na mesa do sr. D.
Pedro, alguem disse a este, que o sr. D. Mi-
guel talvez cahisse prisioneiro, ao que O
principe respondeu. — Se meu irmão ficar.
26 SAN
No dia seguinte (19 de fevereiro) Póvoas
é exonerado do commando em chefe do exer-
cito realista—pelo requerer, em razão do seu
estado physico e moral—dizia a ordem do
dia.
No mesmo dia foi nomeado em seu logar,
o general Lémos, que só acceitou, por or-
dem positiva do rei:
Lémos, era filho do povo, e
mal visto dos fidalgos realis-
tas, que se julgavam deshon-
rados em estar sob as ordens
de um plebeu (que valia mais
do que uma grande parte de
elles.)
Alem d'isso, conhecia as
pessimas circumstancias das
tropas e da politica; e, o que
era peior, via que os liberaes
tinham uma grande esquadra,
€ nós, nem um só navio.
O sr. D. Miguel, prometteu-
lhe que venderia todas as suas
joias, pará, com o seu produ-
cto, se comprar uma esquadra
egual à dos liberaes; mas, foi
por essa oecasião, que a Fran-
ça, Hespanha e Inglaterra de-
cidiram intervir a favor dos
liberaes, formando a celebre
quadrupla alliança.
O sr. D. Miguel sempre fi-
cou sem as suas joias, porque,
deixando-as voluntariamente
em penhor, para que por ellas
se inteirassem as que por ven-
tura faltassem às do sr. D. Pe-
dro, e das senhoras infantas,
D. Isabel Maria e D. Anna de
Jesus Maria (duqueza de Lou-
lé): apezar de não faltarem
nenhumas d'estas, as do sr. D.
prisioneiro, hirá para onde quizer—ao que
D. Carlos Mascarenhas retrucou immediata-
mente: —Menos se me cahir nas mãos, por-
que a maior posta que lhe hei de deixar, se-
rão as orelhas. Eis em que se transformou
o grande amigo do sr. D. Miguel, em 1823.
Tempora mutantur, et nos mutamur in illit...
SAN
Miguel nunca mais lhs foram
restituidas!—Por estas e ou-
“tras eguaes, é que do pé para
a mão, surdiram da lama tan-
tos capitalistas, commendado-
res e barões, como os cogu-
melos rebentam de qualquer
monturo...
O general Lémos, achou o exercito de ope-
rações reduzido a 10 ou 12:000 homens, rô-
tos, descalços, com quasi dous annos de atra-
zo nos soldos e préts; mas apezar d'isso, fieis
e animados.
Até os liberaes cantavam isto:
Andam rôtes e famintos,
O pagamento findou.
Quanto mais a fome aperta,
Mais se canta o Rei-chegou.
Lémos era fiel, bravo, activo e intelligen-
te. Empregou todos os seus esforços para
dar uma nova e melhor organisação ao exer-
cito do seu commando, segundo a de 1814.
Dos quatro grandes regimentos de caça-
dores, formou 12 ainda bons batalhões.
Só tinhamos 15 regimentos de infanteria
(4, 2, 4&—regimento novo—s, 7, 8, 11, 12,13,
14, 46, 17, 19, 22 e 24) elle organisou vinte
e quatro.
Dividiu tambem os corpos de cavallaria,
em 12 regimentos (pequenos, mas optimos.)
Finalmente, fez quanto podia fazer, mas já
era muito tarde!
Em 18 de março, o governo de Lisboa pu-
blica dous decretos—um, exautorando o sr.
D. Miguel de todas as honras e prerogativas
devidas ao seu alto nascimento—outro, ex-
tinguindo a casa do infantado, e julgando
as suas propriedades, fóros e rendas, bens
nacionaes.
O governo britannico tenta ainda uma re-
conciliação entre os dous irmãos que se
guerreavam. a
Para isso, mandou. lord: Howard ao Car-
taxo, dar principio às negociações com os
realistas. à
As bases, eram, a sahida temporaria do
SAN:
sr. D. Miguel, para fóra de Portugal, reco-
lhendo ao reino, findo o prazo designado
para a expatriação, sem que se lhe podesse
tolher o regresso.
Exigia Howard, que nos documentos, offi-
ciaes do exercito liberal; e de todas as suas
outras repartições, civis, judiciaes, etc., se
proscrevessem as expressões ofensivas con-
tra o sr. D. Miguel, dejXando de denominar-
se usurpador, e outros quaesquer adjectivos
infamantes: que lhe fosse entregue tudo o
que era seu, etc. etc.
O sr. D. Miguel era vilmen-
te insultado, não só nos jor-
naes, mas até em muitos de-
cretos, portarias, e outros do-
cumentos. officiaes dos seus
contrarios: e o sr. D. Miguel
nunca consentiu uma unica
expressão offensiva que os seus
dirigissem ao sr. D. Pedro ou
à sr D. Maria.
Exigia que as nomeações militares, eccle
siasticas e civis, feitas pelo governo realis-
ta, fossem garantidas.
- O embaixador inglez, escreveu do Cartaxo,
uma carta particular, ao conde de S. Lou-
renço, ministro da guerra do exercito rea-
lista; porem o conde recusou ter qualquer
communicação com o lord, uma vez que ella
não fosse franca e official.
O inglez, annuiu immediatamente.
Em vista d'este accordo, a 22 de março,
teve logar uma entrevista, na ponte da As-
seca, entre o general Lemos, e 0 ministro
britannico.
Com lord Howard, vinha o
general Saldanha; o almirante
Parker; e dous officiaes.da ma-
rinha ingleza, que estiveram
alguma cousa retirados, dei-
xando conferenciar particu-
larmente, Lémos e Howard.
Estes dous, não poderam vir a umaccor-
do, porque. o; primeiro disse terminante-
mente, que não entrava em combinação. al-
guma, sem, antes de mais nada, se eliminar
a condição da sahida do sr. D. Miguel para
fóra do reino; porque, nem elle, nem um só
dos verdadeiros realistas, abandonariam O
SAN 927
seu rei, por mais graves que as circumstan-
cias se tornassem.
Debalde o inglez expoz os perigos a que
se arriscavam os realistas, com esta recusa;
accrescentando, que, a queda de lord Wel-
lington, em Ioglaterra, e a de Carlos X em
França, tinham mudado completamente a fa-
ce da politica na Europa: e que, até a Hespa-
nha, que havia reconhecido o sr. D. Miguel,
estava agora invadindo Portugal, com um
poderoso exercito, a favor do sr. D.Pedro.
Lémos, deu por terminada a conferencia,
declarando que o ministerio realista manda -
ria para Lisboa, a lord Howard, a resposta
definitiva.
O inglez marchou para Lisboa, e o portu-
guez para Santarem.
Poucos dias depois, o ministro britannico»
recebeu do conde de S, Lourenço, um offi-
cio, no qual se lhe declarava que o sr. D.
Miguel, só sahiria de Portugal, se sahisse
tambem o sr. D. Pedro.
Howard e os ministros liberaes, não con-
cordaram n'esta proposta, e nunca mais se
tentou uma reconciliação dos dous partidos
beligerantes.
Tambem estou convencido
de que nada se conseguia com
a sahida dos dous irmãos.
Aconteceria como se se effe-
ctuasse 0 casamento do tio com
a sobrinha.
A união hybrida, duraria
poucos: dias, e a guerra civil
tornaria a alagar Portugal de
sangue e cadaveres.
A guerra continúa em varios pontos de
Portugal. |
O general hespanhol Rodil, com uma di-
visão de 12:000 homens, cccupa a nossa pra-
ça d'Almeida (18 d'abril), soltando 800 pre-
sos liberaes que alli estavam, e os armou,
para defeza da praça, dando o commando
d'elles, ao coronel Valdez. !
1 Trez mil castelhanos, entrados pelo N.,
occupavam Chaves e. Mirandelia, desde 9 de
“abril. Rodil, e outros! generaes castelhanos,
invadem o Riba- Cêa, Alentejo e Algarve,
sem declaração de:guerra, manobrando con-
tra as tropas realistas.
528 SAN
O marechal de campo rea-
lista, Francisco Nunes de An-
drade, governador da praça de
Almeida, vendo que a não po-
dia defender, por falta de gen-
te e munições, a abandonou,
deixando ficar todos os presos
politicos, que para aqui tinham
sido removidos de varias ca-
deias do reino.
Em 22 d'abril, assigna-se em Londres, 0
tratado da quadrupla alliança, offensiva e
defensiva entre os governos da França e Tn-
glaterra, Hespanha e Portugal, cujo fim era
expulsar da Peninsula o sr. D. Miguel, e seu
tio, Carlos V, de Hespanha.
Apezar d'isto a guerra continúa com va-
rias alternativas. |
O marechal de campo, Thomaz Antonio
Guarda Cabreira, bate os liberaes, comman-
dados por o general Bernardo de Sá Noguei-
ra (depois marquez de Sá da Bandeira) no
dia 24 de abril, em S. Bartholomeu de Mes-
sines (Algarve) obrigando os liberaes a aco-
lherem-se ás suas praças fortificadas.
Cabreira era então brigadei-
ro, e por distincção n'este com:
bate, é que foi feito marechal
de campo, a 11 de maio.
A 29 de abril, as tropas liberaes do conde
de Villa-Flor (duque da Terceira) batem.
em Ponte Pedrinha, sobre O rio Paiva (Bei-
ra-Alta) os generaes realistas, João de Gou-
veia Osorio, e José Cardoso de Carvalho Bar-
ba de Menezes, ambos marechaes de campo-
A 2 de maio, a brigada hespanhola, do ba-
rão de Carandolet, ataca e derrota o povo
armado, de Gouveia e Céa. a
Uma divisão hespanhola, às ordens do ge-
neral Serrano, entra em Mértola, a 8 de maio,
e córta as communicações entre o general
realista Cabreira, e o exercito de Santa-
rem.
O almirante inglez Napier, desembarca
com as suas tropas em Lavos, entrando na
Figueira a 6 de maio, une-se aos liberaes
que estavam em ido e occupam Soure.
(9 de maio.)
O general realista gusdeb que estava com
a sua divisão em Thomar, sãe d'esta cidade
SAN
a 14 de maio, entrando logo o duque da Ter-
ceira com as suas tropas.
N'este mesmo dia, Napier intima a guar-
nição realista de Ourem, para se render, é
esta capitula no dia seguinte, com todas as
honras da guerra. !
Os realistas esperam osliberaes na Assei-
ceira (9 kilometros ao S. de Thomar.)
A caúsa do sr. D. Miguel es-
tava perdida.
As tropas realistas, ape-
zar de tão repetidas derro-
tas, traições é desventuras, e
ainda por cima, tendo a com-
bater, além do exercito do sr.
D. Pedro, 30:000 castelhanos,
seus auxiliares, ainda obede-
ciam coma maior abnegação
aos seus chefes, e combatiam
com uma coragem digna de
melhor sorte.
O sr. D. Miguel, resolvido a resistir em
Santarem, ! manda para Elvas, sua irman,
a infanta D. Isabel Maria, no dia 15, para a
não expor aos perigos de um cérco.
No mesmo dia, Napier chega a Thomar,
e junta-se com o duque da Terceira.
Saldanha estava no Riba-Tejo, mas em
communicação com Terceira.
Em Salvaterra de Magos, porém, ainda
estava o brigadeiro realista Spring, com à
sua columna, e com dous esquadrões de ca-
vallaria, que tinha recebido de Santarem.
“Os castelhanos flanquearam os realistas
de Santarem, emquanto uma outra forte bri-
gada d'elles, marchava pelo Alemtejo a rea-
nir-se aos liberaes da praça de Marvão, e o
general Serrano se aproximava dos liberaes
de Sá da Bandeira.
Na madrugada de 16 de maio, o duque
da Terceira, com às suas tropas, marcha so-
bre a Asseiceira.
Em Santa Cita, encontra o batalhão de vo-
luntarios realistas de Penafiel, que obriga a
retirar para à reserva, depois de um pequeno
tiroteio.
1 Certos conselheiros do sr. D. Miguel, é
que opinavam pela resistencia, provavel.
mente com o fim de ser alli a convenção.
|
SAN
Andava tudo tão pessima-
mente dirigido, no campo rea-
lista, que, quando a sua guar-
da avançada (os taes volunta-
rios realistas) vinham retiran-
do, na melhor fórma, e fazen-
do fogo, Guedes mandou dar-
lhes uma descarga de artilhe-
ria, que só cessou, quando
muitos soldados, entraram a
gritar: «Não atirem, que são
noSSOS.M
Os realistas, tinham seis mil infantes, 500
cavallos, e 11 peças de artilheria.
Os liberaes tinham, pouco mais ou menos,
o mesmo numero de cavallos e de boccas de
fogo, mas eram superiores em infanteria.
A sua divisão compunha-se de uns 10:000
homens, alem das tropas de Napier, que eram
unos 1:200.
A cavallaria realista, se era egual em nu-
mero à dos seus inimigos, era-lhe muito su-
perior em qualidade.
Os liberaes tinham a sua gente dividida
em trez columnas— a da direita, commanda-
da pelo então coronel, Autonio Vicente de
Queiroz (feito visconde da Ponte de Santa
Maria, a 23 de septembro de 1835, e conde
do mesmo titulo, a 10 de março de 1842) —
a do centro, pelo brigadeiro Nepomuceno —
e a da esquerda, pelo tenente coronel, Ban-
dera de Lemos.
O commandante geral de cavallaria, era
o coronel, José da Fonseca ; e o da artilhe-
ria, o major Passos.
Os realistas tambem estavam formados em
trez columnas — a da direita, commandada
pelo brigadeiro, Bernardino Coelho Soares
de Moura—a do centro, pelo brigadeiro, Ri-
cardo Antonio Paulo Soares, ajudante d'or-
dens do sr. D. Miguel—a da esquerda, pelo
brigadeiro Paulo Maurity.
O commandante geral da cavallaria, efa
o brigadeiro, marquez de Puysseux, e, em
segundo, o coronel, viscunde de Clacy (fran-
cezes.)
A artilheria era commandada pelo major,
Joaquim Nunes 'Lobo.
Até às 9 horas, só entraram em fogo os
SAN 929
atiradores. de ambos os lados; depois, os li-
beraes avançam sobre ag reservas dos seus
contrarios, e O fogo tornou-se geral.
Os liberaes, só traziam 9 kilometros de
marcha, e tinham tido quasi dous dias de
descanço em Thomar.
Os realistas, estavam cançados de uma
“longa jornada, e quasi todos sem dormir à
noite antecedente.
Comtudo, se os liberaes atacaram com
bravura, os realistas não lhe ficaram atraz.
O campo da batalha, era uma vasta pla-
nicie, inculta, e levemente ondulada.
Ao sul, ha uma serra, de pouca elevação,
onde estava a artilheria e o grosso da divi-
são realista.
Em frente (ao N.) o terreno era um pou-
co accidentado, e estava occupado pelos li-
beraes.
Ao E. e O., eram varias collinas arborisa-
das.
As posições dos realistas, como se vê, eram
melhores, e à sua artilheria, que troava com
frequencia, causou grandes perdas à direita
e centro dos liberaes.
Terceira, vendo a batalha em perigo para
elle, atacou fortemente, com tropas escolhi-
das, a direita dos realistas.
O marquez de Puysseux, com dous esqua-
drões de couraceiros e os lanceiros do 2.º
e 8.º regimentos, ao grito de viva o rei! de-
ram uma furiosa carga sobre a esquerda li-
beral, pondo-a em retirada.
Isto, animou de tal sorte os realistas, que
ao grito de victoria! avançaram destemida-
mente sobre os contrarios.
Terceira dá ordem de retirada, e a bata-
lha estava ganha pelos realistas.
Mas, Deus tinha determinado que esta se-
ria a ultima batalha fratricida d'aquella epo-
ca!
Puysseux e Clacy, seu immediato, cégos
pelo seu ephemero triumpho, avançaram
| irreflectidamente, sem serem secundadus pe-
la infanteria.
O futuro conde da Ponte de Santa Maria,
fórma as suas tropas em quadrados, e à apro-
930 SAN
ximação do inimigo, manda dar sobre elle
uma descarga geral, à queima-roupa.
Puysseux, cae mortalmente ferido. Clacy,
que era tambem um bravissimo militar, pre-
tende conservar a ordem, e animar os seus,
mas elle não sabia uma unica palavra de
portuguez, e entre todos os cavalleiros, não
havia um só que o entendesse (ou, o que é
mais provavel, fingiam que 6 não enten-
“diam...)
A morte do chefe, desanimou de tal modo
a cavallaria, que virando costas ao inimigo,
fugiu a toda a brida, atropellando até os seus
proprios camaradas de infanteria e caçado-
res, e só parou na margem direita do Tejo.
A victoria, transformou-se, pois, em geral
derrota.
Guedes, foi dos primeiros, em fugir, aban-
donando as suas tropas!
A artilheria, foge tambem, esmagando sol-
dados, mulheres e creanças, sobre a estrada
da Barquinha.
A guarda avançada dos realistas, que es-
tava estendida em atiradores, reune-se à
pressa, e fórma uns pobres quadrados; mas
vendo sobre si numerosos esquadrões de ca-
vallaria (isto na esquerda dos realistas)
um regimento inglez, infanteria 18 e outros
corpos, a darem-lhe descargas successivas,
retira em direcção a um batalhão de in-
fanteria de Chaves, que estava na encosta
da serra, e ainda nãc tinha dado um tiro.
Mas este batalhão, que era commandado
por o coronel Joaquim Cesar d'Araujo, 1 ati-
rou com as armas ao chão, e entregou-se,
sem resistencia.
O regimento de infanteria n.º 16, e o ba-
talhão de vuluntarios realistas de Lamêgo,
ainda por muito tempo se bateram com en-
carniçamento, e dando descargas ininterrom-
pidas, na extrema direita dos realistas; mas,
cercados por todas as partes, poucos pode-
ram fugir, ficando quasi todos prisioneiros.
Finalmente tudo quando estava na plan
nicie ficou prisionciro.?
? Este militar, era uma bella figura e um
excellente homem, mas teve toda a sua vida
muito medo das balas...
* Euera então alferes de caçadores n.º 3,e
omeu pelotão tambem estava em atiradores.
SAN
Os liberaes tiveram ainda assim, mais
mórtos e feridos, do que os realistas. 1
Estes tiveram uns 100 mortos, e maior nu-
mero de feridós; mas tiveram 64 officiaes e
1:300 praças de pret, prisioneiros, 8 boccas
de fogo, & bandeiras, e grande parte das suas
bagagens.
O grosso da divisão realista, tinha fugi-
do desordenadamente, para Constancia, Bar-
quinha, Torres-Novas, Gollegan, e outras
partes.
A cavallaria e artilheria, na sua fuga pre-
cipitada, atropelou muita gente de caçado-
res e infanteria.
Guedes, foi um dos primeiros a fugir aban-
donando cobardemente as suas tropas: de-
balde alguns corpos se conservaram ainda
por algum tempo em fórma e fazendo fogo;
porque a falta de um chefe a quem obede-
cessem, inutilisou todos os seus esforços.
Se o general Guedes não perdesse a co-
ragem, e tivesse collocado na sua rectaguar-
da a cavallaria, e se a artilheria fosse toman-
do posições e dando fogo, não só se evita-
vam muitos atropelamentos, a perda de qua-
si toda a artilheria e-as bagagens, como era
mais que provavel que os liberaes deixas-
sem retirar pacificamente os seus inimigos,
porque aquelles tambem estavam cançados
de 12 horas de combate; mas, vendo tão gran-
de desordem, aproveitaram-se d'ella, para
derrotarem completamente os realistas.
Finalmente, custa a comprehender, como
uma batalha tão auspiciosamente principia-
da para os realistas, só com a morte de um
homem (Puysseux) degenerou immediata-
mente na derrota mais miseravel que soffre-
ram em toda a campanha.
E não se pense que esta confusão e des-
ordem durou só no principio da retirada :
Não tinha capitão, e o tenente morreu pelo
meio dia.
Eu tomei o commando do pelotão, e, ape-
zar de ser logo ferido gravemente na perna
esquerda, não abandonei os meus soldados.
Pelas 6 horas da tarde fomos todos pri-
sioneiros.
1 Os liberaes, segundo os officios de Vil-
la Flor ao sr. D. Pedro e ao ministro da
guerra, tiveram n'este dia, 400 homens fóra
de combate.
SAN
muitas horas depois, e quando já os liberaes
dormiam a somno solto, sobre os louros da
victoria, ainda os realistas continuavam a
fugir tamultuariamente, e só tomaram fôle-
go, quandio se viram ao sul do Tejol
Ao passarem êste rio, na Barquinha, era
tala precipitação, que muitos morreram afo-
gados!
Eis aqui, em poucas palavras, mas de to-
do o ponto verdadeiras, o que foi a batalha
da Asseiceira, que terminou esta guerra fra-
tricida, que nunca devia ter principiado, se
tantas circumstancias não concorressem (de
ambas as partes) para lhe dar origem. 1
No mesmo dia 16, o visconde de S. João
da Pesqueira, tenente general graduado, fei
to pelo sr. D. Miguel, em 26 de outubro de
1832, e pelo mesmo senhor, governador da
praça de Abrantes, entrega esta aos liberaes,
tomando .logo as armas contra os que até
então tinham sido seus irmãos na guerra!...
Esta traição teve por premio, ser conside-
rado pelos liberaes, marechal de campo (mas
separado do quadro effectivo do exercito) por
decreto de 27 de fevereiro de 1836, ordem
do dia n.º 48.2
No dia seguinte, grande carnificina nos
liberaes, que estando presos em Extremôz
se tinham mandado remover para Elvas.
Sahiram de Extremoz a 16, e a 47, no lo-
gar da Orada, a 13 kilometros de Extremoz,
se apoderaram das armas da tropa que às
escoltava, e fugiram. '
Eis o que a este respeito diz o sr. Joa-
quim Lopes Carreira de Mello, na sua His-
toria Chronologica de Portugal, pag. 379.
«O general, conde d'Almár, fez transferir
de Extremoz para Elvas. 71 presos politi-
cos.
1 Cumpre-me aqui declarar, que Villa-
Flor, quando lhe foram apresentados os of-
ficiaes prisioneiros, os tratou com a delica-
deza propria de um verdadeiro fidalgo, e de
um bravo guerreiro, que sabe avaliar a fi-
delidade dos seus inimigos, e as contingen-
cias da guerra.
2? «Estima-se à traição, mas detesta-se o
traidor.»
SAN 991
Esta commissão de transferencia dos pre-
sos, foi encarregada pelo general, ao audi-
tor do exercito, Manoel Maria Coutinho de
Albergaria Freire.
Este individuo, conhecido até alli como
acerrimo realista, quiz reformar as suas opi-
niões politicas com um feito de estrondo.
« Este homem, sendo juiz de fóra de Villa
Real (de Traz-os-Montes) em 4826, perse-
guiu a marqueza de Chaves, como realista,
sendo elle então cartista.
“Já se vê, para fazer esquecer este e ou-
tros factos, tornou-se realista, miguelista da
gemma, e porque acreditaram na conversão,
empregaram-o bem.
Para volver à primeira fórma, carlisia,
era precizo jogar, e jogar bem.
Elle já tinha tentado a cousa, mesmo acon-
selhando que fossem fugindo para o sr. D.
Pedro, em pequenas porções.
Lémos (o general em chefe do exercito
realista) sabia d'isto, mas não o quiz perder.
A final, o homem jogou ; mas por fórma
que custou a vida a muitos infelizes, que
não morreriam, se fossem conduzidos ao
seu destino, e como o governo providente-
mente ordenava, para não haver outra sce-
na como a do castello de Extremôz.
Albergaria, estando com os presos na es-
talagem da Orada, ! à duas leguas de Extre-
moz, fez com que os presos se apoderassem
das armas da escolta, travando-se entre a
tropa e os presos um conflicto, em que foi
mortalmente ferido o tenente, commandante
da dita escolta, e gravemente, alguns solda-
dos, fugindo o resto de volta para Extre-
môz.
O governador d'esta praça, brigadeiro Pe-
reira (José Bruno Pereira) officiou immedia-
mente às auctoridades militares e civis de
Monforte, Villa Viçosa, e Juromenha, para
que reunindo as suas ordenanças, e as for-
ças que podessem, fossem no alcance dos
fagitivos: e, no dia 17, todas as estradas se
achavam tomadas.
Foi dolorosa esta scena de perseguição,
porque, dos presos que fugiam na direcção
Il Orada é uma freguezia do Alemtejo, no
concelho de Borba, comarca de Extremôz.
552 SAN
de Hespanha, foram muitos d'elles mortos
na passagem do Guadiana, ou afogados n'este
rio.
A resistencia dos fugitivos, era muito frou-
xa, como se podia esperar de homens deti-
dos nas cadeias, alguns cinco ou seis an-
Dos.»
“
A 17 de maio, estavam os brigadeiros rea-
listas, Bernardino Coelho Soares de Moura,
e Ricardo Antonio Paulo Soares, na Chamus-
ca, e a elles se juntaram 1;500 homens, dos
fugitivos da Asseiceira, com os quaes Mar-
charam para a cidade de Evora, tomando à
mesma direcção, por varios caminhos e des-
ordenadamente, diferentes bandos, restos da
batalha.
N'este mesmo dia estava Villa Flor na
Gollegan, e Napier em Torres Novas; O sr.
D. Miguel em Santarem e o sr. D. Pedro no
Cartaxo.
O brigadeiro de cavallaria, José Urbano de
Carvalho (a quem o sr. D. Miguel havia
conferido este posto, no 1.º de janeiro d'es-
te anno de 1834) foi mandado para a Cha-
musca, com o regimento de cavallaria n.º 6
(dragões de Chaves) para reforçar as tropas
dos brigadeiros Soares de Moura e Ricardo;
mas, em vez de cumprir a ordem, deserta
para os liberaes, entregando, por traição, a
melhor cavallaria do seu rei; illudindo os
soldados, dizendo-lhes que a passagem da
margem direita do Tejo, tinha por fim, liber-
tar o sr. D. Miguel, que estava em risco de
ficar prisioneiro.
Passou, pvis, proximo á Gollegan, porém,
em vez de seguir pira a Chamusca, metteu
o regimento no centro das forças de Villa
Flor, a quem o entregou gritando com o co-
ronel da cavallaria, Antonio Cardoso d'Al-
bergaria (ao qual o sr. D. Miguel havia da-
do este posto, a 21 de outubro de 1833.) —
Viva a carta constitucional!—Viva a senho-
ra D. Maria IH!
Em premio da sua traição, estes dous of-
ficiaes foram encorporados nas fileiras do
exercito liberal.
Na noite do mesmo dia 17 de maio, os
SAN
realistas abandonaram, na melhor ordem, a
praça de Santarem.
O sr. D. Miguel assistiu á passagem do
Tejo, e foi dos ultimos que atravessou este
rio, para a sua margem esquerda.
Se elle praticasse d'este mo-
do em todas as operações mi-
litares do seu exercito, como
fazia seu irmão, certamente
não hiria morrer longe da pa-
trial
O exercito realista, apezar de todas as
traições e derrotas, ainda contava 25:000
homens, promptos a derramar o seu sangue
pela causa realista; mas à sua resistencia só
traria como resultado, a perda inutil de mui-
tas vidas, pois já não era tempo de comba-
ter com esperança de triumpho possivel.
18 de maio. — O sr. D. Pedro e seus aju-
dantes; o marechal Saldanha e o seu estado
maior, marcham do Cartaxo, na madrugada
d'este dia, com direcção a Santarem, prece-
didos da brigada do general Bento da Fran-
ça
Santarem.
Do grande numero de frades, dos varios |
conventos da villa, só dous ficaram escondi-
dos no mosteiro de Santa Clara, todos os
mais tinham fugido. 1
A povoação estava no mais lastimoso es- |
tado!
As lojas dos mercadores e muitas outras |
casas, estavam transformadas em cavallari-
ças e atulhadas de estrume dos cavallos e
muares.
Os habitantes, apresentavam, pela maior |
parte, vestigios do implacavel typho que os |
tinha disimado.
Os mantimentos estavam esgotados; ape- |
nas se encontrava algum pão e vinho.
Os liberaes examinaram com admiração
* Estes dous frades foram apresentados ao |
gr. D. Pedro, que Os tratou bem, mas orde-,
nou-lhes que despissem os habitos, para se
livrarem de perigos; porém como ellºs não |
tinham roupa para mudar de vestidos, tor- |
naram a recolher-se ra casa da roda, do.
mosteiro das freiras de Santa Clara.
Pelas 7 horas da manhan, eniraram em |
SAN
as -temiveiis fortificações construidas pelos
seus inimigos.
Eram fortes e triplicadas muralhas, guar-
necidas de reductos artilhados, cruzando seus
fogos, e dominando todas as avenidas da
praça, e em estado de resistir com vanta-
gem, a um exercito formidavel!
O sr. D. Pedro, foi residir para o palacio
do provedor das lesirias. onde tambem sem -
pre residira o sr. D. Miguel, com suas ir-
mans.
Devemos confessar que Saldanha tomou
todas as providencias para se evitarem des-
ordens e perseguições, e, com effeito, houve
poucas desgraças; a maior foi o assassinato
impune do famoso Miguel Alcaide, mesmo à
vista do sr. D. Pedro.
Este sujeito tinha sido um
perseguidor implacavel dos li-
beraes.
N'este dia pagou-as todas.
juntas.
Para evitar a repetição d'estas scenas de
canibalismo, Saldanha mandou patrulhar to-
das as ruas da villa, por soldados de 4.2 li-
nha,
Sabendo que estavam a chegar as guerri-
lhas dos truculentos Faustino, da Zebreira,
e sapateiro Salgado, foram obrigadas a dis-
persar pela tropa.
Alguns dos soldados, dos que tinham es-
capado da derrota da .Asseiceira, vieram
apresentar-se a Saldanha.
Ainda no Collegio estavam cento e tantos
soldados com o typho, e abandonados dos
cirurgiões e enfermeiros, que todos tinham
fugido.
Os doentes foram todos removidos, à noi-
te, para o hospital da Misericordia.
Os brigadeiros Soares de Moura e Ricar-
do, em vista da traição de José Urbano e
Albuquerque, retiraram para Evora.
José Urbano e Álbuquerque, apresenta-
ram-se em Santarem, logo no mesmo dia 48,
ao sr. D. Pedro, que lhes disse:
Agradecia-lhes mais a sua deserção, se ti-
vesse logar antes da causa de meu irmão es-
tar completamente perdida — e despediu-os
sem lhes dar mais attenção.
VOLUME VIII
SAN BR
No dia 19, um esquadrão de cavallaria
n.º 4, levado pelos seus ofjiciaes, se apresen-
tou tambem ao sr. D. Pedro, que os tratou
do mesmo modo que aos outros.
No mesmo dia, Villa Flor, chega a Santa-
rem, com a sua divisão. victoriosa.
Em 20 de maio, o visconde de 8. João da
Pesqueira, faz em Abrantes, a acelamação
da senhora D. Maria II.
(Vide ainda S. João da Pesqueira.)
e]
O sr. D. Pedro, tinha torcião um pé ao
entrar para o carro, no Cartaxo, 1 e alem
“disso, já estava affectado da molestia que o
matou d'ahi a trez mezes (quando já não era
preciso...) e não podendo, por isso, acom-
panhar as suas tropas, em perseguição dos
realistas, ordenou ao Villa Flor, que passas-
se o Tejo, em Santarem, em quanto que Sal-
danha, voltando ao Cartaxo, o passou em
Salvaterra de Magos, no dia 24.
N'este mesmo dia, chegou a Evora, o sr.
D. Miguel, com os restos, ainda respeitaveis
do seu exercito, e alli encontrou já seu tio,
D. Carlos e a sua familia, e 200 officiaes e
700 soldados hespanhoes.
Terceira e Saldanha, cada um com uma
divisão de mais de 10:000 homens, marcha-
ram a traz dos realistas —aquelle por Coru-
che da Aleratejo, em direcção a Extremoz, a
reunir-se ao general castelhano, Rodil, para
obstarem a que os realistas se meitessem na
forte praça d'Elvas.? )
Saldanha marcha por Arraiolos para Evo-
ra-Monte, em quanto o general hespanhol
Serrano, avançava sobre Béja, contra o bra-
vissimo marechal de campo, Thomaz Anto-
nio da Guarda Cabreira, que ainda se batia
no Algarve, pelo sr. D. Miguel.
Todas as tropas realistas se dirigiam ao
Alemtejo, incluindo as guarnições das pra-
ças que ainda estavam pelo sr. D. Miguel.
Parece incrivel, mas é ver-
1 Outros dizem que ao descer delle, em
Santarem.
2 Onde aliás teriam de render se pela fó-
me, visto que a praça, se estava abastecida
de munições de guerra, estava completamen-
te desprovida das de bôca.
d%
954 SAN
to: esta gente ainda não tinha
perdido completamente as es-
peranças, e estava decedida
a todos os sacrifícios, em favor
do seu rei (que tão mal sou-
bera aproveitar esta cordial
dedicação!...)
Em 22 de maio, o sr. D. Miguel, procla-
mou à nação, protestando contra a violen-
cia da Hespanha, França e Inglaterra, que
com seus exercitos e esquadras, se tinham
vindo intrometter em uma questão que só
a portuguezes competia decidir.
Era a fabula do lobo e do cordeiro!
No dia seguinte (23) reuniu-se, em Evo-
ra, um conselho de guerra, presidido pelo
sr. D. Miguel, ao qual assistiram, D. Carlos
de Bourbom, os ministros de estado, os com-
mandantes de divisões, brigadas e corpos,
e outros individuos principaes do partido
realista.
Nºeste conselho se expoz o estado do exer-
cito, os effeitos produzidos pelo tratado da
quadrupla alliança, e se era conveniente
continuar a guerra, ou entrar em negocia-
ções para uma capitulação honrosa, e assim
evitar-se mais derramamento de sangue por-
tuguez, em grande parte feito correr pelo
fogo e ferro dos estrangeiros.
Decidiu-se entrar em negociações, apezar
da vehemente opposição do brigadeiro Soa-
res de Moura, do coronel, commandante de
brigada, Francisco José de Gouveia, e da maior
parte dos commandantes dos corpos, que
protestavam que os seus soldados estavam
decididos a bater-se até à ultima extremida-
de.
O coronel, Luiz Figueiredo d'Araujo e
Castro, sendo da opinião que se capitulasse,
e ouvindo os protestos dos que se oppunham
a este recurso, virou-se para o sr. D. Miguel,
e lhe disse:
— Senhor, enganam a vossa magestade!
Aqui dizem isto, e lá fôra, dizem o contra-
rio.
Ninguem respondeu a esta arguição.
O sr. D. Miguel, adoptou a opinião mais
cordata, annuindo a que se capitulasse.
Logo no mesmo dia 23, encarregou o ge-
neral Lémos de entrar em negociações com
SAN
os marechaes Saldanha e Villa Flor, 1! e, mes-
mo a 23, foi mandado o general Guedes (o
heroe da Asseiceira) ao quartel general de
Saldanha, para obter uma suspensão d'ar-
mas, como preliminar da convenção, o que
se efiectuou.
No dia 24, o sr. D. Miguel passa a ultima
revista às suas tropas que. estavam em Evo-
Ta.
Viu-se que esta força ainda era de 16:000
infantes, 1:400 cavallos, 35 peças de campa-
nha, e um grande material de guerra.
O general Cabreira, tinha no Algarve
3:000 infantes, 200 cavallor, e seis boccas
de fogo, fóra um corpo franco de cavallaria
e guerrilhas.
Em Elvas, Castello de Vide, Campo-Maior,
e Sérpa, ainda havia guarnições realistas, e
com 40:000 homens da ilha da Madeira
(5:000 da 4.º linha, e 5:000 da 2.º) o effe-
ctivo do exercito realista, ainda era de 36
mil homens!
No mesmo dia 24, chegou a Evora, o bri-
gadeiro, conde Luiz de Bourmont, que reco-
lhia com a sua brigada, de Alcacer do Sal.
Este intrépido official disse
que—se assistisse ao conselho
do dia antecedente, proporia
sahir de Evora com 8:000 ho-
mens escolhidos, e hir atacar
Terceira ou Saldanha, que es-
tavam a 8 leguas de distancia
um do outro, e seria muito
possivel batel-os em detalhe.
Era uma boa lembrança. Ti-
nha apenas o defeito de vir
tarde e a más horas.
N'este mesmo dia 24, a guarnição da pra-
ça de Castello de Vide, cercada pelos caste-
lhanos, de Rodil, capitúla, com as honras da
10 7.º conde de Villa-Flor, Antonio José de
Sousa Manoel de Menezes Severim de No-
ronha, tinha sido feito marquez. do mesmo
titulo, em 1827, e foi feito duque da Tercei-
ra, em 8 de novembro de 1832.
Morreu sem descendencia, a 26 de abril
de 1860, com quasi 68 annos, pois nascêra
a 18 de março de 1792.
Vide Villa Flor.
SAN
guerra; sahindo os realistas com todas as
suas bagagens, e os officiaes com as suas es-
padas.
N'esta capitulação estipulou-
se que os postos dados pelo
sr. D. Miguel, seriam garanti-
dos; mas este artigo cumpriu-
se tanto como identicos esti-
pulados na capitulação d'Ou-
rem, e na convenção d'Evora-
Monte, e os infelizes officiaes
do exercito realista (muitos
d'elles da guerra peninsular)
foram morrendo pouco a pou-
co, de fóme e de miseria, se
não tinham bens patrimoniaes
com cujos rendimentos se po-
dessem sustentar.
A guarnição de Castello de Vide era for-
mada pelos regimentos de infanteria n.º 10,
milícias de Evora, e de Idanha, batalhão de
voluntarios realistas de Portalegre, um es-
quadrão de cavallaria, e um parque de ar-
tilheria de campanha; alem de um soffrivel
material de guerra.
Governador da praça, era 0 corajoso coro-
nel, Rodrigo de Sousa Tudella (o fidalgo do
Atalho, junto a Agueda.)
O general Thomaz Antonio da Guarda Ca-
breira, que estava cercando Fáro, vendo que
o general christino, Serrano, estava já em
Mértola, com forças superiores às suas, aban-
donou o cêrco, tomando posições defensi-
vas.
A causa do sr.D. Miguelestava, por esta vez,
perdida em Portugal; e homens prudentes e
fieis, expozeram ao rei o seguinte plano:
Prover Elvas de abundantes mantimentos
e munições de guerra, e reforçar a sua guar -
nição com tropas fidelissimas, e ofíiciaes de
toda a confiança.
Reunir todas as forças que ainda se acha-
vam dessiminadas pelo Alemtejo e Algarve,
e pondo-se à testa do exercito, o sr. D. Mi-
guel e seu tio, D. Carlos V, marcharem para
a Hespanha e oecuparem Madrid, que tinha
uma pequena guarnição, e onde D. Carlos
tinha muitos partidarios.
SAN 959
Ao mesmo tempo, dar ordem ao tenente
general, conde da Madeira, D. Alvaro da Cos-
ta e Sousa de Macedo (um dos mais bravos
e mais fieis generaes do sr. D. Miguel) para
embarcar com os seus 10:000 homens, e hir
reunir-se ás Vascongadas, com o general
carlista Zumalacarregui; para o que, o gover-
no dos Estados Unidos da America lhe of-
ferecêra navios. .
Era uma tentativa arrojada, é verdade,
mas que tinha muitas probabilidades de
bom exito, com soldados tão dedicados ao
seu rei, como eram estes, e que estavam de-
cididos a seguil o para toda a parte para
onde elle os quizesse conduzir, apezar de
mal vestidos, mal calçados, mal pagos, e ex-
tenuados por dous annos de guerra.
Se fosse o sr. D. Pedro, com toda a certe-
za tomaria este expediente, mas seu irmão,
nem tinha a sua energia, nem tão bons con-
selheiros.
Alem d'isso, a maior parte dos generaes
realistas, tinham perdido a confiança dos sol-
dados: era preciso, antes de mais nada, des-
ligar todos quantos estavam n'este caso, e
entregar o commando das divisões e briga-
das, a coroneis; pois que todos os officiaes
até esta graduação, eram queridos e respei-
tados pelas tropas.
O general realista, José Antonio de Aze-
vedo e Lémos, em uma extensa nota à His-
toria Chronol. de Portugal (pag. 388) desap-
prova este audacioso plano (o de invadir a
Hespanha) allegando que o exercito estava
muito reduzido e desmoralisado.
Respeitando a opinião d'este bravo chefe,
cuja fidelidade ao seu rei nunca foi desmen-
tida, e que—por excepção—foi sempre ama-
do dos soldados — sustento, que as tropas
realistas ainda em armas em maio de 1834,
eram a flor do exercito realista; os que, com
a mais inaudita abnegação, e apezar de pri-
vações de toda a casta, e de tantos e tão suc-
cessivas derrotas, ainda estavam animados
da mesma coragem que mostraram nos pri- /
meiros combates.
É verdade que a maior parte dos miliciac
nos e voluntarios realistas, tinham abando-
nado as fileiras; mas os que ficaram, eram
firmes e decididos.
596 SAN
Eu ouvia constantemente dizer aos sol-
dados — e mesmo aos officiaes. — «O sr. D.
Miguel. se quizer vencer, deve pôr fóra do
exercito todos os generaes, e entregar os com-
mandos aos majores, tenentes coroneis, e co-
roneis.»
Estou convencido, apezar de tudo quanto
diz o general Lémos, que, com um fórmoso
exercito de 80:000 homens, e com todos os
recursos e dedicação do paiz, se o sr. D. Mi-
guel entregasse o commando em chefe do
exercito de operações sobre o Porto, a qual-
quer official subalterno, sargento ou cabo de
esquadra, a guerra não durava oito dias.
Esta opinião não é só minha, era a de to-
dos os meus camaradas. .
Os liberaes prudentes e justos que teem
lido esta obra, já ha muito devem estar des-
enganados de que, apezar dos meus senti-
mentos a favor da legitimidade, que não oc-
culto, e com os quaes me honro: n'esta obra
tenho sempre dito imparcialmente a verda-
de, eo que a minha consciencia me dita;
por isso, nem sempre tenho agradado aos
meus correligionarios.
Para desengano d'estes e d'aquelles, digo
aqui, e sem receio de ser desmentido, com
bons fundamentos.
Supponhamos que o sr. D. Miguel era o
sr. D. Pedro, e tinha por generaes, Villa-
Fiór, Saldanha, Sá da Bandeira, Torres, €
outros semelhantes—e por conselheiros, Lou-
lé, Palmella, Mousinho da Silveira (vol. 2.º,
pag. 191, col. 1.2) e ouiros romo-estes, e di-
gam (realistas e laberaes) com franqueza—
quantos dias a bandeira bicolor ondularia
“mas baterias do Porto, em 1882?
Mas, nem o sr. D. Miguel era o sr. D. Pe-
dro, nem tinha os seus generaes e conse-
lheiros!
Eis um periodo, não de escriptor impar-
cial, mas de um dos principaes defensores
da causa liberal, como temos visto nas pa-
ginas d'este artigo—é o almirante Napier.
No seu livro da Guerra da successão em
Portugal (tom. 2.º, pag. 266) diz:
«Os officiaes superiores (realistas) não
queriam morrer nas planícies d'Evora, e
desejavam vêr terminada a guerra; os sol-
dados, pela outra parte, estavam promptos
SAN
para combuter e derramar o seu sangue,
em defeza da causa de (o senhor) D. Miguel.
Então que devia elle fazer? O que? Devia
ter agradecido aos officiaes os seus serviços.
e despedil-os, dando o commando do seu
exercito a d'Almér, ou Bourmont, promover
Os Officiaes que quizessem ficar, e prover us
vacaturas com homens tirados das fileiras.
Com um exercito assim, tão perfeitamente
dedicado à sua causa, tinha tudo a ganhar
e nada a perder: teriam marchado sobre
Madrid, reunindo os carlistas, e é provavel,
que D. Carlos teria agora sido rei da Hes-
panha, e (o sr.) D. Miguel poderia d'alli ter
recuperado a corôa. D. Pedro (o sr.) achou-
se no Porto em uma posição peior, etc.»
Finalmente, esta guerra fratricida termi-
nou pela convenção de 27 de maio, feita na
villa d'Evora Monte. O sr. D. Miguel sahiu
d'Evora a 30, e de Portugal, pelo Algarve
(vide Evora-Monte e Sines) e o sr. D. Carlos
pelo Tejo; e as tropas realistas regressaram
aos seus lares (as que poderam escapar aos
punhaes e bacamartes dos diversos bandos
de facinoras, .que, com a capa de liberaes,
infestavam todo o reino,)
Tornemos a Santarem.
1835—Vide o anno de 1426.
1862 (16 janeiro) —Morre em Santarem, o
venerando patriota, doutor Manuel da Silva
Passos, chefe do partido republicano em
Portugal. Elle e seu irmão, o doutor José
da Silva Passos, foram os liberaes de mais
boa fé e optimas intenções que tem tido este
reino, desde 1820.
Passos Manuel, nasceu na freguezia de
Ginfões, concelho de Bouças, comarca do
Porto, a 5 de janeiro de 1801. Matriculou-se
na universidade de Coimbra, em outubro de
1818, e formou-se (em direito) no anno de
1822.
Manuel da Silva Passos, casou em Santa-
rem, com a sr.? D. Gervasia Falcão de Pas-
sos Manoel, que ainda vive. Era viuva de
Ignacio Maria de Souza Girão, natural de
Santarem, e do qual não teve filhos. Do se-
gundo matrimonio teve duas filhas—1.º, a
sr.* viscondessa de Ferreri, casada com o
SAN
sr. Adriano Augusto Brandão de Souza Fer-
reri, que obteve o titulo, em 14 de junho de
1870. Era uma dama virtuosissima e que
adorava seu marido, mas, sendo abandona-
da por este, endoideceu, e vive ainda de-
mente —A 2.2 (A sr.2 D. Antonia) está ca-
sada com o sr. Pedro de Souza Canavarro,
um dos cavalheiros mais dignos de Santa-
rem. Já teem duas filhinhas, que são dois
anjos.
Os irmãos Passos, eram, em toda a ex-
tensão da palavra, dois verdadeiros homens
de bem, e dignissimos da grande populari.
dade de que sempre gosaram.
1868 (24 de dezembro) —Santarem recu-
pera a sua antiquissima cathegoria de ci-
dade. Eis a resrectiva carta de lei:
«Attendendo a que, illustre por sua remo-
tissima antiguidade e memorias nobilissimas,
veneranda pela primasia que lhe anda au-
thenticada pela historia, já como colonia mi-
litar a que Julio Cesar deu o seu nome, já
como convento juridico, ou cabeça de uma
das trez grandes circumscripções judiciaes,
instituidas pelo imperador Augusto na Lu-
Sitania, já como séde do governo e residen-
cia real, nos primeiros seculos da monarchia
portugueza, é a muito nobre villa de Santa-
rem uma das insignissimas povoações do
reino;
Attendendo mais a que, desde 4263 até
1478, doze! vezes foram no seu recinto con-
vocadas e celebradas as antigas côrtes ;
Attendendo outrosim à importancia da
sua posição, à fertilidade do seu territorio,
aos gloriosos brasões. do seu passado, em to-
dos os tempos, às numerosas provas de pa-
triotismo dadas pelos seus habitantes em
diversas épocas ;
Considerando finalmente que, por todas
as referidas condições e demais predicamen-
tos bem conhecidos, é esta povoação intei-
ramente digna de subir em preeminencia,
não lhe faltando elementos para sustentar a
correspondente dignidade :
Hei por bem fazer mercê á dita villa de
1 Julgo que aqui ha érro. Eu não acho
mais do que onze convocações de côrtes em
Santarem.
SAN 537
Santarem, de a elevar à categoria de cidades
com a denominação de cidade de Santarem,
e me praz que n'esla qualidade gose de to-
das as prerogativas, liberdades e franquias,
que direitamente lhe pertencerem: devendo
expedir-se à camara municipal respectiva,
a carta competente, em dois exemplares, um
para titulo d'aquella corporação, outro para
ser depositado no real archivo da torre do
tombo.
O presidente do conselho de ministros, e
o ministro e secretario d'estado dos nego-
cios do reino, assim o tenham entendido e
façam executar. Paço, 24 de dezembro de
1865. —REL—Murquez de Sá da Bandeira.
— Antonio, bispo de Visew.»
1876 (16 de fevereiro) — Data do alvará
que mandou fundar um Museu districtal,
em Santarem. (Vide adiante, Museu distri-
ctal.)
1876 (6 de junho)—Foram lançados no
rio Tejo, em frente de Santarem, trez cai-
xões de ferro, para os fundamentos do pri-
meiro pilar da magestosa ponte, que liga
esta cidade com o Alemtejo. Foi preciso pro-
fundar 17 metros!
Conta-se este dia como o da inauguração
dos trabalhos da ponte, e foi de grande re-
gosijo para os habitantes de Santarem.
Á noite as musicas percorreram as ruas
da cidade, que estavam illuminadas, e su-
biram ao ar muitos foguetes.
Como nas escavações que se
fizeram no rio, tem appareci-
do algumas antiguidades, o
presidente da commissão do
museu districtal, pediu ao go-
verno, que lhe fossem entre-
gues todos os objectos alliacha-
dos, que indiquem valor ar-
tistico ou archeologico, para
serem guardados no museu.
O governo deferiu.
Ainda continnam as obras d'esta ponte.
Se quando chegar ao artigo Tejo, ellas estis
verem concluidas (do que duvido) darei à
descripção d'esta magestosa ponte, rival das
do Bico, da Régua e da do caminho de ferro
de leste, que atravessa o Tejo, proximo ao
famoso castello d' Almourol.
538 SAN
A 3 de julho deste anno, falleceu, na pro-
vincia de S. Paulo (Brasil) o negociante por-
tuguez, Ayres Coelho da Silva Gameiro (feito
barão da Silva Gameiro, em 41 de junho de
1874) deixando, entre outros muitos lega-
dos—á Santa Casa da Misericordia de San-
tarem, seis contos de réis, em acções da es-
trada de ferro, de Campinas no Rio-Claro, e
quatorze contos de réis, em acções da com-
panhia Magyana (tudo no Brasil) com diver-
sas condições, sendo uma d'ellas, distribuir
quatrocentos mil réis pelos pobres de San-
tarem (patria do testador) e differentes men-
salidades.
Segundo as suas recommendações, a cada
um dos 12 pobres que o levaram à sepultura,
se deu 505000 réis.
Deixou valiosos legados a diversos paren-
tes, que tinha em Portugal.
Em setembro d'este anno, foi organisado
o corpo de policia civil de Santarem. Consta
de 50 praças, e houve todo o cuidado na
escolha d'estes agentes da segurança pu-
blica.
Grande cheia e temporal
Em dezembro d'este mesmo anno de 1876,
teve logar uma das maiores cheias, e um
dos mais terriveis temporaes, de que ha no-
ticia, em todo o Riba-Tejo.
O rio apresentava um aspecto magestoso,
como se fosse o Amazonas, ou o Mississipi!
As agúas chegaram a Almeirim (à kilome-
tros da sua margem habitual.) Os campos de
Vallada, ficaram completamente inundados,
e todos os seus habitantes tiveram de fugir
para os montes. O mesmo suecedeu em
Muge.
A agua subiu mais 16 centimetros do que
em 1855, anno em que a inundação tomou
proporções assustadoras, e desconhecidas
até então.
O serviço dos comboyos do caminho de
ferro, ficou interrompido, e o mesmo acon-
teceu em varios pontos da linha telegra-
phica; de maneira que Santarem ficou iso-
lado do resto do paiz.
SAN
Das Portas do Sol de -S. Bento, dos Capu-
chos, e do Outeiro da Forca, a vista que se
gosava da inundação, era magestosa e im-
ponente !
Do Alto da Forca, o espectaculo era real-
mente grandioso! Olhando-se para E. e O.»
descobria-se até ao horisonte, uma vastis-
sima massa d'agua, d'onde emergiam, aqui
e alli, a eópa das arvores, ou o telhado de
alguma casa, coberta até elle pelas aguas.
Do lado da ponte da Asseca, tomou a inun-
dação tambem proporções espantosas, trans-
formando em vasto lago, todo aquelle ex-
tenso valle.
Todas as ruas do bairro da Ribeira de
Santarem, que ficam inferiores à linha fer-
rea, foram inundadas, chegando a agua aos
primeiros andares de algumas casas. Esta
povoação ficou transformada em uma ver-
dadeira Veneza.
Alguns edificios foram destruidos, e os
habitantes da povoação, fugiram quasi to-
dos para a cidade.
Morreu muito gado afogado, e outro foi
salvo a muito custo. Grande numero de oli-
veiras, muitas d'ellas ainda carregadas de
fructo, foram arrastadas pela corrente.
Já se vê que esta cheia causou muitas
dezenas de contos de réis de prejuizo aos
proprietarios destes sitios.
Para se fazer uma ideia aproximada d'es-
tes prejuizos, basta dizer que, a viuva Cal-
das, de. Santarem, tinha na sua quinta de
Malpica, alguns 600 moios de cereaes de-
baixo d'agua.
O lavrador Caldeira, dos arrabaldes de
Santarem, perdeu quasi todo.o seu gado,
apezar de offerecer 50 libras, a qualquer
barco que o ajudasse a salval-o.
Pouco porem soffreram as obras da nova
ponte sobre o Tejo. Tanto os pégões, como
os andaimes, resistiram galhardamente á
enorme velocidade da corrente; a qual era
tão forte, que de longe se ouvia o ruido que
produzia, de encontro aos pégões ; mas uma
das machinas de serviço foi ao fundo.
O serviço do correio entre esta cidade e
Lisboa, esteve muitos dias interrompido.
As povoações d'este concelho que mais
soffreram com o temporal, foram—Reguen-
SAN
go do Alviella, Pombalinho, Tapada, Casaes
do campo, ao Sul do Tejo, Porto de Muge,
Bemfica, e Vallada.
Em todas ellas, muitas pessoas ficaram só
com o fato que tinham no corpo, vendo hir
pela agua abaixo, roupas, fructos, mobilias
e gados, e cahirem as casas que habitavam.
Muitos d'estes infelizes, foram recolhidos
na cidade, em uma casa que o governador
civil lhe proporcionou, dando-lhes tambem
este magistrado, os precizos alimentos, em
quanto não podessem tomar destino.
Os relevantes serviços prestados n'esta
triste conjunctura, pelo referido governador
civil—o sr. José Ferreira da Cunha e Sousa
(natural d'Aveiro, e hoje aposentado) pelo
seu secretario-geral, o sr. João Dally Alves
de Sá, e pelo engenheiro-director das obras
da ponte do Tejo, o sr. Augusto Casaux, são
dignos dos maiores elogios, e da gratidão
dos povos d'estas terras.
Mosteiros de Santarem
FREIRAS
1.º— Religiosas dominicanas (convento das
Donas) (Vide o anno de 1240.) Elvira Du-
randa (ou Elvira Durão) fundadora d'este
mosteiro, era uma donzella nobre de Santa-
rem.
Foi primeiramente de freiras cruzias (co-
negas de Santo Agostinho) e porisso se fi-
cou chamando das donas.
A fundadora o instituiu nas suas proprias
casas, que eram no sitio onde depois se fun-
dou (1554) o mosteiro da Santissima Trin-
dade.
Ella era conega obedenciaria, 1 do mos-
1 Havia trez classes de freiras agostinhas.
— 4.2, conegas, que viviam ém mosteiros, e
se denominavam conegas inclusas, ou em-
paredadas, ou reclusas, e guardavam a sua
regra com o maior rigor. — 2.3, sorores, e vi-
viam em suas casas, das suas rendas, se-
guindo a regra de Santo Agostinho, e dei-
xando, por sua morte, ao convento, tudo
quanto tinham. A estas se dava tambem o
nome de obedenciarias.—3.2, conegas tercei-
ras—seguiam uma regra mais larga, poden-
do até ser casadas; mas faziam voto de obe-
diencia, ao prior; voto de castidade conju-
gal e de pobreza relaxada (como até 1834,
SAN 399
teiro de S. Vicente de Fóra, de Lisboa, e
fez-se, voluntariamente conega reclusa.
A ella se juntaram vinte dio da ci-
dade, fazendo cada uma sua casinha, ao pé
da de Elvira, tudo em linha, e formando
uma rua, desde a ermida da Trindade, até
ao mosteiro de S. Francisco.
Em 4263, quizeram os frades francisca-
nos apoderar-se d'estas cellas das empare-
dadas, pondo-as fóra; mas ellas queixaram-
se ao pontifice Urbano IV, e continuaram
nas suas cellas: e, com ajuda de seus paren-
tes, que eram ricos proprietarios de Santa-
rem, fizeram a toda a pressa uma cêrca, fi-
cando assim, com clausura commum.
Tomaram então o titulo de Donas da San-
tissima Trindade, elegendo para primeira
prioresa, Sancha Martins.
Mas os ambiciosos franciscanos lhes fize-
ram constantemente crua guerra, querendo;
a todo o custo, apoderar-se do pequeno mos-
teiro, de modo que, 24 annos depois (1286)
e segundo outros, 17 annos depois, em 1280,
se passaram para outro sitio, fóra dos mu-
ros, à porta de Mansos, junto à ermida de
Santa Maria Magdalena, onde já havia prin-
cipio de mosteiro, feito pelos frades domini-
canos, que lh'o cederam voluntariamente.
Em 1287, mudaram estas freiras, volun-
tariamente, de habito e regra, tomando o de
S. Domingos, por gratidão aos frades d'esta
ordem, que lhe haviam cedido o terreno, e
o principio do edificio.
Em 1291 é que concluiram todas as obras,
à custa de uma nobre dama, enamada D. Es-
tevainha Pires de Casével, natural de San-
tarem.
Posto que este convento ficasse desde en-
tão pertencendo á, ordem dominicana, as
freiras trouxeram o habito de Santo Agosti-
nho, até ao anno de 1298, em que tomaram
o de S. Domingos; mudança de ordem, que
foi confirmada pelo papa Clemente V, em
1305 (1.º anno do seu pontificado.)
Apezar d'esta mudança de regra e insti-
tuto, não perderam as freiras a sua primit-
tiva denominação de donas.
faziam as commendadeiras de Santos, de
Lisboa.)
540 SAN
Na capella-mór da egreja era o jazigo dos
condes de Unhão. Ainda alli existem alguns
tumulos desta familia.
Ainda aqui estão (setembro de 1879) trez
freiras e algumas educandas. Vide o anno
1666 (28 de fevereiro) e o artigo — Antiga
ermida de Nossa Senhora da Piedade.
2.—Religiosas de Santa Clara (francis-
canas.) (Vide o anno 1259.)
A egreja d'este mosteiro, é vasta, e tem
ricas capellas. É de trez naves, e as colum-
nas, de pedra, que as sustentam, são cober-
tas de arabescos doirados.
O côro é tão vasto como uma grande egre-
ja, e estã ornado de quadros, de pintura an-
tiga. No fundo do côro, está o mausoleu de
D. Leonor Affonso, filha natural de D. Affon-
so II, que foi freira n'este mosteiro.
Na casa que dá entrada para a sachristia,
vê-se outro tumulo, muito antigo, assente
sobre leões, e com muitos lavores, e as ar-
mas de Portugal. Tem sobre a tampa, dei-
tada, a estatua de um cavalleiro, com a mão
direita no punho da espada. O epitaphio diz
(erradamente) jazer alli o infante D. Henri-
que, filho de D. Affonso III.
Póde dizer-se afoitamente
que se ignora a quem perten-
ce este tumulo, e só se sabe
que pertence a filho de rei,
em vista do escudo real que o
adorna; mas não filho de D.
Affonso IIL—Este monarcha
teve sete filhos legitimos e nove
bastardos, que foram :
Legitimos—por ordém de edades
Branca, abbadessa de Lor-
vão,e das Huelgas, de Burgos—
Fernando, que morreu crean-
ça—Diniz, que foi rei—Affon-
so, casado com D. Violante, fi-
lha do infante D. Manuel e.
neta de D. Fernando IIJ, de.
Castella—Sancha, Maria, e Vi-
cente, que morreram de pouca
edade.
“SAN
Bastardos
Fernando; cavalleiro tem-
plario — Affonso Diniz, pro-
genitor dos Souzas, condes de
Miranda—Martim Affonso, do
qual descendem os Souzas, con-
des do Prado — Gil Affonso,
Leonor, (a que foi aqui freira
e onde foi sepultada) — Urraca,
outra Leonor—Pedro Affonso,
conego de Santa Cruz de Coim-
bra—Rodrigo Affonso, conego
do mesmo mosteiro, e prior de
Santa Maria d'Alcáçova, de
Santarem.
Suppõe-se que este mausoleu é o de D.
Martim Affonso Chichôrro, o 3.º dos filhos
bastardos que nomeiei; porque tinha aqui,
quando morreu, duas irmans freiras, e é
provavel que ellas o mandassem sepultar
n'este mosteiro.
N'este convento ainda hoje existem trez
freiras, algumas educandas e recolhidas, e
suas competentes creadas.
Eis o que com respeito a este convento
diz um tão honradissimo liberal, como ver-
dadeiro homem de bem:
(Viagens na minha terra, pelo visconde
d'Almeida Garrett, capitulo 40. (O sublinha-
do é meu.)
«Era de noite, reinava a confusão, a de-
sordem, o susto e a anciedade nos muros de
Santarem, trez homens chegavam, por horas
mortas, ao antigo mosteiro das Claras, da-
vam à portaria um signal surdo e mysterio-
so; respondiam-lhe de dentro com outro
egual; e d'ahi a pouco, sem rumor e com as
mais escrupulosas precauções se abria quie-
tamente à porta da clausura.
Os trez homens entraram, a porta fechou-
se sobre elles do mesmo modo precatado.
Que será?
Os homens levavam uma especie de co-
| fre que parecia conter preciosidades de gran-
de valor: tal era o desvello com que o res-
guardavam.
Ha um mysterio que se figura crimino-
so nesta aventura. Mas os tempos são para
tudo.
SAN
Era no anno de 1834.
Entremos n'esse convento das pobres Cla-
ras, tão afílictas e desconsoladas agora que
as ameaçam de dissolução como aos fra-
des.
Não será assim: aquellas instituições não
mettem medo aos verdadeiros liberaes e os ou-
tros lá teem o espolio dos frades para devo-
rar; estão entretidos: as freiras salvam-se
por ora.
Taes eram as esperanças dos trez homens
que entravam a estas deshoras nos vedados
precinctos do mosteiro. Sigamol-os porém,
que é tempo.
Chegavam elles a uma pequena cai
do claustro das freiras, foram depor sobre o
altar o cofre que traziam, e ajoelharam de-
votamente deante d'elle. Logo se ouviu ao
longe o psalmear baixo e sumido de vozes
femininas; e d'ahi a pouco, toda a commu-
nidade das Claras, de tochas na mão, em
duas alas, e a abbadessa com o seu báculo
atraz, entravam procissionalmente no claus:
tro e se dirigiam à mesma capella.
O psalmo que cantavam era este:
«Meu Deus, vieram os barbaros ás tuas
herdades, polluiram o teu saneto templo, po-
zeram Jerusalem como um granel de íru-
ctos.» 1
«Pozeram 03 cadaveres de teus filhos de
cevo às aves do ceu; as carnes dos teus
sanctos ás alimarias da terra.
«O sangue d'elles derramam-no como agua
nos valles de Jerusalem; já não havia quem
sepultasse.
«Estamos feitos o opprobrio dos nossos
visinhos; o escarneo e a zombaria dos que
vivem por nossos arredores.
«Até d'onde, ó Senhor, te has de irar em
fim; e se ha de accender o teu zelo como to-
go?
«Vérte a tua ira sobre as gentes que te
não conheceram, contra os reinos que não
invocaram o teu nome;
«Que devoraram a Jacob; e desolaram suas
terras.
«Não te lembres de nossas iniquidades
1 Deus, venerunt gentes in heriditatem
tuam, etc.
Ps. 78.
SAN 541
passadas e depressa nos alcancem as tuas
misericordias; já que tão pobres de mais es-
tamos.
«Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela
gloria do teu nome livra-nos Senhor; amer-
cêa-te de nossos peccados, por causa do teu
nome.» |
Cantavam assim as pobres das freiras, can-
tavam em latim que ellas mal entendiam;
mas dizia-lhes o instincto do coração, dizia-
lhes a tão excitavel imaginação feminina,
que era chegada a hora de se cumprir a
seus olhos, e sobre ellas mesmas tambem, a
tremenda prophecia: do psalmo que entoa-
vam.
Havia pois lagrimas n'aquellas vozes que
assim cantavam: sahiam d'alma aquelles sons
e n'alma vibravam tambem com profunda e
solemne melancholia.
Chegadas juncto á capella aonde estava o
cofre, as freiras pararam conservando as
mesmas duas alas da procissão e continuan-
do no accentuado murmurio de seu psal-
mo. :
Os trez vultos de homem, permaneceram
de joelhos e curvados deante do altar. Fin-
dou o psalmo e seguiu-se breve intervallo
de silencio. Depois, os trez homens levanta-
ram-se, e cahindo-lhes para os lados as lon-=
gas capas em que vinham involtos. viu-se
que o do meio era um frade veiho, magro,
curvado e secco, trajando ainda, apesar da
lei, o burel preto dos franciscanos e cingido
com sua corda. Os outros dous eram domi-
nicos e vestiam de preto e branco, segundo
as côres de seu tambem proscripto institu-
to.
O velho franciscano subiu com passo tré-
mulo os degraus do altar, beijou o cofre que
estava sobre elle, e voltando-se para a com-
munidade em religioso silencio, disse com
uma voz cava, que parecia vir do sepulchro,
mas accentuada e forte:
«Trmaas, vimos entregar-vos este deposito
precioso. Deus não quer que os cadaveres
dos seus santos fiquem expostos ás aves do
ceu e ás alimarias da terra. Este é o sancto
corpo d'um dos maiores sanctos que produ-
ziu esta terra de Portugal quando era aben-
coada. Hoje é maldita e não devia conservar
942 SAN
as suas relequias. Os filhos de S. Domingos
foram expulsos de sua casa, assim como nós
fomos, nós os filhos de S. Francisco; encon-
tramo-nos sem tecto nem abrigo uns e ou-
tros, e juntamos as nossas miserias, para as
chorarmos como irmãos que somos, como
filhos de paes que tanto se amaram e ajuda-
ram. Peregrinaremos junctos por essas so-
lidões da terra, e junctos iremos bater por
essas portas que cerrou a impiedade e a in-
diferença, a pedir o pão de cada dia porque
temos fome.
Que importa! Não professámos nós, não
nos honrâmos de ser mendigos? De que vi-
vemos nós sempre, senão de esmola?
Não choreis, irmans, não choreis sobrenós.
Deus que o permittiu bem sabe o que fez.
Louvado seja elle sempre! Nós tinhamos
peccados para mais! Ainda foi misericor-
dioso comnosco o Senhor da justiça e do
castigo.
A nós tiraram-nos tudo! Até estas morta-
lhas que tinhamos escolhido em vida e que
nem a morte ousava ROUBAR-NOS. )
A furto e como quem se esconde para um
acto criminoso, nós as vestimos esta noite
para commetter o que elles chamarão um
furto, e que era uma obrigação sagrada
nossa.
Fomos à antiga casa de nossos irmãos e
roubamos o corpo do bemaventurado S. Frei
Gil.
Aqui vol-o entregamos: guardae-o.
Emquanto estes muros estiveram em pé,
que o abriguem dos desacatos dessa gente
sem Deus nem les. A vós não ousarão ex-
pulsar-vos d'aqui: talvez vos matem á fo-
me... Não póde ser: Deus não ha de per-
“mitlil-o.
Mas qualquer que seja a sua vontade, re-
signae-vos a ella, minhas irmans. Só elle sa-
be como nos ama e como nos castiga. Lou-
vemol-o por tudo.»
Aqui foi um chorar e um supplicar fer-
vente como só se ouve na hora da angustia.
As afflictas monjas estavam prostradas nas
lages humidas do claustro, sobre as sepul-
turas de suas irmans, sobre seus proprios
jazigos que haviam de ser. O frade com os
braços estendidos pronunciou as solemnes
SAN
palavras de benção, descrevendo com a di-
Feita o augusto symbolo da redempção:
Bemdiga-vos Deus Omnipotente, Pae, Fi-
lho e Espirito Sancto! Amen! respondeu o
córo; e os trez proscriptos se retiraram, dei-
xando a salvo o seu thesoiro.
Assim desappareceu do tumulo, o corpo de
S. Frei Gil, de Santarem.
Ninguem sabia d'elle: soube-o eu e guar-
dei o segredo religiosamente.
Os tempos são outros hoje: os liberaes já
conhecem que devem ser tolerantes, e que
precisam de -ser religiosos. Não ha perigo
em dizer-lhes onde elle está.
Quando houver em Portugal um governo
que saiba ser governo, ha de regular e con-
solidar a existencia das freiras, ha de apro-
Veital-a para as piedosas instituições do en-
sino da mocidade, da cura dos infermos, e
do amparo dos invalidos.
Os barões andam-lhe com o cheiro nos pou-
cos bens que lhe restam às pobres das frei-
ras. Mal do governo que deixar comer mais
aos barões!»
Para a vida de S. Frei Gil, vide o anno
1265 (14 de maio).
Isto está bellissimo, como tudo quanto sa-
hia da penna do immortal Garrett; mas não
é exactamente a verdade. Houve o roubo
piedoso dos ossos de S. Gil, e fez-se 2spalhar
que estavam no mosteiro de Santa Clara,
para os poupar a novas profanações; mas a
verdade é esta.
Sendo expulsos do seu mosteiro, os fra-
des dominicanos, de Santarem, em 1834, fi-
cou a egreja abandonada, e sem ter quem
cuidasse da sua conservação e aceio. Uns la-
drões sacrilegos, na esperança de acharem
alguma cousa de valor, no tumulo de S. Frei
Gil, foram-se a elle e arrombaram-o, mas
não acharam nada que lhes satisfizesse a no-
jenta cobiça.
A sepultura, ficou aberta.
Um homem temente à Deus, receando no-
vas, € porventura, mais escandalosas profa -
SAN
nações nas reliquias venerandas do sancto,
foi alta noite, à egreja de S. Domingos, e com
o maior segredo as levou para sua casa, fa-
zendo constar que tinham sido depositadas
no mosteiro das Claras.
Alli estiveram respeitosamente guardadas |
alguns annos, até que, por accaso providen-
cial— senão milagroso—o actual sr. marquez
de Penalva, veio a saber onde existiam as
cinzas d"este glorioso ascendente colateral da
sr. marqueza, sua esposa. Um amigo pode-
roso d'estes senhores, conseguiu que 0 pos-
guidor das reliquias lh'as entregassem, e elles
as collocaram com todo o respeito devido a
tão sancto varão,.-na capella particular da
casa da sua residencia, na rua dos Lagares,
em Lisboa, onde actualmente se acham.
Correu um processo na camara ecclesias-
tica do patriarchado, no qual foi chamado
a juramento, o devoto santareno, depositario
das reliquias, depondo serem authenticas.
Depois de observadas todas as formalidades
das leis da egreja, e provada a identidade
das santas reliquias, obteve o sr. marquez,
do então cardeal-patriarcha, D. Guilherme,
uma provisão, para que estas reliquias pos-
sam ter culto.
Todos os annos, a 14 de maio, anniversa-
rio do sancto, e dia que a Egreja destinou
para sua festa, lhe fazem os religiosos srs.
marquezes, uma sumptuosa solemnidade.
Os srs. marquezes de Penalva, ainda são
d'aquelles portuguezes que se honram de
ser catholicos, e que seguem com prazer os
dictames da honra e da religião em que fo:
ram educados pelos seus esclarecidos paes.
Deus lhes pagará no outro mundo, os bons
exemplos de armor e respeito à religião, que
dão n'este; e é por isso que são geralmente
respeitados. (Vide Paço de Vilharigues, Pe-
nalva do Gastello, Rériz e. Rezende.)
3.º— Freiras capuchas. (Senhor dos Inno.
centes.) Vide o anno 1290.
Ainda tem 18 madres, professas volunta-
rias, nos trez votos (pobreza, obediencia e
castidade) mas com o caracter de recolhidas.
E uma casa exemplarissima.
SAN
Frades
945
1.º— Mosteiro de Santo Agostinho (eremi-
tas calçados, tambem chamados gracianos)
Vide os annos de 1376 e 1437.
Tem uma bella egreja, gothica, de trez
naves, com um formoso pórtico na fachada
principal, e sobre elle, um grande e lindo
espêlho, primorosamente esculpido.
No meio da capella-mór, esteve o tumulo
do fundador e de sua mulher, D. Guiomar
de Villa-Lobos, bisneta do rei D. Sancho, de
Castella; mas, em 4725, foi removido para o
sitio actual, à entrada da egreja, do lado es-
querdo de quem entra.
Nas outras capellas da egreja, estão varias
sepulturas, sendo as principaes as de—D.
Leonor de Menezes, filha do conde de Ou-
rem, e mulher de D. Pedro de Castro, filho
de D. Alvaro Pires (ou Peres) de Castro, con-
de de Arrayolos e 1.º condestavel de Portu-
gal. Era irmão(de D. Ignez de Castro, mulher
de Pedro I.
D. Affonso de Vasconcellos de Menezes,
conde de Penella, bisneto do infante D. João,
filho de D. Pedro I e de D. Ignez de Cas-
tro.
Pedro Alvares Cabral, o famoso descobri-
dor do Brasil, em 25 de abril de 4500 (vidê
Bello-Monte, Constancia, e Portalegre—o 1.º
alcaide mór)—sua mulher, D. Isabel de Cas-
tro—pD. Pedro de Menezes, 2.º conde de Vian-
na, alferes-mór do rei D. Duarte, e 1.º go-
vernador de Ceuta. (Vide o anno 1437.)
D. Beatriz, sua mulher. (Vide o anno
1725.) )
Este mosteiro foi vendido
por uma tuta é meia, depois de
1834.
O comprador o reduziu a
casas, hoje oceupadas por di-
versas familias.
A egreja ainda se conserva
em bom estado, para o culto
divino, e, entre outras, faz-se
alli uma boa solemnidade an-
nual ao Senhor Jesus dos Pas-
sos.
—
2.º — Agostinhos Descalços, ou da Piedade
544 SAN
—(Vide o anno de 1664, e adiante, o artigo
— Antiga ermida de Nossa Senhora da Pie-
dade.)
Parte do mosteiro, foi vendida, depois de
1834, e está tambem reduzida a casas de ha-
bitação de particulares. O resto, foi dado à
irmandade de Nossa Senhora da Piedade, es-
tabelecida na egreja.
Em cumprimento do voto, feito por D. Af-
fonso VI, os seus successores eram obriga-
dos a assistir à festa da Senhora, feita à sua
custa, no dia anniversario da grande victo-
ria do Ameixial (ou Gannul):; mas ha muitos
annos que o voto deixou de cumprir-se, e
a festa é feita à custa da irmandade.
3.º — Dominicanos, de Nossa Senhora da
Oliveira — (ordem dos prégadores) Vide os
annos 12141 e 1604.
Na reconstrueção, d'este ultimo anno, a
egreja foi demolida, e edificada desde os fun-
damentos, menos a capella-mór, que, por
estar bem conservada, ficou.
Hoi o primeiro convento d'esta ordem que
se fundou em Portugal, porque foi cá intro-
duzida em 1241.
A egreja era de trez naves, e encerrava
muitas sepulturas de homens illustres, en-
tre ellas, as de—D. Fernando Sanches, filho
bastardo do rei D. Diniz—D. Miguel de No-
ronha — D. Leonor, filha 2.2 dos marquezes
de Villa-Real—D. Margarida de Vilhena, fi-
lha dos 3.º marquezes de Villa-Real— Ruy
Telles de Menezes, mordomo-mór da rainha
D. Maria, 2.2 mulher do rei D. Manuel — e
Martim de Ocem, chanceller-mór de D.
João I.
Vide ermida de 8. Pedro.
“Na capella de São frei Gil, no cruseiro
d'esta egreja, estava o (para aquelle tempo)
sumptuoso mausoleu, de marmore, do mes-
mo santo.
Esta egreja foi profanada, depois de 1834,
e os vandalos d'este seculo, destruiram sa-
crilegamente todos os tumulos e outros pri-
mores d'arte.
Vide 1265 (14 de maio) e mosteiro de frei-
ras de Santa Clara,
No edificio do mosteiro, estabeleceu a ca-
COM
mara, 0 matadouro. .. e uma praça de tou-
ros!
Actualmente (setembro de 1879) estão
tanto a egreja como o mosteiro, quasi de-
molidos, e querem alli fundar uma peniten-
ciaria!
Vide o anno de 1232 e Ermida da Se-
nhora da Oliveira.
4.º— Santo Antonio (capuchos) —foi demo-
lido até aos fundamentos, e o chão que oc-
cupava a egreja, o mosteiro, e parte da cêr-
ca, é hoje o cemiterio publico.
3.º—São Francisco (franciscanos) —Vide
o anno de 1242,
(Era casa de noviciado).
A egreja, d'architectura gothica, era de
trez naves, e de grandes dimensões.
No côro deste templo, estava o magnifico
tumulo do rei D. Fernando, e de sua mãe,
a infanta D. Constança, 4.º mulher de D. Pe-
dro 1.
Depois de 1834, alguns maivados, para o
abrirem (a ver se achavam alguma cousa
que roubar) lhe quebraram parte dos seus
primorosos relevos.
O sr. J. P. Narciso da Silva, obteve da ca-
mara de Santarem a concessão d'este monu-
mento venerando, que hoje se admira no
museu archeologico do Carmo, em Lisboa. 1
O edifício do mosteiro, serviu muitos an-
nos, de quartel de cavallaria numero 4, e
desde que este regimento se mudou para Lis-
boa, onde está actualmente, ficou sendo quar-
tel de artilheria n.º 3.
A sua magestosa egreja, está servindo de
palheiro (!!!) e com escandalo de todos os
1 É verdade que o tumulo foi feito para
D. Fernando e para sua mãe, porém os os-
sos d'esta, nunca se chegaram a mudar para
clle, da sua primitiva sepultura.
Quando os vandalos de 1834 o arromba-
ram, só continha os ossos do rei e de uma
creança, que se não sabe quem seja.
Tanto estes dois cadaveres, como o de D.
Constança, foram arrancados do que devia
ser o seu ultimo jazigo, e atirados a algum
nd e não se tornou a saber mais d'el-
es!
Não comento: limito-me a pôr um ponto
de admiração; porque similhantes atrocida-
des não precisam commentar-se.
SAN SAN 945
portuguezes (não só catholicos, mas ainda riques, e grão-mestre da ordem de S. João
simplesmente respeitadores dos mortos, e de Jerusalem; cuja dignidade renunciou, re-
dos monumentos de reconhecido merito, ar- | gressando a Portugal.
tistiço e historico) os varios tumulos que | Este tumulo, estava na antiquissima egre-
ainda existem nesta egreja, estão tambem | ja de S. João ds Alporão, e quando este tem-
profanados e mutilados! | plo foi transformado em theatro, (!) muda-
Mesmo junto à porta principal da egreja, | ram-o para esta capella. (Ainda bem!...)
está um tumulo, de marmore preto, ornado | Tambem aqui está uma antiquissima es-
de boas esculpturas, tendo sobre a tampa, a | tatua, toscamente cinzelada, do nosso pri-
estatua de uma dama. meiro rei. Esteve originariamente na facha-
Os vandalos julgando achar dentro algum | da da velha e arruinada egreja de S. Miguel,
thesouro, dospedaçaram a tampa, mas, só os | que aquelle monarcha havia fundado, den-
ossos acharam! tro da Alcágova. Consta ser, a estatua, feita
Consta que n'este tumulo esteve o corpo | em vida de D. Affonso 1.
da infanta D. Constança, mãe de D. Fernan- Alem destas sepulturas, ainda em outras
do I. capellas da egreja, existem, mas tambem pro-
Em uma das capellas da egreja, esteve o | fanados, outros tumulos de varões illustres.
sumptuoso mausoleu, do grande D. Duarte a
de Menezes. 6.— Santissima Trindade Frades Trinos.
Hoje está no museu archeologico do Car- | (Vide os annos de 1218 e-1554.) -
mo, em Lisboa. Este mosteiro foi fundado juncto ao das
Vide o anno de 1464. emparedadas (vide Religiosas dominicanas)
Na mesma capella estão os mausoleus, de | em um espaçoso terreiro, e um dos mais
marmore, de varias pessoas desta ilustre | bellos sitios de Santarem. A sua fundação
familia dos Menezes; entre elles, os de— D. | primitiva, era pobre e acanhada, pelo que,
Isabel de Castro, 3.º condessa de Vianna, | D. João III, o ampliou na reedificação.
mulher do conde D. Duarte de Menezes—seu Foi o primeiro convento d'esta ordem, que
filho D. João de Menezes, conde de Tarouca | houve em Portugal.
—seu 8.º neto, D.Francisco de Menezes, bis- Frei André de Agramonte.—Era francez, e .
po de Leiria e do Algarve. veio a Portugal em companhia de mais sete
Tambem aqui está o sepulchro de D. Af- | frades da sua ordem (trinitarios) os quaes,
fonso de Portugal, 1 filho de D. Affonso Hen- | hindo em viagem para a Terra-Santa, foram
LAND di pla tr Ó dq arrojados por uma tempestade, às praias de
peito À este monumento, boi iinicias Lisboa, reinando em Portugal, D. Affonso 1,
engano. Deve ser D. Pedro Affonso, e não D. | sendo bispo de Lisboa, D. Soeiro Viegas, é
Afjonso de Portugal. pontifice Honorio [H. O bispo recebeu os tri-
-D. Affonso Henriques, teve sete filhos le- | nos francezes à santa obediencia, e os man-
E] atro bastardos. São (por ordem dou para Santarem, onde estava 0 rei, e ahi
Legitimos fundaram o seu mosteiro, obtida a licença
j do geral da sua ordem. Nºeste mosteiro aca-
E bi de pouca edade. bou seus dias, em grande velhice, e ador-
D. João, que morreu menino. nado de todas as virtudes christans, frei An-
D. Urraca, rainha de Leão. dré de Agramonte.
D. Mafalda, ajustada para casar com orei | “Os frades deixaram de existir, e hoje ha
de Aragão.
D. Thereza, condessa de Flandres. ; E
D. Sancha, que morreu de pouca edade. | Rhodes (ou 8. João de Jerusalem — ou de
Malta).
Bastardos D. Thereza, mulher do conde Sancho Nu-
nes de Barbosa.
D. Fernão Afijonso, alferes-mór. D. Urraca, mulher de Pedro Affonso Vie-
D. Pedro Ajfjonso (o tal) grão-mestre de | gas.
546 SAN
apenas as ordens terceiras da SS. Trindade,
que tantos serviços teem prestado à huma-
nidade enferma, à instrucção publica e ao
esplendor do culto divino.
As ordens religiosas passaram, mas 0 que
não passou foi a memoria dos serviços que
ellas prestaram ao paiz, e que o governo es-
queceu para se apossar do que ellas possuiam
tão legitimamente.
A egreja, que ainda era a primitiva, foi
demolida, e construida desde os fundamen-
tos, pelos annos de 1710. Esta egreja, serve
de capella militar, e o edifício do mosteiro,
que é contiguo ao de S. Francisco, serve
tambem de quartel de cavallaria n.º 4.
Este edificio religioso era o mais aceiado
e magnifico, da cidade.
Vide Ermida de Nossa Senhoralida Abo-
bada.
7.º— Collegio de Nossa Senhora da Concei-
ção—de padres da Companhia de Jesus. (Vide
o anno 1621.)
D. João IV, doou depois aos padres jesui-
tas, o paço real, que estava juncto da porta
de Leiria, e para elle se mudou o collegio,
construido como aindalhoje está.” “tm
A egreja é muito boa, e a sua “capella- mór
é notavel, pela sua primorosa obra de mo-
saico, feito de marmores de varias côres.
Está no mosteiro, estabelecido o semina.
rio patriarchal.
Este collegio era um dos mais ricos da sua
ordem. (Vide Mosteiro de Santo Antão.)
e
8.º— Terceiros regulares de Jesus (Nossa
Senhora de Jesus). Vide os annos 1484, 1592,
1617 e 1722.
O edificio d'este mosteiro, serve actual-
mente de hospital civil.
O arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Cas-
tro, não só deu a estes religiosos as casas,
que eram da camara pontifical (palacio da
mitra) como ainda concorreu com avultadas
esmolas, para esta fundação.
A capella-mór da egreja, foi mandada fa-
zer por Joanna Coelha, principiando as obras
a 24 de abril de 1645, e alli se disse a pri-
meira missa a 21 de dezembro de 1649.
SAN
É fóra da cidade e juncto ao muro da
porta de Mansos.
9.º—Carmelitas descalços (de Santa The-
reza). — Vide o anno 1648, e o artigo— An-
tiga ermida de Nossa Senhora da Piedade.
A egreja concluiu-se em 1707.
Este mosteiro foi construido no local on-
de estava um velho palacio de D. Fernando
Mascarenhas, conde da Torre, sendo padroei-
ras do convento, a condessa de Faro, e sua
filha, duqueza de Caminha.
Hoje, deste convento só restam as pare-
des da egreja. O edificio do mosteiro, foi de-
molido e no logar que oecupou, estão hoje
as repartições do governo civil, administra-
ção do concelho, pagadoria do districto, e
suas dependencias. Foi dado pelo governo,
à junta geral do districto, em setembro de
1873.
Segundo o novo plano, o tribunal do juizo
de direito, e suas dependencias, devia ser
no logar oceupado pela egreja, para o que
se principiou a sua demolição; mas estas
obras (de destruição) foram suspensas e os
muros do templo lá estão attestando a illus-
tração do seculo x1x, em quanto algum tem-
poral não conclua a obra dos homens.
10.º—Frades benedictinos (S. Bento dos
apostolos).—Vide os annos 1300 e 1571.1
Foi vendido ao desbarate, depois de 1834,
e totalmente demolido, e os seus materiaes
empregados em differentes obras. Hoje está
reduzido a uma quinta particular de grande
valor.
D'este sitio se gosam formosissimas e di-
latadas vistas.
Um olival que lhe ficava ao O., e que foi
destruido, serviu de cemiterio publico, des-
de setembro de 1833, até maio de 1834. Fo-
ram n'elle enterrados muitos milhares de ca-
daveres dos que morreram com o typho.
11.º— Frades terceiros arrabidos (S. João
1 Havia n'este sitio uma antiga ermida, de-
dicada a S. Bento. Pertencia,á infanta D. Ma-
ria, filha do rei D. Manuel; e ella a deu aos
monges, em 1571.
SAN
Baptista, ou S. João do Pereiro).—Vide o
anno de 1590.
É extra-muros, no sitio de Santa Catha-
rina dos Olivaes. ;
O duque de Bragança, lhe lançou a pri-
meira pedra (do mosteiro) em 1590. A egreja
havia sido fundada por D. Affonso V, em
1469. A primeira missa que se disse n'esta
egreja, foi a 6 de janeiro de 1470.
Chamava-se então a este sitio, Valle de
Moyrol, ou de Al-Moyrol, e depois Valle da
Inveja.
Foi a primeira casa capitulo d'esta or-
dem, em Portugal, e chegou a ter 45 reli-
giosos; mas, em 1834, só tinha um, efum ir-
mão leigo.
N'este valle se escondeu D. Affonso Henri-
ques, vindo de Pernes, na noite de 7 para 8de
maio de 11447, vespera da tomada de Santa-
rem, aos mouros. O sitio não podia ser me-
lhor escolhido para elle e os seus se oceul-
tarem. Tudo isto foi vendido depois de 1834,
e é hoje uma quinta particular.
12.º—Conegos regulares de Santo Agosti-
nho (dos de França) e um dos cinco d'esta
ordem, em Portugal. Foi o terceiro que cá se
fundou. Ainda depois de extineta esta or-
dem, ficou existindo a sua egreja, com a de-
signação de ermida de Santo Antão. Vide
Seminario patriarchal.
Eis a origem d'esta ordem.
Em 41045, sendo pontifice Gregorio VII,
teve logar a instituição d'estes conegos, em
um logar chamado Mota, bispado de Vienna,
tomando por seu padroeiro, Santo Antão,
abbade, e por obrigação, curarem a erysi-
pella, molestia então muito frequente, e a
que se dava o nome de fogo de Santo Antão.
Fundaram varios mosteiros em França, sob
o titulo de Santo Antão, até que, em 12971
1 A obra de Vasconcellos (Santarem edi-
ficada) donde estou extrahindo esta e outras
muitas noticias, está eivada de toda a quali-
dade de anachronismos. Este é um d'elles—
Em 1297, era pontifice, Bonifacio VIII (go-
vernou a egreja de Deus, desde 1294, até
1303. Innocencio VIII, foi feito papa, em 1484
e falleceu em 1492. Ha pois, aqui um ana-
chronismo de quasi 200 annos.—Vide San-
tarem edificada, tom. 1.º, pag. 122 e 123,
SAN 547
o papa Innocencio VIII lhes deu a regra de
Santo Agostinho, e o titulo de conegos de .
Santo Antão.
O primeiro mosteiro d'estes padres, foi
fundado em Benespera, na Beira Baixa, (Vi-
de o 1.º vol., pag. 386, col. 2.2) Este era a ca-
beça de toda a ordem, em Portugal.
O segundo, foi o de Santo Antão, o Velho
(vulgo Colleginhe) em Lisboa. Vide 4.º vol,
pag. 245, col. 2.2
O terceiro, foi este de Santarem.
O quarto, foi o da Avelleira (Santo Antão
da Avelleira.) Vide 1.º. vol., pag. 297, col. 1.2
“O quinto, foi o de Bésteiros (S. Domingos
de) 1.º vol., pag. 397, col. 1.º
Todos estes mosteiros eram pequenos e
de poucas rendas. O rei D. Manuel, fez de
todos uma commenda, que deu (por aucto-
ridade do papa Julio Il) a Ruy Lopes, fidal-
go da sua casa, em 1510. Esse fidalgo, na
fórma do costume de todos os commenda-
dores, comia quasi todos os rendimentos,
deixando os frades a morrer de fome, e as
egrejas e mosteiros a cahirem. D. João HI
deu estes mosteiros aos jesuitas, de Coim-
bra, por breve do papa Julio II, de 4550
(ultimo do seu pontificado).
Foi assim que o tal mosteiro de Santo An-
tão, de Santarem, veio a ser dos jesuitas, e
depois, seminario patriarchal.
13.—Collegio da Companhia de Jesus. —
Vide o mosteiro antecedente, e seminario pa
triarchal.
Algumas noticias sobre as trez
actuaes egrejas matrizes de Santarem.
O SALVADOR.
Não se sabe com certeza, quando ou por .
quem foi fandada; mas ha boas razões para
crer que foi D. Affonso Henriques que a
mandou reconstruir, porque, quando em
1218, o padre frei André d'Agramonte aqui
fundou o mosteiro de frades trinitarios, já
havia muitos annos que existia a egreja do
Salvador, com seu prior e raçoeiros, que ad-
ministravam a ermida da Senhora da Abo-
948 SAN
bada, a qual serviu de primittiva egreja
d'aquelles religiosos.
D. Affonso I, não querendo que a villa se
despovoasse, e desejando que os mouros
della que escaparam, se convertessem (mais
tarde ou mais cedo) ao ehristianismo, lhes
deixon as suas fazendas, e lhes deu uma
parte da freguezia do Salvador para sua re-
sidencia (mouraria) com a obrigação de pa-
garem o dizimo dos fructos, à egreja do Sal-
vador.
Segundo a tradição e documentos que
existem (ou existiram) no cartorio d'esta
egreja, foi eila construida pelos gôdos, mui-
tos annos antes da Lusitania cahir em poder
dos arabes. Ou porque se destruisse pela sua
antiguidade, ou porque os mouros a desman-
telassem, estuva em ruinas no anno de 1447,
e foi demolida, para no mesmo logar se edi-
ficar a actual.
O que se sabe com certeza, é que foi sa-
grada a 5 de maio de 1335, pelo bispo de
Evora, D. frei Domingos Soares, religioso
dominicano, o qual deu então a esta egreja
as reliquias seguintes—um boecado do Santo
Lenho; parte da pedra da sepultura de S. La-
zaro; alguns cabellos de S. João Baptista;
carne dos apostolos 8. Simão e S. Judas Tha-
deu; alguns ossos de S. Vicente, martyr, de
8. Dionisio Arcopagita, e de Santa Catha-
gana, de Alexandria; com outras muitas de
diversos santos, cujos nomes não ficaram em
memorias escriptas.
A egreja era de trez naves; mas estando
muito arruinada, em 47 de maio de 1692 se
mudou o Santissimo para a ermida do Es-
pirito Santo, para se demolir, príncipiando
logo as obras, que se coneluiram em 1725,
e a 9 de setembro d'este anno, se mudou o
Santissimo para a nova egreja dos jesuitas,
onde esteve alguns dias, até se mudar, com .
grande solemnidade, para a actual matriz;
edificada no mesmo local da-antiga. É de
uma só nave, e de abobada de tijolo, sendo
as paredes até à cimalha, de cantaria lavra-
da. Foi toda feita à custa do povo, e custou
mais de 60 mil cruzados (24 contos de réis).
Hoje é a melhor egreja da cidade. As pare-
des lateraes são tão grossas, que pelo vão
d'ellas se estende um dilatado corredor com
SAN
grandes janellas, que dão luz ao templo. Tem
quatro boas capellas de cada lado, e a ca-
pella-mór é magestosa. Sobre o seu arco,
em um nicho de marmore, foi collocada a
imagem do Salvador do mundo, de 3 metros
de altura.
A irmandade do S. S., teve muitos annos
por juizes, os reis de Portugal, quando resi-
diam no paço real, dentro dos limites d'es-
ta parochia.
Na pedra fundamental da egreja foi gra-
vada esta inscripção.
SALVATORI NOSTRO, SERVATO NOMINE
ANTIQUO, EJUS PAROCHIANI NOVUM
TEMPLUM VETERE ERECTO iMPENSIS
SUIS FACIENDUM CURAVERE;
PRIMUMQUE FUNDAMENTORUM
LAPIDEM, DEVOTE INJECERE HODIE
SEXTO AUGUSTI MILLESIMO SEXCENTESIMO
NONAGESIMO SECUNDO.
Esta egreja foi priorado até 1440, redu-
zindo-se depois a commenda da ordem de
S. Thiago, do padroado da casa das rainhas
de Portugal.
Teve 8 beneficiados, que recebiam o ter-
co dos disimos, que constavam de pão, vi-
nho, azeite, marran, carneiros, aves, queijos,
lans e linhos.
Tinha: dois curatos annexos — Azóia de
Buixo, e Povoa de Gallegos.
Tambem antigamente o vigario do Salva-
dor, apresentava a egreja de São Braz da
Romeira, mas deixaram perder este direito,
ha mais de 200 annos.
No districto da cidade, teve esta fregue-
via quatro ermidas—sS. Sebastião, Nossa Se-
nhora do Monte, e duas do Espirito Santo.
Fóra da cidade tinha mais trez— Santo An-
tonio dos Olivaes, Nossa Senhora dos Anjos,
e Sant Anna. À
(Vide adiante—Ermidas de Santarem.)
SANTA MARIA DE MARVILLA
Já existia no tempo dos gôdos, mas não
se sabe em que anno foi fundada.
D. Affonso I a deu aos templarios, que a
reedificaram.
Como em 1149, passou para a mitra de
Lisboa, todo o ecclesiastico de Santarem (co-
|
|
|
SAN
mo já fica dito) o bispo D. Gilberto, a fez
collegiada, com cónegos e um parocho, com
o titulo de vigario.
Em 25 de novembro de 1244, estando em
Santarem, o bispo de Lisboa, D. frei Ayres
Vasques (que tinha sido crusio) se obriga-
ram os cónegos de Marvilla, por escriptura
publica, a viverem em commum, comendo
no refeitorio, como os frades.
(Os que desejarem ler esta escriptura na
sua integra, vejam a Historia de Santarem,
tom. 1.º, pag. 93 e seguintes.)
Esta collegiada ficou então composta de
10 prebendas e 9 conegos prebendados, sen-
do um d'estes escolhido para vigario perpe-
tuo, com prebenda dobrada.
(Era a 10.2 prebenda.)
Tinha mais cinco beneficiados, com trez
prebendas para todos.
Os dizimos eram divididos em trez partes
duas para 0 bispo, e uma para os conegos
de Marvilla.
As offertas e esmolas, eram, metade para
o bispo, e metade para os conegos.
Estes eram obrigados a dar um jantar ao
bispo, quando os fosse visitar, ou seis ma-
ravedis de ouro.
Já então possuia a egreja, duas moradas
de casas contiguas a ella, que foram desi-
gnadas para os conegos viverem em com-
munidade.
O clerigo que à sua morte deixasse divi-
das, e não tivesse com que as pagar, pagar-
se-hia aos crédores com o rendimento da sua
prebenda, do anno seguinte ao do seu falle-
cimento.
Se algum dos conegos quizesse hir estu-
dar, no reino, ou fóra d'elle, receberia por
tempo de trez annos os rendimentos da sua
prebenda, como se estivesse presente.
A egreja é de'trez naves.
Tem de comprido, até ao arco eruseiro,
39,»30—e de largo 16,740.
A capella-mór, tem de comprido 5 metros
e o mesmo de largo.
A nave central, tem de alto até à archi-
trave, 14 metros, e as lateraes, 12.
As 42 columnas jonicas, que sustentam as
naves, tem 8 metros de alto.
VOLUME VIII
SAN 549
Tem 6 janellas de cada lado, cada uma
com 4,750 d'alto, e o mesmo de largo.
O portico da entrada principal, é de ar-
chitectura gothica, com laçarias e festões de
bôa esculptura, revelando muita antigui-
dade.
A capella-mór é de abobada, com laçaria
e fechos de marmore, tudo adornado de pri-
morosos lavores, e com as armas do rei D.
Manuel, que foi o reedificador d'este sum-
ptuoso templo, dando-lhe mais amplidão do
que tinha o antigo.
No corpo da egreja, ha duas capellas e
dois altares lateraes.
A imagem de Nossa Senhora das Maravi-
lhas, padroeira da egreja e da freguezia, é
de estatura agigantada, mas não é a primi-
tiva.
Foi assim:
O patriarcha S. Bernardo, abbade de Cla-
raval, mandou pelos monges RBanulfo e De-
siderio, duas imagens da S.S. Virgem, a D.
Affonso I, para serem collocadas em duas
egrejas da sua invocação.
O rei deu a da Senhora da Assumpção á
egreja de;Marvilla, onde depois se lhe mu-
dou a invocação (ou se lhe deu a vulgar) pa-
ra Senhora das Maravilhas, e por fim, para
Senhora de Marvilla, por corrupção.
Esteve a imagem muitos annos n'esta
egreja, mas depois—não se sabe por que ti-
tulo ou motivo—foi levada para uma ermi-
da particular do logar de Alcanhões, e alli
se lhe deu o titulo de Nossa Senhora dos Pi-
nosinhos.
Esta capella era a de uma quinta da fa-
milia Carvalhaes, de Santarem.
Em 41727, foi instituida nesta egreja, a
irmandade do Senhor Jesus dos Terços, com
o titulo de Congregação dos pobres. Foi ap-
provada pelo arcebispo de Lisboa Oriental,
e confirmada pelo papa Benedicto XIII, dan-
do-lhe muitos privilegios e indulgencias, e
constituindo o seu altar, privilegiado.
Na capella do Senhor Jesus dos Terços
(na egreja de Marvilla) instituiram Antonio
de Mattos Ferreira e sua mulher, Josefa Ma-
ria, uma missa quotidiana pelas suas almas,
sendo as da semana ditas nºeste altar, e as
do
990 SAN
dos domingos, na ermida de Nossa Senhora
da Victoria, ás portas de Atamárma.
Para isto deram os instituidores 1:2008
réis, para que dos juros se dessem 50000
réis ao capelão que dissesse as missas, é
104000 réis para a fabrica da capella. Esta
instituição teve logar a 20 de junho de 1727,
Na capella do Santissimo, d'esta egreja
instituiu em 1640, o doutor Paulo de Pedro-
sa Meirelles, que foi prior de Marvilla e de
S. Nicolau, e vigario-geral deste arcediaga-
do, uma capella, com missa quotidiana, dei-
xando por administradores della, os priores
d'esta egreja; e mandou fazer sepultura para
sie para os futuros administradores.
Na parede da mesma capella, do lado da
Epistola, mandou gravar em uma lápide de
marmore, as armas dos Pedrosas e Meirelles,
tendo por baixo a seguinte inseripção :
ESTA CAPELLA DO SANTISSIMO SACRAMENTO
HE DO DOUTOR PAULO DE PEDROSA MEIRELLES,
DESEMBARGADOR DO ARCEBISPADO DE LISBOA,
VIGARIO GERAL DESTA VILLA, E VIGARIO
DESTA EGREJA: E A FEZ E DOTOU PARA
N ELLA SE ENTERRAR SEU PAE E MÃE E HERDEIROS.
COM CAPELLÃO E MISSA QUOTIDIANA,
E DUAS ALAMPADAS ACEZAS CONTINUA-
MENTE, POR SUA CONTA, E DA EGREJA,
NA FÓRMA DOS SEUS CONTRACTOS.
FALLECEU A 27 DE NOVEMBRO DE 1666,
SENDO PRIOR DE SÃO NICOLAU.
TEM CAPELLÃO DE MISSA QUOTIDIANA,
COM QUARENTA MIL RÉIS CADA ANNO,
Sobre a antiguidade e preferencias d'esta
egreja e da de Alcáçova, houve no princi-
pio do seculo 47.º, grandes demandas, pre-
tendendo cada um dos parochos mostrar que
a sua egreja era mais antiga ; mas, dos do-
cumentos exhibidos por ambas as partes, se
viu que estas egrejas tinham a mesma anti-
guidade. Fez-se então uma concordata, de-
cidindo-se que nenhuma d'ellas se intitu-
lasse matriz, nem podessem hir as suas cru-
zes e insignias, nas procissões, senão a par,
hindo os de Alcáçova à direita e os de Mar-
villa à esquerda; e que a procissão de Cor-
pus Christi sahisse um anno d'aquella, ou-
tro d'esta egreja.
Qualquer. das egrejas que quebrasse a
SAN
concordata, pagaria a outra, por cada vez
405000 réis.
Em uma columna d'esta egreja de Mar-
villa, junto áºporta travessa, do lado da pra-
ça, Se gravou, ad perpetuam rei memoriam,
a seguinte inscripção :
NO CARTORIO D'ESTA EGREJA,
E NO DE COSME PACHECO,
ESCRIVÃO DA LEGACIA, E NAS
NOTAS DE MANOEL DE FREITAS,
TABELLIÃO, E DE ANTONIO DIAS
FRANÇA, NOTARIO APOSTOLICO,
ESTA” O CONTRATO E SENTENÇA,
DA ORDEM DAS PROCISSÕES,
E DAS MAIS PRECEDENCIAS
QUE ESTA EGREJA TEM, COM
A COLLEGIADA DE ALCAÇOVA,
POR SEREM AS PRINCIPAES.
TUDO FEITO NO ANNO DE 1629.
D'esta egreja se repartiam os Santos Oleos,
não só para todas as outras egrejas de San-
tarem, mas tambem para todo.o arcedia-
gado.
N'esta egreja se recebiam (casavam) os
presos do aljube, e se confessavam-por des-
obriga, os viandantes.
A festa da padroeira é a 15 d'agosto, dia
da Assumpção de Nossa Senhora. —Na ves-
pera, se fazia uma solemnissima procissão,
acompanhada pelos vereadores da camará
municipal.
Representava esta procissão o passamento
da Santissima Virgem, que hia deitada em
um esquife, à ermida da Senhora do Monte
(na freguezia do Salvador.) Alem dos verea-
dores, hia no prestito todo o clero secular e
regular, de Santarem, e todos os emprega-
dos publicos.
No dia seguinte, hia buscar-se a Senhora
à ermida, sendo conduzida à egreja, com a
mesma solemnidade.
D. Affonso III, tinha decretado «que em
todas as egrejas parochias de Portugal, se
prégasse o Evangelho, em todos os domin-
gos do anno. Com o andar do-tempo foi
deixando de cumprir-se este decreto em
quasi todã a parte; porem n'esta egreja foi
elle cumprido até 1834, prégando alterna-
damente os frades dominicos e franciscanos.
SAN
—
Por uma sentença existente no archivo
da egreja, eram os clerigos della, obrigados
a fazer as exequias por fallecimento dos reis
de Portugal.
O rei D. Sebastião, fez n'esta egreja. em
1573, capitulo geral, da ordem de Christo.
Ha n'esta egreja um grande numero do
inscripções sepulchraes. Para não cançar 0
leitor, direi apenas os nomes das pessoas
mais notaveis, que foram aqui sepultadas—
são: Antonio Montez Cid, e sua mulher, Vi-
cencia Frois de Macêdo e seus herdeiros. (28
de novembro de 1686.) 1
João Antunes e sua mulher e herdeiros.
Pedro das Neves e seus herdeiros.
Anna Jorge, mulher de Domingos Fernan-
des, e seus herdeiros.
Duarte Lopes, e sua primeira mulher,
"Maria Gonçalves.
Antonio Teixeira, e seus herdeiros.
Antonio de Sequeira, e seus herdeiros.
Silverio Delgado, e sua mulher, Simôa
Soares, e seus herdeiros.
Luiz de Moura, e seus herdeiros.
João da Gosta, e sua mulher, Anna Fer-
nandes e seus herdeiros (26 de maio de
4558) o de seu neto, João da Costa Furtado,
(30 de dezembro de 1638.)
O licenciado Henrique Nunes, medico de
sua magestade, e seus herdeiros
O licenseado Raphael do Quental, caval-
leiro de S. Thiago, e Francisco d'Almeida |
Sigano, aquem el-rei (D. João IV) deu tença
quotidiana, e fez capitão, por serviços, antes
| e depois da sua acelamação. Comprou esta
sepultura, para si e seus herdeiros. (28 de
"setembro de 1649.)
Diogo Affonso, beneficiado d'esta egreja, e
- Sebastião Affonso, seu sobrinho, e seus her-
- deiros.
João d' Abreu, e sua mulher, Leonor Ribei-
“To, e seus herdeiros.
Francisco Gameiro de Barros, cavalleiro
1 Só teem data, as que as levam marcadas.
Estas referem se ao fallecimento dos sepul-
- tados. Como se vê, são todas sepulturas de
familia, quando dizem—e seus herdeiros.
SAN 291
da ordem de Christo, e sua mulher, Phalip-
pa da Silva, e herdoiros. (1682.)
Gaspar Henriques, e sua mulher, Isabel
Fragosa Nogueira, e herdeiros.
Duarte Luiz, e sua mulher, Violante Hen-
riques, e herdeiros, E
Capellas de missas n'esta egreja
INSTITUIDORES
A 42 de maio de 1689, Miguel de Figueira,
e sua mulher, 20 missas do Natal, por es-
mola de 1:500 réis. Administrador, em 1740
—Manuel Vieira Soares.
A 30 de janeiro de 1481—Martin Pires
Vieira, 24 missas, por esmola de 1:200 réis,
Administrador, em 1740-—Luiz Pires Car-
reira,
N'esta egreja instituiu um morgado e ca-
pella D. Violante Soares, com obrigação de
trez missas cada semana, com responso so-
bre a sepultura, por esmola de 73800 réis.
Ignora-se a data d'esta instituição. Admi-
nistrador, em 1740 — Antonio Sodré Pereira,
das Coberturas.
A 7 de setembro de 1681 — Garcia da
Costa, 25 missas, da esmola do costume.
Amninistrador, em 4740 —Fernão Dias Fran-
co, morador em Lisboa.
A 20 de julho de 1670—Brites da Gosta,
seis missas annuaes, de esmola ordinaria
Administrador, em 4740—José Ferreira Ca-
bral.
Egrejas annexas a esta de Marvilla
Espirito Santo, de Valle de Cavallos—hoje
concelho da Chamusca.—Fica a 12 kilome-
tros a S.E. de Santarem.
Erao cura annual, apresentado pelos prio-
res de Marvilla.
Ermidas que teve esta freguezia
S, Lazaro—sS. Roque—Santo Antão—Nos-
sa Senhora da Victoria—sS. Christovam.—
| (Vide adiante—Ermidas de Santarem.)
592 SAN
A egreja de Nossa Senhora de Marviila,
acaba de ser restaurada. O dia 15 de agos-
to de 1879, foi o destinado para a sua aber-
tura ao culto dos fieis. Foi dia de geral re-
gosijo, havendo uma explendida festa, com
missa cantada, a grande instrumental, e um
commovente sermão. A praça estava toda em-
bandeirada, e subiu ao ar grande quan-
tidade de foguetes. A concorrencia dos fieis,
foi enorme. De tarde sahiu uma grande e
magnifica procissão. Á noite houve um bri-
lhante fogo preso, e a musica tocou até ás
12 horas.
O templo ficou sumptuosissimo, com esta
restauração.
S. Nicolau
“Esta egreja está situada no centro da ci-
dade. É dedicada a S. Nicolau, bispo de Pa-
tara. É um templo claro e formoso de trez
naves, sobre oito arcos (4 de cada lado) de
ordem toscana. Tem capella-mór e duas la-
teraes (Santissimo sacramento e Sant'Anna.)
No corpo da egreja, tem cinco capellas, trez
à direita e duas à esquerda de quem en-
tra.
Junto á egreja (ao N.) com communica-
ção interior, está uma grande capella de
abobada, dedicada a S. Pedro, apostolo.
(Vide Ermidas de Santarem.)
Ignora-se a data da fundação d'esta egre-
31, porque ardendo, pelos annos de 1600, se
queimaram todos os papeis do seu archivo.
Sabe-se porém que já existia no seculo XIII.
Foi reedificada em 1613.
Na era de Cesar, 1371 (1333 de Jesus
Christo) D. Affonso IV, fez permuta com os
testamenteiros de Marinha Affonso (Mem Ro-
drigues de Vasconcellos e João Nunes) do
padroado d'esta egreja—que era da tal Ma-
rinha—com as mesmas regalias que n'ella
tinha, pelo padroado das egrejas de Arganil
e Pombeiro (o da provincia do Douro, con-
celho de Arganil.) R
Esta Marinha Affonso, e seu
marido, Fernão Rodrigues Re-
SAN
dondo, fundadores da ermida
de S. Pedro, contigua à egreja
—eram os padroeiros da egre-
ja de S. Nicolau.
Esta troca foi confirmada pelo bispo de
Lisboa, D. João Affonso de Brito, na era de
1373. (1335 de Jesus Christo.) Desde então,
tomou o parocho desta egreja, o titulo de
prior de S. Nicolau e capellão-mór das ca-
pellas de S. Pedro.
Quando vagava o priorado, era o nóvo
prior eleito pelos capellães de S. Pedro, cha-
mados, para esta eleição canonita, «o som de
campa tangida.
Tinha esta egreja seis beneficiados, colla-
dos, da apresentação do prior. Este tinha,
eomo parocho, e como capellão-mór de S.
Pedro, mais de 4004000 réis annuaes, nos
fructos do priorado—e os beneficiados, nos
fructos certos e incertos 808000 réis por
anno. Os capellães de S. Pedro, tinham an-
nualmente, nos fructos certos e incertos,
603000 réis. Eram da nomeação in solidum.
do capellão-mór.
“Tem esta freguezia, fóra do cinto das mu-
ralhas (extra-muros) ao O., os logares do
Rêgo de Mansos e Fontainhas. São casaes,
quintas e hortas.
"Tinha tambem da outra margem do Tejo
(esquerda—Sul) quintas e casaes (uns 70
fogos) pertencentes a esta freguezia. O prior
pagava a um cura ad nutum, para dizer
missa e administrar os sacramentos ao povo.
d'estes logares. Hoje são d'Almeirim.
Ha n'esta egreja duas irmandades—a do
Santissimo Sacramento, cuja instituição foi
aprovada em 1632—e a do Menino Jesus,
instituida em 1583, e confirmada no mesmo
anno (a 5 de julho) pelo arcebispo de Lis-
boa, D. Jorge de Almeida. Ambas teem mui-
tas indulgencias.
A capella do Menino Jesus, foi comprada
(com licença do ordinario) pela sua irman-
dade, ao prior e beneficiados desta egreja,
pela quantia de 458000 réis, por escriptura
publica, de 31 de outubro de 4719, nas no-
tas do tabellião, Theotonio da Fonseca.
SAN
Mais noticias com respeito à egreja
matriz de Santa Iria, na Ribeira de
Santarem.
Vide Iria (Santa) 3.º vol.,
pag. 399, col. 2.º-e Ribeira
de Santarem.
A egreja matriz de Santa Iria—hoje unica
parochia da Ribeira de Santarem—está no
centro da povoação.
Suppõe-se que já existia no tempo dos
godos, e foi reedificada por D. Affonso Hen-
riques, ahi pelos annos de 1160.
A lenda de Santa Iria, ou
Irêne, padroeira desta egreja,
fica descripta no 6.º vol., pas.
7, col. 1.º
Já disse no logar citado, do 3.º vol., que
a collegiada da egreja d'Alcáçova, apresen-
tava o vigario. Este era sempre um dos có-
negos da mesma collegiada.
Alem do vigario, tinha esta egreja oito
beneficiados, um cura e um thesoureiro (es-
tes dois ultimos, nomeados e pagos pelo vi-
gario.)
Havia n'esta freguezia trez ermidas—Nos-
sa Senhora da Gloria—Nossa Senhora das
Neves—Nossa Senhora de Palhaes.
Dois kilometros ao N., estava o collegio
dos padres terceiros da ordem de S. Fran-
cisco, do qual já tratei, no logar compe-
tente.
A egreja, foi antigamente do padroado
real; porque, em 1280, fez D. Diniz I, doa-
ção e permutação, aos conegos d'Alcáçova,
', dando-lhes o padroado e rendas d'esta egre-
ja, e da de Santa Cruz (então parochial, e
tambem na Ribeira) e recebeu os padroa-
dos de Alcoentre, Alcoentrinho, e Tagárro,
que eram de Santa Iria.
A egreja é de trez naves, sustentadas por
10 columnas (5 de cada lado) de ordem tos-
cana, bem lavradas, e com seus capiteis.
Tem altar-mór e dois lateraes.
A uns 50 metros ao N.E. da egreja, no si-
tio da Ribeira de Barcos, junto à margem
direita do Tejo, em frente do padrão de Santa
SAN 993
Noticias relativas às egrejas matrizes
das nove freguezias de Santarem,
hoje supprimidas.
Santa Maria d' Alcaçóva—D. Affonso Hen-
riques, prometteu aos templarios que o
acompanharam em 41147, que se tomasse
Santarem, lhes daria todo o seu ecclesiasti-
co, o que cumpriu. Suppõe-se que estes ca-
valleiros tinham dado principio à fundação
d'esta egreja, 92 annos antes, o que todavia
não está satisfatoriamente provado. (Vide o
anno 1095.) O que é certo é terem elles con-
cluido as obras, sete annos depois da ultima
tomada de Santarem. (Vide o anno 1154.) É
Em 1181, 0 prior, D. Pedro Annes e seus
cónegos, repartiram entre si, as rendas d'es-
ta egreja; o que foi confirmado pelo rei D.
Affonso 11, em 12144.
A 9 de março da era de Cesar, 1318 (28
de abril de 1280 de Jesus Christo) primeiro
anno do reinado de D. Diniz, deu este sobe-
rano, o padroado da egreja de Alcáçovas, ao
mestre Pedro Chanceller, medico e clerigo,
muito rico, sendo collado pelo cabido, por
commissão do 16.º bispo de Lisboa, D. Ma-
theus, que estava então em Roma, tratando
de negocios do rei.
(Vide 4.º vol., pag. 269, col. 2.º, verso).
Os nossos reis habitavam por esse tempo
o palacio de Alcáçova, junto à egreja, e es-
ta tinha o privilegio de capella-real; e mes-
tre Pedro, que era grande valido de D. Di-
niz, em attenção ao rei e à familia real, fez
grandes obras na egreja, e lhe deu muitas
propriedades e fóros, para com isto se sus-
tentarem 17 conegos, 3 dignidades (chantre,
mestre-escola e thesoureiro) e & meios co-
negos; numero então estabelecido, por au-
ctorisação do papa Honorio IV.
Até 1834, o prior d'Alcaçovas, era freire
dAviz, e este logar andava sempre na pes-
' soa do sachristão-mór do convento d'esta or-
dem.
1 As duas inscripções sepulchraes que vão
adiante, fazem-nos suppor, que, no local
| hoje oceupado pela egreja christan, existiu
“um templo romano, que os templarios de-
moliram, para construir o actual, ou reedi-
- ficar 0 antigo.
Iria, é que esteve a ermida de Nossa Se-
nhora das Neves, unida à ermida de Santa
Iria.
5094 SAN
No 1.º de novembro de 1280, o bispo de
Coimbra, D. Americo, e o de Évora, D. Du-
rando, fizeram as partilhas entre os conegos,
das rendas que à egreja havia dado mestre
Pedro.
Nºesta freguezia, havia trez ermidas—sS. Pe-
dro, S. Miguel e Nossa Senhora da Concei-
ção.
A egreja matriz, é de trez naves, susten-
tadas por columnas de ordem toscana, e in-
teriormente revestida de azulejo muito an-
tigo.
A capella-mór é de abobada, com cintas
de marmore, muito bem lavradas.
Do lado do Evangelho, está embebida
na parede, uma arca de marmore, onde
foi sepultado D. Rodrigo Affonso, prior d'es-
ta egreja, e filho bastardo de D. Affon-
so HI.
- D. Rodrigo, falleceu em 40 de setembro
de 1302.
Tem quatro capellas lateraes.
Junto à porta travessa, e às escadas do
côro, estã na parede uma sepultura com
esta inscripção:
ANNO DOMINICAE MCCXXXVI.
ERA MCCLXXKII, V. IDUS MAII.
PIAE RECORDATIONES MENDUS
ALPHONSUS, ORPHANORUM PATER,
VIDUARUM JUDEX, DEFENSOR
ECCLESIAE, ET AMATOR, AG PIUS
HOSPITUM HOSPITALIS FELICITER
MIGRAVIT AD DOMINUM.
ANIMA EJUS REQUIESCAT IN PACE
AMEN.
VIVAT CUM CHRISTO, TUMULO QUI
CLAUDITUR ISTO.
(No anno da Encarnação do Senhor, 1236,
era de Cesar, 1274, a 11 de maio, Mendo Af-
fonso, de pia memoria, pae dos orphãos, juiz
das viuvas, defensor da egreja, amador e
pio agazalhador dos hospedes; felizmente pas-
sou para o Senhor. Sua alma descance em
paz. Amen. Viva com Christo, o que jaz n'es-
ta sepultura.
Em 25 de agosto de 1262, D. Affonso HI,
a rainha D. Brites, sua mulher, e seus filhos,
D. Diniz (depois rei) D. Affonso, D. Branca,
e D. Sancha, declaram por uma carta de doa-
SAN
ção, que—alem de todas os dizimos dos seus
reguengos, que D. Affonso Henriques tinha
dado a esta egreja, lhe davam mais o seguinte,
dizendo— Quero e ordeno que todas as minhas
quintas e propriedades, que ora tenho, ou ao
diante, eu e meus successores tiverem, em
Santarem e em seu termo, e de todas as le-
zirias que estão dentro do Tejo, ou na sua
ribeira, as quaes eu agora fiz abrir e lavrar,
ou Paqui em diante forem abertas e cultiva-
das, haja os dizimos a sobredata egreja, em
paz e para sempre, assim da minha parte,
como de meus successores. E, se algum dos
meus parentes, ou estranho, intentar vir con-
tra esta doação de meus paes, e minha, não
lhe seja licito, e só pelc intentar, INCORRA NA
IRA DE DEUS E DE SUA SANTISSIMA MÃE, E MI-
NHA MALDIÇÃO, PARA SEMPRE, ETC.
O cabido d'esta collegiada, administrava
uma capella, instituida pelo chantre, Diogo
Rebello Barberia, em 25 de septembro de
1633, com ebrigação de uma missa quoti-
diana, de esmola de 60 réis, cada uma.
Junto à porta principal estão duas cam-
pas, uma de Fernão Rodrigues e seus her-
deiros; outra, do licenceado, frei Manuel de
Souza, parocho d'esta fregrezia.
No adro estão duas lapides romanas, com
as seguintes inscripções:
D.M.
M. ANTONI. M. F.
GAL. LVPI. OLI-
SIPONENSIS.
H. Ss. E.
(Dedicada aos deuses manes. Aqui está
sepultado, Marco Antonio, militar (?), natu-
ral de Lisboa, filho de Marco Lobo, da tribu
galeria )
D. M.
Q. ANTONI. M. F.
CAL CELERI.
OLISIPONENSE.
(Aos deuses manes. Quinto Antonio, mi-
litar (?), filho de Caio Celerino, natural de
Lisboa.)
Falta-lhe a ultima linha—H.S. E. (Hic se-
pultus est— Aqui está sepultado.)
SAN
Eram commendadores d'esta egreja, os
condes de Unhão.
Rodrigo Telles de Menezes, conde de Unhão,
mandou reedificar à sua custa, esta egreja,
por estar ameaçando ruina.
Principiaram as obras em 4715, e termi-
naram em 1724.
Esta reedificação foi feita com grande ma-
enificencia.
Santa Cruz. — É na Ribeira, e está esta
freguezia unida á de Santa Iria.
Fica ao N. da povoação.
Era apresentada pelos conegos d'Alcaço-
va, e era collegiada, com cinco beneficiados,
e um thesoureiro.
Tambem se ignora a data da sua fanda-
ção, mas é certamente dos principios da mo-
narchia, senão anterior a ella.
Vimos na descripção da egreja de Santa
Iria, que, em 4280, o rei l. Diniz, deu o pa-
droado d'ella e o d'esta de Santa Cruz, em
troca dos padroados de Alcoentre, Alcoen-
trinho e Tagárro, o que próva que já então
era Santa Cruz, egreja matriz, e, provavel-
mente, ha muitos annos.
É verdade que na egreja está uma inscri-
pção que diz:
AQUI JAZEM OS OSSOS
DE LOURENÇO DOMINGUES MINASTOS,
E DE SUA MULHER, IRIA AFFONSO CAEIRA,
EDIFICADORES DESTA EGREJA DA VERA CRUZ.
ERA DE 1681.
Mas, com toda a certeza ha engano na in-
scripção, dizendo edificadores, em vez de ree-
dificadores.
No pavimento da capella-mór, estão va-
rias sepulturas.
Eis as inscripções das que se poderam
ler:
4,
AQUI JAZEM NUNO INFANTE,
CAVALLEIRO, FEITO NA TOMADA DE
ARZILLA; E SEU FILHO, DIOGO NUNES
INFANTE, CAVALLEIRO, FEITO EM
TANGER; DOS ANTIGOS CREADOS DOS
REIS PASSADOS: E JAZERAO SEUS
HERDEIROS.
599
ESTA SEPULTURA É DO MESTRE JOÃO,
VÉDOR QUE FOI, DO SENHOR D. PEDRO,
BISPO DA GUARDA, E PRIOR QUE FOI,
DE SANTA CRUZ DE COIMBRA.
O QUAL FALLECEU, QUINTA FEIRA,
13 DIAS DO MEZ DE MARÇO DE
1516.
Esta inscripção é em letra gothica.
a
SEPULTURA DO LISENCEADO
MANOEL GOMES, E SEUS HERDEIROS;
E N' ELLE JAZ MARIA DA SERRA,
SUA MULHER.
º
A pedra d'esta sepultura, é bem lavrada e
tem duas argollas de bronze.
ha
SEPULTURA DE DUARTE SOEIRO,
E DE SEUS HERDEIROS.
o.
AQUI JAZ UM CONDE ESTRAGEIRO,
FUNDADOR D'ESTA EGREJA. (?)
Esta sepultura e as seguintes estão na ca-
pella-mór.
6.2
AQUI JAZ ENTERRADO, O MUITO
HONRADO CHRISTOVÃO LOPES,
CAVALLEIRO FEITO EM AFRICA,
E DA CASA DE EL-REI D. JOÃO 1.º
FALLECEU NO PRIMEIRO DE JANEIRO
DE 1533; E NA QUAL SE NÃO
LANÇARA', SENÃO SEU FILHO,
E HERDEIROS E DESCENDENTES.
Esta inscripção é em letra gothica, como
a segunda.
mn
SEPULTURA DE ANTONIO JORGE,
FAMILIAR DO SANTO OFFICIO;
E DE SUA MULHER, E HEDEIROS;
E DE SEU FILHO, SIMÃO JORGE LOBO,
CHANTRE DE ALCAÇÕVA, E VIGARIO
DESTA EGREJA.
8.
SEPULTURA DE LUIZ SOARES, «
FAMILIAR DO SANTO OFFICIO.
FALLECEU A 24 D'ABRIL, DE 1693.
996 SAN
No corpo da egreja ha ainda varias sepul-
turas com inseripções—umas illegiveis, ou-
tras de pessoas cujos descendentes hoje se
ignoram.
Esta egreja foi roubada e profanada em
1834.
Hoje está meia arruinada, e transformada
em PALHEIRO !
São Matheus, evangelista—ao N. da Ribei-
ra, no alto, junto à calçada da Atamárma,
foi construida esta egreja.
Era a mais pequena freguezia da cidade,
pois em 1735, tinha apenas 15 fogos, e, em
1768, estava reduzida a 7!
Não tinha sacrario, nem obrigação de
côro.
À poucos metros da egreja, se edificou, em
tempos antigos, a ermida de Santa Eufemia,
que era desta freguezia.
Tem a egreja altar-mór e dois lateraes,
Eram padroeiros os duques do Cadaral, que
apresentavam o parocho.
Podia chamar-se um beneficio simples, pois
tendo tão poucos fogos, o parocho quasi na-
da tinha que fazer, e rendia 500 a 6008000
réis.
O parocho apresentava a egreja de Alca-
phões.
São Julião—(antigamente, S. Gião, ou 5.
Gens).
É tambem um templo muito antigo, e,
pelo menos, do principio da monarchia; mas
ignora-se a data da sua fundação, porque
em um pavoroso incendio que muito o dam-
hificou, foram queimados todos os seus pa-
peis.
Foi sempre do real padroado, até ao rei-
nado de D. Diniz.
Este monarcha, erigindo o famoso mos-
teiro de Odivellas, doou às religiosas d'elle,
o padroado da egreja de S. Julião, de San-
tarem.
- Vê-se pois que esta parochia já existia no
seculo XIII.
E deve ser das primeiras d'esta povoação
por estar intra-muros, e foi sempre indepen-
SAN
dente—isto é—não era filial de nenhuma das
outras de Santarem, antes tinha outras egre-
jas parochiaes annexas, cujos parochos eram
apresentados pelo de 8. Julião.
Perderam-se alguns d'estes padroados, e
em 1834, só existiam dous— Valle de Santa-
rem (primeiro, Nossa Senhora da Concei-
ção, e depois, Senhora da Expeclação) 6 ki-
lometros ao 0.8.0. da cidade, e junto à Pon-
te da Asseca e Monsão (Santa Martha) 1 ao
S. do Tejo.
Em ambas estas freguezias apresentavam
os priores de S. Julião, curas annuaes,
Os priores d'esta freguezia, tinham 400 e
tantos mil réis de rendimento, mas pagavam
de pensão annual, ás freiras bernardas, de
Odivellas, 60 alqueires de trigo e 40 de ce-
vada.
Havia aqui cinco beneficios simples, dados
pelos pontifices, com o rendimento annual
de 1308000 réis cada um.
Tinha mais, um capellão, obrigado a re-
zar no côro (instituição do padre Mulano,
beneficiado da mesma egreja, e natural de
Santarem) com 808000 réis annuaes.
Outro capellão, creado por Bernardo de
Souza Fróes, com a mesma obrigação e egual
rendimento.
A fabrica pagava ao thesoureiro e ao or-
nista.
Egreja pequena, de trez naves, e revelan-
do muita antiguidade; mas a capella-mór
já não é a primitiva: foi reconstruida depois
do incendio de que fallei.
É de abobada.
Este templo mostra ser construcção (ou,
pelo menos, reconstrucção) regia, pois que
em muitas partes do tecto se veem as armas
de Portugal.
As paredes interiores,
azulejos.
Tem a irmandade do S.S. Sacramento, ins-
tituida por o padre Gregorio Roque d'Al-
meida, prior d'esta egreja, que lhe deixou
bastantes rendas.
são revestidas de
1 Hoje o nome official d'esta freguezia, é
Bemfica, ou Monsão de Bemfica, no concelho
d'Almeirim, comarca de Chamusca.
(Vide Monsão de Bemfica.)
SAN
S. Lourenço—egreja situada no fim da po-
voação, no bairro do Pereiro.
Era priorado da mitra da diocese Orien-
tal de Lisboa, obtido por concurso syno-
dal.
Em 1735, tinha 16 fogos, e em 1768, ti-
nha 28.
Tambem se podia considerar beneficio sim-
ples, porque os priores, tendo tão poucos
freguezes, tinham 4008000 réis de rendi-
mento.
Foi em tempos antigos collegiada, e os
seus limites chegavam ao campo da Cha-
musca, nos sítios chamados Taváres, Táva-
rinhos, e Montijo; o que consta de uma sen-
tença, dada por D. Estevam d' Aguiar, D. ab-
bade do real mosteiro d'Alcobaça, em 1442.
N'esta sentença se mandou partir os dizi-
mos entre esta egreja de S. Lourenço, e a de
Santa Maria d'Ulme, hoje concelho da Cha-
musca. .
(Então ainda a actual villa e freguezia da
Chamusca, era uma aldeia da freguezia de
Ulme.)
(Vide Chamusca.)
A egreja de S. Lourenço, era de uma só na-
ve, e pequena, com altar-mór e dois no cor-
po da egreja.
No districto d'esta freguezia, estáva o mos-
teiro de S. João do Pereiro, de frades arra-
bidos.
Tambem era n'esta freguezia a ermida de
Nossa Senhora Madre de Deus, vulgarmen-
te Nossa Senhora da Vallada.
Depois de roubada e profanada em 1834,
foi esta egreja arrazada de tal maneira, que
hoje nem se sabe com exactidão o logar on-
de existiu.
S. Thiago — Esta egreja, foi construida
junto á calçada que corre da povoação para
o E., e que porisso se chama Calçada de S.
Thiago. Contigua a esta freguezia, fica, logo
abaixo, a de Santa Tria, da Ribeira.
Apezar de estar no centro da diocese
Oriental de Lisboa, era a sua jurisdieção in-
dependente, por pertencer à prelazia de
Thomar, até 1834. Hoje está annexa ao pa-
triarchado.
SAN 9917
Esta freguezia, que em 1735 tinha 39 fo-
gos, em 1768 já não tinha senão 17.
A egreja era pequena e de uma só nave,
com altar-mór e dois lateraes.
Os parochos foram priores até 1537, ere-
cebiam todos os dizimos; mas d'esse anno em
diante, ficaram sendo vigarios, porque, com
os dizimos se creou uma commenda da or-
dem de Christo.
Tinha cinco beneficiados, collados, freires
da mesma ordem de Christo, apresentados
pelo rei, como grão-mestre da ordem, o
qual tambem apresentava os vigarios. Estes
beneficios eram simples, e nunca servidos
por os seus proprietarios, mas por ecóno-
mos, que rezavam em côro e assistiam aos
officios divinos.
O ultimo que teve aqui o titulo de prior,
foi frei Diogo do Rêgo, virtuosissimo reli-
gioso, e que tinha sido D. prior do real mos-
teiro de Thomar.
Os priores do convento de Christo, no fim
do seu trienio, em Thomar, vinham ser
priores desta egreja, até que D. João III, a
26 de agosto do dito anno de 1537, fez troca
com os frades de Thomar, dando-lhes a
commenda da Cardiga, que vagára por fal-
lecimento do commendador, frei Nuno Fur-
tado, por esta de S. Thiago, a qual, n'esse
mesmo anno, deu a frei André Telles de Me-
nezes, fidalgo da sua casa. Esta commenda
era depois, dos monteiros-móres do reino. 1
Mas os commendadores da Cardiga fica-
ram obrigados a dar ao vigario de S. Thia-
go, 128000 réis por anno.
É bastante curiosa a carta regia pela qual
D. João III fez esta troca; mas, como é muito
extensa, só copio o seguinte:
«D. João, etc., como governador e admi-
nistrador que sou da ordem e cavallaria do
mestrado de Nosso Senhor Jesus CHRISTO ;
faço saber a quantos esta carta virem, que»
quando mandei reformar o convento de Tho-
mar, da dita ordem, passei uma minha pro-
visão, porque me prouve, que por falleci-
1 À commenda da Cardiga, era constitui-
da pela quinta do mesmo nome, na villa da
Gollegan. Vide esta ultima palavra.
98 SAN
mento de frei Diogo do Régo, que foi D.
prior do dito convento, e prior da egreja de
S. Thiago, de Santarem, que é da dita or-
dem, e da apresentação dos mestres e go-
vernadores: della imitar pres ERR RR
E, sendo vaga a commenda da-Cardiga,
por fallecimento de frei Nuno Furtado, que
d'ella foi ultimo commendador, e vendo que,
por a dita commenda estar tão perto do dito
convento, e lhe ser muito necessaria para
sua grangearia, e ter disposição para nella
trazer todo o gado para mete da casa.
Cosas cc ousa o coa va vou ... cocos cv os 0.
o dito prior e freiras, renunciaram a dita
egreja de S. Thiago, pela qual renunciação,
fico mada: ni co ccm eta a Ne SR
E elle (frei Ama Telles) deixou as ii
- commendas, de S. Gião, de Cambra, e de
Santa Maria da Ventosa 1 que tinha que são
das cincoenta commendas das egrejas do
meu padroado, etc. ...... E RARE LR E to Sao
Francisco Pires a fez, em Enio a 26
dias de agosto, anno do Nascimento de Nosso
Senhor Jesus Christo, 1537.—E eu Jorge
Rodrigues, a subscrevi.»
“e. 0 0.
——
Tambem no archivo d'esta egreja existiu
outro alvará, pelo qual o mesmo D. João
HI, faz mercê da commenda de S. Thiago, a
Ruy Telles da Silva, filho primogenito de
André Telles de Menezes, por fallecimento
Feste. O alvará é de 5 de dezembro de 1538,
e portanto o primeiro commendador só ER
fructou a commenda 15 mezes.
Posto ignorar-se o anno da fundação d'es-
ta egreja, sabe-se que foi no reinado de D.
Affonso Henriques, e que foi logo egreja pa-
rochial. Foi primeiramente dos templarios,
e é muito provavel que fossem elles os seus
fundadores. Mesmo depois das contendas com
0 bispo de Lisboa, D. Gilberto (vide o anno
1459) ficou esta egreja sendo isenta do mos-
teiro e prelazia de Thomar, porque assim
se collige de um alvará do rei D. Diniz, pas-
1 É a actual freguezia de Cambra, no con-
celho de Vousella. (Vide a 3. Cambra)
A freguezia de Santa Maria da Ventosa,
pertence iambem ao mesmo concelho de
Vousella.
SAN
sado em maio da era de 1323 (1285 de Je-
sus Christo) no qual o rei confirma todos os
privilegios concedidos por seus antecessores,
aos templarios, com respeito a esta e a to-
das as outras egrejas desta ordem. Eis à
razão porque esta egreja veio, em 1319, à
ser cominenda de Christo. 1
Outro alvará de D. Afionso V, passado
em Santarem, a 27 de fevereiro de 1449,
confirma o anterior, feito aos templarios, em
favor da ordem de Christo, da qual era en-
tão grão-mestre, o infante D. Henrique (o
de Sagres) duque de Viseu, senhor da Co-
vilhan, tio do rei, por ser 5.º filho de D.
João IT.
Ambos estes alvarás estavam archivados
no cartorio da egreja de S. Thiago.
Na capella-mór d'esta egreja, estavam duas
sepulturas, ambas mettidas na parede, do
lado do Evangelho.
Eis as suas inscripções :
a
AQUI JAZ O DOUTOR DIOGO DO REGO,
DO DESEMBARGO D'EL-REI NOSSO SENHOR,
E DO SEU CONSELHO ; DOM PRIOR
DESTA EGREJA. FINOU A NOVE DE
MAIO DE MIL QUINHENTOS E
TRINTA E SEIS ANNOS.
Esta sepultura era de marmore, muito bem
lavrada. Foi aberta em 1695, e se achou o
corpo do defunto inteiro e incorrupto.
Za
A BEPULTURA D'ESTA CAPELLA-MÓR,
É DE ANTONIO DIAS MONTEIRO,
CAVALLEIRO FIDALGO, DA CASA DE
SUA MAGESTADE, E SEU MONTEIRO-
MÓR D'ESTA VILLA—E DE SUA
MULHER, E HERDEIROS.
TEM MISSA QUOTIDIANA POR
SUAS ALMAS, PARA SEMPRE,
COM MAIS UMA CANTADA.
PEDE UMA AVE MARIA PELA SUA
ALMA, E DA DITA SUA MULHER,
CATHARINA CARDOSA.
t Já tenho dito em mais de um logar d'esta
obra, que a ordem do Templo foi supprimi-
da em 131414, e D. Diniz instituiu a ordem de
Christo, para herdeira d'aquella, e lhe deu
quasi tudo quanto era dos templarios, as-
sim como todas as suas honras, isenções e
privilegios.
SAN
Para possuirem este jazigo de familia,
lhes foi dada licença, por uma provisão de
Philippe IV, passada em Lisboa, a 22 de ja-
neiro de 1620.
No corpo da egreja, foram enterrados os
seguintes individuos, o que constava dasres-
pectivas inscripções :
Olicencíado, Antonio Toscano, vigario d'es-
ta egreja, fallecido de 99 annos.
João Lopes, tambem vigario d'esta egreja
Francisco Lopes, idem.
Nicolau Paes, escrivão do almoxarifado e
coutados de Santarem, e seus herdeiros.
Padre João de Lemos Mascarenhas, «que
serviu esta egreja (diz a inscripção) trinta
annos, com satisfação; e seu irmão, frei
Amaro de Lemos Mascarenhas, indigno sa-
cerdote. Pedem uma Ave Maria. Anno de
1675.»
Depois de roubada e profanada esta egreja,
em 1834, foi arrazada até aos fundamentos,
sem que hoje d'ella haja o minimo vestigio.
S. João do Alfange—A povoação do Al-
fange, fica junto à margem direita do Tejo,
eg n'ella está a egreja de S. João Baptista, que
foi matriz d'este bairro.
O vigario era apresentado pela collegiada
d'Alcáçova, que nomeava sempre um dos
seus conegos, para esta parochia.
Esta egreja foi antigamente do real pa-
droado, mas, em 1254, D. Affonso III, deu
áquella collegiada, os padroados d'esta egreja
de S. João, da de S. Pedro, e da de S. Bar-
tholomeu.
A egreja é pequena e a maior parte dos
seus parochianos, eram barqueiros e pesca-
dores.
Tinha trez beneficiados, da momeação da
collegiada d'Alcáçova, e um thesoureiro no-
meado pelo vigario.
Como acontece com a maior parte das |
egrejas matrizes de Santarem, ignora-se a
data da fundação desta, só se sabe que é
antiquissima e provavelmente fundada por
D. Affonso 1, ou durante o seu reinado.
Quando tratar da capella de S. Bartholo-
meu dos cuvalleiros, direi mais alguma cou-
SAN 599.
sa relativa a esta egreja, o que agora não
| faço para evitar aborrecidas repetições.
| A egreja de S. João do Alfange, ainda es-
| tá aberta ao culto, e n'ella se diz missa nos
| dias santificados; mas acha-se na maior po-
breza, quanto a alfaias para o culto divino;
sem limpeza, e ameaçando proxima ruina.
S. Martinho, bispo — Esta egreja ficava
dentro dos muros, da parte do N.E. da po- -
voação.
* (O templo primittivo, era antiquissimo, é
estando em grande ruina se demoliu, em
1715, para se construir o novo, junto ao lo-
gar do antigo.
Lançou-se a primeira pedra, a 9 de maio
de 1716, concluindo-se as obras em 1745.
A primeira era sagrada.
Na pedra fundamental, se gravou uma
inscripção que é a mesma que se lia no cu-
nhal da esquerda, de quem entra, e dizia :
MARTINO RENOVATUM Á PARTU
VIRGINIS ALMAE MILLE SUPER-
NUMERABIS, MOX QUOQUE
SAECULA SEPTEM, BIS QUOQUE
ANNOS QCTO LAPIS HIC MONU-
MENTA RELINQUIT, LUCE NONA
MAII, QUAE SIT MEMORABILIS AEVO.
A egreja era pequena, de uma só nave, é
toda de abobada de tijolo. Tinha altar-mór
e dois lateraes.
O frontespicio, era deboa cantaria lavrada,
com duas torres de sinos, e entre ellas, uma
espaçosa varanda.
No centro do pavimento da capella-mór,
estava uma campa com esta inseripção:
AQUI JAZ PEDRO SEBASTIÃO DIAS
CAMELLO, PRIOR QUE FOI VINTE
E UM ANNOS; NA EGREJA DE
S. LOURENÇO, E VIGARIO DESTA,
TRINTA E NOUE. PEDE, PELO AMOR
DE CHRISTANDADE, UM PADRE NOSSO.
Na antiga egreja estava uma campa que
foi mudada para à nova, e da sua inscri-
pção só se podia lér:
SEPULTURA DO MESTRE MENDO,
QUE DEIXOU QUARENTA E OITO
..... RENDA EM MONÇÃO
. . AOS BENEFICIADOS IN SOLIDUM.
560 SAN
No adro, iunto à porta travessa, estava um
carneiro, mandado fazer pelo padre Manuel
Dias da Costa, que foi prior d'esta egreja.
Esta egreja era do real padroado, e o rei
D. Diniz a deu aos bispos de Lisboa, sendo
seu primeiro donatario, o bispo, D. Juão
Martins de Soalhães.
Depois, passou a commendatarios, e foi o
ultimo, o morgado d'Oliveira, João Pedro de
Saldanha; mas o direito da apresentação fi-
cou sendo sempre da mitra, por concurso
synodal.
Tinha quatro beneficiados, da nomeação
do prior, cada um com 2003000 réis de
rendimento annual. Tinha tambem um the-
soureiro, apresentado im solidum pelo prior.
Havia n'esta freguezia trez ermidas—s.
João Baptista (o famoso templo de 8. João
d'Alporão) a uns 15 metros da egreja ma-
triz—Santo Ildef..nso e Senhora da Bôa-Hora.
- Era curato da apresentação, in solidum,
do prior d'esta egreja, a freguezia de Nossa
Senhora da Conceição, da Varzea, 7 kilome-
metros ao N. de Santarem, e do seu conce-
lho.
Antigamente, era a egreja da freguezia de
S. Vicente do Paúl (concelho de Santarem)
filial d'esta de S. Martinho, cujo prior e ra-
coeiros nomeavam o cura d'aquella e rece-
biam trez quartas partes dos dizimos do
Paúl.
O primeiro documento que existe d'este
padroado, é do tempo de D. Diniz, porque'
D. Pedro I, diz em uma carta regia—Mando
que se conserve a carta d'el-rei D. Diniz,
meu avó, e que o prior de S. Martinho seja
conservado na posse da egreja de 8. Vicente
do Paúl, etc.
Pelo meiado do seculo 47.º, o prior de S.
Martinho, renunciou o direito de apresenta-
ção da egreja do Prúl, que ficou sendo da
mitra, e depois passou a commendatarios
seculares.
Mas o prior de S. Martinho, continuou a
receber a quarta parte dos dizimos dos fru-
ctos do Paúl, e todo o dizimo das aves de
penna.
Exactamente o mesmo recebia o prior,
da freguezia de S. Domingos de Valle de
Figueira, tambem do concelho de Santarem.
SAN
Como acabamos de vêr, ere esta egreja de
S. Martinho, muito antiga, mas tambem se
ignora a data da sua fundação. Segundo a
tradição, já existia no tempo dos gôdos, e os
árabes a converteram em mesquita, no se-
culo 8.º, sendo purificada e aberta ao culto
catholico no seculo 12º
Foi este antiquissimo templo, que se de-
moliu em 1715, para se construir o novo,
como vimos no principio d'este artigo.
Era no districto desta freguezia, e a uns
30 metros ao N. da egreja matriz, que o rei
D. Manuel construiu a celebre e altissima
torre das Cabaças. É quadrada, de boa e
robusta alvenaria, com cunhaes de grossa
cantaria, fechada por uma abobada conve-
xa, tendo no centro, o grande sino do relo-
gio.
Ha tambem n'esta freguezia duas fontes
de boa agua nativa.
A primeira, pouco abundante, mas pe-
renne, está ao cimo de um pomar e hortas,
em uma ladeira ingreme, que tudo perten-
ceu à sumptuosa casa que aqui tiveram os
condes d'Obidos, e que está ao cimo da pro-
priedade, que confinava com a egreja.
Logo ao principio da descida da referida
ladeira, está uma casa subterranea, que o
vulgo denomina casa dos mouros. É de abo-
bada de tijolo, e a porta da entrada é de boa
cantaria bem lavrada, denotando muita an-
tiguidade. Segundo a tradição— corroborada
pelo seu nome—é obra dos árabes, mas à
sua architectura indica ser obra romana,
por ser de ordem dorica, combinada com à
toscana. Todavia, não falta quem diga que
é obra mais moderna, mandada fazer pelos
primeiros condes d'Obidos.
A segunda fonte d'esta freguezia, é em
outra ladeira que confina com a anteceden;
te, e fica perto do palacio que fui dos con-
des de Tarouca.
Pelo S.E. confinava esta freguezia com a de
Alcáçova; que antigamente era o castello da
villa, cercado de muros fortissimos.
Este castello estava ainda no seculo XII,
o
SAN
separado da povoação, mas, com 0 augmen-
to d'esta, veio a ficar unido a ella.
Para o N.0., atravez da calçada que vae
para o Alfange, havia uma ponte levadiça
(ainda ao sitio se dá o nome de Ponte) so-
bre o fosso da entrada da porta do cas-
tello.
Na parte mais elevada d'este logar, onde
estão umas casas que foram dos Peixotos da
Silva, provedores das lezirias, existiu a anti-
ga torre do Bufo.
Era tão alta, que della se via a olho des-
armado, e em tempo claro, o castello de S.
Jorge de Lisboa.
Foi demolida no fim do seculo XVII, pa-
ra com os seus materiaes se construir um
lanço de muralhas.
Em 1834, roubaram a esta egreja a maior
parte dos objectos do culto.
Depois, foram-lhe roubando a cantaria da
cornija e cunhaes, até que, por fim, foram
vendidos os restos a uma associação que
alli anda construindo (setembro de 1879) um
club e um theatro—cousas muito mais ne-
cessarias para a instruceção e moralisação
do povo, do que uma egreja catholica...
Santo Estevam, proto-martyr vulgarmen-
te, Santo Milagre — está fundada no sitio
mais alto de Santarem, dentro dos muros
que cercam a principal povoação.
Tambem se ignora a data da sua construc-
ção, só se sabe que é antiquissima.
De um pergaminho existente no cartorio
desta egreja, consta que já era parochial,
e priorado, em 1240.
Sabe-se tambem, que foi sagrada, a 16 de
fevereiro de 12414.
Suppõe-se que foi elevada a matriz, em
1210.
Foi sempre do padroado das rainhas, que
apresentavam o prior.
Tinha 8 beneficiados que o prior apresen-
tava.
O parocho tinha de rendimento annual
400 e tantos mil réis, mas d'elles pagava
808000 réis de pensão à mitra, e tambem ti-
nha obrigação de pagar os sermões de qua-
resma.
SAN 961
Os beneficiados tinham cada um 708000
réis por anno.
O templo é pequeno, de trez naves, sus-
tentadas por 10 columnas, de ordem tosca-
na, cinco de cada lado, tudo de bôa cantaria,
com suas esculpturas, e entre ellas, varios
bustos.
Tem altar-mór e dois lateraes.
No altar-mór, em um bonito sacrario, es-
tá o Santo Milagre.
De cada lado estão dois quadros a óleo,
representando o milagre da sagrada parti-
cula—no 4.º, está a mulher, recebendo a
communhão—no 2.º, vae ella com a hostia
envolta na beatilha, derramando algumas
pingas de sangue—no 3.º, está a arca, da
qual sahem resplandores, cercados por se-
raphins—no 4.º, se figura a procissão, reco-
lhendo á egreja com o Santo Milagre. (Vide
o anno 1266.)
Por baixo do 2.º quadro, em letras dou-
radas se lê:
MANDOU DOURAR A HISTORIA
DO SANTO MILAGRE, A GRANDE
PORTUGUEZA, MARIA PINTA
DE GOUVEIA. ANNO DE 1646.
Ha aqui duas irmandades—a do Santissi-
mo Milagre—e a do Senhor Jesus do Terço.
Na primeira entravam as pessoas reaes, é
os principaes cavalheiros de Santarem e de
muitas terras da Extremadura.
Os irmãos teem os mesmos privilegios, gra-
ças e indulgencias da irmandade do SS., da
Sé de Lisboa, o que lhe foi concedido por
bulla do papa Gregorio XIV, no 4.º (e ulti-
mo) anno do seu pontificado (1590.)
A irmandade do Senhor Jesus do Terço,
foi instituida na capella de S. Marçal, mas
os irmãos tiraram o santo do throno, e po-
zeram em seu logar, uma imagem de Jesus
Christo Crucificado; e desde então tomou o
altar a denominação de Senhor do Terço.
Antigamente, sahiam os irmãos todas às
h.2s feiras, com o Senhor Jesus em procis-
“são, pelas ruas da freguezia e á noite se re-
zava 0 terço de Nossa Senhora.
E em todos os domingos sahia a mesma
procissão, percorrendo as mesmas ruag, can-
tando o terço do Santissimo Sacramento.
562 SAN
Esta irmandade, foi erecta em 1729, e con-
firmada pelo cabido, a 23 de julho do mes-
mo anno.
O seu altar é privilegiado em todas as
quintas feiras do anno, por breve apostolico
de Benedicto XIII, do mesmo anno de
4729.
Na mesma egreja se fazia todos os annos,-
a 27 de janeiro, um anniversario pelas almas
de D. Affonso III, e de seu filho, o rei D. Di-
niz.
D. Affonso VI, mandou, à sua custa, fa-
zer contigua a esta egreja, uma casa mages-
tosa, chamada da Via-Sacra, na qual se mos-
trava o Santo Milagre às pessoas que para
isso obtinham provisão do ordinario. N'esta
casa existe uma lapide que diz:
O SERENISSIMO REI D. AFFONSO SEXTO,
MANDOU FAZER ESTA OBRA, PELO
MARQUEZ DE MARIALVA, DOS SEUS
CONSELHOS DE ESTADO E GUERRA, E
VÉDOR DA SUA FAZENDA, GOVER-
NADOR DAS ARMAS DA CORTE E
CIDADE DE LISBOA, DE CASCAES E DAS
COMARCAS DA' EXTREMADURA.
CORREU COM ESTA OBRA, O DOUTOR '
FRANCISCO SOARES, SENDO PROVEDOR
D'ESTA COMARCA; E DOM MANUEL
DE CASTRO, PRIOR D ESTA EGREJA.
NO ANNO DE 1660.
Além de varias obrigações de anniversa-
rios, ha n'esta egreja seis capellas de missas,
e são:
1.2, instituida por D. Gonçalo Lourenço,
conego de Placencia e beneficiado d'esta
egreja, com missa quotidiana.
Não se sabe quando foi instituida.
Só existe uma escriptura de composição,
feira entre Nuno Alvares de Mariz, então ad-
ministrador da capella, e o prior D. Fernan-
do de Menezes, e mais beneficiados, sobre
o preço das missas, feita em 1589.
2.º, instituida por D. Catharina Tosse, viu-
va de Pedro Tosse, em 1373.
Tem missa quotidiana, paga pelo rendi-
mento de umas terras no campo da Golle-
gan.
3.2, instituida por Maria de Oliveira Bo-
lhão, em 4658, com missa quotidiana, de
esmola de 120 réis cada missa, tirada da 4.º
SAN
parte do rendimento das suas fazendas. É
administrada pela Misericordia.
4.2, instituida em 1695, pelo padre Manuel
dos Santos. '
E de missa quotidiana, dita no altar da
Senhora da Apresentação.
É administrada pelo beneficiado mais ve-
lho d'esta egreja.
5.2, instutuida por Luiz Borges da Silva.
Tem missa quotidiana pela alma do institui-
dor, que deixou para ella 408000 réis, e
48000 réis para a fábrica.
6.2, instituida por Gregorio Velloso.
É de seis missas cada semana, da esmola
de 100 réis cada uma.
É administrada pela Misericordia.
Ignora-se a data da institui-
ção d'estas duas ultimas ca-
pellas, só se sabe que é muito
antiga.
Inscripções das principaes sepulturas
d'esta egreja
é Va
AQUI JAZ LOURENÇO GONÇALVES,
CAVALLEIRO, QUE DEIXOU A QUINTA
DOS CHAVÕES, À FÁBRICA D ESTA EGREJA,
O QUAL ESTAVA FÓRA ENTERRADO,
E PASSAMOL'O AQUI, QUANDO SE
FEZ A TORRE.
pi
SEPULTURA PERPÉTUA, DE
PRANCISCO FELIZ ARANHA,
E DE SUA MULHER, MARIA
FERREIRA DE SEQUEIRA, E
DE SEUS HERDEIROS.
dm
SEPULTURA DE ROQUE GARCIA
GODIM, E DE SEUS HERDEIROS*
NA QUAL JAZ SUA MÃE E
AVÓ, ENTERRADOS, FEITA NA
ERA DE 1623.
PEDEM A TODOS, UM PADRE
NOSSO E UMA AVE-MARIA.
DA GERAÇÃO DOS PANTANAS,
SAN |
ba
SEPULTURA DE GASPAR BULHÃO,
E DE SUA MULHER, LEONOR DE
OLIVEIRA, E DE SEUS HERDEIROS.
1638.
õ.
SEPULTURA DE MANOEL SEIXO GAYO,
E DE SUA MULHER, SIMOA RI-
BEIRA CORREIA, E DE SEUS HERDEIROS.
Esta campa tem um escudo das armas
dos Gayos.
6.2
SEPULTURA DO PADRE GIL AFFONSO,
BENEFICIADO DESTA EGREJA, QUE
FEZ UMA CAPELLA DE TODOS OS
SEUS BENS, E DEIXOU POR ADMI-
NISTRADORES, O JUIZ E MÓRDOMOS
DO SANTISSIMO MILAGRE, E-QUE
A RENDA DE TODA A SUA FAZENDA
SE FIZESSE EM QUATRO PARTES—
AS TREZ, FOSSEM PARA MISSAS,
E A QUARTA PARTE, PARA CERA
DO SANTISSIMO MILAGRE.
E QUE OS DITOS OFFICIAES FIZESSEM
UM APONTADOR, QUE APONTASSE
AS DITAS MISSAS, COM JURAMENTO.
FALLECEU A 26 DE JULHO DE 1548.
Pie
SEPULTURA DOS PADRES FRANCISCO
GOMES, ANTONIO GOMES, E MANOEL
DOS SANTOS, RENEFICIADOS D'ESTA EGREJA,
1686.
Be
SEPULTURA DE ANTONIO PROENÇA,
PRIOR DE NOSSA SENHORA DE AL-
MOSTER. BENEFICIADO D'ESTA EGREJA,
E DE SEUS SOBRINHOS.
om
SEPULTURA DE ANDRÉ VAZ E DA
SUA MULHER, CATHARINA SOARES,
E DE SEUS FILHOS.
10.2
AQUI JAZ DUARTE VELHO, CAVAL-
LEIRO DA ORDEM DE AVIZ, E
SEUS HERDEIROS.
- 1509.
SAN
UR
965
AQUI JAZ ANDRÉ PINTO, E SUA
MULHER, LEONOR DE MACEDO, E
SEU TIO, MIGUEL PINTO, CUJA É
PERPETUA; E DE SEUS HERDEIROS.
Todas estas sepulturas estão no corpo da
egreja.
Na capella-mór estão as quatro seguin-
tes:
12.2
SEPULTURA DE D. FRANCISCO LOBO DA SILVEIRA,
PRIOR D'ESTA EGREJA; EM A QUAL JAZ SUA IRMAN,
DONA ANTONIA DE ZUNIGA, A QUAL FALLECEU
A CINCO DE NOVEMBRO DE 1037.
43.2
SEPULTURA DO DOUTOR, LUIZ DA SILVA
DE BRITO, PRIOR QUE FOI DESTA EGREJA,
PROTONOTARIO AFOSTULICO, CONEGO
PENITENCIARIO NA SÉ DE ÉVORA, f
VIGARIO-GERAL, PROVISOR, E GOVER-
NADOR, MUITAS VEZES, NO ARCEBISPADO
DE ÉVORA, POR ESPAÇO DE 26 ANNOS.
16950.
Tem o brazão d'armas dos Silvas e Bri-
tos.
A4.a
ESTA SEPULTURA, É DE CHRISTOVAM
DE BOBADILHA, QUE FOI PRIOR DESTA.
EGREJA. FALLECEU AO DOMINGO, DÉS
DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DA
ERA DE 1527.
15.2
SEPULTURA PERPETUA DO DOUTOR,
LUIZ MENDES DE MACEDO, PRIOR
QUE FOI D ESTA EGREJA, E PROTONOTA-
RIO DA SÉ APOSTOLICA. PARA ELLE
SÓMENTE. FALLECEU A 31 DE JULHO
DE 1617.
Esta egreja— por milagre do Santo Mila-
gre—ainda se acha em bom estado e ador-
nada com muita decencia, devido a existir
n'ella o Paladium dos santarenos.
As collegiadas de Santarem, foram todas
supprimidas em 1834, ou pouco depois.
564 SAN
Ermidas de Santarem
1.2—S. Sebastião—Junto ao mosteiro da
Senhora da Piedade.
Era administrada pela camara.
Foi fundada por D. Manuel 1, lançando-
se-lhe a 4.º pedra a 25 de novembro de
1505, durante uma terrivel peste que então
houve em Portugal.
(Já em 1503, tinha havido outra peste que
matou bastante gente, porem menos que a
de 1505.)
O 1.º tecto da ermida, era de madeira, 6
“cahiu em 1720, mas foi logo feito um novo,
de abobada de tijolo.
A imagem do santo, é de pedra, e muito
antiga.
Tem 1,750 de alto.
É no districto da freguezia do Salvador.
Esta capella, foi sacrilegamente profana-
da em 1834, e serviu por algunas annos de
celleiro.
Hoje está transformada... em cocHEI-
RAl!!
O mais escandaloso é conservar ainda to-
dos os signaes exteriores de capella.
(Vide collegio da Companhia de Jesus.)
2.º—Espirito Santo — Junto ao mosteiro
da Trindade.
Teve merceeiras.
Foi mandada construir pelos fidalgos, em
1643; estando então a corte em Santarem.
Tinha altar-mór, e dois lateraes.
Éra um templo grande e bonito. É na mes-
ma freguezia.
Fui sacrilegamente profanada depois de
1834, e hoje é um PALHEIRO |
32—Espirito Santo (outra)—por traz da
antecedente.
Ambas eram administradas pela Miseri-
cordia. g
Foi fundada pelos irmãos, em 1498.
Cahiu o corpo da egreja, pelos annos de
1700, e só ficou a capella-mór, que era de
abobada de tijolo.
Nºesta ermida se fazia antigamente uma
grande festa, para a qual davam os reis,
dous touros, ou 168000 réis.
SAN
Depois, este dinheiro (que era pago pelo
almoxarifado) foi applicado para a fabrica
da ermida.
Era na mesma freguezia.
Foi arrazada depois de 1834, e della nem
vestígios ha hoje.
em
42-—Nossa Senhora do Monte—Está em
um cabêço, entre olivaes, proximo e ao N.
da cidade, no mesmo districto da freguezia
do Salvador.
Consta por tradição, ser fundada durante
o reinado de D. Affonso Henriques.
Era administrada pela camara.
No sitio onde está fundada, existiu anti-
gamente o hospital dos gafos, que o mesmo
soberano havia fundado, e que em 1292 se
mudou para S. Lazaro!
Tem uma irmandade.
Tem capella-mór, e trez altares lateraes.
O corpo da egreja tem 20 metros de com-
prido e 7 de largo.
A capella-mór, tem 5,750 de comprido, e
o mesmo de largo.
As paredes interiores, são, d'alto a baixo
revestidas de azulejos muito antigos.
O tecto da capella-mór é de tijolo.
(A ermida da Senhora do Monte ficou de-
pois a fazer parte da egreja dos Trinos.)
Foram aqui sepultados varios individuos;
eis algumas das inscripções sepulchraes:
Pa
AQUI JAZ AYRES LOPES DE SYQUEIRA,
COMMENDADOR DA ORDEM DE
CHRISTO, O QUAL FOY PROVEDOR
QUARENTA ANNOS, DE S. LAZARO,
A QUE ESTA ERMIDA É ANNEXA,
E N'ELLA SE MANDOU SEPULTAR
POR SUA DEVOÇÃO. FALLECEU
A TRES DE ABRIL, DE 1575.
> Pg
SEPULTURA DE ALDONÇA RODRIGUES,
QUE DEIXOU SEUS BENS A ESTA
CONFRARIA DE N. SENHORA.
FALLECEU A TRES DE FEVEREIRO, NA
ERA DE 1426.
SAN
Sa
AD VIRGINIS LAUDEM CONSTRUCTUM
EST OPUS JUSSU LUPI DE SOUSA
CONTIGNI. MENSE OCTOBRIS, ANNO
DOMINI, 1598.
Sobre a porta travessa está a seguinte
inscripção :
ESTE PORTAL, E OS ASSENTOS DO CORO,
MANDOU FAZER AYRES LOPES DE
SYQUEIRA, PROVEDOR DE S. LAZARO,
A” CUSTA DA MESMA CASA,
NO ANNO DE 1555.
Esta ermida não tem frontespicio elevado,
porque lhe corre mistica, uma columnata,
que lhe fórma o atrio, em todo o compri-
mento do templo.
São 15 as columnas que sustentam o te-
cto do atrio, todas eguaes, e de ordem jo-
nica.
Tem duas entradas o átrio, a da porta
principal e a da travessa.
Além das 15 columnas, que são redondas,
tem quatro áticas, quadradas, na porta prin-
cipal.
Esta capella ainda existe com culto, e tem
uma irmandade, que cuida da sua conser-
vação e aceio. Pertence hoje à freguezia do
Salvador.
5.º—Nossa Senhora da Assumpção—Fica-
va por traz da capella-mór da antecedente,
e éra unida a ella (paredes meias) mas com
serventia áparte.
A imagem da padroeira, éra de marmore,
e de de 1,710 d'alto.
| Esta ermida éra tão antiga como a antece-
dente, e tambem fundação de D. Affonso
Henriques.
A imagem da Senhora, segundo a lenda,
foi achada n'este mesmo sitio.
Éra na mesma freguezia.
Esta capella, e um grupo de casas conti-
guas a ella, não são hoje mais do que um
VOLUME VIII
SAN 565
montão de ruinas—como a maior parte do
antigo bairro das Alcáçovas!
6.º—Nova Senhora da Piedade—No local
onde depois se fundou a egreja do mosteiro
dos agostinhos descalços, havia antigamente
uma porta das muralhas (no sitio onde se
construiu a capella-mór) cingida de torres,
e d'aqui corria o muro até aos paços reaes,
onde depois se fundou o collegio dos jesui-
tas; e outro, pelo N.E., descendo o monte até
à antiga fonte das Figueiras (e por isso áquella
porta se chamava das Figueiras, ou Porta
falsa.) à
Da parte esquerda (E.) estava sobre amu-
ralha, uma ermida, dedicada a Nossa Senho-
ra de Guadalupe, com seu eirado, e a torre
dos vinte e quatro, ou dos mestéres. Tudo isto
corria para o nascente.
Não sesabe quem mandou construiraquella
ermida, mas é, com certeza, dos primeiros
seculos da monarchia.
D. Affonso VI, para edificar a egreja de
Nossa Senhora da Piedade, mandou demolir
a tal ermida. Mettia-se de permeio o eirado,
seguindo-se a torre dos mestéres, que estava
sobre a casaique depois foi portaria do mos-
teiro. Esta torre era grande, e foi n'ella que
se estabeleceu a casa da supplicação, antes
de passar para os vinte e quatro, e por fim,
para a camara.
Para se fazer a egreja da Senhora da Pie-
dade, mandou D. Affonso VI demolir a torre,
e construir a casa dos vinte e quatro, na
praça, em frente do senado da camara.
Ainda havia outras casas sobre as muras
lhas, n'este logar, para o lado do sul, e dos
seus telhados se enchia uma cisterna, com
tanta abundancia d'agua que fornecia gran-
de parte da população. Esta cisterna, veio a
ficar na cêérca do mosteiro, ao N. da villa.
Debaixo d'estas casas e muralhas, havia à
porta que já disse, da qual descia uma cal-
cada para a tal fonte das Figueiras, e D. Ma-
nuel E a mandou tapar, de pedra e cal, até
ao meio da sua altura; e, querendo depois
abrir serventia, por este lado, para a torre
dos mestéres, se construiu uma escada de |
tijolo, pela parte da nova egreja, junto do
arco da'porta do muro.
D. João III, deu o campo onde estava a cis=
36
266 SAN
terna, a D. Aleixo de Menezes, seu chancel-
ler-mór, progenitor dos condes de S. Thiago,
passando a propriedade a seus filhos. Passa-
dos tempos, os frades compraram a D. Lou-
renço de Souza de Menezes, conde de S. Thiago,
o campo, que ficou sendo cérca do mosteiro.
Fechada a porta das Figueiras, o rei D. Ma-
nuel, mandou abrir outra, para o Chão da
Feira. Esta abriu-se na casa que estava on-
de hoje se vê o pulpito (do lado do Evange-
lho) da egreja da Senhora da Piedade, fican-
do-lhs em frente, as cruzes do tal Chão da
Feira; dando-se-lhe (á porta) o nome de
Porta de Leiria, por ficar no sitio d'onde
partia a estrada que conduz a esta cidade.
No vão que ficou na porta das Figueiras,
ou Porta-falsa, se pintaram a fresco, as ima»
gens de Jesus Maria José: e, porque alguns
vadios alli praticavam indecencias, fiados no
occulto do sitio, um visitador da egreja do
Salvador, mandou aos mórdomos da Senhora
de Guadalupe, picar a referida pintura.
Depois disto, ficou o vão servindo de va-
lhacouto de vadios e mendigos, até que, frei
Affonso da Piedade mandou alli fazer um
oratorio (1613) e n'elle poz a imagem de
Nossa Senhora da Piedade, que lhe empres-
tou o padre João Ribeiro, morador à porta
de Atamarma; mas este, por sua morte, dei-
Xxou a imagem da Senhora, a uma sua pa-
renta, freira do mosteiro das Donas, que a
poz em uma capella do claustro do seu mos-
teiro.
Mandou frei Affonso da Piedade, fazer, de
barro outra imagem da Senhora, que foi co-
sida no forno do oleiro Antonio Fernandes,
que era na rectaguarda dos muros, à Mou-
raria.
Eis pois onde D. Affonso VI fundou o ma-
gnifico templo de Nossa Senhora da Pie-
dade.
Já disse no anno 1666 (28 de fevereiro)
que a rainha D. Luiza de Gusmão, viuva de
D. João IV, falleceu no convento das freiras,
então agostinhas e depois dominicas, de San-
. tarem.
Nos trez ultimos annos da sua vida, que
a rainha passou n'este mosteiro, foi seu con-
fessor, frei Manoel da Conceição, religioso
SAN
eremita calçado (graciano) de Santo Agosti-
nho.
Era este frade, um varão virtuosissimo, e,
desejando augmentar o rigor da sua ordem,
se offereceu à rainha para se descalçar, com
os seus companheiros. D. Luiza acceitou com
muito prazer este offerecimento, e os frades
e freiras gracianas de Santarem, que eram
carmelitas calçados, ficaram descalços.
Os fundadores da nova regra, vieram do
convento de Nossa Senhora da Graça, de Lis-
boa; e as fundadoras, do convento de Santa
Monica (vulgo Monicas) da mesma cidade.
(Vide 4.º volume, pag. 240, col. 22—o 17.º
convento de freiras (monicas) e na mesma
pag. e col.,o 1.º convento de frades (da Gra-
ça).
Logo que se deu principio ao templo da
Senhora da Piedade, desejoso o dito frei Ma-
noel da Conceição de dilatar o novo insti-
tuto dos agostinhos descalços, expoz a D.
Afionso VI, que a nova egreja devia ser a de
um mosteiro da sua ordem (d'elle frei Ma-
noel). O rei lhe disse, que a seu tempo, to-
maria isto em consideração.
N'este comenos, falleceu a rainha D. Luiza,
e foi necessario hir a Roma frei Manoel da
Conceição, embarcando em Lisboa, a 26 de
agosto de 1666, e voltando de Roma, a 27 de
janeiro de 1668. Pediu então ao principere-
gente, depois D. Pedro II, que lhe désse a
egreja da Senhora da Piedade, para 0 pro-
jectado mosteiro. O regente lh'a deu logo
pelo seguinte decreto:
«D. Pedro, etc. —Tendo respeito ao que me
representou frei Manoel da Conceição, pre-
lado dos conventos dos capuchos e capuchas
descalços, da ordem de Santo Agostinho, que
foi confessor da Rainha, minha mãe e Se.
nhora, n'esta côrte; Hei por bem, fazer mer-
cê a estes religiosos, da ermida de Nossa Se-
nhora da Piedade, que se faz por conta de
minha fazenda, na villa de Santarem, para
sua assistencia, ou disporem della como lhes.
estiver bem; não sendo prejuizo de terceiro.
Em Lisboa, a 10 de março de 1668.»
Instituiu-se à Senhora, uma irmandade de
que foram juizes natos e protectores, os reis
de Portugal.
«Sem embargo dos grandes litigios com
SAN
que o vigario e beneficiados da egreja do
Salvador, intentaram impedir a posse da
egreja, de que S. Magestade havia feito mer-
cê aos padres agostinhos descalços; tanto
que esta esteve acabada, ordenou S. Máges-
tade, passassem para ella: o que se fez em
h de fevereiro do anno de 1690, sabbado da
domínga da quinquagesima, com uma so-
lemnissima procissão, com muitas figuras ri-
camente concertadas; e levaram o Santissi-
mo Sacramento, e todas as imagens da sua
egreja, em andores ricamente ornados. Fez-
se esta lrasladação, sendo prior d'aquelle
convento, o padre frei José dos Martyres; e
vigario geral da congregação dos agostinhos
descalços, o muito reverendo padre, frei Se-
bastião da Cruz.»
(Sant. Mart., tomo 2.º, pag. 265.)
7.:—Nossa Senhora de Guadalupe—Desde
o principio da monarchia, sempre os nossos
reis tiveram grande devoção com a S.S. Vir-
gem, e lhe sujeitaram suas pessoas, reino e
conquistas, e sobre as portas de todas as
fortalezas lhe mandaram construir ermidas,
sob diversas denominações.
Em Hespanha, é celebre o templo de Nos-
sa Senhora de Guadalupe. ! apparecida em
1440, entre os rios Tejo (que passa por To-
ledo) e Guadiana, onde jazem umas monta-
nhas muito fragosas, incultas e inhabitaveis,
menos nos valles, que são frescos e aprazi-
veis.
As estas serras chamam os castelhanos
Villuercas.
Foi pois pelo meiado do seculo XV, que
sobre a porta de Leiria, se construiu a er-
mida da Senhora de Guadalupe, suppõe-se
que por ordem de D. Affonso V.
O sitio onde se edificou esta capella, era
dependencia do palacio real, e chamava-se
antigamente porta das Figueiras, ou a que
t Guadalupe, é corrupção da palavra ara-
be Uadelúbb—significa—rio do seio.
Vide vol. 3.º, pag. 332, ultimo periodo da
2.2 columna.
Vide tambem todas as povoações ou rios
de Portugal, que principiam por ODE.
SAN 967
depois se abriu, por ordem do rei D. Ma-
nuel, para o campo da Feira, e se chamou
porta de Leiria.
A ermida estava junto à torre dos miste-
res. ;
Quando se demoliu a ermida, para a cons-
trucção do novo templo da Senhora da Pie-
dade, foi a Senhora de Guadalupe para a
egreja do Salvador, a que a ermida perten-
cia; e, quando esta egreja se demoliu por
velha e arruinada, serviu de egreja parochial,
emquanto duraram as obras, a capella do
Espirito Santo, do Campo da Feira, junto ao
mosteiro dos frades trinos.
8:--Nossa Senhora da Victoria—Foi cons-
truida sobre a porta da Atamarma, e sup-
põe-se que por ordem de D. Affonso Henri-
ques, para commemorar a victoria de 8 de
maio d> 1147, pois foi por esta porta que o
rei entrou n'esse dia.
Era na freguezia de Marvilla.
Demolida depois de 1834 a porta da Ata-
marma, desappareceu a ermida.
9.:-— Nossa Senhory Madre de Deus, vul-
go, da Vallada—Sobre a porta da Vallada
(assim chamada, por ser o caminho da valla,
que chega até à Casa Branca) se construiu
a ermida da Senhora da Vallada, que ficava
quasi parallela com a da Senhora da Vieto-
ria (esta ao N. e aquella ao S.)
Não se sabe por quem nem quando se edi-
ficou esta ermida, e só se sabe que foi em
tempos muito antigos.
Era no districto da extincta freguezia de
S. Lourenço.
Depois de 1834, foi destruida juntamente
com o arco ou porta d'este nome, e já d'el-
la não ha vestigios.
10.2— Nossa Senhora da Oliveira — Fun-
dando se aqui em 121414, ainda emvi da do
patriarcha São Domingos, o mosteiro da
sua ordem, em um sitio até então chamado:
Montiraz, o mudaram depois, por ficar lon-
ge da villa, para o sitio da Magdalena, onde
se veiu a edificar o mosteiro das Donas.
Principiou a obra, trabalhando n'ella, não
só os operarios, mas até, por devoção, mui-
568 SAN
ta gente do povo e das principaes familias da
villa.
Uma manhan, em que hiam principiar o
trabalho, não acharam uma unica peca de
ferramenta, e, depois de a procurarem por
toda a parte, foram dar com ella na ermida
de Nossa Senhora da Oliveira, que ficava
distante.
Levaram a ferramenta e continuaram a
obra, repetindo-se por muitas vezes o desap-
parecimento, até que, desenganados, sus-
penderam a obra da Magdalena, e foram os
frades pedir a ermida de Nossa Senhora da
Oliveira, aos conegos da egreja da Alcaço-
va, que lha deram logo.!
Fez-se o mosteiro, e a ermida serviu por
muito tempo de egreja d'elle, e, depois de
feito o corpo da egreja, ficou a ermida trans-
formada em capella-mór.
A ermida era antiguissima, mas não se sa-
be quando nem por quem foi construida.
É no districto da antiga freguezia d'Alca-
cova.
112-—Nossa Senhora da Abóbada—Os fra-
des trinos construiram primeiro o seu con-
vento no sitio da ermida de Nossa Senhora
do Monte (a do n.º 4) em 1218, a alguma
distancia da villa, para o O.; mas, como alli
estava o hospital dos gafos, e por outras ra-
zões, quizeram sahir d'alli, e o rei D Affon-
so II, lhe deu a ermida da Senhora da Abó-
bada, em um monte d'onde se extrahia pe-
dra para as construcções da villa, pelo que,
os cabouqueiros tanto foram minando, que
fizeram um tunnell que atravessava o monte.
Sobre este estava a ermida que os frades de-
moliram, para fazerem o seu novo mostei-
ro, levando a imagem da padroeira para um
dos altares da nova egreja.
Suppõe-se que a ermida tinha sido man-
dada construir por D. Affonso Henriques.
1 Isto explica-se perfeitamente.
Os frades preferiam o sitio da ermida,
para a construcção: do seu mosteiro, e abu-
sando da credulidade do povo d'aquelles
tempos, usaram do estratagema do desappa-
recimento da ferramenta, para conseguirem
os seus fins.
SAN
12.2—Nossa Senhora das Angustias—No
termo de Santarem, está a quinta de Cha-
vães, que foi dos condes de Unhão, e foram
elles que alli mandaram construir uma for-
mosa ermida, dedicada à Senhora das An-
gustias.
É templo muito antigo e não se sabe em
que anno os condes o fundaram.
Apenas hoje existem as ruinas d'esta er-
mida. O bello jardim, formosos lagos, e pri-
morosas obras de arte, que tornavam esta
quinta de Chavães uma deliciosa vivenda de
seus proprietarios, os marquezes de Olhão
e de Niza, tudo está reduzido a tristes rui-
nas! Em 1864, ou 1865, passou esta proprie-
dade (por dividas) para José dos Prazeres
Batalhoz, do Cartaxo, que nada restaurou,
limitando-se a aproveitar os terrenos, que
lhe produziram muitas medidas de trigo, vi-
nho e azeite. Este individuo falleceu ha pou-
cos mezes, e a propriedade é hoja dos seus
herdeiros.
13.2 Santo Antonio dos Olivaes—A 3 K1-
lometros a N.E. da cidade, no districto da
freguezia do Salvador.
Segundo a tradição, havendo uma grande
peste, que assolou todo o reino, em 1438,
muitas familias de Santarem fugiram para
um monte, que depois se veiu a povoar de
oliveiras, e aqui fundaram uma ermida, de-
dicada a Santo Antonio.
Pelos annos de 1730, D. João V, mandou
revestir as paredes da capella-mór de for-
mosos azulejos, e deu à ermida um sitial
(genuflexorio real) de brocado de ouro, para
o throno do santo, e riquissimos paramentos.
Esta ermida veio a poder de particulares,
e ainda existe e com o devido culto.
14.2-Nossa Senhora dos Anjos—A 3 ki-
lometros ao N. da cidade, situada entre oli-
vaes, no districto da mesma freguezia.
A sua capella mór é de zimborio pyrami-
dal, e guarnecida de ameias.
Antigamente era esta Senhora muito fes-
tejada, principalmente pela Paschoa.
A imagem da padroeira, é de marmore,
com 1,230 d'alto.
SAN
Segundo consta do. cartorio da matriz, foi
esta ermida fundada em 1260.
Tem contigua, uma horta com trez fontes,
propriedade do eremitão, apresentado pelo
parocho respectivo.
Ainda tem culto e capellão. .
15.º— Nossa Senhora da Piedade —Foicon-
struida junto à antecedente, e poucos annos
depois della.
É redonda; mas nunca aqui se disse mis-
sa, por ser apenas uma edicula muito pe-
quena.
16.º— Santa Anna—Foi construida no se-
culo XVI, não se sabe por quem.
Era no campo da Vallada, limites da mes-
ma freguezia.
Tinha uma grande horta e pomar, tudo
cercado de freixos, e junto à ermida havia
uma copiosa fonte, casas para o eremitão e
hortelão, que o parocho aqui punha.
Foi arrazada em 1851, e o terreno expro-
priado, para a construcção do caminho de
ferro do Norte.
17.º--Santo Amaro — Ainda no districto
da mesma freguezia do Salvador, existem as
paredes da antiquissima ermida de Santo
Amaro.
Foi sacrilegamente profanada, depois de
1834, e é hoje um celltiro.
(A esta, se quer ao menos, tirou-se-lhes a
fórma exterior de capella )
18.:— São Lazaro—No districto da fregue-
zia de Marvilla.
Esta ermida, fui sacrilegamente profana-
da depois de 1834, e hoje está transforma-
da em PALHEIRO. |
1 Só a egreja que foi matriz da extincta
freguezia de S. Julião, e a egreja dos reli-
giosos trinos, é que foram canonicamente
profanadas; todas as mais egrejas de paro-
chias supprimidas, e ermidas que foram ar-
razadas, ou (o que ainda foi peior) trans-
formadas em theatros, em celleiros, em cur-
raes de gado e em palheiros, foram profa-
nadas sacrilegamente—isto é—sem as for-
malidades drescriptas no ritual, e com o
maior desprezo pelas cousas sagradas. Os
SAN 569
Fóra das portas de Mansos, a uns 200 me-
tros de distancia dºellas, no sitio antigamen-
te chamado a Carreira e hoje São Lazaro,
está um cêrco fechado, com uma grande.
porta de cantaria, para a sua entrada, e no
seu ambito ha diversas casas de habita»
ção,
Foi no centro d'este cêrco, ou cerrado,
que se construiu a ermida de São Lazaro,
muito antiga, com capella-mór e dois alta-=
res lateraes, além do principal.
A imagem do padroeiro, era de marmore,
e de um metro d'altura, denotando muita an-
tiguidade.
Dava-se-lhe o titulo de S. Lazaro Men-
digo.
A porta principal, é gothica, e ornada de
florões e arabescos, e tinha em frente uma
columnata, ou alpendre, formada por 17 co-
lumnas de ordem toscana, que sustentavam
o tecto.
Ao lado esquerdo de quem entra no cer-
rado, existiu o hospital dos lazaros, que cor-
ria desde a entrada até ao fim da ermida.
Era n'este hospital que viviam os merceei-
ros atacados de molestias cutaneas incura-
veis, sustentados pela Misericordia.
Sobre a pyrta do hospital se gravou esta
inscriução: ,
HOSPITAL DOS GAFOS.
FOI REEDIFICADA AN-
No DE 1680.
Este hospital, foi primeiramente junto à
ermida de Nossa Senhora do Monte, como
já fica dito.
(Vide hospitaes de Santarem.)
Este cerrado, era um campo das freiras
donas, e um olival da commenda de Santo
Antão.
ossos dos paes e avós da geração actual,
foram tratados com o maior desprezo, é
misturados com os dos animaes, ou espa-
lhados.
As campas que ccbriam os restos mortaes
dos ehristãos de outras eras, foram, umas
vendidas, outras roubadas, e com ellas se
construiram varandas, lagares e outras obras
sem ao menos se lhes apagarem as inscri-
pções.
910 SAN
Foi tudo avaliado em 2140 libras, que o rei
D. Diniz pagou da sua real fazenda, como
consta de um alvará do mesmo soberano
passado a 12 de dezembro de 4291.
(É em pergaminho e escripto sm letra go-
thica.)
- Vê-se pois que a ermida e hospital são
muito antigos.
O hospital ainda existiu até ao principio
d'este seculo.
Sabe-se que d'entro d'este cerrado viveu
um bispo, cujo-nome se ignora, e à sua re-
sidencia, ainda muito depois da sua morte,
se dava 0 nome de casas do bispo.
Este prelado instituiu na ermida de São
Lazaro, uma capella de missas quotidianas,
pela sua alma, para o que deixou rendas
suficientes, assim como tambem deixou ren-
das para a cura e sustento dos gafis; o que
tudo administravam primeiro os conegos de
S. Jo3o Evangelista (loyos) e depois os ir-
mãos da Misericordia.
O que não sei é quem hoje
come-os rendimentos deixados
pelo caritativo bispo, e quem
lhe manda dizer as missas...
17.:—São Roque (ou Virtudes)—Fica fron-
teira à antecedente, e na mesma fregue-
zia.
Não se sabe quando nem por quem foi
mandada construir; suppõe se que foi cum-
primento de um voto, feito pelos morado-
res de Santarem, por occasião de uma gran-
de peste.
Era uma ermida sumptuosa e alegre, ten-
do no altar-mór a imagem da padroeira, de
optima esculptura e com 1,780 d'alto.
Tinha dois altares lateraes.
Era este santo objecto de tão grande de-
voção, não só para os povos de Santarem,
e cireumvisinhos, mas ainda para todos os
portuguezes e muitos estrangeiros, vindo
aqui em romaria, castelhanos e francezes,
que todos deixavam valiosas offertas e es-
molas, em todo o decurso do anno.
Para se fazer uma ideia aproximada do
valor d'estas offerendas, basta dizer que às
semanas assistiam alternativamente à sua
2
SAN
villa, e um vereador da camara municipal,
para o que havia uma meza permanente na
ermida.
Consta isto de um documento que existe
na secretaria da matriz, escripto em 1480.
A capella mór tem 7 metros de compri-
do, por 57,70 de largo.
O corpo da egreja, tem 45 metros de com-
prido, por 4",40 de largo.
Na,frente, tinha um alpendre coberto, sus-
tentado por 10 columnas toscanas.
Foi sacrilegamente profanada depois de
1834, e hoje está reduzida a PALHEIRO € CUR-
RAL DE BESTAS |
20.:— Santo Antão—Na mesma freguezia,
e mais proximo da povoação do que a aa-
tecedente. i
Era muito antiga e pequena, e toda de
abobada.
Consta que fôra no seu principio, egreja
de um pequeno mosteiro de conegos regula-
res de Santo Agostinho, e foi o 3.º dos cinco
que houve em Portugal d'estes religiosos,
que se denominavam conegos de Santo An -
tão.
(Vide o ultimo mosteiro de religiosos no
logar competenie.)
Todos estes cinco mosteiros, foram extin-
ctos ha mais de 300 annos.
A ermida de Santo Antão, já no meiado
do seculo XVIII estava sem culto, e por
fim (muito antes de 1834) foi demolida, e no
sitio onde existiu, se vê hoje uma morada
de casas particulares.
21.2—S. Christovam—No districto da mes-
ma freguezia.
Ficava esta ermida fóra das portas de
Atamarma, e a uns 4 metros da calçada do
mesmo nome.
Tinha contiguas, uma horta e um pomar,
em descida, até uma profunda barroca.
Tanto a ermida como a cérca, foram ca-
beça de um vinculo, instituido por D. Gayão
de Noronha, fidalgo dos principaes de San-
tarem, e que fi sepultado n'esta ermida.
Iostituiu nella uma capella com missa
quotidiana pela sua alma, entregando por
recepção, um beneficiado da egreja de Mar- L.estamento, a administração da capella, à
SAN
Misericordia de Santarem, com a condi-
ção de fazer, à custa dos bens do testador,
no hospital, uma casa para acolheita de tres
viajantes pobres, com as competentes ca-
mas e sustento.
O vinculo passou depois aos condes dos
Arcos, da nobilissima casa dos viscondes de
Villa Nova da Cerveira (depois marquezes
de Ponte de Lima) que, não tratando dos
precizos reparos da ermida, se foi esta ar-
ruinando, de maneira que, pelos annos de
1725, D. Martinho Dique, prior então de
Marvilla, vendo que os possuidores dos bens
do morgado não curavam de reedificar a er-
mida, levou a imagem do padroeiro para a
matriz.
Esta imagem é de marmore e antiquissi-
ma.
O povo de Santarem, costumava offerecer
a S. Christovam, quando estava na ermida,
e, depois, mesmo na egreja, fogaças e meren-
deiras; mas esta devoção deixou de existir
ha muitos annos.
A ermida foi canonicamente profanada, no
reinado de D. José I, e os seus restos, des-
appareceram quando se construiu a estrada
que vae da cidade para a nova ponte (por
concluir) sobre o Tejo.
9292.2-S. Pedro, apostolo—nos limites da
freguezia de S. Nicolau, e a unica que hou-
ve n'esta parochia.
Ficava contigua à egreja matriz (ao N.)
com communicação interior para ella.
Era uma grande ermida, de abobada, ten-
do a entrada principal para a rua de 8. Ni-
colau.
Embebido na parede, à direita de quem
entra, estava um arco, e n'elle uma sepultu-
ra levantada, com esta inscripção:
FERNÃO RODRIGUES REDONDO,
E MAKINHA AFFONSO, SUA MULHER,
CADA ANNO TEEM 1360 MISSAS.
Esta ermida foi construida por Mem Ro-
drigues de Vasconcellos e João Nunes (tes-
tamenteiros de Fernão Rodrigues Redondo,
e sua mulher) pelos annos de 1339.
(Vide Egreja de S. Nicolau.)
Esta ermida já não existia no principio
SAN 574
d'este seculo, nem d'ella ha o minimo vesti-
gio, pois no logar que occupava, se vê hoje
uma casa particular.
23.2—Nossa Senhora da Gloria-—-Nos limi-
tes da freguezia de Santa Iria, da Ribeira.
Esta ermida estava ao S. da praça da Ri-
beira, sobre a porta vulgarmente chamada
do Pão, e para ella se subia por uma escada
de pedra.
Em frente do seu unico altar, tinha uma
janella de sacada, tão larga, que, estando
aberta, de quasi toda a praça se podia ouvir
missa.
Estava adornada com grande sumpltuosi-
dade, à custa do povo da Ribeira, que com
esta Senhora tinha grande devoção.
Ignora-se a data da fundação desta ermi-
da, só se sabe que era antiquissima, e pro-
vavelmente do principio da monarchia.
O bairro da Ribeira, foi an-
tigamente fechado de fortes
muros, dos quaes ainda ha
alguns vestígios, e a porta do
Pão, dava entrada para este
.cêrco de muralhas.
Ainda existe esta porta, que
depois se denominou Árco da
Senhora da Gloria, mas da er-
mida já nem vestígios exis-
tem.
94.2— Nossa Senhora da Encarnação, vul-
garmente, Nossa Senhora de Palhaes.
Pertencia aos limites da mesma fregue-
zia.
Foi construida debaixo dos arcos de Pa-
lhaes, e uns 80 metros distante (ao N.) da
antecedente. 1
Tinha um ermitão, com a renda de 66
alqueires de trigo, 6 cantaros d'azeite 6
15800 réis em dinheiro.
A ermida era vasta e alegre, e tinha um
grande côro, d'onde ouviam missa 08 mer-
ceeiros do hospital de Palhaes— ao qual esta
ermida pertencia.
1 Para evitarmos repetições, veja-se Hos-
pital de Palhaes. .
972 SAN
Tinha capella-mór, com seu altar, e dois
lateraes.
Foram aqui sepultados varios individuos.
Copio as principaes inseripções das cam-
pas que existiram n'esta egreja.
do
ESTA SEPULTURA É DE
FRANCISCO DE ANAYA, FIDALGO
DA CASA DE EL-REI NOSSO SENHOR.
FALLECEU NO ANNO DE 1544.
Tinha o brazão d'armas dos Anayas.
2.
AQUI JAZ HENRIQUE BARBOSA,
FIDALGO DA CASA DE EL-REI
NOSSO SENHOR; E JAZEM SUA
MULHER, ISABEL FERNANDES DE
ALMEIDA.
Esta inscripção era em letra gothica. Ti-
nha o escudo d'armas dos Barbosas.
3.2
SEPULTURA DO SERAMAGO
E DOS SEUS HERDEIROS.
ha
AQUI JAZ FERNÃO CARDOSO
DE S. PAYO, FIDALGO DA CASA
DE EL-REI NOSSO SENHOR.
A inscripção era tambem em gothico.
da
AQUI JAZ O BACHAREL
ALVARO RODRIGUES DE LAMEGO.
Era tambem em letra gothica.
Para não enfadar mais o leitor, direi em
resumo mais 9 sepulturas de familia, que
existem n'esta capella—eram as de:
Franeisco Gil — Diogo Antunes — Pedro
Fernandes—Simão Fernandes—Pedro Ro-
SAN
Todas estas sepulturas diziam que eram
dos referidos e seus herdeiros.
Estou certo de que muita
gente hade achar aborrecida a
transcripção de tantos epita-
phios, no artigo Santarem.
Assim é; mas, uma vez que
os ossos venerandos de tantos
christãos que nos templos sa-
grados esperavam repousar
para sempre, foram profana-
dos, e lançados aos monturos,
é bem que seus degenerados
descendentes conheçam o sa-
crilegio que commetteram com
as cinzas d'aquelles que lhes
deviam ser caros: e já que os
despojos mortaes dºaquelles
nossos irmãos foram lançados
ao vento, fiquem ao menos
aqui escriptos os seus nomes,
como protesto permanente con-
tra tanto vandalismo, e maldi-
ção aos hunos do seculo XIX.
Depois de 1834, esta ermida foi arrazada,
conservando-se-lhe, por escarneo, a porta
principal: o mais está reduzido a horta.
25.º—Nossa Senhora das Neves—Já fica
descripto a pag. 183, col. 2.º (ultima linha)
d'este volume.
Foi tambem arrazada e d'ella não ha ac-
tualmente o minimo vestígio.
26.º—Santa Iria—Unida á antecedente, é
teve a mesma sorte.
27.2-—Moimento e estatua de Santa Iria=
sobre a margem direita do Tejo, tendo em
frente as duas ermidas antecedentes.
Tem escapado ao camartello civilisa-
dor !!!
São Bartholomeu dos Cavalleiros—na mes-
ma parochia de Santa Iria.
Foi fundada por D. Affonso Henriques, que
n'ella instituiu a ordem de S. Miguel d'Ala,
drigues— Gonçalo Fernandes—Brites Sardi- | em commemoração da victoria alcançada
contra Al-Bujaque.
nha—Miguel Fernandes— Antonio Dias.
SAN
Com o decurso do tempo se foi arruinan-
do, e já em 14750 apenas haviam os alicer-
ces.
Foram aqui sepultados muitos cavalleiros
d'aquella ordem, e depois da dos templarios,
tanto na ermida como no seu adro; o que
constava da: inscripções e escudos d'armas
gravados nas campas.
Esta ermida passou depois para a ordem
do Templo, e, em 1319, para o mestrado de
Christo, e era commenda dos Barens.
Em 4636, ainda a ermida estava em bom
estado e aberta ao culto.
Em março d'este anno, deu-se aqui um
facto, digno de nota.
Partindo-se por acaso a pedra de uma se-
pultura, se acharam dentro della dois cor-
pos inteiros e incorruptos, um de homem,
outro de mulher.
“ O do homem estava vestido de cavalleiro,
com suas esporas douradas, alfange à cinta
e gorro encarnado.
O da mulher, estava vestido à antiga, com
botinas apantufadas, cercando-lhe a cabeça
uma fita de sêda azul, e as mãos calçadas
de luvas.
Todos os vestidos d'ambos, estavam opti-
mamente conservados, e até as linhas esta-
vam tão fortes, como se fossem feitos ha pou-
cos dias.
Cada um dos cadaveres estava coberto
com uma grande toalha, tambem perfeita-
mente conservada.
Toda a gente de Santarem correu a ver
esta maravilha, e até o doutor frei Isidoro
da Luz, lente de artes no seu mosteiro da
SS. Trindade, foi a 41 do dito mez, com to-
dos os seus frades, vêr aquelles dois corpos.
Nunca se soube a quem pertenciam, por
não existir inscripção que o declarasse.
Viu-se porem que eram da primeira no-
breza.
O vigario-geral, para evitar alguma pro-
fanação, mandou fechar a sepultura.
29.:— São Pedro— Na supprimida fregue-
zia d'Alcaçova.
Foi arrazada sem d'ella existir hoje o me-
nor vestígio.
SAN
979
30.2— Santissimo Milagre—Na mesma fre-
guezia.
Construida na propria casa da rua das
Esteiras, onde teve logar o milagre da hos-
tia.
Já fica descripta n'este artigo. Está des-
mantelada e sem culto.
cs
31.º — Nossa Senhora da Conceição —Na
mesma freguezia.
Foi arrazada, e a imagem da padroeira
estã hoje na egreja de Santa Íria.
32.º—Santos Apostolos—(Que depois foi a
egreja dos monges benedictinos.
É na mesma freguezia, e foi arrazada de-
pois de 1834, quando arrazaram o mos-
teiro.
33.:— São Miguel Archanjo—Na extincta
freguezia de S. João do Alfange.
Foi fundada por D. Affonso Henriques, e
já fica descripta n'este artigo.
D'esta ermida apenas hoje restam as rui-
nas.
34-*— São Pedro, apostolo—Na mesma fre-
guezia.
Era antiquissima, mas não se sabe quan-
do nem por quem fui fundada.
Os pescadores e mareantes é que tracta-
vam da sua conservação e aceio, e lhe faziam
a festa.
Já não existe.
35: Santa Eufemia—Na extincta fregue-
zia de S. Matheus.
Foi arrazada em 1834, sem que della fi-
casse o menor vestigio.
36.º— Santa Maria Magdalena—Templo -
sinho antiquissimo, construido junto ao mos-
teiro do Sitio (frades terceiros.)
Já em 1637 estava desmantelada, e os fra-
des obtiveram do prior e beneficiados de
Marvilla, que lhes dessem esta ermida; o que
foi confirmado pelo arcebispo de Lisboa, D.
97h SAN
Rodrigo da Cunha (que então residia em
Madrid) por despacho de 10 de março de
1639, e ficou assim encorporada no mos-
teiro.
Ao logar em que esta ermida foi construi-
da, se dava por isso a denominação de Si-
tio da Magdalena, e ao referido mosteiro, a
de'convento do Sitio.
A ermida foi demolida pelos frades (de-
pois de canonicamente profanada) e a ima-
gem da padroeira, que era de barro, de um
metro d'altura, e muito antiga, foi colloca-
da em um dos altares da egreja do mos-
teiro.
97.º— Nossa Senhora da Boa Hora — No
districto da extincta freguezia de S. Marti-
nho.
Fica 2 kilometros ao N. de Santarem.
Está dentro da quinta do Chafariz, que
foi dos Souzas Amaraes.
É pequena e de abobada de tijolo, com as
paredes interiores revestidas de azulejo, até
metade da sua altura.
É cercada de uma cimalha de cantaria la-
vrada.
Tem um só altar, de talha dourada, feito
pelos annos de 1700.
Esta, como é particular, ainda existe.
38.:-—Santo Idefonso—Na mesma fregue-
zia.
Era administrada pelos carpinteiros e pe-
dreiros de Santarem, por doação dos verea-
dores e homens bôos da villa, feita no 4.º de
abril de 1408.
Estava situada na rua da Judiaria, onde
viviam os israelitas, separados dos chris-
tãos.
Já não existe ha uns 200 annos, seme-
lhante rua, hoje reduzida a hortas e quin-
taes.
Principiava em frente das casas dos con:
des d'Obidos, e terminava junto às casas dos
commendadores de S. João.
No archivo da egreja de S. Martinho, exis-
tiu uma sentença, proferida contra os ju-
deus, condemnando-os a pagar á mesma
egreja, apnualmente, como reconhecimento,
SAN
um real de prata cada cabeça de casal, sen-
do homem, e meio real, sendo viuva. Este
reconhecimento, era por admittir os judeus a
residirem n'aquella rua.
Serviu alguns annos de egreja parochial
em quanto duraram as obras da reedifica-
ção da matriz.
A ermida, posto não ser muito ampla, ti-
nha ecapella-mór, com o seu altar, e doisla-
teraes. Mesmo quando não servia de matriz,
sempre n'ella se disse missa, nos domingos
e dias santificados.
Sobre a porta principal, e dentro de um
nicho, estava a imagem, de marmore, do pa-
drociro.
39.2—S. João Baptista—vulgo, S. João de
Alporão —no districto da mesma freguezia,
e apenas a uns 25 ou 30 metros da egreja
parochial.
Já vimos n'este artigo que a egreja de S.
João de Alporão é a mais antiga de Santa-
rem, pois foi templo romano.
É toda de boa cantaria lavrada, interior
e exteriormente, de uma só nave e aboba-
dada de tijolo. Unida à egreja, e à esquerda
de quem entra, construiram os romanos uma
torre circular, tambem de cantaria.
Como já disse, foi templo romano; depois,
mesquita mourisca; e, desde 11447, templo
christão. a
Foi profanado sacrilegamente em 1834, e
convertido em um reles theatro. Agora anda
em obras, para n'elle se estabelecer o museu
archeologico districtal. (Valha-nos isso !...)1
Foi commenda da ordem de Malta, que
1 A applicação dada ultimamente a este
legendario monumento, é a unica cousa com
geito que se tem feito em Santarem, desde
1834 até hoje.
Aqui, como em outras muitas partes, a
mania dominante, é destruir e deitar a ter-
ra, todos os monumentos que nos recorda-
vam as glorias dos nossos avós, aniquilando
com furor vandalico, estas testemunhas vi-
vas do que foram os portuguezes de outras
eras.
Em muitas das egrejas demolidas, nem os
ossos dos nossos maiores foram respeitados,
e a raça degenerada de hoje, sobre elles
tripudia com a mais escandalosa irreveren-
cia. As patas dos cavallos e de outros ani-
SAN
tinha aqui um capellão para dizer missa
quotidiana, com residencia em umas casas
contiguas à egreja.
No dia 24 de junho, fazia-se uma grande
festa a S. João Baptista, padroeiro d'esta
egreja, que era sagrada.
Na capella-mór havia uma arca de pedra
com esta inscripção :
AQUI ESTÃO OS OSSOS DE
DOM AFFONSO DE PORTUGAL. FILHO
DE EL-REI DOM AFFONSO HENRIQUES,
QUE, SENDO GRÃO-MESTRE DA RELIGIÃO
DE MALTA, RENUNCIOU A DIGNIDADE,
E FALLECEU N'ESTA VILLA, NO ANNO
DE MIL DUZENTOS E SETE, LOGRANDO
ESTA COMMENDA, QUE POSSUE
DON JOÃO DE SOUZA, O QUAL
MANDOU FAZER ESTE LETREIRO,
PARA MEMORIA D ESTE PRINCIPE,
NA ERA DE MIL SEISCENTOS E
CINCOENTA E QUATRO ANNOS.
Vide—1207 (1.º de março.)
Outros mais cavalleiros da ordem de Malta
foram aqui sepultados, e sobre seus ossos
venerandos se representavam depois de 1834,
comedias immoraes e farças indecentes.
40.2—S. Domingos, do Montiraz (ou Monte-
Eiraz) —no districto da mesma freguezia.
Foi junto desta ermida que os frades do-
minicos construiram o seu primeiro con-
vento, quando abandonaram o de Monte-
Junto.
maes, teem caleado e triturado esses vene-
randos restos; e sabe Deus quantos filhos e
netos dos mortos teem profanado as cinzas
de seus paes e avós.
Nem com este vandalismo melhoraram os
interesses materiaes da população, antes di-
minuiram em muito—castigo providencial
d'estes hunos do seculo xix; porque, a uni-
ca cousa que podia atrahir a Santarem os
archeologos e os amadores de antiguidades,
nacionaes e estrangeiros, eram os mona.
mentos venerandos que nos recordavam 0
dominio. de tantas gerações e povos diver-
po o que dava honra e proveito à ci-
ade.
SAN 979
Fica esta ermida a um Kilometro da ci-
dade, e está em ruinas.
Seminario patriarchal
Fica no districto da freguezia do Salva-
dor, na parte N. da povoação, em um dos
mais apraziveis sitios d'ella.
É o antigo collegio da Companhia de Je-
sus, e eis O seu principio :
Os jesuitas entraram pela primeira vez
em Santarem, à 7 de maio de 1621, trazen-
do por seu reitor, o padre Mathias de Sá.
Habitaram primeiramente em umas casas
contiguas á ermida de Santo Antão (demo-
lida muitos annos antes de 1834) que ficava
fóra dos muros, no caminho que vae para 0
sitio de S. Lazaro, e alh fizeram o seu hos-
picio.
(Vide os annos 4410, 1550, e 1621—e o
mosteiro de Santo Antão—.o ultimo dos mos-
teiros de Santarem )
Depois, mudaram-se para umas casas pro-
ximas à ermida de S. Sebastião (hoje trans-
formada em cocheira.)
Em ambos estes logares residiram por es-
paço de 30 annos.
O fundador d'esta grande congregação de
sabios e virtuosos padres, foi D. Duarte da
Costa, fidalgo da primeira nobreza d'este
reino, e armeiro-mór, o qual, depois de fa-
civilisador (melhor diria o nibilismo !) ani-
quilou e destruiu |
Nem os templos sagrados escaparam ao
furor theophobico dos demolidores! De sE-
TENTA EGREJAS E CAPELLAS QUe Os Nossos
avó: com tanta devoção fundaram, quantas
nos restam hoje? Bem poucas, e essas, quasi
todas em mau estado!
E a geração actual, ri e folga com estas
profanações e vandalismo !—E onde antes
de 1834 se ouviam os canticos dos levitas,
se ouve hoje o rinchar ou zurrar das bês-
tas! Onde se aspirava o odur do incenso
que se elevava aos ceus, se sente agora 0
cheiro da palha e de gazes deleterios.
Antigamente iamos alli orar ao Altissi-
| Hoje, debalde procurara o visitante essas
"| soberbas muralhas, alterosas torres, robus- | mo; hoje vamos allugar cavallos!
"tos castelos, fortes baluartes, cubéllos, bar- | Eis o que alli encontra o estrangeiro que
bacans e revelins; arcos, fossos, pontes le- | agora fôr em busca: de antiguidades.
vadiças, e o mais de que nos fallam as me- «Tempora mutantur, et nos mutamur in
morias escriptas: quasi tudo o camartello illil»
;
576 SAN
zer doação dos seus bens para se fundar O
collegio, entrou na mesma religião da Com-
panhia, em 4609, muito antes de se dar
principio ás obras.
Junto ás portas de Leiria, tinham os nos-
sos reis um antigo palacio, onde por varias
vezes residiram. 1
D. João IV deu aos jesuitas este palacio e
suas dependencias, para fundarem o seu
collegio.
Os padres, lhe fizeram as divisões conve-
ientes para 0 fim a que era destinado, e em
uma das suas maiores salas terreas, erigiram
a egreja, que ficou fronteira da de S. Fran-
cisco da provincia observante.
No dia que se disse a primeira missa
n'esta. egreja provisoria, que depois se de-
nominou egreja velha, houve uma pomposa
solemnidade, na qual prégou o grande pa-
dre Antonio Vieira, da mesma Companhia,
que se achava então em Santarem, por ter
vindo prégar nas exequias de Fernando Tel-
les da Silveira, primeiro conde de Unhão.
Era então reitor do collegio, o padre
Francisco Manso.
Passados alguns annos, se construiu a
egreja actual, sendo reitor, o padre Scbas-
tião de Novaes.
Foi um dia de grande festa, aquelle em
que para esta egreja se mudou, em solem-
nissima procissão, o Santissimo Sacramento,
que estava na provisoria.
É orago d'esta formosa e magestosa egre-
ja, Nossa Senhora da Conceição. (Adiante
tratarei mais detalhadamente d'este bello
templo, aqui só mencionarei as inscripções
de algumas das sepulturas que n'elle se en-
contram.)
Junto ao altar de Nossa Senhora do Soce-
corro, em uma campa raza, se lê este epi-
taphio :
É 4a
AQUI N'ESTA SEPULTURA ESTÃO
OS OSSOS DE JOÃO DE ANDRADE
PESSOA, E DE MARIA DA FON-
CECA, SUA MULHER E DO DOUTOR,
1 Por isso, ao actual Largo do Seminario,
se chamava antes da fundação d'este colle-
gio, Terreiro do Paço.
SAN
MANUEL DE ANDRADE PESSOA,
SEU FILHO, INSTITUIDOR E DOTADOR
D'ESTA CAPELLA.
Proximo aos degraus do altar de Nossa
Senhora da Gloria :
Air
AQUI JAZEM OS OSSOS DE JERO-
NYMA DE SOUZA DE MORAES, E
DE SUA IRMÃA, MARIANNA
DE SOUZA GOUVEIA, INSTITUIDORAS
E DOTADORAS D ESTA CAPELLA, FILHAS
DE FRANCISCO DE SOUZA PINTO,
CAVALLEIRO FIDALGO DA CASA DE SUA
MAGESTADE.
Junto à capella de Santo Estanislau :
E
AQUI ESTA SEPULTADO JOÃO HENRIQUES
DE S. PAYO ROSA, NATURAL DE PENA-
COVA, INSTITUIDOR E DOTADOR D ESTA
CAPELLA. PEDE SE LEMBREM DAS
ALMAS DO PRUGATORIO.
Na capella-mór, ha trez sepulturas com
inscripções.
ha
AQUI JAZ O REVERENDO PADRE
DUARTE DA COSTA, PA COMPA-
NHIA, FUNDADOR D ESTE COLLEGIO,
CUJOS OSSOS FORAM TRASLADADOS
PARA ESTE LOGAR, ANNO 1698.
ba
AQUI JAZ DONA LEONOR DE SOUZA,
MÃE DO FUNDADOR D ESTE COLLEGIO.
6a
AQUI JAZEM FERNANDO ALVARES
DE SOUZA E DONA BRITES DE SOUZA,
AVÓS DO FUNDADOR D ESTE COLLEGIO.
Este collegio, era uma especie de acade-
mia, e n'elle se ensinava, não só aos estu-
dantes ecclesiasticos, mas tambem aos secu-
lares, e gratuitamente, grammatica latina,
philosophia, logica, rhetorica, theologia, his-
toria ecclesiastica e outras disciplinas.
Os mestres eram escrupulosamente esco-
lhidos d'entre os padres mais exemplares é
instruidos da ordem, por 1sso, muitos filhos
de Santarem e de outras terras, aqui estu-
DAN
daram, vindo a ser varões de grandes vir-
tudes e saber.
Grandes eram os beneficios para 0 po-
vo, pela educação que seus filhos rece-
biam neste collegio, d'onde sahiam homens
eminentes em varios ramos de litteratura, e
o mesmo acontecia em todos os collegios da
Companhia de Jesus, espalhados por todo 0
reino e conquistas, mas nada lhe valeu para
escaparem à sanha implacavel do troculento
marquez do Pombal.
Este grande estadista, invejoso do pode-
rio e riquezas dos jesuitas, e da sua grande
influencia, fingiu acreditar varias calumnias,
e a 19 de janeiro de 1759 lhes confiscou to-
dos os seus bens, supprimindo a ordem, ex-
pulsando do reino muitos padres estrangei-
ros, prendendo e fazendo morrer em medo-
nhos carceres, muitas dezenas de jesuitas
portuguezes, cujo unico crime era serem
uteis à patria.
O decreto de 19 de janeiro
de 1759, foi o primeiro golpe
dado nas ordens religiosas em
Portugal, e o precursor do
ominoso decreto de 28 de maio
de 1834, que as extinguiu
completamente, e lhes roubou
quanto tinham, deixando os
frades a morrer de fome (os
que escaparam ao punhal e ao
bacamarte das alcateias de ca-
nibaes que então percorriam
Portugal em ampla liberda-
de, assassinando, roubando e
incendiando tudo impune-
mente.)
Vinte e um annos esteve o collegio dos je-
suitas de Santarem deshabitado, até que
n'elle se estabeleceu o seminario patriar-
chal, cuja historia é como se segue.
Em conformidade com o disposto no Sa-
grado Concilio de Trento, estabelecêra o
cardeal D. Henrique (depois rei) sendo en-
tão arcebispo de Lisboa, o primeiro semina-
rio ecelesiastico, no sitio do castello de Lis-
boa, junto do mosteiro de Santo Eloy, con-
signando-lhe—rendas, em 30 de novembro
SAN 9717
de 1566, com auxilio e ajuda da rainha D.
Catharina, viuva de D. João III.
No anno de 1741 achava-se o seminario
ou collegio, como então se chamava, em
grande decadencia pela mã administração
das suas rendas e ponça regularidade na
disciplina, e estudos; pelo que o magnani-
mo rei D. João V entendeu abolil-o de todo,
e fundar outro de novo, com o titulo de
Collegio do Patriarchado.
Achava-se então já concluida a grande
obra da fundação da santa egreja patriar-
chal (era o anno de 1740) approvada pela
constituição do papa Bento XIV, passada
em Roma aos 13 dias do mez de setembro
do mesmo anno de 1740, que começa—sSal-
vatori nostri.
Com esta nova fundação da egreja patriar-
chal, ficou supprimido o cabido da antiga
Sé, com suas dignidades, canonicatos e quar-
tenarios, cujas rendas, com os rendimentos
que ainda existiam do antigo collegio, ap-
plicou para o patrimonio do que agora fun-
dava, destinando para sua accommodação o
antigo. palacio dos arcebispos, junto à mes-
ma egreja patricrchal.
Querendo ainda augmentar-lhe mais o seu
patrimonio, consignou-lhe tambem, in perpe-
tuum, os rendimentos e fructos de algumas
egrejas “de fundação do padroado real, no
patriarchado, no bispado do Porto, arcebis-
pado de Braga, e bispado de Coimbra.
Em virtude das difficuldades que se de-
ram para à compensação dos antigos cone-
gos, não principiou logo a funecionar este
novo collegio, e para que se não distraissem
as rendas que lhe foram destinadas, foi no-
meado um dos ministros da curia patriar-
chal para administrar estes rendimentos,
guardando-os em deposito, até que definiti-
vamente se abrisse o collegio.
N'este meio tempo'sobreveio ao magna-
nimo monarcha uma penosa enfermidade,
que por espaço de 8 annos lhe paralisou toda
a sua actividade e o levou à sepultura, em
31 de julho de 1750, sem que tivesse o gosto
de vêr definitivamente em exercicio o col-
legio ecclesiastico, que com tanto empenho
tinha fundado e enriquecido.
578 SAN
Com o terremoto do 1.º de novembro, e
incendio que se lhe seguiu, o edificio que
que D. João Y destinára para o novo colle:
gio, e mesmo o antigo edificio de Santa Ca-
tharina, ficaram completamente destruidos;
pelo que o reitor e collegiaes, requereram ao
rei, D. José I, que succedera a D. João V, os
provêsse de remedio, destinando-lhes outro
edificio, o que D. José attendeu, designan-
do lhes o collegio dos irlandezes, que então
se achava vago, situado na calçada de S.
Chrispim.
Pouco desenvolvimento teve o seminario
ou collegio, n'este edificio, são só pela sua
pouca capacidade, mas principalmente pela
falta de meios pecuniarios, por isso que ain-
da lhe não tinham sido entregues as rendas
com que D. João Vo dotára, as quaes D.
José I, por uma carta regia, de 17 de feve-
reiro d'aquelle anno, datada da Villa de Sal-
vaterra de Magos, applicou para a nova re-
edificação da basilica de Santa Maria Maior,
que fôra destruida pelo terremoto.
No anno de 1779 pretenderam de novo os
padres irlandezes entrar para O seu antigo
collegio de S. Patricio, o que a rainha D.
Maria I lhes permittiu, ficando assim o col-
legio sem edificio onde se podesse de novo
instalar.
Foi então que o cardeal patriarcha eleito
de Lisboa, de comum accordo com todo o
clero secular da sua diocese, se dirigiu à
rainha D. Maria I, pedindo o edificio que
fôra dos jesuitas, na villa de Santarem, afim
de ser mudado para alli o seminario.
Entre outros considerandos que apresen-
ta aqueila petição, ha os seguintes :
«Que, começando-se a pôr em pratica o
que estava determinado, se estabeleceu com
justa administração um cofre, onde se arre-
cadassem o producto e rendas destinadas
para o novo seminario se fundar, e, funda-
do, poder sustentar-se. Tendo passado an-
nos, e mettidas no mesmo cofre grandes
porções, houve no reinado do senhor D. Jo-:
sé I, augusto pae de vossa magestade, mo-
tivos justos, como o mesmo patriarcha e
clero se persuadem, que obrigaram a que
em diversos tempos, por reaes ordens do
mesmo senhor, se tirassem setenta e sete
9
SAN
contos tresentos e treze mil e sessenta e oito
réis, o que consta por decretos e avisos que
páram no cartorio da executoria e adminis-
tração das rendas do dito seminario ; nem
até ao presente foi satisfeita ao cofre, nem
em todo, nem em parte esta divida.
«Não o permittiriam assim ao mesmo so-
berano os gravissimos negocios e avultadis-
simas despezas, a que foi obrigado em todo
o seu reinado, como tambem a não pôr em
execução o justissimo projecto do semina-
rio, o qual era muito conforme a outros
muitos, grandes e acertadissimos, que em-
prehendeu e fez executar : antes parece que
Deus reservou para as altas virtudes de vos-
sa magestade a gloria d'esta obra utilissima,
como o fazem vêr a clemencia e bondade,
com que tem attendido o clero e as ordens
regulares.»
Aquela augusta soberana, cheia de reli-
gião, e manifesto interesse pela egreja e seus
ministros, não podia deixar de attender a
"| justa petição do prelado da diocese; e em
carta regia, de 20 de janeiro de 1780, data-
da da villa de Salvaterra de Magos, faz pura,
perpetua e irrevogavel doação, ao cardeal
patriarcha de Lisboa e seus successores do
edificio e egreja, da invocação de Nossa Se-
nhora da Conceição, na villa de Santarem,
para n'elle se instalar definitiva e perpetua-,
mente o collegio patriarchal.
Senhor d'este magestoso edificio, princi-
piou logo o seminario patriarchal a tomar
um progressivo desenvolvimento, e augmen-
to de creditos, em seus reitores, professores
e seminaristas, durante todo o periodo de
tempo decorrido até aos acontecimentos po-
liticos, bem conhecidos entre nós, e que al-
teraram sensivelmente a ordem publica des-
de 1828 a 1834, e muito contribuiram para
o enfraquecimento da ordem e disciplina
estabelecida até áquelle tempo.
Em 1834, quando em maio entrou em San-
tarem o exercito liberal, ficou o edificio de
todo abandonado, tendo de se retirarem
apressadamente, reitor, professores e todo o
mais pessoal.
Nos primeiros trez dias foi um perfeito
vandalismo, principalmente na egreja e li-
vraria; dando-se n'aquella roubos de ima-
SAN
gens e algumas alfaias de valor, e até os si-
nos foram vendidos para a Ilha Terceira; e
n'esta, destruindo-se e roubando-se obras
importantes.
Iria mais longe este vandalismo, se não
houvesse a necessidade de estabelecer no
edificio um hospital militar para receber os
doentes da colera, que estava fazêndo gran-
de numero de victimas.
Terminada aquella epidemia, cessou o hos-
pital e foram estabelecidas no edifício todas
as repartições do governo civil e adminis-
tração, que alli se conservaram até 1853,
anno em que foi restaurado o seminario.
Coube esta gloria ao cardeal patriarcha
D. Guilherme, que, a muito custo, superan-
do dificuldades, que só aquella tenaz von-
tade e fortissima intelligencia poderia ven-
cer, não só para a acquisição do edificio,
mas ainda, e principalmente, para adquirir
os meios de costeamento e sustentação do
seminario.
Pela abolição dos dizimos, fonte principal
da receita do seminario, ficou-lhe apenas 0
diminuto patrimonio em fóros, que avultava
então por cento e tantos mil réis.
Tendo apparecido a carta de lei de 16 de
junho de 1848, e o decreto de 27 de dezem-
bro de 14849, que mandavam supprimir de-
finitivamente todas as collegiadas do reino,
e incorporar os seus rendimentos no patri-
monio dos seminarios, foi este o principal
meio de que aquelle activo e sabio prelado
se serviu para dotar o seu seminario.
Obteve tambem do governo que lhe fos-
sem cedidos os rendimentos do collegio para
clerigos pobres, que havia em Lisboa.
Todas estas fontes de receita, produziam
em 1870-148 a 19 contos de réis; hoje, pela
bôa e efficacissima fiscalisação empregada,
sobem à cifra de 26 a 27 contos de réis,
pouco mais ou menos.
O plano actual dos estudos ecclesiasticos
n'este seminario é o seguinte :
Curso triennal obrigatorio
4.º anno—Theologia dogmatica geral, e
historia sagrada e ecclesiastica.
2.º anno—Theologia dogmatica especial,
direito natural e theologia moral.
SAN 9179
3.º anno—Continuação da theologia mo-
ral, theologia sacramental e direito eccle-
siastico.
Curso superior facultativo
4.º anno—pDireito ecclesiastico publico e
theologia pastoral.
9.º anno—(Continuação da historia eccle-
siastica e hermeneutica sagrada.
Consta o seminario de trez classes de
alumnos : ordinandos pensionistas, que pa-
gam a mensalidade de 7:200 réis; collegiaes
seculares ou porcionistas, que pagam 103000
réis, e ordinandos gratuitos. D'estes sobe o
numero de 40 a 50.
Ha tambem alumnos subsidiados pelo co-
fre da Bulla.
Observa-se n'este seminario uma rigoro-
sa, mas prudente, disciplina, principalmente
depois que em 1875 se separaram em abso-
luto os seminaristas da frequencia das au-
las do Lyceu, estabelecendo-se estas dentro
do seminario com professores proprios, com
os seus respectivos ordenados, pagos pelo
cofre do seminario.
Muito tem tambem concorrido para a ma-
nifesta e bem patente moralidade dos alum-
nos do seminario patriarchal, a pratica e bôa
distribuição dos actos religiosos alli estabe-
lacidos.
O edifício é vasto e espaçoso ; está collo-
cado no meio das antigas muralhas, que de-
fendiam a villa de Santarem, na parte do
norte, junto à porta chamada de Leiria.
Contem dois corredores principaes: o 1.º,
e o mais antigo, chamado corredor nobre, é
hoje de Nossa Senhora da Conceição, é de
uma magnifica elegancia e apparencia; mede
em extensão 897,70, e de largura 4",40, e
de altura a todo o pé direito 87,30.
Corre de nascente a poente, e em cada
um dos extremos tem uma Jarga janella
conventual (segundo a tradição foi da ja-
nella do nascente, que deita para o largo
que lhe fica fronteiro, que el-rei D. Pedro I
esteve presenceando o terrivel castigo que
mandou executar em Pedro Coelho e Alvaro
Gonçalves, assassinos de D. Ignez de Cas-
980 SAN
tro,e lhes mordera depois os corações. —Vide
1357—18 de janeiro.) para o lado da frente
do N. tem 15 espaçosos quartos, divididos
em trez grupos, por duas largas janellas con-
ventuaes; do lado fronteiro ha oito quartos
eguaes.
O segundo corredor, que fica para o lado
do sul, data duma época mais moderna (foi
feito em 1796, sendo reitor do seminario, o
dr. Bento José de Souza Farinha) não tem a
mesma magestade e belleza que o primeiro;
é, porém, dividido em dois andares, que
contem 27 quartos.
Ha outros corredores internos, que com-
municam com estes dois principaes, mas
sem importancia artistica, com um grande
numero de quartos que servem de habita-
ções.
Nos pavimentos superiores contem todo o
edifício 142 casas de habitação, e salas para
differentes misteres.
A casa da livraria é grande e bem dis-
posta. Tem de extensão 17",0, de largura
am 60, e de altura 5740; é ventilada por
trez grandes janellas, que fazem symetria
com as da fachada principal do edificio do
lado do nascente.
Esta livraria contém 6:837 volumes, per-
tencentes e distribuidos pelas seguintes
obras:
Primeiro corpo de estantes
k Vol.
Theologia....... GO aire em ein Soo a O o 87h
SERA ARIOR eo col sb Mb 153
DN RIOL OLA SA co qse Pa DO pioa » sióro CA DO
COMMENMATIOS. sind nara cima ria RJ/15)
CONSUIDIÇÕES . isso TD APS Aa 18
COEOICAS É bro snif sn E PR 68
DIBCIAMANOS É. can rosana e mada ts 102
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Direito ecelesiastico.. es... cvs 380
Historia ecclesiastica. :. ce... cu... st coa
Historia Brolana,.-. cesso. sis PRN 10)
MORA, SAORAGA.. casu, nn bicoss 3
Mscripuira Sagrada... .s.csccerirres h4
DUNENIA.. snictocon eim ca san Roo 79
DANA oe 2920
MERO sms o ie, iii PROD
Mysticd. car cco. ev AR Quis aro vaca RA O
Segue 3:230
SAN
Transporte 3:230
Philosophia....... Ra NO ANA eae 410
DALOIODIA. sc sm UR E Cn.» 292
Segundo corpo (superior)
Obras truncadas e duplicadas....... 2:900
Diario de Lisboa e da camara dos de-
DESÃOS Sn br o ne o ble a ARA Solos 72
Revistas litterarias, scientificas e theo-
logicas..... Pompeu aL ALHO do bih al pio 233
RO E S D 6:837
Todas as officinas do pavimento inferior,
cosinha, refeitorio, e dispensas, são espaço-
sas e regulares.
A egreja é um bello e magestoso templo.
Está collocado entre os dois corredores prin-
cipaes; a fachada da frente fica entre as duas
faces do edificio, em linha recta e symetrica
para o lado do nascente, deitando para o
largo, que em outro tempo se chamava Ter-
reiro do Paço (no tempo em que o edifício era
paço dos reis) e hoje se chama—Largo do
Seminario.
O conjunto destas trez partes constituem
a fachada principal do edificio, que é, no
seu todo harmonico, elegante e magestoso.
A parte do centro, pertencente à egreja,
contém cinco largas janellas para a luz do
templo, ficando duas de cada lado, sobran-
ceiras uma à outra, e a quinta no centro ;
ao lado de cada uma das quatro janellas fica
um nicho de boa cantaria, contendo o pri-
meiro a imagem de Santo Ignacio de Loyo-
la; o segundo, a de S. Francisco Xavier; o
terceiro, a de S. Francisco de Borgia, e o
quarto a de Santo Estanislau, em corpo na-
tural.
Partindo da cimalha real, guarnecida de
quartellas a rematar a fachada, ha um ou-
tro nicho com maiores-proporções, onde se
acha collocada uma devota imagem de Nossa
Senhora da Conceição, padroeira do antigo
collegio e hoje do seminario.
Esta imagem, ainda que construida de
barro, é de excellente esculptura, e mede
27 20 de altura.
Toda a fachada d'esta egreja é de boa can-
taria, e contém lavores de troncos e ramos
em meio relevo.
SAN
A egreja no seu interior é de uma só na-
ve; tem de extensão 407,0, e de largura
157,86.
A capella-mór é de abobada de tijolo com
ricas pinturas a fresco. O arco eruzeiro é
de bellissimo marmore, imbutido com flo- |
rões lizos, de differentes côres.
O altar-mór, a tribuna, e todas as partes
de que se compõem, são de rico mosaico,
artistica, e elegantemente trabalhado; neste
genero, (exceptuando o altar da capella de
S. Roque, em Lisboa) não ha outra em Por-
tugal.
No corpo da egreja ha quatro altares por
lado: os dois primeiros de cada lado são
de talha antiga dourada e, dizem os enten-
dedores, que n'este genero são de incontes-
tavel merecimento artistico. O terceiro altar,
do lado da Epistola, é de muito valor e me-
recimento, não só pela materia prima, de
que é construído, mas ainda pela bellissima
esculptura e boa divisão de todas as partes
de que se compõe; a base é de finissimo
marmore preto, encimado por uma larga fa-
cha de marmore rosado, atá à mesa; a ban-
queta é tambem de marmore rosado, e em
cima d'esta, assenta um tumulo de Nossa Se-
nhora da Boa Morte, guarnecido de grinal-
das de flores, e quatro anjos que o susten-
tam; toda esta peça, de excellente esculptura,
é de finissimo marmore branco, e no centro
ha uma devota imagem de Nossa Senhora,
resguardada por um vidro a todo o compri-
mento ; segue-se para cima o retabulo, que
representa a meio relevo a cidade de Jeru-
salem, e no alto, tambem a meio relevo, a
imagem de Nussa Senhora, cercada de an-
jos, a subir para o ceu; toda esta parte e
todas as mais, de que se compõe este ma-
gnifico altar, como columnas, capiteis, e fi-
guras de anjos, que os embellezam, são de
marmore branco.
Os trez restantes altares são no gosto mo-
derno; mas sem merecimento artistico no-
tavel.
O tecto da egreja é forrado de madeira,
a esteira, mas com uma admiravel pintura:
aos quatro cantos veem-se primorosamente
debuxadas e bem coloridas, as quatro par-
tes do mundo em figuras allegoricas ; e no
VOLUME VII “
SAN 581
centro, em tarja apartada, a figura da Sobe-
rana Rainha dos Anjos, subindo para o ceu,
acompanhada das gerarchias celestes, e de
todos os mysteriosos attributos que lhes per-
tencem.
Esta pintura, que data de mais de 230 an-
nos, acha-se tão fresca e viva, em suas co-
res e desenhos, como se tivesse 20 ou 30
annos.
Correspondentes aos oito altares do corpo
da egreja ha ao lado de cima oito tribunas,
commugicadas entre si por um largo corre-
dor no centro da parede; na capella-mór ha
egualmente quatro tribunas, duas de cada
lado.
Todas estas tribunas dão grande elegan-
cia e magestade ao templo.
Reitores do seminario patriarchal
Nos documentos existentes no archivo
d'este estabelecimento, só depois que o colle-
gio ou seminario voltou a estabelecer-se por
segunda vez no edificio de Santa Catharina,
em Lisboa, é que se encontra designado o
nome do reitor, que era o padre Lourenço
Alexandre d'Albuquerque. Foi este mesmo
que acompanhou o seminario, quando defi-
nitivamente foi transferido para o collegio
dos jesuitas, em Santarem, onde hoje se acha;
mas veio na qualidade de vice-reitor, e não
de reitor, cuja alteração parece poder expli-
car-se pelas maiores proporções que o semi-
nario devia attingir na sua mudança para
um edificio mais vasto, em numero de alu-
mnos, desenvolvimento de estudos, escolha
de professores mais graduados, e de maior
importancia litteraria; reclamando todas es-
tas circumstancias um reitor de posição cor-
respondente, em litteratura 6 gerarchia.
A nomeação, porém, de reitor, demorou-
se em consequencia do fallecimento do car-
deal patriarcha, D. Fernando de Souza, con-
tinuando por isso o vice-reitor a adminis-
trar o seminario, até que em 1726 foi no-
meado e tomou posse, o cardeal patriarcha
D. José Francisco Miguel Antonio de Men-
donça, da casa dos condes de Val de Reis.
Este prelado, aposentando o vice-reitor,
Lourenço Alexandre de Albuquerque, no-
37
582 SAN
meou reitor, o conego da basilica de Santa
Maria, José Caetano da Mesquita e Quadros,
por carta de 4 de janeiro de 1790; nomean-
do por essa mesma occasião, para vice-rei-
tor, o dr. Bento José de Souza Farinha.
Fallecendo o reitor José Caetano de Mes-
quita e Quadros, sendo então principe re-
gente, D. João (que depois foi rei, 6.º do
nome) passou a reitor, com poderes de re-
formador, o vice-reitor Bento José de Souza
Farinha.
Este grande homem fez mui potaveis ser-
viços ao seminario, tanto na parte moral, e
litteraria, como ainda na parte material.
Pela invasão dos francezes, commandada
pelo general Junot, em 1807, retirou-se todo
o pessoal do seminario para a quinta da Mi-
tra, em Marvila, junto ao Poço do Bispo, e
na volia para Santarem, sendo então- pa-
triarcha D. Antonio de S. José de Castro, e
achando-se inhabilitado por falta de forças
o reitor Farinha, veio encarregado de toda
a administração do seminario, na qualidade
de reitor, o padre João Farto Franco, cuja
administração durou até 1834, em que de
todo se fechou o seminario.
Na restauração de 1853 nomeou o cardeal
patriarcha para reitor o conego Joaguim
Moreira Pinto,! e para vice-reitor, frei Ma-
1 Era natural de Guimarães; foram seus
paes, Luiz Theodoro Pinto de Carvalho e Ma-
ria Magdalena Moreira. Nasceu no dia 4.º de
novembro de 4807, e foi baptisado na egreja
de Nossa Senhora da Oliveira d'aquella villa.
Tomou o habito da ordem dos Prégadores
no convento de S. Domingos de Bemfica, de
Lisboa, a 21 de fevereiro de 1827. Ordenou-
se ds presbytero, em Coimbra, a 28 de maio
de 18314. Concluiu a sua formatura em theo-
logia, pela Universidade de Coimbra em 7
de junho de 1848.
Por provisão do cardeal patriarcha D.
Guilhreme, datada de 26 de julho de 1850,
foi nomeado seu secretario de gabinete. Em
42 de agosto de 1851, foi nomeado dezem-
bargador e juiz effectivo da relação e eúria
patriarchal; e em 1861 para juiz de secção
de recursos pontificios. Em 1853 foi apresen-
tado em um canonicato da Sé patriarchal ;
em 12 de setembro d'esse anno, foi nomea-
do reitor do seminario; e por decreto do
governo, datado de 14 de novembro do dito
anno, foi egualmente nomeado reitor do ly-
SAN
noel de Santa Rita Barros. ! Importantes
serviços prestou ao seminario o reitor Mo-
reira Pinto, coadjuvando o sabio e activis-
simo prelado, na grande e difficil empresa
da restauração do seminario.
Pelo prematuro fallecimento de D. Gui-
lherme, succedeu no patriarchado D. Manoel
Bento Rodrigues, e como Moreira Pinto, pe-
los seus padecimentos physicos, não podesse
continuar á testa da administração do semi-
nario, pediu a sua exoneração, e succedeu-
lhe o padre Joaquim de Oliveira Leitão, ?
nomeado reitor interino por provisão de 27
de janeiro de 1861. Este ecclesiastico, muito
respeitavel pelas suas virtudes e saber, acha -
va-se já em uma edade muito avançada, e
gasto de forças physícas, indispensaveis para
tão vasta e complicada administração, pelo
que a disciplina, e mesmo a administração
da fazenda, sofreram alguma cousa durante
a sua gerencia.
Pelo fallecimento do cardeal patriarcha
D. Manuel Bento, em 25 de setembro de 1869,
foi eleito vigario capitular e governador do
patriarchado, o reverendo conego, doutor
ceu e commissario dos estudos, no districto
de Santarem.
Era commendador da ordem de Christo,
por decreto de 7 de julho de 1864.
Pelo fallecimento do cardeal patriarcha
D. Manuel 1, foi nomeado—Séde Vacante—
Ecónomo da mitra, e testamenteiro do pre-
lado fallecido.
1 Era natural de Lisboa ; pertenceu á or-
dem dos terceiros professos de S. Francisco,
no convento de Jesus de Lisboa. Era paro-
cho collado da freguezia do Pinheiro Gran-
de. Foi nomeado e confirmado bispo d'An-
gola, e alli falleceu seis mezes depois de to-
mar posse.
2 Era presbytero da extincta congregação
oratoriana, da cidade de Braga. Alli tinha
exercido o magisterio de humanidades e de
theologia moral: Por conhecimento que d'elle
tinha-o patriarcha, D. Manuel Bento Rodri-
gues, mandou-o vir de França, onde então se
achava, enomeou-o professor de francez para
o seminario, cujos estudos de humanidades
e linguas se professavam então no lyceu.
Muis tarde foi proposto por aquelle pre-
lado para uma cadeira de conego, da insigne
collegiada de Santa Maria d'Alcáçova, onde
foi provido. É natural da freguezia de Santa
Maria de Ferreiró, comarca de Villa do Gon-
de, arcebispado de Braga.
SAN
Americo Ferreira dos Santos Silva (hoje
cardeal bispo do Porto) que, respeitando as
virtudes e saber do reitor interino, Oliveira
Leitão, entendeu que pela sua muita edade,
não podia, nem devia continuar por mais
tempo na administração do seminario, e (a
seu contento) o exonerou, por provisão de
18 de outubro de 1869; e, n'esta mesma
data, nomeou por outra provisão para rei-
tor do seminario, o doutor e conego Augus-
to Henriques, 1! que já desde alguns annos
era professor de sciencias ecclesiasticas do
seminario.
Em 20 de junho de 1871 tomou posse do
governo do patriarchado, o sr. cardeal pa-
triarcha D. Ignacio do Nascimento de Mo-
raes Cardoso, que, pela graça de Deus ainda
governa a egreja lisbonense, e pedindo por
essa occasião o reitor, dr. Augusto, a sua
exoneração, dignou-se o prelado nomear
para reitor o sr. dr. Manoel Xavier Pinto Ho-
mem, que ainda hoje se acha á testa d'aquel-
le importante estabelecimento.
O reverendo dr. Manuel Xavier
Pinto Homem
Nasceu a 25 de março de 1815, na fre-
guezia de S. Thiago, concelho e comarca de
Armamar, districto de Viseu e bispado de
Lamego.
Foram seus paes, Francisco Xavier Pinto
Homem, e D. Rosa Claudia.
Em maio de 1830 entrou na ordem de S.
Francisco, provincia reformada da Concei-
ção; professou solemnemente em junho de
1831; e sahiu para o seculo em virtude do
decreto, que em 1834 extinguiu as ordens
religiosas.
Ordenou-se de presbytero em dezembro
de 1839; exerceu o ministerio parochial por
1 E natural da freguezia de S. Miguel de
Poiares, districto e bispado de Coinabra. Dou-
torou-se na faculdade de theologia em Coim-
bra, no anno de 1855. Chamado pelo prelado
D. Guilherme, para professor do seminario,
pouco depois foi nomeado conego da insigne
e real collegiada de Santa Maria d'Alcáçova,
em Santarem, e mais*tarde apresentado em
um canonicato da Sé Patriarchal, com o onus
das sciencias ecelesiasticas no seminario.
SAN 585
espaço de sete annos, no bispado de Lame-
go. Em abril de 1846 foi para Coimbra com
o fim de frequentar as aulas de theologia da
universidade, e matriculou-se no primeiro
anno theologico em outubro de 1848.
Sendo ainda estudante do segundo anno,
fundou e regeu por espaço de quatro an-
nos um collegio de humanidades, no edificio,
que fôra convento dos frades de S. Fran-
cisco, junto à ponte de Coimbra. Augmen-
tando a concorrencia dos alumnos, e não ten-
“do aquelle edifício os commodos necessarios,
conseguiu do governo, o arrendamento do
magestoso e vasto edificio, que fóra dos fra-
des benedictinos, junto ao jardim botanico,
e para alli transferiu o seu collegio, onde
funccionou por espaço de 18 annos.
Em 41854 concluiu a sua formatura de
bacharel em theologia; e em 13 de julho de
1856 tomou o grau de doutor na mesma fa-
culdade.
Em setembro de 1871 foi convidado pelo
sr. cardeal patriarcha de Lisboa, D. Ignacio I,
para reitor do seu seminario patriarchal; to-
mou posse no 4.º de outubro d'aquelle anno.
Por decreto patriarchal, de 214 de fevereiro de
1872, dignou-se o mesmo prelado nomeal-o
desembargador e juiz effectivo da relação e
curia patriarchal.
Por portaria regia de 5 de março de 1872
foi confirmado pelo governo no seu logar de
reitor.
É o sr. doutor Pinto Homem, um dos mais
ilustrados e exemplares sacerdotes do pa-
triarchado, e, a todos os respeitos, dignissimo
da sua alta missão.
Para se saber o grau de aperfeiçoamento
a que o sr. doutor Pinto Homem tem ele
vado este estabelecimento scientifico, trans-
crevo d'A Ordem n.º 74, de 19 de julho deste
anno de 1879, o que se segue :
O documento que abaixo transcrevemos,
enche-nos do maior contentamento.
Ha em Portugal, n'este reino tão trabalha-
do pela revolução, um seminario que sabe
comprehender a sua missão catholica, edu=
cando com desvelo e cuidado, nunca assaz
elogiados, os jovens levitas do Senhor, en=
584 SAN | - SAN
carrggádos de ajudar a conduzir a arca da ' Quanto não são para admirar-se, a com-
Alliança atravez d'este deserto, onde sopra , postura, gravidade, e ordem com que cada
o simoum mortifero que tudo tende a des- | | alumno caminha para o côro da Egreja, e
truir: fé, costumes e tradições. | alli oceupa o seu logar |
Esse Seminario é o do Patriarchado, es- | Desejavamos que se tivesse entrado n'a-
tabelecido em Santarem. quella casa religiosa no anniversario da co-
Contam-se maravilhas da sua organisa- | roação de S. Santidade, Leão XIII, ou no da
ção. morte de Pio IX, de santa memoria; só en-
Ali se att distribuidas d'um modo | tão se ficaria fazendo uma justa ideia dos
convenientissimo as horas d'exercicios reli- | sentimentos que animam o pessoal d'aquel-
giosos, as de trabalho scientifico, e as de re- | le estabelecimento de piedade em relação à
creio; convenientissimo, dizemos, porque se | Santa Sé.
alliam em fraternal amplexo, a fé, a sciencia No primeiro caso presenciar-se-hiam ale-
e a hygiene. gria, jubilo e enthusiasmo; no segundo, tris-
A educação de um Seminario deve ser, | teza, abatimento e lagrimas.
como a do de Santarem, adaptada ao fim re- Dôr durante as adversidades da Egreja,
ligioso, a que se destina, tanto em relação | ou ao recordal-as, e satisfação nos seus
à piedade, como à instrucção, sem desco- | acontecimentos prosperos, ou ao commemo-
nhecer os passa-tempos e recreios necessa- | ral-os, eis o que deve fazer o bom filho da
rios à saude e robustez do corpo, assim co- | Casta Esposa do Divino Cordeiro, eis o que
mo ao elemento sensivel da nossa natu- | deve fazer o bom cathelico, e o Padre fiel
reza. aos seus juramentos; eis o que fez tambem
As festividades que se celebram na sua |! o Seminario de Santarem.
Egreja, uma das mais formosas que conhe- Não são indifferentes para tão catholicos
cemos, e que attesta a ignorancia de seus | alumnos, e para superiores e professores
fundadores, elevam a alma do crente pelos | tão venerandos e submissos, as approvações
sentimentos de fervor que n'ella se experi- | do Santo Padre.
mentam e sentem. É por isso que ao manifestar ao actual
As harmonias do orgão, casadas à suavi- | Pontifice a sua alegria por occasião do an-
dade, frescura e gravidade das vozes de | niversario da sua elevação ao Pontificado
mancebos, em cujas almas candidas não des- | n'uma bella felicitação que lhe dirigiram,
pontaram ainda pensamentos peccaminosos, | exprimiram tambem à tristeza profunda que
e as de ecelesiasticos venerandos que tra- | sentiam por vêr a Santa Sé reduzida ás mais
duzem em accentos, repassados do mais ter- | penosas condições, após a occupação roma-
no sentimentalismo, os pensamentos graves | na, pelo governo do rei Victor Manuel.
e serios que lhe vão na mente; um côro co- E fizeram ainda mais, como bons filhos:
mo entre nós se não encontrará, hoje em | apezar dos seus fracos recursos, entre si se
dia, outro: o aceio, a limpeza e a boa ordem | collectaram para darem ao Summo Hierar-
que reinam em tudo e em toda a parte; são | cha da Egreja uma prova do seu amor fi-
para admirar nos tempos desgraçados que | lial, remettendo conjunetamente com a feli-
atravessamos, em -que os Seminarios nem | citação 1278000 réis para o Dinheiro de 5.
sempre são o que deveram ser; tal é a sua | Pedro.
desorganisação, e desvio de seus legitimos | Uma e outra cousa agradeceu o S. Pa-
fins !. dre, Leão XIII, na carta, por elle dirigida
É ai no Seminario de Santarem ha zêlo, | ao Seminario de Santarem em resposta à
instrucção e moralidade. felicitação e offerta, nos termos mais com-
Quanto não encanta o vêr mancebos de | moventes e honrosos.
10 annos sabendo já o canto gregoriano, e Que maior galardão para os alumnos, su-
executando a lithurgia com toda a perfei- | periores e pro essores, do que ficarem sa-
ção! bendo pela carta do Summo Pontifice, que
SAN
elle sente alegria por ver a sua união com
a Santa Sé?
Que maior honra do que saber pelas pro-
prias palavras do Successur de S. Pedro, que
o pouco com que cada um poude contribuir,
serviu para auxiliar o Pae Commum, que
lucta com as maiores dificuldades e privd-
ções, na dispendiosissima administração da
Egreja m'estes tempos calamitosos ?
De que bens rão será penhor para tão re-
ligiosa communidade a benção especial que
a cada um de seus membros, e a todos em
geral, envia o Vigario de Christo?
Felicitand) o Seminario de Santarem por
tão elevados sentimentos catholicos, e pela
carta tão honrosa que acabam de receber,
não podemos abster-nos ainda de felicital-os
por terem um Reitor, que tão bem sabe di-
rigir a educação dos jovens que se destinam
ao sacerdocio.
É ao ex.mº sr, dr. Manuel Xavier Pinto Ho-
mem, a quem esta cidade deve tantos favo-
res, e que aqui mostrou a sua aptidão, por
tantos annos, para o difficilimo encargo de
Director d'uma casa d'educação; é a este
dignissimo sacerdote, que pertence a honra
de poder dizer, que aos seus esforços, pru-
dencia, pericia, e rectidão inquebrantavel,
se deve a elevação moral, religiosa e scien-
tifica que distinguem o Seminario do Pa-
triarchado, e o collocam na primeira plana
entre os estabelecimentos d'este genero, não
só entre nós, mas no estrangeiro.
Felicitamos por egual a todos os demais
cooperadores do ex.mº Reitor, pelo seu zelo,
intelligencia, e fiel observancia dos regula-
mentos d'aquelle Seminario, que é sem som-
bra de duvida digno de todos os elogios.
Eis a carta dirigida ao Seminario Patriar-
chal em Santarem pelo SS. Padre Leão XIII,
em resposta à felicitação que pelo mesmo
Seminario lhe foi enviada, em março do cor-
rente anno de 1879. (Traducção.)
Aos nossos amados filhos, Reitor, Professo-
res e alumnos do Seminario Patriarchal
de Santarem, em Portugal, Leão XIII, Pon-
tifice Múximo, envia Saude e a Benção
Apostolica.
- Quando tantas doutrinas contradictorias
desviam da verdade muitos espiritos, veio
SAN 285
a vossa carta encher-nos de prazer, porque
vós e vossos professores, como filhos da
Egreja de Deus, unidos nos mesmos senti-
mentos e no mesmo pensamento de traba-
lhar na prégação do Evangelho, levantaes
os olhos para este centro da Unidade Catho-
lica, esperaes receber da cadeira de S. Pe-
dro a luz e a verdade, e protestaes seguir
| escrupulosa e diligentemente os seus decre-.
tos. Por esta excellente disposição de vos=
sos espiritos, que tem por base a fé, e é
acompanhada de nobres sentimentos de ob-
sequio e caridade, exulta nosso coração,
concebemos de vós as melhores esperanças,
e estimamos devidamente a educação que
recebeis de vossos mestres. Estes, bem lem-
brados da gloria que o reino de Portugal
alcançou, em estreita união com a Santa Sé,
em proveito da Religião e da patria, tentam
fazer resurgir e alimentar em vossos cora-
ções os nobres sentimentos dos antigos por-
tuguezes. E não teem sido em vão seus es-
forços; claramente o prova a satisfação com
que, seguindo o exemplo de vossos genero-
sos antepassados, quizestes por obras con-
firmar a3 expressões do vosso amor de fi-
lhos para comnosco. |
Cada um de vós tomou dos seus pobres
recursos um pouco, e assim viestes todos
auxiliar o Pae commum, que lucta com as
maiores difficuldades e privações na dispen-
diosissima administração da Egreja n'estes
tempos calamitosos.
Nós, que agradecidos recebemos as vos-
sas dadivas, e muito nos alegramos com O
vosso procedimento, rogamos ao Omnipo-
tente que recompense com os dons da Sua
Divina Graça o vosso piedoso afiecto, cuja
nobreza Elle só sabe avaliar, e inspire em
vosso coração aquellas aspirações que po-
dem tornar-vos bons, activos e uteis traba-
lhadores do Seu campo.
Este é, amados filhos, o bem que vos de-
sejamos, essa a principal recompensa de seus
trabalhos, que suplicamos para vossos pro-
fessores, aos quaes e a cada um de vós em
particular enviamos a Benção Apostolica.
Esta vos alcance a protecção Divina e seja
para vós o penhor da nossa paternal bene-
volencia, Dada em Roma, no Palacio de S.
586. SAN
Pedro, aos 29 de maio de 1879, segundo an-
no do nosso Pontificado. Leão XIII, P. P.
Vinhas d'Alvisquer, ou, campo
de Santarem
Ficam ao N.E. da cidade, e produzem
optimo vinho, de varias qualidades. O terri-
torio d'estas vinhas, é quadrilongo, com 6
kilometros de comprido por 3 de largo.
Mas, comprehendendo hortas, pomares e
olivedos contiguos, tem 25 kilometros apro-
ximadamente de circumferencia, todo o ter-
reno cultivado. y |
Foi no sitio dos Valladinhos, na veiga de
Alvisquer, que o intrepido fidalgo, Lourenço
Viegas, deu a primeira batalha aos mouros
d'Albujaque, como ja fica dito. !
Já dei a definição do nome
Albujaque. Esqueceu-me en-
tão dizer, que alguns preten-
dem que o cognome (e não o
nome) d'este mouro, fosse Al-
barraque—.o luzente, o brilhan-
te, o resplandecente, etc. —De-
riva-se do verbo baraca, relu-
zir, brilhar, resplandecer, etc.
—Será.,
As Omnias
Dá-se este nome a um territorio povoado
de hortas e pomares que ficam um kilome-
tro ao S. do bairro do Alfange, em razão de
produzirem toda a qualidade de fruetas, e
todas saborosissimas.
Vinhas da Vallada e Galléga
Ficam-em seguida às Omnias, e ambas so-
bre a margem esquerda do Tejo. Tem 5 ki-
lometros de comprido, por 3 de largo; con-
tinuando-se as vinhas e dilatados campos
que produzem grande quantidade de ce-
reaes.
Campo do Mourão
Fica na margem esquerda do Tejo, em
frente de Santarem. É uma extensissima
veiga cultivada, e onde se criam diversas
qualidades de gado.
SAN
Antigamente se criavam n'este campo os
| Velocissimos cavallos, tão famosos no tempo
dos romanos. Hoje ainda alli se criam bas-
tantes, mas tem havido muito desmazello
na escolha da qualidade. Ha tambem aqui
grandes manadas de touros bravos.
Olivaes de Santarem
Estes famosos olivaes, principiam proxi-
mo da cidade, cercando-a pelo E., N.E., N.,
N.0., e O., dilatando-se por valles e outei-
ros, estanciando por entre elles, muitas hor-
tas e pomares, quintas e casaes.
Já disse que os olivaes do lado do O., fo-
ram bastante derrotados, desde outubro de
1833 até maio de 1834, tanto pelos realistas
como pelos liberaes.
Dos campos da Gollegan, ou Valle da As-
sacaia, já tratei.
- Finalmente, todos os arredores de Santa-
rem, até uma grande distancia, tanto ao N.
como ao S. do Tejo, são formosos e ferlilis-
simos.
Cemiterio de Santarem
Foi construido depois de 1834, no terreno
onde existiu a egreja matriz da supprimida
freguezia de S. Lourenço, e a dos frades de
Santo Antonio dos capuchos, e seu mosteiro.
e cérca.
Fica em uma eminencia, e tem alguns
mausoleos de bom gosto.
Entre estes, avultam o de Passos Manoel
e o de Sá da Bandeira. Este, segundo a von-
tade do general, tem ao pé uma nogueira,
alludindo ao seu appellido (Bernardo de Sá;
' Nogueira.)
Como esta nogueira foi plantada ha pou-
' cos mezes, tem apenas uns trez palmos de
| alto.
| A vista da entrada do cemiterio, é admi-
ravel. Em frente, vê-se a bella e extensa
ponte (quasi concluida) que atravessa o Te-
jo, da Ribeira para o sul.
SAN
Repartições do governo civil, cadeia,
repartições do correio, e administra-
ção do concelho.
Tudo isto se estabeleceu, depois de 1834,
no edifício do mosteiro dos carmelitas des-
calços. ;
Devêra tambem alli ser o tribunal do juizo
de direito e suas dependencias, e para isso
tinham destinado a egreja do mosteiro, mas
ficou em projecto, e lá estão ainda as pare-
des desmanteladas, attestando aos vindou-
ros, as profanações dos vandaios do seculo
XIX.
A antiga cadeia (de que já fallei) era na
praça, nos pavimentos inferiores da casa da
camara. Hoje está transformada em quartel
do destacamento que para aqui vem, para
fazer a guarda das repartições publicas. É
commandada por um subalterno, e rendido
de trez em trez mezes.
Fui de proposito a Santarem, onde me
demorei nos dias 1 e 2 de outubro d'este-
anno de 1879, para conferir o que tenho es-
cripto sobre esta cidade, com o que alli vis-
se e examinasse, e fazer as necessarias Te-
ctificações. Em resultado do meu exame,
eis as correcções e additamentos que tenho
a fazer.
Ermida de Santo Ildefonso. —(pag. 574,
col. 1.º) —Esteve abandonada desde 4834,
como a maior parte das outras ermidas de
Santarem. Sendo ministro o sr. Francisco
Lobo d'Avila, cedeu esta capella ao Monte-
pio dos artistas, que a restaurou e resti-
tuiu ao culto, e por sua conta celebra alli
a festividade do padroeiro.
Como fica dito a pag. 574, já antigamen-
te pertencia esta capella à irmandade dos
carpinteiros e pedreiros.
Ermida de Nossa Senhora das Angustias.
— Além da da mesma invocação, que des-
crevi a pag. 568, col. 2.º, existe outra no
districto da freguezia de Marvilla.
Fica mesmo em frente da capella profa-
nada de S. Lazaro, mas do outro lado (N.)
da rua.
É uma capella grande e que denota muita
SAN 587
antiguidade. Alegrou-me o vêl-a muito bem
conservada exteriormente, e caiada de no-
vo, com todos os sigaaes dg templo catholi-
co, menos o sino, que falta no campanario;
mas qual foi o meu desapontamento, quan.
do vi da sua porta travessa, que estava
aberta, uns poucos de homens, arrumando
mólhos de palha e tábuas velhas |
Está, pois, tambem transformada em PA-
LHEIRO.
Anda em principio de construcção (por
emquanto apenas ha movimentos de terra e
aberturas de alicerces) a penitenciaria dis-
trictal. É na chapada de um monte ao O. da
cidade, em sitio alegre e com extensas e di-
latadas vistas para o N., S.e O.
Percorri toda a cidade, não
só interior como exteriormen-
te. Fiquei embevecido do vas-
tissimo e delicioso panorama
que se gosa de todos os pontos
circumferentes. Só vendo, se
póde fazer idéa das encantado-
ras formosuras que se esten-
dem por muitas leguas em re-
dor, offerecendo ao especta-
dor admirado a vista de bel-
las quintas, granjas e casaes,
extensissimosolivedos, vinhas,
pomares, cearas, e o formoso
Tejo, sulcado por innumeros
barcos que o percorrem em
- todos os sentidos.
No bairro da Alcáçova, ao S., está o for-
mosissimo sitio, ainda chamado Porta do Sol,
onde os nossos primeiros reis tiveram os
seus paços. Ainda existe uma porta d'estes
paços reaes,Jadornada de primorosissimos
rendilhados. As muralhas do antiquissimo
castello arabe ainda aqui estão em partes
bem conservadas; mas os palacios de antigos
fidalgos e predios particulares, está quasi
tudo reduzidofa tristes ruinas, n'este bairro!
Na Porta do Sol é o sumptuoso reserva-
torio das aguas da respectiva companhia.
São extrahidas do Tejo (mesmo debaixo
da ponte), por um engenhoso elevador me-
chanico.
A ponte é de bella apparencia, e para à
988 SAN
sua conclusão apenas faltam os dois pégões
doN. es.
O cemiterio publico é dividido em dois
pavimentos. OQ inferior (a E.) pertence aos
pobres, e o superior, aos ricos !... Já se vê
que o cemiterio de Santarem não é conside-
rado campo da egualdade.
Um dos melhores mausoleus da parte su-
perior pertence a
José Antonio da Silva Torres Ponce
de Leon
(Visconde da Serra do Pilar)
- Lazaro da Silva Torres, cavalleiro da Or-
dem de Christo, correio-mór de Santarem,
nasceu à 10 de março de 4725 e falleceu a
22 de novembro de 1805. Casou com D. Fe-
liciana Rosa de Oliveira, nascida a 4 de no-
vembro de 4745, e fallecida a 29 de junho
de 1844,
D'este matrimonio houve tres filhos—José,
do qual adiante trato, —D. Maria Barbara,
e D. Maria Gertrudes.
José Antonio da Silva Torres Ponce de
Leon, primeiro filho, nasceu em Santarem,
a 16 de março de 1782.
. Sentou praça em cavallaria, e, seguin-
do os postos militares, era tenente-coronel
do regimento de cavallaria n.º 8, quando
teve logar a revolta de 16 de maio de 1828,
na cidade do Porto, contra o governo do sr.
D. Miguel.
Torres entrou na revolta, foi pela junta
revolucionaria nomeado commandante da
cavallaria liberal, e n'esta commissão assis-
tiu ás acções da Cruz dos Mcrouços, Marnel,
e Ponte-do Vouga (24 de junho de 4828, e
28 e 29 do mesmo mez e anno) e, como as
forças da junta foram derrotadas n'estas ba-
talhas, teve o tenente coronel Torres com os
seus, de retirar para o Porto.
Vendo os chefes principaes dos revolto-
sos que a sua causa estava, por aquella vez,
perdida, abandonando as tropas que tinham
induzido á rebellião, fugiram subrepticia-
mente para a Gran-Bretanha, a bordo de
um navio inglez, sendo Torres do numero
«dos que se salvaram por mar.
SAN
Da Inglaterra embarcou para a Ilha Ter-
ceira, sendo ahi nomeado commandante de
uma columna composta de contingentes de
caçadores 2 e 5, e com esta força dispersou
no Pico de Celleiro, uma guerrilha realista,
submettendo toda a ilha à obediencia do go-
verno do sr. D. Pedro.
Regressou ao reino com o exercito libe-
ral em julho de 1832, eassistiu ás acções
de Ponte-Ferreira, em 22 e 23 de julho de
1832, e à de Souto-Redondo a 7 de agosto
do mesmo anno.
Foi-lhe confiado o commando da guarni-
ção das baterias da Serra do Pilar (Gaia)
desde 8 de setembro do mesmo anno de 1832,
até 20 de agosto do anno seguinie. Com-
mandou a divisão de operações do norte,
sahindo do Porto a 25 de março de 1834, e
vencendo as forças realistas em Santo Thyr-
so e na Lixa. Foi depuis encarregado do
governo militar da provincia do Douro ein-
terinamente do Minho, depois da convenção
de Evora-Monte.
Desde que sentou praça, portou-se com
a bravura propria de um distincto militar
portuguez, pelo que obteve os seus titulos e
condecorações.
Foi feito primeiro barão do Pico do Gel-
leiro a 4 de abril de 1833; visconde da Ser-
ra do Pilar, no 4.º de dezembro de 1834,
sendo no mesmo anno elevado ao pariato.
Era official da Ordem da Torre-Espada,
condecorado com a cruz douro da campa-
nha da guerra peninsular, e com as meda-
lhas de Albuhera e Victoria. Foi governa-
dor da torre de S. Vicente de Belem, e bri-
gadeiro (general de brigada) do exercito.
Falleceu na sua casa em Santarem, e foi
sepultado em um formoso mausoleu, como
disse no principio d'este artigo.
Martim do Docem (ou d'Ocem)
Falleceu este homem, que tantos serviços
prestou à sua patria, pelos annos de 1435,
na então villa de Santarem. Como a biogra-
phia que d'elle se lê no 1.º tomo dos Retra-
tos e elogios dos varões e donas que illusira-
ram uq nação portugueza, é pouco extensa,
SAN
a copio aqui, para que se não perca a me-
moria de tão notavel homem de estado.
É a seguinte:
«Martim d'Ocem, doutor em leis, foi do
conselho d'el-rei D. João I e seu chanceller-
mór; e egualmente do conselho do infante
D. Duarte, seu filho, e governador da sua
casa, que. segundo D. Rodrigo da Cunha,
era o mesmo que aio ou mordomo. Era fi-
lho do Doutor -Gil d'Ocem,! chanceller-mór
do reino, que foi embaixadvr-a Castella, com
Affonso Gomes da Silva, em 1371, para con-
firmação das pazes, entre el-rei D. Henri-
que com D. Fernando de Portugal, e que,
seguindo primeiro o partido da rainha D.
Leonor (Telles de Menezes, viuva de D. Fer-
nando 1) a quem acompanhou de Lisboa pa-
ra Alemquer, passou depois para o serviço
do Mestre de Aviz, e o ajudou com o seu
valor e conselho, acompanhando-o na bata-
lha de Aljubarrota—e de sua mulher, Bri-
tes Annes Nogueira 2 e irmão de Pedro Gil
d'Ocem, a quem el-rei D. João, sendo ainda
Mestre d'Aviz, em agradecimento aos traba-
lhos no cêrco de Lisboa, doou os direitos
das quintas das suas chantas 3 de Santa-
rem.
Foi sobremaneira estimado pelo mesmo
rei D. João I, como pessoa em quem, elle
muito confiava, por seu saber e experiencia,
e lhe commetua os negocios mais importaú-
tes ao estado -do reino, por onde, no anno
de 1400, para tratar da quietação d'elle, o
1 O auctor dos Retratos e elogios dos va-
rões e donas, escreve este appellido de dif-
ferentes modos: ora diz D'ocem, ora d'Ocem,
Na inscripção tumular (como se verá adian:
te) se lhe dá o nome de Martim do Sem. Era
progenitor do famoso Pedro Cem, de que
fallo no artigo Porto e 8. Nicolau, freguezia
da mesma cidade.
2 A redacção está aqui um pouco obscu-
ra: deve entender-se que Martim d'Ocem era
filho do doutor Gil d'Ocem e d'esta Brites
Annes, e irmão de Pedro Gil d'Ocem, etc.
3 Chanta é portuguez antigo—significa o
terreno em que foram plantaãas de pouco
tempo, arvores de qualquer qualidade, ou
vinhas (bacéllo). As chantas a que se refere
o texto, eram certos olivaes novos, plantados
em uos terrenos dos arrabaldes de Santa:
rem.
SAN 589
mandou por embaixador a Henrique de
Castella, afim de se assentar treguas ou pa-
zes com elle, dando-lhe por companheiros
a D. João Esteves da Azambuja, arcebispo
de Lisboa e depois cardeal, e a João Vas-
ques da Cunha, pessoas de muita auctori-
dade. E, chegando todos a Segóvia no 4.º de
junho d'aquelle anno, onde el-rei estava, por
motivo das condições propostas pelo cardeal
de Avinhão, que respondia pelo dito rei,
veio Martim d'Ocem a Lisboa, e assistindo a
alguns conselhos em que na sua presença se
tomaram as resoluções que pareceram con-
venientes; tornou a Segovia e se estabelece-
ram treguas de dez annos.
Pouco tempo depois, no anno de 1404,
depois da morte de Ricardo II de Inglater-
ra, O occupou o mesmo, rei D. João I, man-
dando-o a Londres, com João Gomes da Sil-
va, seu alferes-mór, à ratificar a confedera-
ção e alliança com Henrique IV, seu succes-
sor; a qual concluiu com brevidade e satis-
fação de ambas as corôas em 16 de feve-
reiro.
No anno seguinte—de 1105 —foi segunda
vez mandado pelo mesmo rei a Inglaterra
para ajustar, juntamente com João Vaz de
Almada, o casamento de sua filha illegitima,
com D. Thomaz, conde de Arundel, o qual
ajuste se celebrou a 7 de fevereiro, e se re-
colheram ambos a Portugal com os procu-.
radores do conde.
Depois de feito este casamento, em abril,
na presença do mesmo rei, seu pae, e com
a solemnidade correspondente á grandeza do
acto, tornou a Inglaterra e fez as vezes de
procurador da parte de D. João I, para se
lavrar o instrumento d'este casamento, e de
haver recebido as bençãos da mão do arce-
bispo de Cantuária, primaz d'aqnelle reino;
o qual se lavrou na presença do rei de In-
glaterra, em 26 de novembro do” mesmo
anno.
No anno de 4414, foi nomeado embaixa-
dor a Castella com o sobredito João Gomes
da Silva, alferes-mór, e Fernão Gonçalves
Belagua, deão da Sé de Coimbra; para tra-
tar pazes com a rainha D. Catharina, que
governava na menoridade de el-rei D. oão
Il, seu filho; as quaes se estabeleceram e
590 SAN
ratificaram em 31 de outubro do dito anno
de 1411, para serem depois approvadas pelo
rei.
Em 14418 quiz el-rei D. João, de Portugal,
confirmar estas pazes, e foi mandado segun-
da vez Martim d'Ocem, com os mesmos, João
Gomes da Silva e Fernão Gonçalves Be-
liagua; mas respondendo-se-lhes que ainda 0
rei não tinha completado 14 annos, volta-
ram para o reino, sem efeito.
Chegando o rei à edade 14 annos, em
1419, foi outra vez nomeado e com os mes-
mos companheiros, parao mesmo fim, e com
o mesmo successo, pois se recolheram para
Portugal, só com as esperanças do que de-
pois aconteceu, como as nossas chronicas
referem.
Assistiu como testemunha no casamento
de el-rei D. Duarte, sendo ainda infante,
com a infanta D. Leonor de Aragão, em
Coimbra, a 4 de novembro de 1428; e tam-
bem na confirmação que seu pae, el-rei D.
João 1, fez do mesmo contrato, na villa de
Extremoz, em 2 de dezembro do mesmo
anno.
Foi egualmente testemunha, em primeiro
logar, no instrumento que se passou dos
desposorios da infanta U. Isabel, filha do mes-
mo rei, com Philippe, duque de Borgonha,
por seus procuradores, em Lisboa, em 1429.
E, para prova do bem que serviu em to-
das estas cousas, o rei D. João I, em seu
testamento o mostra e confirma, por estas
palavras:—E semelhante achámos e soubé-
mos do doutor Murtim Docem, do conselho
nosso e do infante meu filho e seu chancel-
ler-mór, que, em desembargar as nossas non'
certas e fazer oulras cousas per nosso ser-
viço, assi ante que fosse em casa do dito in-
fante, como depois que em ella andou, que
todo fez muyto bem e como devia, com res-
guardo de nosso serviço. —
Acha-se matriculado entre os moradores
da casa real de D. João I, com a moradia de
158600 réis.
Falleceu na villa de Santarem, e jaz no
convento de S. Domingos, da mesma villa,
na capella de S. Pedro, no cruzeiro, em um
tumulo levantado, onde se vê a sua figura,
do mesma sorte que se mostra n'esta sua
SAN
estampa, esculpida de figura inteira e dei-
tada sobre elle com o escudo das suas ar-
mas.! E o seu epitaphio:
AQUI JAZ O MUY HONRADO
E FAMOSO DOUTOR MARTIM DO SEM
DO CONSELHO DO MUY ALTO; EXCELLENTE
E PODEROSO PRINCIPE E REY
DOM JOÃO E DO INFANTE DOM
DUARTE, SEU FILHO PRIMOGE-
NITO, E SEU CHANCELLER-MÓR.
O QUAL, POR SEU MUITO
TALENTO, FOI POR ELLES EM A
EMBAIXADA, AOS REYNOS DE
INGLATERRA E CASTELLA.
Já vimos na col. 1.º de pag. 544 d'este
volume, que esta egreja foi sacrilegamente
profanada depois de 1834. Hoje, tanto o tem-
plo como o edifício do mosteiro estão con-
vertidos em um montão de ruinas, e o tu-
mulo de Martim d'Ocem e de outros varões
illustres, em paredes de casas e pavimentos
de ruas.
Ainda à egreja de S. João d'Alporão
Vi-a detidamente a 2 de outubro d'este
anno de 1879. As obras de reconstrueção
continuam vagarosamente com diminuto
numero de pedreiros; todavia o tecto está
concluido, e o que foi capella-mór tambem
estã interiormente quasi reparado, é no ex-
terior'pouco falta para términarem as obras
da restauração. AR di
Tiveram o bom gôsto de seguir em tudo
a architectura primittiva.
O oculo ou espelho circular da fachada
do templo, como estava muito damnificado,
se apeiou, e anda em construcção outro
com o mesmo desenho.
Já se gastaram mais de trez contos de réis
n'estes reparos, e calcula-se que é neces-
sario dispender ainda uns 47 para a sua
conclusão.
1 Ag armas de Martim d'Ocem eram:—
Em campo azul um leão de ouro, rom-
pente, armado de púrpura (Castellos-Bran-
cos)— Orla de púrpura com onze vieiras
cao d'ouro, realçadas de negro (Viei-
ras).
SAN
O arco do Pão
Já disse que ainda existe na Ribeira a
porta assim denominada. Tambem ainda
alli se vê um lanço bem conservado da an.
tiga muralha, o que nos prova que, em tem-
pos remotos, este bairro, ou parte d'elle foi
fechado e protegido por obras de defeza,
como Santarem.
(Vide col. 4.º de pag. 448.)
SAN
Arco do Pedregal
5914
Ainda existe esta porta no antigo bairro
do Alfange. Segundo a tradição, era o cen-
tro de um forte muro (de que não ha vesti-
gios) construido para que as enchentes do
Tejo, não invadissem a povoação. A porta
servia, não só para dar escoante às aguas,
como tambem para serviço dos habitantes do
bairro.
Indece alphabetico do contheu do
no artigo «Santarem;
LA
Pag.
AMAS asso crio nice cinto d a 461
Aeltilles: lusitano. ui icccceicouiit h98
Affonso (D.) infante de Portugal...... 492
Affonso (D.) infante (outro).......... 502
Affonso (D.) rei, sexto do nome....... 544
Affonso Henriques (D.) rei...... 467, 469
Agostinhos calçados (Frades)........ 43
Agostinhos descalços (Frades) 541, 543, 565
Pts cr ii o NR PR SR PR h7h, 475
AROUCA is alo, ago o e O taça 148, 503
Alfange (Bairro do)...............4... 448
Alporão (S. João de)....... 149, 464, 590
Antonio de Santarem (Frei).......... 482
Antonio de Quadros (Padre)......... 506
Antonio (D.) Prior do Crato......... 207
Antonio da Conceição (Frei)......... 508
Antonio de Mattos Noronha (D.)...... 509
Antonio Jorge Machado (Dr.)......... 513
Appellido de Santarem.............. 447
firoo do Pão. ..... ss binmda iitito 451, 5M
Ateo aBuPedrogalio. . >. sind. É. DD
Arrabidos (Frades).......ccccccs 946
Assassinos de D. Ignez de Castro..... 489
Assento de Santarem................ 447
Assénto em côrtes............... 0. hh7
Auctoridades e empregados publicos de
Bantarem... o PO: 453
Augusto Henriques (Padre).......... -583
Auzecri, alcaide de Santarem........ k72
B
Pag.
| Bet 01 PORRA ERROR DRA RA h61
Danos de Samlárem ... use seseços h47
Barão da Silva Gameiro............. 538
EToR dar DaSsa Ga... .... secs censos h55
Basilio de S. Francisco (Frei)........ 41
Benedictinos (Frades)............... 046
Bento José de Sousa Farinha......... 282
Bernardo de Sá Nogueira, marquez de
Da da: BANCBIPA, secs ce cri como 516
Dragões de Santarem... ....cc cs. hh7
o
Calçadas de Santarem............... h51
MBB CL O rabos 0 oia 14 shoe elo ojos nto 461
NRANRR Ss a means oloiato o catoio RES QUA a aê h46
Copo :do MiBrão cicero 586
Capellas (vide Ermidas).
Cala da camara antiga... conse ne ces 452
Capuchas (Proiras)......ccnscces. 43
Capuchos (FRAGEs)........ ca. DAk.
Carmelitas descalços (Frades)........ 546
Cêmiterio publico .............. 586, 588
Cheia e temporal de 1876............ 538
AD Nip PR RO RR NA EGO 540
Concelhos do districto de Santarem... 446
Conegos regulares (Frades).......... 547
Conventos (vide Mosteiros)... .........
Côrtes em Santarem 480, 486, 486, 487,
494, 494, 495, 495, 496, 498...... 500
tivPos Ot arabe... Sis SLB h067
992 SAN
D
Pag.
Diogo (D.) duque de Viseu........... 500
Diogo daNCodia ss e a ii 910
MRORIVERLOS RR ER ROO, ct 462
Dominitas WErBiras.. ocioso 959
Dominicos (Frades)............. 944, 590
Domingos do Cuvo (Frei)............ 480
Donas (Freiras) Vide Dominicas.
Duarte de Menezes, conde de Vianna... 196
Duarte Pacheco Pereira............. 498
E
Egrejas matrizes actuaes........ 445, 547
Egrejas matrizes supprimidas.... 445, 553
RETEOIAS saio o retoma ti abas hd 964
Esterilidade notavél: ..cuiicosgi asso h63
Estevam (Santo)...... 447, 448, 477, 478 |
Eiscellente senhoras. sSohiicicanç os 505
sa
Fernando (Djs 490
Fernando (D,) Infante santo......... 493
Fernando de Tavora (D. Fr.)......... 506
TERÃO DOSLelro. is o std 501
Fernão Lopes Castanhéda............ 905
Foraes de Santarem, 467, 474, 477, 477,
UrAOS ROO o A Ni de a 503
Freguezias (Vide Egrejas matrizes)... 445
Freguezias do concelho de Santarem.. 445
Ch
Garcia (D.) rei de Portugal e Galliza.. h67
Garcia de Menezes (D.) bispo d'Evora.. 500
Gaspar do Casal (D. Fr.) bispo de Com-
17 RD RP 503
Mergoris ou (GOFgOTIS «io. mo am mento h64
MNT. rei) enc s 480, 540
Gilberto (D.) 4.º bispo de Lisboa..... 473
Governo antigo de Santarem..... “oco jo vo
Governo civil e suas dependencias. ... 587
Guerra civil (termo da) de 1832 a 1834.. 523
FL
Henrique (D.) o de Sagres..... À chiado 692
Henrique II, de Castela. . «sec cereses 490
Henrique de Távora e Brito, arcebispo
de:BDA. iii o uáa dia pe PR NA 507
Historia chronologica de Santarem.... 461
Hospital de Jesus Christo... ..... 490, 495
SAN
I
TAvARdO Acabo LER
Invasão dos barbaros do Norte.......
Iria ou Irene (Santa)........... 466, 553
EG Coto Ea EAR 4
J
Jeronyma de Carvalho (Dona)........
Jesuitas (Padresdss aan. gh cb cuuos
João Affonso de Santarem....... 489,
João (D.) infante de Portugal.........
João: 1 (Do de Portugal. css 492 |
João (Do de Castellano sic. 4
João II AD.)de Portugal. ............ 00 |
João d'Azevedo (Padre).............. 512 |
João Diogo de Barros Leitão Carvalho- |
sa, 1.º visconde de Santarem....... 14 |
dado Parto Franco a usura 582
Joaquim d'Oliveira Leitão........... 82
Joaquim Moreira Pinto.............. 582
José Antonio da Silva Torres......... 588
José Caetano de Mesquita e Quadros. .
Miaria .. >. sis bee A. des 450
Malão Cesar. suis dba ds vidi ob 463
L
Eeonel damtiostas Ecs ss 510
Lopo de Sousa Coutinho............. 904
Lourenço Alexandre de Albuquerque
REDE) ra oiro alado intao o o aliado do a RATO 581
Luiz de Figueiredo (Doutor)......... 513
Luiz de Sousa (Frei)....... BR dare une 505
Luiza de Gusmão (viuva de D. João IV
Ec AR PA A o
IML
Magdalena de Vilhena (D.)........... 506
Manoel da Silva Passos,...........4.. 596
Manoel de Quadros (D.) bispo da Guar-
— RR CR PRADA DAR q Edo aus iiad 509
Manuel Xavier Pinto Homem (Dr.).... 583
Marianna da Fé (Madre)............. 514
Marquez de Sá da Bandeira. ........ +46
Martim, A LOREM.» pira ieigd o eye a ilpiaiá 588
Martyres de Marrocos........ creio 508
HMA a ss ro ts ad O per dd 448, 548
Mausoleu de D. Fernando E.......... 490
Miguel I (D.) Vide Guerra civil.
SAN
Pag.
Milagra — Vide Santo Milagre.
Milagre de J. C. Crucificado......... 184
Morte 'do infante D. Affonso......... 502
Mosteiros de frades... ........cv... - 543
Mosteiros de Íreimas: ani suiaçan cus 539
Museus distridtalhs só ser res ad sai 455
IN
Nicolau (Egreja de S.).......ceceress 52
Nicolau Pimenta (Padre)............. 509
Nome actual de Santarem........... 466
Nome antigo de Santarem........... 462
2)
Olivaes de Santarem,...cs.cccossuans 586
RA SG a do a po o aa 586
E
Palacio dos patriarchas............. 450
Payo Peres Correia (D.).... cce 482
Pedro de Menezes(D.)........cc..... h95
Pedro. de: Santarem (Frei)... ..ccccro 480
Pedro Eannes Lobato... «asus silas 487
DONO, SCNPOS sito doa rioa ccante eaA 195
Pedro Fernandes Gallego............ 179
Penitenciaria districtak.............. 587
Periodicos de Santarem.............. 450
PRStGe post oo te DA ea Liga Aa h96
Policia civil da cidade (instituição).... 538
Ponte sobre o Tejo, em Santarêm..... 397
Honia do PÃO... unir gens hô1, 59
Porta dO SOL as GA PS 587
Portásro: Postigos:, . assenta hh7, 452
KR
Reitores do seminario............... 581
Reservatorio das aguas. ............. 987
Ribbina (Bairro da)o ss cubo nai oia h48
Romanos na Peninsula.............. 163
SAN 993
Pag.
Romão (Frei).......... mererererer. D09
Ss
Salvador (Egreja do)... as. .ccseco. 947
Santarem (Appellido)............... 447
Santarem (Titulo de cidade)......... 997
Santo Milagre (Egreja do)....... 448, 477
Santo Milagre (Hostia).............. 477
Santo Milagre (Ermida)............. 478
Sebastião de Menezes;(D. Frei) Patriar-
cbardas AFRICA us meta qi nd A ad h94
Senhora da Piedade (Egreja), 511, 543, 565
Soeiro Gomes (D.) bispo de Lisboa.... 479
Supplicio dos assassinos de D. Ignez de
CONS 0 pe RPA RA A DG k89
RE:
Rob old a or perito a e 450
Templários: .. uia r hd tudo 473
Terceiros de Jesus (Frades).......... 546
Têrmo deiSantarem:sjui bc to ad hBh
Terramoto do 1755 514
Terreiro da Piedade.......... PR 450
Torre AIDarran; io US ond retas ota Ah
Torre das Cabaças.: dci sda hh9
Torre do Bufo cs o ia hh9
ridos (Rrades) is dora alo stato 945
TU
Ulysses ..... E abit pg Mile 161
Wyº
Vad pUASS aaa nc ds retro 45))
Via militar romana. ................ 451
Vinhas d'Alvisquer............. o» DBO
Vinhas da Vallada e Galléga......... 586
Visconde da serra do Pilar.......... 588
Visconde de Sá da Bandeira......... 516
Viscondes de Santarem......... 514, 515
594 SAN
SANTARIÇO—portuguez antigo — Santo
Ericio. (Eiriz é patronimico de Ericio.)
SANTARICO— portuguez antigo — Santo
Eurico. (Eurigues é patronimico de Eurico.
SANTELLO—portuguez antigo—certa rê-
de de pescar.. Algums deitam em rios nom
cabedaaes (caudaes) covõens, e nassas. e san-
tellos, e armazellos, etezõens, e tarrafas pe-
ra seus manimentos. Côrtes de Lisboa de
4434.
SANTINHO —Grande quinta, Traz os Mon-
tes, na freguezia de Godim (vulgarmente
Jugueiros), comarca e concelho do Peso da
Regua. Era propriedade do fallecido Anto-
nio Bernardo Ferreira (o Ferreirinha da
Regoa) e hoje pertence à sua viuva, a sr.*
D. Antonia Adelaide Ferreira, e a seu se-
gundo marido, o sr. Francisco José da Sil-
va Torres.
Tem um magnifico pomar de laranjeiras,
e produz 50 pipas de vinho superior, de-
nominado do Baixo-Córgo.
(O Baixo-Córgo, onde esta quinta é situa-
da, pertence ao di:tricto do Paiz venhatei-
ro, isto é, o que produz os melhores vinhos
do Alto-Douro.)
Esta propriedade é atravessada pelo tun-
nell do Sautinho, de 90 metros de extensão,
no caminho de ferro do Douro.
Foi construido para evitar uma grande
trincheira e expropriações carissimas, den-
tro da referida quinta, que certamente muito
lhe diminuiria o valor.
SANTOANE — portuguez antigo — certa
qualidade de panno. Deixo a F. sete cova-
dos de Santoane pera hum vestido. Era uma
fazenda leve que só se usava no verão. Pa-
rece ser corrupção do francez Saintonge.
SANTOANNE—portuguez antigo—s. João.
(Vide Sanhoanne.)
SANTO ADOU — SANTO ADON — e SAN-
TO ANDOU -—portuguez antigo—Santo Ab-
don. Vide Adon ou Abdon, no 4.º vol., pag.
26, col. 2.º e pag. 190, col. 1.º—4.º vol., pag.
317, col. 2.2 in fine.
SANTO ADRIÃO—Vide Macieira de Ra-
tes.
SANTO ADRIÃO DE BERTÊLLO — Dá-se
este nome ao pico mais elevado do concelho
e pCastello de Paiva.
SAN
Fica no districto da freguezia de S. Pedro
do Paraizo, do mesmo concelho.
Deve o seu nome à ermida de Santo Adrião,
que alveja no seu cume.
Do adro d'esta ermida se descobre um
vasto e deleitoso panorama.
Para o O., vê-se a cidade do Porto (a 36
kilometros de distancia) o Oceano Atlantico,
e grande numero de freguezias, que estan-
ceiam entre os dois pontos.
Para E. vêem-se as comarcas de Sinfães,
Rézende, e parte da de Lamego, que fica a
50 kilometros, além de grande numero -de
serras e montes.
Para o N. e NE. vêem-se as comarcas de
Paredes, Santo Thyrso, Penafiel, Amarante,
Marco de Canavezes, Baião, Régua, e outras.
Para o SE. e SO. vêem-se territorios das
comarcas de Arouca, Castro-Daire e outras;
as serras do Parnaval, Freita, Caramullo e
outras.
Ao sopé d'este pico, do lado do NO, e no
ribeiro das Avelleiras (junto ao logar do
Seixo) termina a zona carbonifera de Paiva,
que principia na quinta de Germunde (mar-
gem esquerda do Douro). Foi pesquizada até
ao referido ribeiro. Todavia, ha toda a pro-
babilidade para suppôr que a zona carboni-
fera continúa no rumo de SE. (por baixo do
pico) pois se vêem afloramentos, na serra
de Ancia e em outros logares, n'aquella di-
recção.
SANTO ADRIÃO—freguezia, Beira Alta,
comarca e concelho de Armamar. Esta fre-
guezia já fica descripta a pag. 27, col. 4.2 do
1,º volume. Aqui acrescento mais.
Tem actualmente 70 fogos. Em 14757 tinha
62.
O reitor de Sabroso, da villa de Barcos,
apresentava o cura, que tinha 302000 réis
e o pé d'altar.
Esta freguezia é situada sobre a margem
esquerda do Tédo, ficando-lhe em frente, a
freguezia de Santa Leocadia (4.º vol. pag.
87, col. 1.2)
Santo Adrião foi do supprimido concelho
de Barcos, que lhe fica a 3 kilometros de
distancia, e da comarca de Taboaço, tam-
bem supprimida.
* Reside n'esta freguezia Silverio Alves da
SAN
Costa, que possue um remedio, com o qual
cura à surdez quasi instantaneamente. Pou-
cos são os doentes que deixam de ficar" sãos.
Nasceu n'esta freguetia O tristemente ce-
lebre Antonio Teixeira de Carvalho, o Ca-
vallaria (e não José Teixeira, nome que por
mal informa o lhe dei a pag. 236) um dos
maiores ladrões e dos mais crueis assassi-
nos das duas Beiras, o qual, além de grande
numero de roubos, perpetrou trinta e tan-
tos asgassinios.
Para evitarmos repetições,
pag. 236, col. 1.º
SANTO ADRIÃO DE CANNAS DE DUAS
EGREJAS c SÃO THOMÉ DE CANNAS —
Douro, na freguezia de Santo Estevão de
Oldrões, comarca e concelho de Penafiel.
Ao N. do monte do Castello de Penafiel
(vide Santo Estevam d'Oldrões) fica a po-
voação de S. Thomé de Cannas, a qual se-
gundo a tradição era atravessada pela via
militar romana, chamada Tamacana Via.
(Vide Canavezes.)
vide 8.º vol.
Esta via militar sahia do Porto, passava
por Aguiar de Sousa, pela falda da collina
onde está fundada a villa de Paredes, por
territorio do concelho de Penafiel, Portella
de S. Thomé de Cannas, Santo Adrião de
Cannas de Duas Egrejas (onde ainda existe
com o antigo nome, o monte de Perafita, an-
tigamente Petra-Ficta),! Castro de Villa-Bôa-
de Quires (concelho de Marco de Canave-
zes) e finalmente Thermas de Canavezes.
A existencia d'esta via militar tambem se
comprova por um monumento romano men-
cionado por Argote.
É o pedestal de uma ára, que está na
| Em um documento que pertenceu ao
mosteiro de Moreira (Maia) datado de 1037,
tratando d'esta freguezia de Moreira, diz —
In villa Petra Ficta, etc.
Na Hespanha, ha varias povoações com o
nome de Piedra-Hita. E provavel que d'es-
ta nós fizemos Pedra-Fita, e Pera fita, sub-
stituindo o h aspirado, por f, como pratica-
vam os antigos portuguezes em todas as
pa estrangeiras que teem hh aspira-
os.
Não temos a certeza do que significavam
as Pedras-fitas ou fixas — ou se todas as
que tinham este nome significavam a mes-
ma cousa: provavelmente, em umas partos,
SAN 595
egreja matriz da freguezia do Salvador de
Thuias (concelho do Marco,) com esta in-
scripção:
NILLUS EREDIUS, PROCURATOR
VIARUM PUBLICARUM VOTUM
LIBENTER SOLVIT LARIBUS CIRE-
NAICIS.
(Nyllo Eredio, procurador das estradas
“publicas, por voto livre, dedicou esta me-
moria aos deuses lares dos cyrenaicos.)
Esta via era muito frequentada no tem-
po dos romanos, por causa das thermas de
Canavezes.
SANTO ALEIXO—villa, Alemtejo, comar-
ca e concelho de Moura. Esta freguezia Já
fica descripta no 4.º volume, pag. 90, col.
2.2—aqui accrescento:
Em 1757, tinha 207 fogos.
A meza da consciencia e ordens apresen-
tava o prior, que tinha 120 alqueires de
trigo, 120 de cevada e 208000 réis em di-
nheiro.
Na noite de 21 para 22 de dezembro de
1875, commetteu-se um grave desacato na
egreja matriz d'esta freguezia. Os ladrões
arrombaram a porta da egreja, a do sacra-
rio, e de alguns moveis da sachristia, e rou-
baram o vaso das sagradas particulas, a am-
bula da santa uneção, e os trez vasos dos
santos óleos, tudo de prata.
O sacrario foi achado no chão e despeda-
cado; as sagradas particulas sobre uma me-
za, à direita do altar mór.
Alem d'isto, damnificaram muito os alta-
deu-se tal denominação aos marcos millia-
res; e em outras aos Térmos dos romanos:
e, finalmente, em outras, às antas druidicas
uu pre-celtas.
Dulaure, na sua Historia de Paris (tom.
1.º) diz que os monumentos do culto gau-
lez, consistiam ordinariamente, não em fi-
guras humanas, porque a esculptura era
desconhecida a este povo, mas em pedras
brutas, collocadas na terra, e que denomi-
navam Pierre-fixe ou Pierre-fite.
A aldeia de Pierre-Fite, situada alem de
S. Diniz, deve o seu nome a um monumen-
to megalithico que alli existiu. (Vide Pur-
ganes.)
596 SAN
res e algumas imagens, em busca de obje-
ctos de valor. Arrombaram tambem o de-
posito que estava junto do altar das almas,
que era onde se guardavam os santos óleos.
Note-se que estacionava na villa um des-
tacamento de tropa de linha!
O parocho, logo que teve noticia do rou-
bo e desacato, mandou chamar o regedor
da parochia, e, como este não apparecesse,
mandou chamar o seu substituto, que tam-
bem não foi encontrado!... Dirigiu-se (o pa.
rocho) à egreja, acompanhado do juiz elei-
to e do seu escrivão, e do commandante da
força, e procedeu-se a auto de corpo de de-
licto.
Feito isto, o parocho tornou a mandar
chamar o regedor e o substituto, mas estes
não appareceram... e só 15 dias depois do
roubo, se procedeu à busca, em umas casas
suspeitas; mas, como era de esperar, nada
se achou.
Foram presos dous individuos sobre os
quaes recahiam bem fundadas desconfian-
ças; mas, como o crime se não pôde provar,
foram soltos.
Um delles, apenas se apanhou em liber-
dade, foi-se à residencia do parocho, e o
ameaçou com uma duzia de punhaladas, na
primeira occasião!
Em maio de 1878, foi publicada uma car-
ta de lei, transferindo para Safára, a séde
de julgado ordinario de Santo Aleixo, me-
dida que foi geralmente mal recebida. Vide
Safára.
Em dezembro do mesmo anno de 1878,
houve grandes temporaes em todo o conce-
lho de Moura. Na freguezia de Santo Alei-
xo, cahiu a abobada do mosteiro, ficando
dous rapazes mortos debaixo das ruinas.
Este mosteiro fica a 5 kílometros da villa,
no sitio chamado Tomina, na serra do Bar-
reiro. Foi dos padres agonisantes, e à pri-
meira casa d'esta ordem, fundada em Por.
tugal.
SANTO ALEIXO—do concelho de Monte
Mór Novo. Vide Ateixo (Santo.)
SANTO ALEIXO — É o segundo da pag.
92, col. 4.2, do 4.º volume, Quando escrevi
SAN
aquelle artigo, era do concelho de Veiros,
comarca da Fronteira. Pelo decreto de 26
de outubro de 1855, foram supprimidos qua-
tro concelhos, no” districto de Portalegre
(Alegrête, Cabeço de Vide, Souzel e Veiros)
ficando então esta freguezia de Santo Alei-
xo pertencendo ao concelho de Monforte,
comarca e bispado d'Elvas.
Esta freguezia, em 1757, tinha 96 fogos.
A mitra apresentáva o cura, que tinha
150 alqueires de trigo e 60 de cevada.
SANTO AMADOR— Vide Amador (Santo.)
Esta freguezia foi annexada à de Safára,
por decreto de 23 de maio de 1879.
SANTO AMARO-—do concelho de Villa
Nova de Foz-Côa. Vide o 1.º Amaro (Santo)
no 1.º vol., pag. 193, col. 1.8
Para os mais logares d'este nome, vide
no logar citado, a columna 2.2
SANTO ANDRÉ — Vide André (Santo.) E
para Santo André, freguezia do concelho de
S. Thiago do Cacem, vide a descripção da
villa deste nome, no logar competente.
SANTO ANDRÉ DE CANIDELLO, ou DA
BARRA, ou DE LAVRADORES, ou DOS MA-
RIOLAS— Esta freguezia já fica descripla.
É o 3.º Canidélio, na col. 1.2, pag. 93, do 2.º
volume. Aqui accrescento mais:
Para a etymologia, vide Canada e Cana-
déllo.
Disse em Canadêllo, que esta freguezia
ficava à 10 kilometros ao S. O. do Porto, e
assim é, pela estrada; mas, pelo rio Douro,
são apenas 5 kilometros.
Dá-se-lhe o nome de Canidêllo, por ser o
da freguezia. O da Barra, por o districto da
parochia chegar até ao Cabedêéllo, junto (ao
S.) da barra do Porto. O de Lavadóres, por
ser assim chamada a povoação principal da
freguezia (e tanto que muita gente lhe dá o
nome de freguezia de Lavadóres.) E, final-
mente, o dos Mariolas, porque são d'aqui a
maior parte dos homens que formam a com-
panhia braçal da alfandega do Porto.
Ha n'esta freguezia, em um dos domin-
gos d'agosto, a celebre festividade denomi-
nada do Estarragido. (Não vejo de que pa-
lavra esta seja corrupção!)
No fim da missa e sermão, sahe a procis-
são denominada dos lenções. A causa d'este
SAN
nome, é porque, por todos os caminhos por
onde passa a procissão, os muros e valla-
dos estão cobertos de lenções, colchas, toa-
lhas, etc. 1
São tantos os andores, como as imagens
dos santos que ha na egreja, não escapan-
do nem ainda o mais pequenino. Das mãos
de cada uma destas imagens, pendem for-
mosos cachos d'uvas, das melhores que ap-
parecem na freguezia.
Os andores são pequenissimos. sendo al-
guns levados à mão e não nos hombros, e
são ornados de grande numero de fitas de
diffarentes córes, pennas, espelhos, flôres de
papel. e grande numero de esquisitices.
É festa sempre muito concorrida.
SANTO ANDRÉ DE FIÃES DO RIO— Vide
Fiães do Rio. Aqui acerescento:
Era vigariaria, collada, filial, ou annexa
à reitoria de Viade, cujo reitor apresentava
o vigario.
Foi até 1834, commenda da ordem de
Christo, a qual comprehendia Fiães do Rio,
Paradella, Covellães, e metade dos dizimos
de Paredes do Rio.'Rendia uns 6002000 réis
annuaes.
O vigario tinha 1218000 réis de rendi-
mento.
Foram antigamente senhores d'esta com-
menda, os condes de Vimioso; depois pas-
sou para os condes da Feira. Em 1820, era
commendador, D. Miguel Pereira Forjaz.
Esta freguezia compõe-se de duas povoa-
ções—Fiães. séde da parochia, e Loivos.—
N'esta ultima aldeia está a ermida de S. Bar-
tholoméu.
Esta freguezia está situada sobre a mar-
gem esquerda do rio Cávado, que lhe corre
ao norte.
O seu sólo, abrigado, pelo sul, por uma
cordilheira de montes, como é muito abun-
dante d'agua, e a sua posição em um val-
le, produz. muito milho, feijão, centeio e ba-
tatas.
Pelo E., corre tambem o ribeiro de Sub-
Carvalho, que nasce nos limites da fregue-
1 O costume de adornar d'este modo as
paredes por onde passam as procissões, é
geral em quasi toda a Terra da Feira.
VOLUME VII
SAN 597
zia e morre no Cávado, com 3 kilometros
de curso.
Pelo centro da freguezia, passa a antiga
estrada de Montalegre para Braga.
SANTO ANTÃO— Vide Tojal.
SANTO ANTONIO DA CHARNECA Al-
deia, Extremadura (ao sul do Tejo) na fre-
guezia e concelho do Barreiro.
Esta povoação está situada sobre a mar-
gem esquerda do Tejo, em frente do Beato.
Soffreu muito com os temporaes de dezem-
bro de 1876 e janeiro de 1877. As casas fi-
caram em um montão de ruinas, e muitas
familias ficaram sem abrigo.
Os barcos dos pescadores tambem soffre-
ram grandes prejuizos.
SANTO ANTONIO DE FATÍMA —Esta fre=
guezia já fica descripta no 3.º vol., pag. 192,
col. 2.2, aqui acerescento:
Esta freguezia é na serra.
Fatima era uma aldeia, pertencente à fre-
guezia de Nossa Senhora da Visitação, col- .
legiada, da villa de Ourém."Em 1568, foi
desmembrada da freguezia de Ourém, cons-
tituindo-se em parochia independente. A
egreja matriz da nova fregnezia, foi edifica-
da pelos freguezes, que ficaram obrigados à
sua fabrica, menos nos ornamentos do altar-
mór, que ficaram a cargo da collegiada, a
qual se obrigou a dar uma cruz, uma custo-
dia e um calix, tudo de prata, o que tudo
cumpriu, mas, em 1636, se concertaram os
beneficiados com o povo de Fatima, ficando
aquelles obrigados a darem 5000 réis an-
nuaes para a fábrica, e esta correr por con-
ta dos freguezes; que tambem se haviam
obrigado em 1568, a dar a residencia para
o parocho.
A egreja parochial é soffrivel, e a capel-
la-mór é de abobada.
Ermidas d'esta freguezia
1.2—Santo Antonio—no logar do Poço do
Soudo.
2.º — Nossa Senhora da Graça (vulgar-
mente, Nossa Senhora da Ortiga, por estar
edificada no sitio deste nome.) O cabido da
collegiada d'Ourém (extincta) apresentava
o eremitão, recebia as offertas, e era obri-
gado à fabrica da ermida.
38
998 SAN
32—Santa Luzia—no logar da Moita-Re-
donda, construida em 1604.
4.2—Nossa Senhora da Ajuda—no logar
de Montéllo, construida em 1604.
d.:-—Santa Barbara—no logar de Bolei-
ros, construida em 1607.
Todas estas ermidas, menos a segunda,
foram mandadas fazer pelo visitador, e o
povo das aldeias onde estão situadas, é obri-
gado à sua fabrica.
SANTO ANTONIO DO ARRIMAL — Esta
freguezia já está descripta sob a palavra
Arrimal. Aqui accrescento:
Para se saber a data da fundação d'esta
freguezia e outras circumstancias, sem ha-
ver enfadonhas repetições, ver Mendiga, fre-
guezia, e Minde, freguezia.
Esta parochia era annexa à collegiada de
&. Pedro, de Porto de Mós, quelapresentava
o cura, ao qual dava 40 alqueires de trigo.
Os freguezes lhe davam 400 alqueires do
mesmo cereal, além das ofertas da parochia
e ermidas, e algumas amentas voluntarias,
de meio alqueire de trigo por anno. Não
tem casa de residencia propria.
Os freguezes são obrigados à fabrica de
toda a egrejá e seus ornamentos.
Ermidas d'esta freguezia
1.2—S. Silvestre—na aldeia de Alqueidão,
fundada em 1603, por D. David, marido de
D. Aldara, o qual aqui foi sepultado. (Vide
Minde, freguezia.)
22—S. João Baptista. —no logar do Arri-
mal de Cima (tambem chamado Arrabal.)
Os moradores das aldeias d'Alqueidão, e
do Arrimal de Cima, são obrigados à fabri-
ca das ermidas respectivas.
SANTO ANTONIO DO ESTORIL — (Vide
Cascaes. e Estoril.)
SANTO ANTONIO DOS OLIVAES — fre-
guezia, Douro, concelho, comarca, districto
administrativo, Bispado e proximo de Coim-
bra. Tem 900 fogos. Vide 2.º vol., pag. 352,
col. 4.2
SANTO ANTONIO O VELHO—freguezia,
Alemtejo, comarca de Moura, concelho de
Serpa. Vide Antonio Velho (Santo.)
SANTO CICO —portuguez antigo. —Parece
SAN
ser corrupção de Santo Ghico—santo peque-
no, santinho.
Chico, é tambem contracção
ou abreviatura de Francisco.
(Os castelhanos dizem Páco e
Páca—e Paquito, a, Francis-
quinho, a.
Não se confunda com Xico,
tambem portuguez antigo, que
significa sêcco.
No concelho de Leiria ha uma aldeia cha-
mada Santo Gico. N'ella reside Manuel da
Silva, que nasceu em 4770! Conserva em
bom estado as faculdades mentaes, e traba-
lha nas fazendas, como se tivesse 30 ou 40
annos.
SANTO EMILIÃO— Vide Emilião (Santo.)
SANTO ESTEVAM — Vide Estevam (San-
to.)
SANTO ESTEVAM DE BARROS— fregue-
zia, Minho, no concelho de Villa Verde.
Esta freguezia já fica descripta ne 1.º vol.
pag. 343, col. 2.º (o ultimo Barros) mas,
como depois da publicação do 4.º volume,
aconteceu aqui um cáso digno de nota, ac-
crescento-o n'este logar.
Julgo dever dar aqui uma sa-
tisfação aos meus assignantes,
e é a seguinte,
Depois de publicada a descri-
pção de uma freguezia, tem alli
logar, um ou mais factos dignos
de menção.
Não sei se Deus me dará vida
—e coragem—para uma 2.º edi-
cão, e, para que os meus lei-
tores não fiquem privados do
conhecimento d'esses factos,
quando tenho occasião de os
narrar, aproveito-a.
Tambem algumas vezes, no
acto de descrever uma fregue-
zia, não tenho conhecimento de
cousas importantes, que depois
pude vir a saber. Pratico então
o mesmo que faço nas terras
primeiramente ': mencionadas ;
de maneira que, em nenhum
dos casos ha repetições.
SAN
Havia n'esta freguezia de Barros, um pi-
co ou cabeço, sob o qual verdejavam algu-
mas campinas e arvoredos, regados com
aguas nascidas em differentes pontos do tal
cabeço.
Desde dezembro de 1878, notava-se que
a agua rebentava do pico em maior quanti-
dade, com grande força, sahindo turva, e
misturada com cinzas.
Em fevereiro de 1879, o pico tombou so-
bre os campos, arrazando-os, e arrastando
comsigo as arvores quê encontrava na sua
passagem, de maneira que hoje, onde exis-
tiram campos, se vê um”montão de terra
negra e pedregulho.
No leito onde assentava 0 pico, appare-
cem pedras carbonizadas, e no centro re-
benta um enorme cachão d'agua, que, mui-
tas vezes, vem misturadas com cinzas.
Ao logar d'este phenomeno geologico, tem
vindo muitas pessoas, para 0 observar: di-
zem uns, que é um volcão prestes a reben-
tar, o que tem assustado os povos da fre-
guezia; segundo outros, é um rio subterra-
neo, cujas aguas, comprimidas demasiada-
mente, produziram aquelle effeito.
SANTO ESTEVAM DE OLDRÕES— Já es-
tá descripta sob o nome de Oldrões (0.º vol.
pag. 219, col. 4.º) Accrescento:
Entre Gallegos e Oldrões, ao E. do logar
de S. Thomé de Cannas, estão dous montes,
com vestigios de fortificações antiquissimas.
Mais além, no sitio da Portella do Forno
dos Mouros, e a pouca distancia do leito da
via militar dos romanos (Tamacana-vra) se
encontram sepulturas de epoca remotissima,
cavadas na rocha, indicando ter alli existi-
do um almocabar (cemiterio) árabe.
A dous kilometros de distancia d'estas
sepulturas, está o CGrasto de Villa Bôa do
Bispo, sobre a margem direita do Tâmega;
e d'ahi a quasi egual distancia, estã o logar
de Caniva, que fica proximo às caldas de
Canavezes.
Passando a ponte d'esta povoação, se vêem
os restos do Grasto de Thuias.
Na freguezia de Oldrões, ha uma penha a
que dão o nome de Monte do Gastello de Pe-
|
SAN 999
nafiel, a qual (penha) tem 70 metros de al-
tura, e é de fórma cónica. Ao E. ha um des-
penhadeiro de grande altura. Para o lado
do O., onde a elevação não é tão grande, se
vêem algumas pedras toscas, levantadas ao
alto, as quaes se julga serem marcos divi-
sorios do concelho de Penafiel.
Ainda ao O. d'esta penha, ha um cabeço,
denominado Monte da Fórca. Entre este ca-
beço e o tal Monte do Castello, é situada à
grande quinta do Reguengo, onde existe um
casarão de cantaria, com 54 metros de com-
prido, 9 de largo e 18 d'alto, tendo na fa-
chada um brasão d'armas.
Nunca foi coberto.
Esta propriedade é hoje do sr. João Pei-
xoto da Silva Almeida e Macedo, de Guima-
rães, e feitô visconde de Lindoso, em 27 de
outubro de 1863. (É pae do sr. Gonçalo Ma-
nuel Peixoto da Silva, feito visconde do mes-
mo titulo, em 23 de agosto de 1871. É for-
mado em direito.)
SANTO ILDEFONSO — Vide Ildefonso
(Santo:)
SANTO ISIDÓRO—Vide Izidóro (Santo.)
SANTO ISIDÓRO, DE MAFRA — É a 2.2
descripta na 2.º col., da pag. 400, do 3.º vol.
No dia 15 d'agosto se faz n'esta fregue-
zia uma grande festa a Nossa Senhora da
Nazareth.
No anno do seu giro (das freguezias dos
saloios) tem logar aqui, o CGirio da prata
grande. Levam então a imagem da Santissi-
sima Virgem, à Nazareth, e vão visitar o si-
tio onde se deu o milagre de D. Fuas Rou-
pinho. (Vide Nazareth.)
As freguezias d'onde sãe o Girio da Na-
zareth, são 17.
É festividade sempre concorridissima.
SANTO OFFICIO ou TRIBUNAL DA IN-
QUISIÇÃO—A pag. 307, col. 2.º e a pag.
310, col. 2.3, do 6.º volume, na deseripção
da villa£de Ouguella, tratei de D. Beatriz da
Silva, e da origem da inquisição, e alli dis-
se o que sentiá com respeito a este tribu-
nal. 1
1 Tarrago y Mateos, escreveu dous ro-
mances—Ciumes de uma ruinha, e O dedo
de Deus, que é a sua continuação. Tudo
quanto alli diz dos amores de D. Beatriz da
600 SAN
Para mostrar a minha imparcialidade em
relação ao Santo-Ojjicio, transcrevo o artigo
principal do Correio da Tarde n.º 983, de
16 de agosto de 1875.
É como se segue:
«Vae ahi uma bulha liberal, sobre a In-
quisição. A verdade é atropellada impuden-
temente. Inculcam-se desejos e aspirações
que ninguem tem.
«A Inquisição é um facto historico, pura-
mente historico, e se a liberdade aboliu o
tribunal, a realidade ha muito que deixára
de ser temerosa.
«Na Gazeta de Lisboa de 24 de setembro
de 1820 foi publicada certidão do Notaria-
do-secreto-da-Inquisição, onde se diz, que
no dia 23, reunidos os Inquisidores e man-
dados ver os livros das prisões se verificou
não haver n'ellas nenhum preso.
«Já publicâmos este documento, o qual
demonstra bem, que a Inquisição era já por
fim mais um tribunal de correcção moral,
de censura, do que de correcção phisica e
punitiva.
«Portanto não se trata de resuscitar, o
que já tinha morrido, antes de nascer a li-
berdade da corrupção que se encarregou de
envenenar o corpo social.
«Assim, pois, a Inquisição é uma questão
de historia para ser tratada segundo os
principios da justiça.
«Diremos nós tambem a nossa opinião.
«Em absoluto não sympathisamos com a
instituição, e para os tempos de hoje julga-
mol a anachronica e sem utilidade, por um
lado, emquanto por outro podia produzir
lamentaveis excessos. Mas não nos atreve-
mos a condemnar as sociedades do passa-
do, que se julgaram na necessidade de se
defenderem contra as violencias materiaes
da propagação da heresia.
«Se nós comparamos a Inquisição com
todos os seus horrores, aos horrores da pro-
pagação do Protestantismo e de outras he-
Silva com o conde de Miranda (castelhano)
e do mais, em desabono d'esta virtuosissi-
ma portugueza, são calumnias com que o
auctor pretendeu enfeitar aquelles dous ro-
mances.
— 0.0 eee em (Ee
SAN
Tesias, a inquisição ficou muito áâquem da
tyrannia da inquisição protestante. |
«É considerar a historia de só dois pai-
zes—Suecia e Inglaterra.
«Um dos vultos negros que a historia
protestante e liberal costuma apresentar
como typo do caracter inquisitorial mais
sanhudo e troculento, é Filippe II de Hespa-
nha, a quem se chama o Demonio do Meio-
dia.
«Por outro lado um dos grandes homens
desta historia é Gustavo Vasa, da Suecia—
heroe, quasi um modelo de virtudes.
«Ora Gustavo Vasa plantou o Protestan-
tisrço na Suecia, derramando rios de san-
gue, usando da ingratidão mais negra, das
traições mais infames, dos supplicios mais
horrendos.
«Comparativamente a Hespanha de Fi-
lippe, era uma casa de paz e de ordem a par
da Suecia de Gustavo.
«E que diremos da Inglaterra de Henri-
qne VIII e de Isabul, dois monstros coroa-
dos, dois santos da historia liberal e secta-
ria? Pois a Inquisição dos paizes catholicos
tem lá comparação com a inquisição protes-
tante ingleza?
«Sim; exagerae algarismos, colleccionae
processos, apontae negruras, a tyrannia nos
paizes catholicos, nunca, nem de longe, em-
parelhou com a protestante.
«Basta apontar a Irlanda sujeita à tyran-
nia de trez seculos, onde toda a cpposição
era frequentemente afogada em rios de san-
gue, tyrannia a mais horrenda, porque che-
gou ao excesso de pretender in!roduzir a
corrupção e a dasordem na familia, orde-
nando por lei, que o filho que abjurasse o
catholicismo, entrasse na posse de todos os
bens da familia, pondo na rua e na miseria
paes, irmãos, e toda restante familia!...
«Era uma tyrannia mais oppressôra, mais
infame que a das fogueiras da Inquisição.
«Assim que essas elurubrações sobre as
tyrannias desta, são partidarias, mentirosas
e anti-patrioticas. Tendem a diffundir idéas
falsas, desamor pelo passado, que, se teve
males, tambem teve bens, cujos effeitos, ape-
zar do hodierno desbarato da fazenda, da
honestidade e do respeito publico, hoje mes-
SAN
mo se fazem sentir. São partidarias e men-
tirosas, porque tendem a fazer crer, —1.º que
os paizes catholicos foram os mais flagella-
dos pela tyrannia; e é falso — 2.º, porque
tendem a insinuar, senão a accusar, de in-
tenções ou desejos de restabelecer o famoso
tribunal, que ninguem nutre nem podia
sensatamente nutrir. y
«Póde porêm fazer-se justiça á Inquisição
e se ella fez o mal, como 10, péde a justiça,
que se lhe não attribua esse como 20 ou
mais. Para nós a liberdade não sê aquilata
pelas declamações contra a tyrannia, mas
pelo amor dá verdade e da justica.
«Ora, pede justiça dizer-se que a Inquisi-
ção foi vpposta à violencia e terror albigen-
se e protestante; que estas seitas, tendo to-
mado um caracter politico, a Inquisição as-
sumiu tambem, por força de reacção, um
caracter accentuado de nacionalismo, que
fez d'ella insirumento de governo temporal,
perdendo, ou diminuindo o seu caracter de
tribunal puramente religioso; que com ella
os poderes sociaes quizeram defender não
só a unidade religiosa, senão tambem a or-
dem social.
«E, note-se bem, emquanto os rios de san-
gue, derramados pela Inquisição protestan-
te, conseguiram apenas impôr uma religião
nova por sobre ossadas de myriades de mar-
tyres, sem conseguirem a unidade religiosa,
é um facto, que as nações francamente ca-
tholicas conservaram, sem tantas'desordens,
nem sangue derramado, nem tyrannias tão
horrendas, a unidade religiosa, bem maxi-
mo de que ainda não sabemos apreciar todas
as felizes consequencias. O que teriam sido
as nossas discordias civis, se a ellas se vies-
sem juntar as sectarias mais odientas ainda?
«Barafuste pois ahi a má fé liberal. Aqui,
sem amor, mas respeitando os motores da
politica de outros tempos, julga-se o passa-
do com imparcialidade e amam-se as cir-
cumstancias que podem desculpar érros
para assim dizer fataes, e comparações que
mostram os nossos maiores, melhores e mais
christãos, do que os povos, admirados pelo
liberalismo.
«Mas-ha um facto para o qual chamamos
a attenção de todos os que não afogaram
SAN 601
ainda em paixões odientas os sentimentos
patrioticos. A Inquisição foi quanto dizeis,
muito embora; mas como é que o povo por-
tuguez ficou o povo mais verdadeiramente
civilizado, isto é, mais naturalmente sujeito
à lei, dominado pelo respeito da auctorida-
de, naturalmente amigo e sustentador da
ordem social, sem perder aquella hombri-
dade, energia e amor da Patria que tanto
brilharam ainda nas épicas campanhas da
Guerra Peninsular?
«Ah! respeito aos maiores, foi sempre o
distinctivo de todos os grandes povos. O li-
beralismo quer extinguir esse sentimento,
cuidando, que só assim póde consolidar à
sua obra. Miseravel obra, que de taes pros
cessos carecel
«Ainda uma observação. À Inquisição ro
mana é um tribunal muito diffvrente das
Inquisições nacionaes dos paizes catholicos;
aquella investiza e condemna os êrros, e
por isso existe e permanece apesar da bre-
cha da Porta-Pia. É um direito e um dever
do Pontificado. E mesmo sob o dominio
temporal dos Papas, bem que então assu-
misse tambem o caracter de tribunal civil,
sempre as suas fórmulas foram as da justi-
ça regular, de ordinario com grande avan-
ço sobre as fórmulas criminaes dos outros
povos. Vemos, porém, ahi fazer-se adrede
uma confusão, que não passa de uma arti-
manha immoral e indecente,
«Com o que levamos dito respondemos ás
eructações da imprensa liberal e anti-patrio-
tica, que anda, não em discussão séria e im-
parcial, mas em arruaças de typos contra a
Inquisição, parecendo pela indignidade dos
meios, que só assim podem combater essa
instituição,de outros tempos.
«Sempre as mesmas trapalhices e sophis-
mações; não vivem de outra cousa.»
Foi o cardeal D. Henrique, irmão de D.
João 3.º 1 que estabeleceu em Portugal, pe-
1 D. Henrique, 8.º filho do rei D. Manoel,
e de sua 2.º mulher, a rainha D. Maria, fi-
lha dos reis catholicos, Fernando e Isabel,
nasceu (D. Henrique) em 31 de janeiro de
1512. Foi acelamado rei de Portugal, em
1578, e morreu na villa de Almeirim (em
602 SAN
los annos de 1538, o tribunal da Inquisição,
depois de vencer muitas difficuldades, pela,
opposição que lhe fizeram os judeus de Ro-
ma.
O primeiro auto de fé publico que houve
n'este reino (em Lisboa) foi em um domin-
go, 20 de septembro de 1540, na Ribeira-
Velha, em frente do Terreiro do Trigo. Foi
presidido por D. Henrique, que era inqui-
sidor-geral.
Assistiram quasi todos os fidalgos que es-
tavam então em Lisboa, e a maior parte do
povo da cidade.
Eram 23 os condemnados.
A 6 de maio de 1543, houve um auto de
fé, em Thomar, presidido pelo Dom prior
da ordem de Christo. Eram oito condemna-
dos.
Em 20 de junho de 1545, houve outro
auto de fé em Thomar. Eram 44 condemna-
dos.
Em 12 de novembro de 1662, houve um
auto de fé, na cidade d'Evora, sendo cen-
to e vinte os condemnados (73 mulheres
e 47 homens.)
Em 23 de junho de 1663 (estando D. João
d'Austria senhor da cidade) houve em Evo-
ra outro auto de fé. Foram cénto e qua.
renta e trez condemnados (92 mulhe-:
res e 51 homens.)
Desde 1582 até 1593, foram presas em
Campo-Maior, por suspeitas de heresia, per-
to de mil pessoas, d'ambos os sexos.
Destas, foram queimadas vivas, em Evo-
ra, 18 (15 mulheres e 3 homens.) Estes des-
graçados eram — Isabel Alvares, parteira,
suas filhas, e os outros seus parentes.
O pontifice Clemente VIII, por breve de
23 de agosto de 1604, deu um perdão geral
a todos os chrisiãos novos. Este breve foi
lido publicamente na Sé de Lisboa, a 46 de
janeiro de 1605.
Em consequencia d'este perdão, foram
soltos 70 homens e 85 mulheres, que esta-
vam presos em differentes carceres do San-
to-Officio. Mas ficaram presos muitos, jul-
frente de Santarem) a 31 de janeiro de 1580,
eom 68 annos exactissimos de edade. Vide
Almeirim.
SAN
gados relapsos, que foram excluidos do per-
dão.
Este breve foi sollicitado pelo usurpador
Philippe 3.º, não por caridade, mas por am-
bição, e para haver dos desgraçados judeus
convertidos (christãos novos) um mií-
lnão d'onro e 899:090 cruzados.
Além d'isto receberam:
O duque de Lerma 50:000 cruzados.
D. João Borja, 40:000 cruzados.
Fernão de Mattos, 30:000 cruzados.
Isto somava mais de quatro milhões
(1:600 contos) da nossa actual moeda!
Apezar d'este perdão, a crueldade dos in-
quisidores não diminuiu nem afroixou. (No-
te-se que eu não menciono aqui grande mu-
mero de autos de fé, ou porque os castigos
não eram tão barbaros, ou por ser pequeno
o numero dos condemnados.)
Em 46 de outubro de 1667, houve na ci-
dade de Evora um auto de fé, no qual sahi-
ram 216 condemnados (132 mulheres e 84
homens.)
Msnoel Rodrigues Sanches, tintureiro,
morador em Cabeço de Vide, da edade de
140 annos, era um dos condemnados, porém
morreu nos carceres da Inquisição, e foi
absolvido depois de morto.
Tambem n'este auto, figurou Leonor Go-
mes Bértola, de 100 annos de edade!
Jácome de Mello Pereira, natural de Lis-
boa, fidalgo da casa real, cavalleiro do ha-
bito de Christo, capitão de cavallaria, e mo-
rador em Elvas, foi entãojgarrotado e depois
queimado.
Era um bravo militar, e que tinha feito
muitos e assignalados serviços ao rei e à pa-
tria, na guerra da restauração.
Este homem era um sollícito perseguidor
dos herejes e christãos-novos, e elles, em
desforra, accusaram-o e a sua mulher, D.
Brites de Carvalho, e seus dous filhos.
A mulher e os filhos, atormentados pelos
tratos que lhes fizeram sofrer, confessaram
que seu marido e pae era hereje; mas nem
assim se livraram de figurar no auto, e de
serem açoitados publicamente.
O Perto, foi uma das teras mais felizes de
Portugal, durante o tempo da Inquisição.
SAN
Este tribunal foi alli estabelecido, em 13 de
outubro de 1544, mas foi supprimido pela
bulla do papa Paulo 3.º, de 146 de julho de
1547.
Só ha noticia de ter havido um auto de
fé, n'esta cidade: foi a 14 de fevereiro de
4543, no campo junto à Porta do Sol.
Fizeram-se trez cadafalsos como os de
Lisboa e Evora. Eram 84 condemnados—4
foram queimades—21 foram queimados em
estatua, e o resto sentenciados a varias pe-
nas.
Caleulou-se em 30:000 pessoas, do Porto
e de fóra, que foram ver este espectaculo !
O auto de fé e a queima durou até ás 5 ho-
ras da tarde. «
Era inquisidor do Porto, o bispo da dio-
cese, D. frei Balthazar Simpo.
No auto de fé, celebrado em Lisboa (no
Terreiro do Paço) a 26 de outubro de 1664,
sahiram 23% pessoas (122 homens, e 115
mulheres.) Morreram 6 homens e 2 mulhe-
res.
N'este auto figuraram duas raparigas de
15 annos, 5 de 46, 6 de 47, 3 de 18, e outras
de 19, 20 e 21!
Brites da Fonseca, mulher de Antonio Lo-
pes, mercador (naturaes de Trancoso) foi en-
tão queimada. Tinha apenas 47 annos!
Em um domingo, 28 de novembro de 1621,
houve trez autos de fé—um em Lisboa, ou-
tro em Coimbra, outro em Evora. Sahiram
3% condemnados, e d'estes foram queima-
dos 29 em corpo, e 21 em estatua.
A Inquisição de Lisboa, sahiu com 96
condemnados (59 homens e 37 mulheres.)
Cinco homens e trez mulheres, foram quei-
mados em corpo, e trez em estatua. O auto
foi no Rocio.
A Inquisição d'Evora, sahiu com E90 con-
demnados. Sete mulheres e dous homens
foram queimados em corpo, e seis em es-
tátua. O auto foi na Praça Grande..
A Inquisição de Coimbra, sahiu com 1% 4
condemnados (100 mulheres e 74 homens.)
Foram queimados em corpo 8 homens e 4
mulheres; e em estatua 12.
SAN 603
Este auto teve togar na Praça, e durou
trez dias consecutivos.
Foi notavel este auto de fé, porque faziam
parte d'elle, muitas pessoas de grande re-
presentação, e familias inteiras.
No auto de Lisboa assistiram os governa-
dores do reino, por o usurpador, Philippe
3.º, e era inquisidor-geral, D. Fernão Mar-
tins de Mascarenhas.
Em Evora, choveu todo o dia, mas isto
não estorvou os inquisidores, nem a agua
apagou as fogueiras em que arderam os
desgraçados.
No auto de Goimbra, accenderam-se 24
fogueiras, 12 para os queimados em corpo,
e 12 para os queimados em estátua.
Tambem foram queimados os ossus dos:
que, à força de tormentos, tinham morrido
nos carceres,
- Foram queimadas familias inteiras—vgr.
—Francisco Dias, o Chorão, serigueiro, foi
queimado com sua cunhada, Catharina Lo-
pes, uma filha desta, por nome Maria Fi-
gueirõa, de 22 annos de edade; seu irmão,
(do Chorão) Diogo Dias, e sua irman, Phi-
lippa Duarte.
Todos os filhos de Francisco Dias, sahi-
ram penitenciados, assim comoo licenciado
Antonio Dias de Almeida (que-era filho de
Catharina Lopes) que foi sentenciado a pri-
são perpetua.
No auto de 3 de agosto de 1603, celebra-
do na Ribeira Velha, de Lisboa, foi quei-
mado vivo, frei Diogo da Assumpção, fran-
cisçano. O crime d'este desgraçado, era não
ser perseguidor dos christãos-novos.
No mesmo logar foi tambem queimado
vivo, o doutor Antonio Homem, a 5 de maio
de 1624.
Em 13, 14 e 15 de fevereiro de 1667,
houve outro auto em Coimbra, no qual sa-
hiram 293 condemnados (139 homens é
134 mulheres.) cinco homens e quatro mu-
lheres, foram queimados.
A maior parte d'estes infelizes eram trans-
môntanos (de Bragança e Villa-Flôr.)
Na provincia de Traz-os-
“Montes, foi onde houve mais
Y
604 SAN
victimas da Inquisição. Fami-
lias inteiras hiam para os car-
ceres.
O famosissimo padre Antonio Vieira, da
Companhia Jesus, que tambem tinha sido
perseguido e preso pela Inquisição, estando E
em Roma, tanto lidou, que conseguiu do
papa Clemente X, um breve, datado de 3
de outubro de,1674, mandando fechar as
inquisições de Portugal, e este breve foi
cumprido.
O ultimo auto de fé, celebrado antes da
publicação do referido breve, teve logar
no Páteo de S. Miguel, em Coimbra, a 18 de
novembro do mesmo ahno de 1674.
Chegado o breve a Lisboa, o nuncio o no-
tificou ao conselho geral do Santo-Officio, e
este mandou aos inquisidores de Coimbra,
que não celebrassem o auto que estava mar-
cado; mas depois, veio segunda ordem, para
que o auto sahisse, mas sem relaxados es-
tatuados, nem afogueados.
Sahiram 40 penitentes (54 homens e
86 mulheres) mas foram perdoados, e a ne-
nhum se confiscaram os bens.
Só sete annos incompletos estiveram sem
exercicio os inquisidores!
O papa Innocencio XI, pela bulla de 22
de agosto de 1681, e que chegou a Lisboa,
logo a 21 de setembro, mandon que o Santo
Officio continuasse a funccionar como an-
“tes de 1674. ;
A cidade de Lisboa, festejou a chegada
desta bulla, com foguetes, luminarias, e re-
piques de sinos, durante trez dias.
Até esta época, tenho men-
cionado E:642 victimas da
Inquisição, em Portugal, mas
“não fallei senão dos autos de
fé mais notáveis; todavia, os
mortos ou perseguidos por
este truculento tribunal, as-
cendem a alguns milhares.
Depois da publicação da bulla de Inno-
cencio XI, o primeiro auto de fé, teve logar
SAN
em Coimbra, à 48 de janeiro de 1682. Sahi-
ram 6% penitentes (27 homens e 40 mulhe-
res—7 d'estas foram queimadas!)
O segundo, foi em Evora, a 15 de feve-
reiro. Sahiram 109 penitentes (58 mulhe-
res e 51 homens--um destes foi queimado!)
Finalmente, não quero cançar o leitor com
a descripção das frequentes scenas de que
foram theatro as praças de Lisboa, Evora,
Coimbra, Porto e Braga, esque ainda hoje
nos enchem de horror.
Havia cinco classes de criminosos, que
eram infallivelmente condemnados à morte;
uns queimados vivos, outros enforcados, ou
garrotados, e depois queimados, Eram:
1.º— Diminutos—os que não confessavam
todos os crimes de que eram accusados. 1
2º—Simulados—os que se aceusavam nos
tormentos, de crimes que não haviam com-
mettido e de que ninguem se lembrára de
os accusar.
3.º—Negativos—os que, ainda apezar das
mais atrozes torturas, negavam os crimes
de que eram accusados, e protestavam pela
sua innocencia.
4.º—Revogantes—os que, tendo confessa-
do durante as torturas, os crimes que lhes
attribuiam, os negavam quando se viam li-
vres dos tormentos.
d.º—Contumazes — os judeus, que, ainda
no meio das mais barbaras torturas, presis-
tiam firmes na religião de Moyses. Estes
eram todos queimados vivos!
Vide Sambenito.
Principio do Santo-Officio
segundo Paulo Féval
D. Miguel Gutierres Saavedra, nasceu em
Córdova, no anno de 1509. Era filho do ca-
1 Nunca se dizia aos réus de que crimes
eram accusados, nem quem eram as teste-
munhas que haviam deposto contra elles. A
maior parte dos infelizes, à força dos mais
horrorosos tormentos, confessavam crimes
que nunca tinham commeittido, nem pensa-
do de commetter, na esperança de se eximi-
rem ás torturas; mas como ignoravam os fa-
ctos de que eram accusados, não fallavam
n'elles. Estes eram julgados diminutos.
EEE esses 2.2.2". es
SAN
pitão de um terço de infanteria, de sangue
nobre, como D. Auna de Guadagno, sua mu-
lher.
Estes esposos, deram ao filho uma esme-
rada creação, e sempre bons exemplos; mas
elle mostrou, desde tenra edade, más incli-
nações.
D. Miguel, escrevia com a maxima per-
feição, e a sua calligraphia era excellente;
mas, abusando da sua habilidade, principiou
a forjar bullas apostolicas, decretos regios,
provisões, letras de cambio, etc., etc.
Imitava toda a qualidade de letra com
tanta perfeição, que illudia a todos, e arran-
jou para s1 uma carta de commendador de
S. Thiago, com a renda de 3:000 ducados
por anno.
Tambem com uma provisão regia escripta
por elle, levantou do deposito publico a
quantia de 360:000 ducados.
Com o producto das suas falsificações,
tratava-se com o maior esplendor, e per-
correu as differentes provincias de Castella,
com um luxo principesco.
Tanta sumptuosidade, causou suspeitas, *
e Saavedra, que o presentiu, ausentou-se
para Portugal, onde não era conhecido; mas
trazendo de toda a sua numerosissima crea-
dagem, apenas Franco Calderon, tão velha-
co como seu amo; e tão dextro em tocar
guitarra, como em manejar o punhal.
Mas Saavedra tinha dissipado muitos mi-
lhares de ducados, com a mesma facilidade
com que os havia adquirido, e entrou em
Portugal quasi a pedir/esmola. Vinha porém
lJuxuosamente vestido, tinha as maneiras
mais distinctas, e uma figura sympathi-
ca.
Entrára n'este reino por Aldeia-Velha, no
Riba-Côa (proximo ao Sabugal) e no dia 20
d'agosto de 1539, chegou à Covilhan, e foi
hospedar-se na melhor estalagem da terra,
“como era o seu costume,
O hospedeiro, cheio de orgulho, por dar
acolheita a tão grande figurão, tratou-o o
melhor que pôde, muito mais, quando Saa-
vedra lhe disse que vinha encarregado de
uma missão secreta para o rei de Portugal,
mentira que foi facilmente acreditada pelos
covilhanenses, que á porfia o convidavam
SAN 605
para festas e reuniões, onde era optimamen-
te recebido, pelas suas maneiras.
Estava por esse tempo na Covilhan, o
padre Antonio de Lacerda, da Companhia
de Jesus,! eximio prégador, e homem de
grande saber, e que, segundo constava, tra-
zia um breve apostolico que o auctorisava
a fundar em Portugal, um collegio da sua
ordem. 2
Saavedra convidou um dia este padre para
jantar, e o convite foi acceite com prazer:
No fim do jantar, Saavedra mostrou ao
jesuita um pergaminho (por elle forjado)
no qual o papa Paulo 3.º o instituia seu le-
gado à latere, para estabelecer n'este reino
o tribunal da Inquisição.
Saavedra arranjára na Covilhan, pela sua
habilidade infernal, uma bôa somma de di-
nheiro, e com estes recursos, se foi a Sevi-
lha, onde arranjou um secretario e um mór-
domo, comprou liteiras, baixella de prata, é
um fato de cardeal romano.
Mandou Calderon a Granada angariar
creados, com ordem de se lhe reunirem em
Badajoz, fazendo publico na sua passagem,
que eram famulos de um cardeal romano,
que vinha estabelecer a Inquisição em Por-
tugal.
Além da bulla que o instituia legado á
látere, tinha tambem forjado cartas de apre-
sentação, do imperador Garlos V, e de seu
filho D. Philippe, para D. João III, de Por-
tugal.
Saavedra, pussou alguns dias em Badajoz,
recebendo dos habitantes d'esta cidade os
maiores testemunhos de respeito.
D'alli mandou Calderon a Lisboa, com a
| bulla e as cartas, para que a córte, preve-
nida da proxima chegada, fizesse os neces-
sarios preparativos para receberem um prin-
cipe da egreja, com as honras que lhe eram
devidas.
D. João III mandou logo à raia, um gran-
de fidalgo da sua córte, chamado D. Rumon
1 Pouco tempo antes d'este acontecimen-
to, tinha o pontifice Paulo 3,º confirmado o
instituto da Companhia de Jesus.
2 A Companhia de Jesus, tinha sido insti-
tuida em 4534, por Santo Ignacio de Loyo-
la. t
606 SAN
Tellez da Valdanha 1 para receber o falso
Jegado do papa, o qual fez a sua entrada
solemne em Lisboa, no meio das maiores
festas, e sendo esperado pela maior parte
dos Jlishonenses, com tanto enthusiasmo
como 272 annos depois (2 de dezembro de
1811) foram ver o homem das botas.
Saavedra, apresentava-se perfeitamente, e
o rei e a côrie lhe tomaram grande affei-
ção.
Instituiu-se o tribunal, mas ainda não
funceionava, e o fingido cardeal hia tirando
do lhesouro publico grandes quantias, para
sustentar um luxo deslumbrante.
Mas Saavedra era muito perspicaz, e bem
via que isto não podia durar muito tempo,
e que, mais dia, menos dia, se vinha a des-
cobrir a traficancia.
Sahiu pois de Lisboa, com os seus fami-
Jiares, sob pretexto de visitar differentes
terras do reino, e estabelecer n'ellas a In-
quisição, e, à medida que nomeava o pes-
soal para o Santo Officio, hia recebendo
grandes sommas, dos christãos-novos e dos
herejes, com o que chegou a juntar consi-
deraveis riquezas.
Certo dia do mez de janeiro de 1540, es-
tava Saavedra em Nieva do Guadiana 2 mui-
to descançado, em casa do parocho, quando
esta apparece cercada por aguazis, que 0
levam preso para Madrid, apanhando-lhe
250:000 ducados, que elle tinha extorquido
aos judeus e christãos novos.
(Elle não impunha senão
1 Resumo esta noticia da origem da In-
quisição em Portugal, dos Tribunaes secre-
tos, de Paulo Féval. O que não sei, é onde
o famoso escriptor francez foi buscar um
nome tão exquisito com que chrismou o
grande fidalgo! Nome e appelidos que ne-
nhum genealogista ou historiador portu-
guez menciona nas suas obras
2 Povoação desconhecida na Chorogra-
phia portugueza. Féval quereria dizer Ne-
ves?—A freguezia das Neves (ou Nossa Se-
nhora das Neves) é no concelho e 6 kilome-
tros ao E. de Beja, mas fica 18 kilometros
ao O. do Guadiana, e nunca se chamou Ne-
ves do Guadiana. à
Féval fez de um facto historico, um perfei-
to romance e desencantou figuras e terras
que só existem nos seus Tribunaes secretos.
SAN
penas pecuniarias aos que
lhe cahiam nas garras.)
Foi sentenciado a galés, por toda a vida;
porém no fim de 19 annos de galés, teve ar-
tes de conseguir do papa Paulo IV, um bre-
ve de perdão — (um verdadeiro breve) —em
vista do qual, Philippe II o mandou pôr em
liberdade, mandando-o vir à corte, para ou-
vir da sua propria boca, a historia da sua
vida e façanhas.
Segundo alguns escriptores, Miguel Gu-
tierres Saavedra, era primo do famoso Mi-
guel de Cervantes Saavedra, auctor do D.
Quichôte.
O que é certo, é que a Inquisição, apezar
de instituida por um impostor, e com bul-
las falsas, ficou subsistindo em Portugal,
como se fosse legalmente fundada; porque
D. João III impetrou do papa um breve de
approvação de tudo quanto Saavedra tinha
feito!
Eis em resumo o que diz Paulo Féval,
nos seus Tribunaes secretos, e o que corre
como facto verdadeiro em muitos livros. É
por isso que eu aqui extrahi o essencial
d'aquelle bello romance, no qual o auctor
faz figurar duas amantes de Saavedra—uma
formosa camponeza, chamada Joanna, dos
arrabaldes de Córdova, e uma joven portu-
gueza, viuva do conde João de Vasconcéllos
e Sousa—figurão de que não rezam os nos-
sos genealogicos, ainda que, pelos appelli-
dos, parece pertencer à nobilissima casa
de Castello Melhor.
Notemos, porém, que em 1540 ainda os
Vasconcellos não tinham o titulo de condes,
o qual só lhes foi dado d'ahi a 36 annos
(20 de agosto de 1576) pelo rei D. Sebastião,
neto de D. João III.
Tambem alli apparece um papa-jantares
castelhano, governador da praça de Bada-
joz, e conde de Villa Nova de Barca-Rôta,
provavelmente tão identico como a condes-
sa de Vasconcellos.
Este conde, desde que Saavedra chegou
ao Alemtejo, nunca mais o largou um só
momento, abandonando o governo da praça
que Carlos V lhe confiára, é que dista nada
SAN
menos de 130 kilometros ao S. E. da tal
Nieva do Guadiana!
Depois, passou o conde, de amigo insepa-
ravel, e conviva permanente, a relés Dele-
guim, marchando para Madrid, à frente dos
agentes da Inquisição.
Qutro desproposito de Féval*O impostor
foi preso em terra portugueza, e por bele-
guins portuguezes, e o auctor dos Tribu-
naes secretos, arrasta-o para, Madrid !—O
homem, quanto a mim, está pouco pratico
em geographia, e em direito internacional.
Eis a introducção do Santo-officio em Por-
tugal, segundo a historia :
Henrique IV de Castella, teve de sua mu-
her, D. Joanna de Portugal (filha do nosso
rei D. Duarte) uma unica filha, D, Joanna,
que devia herdar o throno, do qual foi es-
bulhada, por casar com o nosso rei D. Affon-
so V, e D. Joanna, com o titulo de Excellen-
te Senhora, é mettida em um mosteiro de
Santarem (4479) tonde falleceu com fama
de religiosa exemplarissima.
Herdou o throno de Castella, a infanta
D. Isabel, irmão de Henrique [V, que. casan-
do com D. Fernando, rei do Aragão, se uni-
ram os dous reinos, sob o reinado de Fer-
nando e Isabel—os reis catholicos. 2
Henrique II, irmão bastardo, assassino e
suecessor de D. Pedro I (o Cry) de Castella,
tinha expulsado do seu reino, grande nu-
1 Vide n'este volume, paginas 505.
2 D. Henrique IV, era filho do primeiro
matrimonio. Seu pae passou a segundas nu-
pcias, e teve d'este casamento, D. Isabel,
que herdou o throno e foi a grande rainha.
Isabel, que casando com D. Fernando, rei
de Aragão, foram os famosos reis catholicos,
que alem de unirem os dous reinos (Cas-
tella e Aragão) expulsaram os mouros do
reino de Granada, unico que na Peninsula
possuiam ainda os agarenos.
D. Isabel foi a maior e a mais esclareci.
da rainha que tem tido a Hespanha.
D. Henrique IV e D. Isabel, tinham ainda
outro irmão, mais novo do que esta trez an-
nos, por nome D. Affonso, tambem filho do
segundo matrimonio, que morreu de 15 an-
nos de edade, em vida de seu irmão, e por
isso não chegou a ser rei.
A princeza D. Joanna (a Excelente Se-
nhora) não foi só excluida do throno, por
SAN 607
mero de judeus, a maior parte dos quaes, se
vieram estabelecer em Portugal.
Um dos primeiros actos de Fernando e
Isabel, logo que occuparam o throno, foi a
expulsão total dos judeus, em 1485.
O nosso D. João II, que era um principe
illustrado, concedeu a sua protecção aos ex-
patriados, attendendo a que era gente mui-
to industriosa, e sobre tudo, que passuia
grandes riquezas, que ao rei convinha não
deixar sahir de Portugal.
Só 12 annos, porém, gozaram os infelizes
judeus esta paz relativa; porque, em 1497, o
rei D. Manuel (primo, cunhado e successor
de D. João II) para casar com a princeza D.
casar com o nosso D. Affonso V. (+) Houve
mais dous motivos que moveram os caste-
lhanos a preferirem a irman, à filha de Hen-
rique IV. —Elles lembravam se que uma
das razões porque nós exeluimos do throno
portuguez a rainha D. Beatriz, mulher do
seu D. João I, foi porque era geral neste
reino a opinião de que D. Beatriz não era
filha de D. Fernando I, mas adulterina de
João Fernandes Andeiro, fidalgo gallego, que
D Fernando (ou D. Leonor Telles de Me-
nezes) tinha feito conde de Ourem. Para se
desforrarem d'isto levantaram a calumnia
de que D. Joanna, não era filha de D. Hen-
rique IV, mas tambem adulterina de D. Bel-
trão de la Cueva, duque de Albuquerque,
um dos mais nobres fidalgos de Castella; e
por isso davam à D. Joanna o alcunha de
Beltraneja.
O que é certo é que, segundos historia-
dores mais conscienciosos de Castella, D
Joanna de Portugal, foi uma rainha exem-
plar e virtuosissima.
A segunda razão, é porque ainda então
(e mesmo hoje!...) estava fresca na memo-
ria des castelhanos a derrota monumental
que soffreram em Aljubarrôta, em 44 de
agosto de 1385; e não podiam levar à pa-
ciencia o serem vassallos do neto do Mestre
d'Aviz (o nosso D. João 1).que com o seu
valor e o dos seus dedicados portuguezes
arrancou das suas garras, d'elles, a melhor
joia da sua corôa—Portugal—o sonho doi-
rado de todos os castelhanos, passados, pre-
| sentes e futuros.
(+) Ainda então não existia em Castella a
lei salica, que excluia do throno as filhas
dos seus reis. Esta lei só foi promulgada no
fim do seculo xvir, por D. Philippe V, e por
decisão das côrtes geraes que este sobera-
no, para isso, havia convocado.
608 SAN
Isabel de Castela, filha primogenita e her-
deira dos reis catholicos, e. viuva do nosso
infante D. Affonso, filho de D. João II (vide
Santarem, no anno 1491-—142 de julho) ac-
ceitou a, condição, imposta pela princeza,
de expulsar de Portugal, todos os mouros é
judeus.
A ambição de unir as co-
rôas de Portugal e Castella, e
Se fazer imperador da Penin-
sula, o fez subscrever.ao ca-
pricho de D. Isabel, deixando
assim sahir de Portugal as
grandes riquezas dos judeus.
Mas só conseguiu esta grande
perda para o reino, porque
D. Isabel morreu de parto em
Zaragoça (1498) e seu filho,
D. Miguel da Paz, pouco lhe
sobreviveu, e assim se foram
as esperanças da união ibe-
rica.
"Foram excluidos da proscripção, os ju-
deus e mouros, que—ou fingida, ou since-
ramento —se covertessem ao christianis-
mo.
Como o rei tirava aos expulsos os filhos
menores, para serem baptisados e educados
na Fé Catholica, grande numero de judeus
se baptisaram, para não abandonarem seus
filhos; mas occultamente, seguiam a lei de
Moysés. Eraça estes e aos filhos, que se deu
a denominação de christãos-novos.
Todavia, era tristissima a existencia d'es-
tes christãos, feitos à força, porque o povo
os olhou sempre com ódio e desprezo, e fre-
quentemente eram espancados e até mortos,
pelos christãos-velhos. 1 Só nos dias 19, 20
e 21 d'abril de 14506, foram assassinados
pelo povo de Lisboa, uns 4:000 christãos-
novos. (Vide 4.º vol., pag. 141, col. 4.2)
Ao rei D. Manuel, succedeu seu filho, D.
João III, que ainda odiava mais os judeus,
do que seu pae, e principiou o seu reinado,
mandando-os espiar, para saber se elles ju-
1 Mal diriam os portuguezes de então, que
SAN
diavam,! e recommendava a maior cautel-
| Ja, para que nenhum homem de nação (chris-
-tãos-novos) podesse ser presbytero, nem
mesmo exercesse.empregos publicos.
Na Hespanha estava já estabelecida a In-
quisição, e os christãos-novos -ou herejes
que lã se podiam subtrahir aos tormentos e
às foguejras, emigravam para 0 estrangei-
ro, vindo muitos para P ortugal.
Os procuradores do povo, queixaram-se
d'isto ao rei, que, em 4531, impetrou do
papa Clemente VIL um breve, para em Por-
tugal se estabelecer a Inquisição. A bulla
sollicitada foi expedida, a 147 de dezembro
de 1531, nomeando logo inquisidor-geral,
Diogo: da Silva.
Mas os judeus eram poderosos, e tinham
em Roma amigos dedicados, que, à força de
dinheiro, poderam conseguir que o mesmo
pontifice expedisse, a 17 de outubro de 1532,
outro breve, annullando o anterior.
D. João III empregou então os maiores
esforços (e parece que tambem muito di-
nheiro) para que o papa annullasse o ulti-
mo breve.
Os judeus e ehristãos novos revolveram
tudo, e gastaram tambem grandes sommas,
para que se cumprisse o mesmo breve.
Venceram os embaixadores do rei, e Pau
lo II, successor de Clemente VII, expediu,
em 23 de maio de 1536, uma bulla que de-
terminava a fundação definitiva do Santo-
Officio em Portugal.
Eis aqui o que ha de verdade, quanto à
instituição do truculento Santo-Officio, e
desfeito o bello enredo com que Paulo Fé-
val rómantizou um Saavedra imaginario,
que apparecêra pela primeira vez na Histo-
ria da Ingnisição, de Luiz Paramo, depois,
na Historia da Inquisição, de Llorente, e em
outros mais livros, como cousa certa e ave-
riguada; pelo que, ainda hoje é geralmente
acreditada na Europa, a lenda de Miguel
Gutierres Saavedra, como cousa verdadeira
e incontestavel; e isto serve de desculpa ao
d'ahi a 443 annos, seria acclamado rei de |
Portugal, um descendente de mouros e ju-
deus!...
1! Judiar, queria dizer — seguir a lei de
Moysés.
SAN
engano de Paulo Féval, que acreditou em
escriptores sérios que o precederam.
Este artigo iá vae bastante longo e eu não
quero enfadar mais os leitores: terminal-o-
hei pois dizendo:
Em 17608, D. JoséI— ou, para ser mais
exacto, o conde de Oeiras— 1 institue o tri-
bunal da mesa censoria, e no mesmo anno
decreta a abolição da odiosa distincção en-
tre christãos novos e velhos; mas, no anno
seguinte concede ao tribunal do Santo-Offi-
cio, o tratamento de magestade!
Em 4773, é abolida a escravatura em Por-
tugal, e é publicada tambem uma segunda
lei, abolindo toda a differença que ainda
existia entre christãos velhos e novos.
-Mas o conde de Oeiras restringiu muitis-
simo os poderes da Inquisição. As suas sen-
tenças capitaes não podiam ser executadas
sem beneplacito regio (que, valha a verda-
de, rarissimas vezes lhe era concedido) e —
o que mais sentiram os inquisidores— os
bens sequestrados aos reus, ficavam perten-
cendo ao thesouro público.
Desde então, póde dizer-se que a Inquisi-
ção soffreu um golpe mortal, e os seus he-
diondos carceres estavam quasi desertos
pois que os frades dominicanos e todos os
mais empr 2gados inquisitoriaes, tinham per-
dido o principal e mais rendoso dos seus
privilegios, que era o direito de se apode-
rarem dos bens dos condemnados; de ma-
neira que, quando a constituição de 1820
extiuguiu este tribunal sanguinario, nem um
só individuo se achou nos carceres do San-
to Officio, como vimos no principio d'este
artigo. ?
1 Sebastião José de Carvalho e Mello, foi
feito conde de Oeiras, em 145 de junho de
1759, e marquez de Pombal, em 17 de se-
tembro de 1769.
2 Diz-se—com visos de verdade—que hou-
ve quem então, para tornar odioso 0 gover-
no absoluto, arranjou alguns esqueletos e,
levando-os subrepticiament» para os carce-
res da inquisição (no Rocio de Lisboa) os
prendeu ás correntes chumbadas na parede.
Custa a acreditar em tão grande profana-
ção, mas ha individuos que, para consegui-
rem certos fins, não recuam ante os actos
mais ignobeis.
SAN 609
SANTO ONOFRE — (antigamente Inófre)
mosteiro, Extremadura, na freguezia, con-
celho e a 1:300 metros ao NE. da Gollegan.
Era de frades franciscanos da provincia
de Portugal; mas tinha sido primeiramente
de claustraes. Foi fundado em 41519. Era
pequeno. Foi vendido depois de 1834, e é
hoje propriedade particular. Vide Gollegan.
SANTO THYRSO —villa, Douro, cabeça
do concelho e da comarca do seu nome. (An-
tes de 1834, era couto.) 24 kilometros ao N.
do Porto, 335 ao N. de Lisboa, 500 fogos.
Em 4623 tinha 195, e em 1778 tinha 255.
Orago Santa Maria Magdalena.
Bispado e districto administrativo do
Porto.
O D. abbade benedictino do mosteiro
d'esta freguezia apresentava o vigario regu-
lar, triennal, que era um dos monges do
mesmo mosteiro, o qual tinha 403000 réis
de congrua e o pé d'altar.
O antigo nome d'esta freguezia era Santa
Maria Magdalena; só no princípio d'este se-
culo é que se denominou Santo Thyrso.
Este concelho denominava-se Refojos de
Riba d'Ave. |
O seu concelho é composto de 31 fregue-
zias, que são: — Agrella, Agua Longa. Alva-
relhos, Areias, Avez, Bougado (S. Martinho),
Bougado (S. Thiago), Burgães, Campo (S.
Martinho), Campo (S. Salvador), Carreira,
Coronado (S. Mamede), Coronado (S. Ro-
mão), Couto (S. Miguel), Couto, (Santa Chris-
tina), Covellas, Guidões, Guimarei, Lama,
Lamellas, Monte: Córdova, Muro, Negrellos
(S. Mamede), Negrellos (S. Thomé), Palmei-
ra, Rebordões, Refojos deRiba d' Ave, Re-
guenga, Róriz, Santo Thyrso, Sequeirô e Vil-
larinho.
Todas com 5:600 fogos.
A freguezia de Avez era do concelho de
Villa Nova de Famalicão, e passou para este,
por carta de lei de 2 de julho de 1879.
As freguezias de Avez, Burgães, as duas
de Negréllos, Palmeira, Rebordões, Róriz,
Sequeirô e Villarinho são do arcebispado
de Braga, as outras pertencem ao bispado
do Pórto.
A comarca é composta só do seu conce-
lho.
610 SAN
A villa de Santo Thyrso estã edificada em
uma collina cercada de frondoso arvoredo.
Pelo S. da villa passa à estrada ordinariado
Porto a Braga, que d'aqui vae em descida
até ao rio Ave, onde tem uma optima ponte.
ficando-lhe à direita e ao sopé da collina, o
antiquissimo mosteiro de monges benedi-
ctinos, de que adiante tratarei.
Tambem junto da povoação passato ca-
minho de ferro do Minho.
No 5.º domingo da quaresma seffaz aqui
uma brilhante procissão de Passos, para O
que tem as competentes capellas dos Passos
da Paixão de Jesus Christo, com as figuras
de sofírivel correcção; mas o esculptor deu
a todos os judeus e romanos que alli figu-
ram, umas caras horrendas, que mettem
medo... às creanças.
O rei D. Manuel deu foral a este conce-
lho sob o nome de Refoyos de Riba d'Ave,
em Lisboa, no 4.º de outubro de 1513. (Li-
vro de foraes novos do Minho. fl. 49 v., col.
ZM
Este foral pertence tambem a Agrella,
Parada da Castanheira, S. Gião e Souto
Longo.
No reinado de D. Diniz tinha obtido uma
sentença de foral, em 14 de janeiro de 1307.
(Gav. 15, maço 8, n.º 24.)
É povoação antiquissima, e talvez já exis-
tisse no tempo dos romanos, que se suppõe
terem aqui um templo, como veremos quan
do tratar do mosteiro.
Ha n'este concelho minas de ferro”e ou-
tros metaes. Em dezembro de 1874, foram
manifestadas na camara;municipal, por Tho-
mé Bento da Silva, as segui:.tes: 4.º no lo-
gar de Sobradéllo, freguezia de Agua-Lon-
ga:—22, no monte da Abélha, da mesma
freguezia;—3.: no logar de Gueidavo, fre-
guezia de S. Christovam do Muro.
Em março de 4875, foram manifestadas
sete de ferro, manganez, plombagina e an-
timonio, no logar da Enfermaria, fregue-
zia de Burgães, por Hermann Leuscher, que
tambem manifestou então trez dos mesmos
metaes, no monte das Covas, freguezia de
SAN
Agua-Louga; outra dos mesmos metaes no
logar de Sobradéllo, da mesma freguezia;
outra similhante no monte da Abélha, da
mesma freguezia; outra do mesmo, no logar
de Guidães, freguezia do Muro.
Antonio de Sousa Guerra, manifestou no
mesmo mez e anno, trez de ferro e outros
metaes, uma em S. Romão de Coronado, e
duas na freguezia do Muro. Ainda na mes-
ma época, Manoel Martins Prata, manifes-
tou uma mina de prata, no logar de Ribei-
ro de Covas, freguezia d'Agua-Longa. Em
junho do mesmo anno, José Hey manifestou
sete de carvão, ferro e manganez, no Alto
do Poço, Anguinhus, Monte de Covellas, Ga-
turães, Minas do Souto e Valle-Covas. Joa-
quim Adrião Ferreira e José da Costa Car-
neiro, do Cidral, freguezia de S. Thiago de
Bougado, manifestaram no mesmo mez uma
mina de carvão. Em novembro de 1878 foi
manifestada outra mina de carvão |
Apesar de tanta abundancia de minas,
ninguem se atreve a exploral as!
No dia 24 de fevereiro de 1873, sentiu-se
neste concelho, no de Villa do Conde, e em
outras povoações cireumvisinhas, um vio-
lento tremor de terra, das 8 para as 9 ho-
ras da manhan.
Durou um minuto.
Foi mais sensivel em Santó Thyrso, aba-
lando algumas casas. Não morreu pessoa al-
guma.
Ha n'este concelho 60 confrarias legal-
mente erectas, as quaes em janeiro de 1877
tinham 35:240 irmãos. O capital de todas
são vinte contos e quatrocentos mil réis. Mais
de metade d'esta quantia anda emprestada
a juros, a lavradores, e o Têsto está empre-
gado em inscripções. Os paramentos e al-
faias de todas valem mais de 5 contos de
réis.
Em junho de 1876 deu-se um facto digno
de honrosa menção n'este repositorio de cou-
sas boas e más. Eil-o:
O commendador Manuel José Ribeiro, na-
tural de Santo Thyrso, e que no Brasil ad-
quiriu uma boa fortuna, recebeu na data
SAN
acima indicada, uma carta do seu procura-
dor no Pará, na qual lhe participava o fal-
lecimento de um amigo, que lhe deixou por
testamento duzentos e oitenta con-
tos de réis.
O legatario, que sabia que o seu amigo
tinha parentes pobres, mandou uma aucto-
Tisação legal ao seu procurador, para desis-
tir da herança em favor dos membros da
familia do testador.
O cavalheiro que pratica uma acção tão
nobre é um perfeito homem de bem, para
o qual todos os elogios ficam muito abaixo
dos seus merecimentos, e só Deus lhe póde
dar um premio condigno.
Manuel José Ribeiro é, além d'isto, um
homem muito caritativo, que não póde ver
miseria que não soccorra, nem dôr que não
attenue.
Bem haja este verdadeiro christão.
Mosteiro de Santo Thyrso
O principio d'este mosteiro remonta a
uma antiguidade remotissima, pois, segun-
do alguns escriptores, foi na sua origem
templo romano; e aqui foi sepultado Silva-
no, capitão de uma legião romana, como
adiante veremos.
Não se sabe quando passou a egreja ca-
tholica, e quando se fundou o edificio do
mosteiro benedictino, duplex, mas com cer-
teza já existia no tempo dos suevos. Conje-
ctura-se que o seu fundador foi S. Fructuo-
so; mas, segundo outros, foi S. Martinho de
Dume, que viveu no 6.º seculo. (Vide Du-
me.)
Ignora-se se os monges o abandonaram
em 7146, ou se, mediante aigum tributo, os
mouros consentiram n'elle o culto catholico:
o que se sabe é que em 927, D. Albóazar
Ramires, filho de Ramiro II, de Leão e sua
mulher, D. Helena Godins, achando o mos-
teiro bastante arruinado o reedificaram, do-
tando-o com boas rendas.
D. Albuazar Ramires e sua mulher são
o tronco de grande numero de familias il-
lustres deste reino; e alguns dos seus des-
cendentes foram sepultados n'este mosteiro.
Mencionarei os de que ha memoria. — São:
SAN 611
D. Soeiro Mendes da Maia, rico homem e
fronteiro-mor do reino, um dos mais valen-
tes batalhadores do seu tempo. Achou-se na
famosa batalha d'Ourique (25 de julho de
1439) onde se distinguiu pela sua bravura.
Passando a Roma, venceu em publico desa-
fio um cavalleiro allemão, tido por um dos
mais dextros e habeis justadores do seu
tempo.
D. Soeiro Mendes era irmão do famosissi-
mo Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador.
Desenganado das vaidades do mundo,
metteu-se monge d'este convento, e n'elle
falleceu em 25 de junho de 1476 (Vide
Guilhabreu, Retorta e Rio Mau—do conce-
lho de Villa do Conde.)
D. Poyo Soares Gapato; D. Martim Gil
de Sousa, e sua mulher D. Violante Sanches,
condes de Bercellos.
Teve este mosteiro o senhorio de varios
coutos, mas no fim só tinha os de Santo
Thyrso e S. João da Foz do Douro.
Foram aqui monjas (já disse que o mos-
teiro era duplex) algumas senhoras descen-
dentes de D. Alboazar Ramires e sua mu-
lher, entre ellas:
D. Maria Mendes, senhora de Burgães, e
filha de Mem Gonçalves da Maia.
D. Aldara Vasques, bisneta do conde D.
Gomes de Sobrado.
D. Urraca Hermiges, neta de Mem Moniz
de Riba-Douro.
Em 1569, D. Frei Pedro de Chaves, por
ordem da princeza D. Joanna, mãe do rei
D. Sebastião o reformou; e foi o primeiro
da reforma.
A frente da egreia do mosteiro, que é a
matriz da freguezia, deita para um largo
espaçoso, tendo no centro um elegante cru-
zeiro de marmore côr de rosa.
É um templo vasto e magnifico, construi-
do com grande solidez.
O claustro é a parte mais antiga de todo
o edificio. Tem 27 metros de comprido, por
25 de largo. Os seus quatro lanços são
abertos em arcos, sustentados por 122 du-
plas columnas, cujos capiteis mostram em
grosseiros relevos, cabeças de mouros, har-
612 SAN
pias, leões, e differentes ornatos, todos varia-
dos, de modo que se não acham dous eguaes.
No centro ha um elegante chafariz de
pedra, com bôas esculpturas, obra do prin-
cipio do seculo passado.
A galeria superior do claustro pertence
à reedificação geral do mosteiro, que prin-
cipiou pelos annos 1650. A inferior é mani-
festamente obra do seculo XH ou XIII.
Foi.o architecto Frei João Turreano, mon-
ge benedictino, quem delineou e dirigiu esta
reconstrucção. Foi tambem este monge o
architecto da reconstrueção do mosteiro de
freiras de Odivellas; o novo de Santa Clara
de Coimbra; o da Estrella (EstrellinhaA—
hospital militar) de Lisboa, e outras obras.
Os frades eram todos tão estupidos !...
Depois de 1834, foi vendida a -cérca e
parte do edifício do mosteiro,; sendo o res-
to (só a parte que defronta com o adro)
destinado para o tribunal das audiencias do
juiz de direito, administração do concelho e
suas dependencias.
Quando se andava reedificando a egreja
(1650) se achou embutido em uma das suas
paredes, um sepulchro de pedra, ainda in-
teiro, contendo cinzas. Tinha esculpidas as
aguias imperiaes, e por baixo d'ellas esta
inscripção:
L. VALERIVS SILVANVS MILES
LEG. VI VIXIT VIRIATO.
(Lucio Valerio Silvano, militar da 6.º le-
gião, que venceu Viriato.)
Em 1122, Goldregoda (ou Goldregundes)
filha de Pelagio e de sua mulher, Vivili Er-
migiz, doou a D. Gaudemiro, abbade d'este
mosteiro, uma fazenda que herdára de sua
avó Unisco Paes.
SANTO VARÃO — villa, Douro, comarca,
concelho, e 12 kilometros de Monte-Mór Ve-
lho (foi cabeça do concelho do seu nome,
com 1:500 fogos, e pertencia então à comar-
ca de Soure) 15 kilometros ao O. de Coim-
bra, 195 ao N. de Lisboa, 200 fogos. Orago,
S. Martinho bispo. Bispado e Districto de
Coimbra. ;
Fica a 42 kilometros de Condeixa Nova,
SAN
18 de Soure, 15 de Verride, e 6 de Tentu-
gal. Santo Varão fica no centro d'estas po-
voações.
Foi couto (muito antigo) dos bispos de
Coimbra. O juiz ordinario tinha sómente ju-
risdicção no civel; porque no crime e orphãos
pertencia ao juiz de fóra de Monte-Mór-Ve-
lho.
Este concelho foi supprimido, por decre-
to de 27 de julho de 1853. As freguezias que
o constituiam— Pereira, Santo Varão, Gran-
ja do Ulmeiro e Alfarellos, ficaram perten-
cendo ao concelho de Monte-Mór-Velho; e a
de Figueiró do Campo, ao concelho de Soure.
Este concelho de Santo Varão, confinava
pelo E. com o de Coimbra; pelo N. com o
de Tentugal (extincto); pelo O., com o de
Monte-Mór-Velho, e o de Verride (extincto);
e pelo S., com'os de Soure e Condeixa. Está
sobre a direita do Mondego. É terra fertil
como as outras das margens d'este rio.
A serra dê Santo Varão, é uma das mais
altas d'estes sitios, e d'ella se goza um vas-
to e delicioso parorama.
A villa é pequena, e nada tem de nota-.
vel.
SANTOS COSME E DAMIÃO—freguezia,
Minho, comarca e concelho dos Arcos de
Valle de Vez. Vide o 2.º vol., pag. 409, col.
2
SANTOS ÉVOS—freguezia, Beira Alta,
comarca, concelho, districto, bispado, e 6
kilometros a E. de Viseu, 285 ao N,. de Lis-
boa, 300 fogos. Em 1768, tinha 150. — Ora-
go, Santo Isidoro.
O provisor do bispado apresentava 0 cura,
que tinha 63000 réis de congrua e pé d'al-
tar.
Está a freguezia situada em uma baixa, e
é atravessada por um ribeiro do seu nome,
confluente do Sattam. É povoação bastante
antiga, mas não se sabe quando teve princei-
pio.
A primitiva egreja matriz, existiu no sitio
onde hóje está a cruz do Calvario, em logar
deserto e longe da povoação. Era dedicada a
Santo Ivo, presbytero, pequena, com um só
altar, e pobre.
D. João Manuel, bispo de Viseu, vendo que
SAN
o povo muitas vezes ficava no inverno sem
missa, por causa da grande distancia em
que lhe ficava a egreja, e compadecido da
- pobreza dos parochianos, mandou demolir a
antiga egreja e construir a actual á sua custa,
junto á povoação, no anno de 1600. No sítio
onde existira o templo, mandou collocar,
para memoria, uma cruz de pedra, que ain-
da existe, e alli costumam ir as procissões
de quinta feira Santa, e a de S. Marcos. Des-
de então. ficou sendo padroeiro da fregue-
zia, Santo Isidóro, arcebispo de Sevilha.
O nome verdadeiro d'esta parochia era
pois Santo Ivo, que o povo corrompeu em
Santo Evo, e porfim, em Santos Evos.
Na primitiva egreja, havia uma imagem
de Nossa Senhora do Rosario, muito antiga
e imperfeita, pelo que, depois de 1600, se
mandou fazer uma nova, de boa esculptura,
enterrando-se a antiga.
A esta Senhora se faz uma festa no pri-
meiro domingo de outubro.
Tem uma irmandade, que foi approvada
pelo bispo, D. Ricardo Russel, em 1689, e
acceita pelo doutor, João Barreto, vigario-
geral do bispado.
A irmandade é composta de 170 irmãos,
e o papa Innocencio XII, em 1692, lhe con-
cedeu muitas e grandes indulgencias. Tem
cinco jubileus—1.º, dia da festa principal. —
2.º, dia de Santo Isidoro (2 de janeiro)—3.º
domingo de Paschoa da Ressurreição. —b.º,
Paschoa do Espirito Santo. —5.º, dia de Na-
tal.
Os irmãos que fallezem, teem varios suf-
fragios, e ha um anniversario geral, na 2.
feira depois do domingo de Lazaro, e uma
missa pelas almas dos irmãos, em todas as
2.2s feiras da quaresma.
Antigamente, em todos os 1.º domingos
de cada mez, se fazia uma procissão de Nos-
sa Senhora do Rosario.
Alem da festa principal da Senhora do
Rosario, feita pela irmandade, lhe ,fazia o
povo outra à sua custa; e tanto em uma
como na outra, havia muitas offertas de
fogaças, que se vendiam em leilão, sendo o
producto applicado para as despezas do culto.
Quasi tudo isto acabou, ha mais de 40 an-
nos.
VOLUME VHI
SAN 613
SANTOS O VELHO—freguezia no bairro
oceidental de Lisboa, (antigo bairro da Pam-
pulha.) A egreja matriz, fica sobranceira ao
famoso Aterro da Bôa-Vista, e ao cimo da
Rampa de Santos, em sitio desafogado, é
com magnifica vista.
A origem d'este magestoso
templo, já está descripta no
4.º vol., pag. 237, col. 2.2, no
fim, e seguintes.
Estando bastante arruinado em 4876, foi
sentenciado a ser demolido; porém, os prin-
cipaes catholicos da freguezia, oppozeram-se
a este vandalismo, e a sentença foi revoga-
da, resolvendo-se que fosse reparado, à
custa das obras publicas, como monumento
nacional, venerando pela sua antiguidade e
recordações historicas.
Ainda se não concluiram completamente
as obras de reparação.
Foi no mosteiro annexo a esta egreja, que
em 41476, D. Affonso I instituiu a séde da
ordem militar de S. Thiago, dando-lhe mui-
tas rendas e os castellos de Alcacer do Sal,
Almada, e Palmella. 1
Seu filho, D. Sancho T, lhe deu o senhos
rio d'Arruda dos Vinhos, em 1186.
D. Affonso II, mudou a séde da ordem
para Alcacer do Sal. — Tomada a praça de
Mértola aos arabes, em 1242, para alli se
mudou logo a cabeça da ordem. Finalmen-
te, em 5 de Maio de 1443, sendo mestre da
ordem o infante D. João, filho de D. João I,
se mudou a sua séde para a praça de Pal-
mella, que os cavalleiros reedificaram, du-
rando as obras de reconstrucção até 1482.
Tudo o mais que diz respeito a esta egre-
já e seu mosteiro, e às commendadeiras de
Santos, já se acha deseripto no logar citado
do 4.º vol. para onde remetto o leitor.
1 A ordem militar de S. Thiago, foi crea-
da em Hespanha, por D. Ramiro I, em 844;
por isso os cavalleiros portuguezes estavam
sob as ordens dos graos-mestres castelha-
nos, até que o nosso rei D. Diniz obteve do
papa Nicolau IV, em 1288 (ultimo do seu
pontificado) um breve de separação e inde-
pendencia; ficando o mosteiro de Santos, ca-
beça desta ordem, em Portugal, até à sua
mudança, como se vê do texto.
39
SAN
Até 1834, havia no districto d'esta fre-
guezia, Os seguintes mosteiros:
4.º— Frades carmelitas descalços, de Nos-
sa Senhor a dos Remedios (vulgo Mariannos)
proximo à egreja matriz da parochia. '
(Vide 4.º vol, pag. 261, col. 2.º)
Este mosteiro, julgado bens nacionaes,
foi vendido depois de 1834,-e reduzido a
casas de habitação; mas a egreja foi vendi-
da aos protestantes, que a converteram em
sinagoga, onde fazem as suas ridiculas can-
tarolas, e onde os seus aleunhados sacerdo-
tes prégam aos herejes.
A Carta Constitucional, no
seu artigo 6.º, diz expressa-
mente:
«A Religião Catholica Apos-
tolica Romana, continuará a
ser a Religião do Reino. To-
das as outras religiões, serão
permittidas aos estrangeiros,
com seu culto domestico, ou
particular, em casas para isso
destinadas, sem fórma
alguma exterior de
templo.»
Pois os herejes, escarnecen-
do da lei fundamental da mo-
narchia; da religião do estado;
e de todos os catholicos por-
tuguezes; conservam todas as
fórmas exteriores d'este tem-
plo, limitando-se a tirar-lhe
OS sinos, e a cruz que enci-
mava O tympano; e, por es-
carneo, até lhe conservaram
os emblemas da religião car-
melitana, que ainda beje, com
pasmo, se veem aos lados da
porta principal da egreja!
Fizeram mais — para que
ninguem podesse allegar igno-
rancia, pozeram na porta da
entrada do átrio, esta inscri-
pção, em grandes letras:
PRESBYTERIEN CHURCH
6 14
2.º-Freiras carmelitas descalças (Alber-
tas.) (4.º vol. pag. 240, col. 2.º)
SAN
3.º —Frades de 8. João de Deus. (4.º vol.,
pag. 62, col. 1.2)
h.º—Freiras dominicas, do Sacramento.
(4.º vol., pag. 240, col, 2.2)
5.º—Frades trinos. (4.º vol, pag. 258, |
col. 2.º)
É tambem no districto d'esta freguezia, a
egreja de Nossa Senhora das Necessidades,
e a ermida de Nossa Senhora dos Prazeres,
e O seu cemiterio.
Na freguezia de Santos, eramos palacios
e casas de residencia de grande numero de
familias da primeira nobreza deste reino, e
algumas ainda aqui teem as suas habita-
ções. Citarei as principaes: — Duques de
Aveiro—marquezes d'Alvito (antigos condes
de Oriola e barões d'Alvito, vulgo condes-
barões) —condes de Villa Nova (de Portimão)
—condes d'Alvôr—condes meirinhos-móres .
(condes do Sabugal e Obidos) !—viscondes
da Fonte-Arcada—viscondes da Asseca—
Christovam d'Almada—D. Antonio de Me-
nezes—Antonio d'Albuguerque Coelho —e
outras familias nobilissimas.
SANTOS PORTUGUEZES ?
Que foram beatificados ou canonisados, com-
prehendendo os que nasceram e morreram
em Portugal, ou na antiga Lusitania, os
que ah nasceram e foram morrer a paiz
estrangeiro; e os que nascendo fora de Por-
tugal-ou da Lusitania, aqui vieram mor-
rer, ou tem seus: corpos, ou aqui viveram
e se tornaram distinctos.
1 Ao sitio onde está construido este anti-
go palacio, se dá ainda o nome de Rocha do
Conde d' Obidos. Vide 4.º volume, pag. 136,
col. 1.º. |
2 Este curiosissimo artigo, assim como os
versos de construeção difficilima que o pre-
cedem—pois são simultaneamente portugue-
e latinos—são devidos ao improbo trabalho
do meu verdadeiro amigo, o ex.mo gr, dr.
João Maria Mergulhão Neves Cabral, de São
Romão de Armamar, esclarecido escriptor
publico, e um dos mais insignes jurisconsul-
tos das duas Beiras; ao qual tanto deve esta
obra, que muito tem enriquecido com os
seus excellentes e curiosissimos artigos.
SAN
Famosas sacras cohortes,
Divina musa, cantemus ;
Heróes recordando fortes,
Oh patria chara, exultemus
Sanctos lusos memorando,
Excelsa Lysia, te illustras ;
Divos chóros implorando,
Fraudes satanicas frustras.
Tu caelicolas attende
De Lysia, oh Deus, oriundos ;
Ah christicolas defende,
Converte impios furibundos.
Colligsimus tantas flóres ;
Saevas iras provocamus,
Contra rabidos furores
De Satan nos te invocamus.
Dissipa luctas insanas,
Atras procellas serena ;
Salva gentes lusitanas ;
De Lysia fuge, oh gehenna.
Ah concede, te adoremus
Per longos annos serenos ;
Permitte, nós habitemus
Gaelestes Campos amoenos.
Abdon, ou Eudon—Era italiano, que vin-=
do a S. Thiago de Compostella, ficou fazendo
vida eremitica no sitio de Aldeia de Barros,
freguezia da Corrilhã, da provincia do Mi
nho—(Vide vol. 4.º, Barros, pag. 343, e vol.
2.º, Corrilhã, pag. 386 e 389.)
Abringio—Vide Apringio.
Absolonio—Era natural do Minho, e foi
martyrisado no anno 66, imperando Nero,
na cidade de Britonia — (Vol. 1.º, Britonia,
pag. 495.)
Adalberto—Abbade cirterciense, disci-
pulo de S. Bernardo, que o mandou a Por-
tugal com Bermudo e outros para estabele-
cerem a ordem de Cister em 8. João de Ta-
rouca. D. Henrique o trazia a seu lado nas
campanhas contra os mouros, orando em
quanto o exercito pelejáva. Era muito esti-
mado da rainha D. Theresa e de D. Affonso
Henriques. Vide Bernardo, e vol. 3.º, S. João
de Tarouca, pag. 417.
SAN
Adão—Vide Abdon.
Adou ou Eudon, ou Odon—Era lusita-
no que fazia vida eremitica e penitente em
sitio alcantilado sobre a margem direita do
Lima, ramo da serra da Labruja, e parece
que foi martyrisado. (Vol. 4.º, Lima, pag. 95.)
Adosinha—Era irmã de S. Rosendo—vide
Rosendo.
Afra—Ella e as suas creadas, todas pec-
cadoras, foram convertidas por S. Narciso,
arcebispo de Braga, e sofíreram o marty-
rio.
Agapés ou Agatha—Era da diocese de
Braga, sendo martyrisada com outras em
Britonia, em 10 de março de 254. Vol. 4.º,
Britonia, pag. 495.
Agatha—Vide Agapes.
Agathon—Era da diocese de Braga, e
ahi foi martyrisado, sob o imperio de Dio-
cleciano, juntamente com os Santos Prisso,
Vidal, Orencio, 'Aurino, Capracio, Mandalo,
e Ero.
Alvaro—Chamado de Córdova ; era na-
tural da provincia da Extremadura.
Amadeu de Saboia—Frads franciscano,
que no seculo se chamava João de Menezes
e Silva, muito nobre e guerreiro, e namo-
rando-se da infanta D. Leonor, filha do rei
D. Duarte, o que ella não sabia, apenas à
viu casada com Frederico III, imperador da
Allemanha, partiu para Guadalupe, e se tor-
nou eremita.
Tendo uma visão de que S. Francisco o
chamava para a sua ordem, paruu para a
Italia, onde o tomaram por louco, e não lhe
quizeram dar o habito; mas insistindo elle,
e obrando até milagres, foi alfim acceitu e
fundou a congregação reformada dos Ama-
deus, tornando-se notavel por seu zelo reli-
gioso, que lhe mereceu a estima do papa
Xisto IV, ex-Geral da ordem Serafica. Fal-
leceu em dia de S. Lourenço de 1482.
Amador—Os habitantes de Idanha a Ve-
lha teem grande devoção a este santo. É tra-
dição ter vindo junto delle uma curça para
amamentar um menino que elle encontrou
abandonado, e instruiu e educou, sendo de-
pois o seu confessor. Vide Monsanto, vol.
d.º, pag. 414.
Anastacio — Foi o primeiro bispo de
645
616 SAN
Coimbra e companheiro de S. Gens, pelos
annos de 42 à 43. Vol. 2.º, Coimbra, pag.
318.
Ancirado — Foi eremita e fundador do
convento de Nossa Senhora da Graça de Pe-
nha Firme, da erdem dos Cruzios, no árce-
bispado de Lisboa. Era allemão, e foi depois
assassinado junto a Figorino, nas proximi-
dades dos Alpes, em odio à religião catho-
lica.
Anonimata-—Foi irmã de S. Jordão e de
Santa Comba.
Anonima-—Parece ser o mesmo que Ano-
nimata, e que se ficou designando assim por
se ignorar o seu verdadeiro nome. Foi de-
golada com sua irmã, Santa Comba, por or-
dem de Daciano, em Ourega. Vol. 6.º, Ou-
rega, pag. 312.
Antigonio-—Foi martyrisado em Evora
com 17 companheiros, sendo natural da dita
cidade, e pro-consule Asclepiades, o que te-
vo logar em 3 de março de 304. Foram seus
companheiros, todos convertidos por 8. Vi-
cente, os Santos Felix, outro Felix, Lucio,
Fortunato, Eusebio, Martinho, Herodes, Ja-
nuario, Tortulla, Calixto. Gaviano, Quirilio,
Donato e Quinto, estes evorenses, e Basili-
co, Eutropio e Cleonico, estes das tropas
imperiaes. Vol. 3.º, Evora, pag. 116.
Antonina—Virgem e martyr; nasceu na
villa de Céa. Dizem tins que foram os mou-
ros que a martyrisaram afogando-a em um
pego, e outros que foram os romanos, no
anno de 300, sendo encerrada em uma urna
de madeira, na perseguição de Diocleciano,
ficando só com a cabeça de fóra, untada de
mel, para ser picada das abelhas, permane-
cendo assim 20 dias ; e como não morresse,
foi então precipitada na Lagoa escura da
serra da Estrella. Vol. 2:º, Céa, pag. 222.
Antonio, de Britonia—Foi martyrisado
n'esta cidade em 254 a 10 de março, junta-
mente com os santos Gorgorio. Firmio ou
Firmo e Agapes. Vol. 1.º, Britonia, pag. 495.
Antonio Correia—Vide Ignacio d'Aze-
vedo.
Antonio de Mombaça—Vide Domingos
d Azevedo.
Antonio Noto—Nasceu na Guiné portu-
gueza, de paes mouros, no fim do seculo
SAN
x1v. Foi vendido como escravo ao christão
João Laudano da Cecilia, que o fez baptisar,
e se empregou depois no tractamento dos
enfermos no hospital de Nothi; e profes-
sando em seguida na ordem de 8. Francisco,
se retirou ao deserto, onde fazia penitencias
asperrimas, sempre em oração, apesar do
que chegou à ultima velhice.
Antonio de Padua-—Nascido em Lisboa
a 45 de agosto de 1195, dia d' Assumpção de
Nossa Senhora, de quem foi particular de-
voto, entrou na ordem de Santa Cruz de
Coimbra, donde passou para a de S. Fran-
cisco por ser mais laboriosa, e viveu algum
tempo no convento de Santo Antonio dos
Olivaes. Appetecendo martyrio, embarcou
para Marrocos, onde não chegou a aportar,
por ser arrojado à Sicilia por uma violenta
tempestade. Estando S. Francisco a celebrar
Capitulo da ordem d'Assis, dirigiu-se Santo
Antonio à casa principal, onde os dois San-
tos se reconheceram. Na Itatia obrou im-
mensos milagres, e um dos seus innumeros
sermões foi prégado na presença do papa
Gregorió IX, em 1227. Ainda antes de ca-
sonisado, o povo o proclamou Santo ; e hoje
n'estes tempos de descrença é um dos San-
tos mais populares e festejados do povo por-
tuguez. Vol. 4.º, Lisboa, pag. 225, 319 e 378.
Antonio da Paixão — Vide Domingos do
Nascimento.
Antonio de S. Pedro—Nasceu em Ce-
lorico da Beira, esteve em Ossuna no con-
vento dos mercenarios descalços, onde fez
muitos milagres. Vol. 2.º, Celorico da Bei-
ra, pag. 236.
Apodencio—Acompanhando Santa En-
gracia ou Eufemia, filha de um principe lu-
sitano, à França, aonde ia casar, ao passar
em Saragoça foi martyrisado com ella e com
mais 17 companheiros, que eram Lupercio,
Optato, Successo, Marcilla, Urbano, Julio,
Quintiliano, Publio, Frontonio, Felix, Ceci-
liano, Emanto, Primitivo e quatro Saturni-
nos. Vide Santa Engracia e vol. 1.º, Braga,
pag. 442.
Apolonio—Foi arcebispo de Braga e suc-
cessor de S. Leoncio, governando 8 annos,
falleceu em 19 de março de 334. Era de ori-
gem oriental.
SAN
Aprigio—Foi bispo de Beja no tempo dos
godos, e diz-se que foi feito bispo em 531.
Vol. 1.º, Beja, pag. 359.
Aquila ou Aquilea—Era de Bragança e
foi martyrisada na perseguição de Diocle-
ciano.
Aquilina—Foi martyrisada juntamente
com os Santos Vicente, Orencio, Victor e
Ato, bispo de Pistisa, em 22 de janeiro de
J08, sendo imperador Diocleciano e pretor
das Hespanhas o feroz Daciano. Seus corpos
foram levados para França, e sepultados na
cidade do Ebrano, junto aos Alpes. Vol. 1.º,
Beja, pag. 360.
Arcadio—A 4 de março de 60, imperan-
de Nero, foi martyrisado na cidade de Bra-
gança, onde foi 1.º bispo, sendo discipulo de
S. Thiago. Querem outros que indo à Hes.
panha assistir a um concilio, foi ahi morto
pelo Questor Aloto, que havia sido copeiro
do Cezar. Vol. 4.º, Bragança, pag. 484.
Arcomio—Vide Fionio.
Aristobulo—Foi bispo de Britonia. Vol.
1.º, Britonia, pag. 494.
Ascencio—Vide Fionio.
Ato—Vide Aquilina.
Aurino—Vide Agathon.
Avito—Era da provincia do Minho.
Barão ou Varão — Na antiga Myrtilis
nasceu este santo, irmão de Santa Barbara,
e passou a vida n'uma serra proxima, onde
morreu pelos annos da era christã. Fundou-
se ahiuma ermida, proximo da gruta do san-
to. É advogado dos casados que não tem
filhos e os desejam ter. Vol. 5.º, Mertola,
pag. 191.
Barbara-—Era irmã de S. Brissos, natu-
ral de Mertola. Vol. 5.º, Mertula, pag. 193.
Bazilico—Vide Antigonio.
Bazilia ou Bazilissa—Uma das irmãs
de Santa Quiteria, que indo residir no orien-
te em Smyrna, foi presa e posta a tormentos,
mas confessando impavidamente a fé chris-
tã, foi açoutada até expirar. Diz-se que re-
liquias d'ella se acham em Moura, no con-
vento que foi dos frades Carmelitas calça-
dos. Vide Quiteria, vol. 4.º, Braga, pag. 442,
vol. 5.º, Moura, pag. 568 e vol. 7.º, Pombei-
ro, pag 158.
Bazilio—Foi o 1.º bispo do Porto, disci-
SAN 617
pulo de S. Thiago Maior e de S. Pedro de
Rates, tendo edificado a egreja de S. Pedro
de Miragaia, e passando a bispo de Braga,
foi martyrisado por ordem de Alôto, no im-
perio de Nero, em Placencia a 23 de maio
do anno de 57. Vol. 5.º, Miragaia, pag. 243;
vol. 7.º, Porto, pag. 463, e Portugal pag. 580,
e vol. 8.º, Rates, pag. 55. .
Bazilissa— Vide Bazilia.
Beatrides—Era da provincia do Minho.
Benigno-—Foi arcebispo de Braga no 6.º
seculo, a quem o papa Pelagio II, escreveu
uma carta, em resposta a uma consulta,
mostrando-lhe assim a consideração em que
o tinha. Indo a França visitar o tumulo de
S. Martinho, alli falleceu e foi sepultado a
28 de janeiro de 588.
Bento-Foi eremita e penitente em um
sitio alcantilado, ramo da serra da Labruja,
sobre a margem direita do Lima, o que teve
Jogar pelos annos 800, sendo martyrisado em
41 de junho pelos mouros.
Bernardo — Era natural de França e
discipulo de S. Bernardo, abbade de Cla-
raval, que o mandou a Portugal estabele-
cer a ordem de Cister e esteve presente à,
fundação do convento de S. João de Tarou-
ca, O primeiro d'esta ordem que houve nas
Hespanhas. O seu primeiro abbade foi Santo
Adalberto, com quem a rainha D. Theresa,
proxima a morrer, quiz reconciliar-se, mas
como fosse muito velho, enviou-lhe Bernar-
do, que se apresentou à rainha com João
Cirita, successor de Adalberto, e a quem
depois succedeu Bernardo. A rainha, absol-
vida por elles, vestiu a cogula da ordem an-
tes de morrer, para gozar as indulgencias.
Vol. 3.º, S. João de Tarouca, pag. 4147.
Bodina—Foi abbadeça do mosteiro de
Vieira. Vide Senhorinha.
Brigida—Virgem natural de Lisboa, foi
martyrisada pelos barbaros no 1.º de feve-
reiro de 518. A sua cabeça está na egreja
matriz do Lumiar. Vol. 4.º, Lumiar, pag. 476.
Brissos-—Bispo d'Evorae martyrisado em
9 de julho do anno 300, imperando Diocle-
ciano. Prégando o Evangelho entre os Vae-
cios, Bastellanos e Castolonenses, foi intima-
do para não apostolar, e não obedecendo foi
preso e mettido a tormentos.
618 SAN
Calixto—Vide Antigonio.
Calidonio—Foi bispo de Braga durante
quatro annos, e tambem em Africa, amigo
de S. Cypriano, e se oppoz à heresia de No-
vato e ao anti-papa Novaciano. que se le-
vantou contra o papa Cornelio.
Capracio —Vide Agathon.
Cassiano—Era natural da provincia do
Minho.
Casta — Sofireu o martyrio em Africa
juntamente com os Santos Paulo, Geronico,
Januario, Saturnino, Sunesso, Julio, Pia e
Germana, todos portuguezes.
Catharina-—Na serra d'este nome está
uma capellinha dedicada à Santa, hoje em
ruinas, e lhe está ligada uma interessante
lenda, que póde ver-se no vol. 3.º, Gruta,
pag. 529.
Cecilano—Vide Apodencio e Engracia.
Celerina-—Era natural de Monção, sendo
convertida ao christianismo pelo apostolo S.
Thiago, pelos annos de 50. Foi muitissimo
virtuosa, a ponto de merecer a canonisação.
Vol. 5.º, Monção, pag. 423.
Celerina-—Bisneta de Lucia Pompeia Ce-
lerina, mulher de Lucio Venancio ou Vero-
nio, tribuno militar. Era natural d'Evora, e
tão rica, que chegou a dizer-se que possuia
quasi metade da Lusitania. Convertida à fé
catholica com seu marido pelos annos de 44,
edificou um templo ao martyr S. Torpez, na
villa de Sines, em que vivia, e onde foi mar-
tyrisada em 17 de maio de 65, sob o impe-
rio de Nero. .
Celerino—Natural d'Evora, diacono, neto
de Santa Celerina, sobrinho de S. Lauren-
tim e de Santo Ignacio, todos martyres. Re-
cebeu a coroa do martyrio no anno de 254,
soffrendo a pena de nervo, ou cepo, durante
19 dias, findos os quaes voou à patria celes-
te. Havia ido em companhia do papa Cor-
nelio para Roma, donde partiu para a Afri-
ca, estando alli algum tempo. Vol. 3.º, Evo-
ra, pag. 108.
Chrispulo—Era cidadão romano, amigo
de Juvenal e Marcial, mas convertendo-se ao
christianismo veio prégar a sua fé às Hes-
panhas, juntamente comjS. Restituto, sendo
martyrisados, em Aguas Collenas, pelos an-
nos de 63, na perseguição do barbaro Nero.
SAN
Vol. 1.º, Aguas Gellenas, pag. 32, e vol. 3.º
Fão, pag. 138.
Cleonico—Vide Antigonio.
Columba ou Comba Osores—Virgem
martyr. Falleceu no anno de 980, sendo ab-
badessa do antigo mosteiro Archense, que
era em Decermillo, ou no bispado de La-
mego, não se sabe ao certo O sitio; sus- .,
peita-se que fosse no pequeno logar de Ar-
chas ou Arcos de Sever, onde está a ca-
pella de Nossa Senhora da Seixa. Pelo anno
de 982 o mouro Almansor quiz violal-a e ás
demais freiras, porem estas, animadas pela
abbadessa, preferiram perder a vida a per-
der a pureza. Vol. 8.º, Pinheiro, pag. 50. Vi-
de Historia Eccleciastica de Lamego, edita-
da em 1878, pag. 220.
Comba-—Segundo a Monarchia Lusitana
era abbadessa de um convento ao pé de La-
mego, sendo assassinada com as outras frei-
ras no fim do seculo x, pelo feroz Alman-
sor, que praticou eguaes crueldades no mos-
teiro de Sirmiro, junto a Trancoso, de Mosé-
darem em Vianna do Alemtejo, e de S. Sal--
vador e S. Domingos de Cambos, junto a
Mertola. Vol. 2.º, Santa Combadão, pag. 364.
Comba—Ella e S. Leonardo guardavam
seus rebanhos na serra, quando Orelhão, ca-
ptivado pela sua formosura, e não se dei-
xando ella seduzir, tentou empregar a força.
Invocou ella à Virgem, que a escondeu, abrin-
do-se uma parede para esse fim, e cego en-
tão, o mouro, de furor, vingou-se em Leo-
nardo, matando-o. Mas afinal parece que a
foi crutificar proximo ao convento de Cel-
las. Pode ser que sejam duas santas diffe-
rentes. Vol. 2.º, Comba de Cellas, pag. 363,
e vol. 4.º, Lamas de Orelhão. pag. 31.
Conegos regulares, de S. Romão de
de Gêa—No reinado de D. Affonso Henri-
ques, atacaram os mouros este mosteiro, e
não podendo penetrar n'elle, lançaram-lhe
fogo, perecendo queimados todos os seus
moradores, que preferiram isto a entregar-
se aos infieis.
Cresumio—Bispo de Coimbra, onde se
achava em 1086, e a cuja Sé o elevou a fa-
ma de suas virtudes, sendo antes monge de
S. Bento, em Arouca; era tio de S. Theoto-
nio, e foi elle que o dirigiu na estrada da
SAN
vida perfeita. Falleceu em 19 de julho de
1098.
Oristetta-—Era irmã de Santa Sabina e
de S. Vicente, com os quaes fugiu para à
cidade d'Avila, mas promettendo o presi-
dente Daciano grande premio a quem os
prendesse, um malvado assim o fer,e todos
tres foram mortos com horriveis tormentos,
e ficando seus corpos insepultos, é tradi-
ção que uma serpente alli os guardou. Vide
S. Vicente, e vol. 3.º, Evora, pag. 116.
Cucufate-—Foi martyrisado no tempo de
Nero, juntamente com outros, sob 0 governo
de Sergio. Vol. 1.º, Braga, pag. 442.
Cyta-—l a mesma que Syla.
Damaso-—Querem uns que nascesse em
Braga, outros em Guimarães, outros em Pe-
dralva, outros em Idanha a velha, e outros
na antiga Citania. Foi papa, quando impe-
radores Valentiniano e Valente, e regeu bri-
lhantemente a egreja por 18 annos, 2 me-
zes e 10 dias, escreveu muito, fez celebrar
o concilio 2.º geral de Constantinopla, con-
tra à heresia de Macedonio, e venceu o seu
anti-papa Ursino ou Ursiano, a quem depois
creou bispo de Napoles. Tal era a sua bon-
dade!
Foi intimo amigo do dr. da egreja, S. Je-
ronimo, com quem se correspondia, o qual
na epistola ad Pamachiam lhe chama varão
insigne, muito douto nas escripturas sagra-
das, virgem e doutor da egreja.
Vol. 4.º, Braga, pag. 443, e Briteiros, pag.
k92, vol. 2.º, Citania, pag. 309, e vol. 3.º.
Guimarães, pag. 360, e Idanha a Velha pag.
379.
Dativo—Era Alemtejano.
Damicio—Era da cidade de Bragança,
sendo martyrisado com outros na persegui-
-«ção de Diocleciano.
Domingos—Era natural de Coimbra e
foi martyrisado pelos mouros, juntamente
com 8. João, perto da dita cidade (em Ver-
ride) a 9 de janeiro de que se ignora o anno.
Domingos de Cuba—Era do Alemtejo.
Domingos Martins—Era da Estrema-
dura.
Domingos do Nascimento—Natural de
SAN 619
convento pelo rei de Mombaça, Jeronymo
Chingalo, o qual tinha apostatado, e com-
meiteu este crime só em odio da religião.
O prior do convento era frei Antonio da
Natividade, cujo corpo se não corrompeu,
apesar de ficar insepulto : outro dos mortos
foi D. Antonio de Mombaça, primo do pro-
prio rei : outro foi frei Antonio da Paixão ;
dos outros ignoram-se os nomes.
Donato-—Vide Antigonio e Eulalia.
Eleuterio ou Neutel — Dedicou -se-lhe
uma ermida proximo da villa de Alvito, por
ter ahi vivido em um convento de francis-
canos.
Vol. 4.º, Alvito, pag. 181.
- Elias—Foi terceiro bispo de Beja durante
o dominio gotico, e martyrisado em Cordova.
com os mancebos Izidoro e Paulo, em 47 de
abrik de 836, imperando alli Mahomet, filho
do Califa Abderramam.
Vol. 4.º, Beja, pag. 360:
Emanto—Vide Engracia e Apodencio.
Engracia—A quem outros chamam Eu-
femia, era do Minho, e seu pae, chamado
Dinasta, principe portuguez, desposou-a com
Limitaneo, duque da Provincia de Narbona
em França, e mandou-a a seu esposo acom-
panhada por 18 nobres cavalleiros.
Estava então em Saragoça o feroz Dacia-
no, alli colocado pelos tyranos Diocleciano
e Maximiano, para matar christãos, e então
ella, passando alli, se lhe apresentou espon-
tanea a increpar seu procedimento. -
Foi presa, açoutada, submettida-ao caval-
lete e a outros tormentos atrozes, no meio
dos quaes expirou, tendo-a precedido seus
148 companheiros, que haviam sido degola-
dos.
Vide Apodencio, e vol. 1.º, Braga. 442.
Eparchio-—Natural da cidade de Bragan-
ça, foi martyrisado com outros, sob Diocle-
ciano. ,
Epitacio—Era da provincia do Minho.
Eria—Vide Iria.
Éro—Vide Agathon.
Espinella—Foi freira em Arouca, cujo
tumulo se acha de traz do côro de baixo.
Vol. 4.º, Arouca, pag. 238 Ga.
Estevam-Abbade de Rates, que assistiu
Médello, junto a Lamego. Elle e mais 50 ;
companheiros foram martyrisados no seu ao 3.º concilio de Toledo, em que os godos
620 SAN
abjuraram afherezia” Ariana. Era da Ordem
de S. Bento, e contemporaneo de S. Grego-
rio Magno, que d'elle faz honrosa menção.
Finou-se em 43 de fevereiro de 598, no es-
tado de virgindade, e consta que os anjos
acompanharam visivelmente sua alma ao ceu:
Eudon—Vide Abdon e Adou.
Eufemia—Vide Engracia.
Eufemia-—Uma das nove filhas de Lucio
Caio Atilio, que afinal morreu martyr. As
suas reliquias estavam junto do rio Caldo,
d'onde foram transportadas para Orense em
1153 pelo bispo D. Pedro Seguino, attri-
buindo-se-lhe muitos milagres.
É santa muito popular, e em que os po-
vos tem muita fé, tendo muitos santuarios
em Portugal, sobresahindo muito o situado
na fregnezia da Parada do Bispo, na mar-
gem esquerda do rio Douro, acima de Ba-
gaúste, na diocese de Lamego, para onde
todo o anno concorrem peregrinos com as
suas offertas em agradecimento aos milagres
obtidos, mormente no dia 16 de setembro,
que é a sua festividade, e nos domingos
subsequentes. Vide Santa Quiteria; vol RA
Braga”, pag. 442; vol 2.º, Covide, pag. 437;
vol. 6.º, Parada do Bispo, pag. 462; vol. 7.º,
Pombeiro, pag. 158.
Eufemia — Virgem martyr, nascida na
antiga cidade de Obobriga e ahi martyrisa-
da. Vol..4.º, Lindoso, pag. 98, o vol. 8.9,
Obobriga, pag. 198.
Eulalia —Era filha do rico e nobre cida-
dão Libero de Merida, e foi instruida na re-
ligião christã por S. Donato. Sendo impera-
dor Diocleciano, e presidente de Hespanha
0 barbaro Daciano, foi mandado a Merida o
juiz Culpurniano, que ordenou um sacrifi-
cio geral aos idolos, em razão do que Libe-
rio mandou a filha para a Andaluzia, mas
fugindo ella, de noite, juntamente com Ju-
lia, voltou a Merida, e apresentando-se ao
juiz lhe increpou o seu procedimento, e que-
rendo elle persuadil-a a sacrificar aos ido-
los, usando de meios brandos, passou de-
pois aos crueis, e a fez sofirer e a mais nove
companheiros, tormentos atrozes, no meio
dos quaes expirou cantando, e viu-se sair
da sua bocca uma pomba, que subiu aos
ceus.
SAN
Eusebio-—Padeceu martyrio em Evora,
ha perseguição de Diocleciano, em 3 de msr-
go de 304. Sem razão os hespanhoes qui:e-
ram roubar a Portugal esta gloria, preten-
dendo que o martyrio tivesse logar em Ta-
lavera, contra o que estão Beda e 0 Mariy-
riologio. Vol. 3.º, Evura, pag. 116.
Eusebio—No tempo de Trajano, em Sde
março de 434, foi martyrisado em Medelim
e juntamente nove companheiros. Vol 89,
Medelim, pag. 454.
Eutropio—Vide Antigonio.
Evento—Era da provincia do Minho.
Evodio—Da diocese de Braga, foi marty-
risado com outros companheiros, no tempo
de Diocleciano.
Eyria—Vide Iria.
Fabião-—Foi arcebispo de Braga no se-
culo II; succedeu-lhe S. Felix.
Fabricio—(Alguns querem que seja O
mesmo que Brissos.) Diz-se que nasceu em
Mertola, e que ahi fôra martyrisado. Vol.
5.º, Mertola, pag. 191.
Fara—Virgem e monja benedictina, que
morreu pelos annos de 1280. Vol. 3.º, Faria,
pag. 139.
Faustino — Arcebispo de Braga, e depois
de Sevilha. Vide Fionio.
Fausto-—Era da provincia do Minho.
Feliciana—Era da provincia da Beira.
Felicissima—Sendo cega, S. Graciliano
lhe deu vista milagrosamente, a qual por
isso se converteu; mas sendo presa á or-
dem do perfeito do imperador Alexandre,
foi degolada em Alcacer do Sal.
Felix-Diacono— Arcebispo de Braga, foi
martyrisado e mais S. Narciso em 277, sen-
do pretor, em Hespanha, Luzillo Rusaniano.
Era natural de Santarem, e o seu corpo foi
levado para Paris.
Felix —Vide Apodencio.
Felix-Vide Antigonio.
Felix —Vide Antigonio. É
Felix-Celebre eremita, que enterrou em
Rates, a S. Pedro chamado de Rates, sendo
depois trasladado o seu cadaver para a Sé
de Braga, onde jaz. Vol.º 8.º, Rates, pag. 55.
Felix Bispo de Braga e successor de S-
Fabião no seculo 3.º; retirou-se para Navar-
ra, a uma serra inhospita, onde viveu en
SAN.
tregue à penitencia e aos exercicios espiri-
tuas. É possivel que seja o mesmo que o
antecedente. É
Filippe—Era da provincia da Extrema-
dura.
Filippino—Frade Franciscano, acompa- |
nhou Santo Antonio de Padua a Marrocos,
mas uma grande tempestade o arrojou ás
costas da Sicilia, efindo a Assis procurar o
patriarcha S. Francisco, foi mandado para
Casiellanea, onde morreu em 1290. Em 25
de abril de 1749 foi transferido para o mos-
teiro de S. Marcos, do monte Absino, onde
se diz operar muitos milagres.
Fionio—Era bispo de Lamego, e refu-
giando-se com outros companheiros, e en-
tre estes S. Faustino, arcebispo de Braga,
Santo Arcomio, bispo de Evora, e S. Theo-
dofredo, bispo de Vizeu, em um monte jun-
to de Caceres e Xarandilla em Hespanha, a
fim de celebrarem o Santo-sacrifício, ahi fo-
ram martyrisados em 1414 de março de 715;
dizendo outros que foi na serra de Ossa.
Vol. 3.º, Evora, pag. 110, e vol. 6.º, Ossa,
pag. 298.
Firmio-—Foi martyrisado em Britonia na
perseguição de Decio, em 254. Vide Antonio
de Britonia, e vol. 4.º, Britonia, pag. 445.
Firmo—É o mesmo santo que o antece-
dente, dando-lhe uns um nome, outros outro.
Fortunato—Vide Antigonio.
Fronto—Vide Apodencio.
Frontonio—k o mesmo que o antece-
dente.
Frovilengo ou Provilengo—Era bispo
de Coimbra no seculo x, no tempo dos reis
godos de Leão, mas deixando a mitra, reco-
lheu-se ao mosteiro de Santo Estevam de
Ribas de Sil, na Galliza, onde fez vida peni-
tente.
Fructuoso — Nasceu em Constantim de
Panoias, em cuja egreja se conserva a ca-
beça d'este santo, que os romanos degola-
ram, e é advogado contra a hydrophobia,
sendo alli grande o concurso das pessoas
mordidas por cães damnados, e afirma-se
que jámais se desenvolveu aquella horrivel
molestia nos que alli foram implorar a pro-
tecção do Santo. Vol. 2.º, Constantim de Pa-
hoias, pag. 382.
SAN 621
Fructuoso—Arcebispo de Braga, era fi-
lho de um duque e official superior do ex-
ercito de Hespanha, de sangue real. Mortos
seus paes dedicou-se todo a obras de pie-
dade e religião, ora construindo e dotando
mosteiros, ora entranhando-se nos bosques
e desertos para fazer asperas penitencias.
Depois de feito arcebispo, gastou suas ren-
das com os pobres e edificação de novos
mosteiros, entre elles o de Dume, onde jaz
seu corpo, tendo fallecido com todos os si-
gnaes- de predestinado em 16 de abril de
659. Em 1102 o bispo de S. Thiago, D. Dio-
go, levou para Compostella o seu corpo, e
o dos Santos Cucufate, Silvestre e Suzana.
Vol. 2.º, Dume, pag. 493, vol. 3.º, Ganfei.
pag. 258, vol. 5.º, Miranda, pag. 323, vol,
6.º, Nabancia, pag. 7, e vol. 8.º, Real, pag. 63,
Gallicano — É o mesmo que Graciliano.
Gaspar Alváres-Vide Ignacio d' Azevedo.
Garcia Martins— O seu tumulo está met-
tido na parede junto da pia baptismal da ca-
pella de Nossa Senhora do Rosario, de Leça
do Bailio ; foi commendador, e falleceu no
primeiro de janeiro de 1306. Vol. 4.º, Leça
do Bailio, pag. 67.
Gaviano—Vide Antigonio.
Gema — É a mesma que Santa Marinha.
Genadio—Era do Minho.
Genebra— Vide Quiteria.— Quando seu
pae, a quem as nove filhas foram apresen-
tadas na cidade de Tuy, lhes perguntou
quem eram seus paes, e onde haviam nas-
cido, respondeu Genebra resolutamente que
eram suas filhas e de sua mulher e nasci-
das na cidade de Braga, e como Caio ten-
tasse todos os meios brandos e asperos para
as fazer abjurar o Christianismo, ellas fugi-
ram, seguindo caminhos diversos, com re-
ceio de lhes faltar o animo, e não poderem.
resistir às lagrimas da mãe e aos rogos do
pae. Vol. 4.º, Braga, pag. 442,e vol. 7.º, Pom-
beiro, pag. 158.
Gens—Era natural de Lisboa, e costu-
mava pregar e ensinar a doutrina aos chris-
tãos sobre uma cadeira de pedra, chegando.
a ser bispo de Lisboa, e sendo martyrisado.
pelos romanos no sitio onde hoje está a er-
mida do monte à Graça. Vol. 4.º, Lisboa, pag-
219, 228 e 267.
622 SAN
Geraldo— Arcebispo de Braga. Era natu-
ral de Cantuaria, foi frade de grandes virtu-
des, e nomeado visitador das casas religiosas,
prestou grandes serviços e operou impor-
tantes reformas. Sendo obrigado a acceitar
o arcebispado contra a sua vontade, foi a
Roma, onde o papa Paschoalo recebeu mui-
to bem, e assistindo ao Synodo de Palencia,
prometteram-lhe obediencia os bispos suf-
fraganecs à egreja de Braga. Era denomi-
nado o arcebispo santo, apesar do seu rigor
contra os peccadores contumazes e escanda-
losos, como succedeu com o fidalgo Egas
Paes, o qual excommungou, e recusou di-
zer missa na egreja de Guimarães, pelo vêr
p'ella, apesar de estar já paramentado e da
presença do conde D. Henrique e de sua
mulher D. Theresa, o que deu causa a re-
conciliar-se o fidalgo com a egreja e emen-
dar-se. Estando enfermo emprehendeu a vi-
sita da sua diocese, indo morrer a Bornes
em Traz-os-Montes, donde o seu corpo foi
transportado para a egreja de S. Nicolau de
Braga, por elle mandada edificar, o que teve
logar em 44147. Vol. 4.º, Braga, pag. 441 e
451; vol. 3.º, Guimarães, pag. 353; vol. 5.º,
Mosteiro, pag. 399, e Moure, pag. 577.
Germana—Vide Quiteria, vol. 1.º, Braga,
pag, 442; vol. 7.º, Pombeiro, pag, 158.
Germana—Vide Casta.
Geronico—Vide Casta.
Gil—Natural de Vouzella, no bispado de
Vizeu, e hoje cabeça de comarca, filho de
D. Thereza e de seu marido D. Rodrigo, do
conselho de D. Sancho, vedor da sua casa e
corregedor de Coimbra. Quando mancebo
estudou medicina, e foi mandado a Paris,
onde se graduou n'esta faculdade com gran-
de applauso. Deu-se à nigromancia, mas to-
cado da graça divina entrou em um conven-
to em Paleria na Hespanha, e passado o no-
viciado voltou a Portugal, sendo frade em
Santarem e Coimbra, e n'esta ultima prior
e em Coruche, doutorando-se em theologia,
e sendo provincial em Hespanha. Foi tal a
sua conversão e santidade, que a cada passo
ficava em extasis, e fazia milagres. Falleceu
em 44 de maio de 1265, em dia d'Ascenção.
(Vide Santarem.)
Godinho—Arcebispo de Braga, succes-
SAN
sor de D. João Peculiar, por acclamação do
Cabido, sendo sagrado em Roma por mão
do papa Calixto IV; e indo d'alli a Jerusa-
lem, regressou em 411475, no reinado de D.
Affonso Henriques, à sua Sé, que governou
por treze annos com grande sabedoria. Ha-
via vestido sobrepeliz no convento dos Cru-
zios de S. Salvador do Banho, entre Barcel-
los e Espozende, onde Toi prior.
Gonçalo d'Amarante — Nasceu em S.
Salvador de Togilde, junto do rio Vizella, de
familia nobre, e deu logo em creança si-
gnaes de santidade. Ordenado, foi creado
abbade de S. Paio de Riba Vizella, e dis-
tribuia pelos pobres todos os seus rendi-
mentos, guardando perpetua virgindade.
Fez ordenar um sobrinho, a quem entregou
a parochia, e andou 14 annos visitando Ro-
ma, Jerusalem e os logares santos, o que
deu logar a que o sobrinho fizesse provas
falsas da sua morte e obtivesse a Abbadia,
dando-se então à vaidade e à luxuria. Vol-
tando o tio, foi pedir-lhe esmola, mas este
.espancou-o, atiçou-lhe os cães, e recusou
entregar-lhe o beneficio. Entrou então no
mosteiro de S. Domingos de Guimarães, e a
poder de sacrifícios e prodigios, conseguiu
fazer uma capella e a magestosa ponte de
Amarante; enchendo de beneficios e esmo-
las aquelles povos. Foi-lhe revelado com an-
tecipação o dia do seu passamento, e jaz se-
pultado na egreja do seu nome em Amaran-
te, sendo beatificado por Pio IV—Vol. 1.º,
Amarante, pag. 188, e Arrifana pag. 238 QQ.
vol. 3.º, Guimarães pag. 359.
Gonçalo—Bispo de Coimbra, governou
esta diocese no seculo x durante a domina-
ção mahometana. Renunciou álfim a sua
dignidade e foi encerrar-se no masteiro de
Santo Estevam de Ribas de Sil, na Galliza,
onde acabou a vida santamente.
Gonçalo —Nascido em Chaves; teve no
seculo o nome de Gonçalo Morinho e entrou
no. mosteiro benedictino de Santo Thyrso
de Riba d'Ave, e em breve foi eleito abba-
de. Morreu gelado na serra do Gerez, quan-
do recolhia do Cella Nova, da Galliza—vol.
7.º Pitões, pag. 106 e 107.
Gonçalo Dias—Era da provincia do
Minho.
SAN
Gonçalo Garcia—Filho de pae portu-
gue:, e natural de Bacim na India. Foi leigo
na ordem de S. Francisco, e depois erucifi-
cado no Japão com 25 companheiros. Foi
beatificado por Urbano 8.º
Gonçalo Henriques—Vide Ignacio de,
Azevedo.
Gonçalo de Lagos—Natural d'esta ci-
dade, nascido pelos annos de 1378, tomou
o habito de eremita de Santo Agostinho em
1388 e foi grande prégador. Morreu em Tor-
res Vedras em 15 de outubro de 1422 e foi
camonisado pelo papa Pio VI em 1780, e jaz
no dito convento.
Gorgonio—Sendo natural de Niceia, na
Betinia, veio ser martyr ao territorio hoje
portuguez na cidade de Britonia, proximi-
dades de Ponte do Lima, juntamente com
outros; vol. 4.º Britonia, pag. 495.
Graciliano—Recebeu o baptismo da mão
do padre Euticio, e dando vista à cega San-
ta Felicissima, a converteu. Sendo ambos
prezos á ordem do perfeito do imperador
Alexandre, foram degolados em Alcacer do
Sal.
Gregorio—Não era Portuguez, mas foi
martyrisado em Britonia, terra de Portugal,
na perseguição de Diocleciano, juntamente
com outros, em 264.
Gualter—Era frade franciscano, 0 qual
com um companheiro vieram assistir para
uma pobre casinha no cimo da serra de
Villa Verde, e d'alli passaram para Guima-
rães para o hospital da Torre Velha, depois
convertido em convento. Este santo, sendo
canonisado, tinha capella propria no con-
vento, em cujo altar estão suas reliquias.
Vol. 3.º, Guimarães. pag. 359.
Herachio—Foi martyrisado na persegui-
ção de Nero, querendo uns que fossse em
Britonia, e outros em Padua, quando ia de
viagem para Cesarea da Capadocia.
Heradio—l o mesmo que o antecedente.
Hermogio—Era da provincia da Beira.
Herodes—Vide Antigonio.
Ignacio—Natural d'Evora, tio de S. Ce-
lerino, foi martyr; vol. 3.º, Evora, pag. 108.
Ignacio d'Azevedo Barbosa—Natural
do Porto, da casa de Azevedo e Barbosa,
que procede do conde D. Sancho Nunes de
SAN 623
Barbosa e de sua mulher, a infanta D. The-
reza Henriques, filha do conde D. Henrique
| e da rainha D. Thereza; embarcou em a náu
S. Thiago para o Brasil, em missão por or-
dem de S. Francisco de Borja em 1570, com
39 companheiros, 8 hespanhoes e 31 portu.-
.guezes, sendo tres d'estes Gaspar Alvares,
Gonçalo Henriques e Antonio Correia, e che-
gando à altura das Canarias junto á Ilha de '
Palma, encontraram o corsario francez cal-
vinista, Soria, que só por odio-á religião os
lançou ao mar, fazendo-os pereter. Vol. 1.9,
Braga, pag. 436.
Irene—k o mesmo que Iria.
Iria, Irene, Eria ou Eyria—São nomes
que designam a mesma santa, a qual foi vir-
gem e martyr, e tudo o que respeita à len-
da d'esta santa é suas variantes vem em Na-
bancia, vol. 6.º, pag. 6 e seguintes; vol. 8.º,
Reguengo, pag. 112 e Ribeira de Santarem,
pag. 183.
Iria—Era irmã de S. Damaso, a quem
acompanhou a Roma no 4.º seculo, brilhan-
do ahi pelas suas virtudes e santidade em
uma clausura. Morreu virgem aos 20 annos,
e seu irmão mandou gravar-lhe um epita-
phio na campa, no qual se encommenda a
ella. Vol. 1.º, Braga, pag. 443.
Isabel—Nascida em 1271, teve por paes
os reis de Aragão, D. Pedro e D. Constan-
ça, e por avô D. Jayme, e 20s 8 annos já re-
sava O officio divino, e dava tudo aos po-
bres. Casou com D. Diniz, rei de Portugal,
para onde veiu transportada com grande pom-
"pa. Teve por filhos D. Constança, que casou
com D. Fernando de Castella, e D. Affonso,
depois rei. A sua caridade, paciencia, devo-
ção e piedade, bem como as penitencias
eram notaveis. Harmonisou seu marido com
seu filho, que trouxe à obediencia de seu
pae e fez que este harmonisasse D. Jayme e
D. Fernando, rei de Castella. Morto D. Diniz
(que bastante lhe fez soffrer), cortou os ca-
bellos, despiu as vestes reaes, e foi a S. Thia-
go de Galliza, d'onde voltou com o bordão
de peregrina, indo depois morrer a Estre-
moz, onde estava o rei, sendo depois condu-
zido seu corpo para o mosteiro de Santa
Clara em Coimbra, na qual cidade especial-
mente, e em todo o reino é muito reveren-
624 SAN
Ciada e popular, e tanto assim que foi ge-
ral a indignação, quando alguem quiz di-
minuir a devoção por ella!... Foi ca-
nonisada pelo papa Leão X, em 26 de
março de 4612. Sendo aberto o caixão,
achou-se o corpo incorrupto, e junto d'elle
o seu bordão de peregrina e a bolsa das es-
molas, que costumava repartir com mão
larga pelos pobres. É a 147.2 avó do sr. D.
Luiz I. Vol. 1.º, Beja, pag. 363 e Arrifana,
pag. 238 RR; vol. 2.º, Campo Grande, pag.
67 e Coimbra, pag. 328 e seguintes, e Dor-
nes, pag. 480; vol. 3.º, Guarda, pag. 335, e
Estremoz, pag. 82; vol. 5.º, Mondego, pag.
395; Monte Mór, pag. 513; Monte Real, pag.
929 e Moura, pag. 571; vol. 6.º, Palmeiros,
pag. 431; vol. 7.º, Pontével, pag. 187; vol.
8.º. Roca-Amador, pag. 215.
Isidóro — Foi martyrisado em Cordova,
juntamente com Santo Elias e S. Paulo, em
17 d'Abril de 856, imperando Mahomet, fi-
lho do califa Abederraman.
Januario—Vide Casta.
Januario—Vide Antigonio.
Januario—Bispo de Salaria, que alguns
entendem ser Aleacer do Sal, foi martyrisado
na perseguição de Diocleciano em 46 de abril
de 306 em Heracleia, sendo decapitado e
mais tres companheiros, por se recusarem a
adorar os idolos e entregar os livros sagra-
dos. Havia assistido ao concilio Eliberitano.
Jeronimo da Cruz-—Era da provincia
da Estremadura.
Joanna-—Foi filha de D. Afionso V, a
qual professou no mosteiro de Jesus de-
Aveiro, ahi viveu, morreu e jaz sepultada.
Foi beatificada em 4 de abril de 1693, e os
aveirenses teem por ella grande devoção.
Vol 4.º, Aveiro, pag. 266, e Belver, pag.
376; vol. 3.º, Eixo, pag. 14.
João de Bragança — Nasceu n'esta ci-
dade, juntâmente com seu irmão Paulo, e
indo ambos para Roma com seu parente
Galliano, que pertencia à corte do impera-
dor Constantino, tiveram grande valimento
com este, e fizeram a campanha contra os
seytas. Juliano apostata os mandou marty-
risar por Terenciano, em 354. No tempo do
imperador Joviniano foram encontradas suas
reliquias, que se conservam em Roma em
SAN
um templo no monte Celio. Vol. 1.º, Bragan-
ça, pag. 485.1
João de Britto—Nasceu na freguezia de
Santo André, da cidade de Lisboa, entrou
na ordem dos jesuitas, e foi martyr nas mis-
sões de Maduré, no Indostão.
' João de Coimbra-—Era natural desta
cidade, e foi martyrisado em Verride, perto
della, juntamente com S. Domingos, pelos
mouros, em 9 de janeiro de um anno que se
ignora. ;
1 Seguramente o nome de João é o que
tem mais individuos canonisados ou beatifi-
cados. Achamos curioso dar aqui a lista dos
que nos lembram, além dos portuguezes
mencionados no texto, e, apesar de muitos,
presumimos que alguns nos escapariam.
João-—Abbade de Constantinopla.
João Baptista — Precursor de Jesus
Christo.
João Baptista — Fundador dos trinos
descalços.
João Baptista Rossi—Conego, beati-
ficado por Pio IX.
João —Bispo, augustodonense.
João-—Bispo, bergominense.
João—Bispo, eboracense, na Inglaterra
João — Bispo, Neopolitano, na Campa-
nia.
João—Bispo, martyr em Roma.
João —Bispo, martyr na Persia, no rei-
nado de Sapor.
João—Bispo de Pavia.
João—Bispo de Ravena.
João — Bispo de Verona.
João Bom—Abbade.
João Bom —Bispo de Milão.
João Calybita.
João Cancio.
João Capristano.
João Cego-—Martyr nas minas.
João Chrysostomo-—Doutor da egreja
e bispo de Constantinopla.
João Climaco—Abbade.
João da Cruz —onego.
João de Colonia—Dominicano, martyr.
João Columbano —Jesuita.
João Damasceno.
João Dormente—Um dos sete dormen-
tes.
“João Dominici-—Cardeal.
João Dukla—Franciscano.
João Egypcio—Martyr.
João Eremita-—Martyr na Polonia.
João Eremita—Do Egypto.
João Esmoler.
João Etiope—Martyr.
João Evangelista—Um dos discipulo 3
de Jesus Christo.
SAN
SAN 625
João de Deus—Nascido em Monte Mór | seu hospicio para enfermos entrevados. Ur-
o Novo, foi pastor de gado, depois militar, | bano VIII o beatificou em 23 de setembro
depois outra vez pastor, e mais tarde ven-
dedor de livros. Fundou a religião do seu
nome, que S. Pio V approvou em 1571, e
estabeleceu em Granada, na Andaluzia, o
João de S. Fagundo—Agostiniano.
João Francisco Regis—Jesuita.
João Gualberto—Abbade.
João José da Cruz —Franciscano.
João Lucio.
João Marinonio.
João da Matta.
João— Martyr na Via Portuense.
João-—Martyr com seu pae, o tribuno S.
Marcellino, mãe e irmãos.
João—Um dos martyres do Japão, ulti-
mamente canonisados.
João—Martyr em Nicomedia.
João-—Martyr, filho do martyr S. Mar-
ciano.
João—Martyr em Africa, com Santo An-
dré e outros.
João-—Martyr em Cordova, sob o domi-
nio dos arabes.
João-—Martyr em Africa com S. Claudio
e outros.
João-—Martyr com S. Festo, na Toscana.
João-—Um dos 40 martyres de Sebasto,
no tempo de Licinio.
João —Martyr no tempo de Diocleciano.
João —Martyr em Carthago.
João —Martyr no Ponto.
João-—Martyr, filho de Santa Rufina.
João-—Murtyr em Africa.
João —Martyr tambem em Africa.
João-—Monge em Roma.
João -— Monge da Syria.
João Nepomuceno-—Presbytero, martyr
por guardar sigillo.
João I-Papa e martyr.
João II-Papa.
João de Parma-—Franciscano.
João —Irmão de S. Paulo, martyr.
João Penna-—Franciscano.
João Pennense—Bi-po.
João de Perugia—Martyr.
João do Pradó — Franciscano, martvr.
João—Presbytero, no governo de Julia-
no apostata.
João — Presbytero, martyr com S. Crispo,
imperando Diocleciano.
João—Presbytero de Rems.
João— Presbytero Reomarense.
João Silenciario.
João Thaumaturgo-—Bispo na Ásia, no
tempo de Leão Isaurico.
João Thoreste—Monge na Calabria.
João Turonense—Presbytero e confes-
sor.
de 1630, estando relacionado no numero
dos santos. Vol. 5.º, Monte Mór o Novo, pag.
494, 501 e seguintes.
João Godo—Era da Estremadura.
João Guarino—Era do Alemtejo. Vide
Santarem.
João de Lima—A que se dá este nome,
por ter sido eremita em um sitio muito ele-
vado junto do rio d'este nome, sendo um
ramo da serra de Labruja. Vol. 4.º, Lima,
pag. 95.
João Marcos — O corpo d'este santo
acha-se hoje no centro da egreja de S. Mar-
cos em Braga, para onde foi trasladado do
tumulo antigo em 27 d'Abril de 1718; e o
seu primeiro tumulo tambem está no altar-
mór, do lado do Evangelho. Foi bispo de
Braga e martyr. Vol. 1.º, Braga, pag. 440.
João do Porto—Era natural d'esta ci-
dade.
Jordão — Irmão de Santa Comba e de
Santa Anominata, sofireu o martyrio na per-
seguição de Diocleciano, Foi bispo de Evo-
ra, € tambem se venera na egreja parochial
dos Anjos, em Lisboa. Vol. 5.º, Mertola, pag.
193.
Julia—Irmã de S. Verissimo e Santa Ma-
xima, naturaes de Lisboa. Estando os ro-
manos senhores d'esta cidade, e ameaçando
os christãos que não apostatassem, foram os
tres irmãos apresentar-se voluntariamente
ao juiz e confessar sua fé. Esgotados os meios
brandos para os obrigar ao culto dos idolos,
passou aos de rigor, indo augmentando os
tormentos gradualmente até aos mais crueis,
e como a tudo resistissem com admiravel
firmeza, foram degolados, ficando seus cor-
pos insepultos, e como os animaes lhes não
tocassem, foram lançados ao mar, atados a
grandes pedras, para os christãos fhes não
colherem as relíquias, o que não obstou à
que viessem a terra, sendo sepultados pelos
fieis junto da praia, onde mais tarde lhes foi
edificada uma egreja, sendo trasladados para
logar mais decente no tempo de D. João II.
Vol. 2.º, Calvello, pag. 49; vol. 4.º, Lisboa,
pag. 248, 238 e1400; vol. 6.º, Pampulha, pag.
hh2.
626 SAN
“Julião —Nalural da antiga cidade de Aru-
citana, foi martyrisado com 27 companhei-
ros no dia 27 de janeiro de 95, governando
Domiciano. Vol. 3.º, S. Jorge d'Arcos, pag.
6149; vol. 5.º, Moura, pag. 569.
Julio—Vide Apodencio.
Julio—Foi martyrisado em Carthago, na
Africa. Vide Casta.
Largo—Foi martyrisado com outros na
perseguição de Nero, querendo uns que fos-
se em Britonia, e outros em Padua, quando
iam de viagem para Cezareia, na Capadocia.
Laurentim—Tio de S. Celerino, foi mar-
tyr. Vol. 3.º, Evora, pag. 108.
Leonardo—Era pastor na serra de San-
ta Comba, e foi morto pelo mouro Orelhão,
no sitio que tem o nome de 8. Leonardo.
Vol. 4.º, Lamas de Orelhão, pag. 91.
Leoncio—Arcebispoide Braga, de origem
oriental; tendo assistido ao concílio de Ni-
ceia, d'onde voltava para a sua diocese, fal-
leceu em Guimarães a 49 de Março de 325
Liberata—Tambem chamada Wilgeforte,
Vide Quileria. Vol. 1.º, Braga, pag. 442 e
vol. 7.º, Pombeiro, pag. 158.
Lourenço Mendes—Illustre por nasci-
mento, viveu no seculo xrtr, entregando-se
aos prazeres mundanos, até que tocado da
graça, entrou na ordem de S. Domingos, re-
sidindo no seu convento de Guimarães, on-
de se finou santamente em 27 de janeiro de
1280, sendo sepultado na capella de S. Tho-
maz. Vol. 5.º, Monte-junto, pag. 480.
Lucas—O mesmo que S. Lucio.
Lucencio—Abbade e depois bispo, man-
dado por S. Bento com 141 monges fundar o
convento de Lorvão, no 6.º seculo, o qual
no seculo xi passou a ser de freiras. Foi
elle o seu primeiro abbade, sendo depois
nomeado bispo de Coimbra, onde concorreu
para a extincção da heresia ariana,
Lucio—Soffreu na persegnição de Nero
o mariyrio com outros companheiros. Vol.
4.º, Britonia, pag. 494.
Luciolo—Vide Antigonio.
Lupercio—Vide Apodencio.
Luperco-Ii à mesmo que Lupercio.
Mafalda—Era filha de DB. Sancho 1, rei
de Portugal, e desposou D. Henrique I de
Castella, com quem não chegou a juntar-se,
SAN
porque o papa declarou nullo o seu mtri-
monio, por serem parentes em grau piohi-
bido, e voltando donzella para Portuga; foi
habitar o convento de Arouca, professindo
na presença dos bispos do Porto e Larrego.
Indo em romaria à Senhora da Silva, fille-
ceu em Rio Tinto a 2 de maio de 1250 e o
seu corpo jaz no dito convento, object de
summa veneração. Tinha nascido em Gvim-
bra em 11495, e esteve algum tempo em Lor-
vão'e Coimbra com suas irmãs Santa The-
reza e Santa Sancha. Outros dizem que nor-
reu no Porto, e que sendo seu corpo posto
em uma mula, sem a guiarem veio fer a
Arouca. Foi beatificada por Pio VI. Vide
Historia ecclesiastica da cidade e bispato de
Lamego, editada em 1878, pag. 222. Vol 1.º,
Arouca, pag. 238; vol. 3.º, Freita, pag. 290;
vol. 2.º, Costa, pag. 410; vol. 5.º, Moldes,
pag. 366; vol. 7.º, Porto, pag. 403 e 522, e
vol. 8.º, Rio Tinto, pag. 212, Rossas, pag. 215.
Mancio —Bispo d'Evora. Diz a lenda que
foi um dos discipulos de Jesus Christo, as-
sistindo à ceia. Vendo-o morto na cruz e
depois resuscitado, vendo-o subir aos céus e
estando no Cenaculo. Veio prégando a pa-
| lavra de Deus desde as Gallias até Evora,
onde foi preso, no logar chamado Cástra-
Moilina, e apresentado ao presidente Vali-
dio, e como recusasse sacrificar aos idolos,
soffreu com admiravel resignação todos os
tormentos até expirar em 21 de maio do
anno de 4106. Seculos depois foi seu corpo
achado incorrupto e mettido em um sepul-
chro de marmore, em uma herdade do con-
de Juliano e da matrona Julia, que alli man-
daram edificar uma egreja e uma torre em
sua honra. Vol. 3.º, Evora, pag. 108.
Manços—k o mesmo que S. Mancio. Vol.
3,º, Evora, pag. 108; vol. 4.º, Lisboa, pag.
218 e 267.
Mandalo—Vide Agathon.
Marcia— É a mesma que Santa Mar-
ciana.
Marcial—Era da provincia do Minho.
Marciana—Vide Santa Quiteria.
Marcilla—Vide Apodencio.
Margarida o mesmo que Marinha.
Margarida Fernandes — Era da pro-
vincia do Alemtejo.
SAN
Marianna—É o mesmo que Marciana.
Marina—Era transmontana.
Marinha-—Virgem, defendeu sua pureza
contra o presidente da provincia Olibrijo,
que por ella concebera fogosa paixão, pelo
que foi condemnadã ao fogo, e depois a ou-
tros tormentos, sendo alfim degolada, e dan-
do a sua cabeça tres saltos, como a de S.
Paulo. Vide Santa Quiteria. Vol. 1.º, Braga,
pag. 445; vol. 2.5, Costa, pag. 410; vol. 7.8,
Po.sbeiro, pag. 158.
Marinha—Nasceu na villa do Mogadou-
ro, e foi viver n'um sitio agreste e solitario
proximo da cidade de Salamanca, fazendo
vida santissima; e por sua morte alli se fun-
dou um convento de frades menores, onde
jaz o seu cadaver, fazendo -se-lhe uma festa
a 4 de maio. Vol. 5.º, Mogadouro, pag. 356.
Marino —Natural de Lisboa e de familia
ilustre, foi à Africa combater os erros dos
arianos e donatistas. Estava em Cesareia,
cidade da Mauritania, quando Juliano apos-
tata lhe mandou cortar a cabeça, por se re-
cusar a negar a divindade de Jesus Christo.
Martinha—É o mesmo que Marinha. Vi-
da Santa Quiteria.
Martinho—Víde Antigonio.
Martinho—Foi prior de Soure e filho de
Ayres Manuel e de Argira, tendo sido edu-
cado no convento de Santa Cruz de Coim-
bra, onde depois professou. Foi levado ca-
ptivo pelos mouros para Santarem, d'alli
para Evora, d'alli para Sevilha, e d'alli para
Cordova. Vol. 5.º, Marnel, pag. 90.
Martinho de Dume-—Era hungaro, e
veio a Hespanha converter os reis suevos,
que eram ariannos, o que conseguiu, con-
vertendo depois a corte, e o povo. Foi bispo
de Dume e depois de Braga, onde governou
20 annos, sempre coberto de cilícios. Tinha
visitado os logares santos, e havendo Ajax
propagado o arianismo na Hespanha, coa-
djuvado- pelo rei Theodomiro, foi então que
fez a conversão supra, tendo curado por mi-
lagre o filho do rei, que erigiu um mosteiro
da ordem cisterciense, em que o-santo foi
abbade. Sendo ainda bispo de Dume, cele-
brou-se o primeiro concilio bracharense, a
que assistiu, e sendo já bispo de Braga con-
vocou o “segundo, composto de 22 bispos,
SAN 627
onde se confirmou o primeiro, que havia
condemnado a heresia Presciliana.
Matrona—Virgem e martyr, filha de Re-
mismundo, rei dos suevos, foi martyrisada
com doze companheiros em 545. Vol. 4.º,
Braga, pag. 442.
Maxima—Vide Julia.
Maximo —Foi bispo de Britonia. Vol. 1.º,
Britonia, pag. 494.
Mendo—Era da provincia da Beira.
Narciso—Arcebispo de Braga. Era na-
tural de Santarem, converteu Santa Afra e
suas creadas, prégou o evangelho em Alle-
manha, e foi martyrisado em Gerona na Hes-
panha, na perseguição de Aureliano, em 227.
Narciso—Tambem foi martyr.
Neutel—l o mesmo que Eleuterio.
Odoario—Tendo D. Affonso, o Gasto, re-
tomado em 792 a cidade de Braga, que ha-
via sido conquistada e saqueada por Omar
em 762, encarregou o seu governo a este
| santo, então bizpo de Lugo, que reedificou o
templo e a cidade, até que falleceu em 15 .
de maio de 810.
Odon—É o mesmo que Adon ou Eudon.
Vol. 4.º, Lima, pag. 95.
Olimpio—Era contemporaneo de S. Gre-
gorio Nazianzeno, varão de muita sciencia é
virtudes, e que foi arcebispo de Toledo, ten-
do todavia nascido em Lisboa, e sendo mar-
tyrisado na Thracia, em 12 de junho. Vol.
4.º, Lisboa, pag. 305.:
Optato—Vide Apodencio.
Orencio— Vide Agathon.
Orencio—Vide Aquilina.
Ovidio—Arcebispo de Braga, baptisou
Santa Marinha e irmãs. Foi cidadão romano,
amigo de Seneca e de Maximo Ceronio, a
quem acompanhou no: desterro, e Marcial
lhe dedicou alguns epigrammas. Convertido
ao Christianismo, foi enviado por S. Clemen-
te à Hespanha, onde foi bispo de Tuy, e de-
pois arcebispo de Braga, achando-se na sé
d'esta cidade o seu tumulo. Vol. 2.º, Costa,
pag. 410.
Paio—Natural de Coimbra, da ordem
dos dominicos, cujo habito recebeu das
mãos do veneravel frei Soeiro Gomes, e foi
primeiro prior do mosteiro que de Monte-
Junto foi mudado para Santarem, e cujas
628 SAN
ruinas ainda hoje existem. Teve uma vida
exemplar, e foi grande orador sagrado. Vol.
5.º, Molledo, pag. 372, e Monte-Junto, pag.
h80. Vide Santarem. Sar
Paio—Viveu no reinado do rei suevo
Theodomiro, sendo sobrinho de Hermogio,
bispo de Tuy e de Nauste, bispo de Coimbra,
e foi martyrisado em Cordova. Não se sabe
so certo em que freguezia nasceu, e como
a Homero varias freguezias disputam essa
honra, e taes são Cunha, pretendendo que
seja oriundo da familia dos Cunhas—Labru-
ja, e Mollédo, todas ellas da provincia do
Minho. Vol. 2º, Cunha, pag. 458; vol. 4.º,
Labruja, pag. 7, e vol. 5.º, Molledo, pag. 372.
Paschasio—Foi discipulo de S. Marti-
nho de Dume e conego de Cedofeita. Vol.
5.º, S. Martinho de Cedofeita, pag. 104.
Paterno—Foi arcebispo de Braga, suc-
cessor de Pâncracio, e antecessor de Balco-
nio, celebrou um concilio provincial em Bra-
ga, a que assistiram os bispos de Agueda,
“Coimbra, Idanha, Porto, Lugo, Merida, La-
mego, Iria e Numancia, no qual se ordenou,
que cada um na sua diocese fizesse occul-
tar as sagradas imagens em sitios de que
ficasse memoria, para se encontrarem a to-
do o tempo. Vol. 6.º, Oliveira, pag. 257.
Paulo d'Azevedo—Religioso Francisca-
no, natural do Porto, converteu muitos gen-
tios na ilha de Santa Cruz e outras”partes
da America, e foi martyrisado em Colican,
na Asia, sendo achado depois o seu corpo
incorrupto, e respeitado pelas aves e ani-
maes e em seguida sepultado. Vol. 7.º, Por-
to, pag. 299.
Paulo de Bragança—Vide S. Jodo de
Bragança.
Paulo—Vide Casta.
Paulo—Vide Santo Isidoro.
Pedro Baptista—Missionando no Japão
no tempo de Filippe II, o imperador Tai-
consana, assustado das muitas conversões,
o fez morrer com mais 23 companheiros,
incluindo dous meninos e o japonez Mathias,
o que teve logar em 5 de Fevereiro de 1597, |
sendo beatificado pelo papa Urbano VIII '
em 144 de setembro de 1627.
Pedro da Guarda — Era da provincia
E ]
da Beira.
SAN
Pedro, Bispo de Lisboa —Foi 04.º bis-
po da mesma cidade no anno de 166.
Pedro de Rates — Arcebispo de Braga,
tinha sido ordenado bispo pelo apostolo S.
Thiago, e prégando o Evangelho e curando
de lepra a filha do rei por milagre, bapti-
sou-a e à rainha. Irritado o rei deu ordem
para a morte do santo, e sendo alcançado no
logar de Rates, a 4 leguas de Braga, foi
traspassado à espada na egreja, defronte do
altar. Está hoje na sé de Braga, sendo tras
ladado pelo arcebispo D. Balthazar Limpo
em 1552. Vol, 1.º Braga, pag. 434 e seguin-
tes. Vol. 2.º Coimbra, pag. 318. Vol. 5.º Mi-
ragaia, pag. 244. Vol. 7.º Porto, pag. 463, e
Vol. 8.º pag. 55.
Pedro d'Alcantara — Foi um santo pe-
nitente que habitou a serra de Cezimbra.
Vol. 2.º Cezrimbra, pag. 263.
Pedro Negles — Era da Extremadura.
Pedro Fernandes — Professo no con-
vento de Nossa Senhora das Neves de Alem-
quer, da qual passou para Santarem, onde
foi mestre de theologia, florescendo em San-
tidade e sciencia, sendo assim transferido
para Samora, onde falleceu a 22 de junho
de 1255. D'elle foi amigo e chronista S. Frei
Gil.
Pelagia — Nasceu em Bragança, sendo
martyrisada a 23 de março do anno de 300,
imperando Diocleciano, vol. 4.º Bragança,
pag. 485.
Pelagio — É o mesmo que Paio.
Pia—Vide Casta.
Placido — Em 11 de outubro de 66 foi
martyrisado em Lisboa com S. Gens e San-
to Anastacio. Vol. 4 º Lisboa, pag. 228.
Polycárpo—Foi arcebispo de Braga é
martyrisado em 26 de janeiro de 130.
Potamio—Bispo de Braga, assistiu ao 8.º
concilio de Toledo em 652 e ao 10,º em 6:56.
Tendo commettido um peccado de impure-
za, foi tal o seu arrependimento, que se pri-
vou a si mesmo da dignidade episcopal, e
apresentando-se ao concilio de Toledo, con-
fessou a sua culpa, e exigiu que este o de-
puzesse, 'o que a muito custo conseguiu,
sendo substituido por S. Fructuoso, e pias-
sando o resto da vida nas mais acerbas pe-
- nitencias.
SAN
Primitivo — Vide Apodencio.
Primitivo — Foi martyrisado em Brito:
pia no tempo de Nero, no anno de-66, com
outros companheiros. Vol. 4.º Britonia, pag,
495.
Prisso — Vide Agathon.
Profuturo — Fundou o 4.º convento de
conegos regrantes de Santo Agostinho na
Sé de Braga, pelos annos de 490 ou 500,
sendo arcebispo d'esta cidade e discipulo
de Santo Agostinho, vol. 4.º Lusitania, pag.
487.
Provilengo — É o mesmo que Trovi-
lengo.
Publio — Vide Apodencio.
Quintiliano — Vide Apodencio.
Quinto — Vide Antigonio.
Quiriolo — Vide Antigonio.
Quiteria — Alemtejana, foi martyrisada
em Montemór-o-Novo, sendo precipitada em
um pégo com uma mó de moinho, e foi eri-
gida em padroeira desta villa. Vol. 5.º Mon-
temór-o-Novo, pag. 499 e 501.
- Quiteria — Ella e suas irmãs Genebra,
Eufemia, Victoria, Mariana ou Marciana,
Germana, Marinha, Basilia e Liberata, ou
Wilgeforte, eram filhas de um só parto de
Calcia e seu marido Lucio Caio Atilio, o
qual as mandou affogar, e vindo à noticia
de Santo Ovidio, arcebispo de Braga, as ba-
ptisou e mandou crear e instruir occulta-
mente. Todas foram virgens, e sendo leva-
das à presença de seu pae, que as não co-
nhecia, dizendo serem suas filhas e christãs,
não quiz reconhecel-as, o que todavia fez
gua mãe, que as livrou dos tormentos a que
seu pae as condemnava-por serem christãs.
Mais tarde todas morreram martyres, e 0
martyrio de Santa Quiteria foi em 430, ou
fosse junto de Coimbra ou junto de Mon-
temór-o-Novo (no que ha divergencia de
opiniões), perecendo ás mãos de um man-
cebo que a requestava para casar, e que
ella repelliu por ter feito voto de casti-
dade
Raymundo — Era da villa de Medelim,
na Beira Baixa e pastor de gado, que mor-
reu em 5 de abril do anno 900, Vol. 5.º Me-
delim pag. 154.
Receswinto—Era dalprovincia do Minho.
VOLUME VII
SAN 629
Remisol — Bispo de Vizeu no: tempo dos
suevos. Como: se: oppozesse, à heresia de
Ario, o rei Leovigildo.o depoz e desterrou,
morrendo no exilio, cheio de dôr por se ver
substituido, por um intruso.
Restituto — Era cidadão romano, amigo
de Juvenal e Marcial, o qual tendo-se con-
vertido, e vindo prégar a fé christã à Hes-
panha, juntamente com S. Chrispulo, no im-
perio de Nero, foram martyrisados em Aguas
Gelenas, na Lusitania. Vol. 4.º Aguas Cele-
nas, pag. 32, vol. 2.º Fão pag. 138.
Revocata — Foi martyrisada pelos mau
ritanos, em Vianna do Minho, em 260. Vol.
4.º Britonia, pag. 495.
Rodesendo — É o mesmo que Rosendo.
Rolando — Foi um dos enviados por 8.
Bernardo a Portugal, e um dos fundado-
res do mosteiro de S. João de Tarouca, pro-
ximo a Mondim da Beira, e ahi teve morte
santa-em 26 de maio de 1180.
“Romão — Nasceu em França e morreu
em Portugal em um mosteiro por elle fun-
dado. A sua cabeça estã na egreja matriz
de. Pauoias do. Alemtejo, guardada, em um
relicario de prata, e o.corpo na capella de
S. Romão. Vol. 6.º Ourique, Pag- 341, e Pa.
noias pag. 443.
Romeu — Era eremita, e 08 seus ossos
estão no convento de Santa Maria de Re-
foios, sendo opinião commum que falleceu
em 41 de Abril de 1446.
Romulo —Era da provincia da Extremas
dura e foi martyrisado com 86 companheis
ros.
Rosendo ou Rodesendo — Era neto: ada
Hermenegildo, conde da cidade do Porto, é
foi senhor de quasi toda a terra de Entre
Douro e Minho, grande guerreiro contra: os
mouros e capitão general de seu parente 0
rei D. Affonso Magno. Foi filho de. D. Go-
therre Arias e Ilduara ou Aldara, illustre
senhora portugueza, muito religiosa, resi-
dente na villa de Sallas ao pé de: Monte
Corvo, e irmão de Santa Adosinda, Sua mãe,
sendo esteril, pediu fervorosamente a seus
um filho, o qual lhe concedeu Rosendo em
26 de novembro de 907. Este, desprezando
jogos pueris, deu-se logo aos exercicios de
piedáde, e ordenou-se aos 28 annos, sendo
40
630 SAN
elevado a prior de Caveiro na diocese de
Compostella, e depois successivamente a
bispo de Mondonhedo, de Compostella e: de
Dume. Fundou o mosteiro de Cella Nova,
junto ao Rio Lima, onde acabou seus dias
no 4.º de março de 967, por ter renunciado
ao bispado, e jaz na capella de S. João Ba-
ptista do dito mosteiro. Foi beatificado por
Alexandre HI, contando-se delle muitos mi.
lagres. Vol. 3.º S. Fins, pag. 199, e Freixo
de E-pada à Cinta, pag. 234, vol. 5.º, Mon-
te Cordova, ' Pag. 474, vol. 7.º, Porto, Pag,
516.
Sabina — Vid. Cristetta e Vicente.
Salvador — Era natural de Panoias dê
Tráz-os-Montes, o qual fundou um grande
mosteiro benedictino a 40 kilometros' de
Mertola em 630. Vol. 5.º Mertola, pag. 192.
Sancha — Filha de 'D. Sancho I e dá
rainha D. Dúlce, não quiz casar, nem ainda
com S. Fernando, rei de Hespanha, que a
pretendia. Teve a honra de receber em seus
paços de Alemquer os Santos Martyres de
Marrocos; é fundando um mosteiro' da or-
dem de Cister, em Gellas de Coimbra, ahi
professou e viveu entregue à penitencia,
Sua irmã Santa Thereza, professa em Lor-:
vão, assistiu-lhe à morte em 43 de março
de 1229, e transportou-lhe o cadaver para
aquelle convento. Innocencio XIJ auctori-
sou 0 seu culto e Clemente XI a beatificou
por decreto de 13 de' setembro de 1704, e
por outro de 13 de setembro de 1709: per-
miltiu que se resasse das duas irmãs em
todo o reino. Seu irmão D. Affonso havia-
lhe disputado a villa de Alemquer dada por
seu pae, mas houve composição por inter-
venção do papa Innocêncio III. Vol. 4.º Lis-
boa, pag. 383. Lorvão, pag. 449, “vol. 5.º
Montemór-o-Vélho, pag. 509.
SRA, Estes quatro santos foram.
Saturnino
Saturnino martyrisados quando acom-
anhavam Santa Engracia-
Saturnino Pu IB E
Vide Eogracia, e Apodencio.
Saturnino — Vide Casta.
Saturnino — Foi martyrisado na perse-
guição de Valeriano, em Vianna do' ipod
em 260.
Secundiano — Era da Exhremndira!
SAN
Secundino —É o mesmo que Secun-
diano.
Senhorinha-— Era filha de D. Ufo Ufes, da
familia dos Sousas, hoje condes do Redondo:
nascida em 924, em Basto, segundo uns e em
Attei, segundo outros. Querendo seu pae ca-
sal-a com um principe da casa real de Leão,
recusou-se, indo professar no mosteiro de
Vieira, da ordem de S. Bento, onde era abba-
dessa sua tia D. Rodina, por morte da qual
lhe succedeu no cargo, tendo aviso divino
da sua morta, que teve logar em 22 de abril
de 982, na'edade de 58 annos. Vol. 1.º, Basto
pag. 347.
Seráfina — Natural de Monção, foi con-
vertida pelo apostolo S. Thiago, e de'gen-
tia tornou-se ardente christã até à sua mor-
te em 29 de julho do anno 75. Vol. 5.ºMon-
são, pag. 423.
Silvano — Bispo e martyr, portuguez,
nasceu em 303, da familia dos Silvas, e foi
morrer à Palestina, onde prégava, na perse-
guição de Maximiano.
Silvestre — Bispo de Braga é martyr,
foi degolado na presença do proconsul Ser-
gio, por haver confessado a sua fé, éter
sepultado o martyr S. Victor, junto do qual
se lhe deu sepultura. Vol. 1.º Braga, pag.
4h2,
Sisnando — É o mesmo que Sizenando,
Sisnando — Bispo do Porto, combateu
contra os mouros com grande valor, até
que, querendo seguir vida mais penitente,
deixou o regimen do bispado, no qual ha-
via succedido a D. Nonego, e professou no
convento de Villa Boa do Bispo, no Marcio
de Canavezes. Estando a dizer missa na ta-
pella de S. Salvador, em 1074, foi morto pe-
los sarracenos, quando já revestido com os
habitos sagrados, e sendo sepultado na ér-
mida, foi depois trasladado para o mosteiro,
que hoje é propriedade particular, e ainda
ahi se lê o seu epitaphio.
' Sizenando — Viveu no seculo VIII, e oii
o quarto bispo de Beja no tempo dos goraA,
vol. 1.º Beja. pag. 360.
Soeiro Gomes — Foi o primeiro pila
dor da ordem de S. Domingos nºeste reino,
e o primeiro provincial das províncias de
Aragão, Castella e Portugal. Viveu algunis
SAN
amos com os mais religiosos na ermida de
Nessa Senhora das Neves, e d'alli sahiam a
pregar a religião pela Extremadura e Alem-
te. Dizem uns que falleceu em 4226, e
ouros em 14233. Vol. 3.º Guimarães, pag.
367 e vol. 5.º Monte-Juato pag. 479.
Successo — Vide Apodencio.
Sunesso — Vide Casta.
Suzanna — Vide Torquato.
Syla — Natural de Braga, é venerada em
um convento da sua invocação, perto de
Thomar sobre o rio Nabão. Serviu de par-
teira a Calcia, mãe de Santa Quiteria e das
outras oito irmãs, a quem salvou da ordem
barbara do pae, que as mandava affogar.
Vol. 7.º Pombeiro pag. 158.
Thadeu — Era natural de Lisboa, pré-
gou nas Canarias e passou à Barbaria, on-
de visitava os captivos e lhes administrava
os sacramentos. Morreu na cidade de Ta-
gaste, e alli se conserva o seu corpo, que
até dos mouros attrahe a veneração e se
lhe attribuem muitos milagres.
Teixelina — Natural de Fraxede, perto
de Santa Combadão, na provincia da Beira,
floresceu no tempo dos godos e sobre o seu
tumulo foi edificada uma egreja, destruida
depois pelos mouros. No convento de Lor-
vão conserva-se viva a sua memoria.
Theodofredo — Bispo de Vizeu. Vide
Tionio.
Theodora — Virgem, foi martyrisada
em Roma no anno de 132, sob o imperio de
Adriano; o seu corpo veio para o convento
de Santa Clara de Pinhel, em 4620, por vir-
tude de um breve de Paulo V, que conce-
deu varias indulgencias aos visitantes da
egreja do dito: mosteiro no 4.º de abril,
dia da sua festividade. Vol. 7.º Pinhel,
pag. 86.
Theodoro — Viveu nos fins do seculo 1 II
e principios do IV, e tendo servido com
valor nos exercitos imperiaes, retirou-se
para um ermo, onde morreu no meio de
asperas penitencias. Vol. 5.º Medelim, pag.
154.
Theodosia — Natural de Bragança, foi
martyrisada a 23 de março de 300, sob o
imperio de Diocleciano. Vol. 4.º Bragança,
pag. 485.
SAN 631
Theofilo — Foi martyrisado no tempo
de Valeriano, na cidade de Vianna,no anno
de 260. Vol. 4.º Britonia, pag. 495.
Theotonio — Natural de Tuy, na Galliza,
filho de Oveto e Eugenia, vindo a Coimbra
recommendado a seu tio o bispo Cresconio,
teve por mestre o arcediago Tello. Foi ab-
bade da egreja de Vizeu, e nomeado prior
da egreja de Coimbra, e sendo instado para
acceitar a mitra d'esta cidade, entregou o
priorado a seu companheiro Honorio, e fu-
giu para a Terra Santa. Voltando, foi im-
possivel resolvel-o a retomar o seu cargo,
e menos acceitar a mitra, apesar dos rogos
de D. Henrique e D. Thereza, que o tinham
em grande estima, mas a quem elle não
adulava, e tanto assim que estando um sab-
bado para dizer missa, e mandando-lhe D.
Thereza recommendar por um pagem que
a dissesse depressa, respondeu: — Dize à
rainha que no ceu ha outra rainha melhor
e mais nobre que ella, para a qual me pre-
parei a celebrar esta mysterio, e que ella
póde esperar; senão que se vá embo-
ra. —D. Mafalda e D. Affonso Henriques
vinham pedir a benção de joelhos a es-
te santo, que nunca perdeu a pureza vir-
ginal, apesar de viver 80 annos, sendo-
lhe annunciada a morte em visão ce-
leste, assistindo o rei às suas exequias.
Foi elle que edificou o mosteiro de Santa
Cruz, entrando para elle com 11 compa-
nheiros em 1132, sendo papa Innocencio II.
Vol. 2.º Coimbra, pag. 326 e seguintes, vol.
3.º Ganfei, pag. 258. Alguns entendem que
nasceu na Aldeia de Tardinhade, freguezia
de Ganfei. Vide Tardinhade. |
Thereza — Filha do rei D. Sancho I e
da rainha D. Dulce, foi ternamente amada
por seu avô D. Affonso Henriques. Casou
com D. Affonso IX: de Leão, mas annullado
o casamento por Innocencio III, voltou a
Portugal, professando no mosteiro de Lor-
vão, em 24 de dezembro de 1200. Sua vir-
tude attingiu a maior perfeição, e finando-
se em 17 de junho de 1250, foi beatificada
por Clemente XI, e d'ella resa Portugal.
Vide Santa Sancha, vol. 4.º Lisboa, pag. 383,
Lorvão, pag. 442. Vol. 5.º Montemór-o-Ve-
lho, pag. 309.
632 SAN
Thereza — Era uma mulher pobre em
teres e só opulenta em virtudes, mormente
na caridade. Entre outros milagres fez o
seguinte. Tentando um ladrão invadir lhe a
casa, e ficando-lhe a mão presa à chave,
orou por elle e logo ella se lhe desprendeu.
Morreu em 3 de setembro de 1266, é con-
servou-se a sua cabeça em Ourem em uma
urna de prata até ao terramoto de 1755.
Vol. 6.º Ourem, pag. 326.
Torpez — Era cavalleiro da côrte de Nero,
e descoberto como christão, foi condemna-
do às feras; e porque um leão e um tigre
não quizeram tocar-lhe, foi morto à espada,
é o corpo mettido em um barco com um
cão, um gato e um gallo, como se fazia aos
parricidas. Aportou este a Sines, onde Ce-
brina o sepultou, e foi encontrado o seu
cadaver em 1595 por D. Theotonio de Bra-
gança, arcebispo de Evora. Vol. 3.º Evora,
pag. 108.
Torquato — O governador Sergio quiz
dissuadir da sua crença a virgem Suzana,
tocado pela sua belleza, e não o conseguin-
do, mandou-a degolar juntamente com S.
Cuculate e S. Torquato, e as reliquias de
todos tres estão parte, em Compostela e
parte na egreja do Populo dé Braga (na
qual cidade teve logar o martyrio), onds fo-
ram collocadas pelo arcebispo D. Agostinho
de Castro.
Torquato — Consta ter sido bispo de
Citania. Vol. 2.º Citania, pag. 308.
Torquato Felix — Foi arcipreste de To-
ledo, bispo em Iria Flava e depois no-Porto,
sendo preconisado arcebispo de Braga pe-
la transferencia para Sevilha do arcebispo
Faustino; Mario, chefe dos serracenos, a
quem exprobrou a sua tyrannia, mandou-o
martyrisar com 27 companheiros, todos ci-
dadãos de Braga, em 26 de fevereiro de
719.
Tortulla — Vide Antigonio.
Tysiphon — Foi discipulo do apostolo
S. Thiago, e dizem muitos que'foi o primei-
ro que prégou o evangelho em Beja, vol. 1.º
Beja, pag. 362. -
Urbano — Vide Apodencio.
Urso — Foi o 2.º bispo de Beja. Vol. 1.º
Beja, pag. 360.
SAN
Valentim — Foi bispo em Britonia. Vol.
1.º Britonia, pag. 494.
Wamba—Dizem que nasceu em Idanhra
Velha, na Beira Baixa, chegando à goverrar
como-rei tóda a Hespanha com grande piedade
e illustração, até que, abandonando voluna-
riamente o: throno, morreu frade em wm
convento da Lusitania, em 20 de janeiro de
672, sendo mudado para a egreja de Sarta
Leocadia de Toledo em 1284, no reinado de
Affonso 0 sabio, tomando parte na traslada-
ção D. João Martins, bispo de Cadix e de-
pois da Guarda, vol. 1.º Briteiros, pag. 91
é 492 e vol. 3.º Idanha a Velha pag. 378.º
Varão — Parece ser o mesmo que S.
Barão. Vide vol. 5.º Mertola pag. 191. Vide
S. Barão.
Verissimo — Irmão das santas Maxima
e Julia, e indo todos tres apresentar-se 20
juiz em Lisboa, donde eram naturaes, e
confessando-lhe à sua fé, procurou por
meios brandos fazel-os apostatar, e não O
conseguindo, depois de os atormentar por
um modo gradual, os mandou degolar; mas
ficando seus corpos insepultos, e não lhes
tocando os animaes, foram lançados ao mar
atados a grandes pedras, vindo porém à
terra, foi-lhes edificada uma egreja junto da
praia, e ahi sepultados os seus cadaveres,
que em tempo de D. João 2.º foram trasla-
dados para Lisboa.
Vicencio — Era do Alemtejo.
Vicente — Vide Aquilina.
Vicente — É o patrono de Lisboa e mui-
to festejado no Porto, onde existem parte
das suas reliquias. *O presidente Daciano
veio da Hespanha a Evora, e ordenou a pri-
são geral de todos os christãos.
Trouxeram-lhe então o joven Vicente, que
interrogado respondeu adorar a Jesus Chris-
to, e seguindo-se um dialogo entre os dois,
terminou por sentença de Daciano, para
que sacrificasse a Jupiter ou fosse morto à
tormentos. Fugiu então a pedido de suas
irmás Santa Sabina e Santa Cristetta, mas
descoberto por um traidor, foram os tres
mortos a tormentos. Vol. 3.º Evora, pag.
415.
Vicente — Nascido na freguezia de S.
Nicolau de Lisboa, foi sepultado no mostei-
SAN
ro do Bemfica, tendo sido religioso domini-
co, provincial da sua ordem em toda a
Hespanha, inquisidor geral e confessor de
D. João T. Vol. 4.º Lisboa, pag. 301.
victor — Sob o imperio de Diocleciano
e Maximiano, e sendo governador de Hes-
panha, o cruel Daciano, havia no arrabalde
de Braga um templo dos idolos, e como Vi-
ctor, apenas cathecúmeno, recusasse sacri-
ficar-lhes, foi levado preso ao presidente, e
declarando ser christão e adorar unicamen-
te a Jesus Christo, foi despido, açoutado,
barbaramente atormentado e por fim dego-
lado no dia 42 de abril, tendo assim o ba-
ptismo de sangue. Vol. 1.º Braga, pag. 442.
Vide Aquilina.
Victoria — Vide Quiteria, vol. 1.º Braga,
pag. 442, vol. 5.º Montemór-o-Novo, pag.
h9k e vol. 7.º Pombeiro, pag. 158.
Vidal — Vide Agathon.
Vilforte ou Vilgeforte — É a mesma
que Liberata. Vide Santa Quiteria.
Wilgeforte — Foi martyrisada em Cas-
tello Branco, e é differente de Santa Libe-
rata. Vol. 2.º Castello Branco, pag. 173.
Xantipa — Era da provincia da Beira.
SANTULHÃO — freguezia, Tras-os-Mon-
tes, concelho de Vimioso, comarca de Mi-
SAN 633
randa (foi do extincto concelho do Outeiro)
30 kilometros de Miranda, 470 ao N. de
Lisboa, 160 fogos.
Em 1787 tinha 150 fogos.
Orago S. Julião.
Bispado e districto administrativo de Bra-
gança.
Um dos conegos da Sé de Miranda apre-
sentava O cura, que tinha 88000 réis de
congrua e o pé de altar.
Foi commenda da ordem de Malta, que
lhe deu foral, em Leça do Bailio, a 4 de ju-
lho de 1288. (Livro 1.º de Doações do rei
D. Diniz, folhas 234 verso, col. 2.2 in princi-
pio.)
N'este foral se lhe dá o titulo de villa.
O seu nome actual é corrupção ou con-
tracção de S. Julião.
É povoação muito antiga, pois já existia
antes da fundação de Bragança.
Quando D. Sancho I fundou esta cidade
(1185) com o nome de Bemquerença, era O
territorio em que assenta a povoação e seus
arrabaldes do mosteiro de Castro d'Ave-
lans, e o rei deu aos frades, em troca des-
tas terras, as villas de Santulhão e Pinelo.
É terra fertil emecereaes e cria muito ga
do de toda a qualidade.
FIM DO OITAVO VOLUME
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